MAGAZINE CEN / Setembro 2012
Tema: "CINEMA"
 
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Berenice Guedes
Pelotas/ RS - Brasil

O Cine Tabajara...


Éramos tão jovens, nós os dois!... Estávamos no final da década de 1960: eu ainda era quase uma menina na ingenuidade de meus 15 anos, nascida e criada em uma pequena cidade do interior, onde as influências dos fatos modernos que se introduziram no mundo a partir de 1960 ainda não haviam chegado. Ele, cinco anos velho do que eu...
Eu o conhecera três anos antes, no tempo em que usava uma longa trança negra... Naquela ocasião eu estava sentada à beira de um canteiro, em um roseiral que havia na casa dos meus tios. Eu tinha vindo do interior, passar com eles as férias de Verão, que já estavam quase no fim. Eu lia um soneto de Camões: “Sete anos de pastor Jacó servia...” Encantada, estava como hipnotizada pela beleza dos dois últimos versos do soneto: “... Mais servira se não fora / para tão longo Amor tão curta a vida...” E pensava: Ah! Como eu queria um Amor assim!... Um Amor para toda a Vida!... Um único Amor...
Nem percebi que minha tia havia entrado no jardim e estava ao meu lado. Levei um susto quando ouvi sua voz dizendo:
- Menina, “acorda”! Quero te apresentar o filho de meu irmão, o meu sobrinho Antonio!
Voltei-me para ela e meus olhos foram atraídos para outros olhos! Junto a ela estava um rapaz alto, magro, com o cabelo da cor dos trigais maduros e os olhos mais lindos que eu já havia visto, com cílios longos e bem curvados. Um olhar tão doce... E os olhos eram castanhos da cor do mel nos favos prontos... Fiquei extasiada, olhando, muda!...
- Minha filha, acorda! Por onde anda o teu pensamento?!
Timidamente, estendi a mão para cumprimentar, sem conseguir dizer uma só palavra!
- Minha filha, pode beijar o Antonio! Ele é como se fosse teu primo! – sim, porque ela era a esposa do irmão mais velho de meu pai.
Um beijo no rosto, um aperto de mão... E eu completamente trêmula e sem conseguir falar...
Após esse vexame, com meu rosto vermelho como as rosas do jardim, continuei quieta...
Mas tive certeza, naquele instante, que esse seria o homem da minha vida, o meu único amor... Para ele eu aplicaria a frase perfeita de Camões: “para tão longo amor, tão curta a vida”! Não era por acaso que eu estava lendo um dos mais belos sonetos da Literatura Portuguesa quando o conheci...
Não o vi mais...
Dois anos se passaram! Mas eu não esquecia aqueles olhos profundos, intensos, feiticeiros. Tinha certeza de que o amaria por todos os dias de minha vida!
Agora, dois anos depois, eu havia voltado à casa de meus tios. Ficaria apenas uma semana. Como eu pedi a Deus para que o encontrasse novamente! E o encontrei...
Minha mãe tinha ido comigo. E minha mãe tinha encantos por ir ao cinema! A mágica sala escura onde, na grande tela, as imagens e as histórias se desenvolviam era uma das coisas que ela mais gostava! Também, não posso esquecer que seu primeiro contato com o cinema tinha sido no tempo do cinema mudo! E as imagens com som e música, as cores, a tela grande, tudo a fascinava!
Chegamos na casa de meu tio na sexta-feira e, no sábado, estava eu outra vez no roseiral a ler quando ele chegou, devagarzinho... Estava mais maduro... E eu já não era mais uma menininha!
- Oi! – ele me disse.
Fiquei da cor das rosas!
- Oi... – respondi. Não houve beijos no rosto nem apertos de mão. Sentou à beira do canteiro, do meu lado, mas a uma educada distância.
- O que estás lendo? Poesias? –
Ele lembrava que, quando nós nos conhecemos eu estava lendo poesias! Então ele também tinha reparado em mim!
- Sim. Estou lendo Fernando Pessoa! –
- Também gosto de poesias... –
E um silêncio enorme se fez. Mas nossos olhos se encontraram, luminosos, falando coisas que os lábios, naquele momento, não falariam...
Pouco depois minha mãe e tia entram no roseiral que ficava ao lado da casa, onde havia grandes e altos canteiros bem cuidados, onde se podia sentar tranquilamente.
- Minha filha, hoje à noite, vamos ao cinema? –
- Sim, mas qual filme está passando? –
Antes que minha mãe falasse, Antonio me olhou com seus olhos brilhantes e disse:
- Há uma estreia de um filme italiano, no Cine Tabajara, que possui músicas muito lindas! –
Minha mãe era apaixonada por cinema e por músicas! A tia disse então à minha mãe:
- Cunhada, deixa o Antonio levar vocês! Aqui, andar à noite é um pouco perigoso. Nada melhor que ir acompanhada por um rapaz.
E assim foi. Anoitecia quando saímos de casa. Antonio, muito educado, deixou que minha mãe ficasse no lado de dentro da calçada e eu, logicamente no meio e ele do meu lado! Minha mãe conversava com ele sobre o progresso que havia na cidade. Eu não conseguia falar... Mal respirava, mas minha respiração estava ofegante e meu coração batia descompassadamente...
Ao chegarmos ao cinema, quando minha mãe tirou o dinheiro para pagar a entrada, ele disse:
- Não se preocupe! Deixe que eu pago!
Minha mãe insistiu! Ele, educadamente, disse:
- Pague então só a sua! A minha e a da Andréa eu pago!
Minha mãe is insistir novamente, mas ele falou de forma tão incisiva que minha mãe concordou.
Entramos. O cinema era belíssimo! Enfeitado com cortinas de veludo vermelho, um tapete também vermelho e as poltronas da mesma cor, acolchoadas e macias. Havia lustres de bronze lindos, que pareciam trabalhados a mão. A mãe entrou na fila de cadeiras, depois eu e, naturalmente, ele...
Minha mãe perguntou por que eu estava “tão quietinha”. Disse apenas, num fio de voz:
- Nada!...
Um som de carrilhão anunciava que o filme iria começar. Apagaram-se as luzes...
Eu me virei para ele e perguntei:
- Como é mesmo o nome do filme?
Aqueles olhos lindos brilharam no lusco-fusco do cinema e com sua voz, que despertava em mim estranhas sensações, que eu antes nunca havia sentido, disse-me docemente, olhando bem dentro dos meus olhos e quase em um sussurro:
- “Dio, come ti amo”...
As cenas do filme sucediam-se, mas nós continuávamos nos olhando, carinhosamente, como se um magnetismo não deixasse que nossos olhos se afastassem um do outro...
Minha mãe me deu um leve puxão:
- Andréa, o filme já começou!
Envergonhada, olhei para frente, enquanto uma mão muito carinhosa procurava a minha, e a segurava docemente, mas de modo firme e decidido, como se dizendo: “És minha”...
O filme era romântico, com músicas lindas (tão diferentes das que fazem sucesso hoje em dia!) e contava uma bela história de Amor...
Durante o filme, várias vezes, uma voz amada, que me fazia estremecer de felicidade, sussurrava ao meu ouvido:
- Dio, come ti amo... Dio, come ti amo...
Em lágrimas estávamos, minha mãe e eu quando o filme terminou. E ele estava também com os olhos úmidos...
Quando as luzes acenderam, quis tirar minha mão da dele, mas ele não soltou a minha mão!
Minha mãe me olhou, com um olhar severo, e disse apenas:
- Andréa!...
Mas a mão continuava aconchegando a minha e ele olhou para minha mãe de um jeito tão terno, que minha mãe disfarçou um sorriso e fingiu não ver...
E durante os dias que se seguiram, ele conversava com minha mãe, dizia a ela o que pretendia fazer depois de formado, o quanto valorizava a Família, e, que logo que se formasse pretendia casar e constituir família. Minha mãe ficou encantada com a conversa do Antonio. Achou-o muito maduro e sensato para um jovem da sua idade. Mas, desde o cinema, minha mãe não tirava os olhos de mim e sempre que o Antonio chegava, ela se fazia presença constante... (Ah! Como tudo era diferente dos tempos de agora!...)
Nós dois conversávamos muito e a mãe fazia parte da conversa... (Como eu queria ficar a sós com ele!) Mas minha mãe, “cuidadosa”, “zelava pela sua filha”... E sempre estava junto! Em poucos momentos ele pode tomar minhas mãos nas suas dali para a frente...
Pouco antes de voltarmos para casa, pedi à minha mãe para irmos ao cinema. Estava passando Dr. Jivago. E era no Cine Tabajara!...
Fomos com ele. As cenas na bilheteria se repetiram. Sentamos mais ou menos no mesmo lugar, no meio da fileira de poltronas e no meio do cinema.
Quando o filme começou, esperava que ele segurasse minha mão, mas o que senti foi um abraço delicado: ele havia colocado o braço por cima da cadeira e segurava meu ombro, do lado oposto, carinhosamente...
Minha mãe “não se deu conta”!... Ela simpatizava com ele, já me havia dito. Mais de uma vez senti seu rosto sussurrando ao meu ouvido, “Dio, come ti amo”!...
Quando voltamos, minha mãe disse a ele:
- Antonio tu tens de ir à nossa cidade e falar com meu marido sobre esse “namoro” de vocês e pedir licença a ele! Por mim não tenho nada contra! Mas ela tem pai!...
- Sim - disse ele – certamente eu irei! E eu vou te escrever logo, logo!
- E eu vou te escrever todos os dias!...
Seis meses se passaram e nenhuma carta eu recebi. Seis anos... O tempo foi passando devagar. Nenhuma carta...
Nunca mais voltei à casa de meus tios. Quando eles vinham nos visitar nunca se referiram a ele. Nunca eu perguntei o que havia acontecido... Ah! Essa minha timidez!... E, além de tudo, os tempos eram outros...
Quarenta anos se passaram. Meus tios e meus pais haviam falecido. Eu estava aposentada e resolvi, um dia, voltar à cidade onde meus tios haviam morado. Pela internet reservei uma suíte em um Hotel.
Ao chegar, vi que a cidade não era mais a mesma! Grandes edifícios, muito movimento, o Centro Histórico da cidade preservado, onde nem os carros podiam mais trafegar para não abalar os vetustos prédios.
Não era mais o tempo dos cinemas, para tristeza minha e de todos os amantes da Sétima Arte. Os DVDs haviam engolido a magia que só os cinemas têm. Quantas vezes, na minha cidadezinha, eu havia ido ao cinema e chorado, chorado muito, do início ao fim dos filmes, mesmo que nada houvesse que racionalmente motivasse o choro... Na cidade dos meus tios agora havia apenas um cinema no centro da cidade, com três salas de Projeção. Mas eu não quis ir ao cinema: aqueles não eram o “meu” cinema: o “meu” cinema era o Tabajara, o mais bonito, que não ficava bem no centro da cidade, mas numa bela Avenida, um pouco mais retirada do centro.
Uma tarde, no terceiro dia em que ali estava, resolvi ir caminhando até o local onde eu tinha ido há mais de quarenta anos com minha mãe e com Antonio, meu único Amor, o Amor da minha vida e que jamais esqueci. O que teria hoje no majestoso cinema?! Seria uma grande Loja? Seria um edifício, como hoje o que existia no local da casa onde moravam meus tios? Doeu-me o coração quando lá passei... E como teriam terminado com o roseiral?!
Quando meus tios faleceram, eu fui à única da Família que não fui ao enterro. Na época, eu ainda não tinha estrutura para voltar até lá... Meus pais foram, mas eu nada perguntei. Eles também nada falaram. Havia me tornado uma mulher triste, quieta, onde um sorriso de Monalisa não saia dos meus lábios, mas uma mulher onde os olhos não possuíam brilho algum...
Deixei meu carro no estacionamento do Hotel e fui caminhando até lá. Revivendo cada momento da minha juventude... Lágrimas escorriam de meus olhos por trás dos óculos de sombra... Foi um longo caminho...
Qual não foi a minha surpresa, quando, em lá chegando, encontrei no local do vetusto cinema, um terreno com Bancas de Camelôs, sem qualquer organização, que destoavam do restante da Avenida. Estranhei. Um enorme terreno, em Avenida hoje central, sem que sido aproveitado para uma construção maior?! Em uma cidade em que, cada palmo, era disputado pelo Comércio e negociado a peso de ouro?!
Estarrecida, sentei em um barzinho que havia por ali, desses frequentados pelos jovens de hoje e pedi uma água mineral. Meu pensamento andava longe...
Quando fui ao Caixa, pagar, perguntei à moça que ali atendia se ela sabia o que havia acontecido no local onde havia sido o Cine Tabajara. Ela respondeu que não sabia, nem sabia que ali havia existido um cinema! Mas, no fim da quadra, existia um sapateiro que já era idoso e que, segundo lhe parecia, trabalhava no local a muitos anos.
Agradeci. Fui até lá. Era uma enorme sapataria, moderna, que fazia e forrava sapatos para festas. Mas vi apenas jovens atendendo e trabalhando. Entrei e perguntei se ainda existia um sapateiro idoso, por ali.
Um dos rapazes, muito atencioso, disse:
- Senhora, boa tarde! O proprietário é o meu avô. Será que é ele que a senhora procura?
Respondi que sim. O rapaz disse que iria chamá-lo, pois residiam no fundo da Loja, ele, seus pais, sua irmã e seu avô.
Esperei um pouco e logo veio um velho senhor, com belos olhos azuis, ainda forte e bem disposto.
- A senhora queria falar comigo? Mas eu não a conheço, senhora.
Identifiquei-me e disse que há muito não vinha até aquela cidade, mas que lembrava que, onde estavam as Bancas dos Camelôs havia, no passado, um belo cinema, o mais bonito da cidade, o Tabajara. E se ele sabia o que havia acontecido com o cinema.
- A senhora não soube?! Pois foi uma das maiores tragédias desta cidade! Faz cerca de quarenta anos!
Empalideci. Senti que o sangue me faltava no cérebro.
O velho senhor me trouxe um copo d’água, me fez entrar até sua bela residência que ficava nos fundos da Sapataria, separada desta, por coincidência por uma belo roseiral.
- Está melhor? –
- Sim – respondi.
- Pois, como eu estava falando, no dia 1º de março de 1970, logo após passarem o filme do Dr. Jivago, voltaram a passar um filme italiano, muito bonito para a época e que havia feito no Tabajara sua estreia. Era o filme “Dio, come ti amo” com a Gigliola Cinguetti. O público jovem da época, que não havia assistido ao filme na estreia, na semana anterior, lotou o cinema! Pois não é que, na metade do filme, não se sabe bem como, começou um incêndio rápido e de grande monta! O cinema era muito lindo, mas não tinha sido aparelhado para uma saída de emergência para tanta gente!! E foi um horror! De repente, com o povo querendo sair aos empurrões, o teto desabou e matou quase todas as pessoas que lá estavam! Tinha até um jovem que eu conhecia e que morava aqui perto; ele era estudante de Medicina, o Antonio de Santiago de Compostella! Ele era um ótimo rapaz, vinha seguido trazer serviço para mim e ficava horas conversando comigo, quando não estava estudando! Seus pais moravam no interior e ele morava numa Pensão aqui perto! Tinha tios e tudo aqui na cidade! Nas horas de folga, quando não estava aqui conversando comigo, estava na casa dos tios! Pois não é que o rapaz faleceu!!
Tudo ficou escuro. Quando abri os olhos estava no sofá da casa do velho senhor e uma moça esfregava álcool nos meus pulsos, enquanto outra passava um pano úmido em minha testa e o senhor dizia nervoso:
- Senhora! Senhora! Acorde! Vou mandar chamar o SAMU! Chamem! Rápido!
- Não! Não precisa. Foi o calor. Eu vim a pé do centro e foi o calor... –
Agradeci e saí, como um autômato! Quando cheguei à porta da Sapataria vi o meu belo e amado Cine Tabajara, belo, luminoso como na primeira noite em que fui lá, com um enorme cartaz do filme “Dio, come ti amo”!...
E vinha em direção a mim o meu Antonio amado, jovem, belo e sorridente! Chegando perto de mim, me abraçou e disse:
- Minha Flor! Por que demoraste?! Eu estava te esperando...
E, abraçados, entramos no cinema...

Berenice Guedes

 

Lauro Kisielewicz
Ponta Grossa - Paraná - Brasil

Cinema


Resultado da luz em projeção,
Sobre fina película transparente
Contendo fotos às centenas,
E nos “Longa”, aos milhares;
Prendia do povo os olhares
Atentos olhando para frente,
Fixos nas telas dos cinemas…
Nem todos porém assim agiam,
No escurinho, alguns preferiam
Ainda que mui rapidamente,
Trocar afagos e carícias,
Desfrutando de delícias,
Pelas emoções que sentiam…

Logo que iniciava as sessões,
O povo se acomodava atento,
Ao que na tela era projetado,
Pela luz saída da “Janelinha”;
Enquanto vigiava o “Lanterninha”
Flagrando algo exagerado,
E no preciso momento,
Chamava-lhes as atenções
“Deixem dessa sem vergonhice,
Respeitem as pessoas de bem
E não afrontem a ninguém
Pelas chamas das paixões;
Não criem nenhum dilema,
Para os casais “cinquentões”
Que estão neste cinema
E não aturam essas doidices…

Lauro Kisielewicz

 

 

António Furtado da Rosa
Ponta Delgada - Açores - Portugal

A Magia de Ringo


Numa noite agreste de janeiro, o vento gélido fustigava, inclemente, os rostos curtidos e enrugados dos dois velhos pescadores. Todavia, esse facto não os demovia, e dirigiam-se ao Cine Teatro Açor para assistirem a mais uma “fita”, como diziam, algo que faziam frequentemente e quase religiosamente. Há muito que o Ti Manuel e o Ti João se tinham rendido à fantasia do Cinema, aos seus heróis e aos seus vilões, aos seus dramas e às suas comédias, aos seus encantos e aos seus desencantos, o Cinema para eles era, sobretudo, um escape às duras fainas numa luta contínua contra o Atlântico, por vezes benevolente e generoso, mas muitas vezes duro e implacável.
Depois de comprarem o bilhete, sentaram-se sensivelmente a meia da plateia e ajustaram-se nas cadeiras de madeira, à sua volta, os mais jovens esperavam com notória agitação o início do filme, pois tratava-se do último filme de “Gringo”, assim era conhecido a estrela do western italiano Giuliano Gemma, ator que levava jovens e menos jovens em catadupa às salas de cinema pelo mundo fora. O Velho Manuel, que tal como o seu velho amigo João, não sabia ler, já tinha visto os cartazes e reconhecido o herói da “fita”, mas não sabia o título.
- Sabes o nome do filme, João?
- Não. – Respondeu o João.
João virou-se para a fila de trás e perguntou a um jovem que roía uma fava torrada com determinação:
- Ó rapaz, como se chama o filme?
- O “Regresso de Ringo”. – Respondeu o rapaz rapidamente com a fava quase a saltar-lhe da boca.
Subitamente ouviu-se uma campainha e algumas luzes apagaram-se, a excitação aumentou, ia dar-se início à magia…
Terminado o genérico inicial, Gemma (Ringo) aparece no ecrã, e logo se deu a primeira explosão de alegria a compasso de algumas palmas…
- Ele está louro desta vez. - Murmurou o Manuel
- Não faz mal. Logo que ele dê umas punhadas…
Poucos minutos depois Ringo disparava e matava dois mexicanos com ar suspeito, para gáudio da plateia.
- Começa bem. – Comentou o João.
Os minutos passavam enquanto Manuel e João, incapazes de lerem as legendas, tentavam perceber o enredo entre lutas e tiroteios. Os bons e os maus já estavam bem identificados. O filme era um western italiano vagamente baseado na “Odisseia” de Homero, Ringo era Ulisses e quando regressa da guerra, encontra a sua mulher, Hally (Penélope), subjugada ao domínio de Paco Fuentes, o chefe dos bandidos. Manuel, tentando perceber o enredo lá perguntou ao amigo:
- Afinal, a sujeita é irmã dele ou a mulher?
João encolheu os ombros e redarguiu:
- Acho que é a mulher.
- O sujeito meteu-se com a mulher do outro? Isso não é pecado?
- Só se o marido descobre.
Riram-se baixinho, enquanto o herói mastigava um pedaço de carne levantado do chão. O vilão cometia a suprema heresia de humilhar o herói. Os espetadores, em plena empatia com o herói, desejavam que este respondesse na mesma moeda, mas ainda era cedo, o herói teria passar ainda mais umas provações antes de retaliar e lá seguia em frente sem escutar os apelos da plateia.
- João, sabes o que eu fazia àquele bandido?
- O quê?
- Arrancava-lhe as bolas com um arpão!
- E era bem feito.
A magia continuou, seguindo as peripécias do herói que lutou e reconquistou tudo o que lhe pertencia para satisfação geral. As Luzes acenderam-se, debaixo de aplausos, era assim vivido e celebrado o cinema nos anos 70 do século passado, no cinema da minha terra.
O Ti Manuel e o Ti João saíram do cinema em silêncio a caminho de casa, para eles, a magia seria substituída pelas agruras da vida real, uma vida dura, mas durante algum tempo, sentiram-se heróis de uma história que também era deles…

António Furtado da Rosa
http://westerneuropeu.blogspot.pt/

 

 

Ana Isabel Rosa
Ponta Delgada - Açores - Portugal

Cinema Reflexo da Alma


Cinema,
Mundo de ficção,
Resguardado numa tela
Enlaçado na esperança
Vivido no coração,
Como um sonho de criança.
Nas rédeas do saber
Fica a garantia,
Que nesta tela com vida
O cinema é um paraíso.
Pelas vidas expostas
No silêncio,
Na escuridão,
No movimento,
Na luz.
Dando vida a esta arte deliciosa,
Autêntica magia que tanto seduz!

Ana Isabel Rosa

Livro de Visitas