  

MAGAZINE CEN / Setembro 2012
Tema: "CINEMA"
Pág. 2 de 12 Págs.

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Patricia
Dantas
de Lima
João
Pessoa -
PB |
|
|
Bailarina
de Vidro
A
personagem
estampada
na caixa
de
tintas
misturadas
a sutil
bailarina
escondida
Quisera
ser
ouvida
degustada
com
sabor
amor
mas a
alma
Cantava
sofregamente
como um
rio
triste
sem cais
desvairadamente
A caixa
já não
podia
ser
aberta
ou
espiada
pois
seus pés
de vidro
já não
rodopiavam
Patricia
Dantas
de Lima |
|

|
Entre
a boemia
e o
regaço
das ruas
Patricia
Dantas
de Lima
Será
que eles
haveriam
de ser
tão
sentimentais
ou
boêmios
quanto
pareciam?
talvez o
fossem!
um,
sentado
à
calçada
de um
dos mais
renomados
bancos
da
cidade,
cabisbaixo,
maltratado
pelas
manchas
do tempo
em sua
pele. já
o outro,
cantava
uma
música
que mais
parecia
versos
saídos
de sua
boca.
mera
convenção
natural
e
habitual
da vida
contemporânea.
esta,
que de
tão
realista,
rasga a
pele,
porém,
não
sentimos
o sangue
das
feridas
correr
por
sobre o
peito,
muito
menos o
cheiro
morno
rançoso
do
líquido
vital.
Mas,
pela
primeira
vez na
vida, vi
o
antagonismo
entre
dois
corpos
que
beiram
este
absurdo
que é a
vida.
sim,
absurdo
de
fomes,
mentiras,
desencontros,
fracassos.
essa foi
a
aparência
real do
que vi,
talvez
não
fosse a
hora,
mas
senti o
calafrio
da velha
carne
rançosa
habitando
em mim,
pois
saberia
que
haveria
de ser
escrita
uma
história
da pele
que anda
nua.
Como
parte de
um mundo
povoado
por
humanos
famintos,
sinto a
suprema
necessidade.
alguns
poderiam
perguntar:
necessidade
de quê?
ora, de
mudança!
responderia
eu, sem
titubear.
mas,
para
isso, os
corações
dos
homens
não
poderiam
continuar
os
mesmos,
com suas
carapaças
embutidas,
superficiais
e
trêmulas,
pois,
diante,
de
necessidades
maiores,
seus
mundos
de
pedras
em alto
relevo,
mais
parecem
castelinhos
de areia
movediça.
Sinto um
reboliço
estranho
quando
me
deparo
com
seres
assim.
seria
acaso do
destino
uma
sorte
tão
traçada,
ouvir
uma
música
em pleno
meio-dia
de um
inverno
mascarado?
mas, de
uma voz
sôfrega,
confusa,
doentia,
enfim,
com
todas as
armadilhas
cortantes
deste
sentimento
que os
humanos
denominam,
miseravelmente,
de amor?
Não falo
só da
música,
mas do
estado
passivo
em que
se
encontrava
o outro,
como
assim o
posso
denominar,
com a
face
ligeiramente
recostada
ao
joelho.
pobre
miserável,
pensei!
fizera-se
caricata
do amor
que o
outro
cantara
ao ar
livre, e
prisioneiro
para
sempre
da musa
que
sequer o
visitara
em suas
noites
de
embriaguez.
Assim os
ouso
imaginar,
a partir
de um
diálogo
morno,
fluido,
sutil,
embelezado
pelas
peripécias
dos
amantes
embriagados
das
ruas,
que
outrora,
já
disseram:
"-
sentimental
eu sou,
eu sou
demais!"
Patricia
Dantas
de Lima |
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|
Tito
Olívio
Faro -
Portugal |
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Matiné
no
Monumental
Era uma
manhã
soalheira
de
domingo,
quando
começava
a
perder-se
a
lembrança
da
guerra,
que,
entretanto,
trouxera
para a
vida do
cidadão
comum
diversas
novidades
de ordem
técnica,
que
aumentaram
o seu
conforto
e o seu
bem-estar.
Uma
delas
era a
“gilette”
com que
eu
estava
fazendo
a barba
a um
espelho
com
moldura
de
madeira
pintada
a
purpurina,
fingindo
folha de
ouro.
Anos
antes,
ao
sobressaírem
no meu
rosto
demasiados
pelos,
meu pai
ofereceu-me
uma
navalha
de
barbeiro,
a que me
ajeitei
com
bastante
facilidade.
A
invenção
daquela
reduzida
maquineta,
onde se
punha
uma
finíssima
lâmina,
fizera
do
barbear
um ato
praticamente
inofensivo.
Ainda
não
entrara
o verão
e as
moscas
já
dançavam
de roda
no ar,
alimentando-se
de algo
que
nunca
consegui
descobrir.
Estava
quase a
terminar
a minha
tarefa
diária
de rapar
as
faces, o
queixo e
o
pescoço,
e
apareceu-me
o meu
amigo
Jordão,
todo
pinoca
no seu
fato e
gravata.
A partir
dos
catorze
anos,
era
exigido
aos
alunos
do liceu
que
passassem
a
vestir-se
à homem.
Não me
lembro
do nome
dele. Na
nossa
sociedade
lusitana,
as
raparigas
sempre
foram
tratadas
pelo seu
nome,
enquanto
os
rapazes,
na sua
maioria,
eram
conhecidos
pelo
apelido.
- Já
estás
pronto?
Estranhamente,
eu ainda
estava
de
pijama e
aquela
pergunta
de
circunstância
não
podia
deixar
de me
parecer
despropositada.
Respondi:
- Falta
pouco.
Vou-me
vestir.
Quando
regressei,
ele
estava
sentado
na sala
e a
seguir
saímos
de casa.
Havia um
jardim
ao cimo
da rua,
onde o
nosso
grupo
costumava
juntar-se
para ir
a
qualquer
lado, ou
permanecer
a
conversar.
Havia
muitos
bancos
livres
àquela
hora. Só
depois
do
almoço
as
pessoas
do
bairro
apareciam
para
passar a
tarde. O
prato
forte
dos
adultos
era a
banda de
música,
que
tocava
no
coreto,
enquanto
as
crianças
brincavam
em
grupos,
em
regime
de
separação
de
sexos.
Os
vendedores
ambulantes
repartiam
o espaço
para as
suas
vendas,
uns com
cestos,
outros
com
carrinhos
empurrados
à mão ou
movidos
por uma
metade
traseira
de
bicicleta,
contendo
os
pedais.
Muito
útil era
o
chafariz,
já não
com o
antigo
púcaro
de folha
preso
por uma
corrente,
por onde
todos
bebiam,
mas com
um
repuxo
que
abria e
fechava
por uma
alavanca
lateral.
Ali
passei
grande
parte
das
minhas
horas de
ócio,
desde
menino
de
calção
com
alças
até à
idade de
cumprir
o
serviço
militar
obrigatório,
altura
em que a
família
se mudou
para a
zona da
Avenida
de Roma.
- Que
fazes
hoje? –
Perguntou
o
Jordão.
- Vou ao
cinema
com a
Luísa.
- Aonde?
- Ao
Monumental
ver o
“Americano
em
Paris”,
com o
Gene
Kelly. A
música é
de
George
Gershwin.
- Já não
há
bilhetes
–
informou
ele,
satisfeito
por
estar a
ver-me
livre.
- Fui
com ela
comprá-los
no
princípio
da
semana.
- Se já
tens
bilhetes,
eu vou
contigo!
- Não
pode
ser. Eu
prometi
ir
buscá-la
às três
da
tarde.
Havia de
ser
bonito!
Ela toda
arrumadinha
para ir
ao
cinema e
eu a ir
contigo…
- Mas
não vês
que esse
filme de
danças
não é
para
ela?
Eu não
podia
deixar
de lhe
dar
razão. O
filme
vinha
com uma
grande
fama de
qualidade,
mas era
para
gente
mais
instruída,
mais
habituada
a coisas
da
cultura.
Nós
éramos
estudantes
universitários
e a
rapariga
trabalhava
como
cabeleireira
de
senhoras,
sem mais
estudos
que a
instrução
primária,
que era
o ensino
obrigatório
da
época. A
partir
daí, a
quase
totalidade
das
pessoas
entrava
para o
mundo do
trabalho
e não
tornava
a ler um
livro,
nem a
escrever
algo que
não
fosse
uma
carta.
Desde
que o
mundo é
mundo, a
cultura
sempre
foi para
as
classes
privilegiadas
e mais
ricas. A
grande
prioridade
dos
pobres é
a
subsistência.
Eu
preferia
ir com
ele e
lembrei-me
de que a
Luísa me
fazia
esperar
por ela
na rua
todas as
vezes
que a ia
buscar a
casa.
Nunca
percebi
o que a
empatava
sistematicamente,
por
vezes
durante
meia
hora.
Então,
disse ao
Jordão
que eu
tinha
avisado
a Luísa
que só
esperava
por ela
até um
quarto
para as
três,
porque
não
deixavam
entrar
ninguém
na sala
de
espetáculos
depois
de ter
começado
a correr
o filme.
Isso,
dado o
mau
hábito
dela,
constituía
uma
quase
certa
oportunidade
para ele
ir
comigo.
Uns
cinco
minutos
antes do
limite
fixado,
toquei à
campainha
do
quinto
andar
sem
elevador,
enquanto
o meu
amigo
aguardava
do outro
lado da
rua. Mal
o
ponteiro
caiu no
número
nove,
ambos
acelerámos
o passo,
a
caminho
do
Monumental,
que
ficava
logo ali
no cimo
da rua,
na Praça
Duque de
Saldanha.
Decorrida
a
primeira
parte,
no
intervalo,
fomos
até ao
salão de
fumo,
onde se
situava
o bar,
embora
nenhum
de nós
fosse
fumador.
Estávamos
no
segundo
balcão,
onde os
bilhetes
eram
mais
baratos.
Aquele
salão
não era
mais do
que um
bastante
largo
corredor
de
acesso à
sala de
cinema,
no topo
das
escadas.
Dado o
toque
para o
reinício
da
sessão,
as
pessoas
aglomeraram-se
à
entrada
para a
sala de
cinema e
foram
entrando,
em fila
indiana,
que mais
não
permitia
o
corredor
da
primeira
fila.
Como não
éramos
fumadores,
fomos
dos
primeiros
a
entrar.
Então,
entalados
entre os
de trás
e os da
frente,
deparei
com a
Luísa em
frente
da coxia
central,
acompanhada
de um
arrumador
fardado,
ambos
encostados
ao
gradeamento
do
corredor,
voltados
para a
extensa
bancada,
à minha
procura.
Fiquei
gelado,
perante
a
iminência
de um
grande
escândalo
no meio
de toda
aquela
gente.
Quis o
azar que
os
nossos
lugares
não
ficassem
do lado
da
entrada,
pois
teríamos
subido
pela
coxia
lateral
sem
sermos
vistos.
Ficavam
do lado
de lá,
sendo
inevitável
ter de
passar
por ela.
A
pressão
da fila
não
permitia
que
recuássemos
e
tivemos
de ir
andando.
O meu
anjo da
guarda
mais uma
vez veio
em meu
auxílio.
A Luísa,
vendo a
fila de
pessoas
a
aproximar-se,
por
instinto
feminino,
virou-se,
para lhe
passarem
por
trás,
defendendo
os seios
de
possíveis
encostos.
Assim,
de
costas,
não nos
viu
passar e
retomámos
os
nossos
lugares.
Quando
todos
tinham
passado,
ela
voltou-se
de novo
para a
bancada
e com a
ajuda do
arrumador,
procurou
vislumbrar
um lugar
vazio,
que
estaria
à espera
dela.
Sentado,
com as
mãos a
disfarçar
o rosto,
aguardei
angustiado
que as
luzes se
apagassem,
o que me
pareceu
demorar
um
século.
Pedia a
todos os
santinhos
que
viesse
depressa
o escuro
para ela
se ir
embora.
A Luísa
nunca
soube
que eu
tinha
ido
acompanhado.
Tito
Olívio |
|

|
Varenka
de
Fátima
Araújo
Salvador
BA
Brasil |
|
|
|
Cinema
Quando
escrevo
sobre
cinema é
realmente
bacana e
impressionante.
O
costume
era
perfeitamente
correto
na
década
de mil
novecentos
e
sessenta,
setenta
e
oitenta.
Gostava
das
telas do
cine:
Excelso
que
ficava
na Praça
da
Sé,Cine
Bahia na
rua
Carlos
Gomes e
o Tamoio
localizado
na rua
Rui
Barbosa
que
ficavam
no
centro
de
Salvador.Os
cine:Tupi,
Astro,Jandaia,Roma
e outros
que
ficavam
em
bairros
não
conheci.Alguns
deles
foram
extintos.
Jamais
esquecerei
um
episodio,
minha
prima
Fátima
chegou
do
Maranhão
e fomos
assistir
o
filme;”
Esqueceram
de
mim”,no
cine
Tamoio,vestidas
do
famoso
tubinho
que
delineava
nosso
corpo,compramos
pipocas
e nos
dirigimos
para a
sala que
não
estava
lotada,sentamos
na
quinta
fila, a
cadeira
do meu
lado
sentou
um
rapaz,não
dei
atenção.O
filme
começou,eu
gargalhava
com às
travessuras
que o
menino.que
fora
esquecido
pelos
pais no
natal,se
defendia
dos
ladrões
que o
perseguiam.É
provável
que o
rapaz
que
estava
ao meu
lado
queria
uma
namorada,de
repente
sentia
perna
dele
deslizar
na
minha,fiquei
quieta,outra
investida,então
pisei no
seu
sapato
,ele
sorriu e
passou
novamente
sua
perna,
reagi e
disse em
voz
decrescente:
Você é
um
asqueroso
e
derramei
às
pipocas
na
cabeça
do
engraçado,
a luz
acendeu
tinha
terminado
o filme.
Minha
prima
perguntou:"
Quanta
pipoca
no
chão?"Respondi,
vamos
embora,
foi um
gesto
encantador!Minha
prima
sorriu,
no
percurso
para
casa
contei o
ocorrido.
Varenka
de
Fátima
Araújo |
|

|
Paulo
Roberto
de
Oliveira
Caruso
Niterói
- RJ
Brasil |
|
|
|
Nós
dois e o
telão
As luzes
naturais
haviam
sido
deixadas
lá fora.
Adentramos
nós dois
o cinema
querido.
Um
presente
precioso
de
Thomas
Edison
nos
conduziu
através
de
meandros
iluminados
até o
balcão
para
comprarmos
os
ingressos.
A mesma
energia
artificial
e
artificiosa
permitiu
que o
caixa
eletrônico
funcionasse,
processando
nossos
pedidos
após o
pagamento.
Seguimos
a uma
grandiosa
loja de
departamentos
com o
fito
delicioso
de
comprarmos
guloseimas
como
adolescentes
namorados
que
acabaram
de
receber
sua
mesada.
Por
conseguinte,
dirigimo-nos
à sala
de
exibição.
O brilho
em
nossos
olhos
poderia
guerrear
contra
as
trevas
que nos
cobriam
com seu
véu.
Sim, o
brilho
da
alegria
ante o
telão
poderia
cegar as
próprias
trevas
indispensáveis
a esta
magistral
arte!
Porém,
preferimos
ser só
mais um
casal
ante a
arte
alheia
reproduzida
com
maestria.
Aos
poucos o
lanche
terminou.
Aos
poucos o
filme se
acabou.
Dirigimo-nos
para
casa
faustosos
por mais
uma bela
sessão
de
cinema,
mas mais
felizes
por
estarmos
lá
juntos.
Paulo
Roberto
de
Oliveira
Caruso |
|

Livro de Visitas
  
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