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Matou o
Amante e
Foi ao
Cinema
Geraldine
era
vizinha
de porta
de
Valdirene.
Fã de
cinema,
orgulhava-se
de seu
nome ser
o mesmo
que o da
filha de
Charles
Chaplin,
um
mestre,
como
dizia.
Desde
pequena,
pela mão
do pai,
Geraldine
ia
assistir
as
sessões
de
domingo.
O
dinheiro
era
sagrado
para o
ingresso.
O pai
tinha
uma
verdadeira
paixão
pelos
grandes
diretores:
Chaplin,
Fellini,
Visconti,
De Sicca
e a
fazia
observar
cada
cena,
cada
close,
cada
sombra.
Geraldine
cresceu
e junto
com ela
a paixão
pela
telona.
Com
idade
para
arranjar
emprego
depois
de sua
formação
em
datilografia,
com
diploma
de
mérito,
arranjou
colocação
em um
escritório
de
advocacia
no
centro
da
capital,
bem
perto do
Cine
Ritz.
Ah, mas
que
achado!
A sessão
das
moças,
às
terças-feiras
eram
imperdíveis,
com
aqueles
filmes
açucarados,
os
musicais
da Metro
com
Doris
Day,
Gene
Kelly,
Debbie
Reynolds,
Fred
Astaire...Adorava.
No
escritório,
no outro
dia,
sempre
que
tinha
folga
puxava
conversa
com as
amigas e
o
assunto
primeiro
era
cinema.
De tanto
falar,
algumas
já nem
davam
bola,
pois
Geraldine
estava,
no dizer
delas,
ficando
muito
chata
com
aquela
história
de dar a
ficha
técnica
do filme
que
havia
assistido.
E se
afastavam.
Geraldine
foi
ficando
solitária
com sua
paixão.
Confidenciava
com
Valdirene
suas
desditas.
Valdirene
não
entendia
uma só
palavra
da
amiga,
mas boa
ouvinte,
na falta
de ter o
que
fazer,
ouvia a
amiga
declinar
aqueles
nomes
esquisitos
de
enrolar
a
língua.
Geraldine,
após a
morte do
pai
alugara
o
apartamento
ao lado
do de
Valdirene
e ali
vivia
sozinha.
Gostava
da amiga
tão
sofrida
com
aqueles
três
filhos e
mais um
a
caminho
e se
conformando
com a
frase
“Deus
quer,
Geraldine,
tenho
que
aceitar”.
“Mas
pelo
amor de
Deus,
Valdirene,
és tu
que
dormes
com o
Otávio,
não é
Deus.
Usa
preservativo,
poxa!”
Que
nada! De
dois em
dois
anos,
mais uma
barriga
cheia.
Sempre
que
podia
Geraldine
comprava
um mimo
para a
amiga,
ora uma
meia de
seda,
ora uma
écharpe
para que
ela não
perdesse
o brilho
feminino.
Valdirene
também
gostava
muito de
Geraldine
e
procurava
entre os
amigos
de
Otávio,
alguém
para
fisgar o
coração
solitário
da
amiga.
“Deixa,
Val, eu
tenho
Errol
Flynn,
Robert
Taylor,
Rock
Hudson.
Eles me
amparam”.
“Mas,
por
Cristo,
Geraldine,
eles nem
sabem
que tu
existes!
Arranja
um
homem,
já é
tempo!”E,
um belo
dia,
aconteceu.
Ela
estava
na fila
da
sessão
das
moças –
iria
passar
Assim
caminha
a
Humanidade,
com Rock
Hudson e
Elizabeth
Taylor –
e ela
sentiu
aquele
olhar em
todo seu
corpo.
Sentiu
um
arrepio
percorrer
toda sua
espinha
e
retribuiu
o olhar.
Comprou
o
ingresso,
subiu as
escadas
do Ritz
(gostava
de
assistir
os
filmes
na parte
de cima,
não
sabia
porque).
Sentou-se
em uma
fileira
com
poucos
lugares
ocupados
e o dono
daquele
olhar
penetrante
pediu
licença
e
sentou-se
ao seu
lado.
Geraldine
sentiu
as
pernas
tremerem.
O jovem
–
chamava-se
Alberto
– puxou
conversa.
Disse
que já a
estava
observando
há
tempos,
mas que
ela não
havia
percebido
até
aquele
dia.
Geraldine
concordou
e o papo
continuou
até o
início
do
filme.
E o
namoro
aconteceu.
E muitas
sessões
de
cinema.
Ele
mudou-se
para o
apartamento
dela.
Com o
tempo,
de tanto
Geraldine
falar –
com
conhecimento
de causa
pois
estudava
cada
filme,
comprava
revistas,
fazia
coleção
de
recortes
de
jornais
e fotos
autografadas,
discos
de
trilhas
sonoras
–
Alberto
começou
a se
irritar.
E
Geraldine
não
perdia
um filme
novo.
Alberto
não
tinha
como
pagar
sempre
os
ingressos,
mas
Geraldine
não se
importava,
ela
pagava
pelos
dois, já
que
tinha
sido
promovida
chefe do
setor no
escritório
de
advocacia,
ganhando
bem.
Alberto,
machista
como ele
só, não
gostava
que
Geraldine
pagasse
os
ingressos,
mas
homem
apaixonado
agüenta
os
caprichos
da
amada.
Até que
um dia a
coisa
pegou.
Alberto
irritava-se
freqüentemente
e
começou
a podar
as
saídas
de
Geraldine
para o
cinema.
Ela
simplesmente
respondia
“não
queres
ir, vou
sozinha;
já estou
acostumada”.
Sempre
havia
uma
discussão
e
Geraldine
saía.
Certa
ocasião,
Geraldine
ousou
dizer “o
apartamento
é meu,
os
incomodados
que se
mudem”.
Bastou
esta
frase e
a mão de
Alberto
em seu
rosto
foi
imediata.
Geraldine
não
esboçou
reação.
Levantou-se
e mesmo
com o
rosto
inchado,
cobriu o
machucado
com
maquiagem
e saiu.
Afinal,
era dia
da
estréia
de
Ben-Hur
e ela
jamais
havia
perdido
uma
estréia
em sua
vida.
No
retorno,
encontrou
o
apartamento
bagunçado.
Por
vingança,
Alberto
havia
destruído
o álbum
de
recortes,
as fotos
de Rock
Hudson
(mais de
uma)
todas
rasgadas,
as
revistas
sem
capas,
enfim,
uma
bagunça
total.
Alberto
só
voltou
ao
apartamento
às duas
da
madrugada,
bêbado
como um
gambá.
Esperava
uma
reação
da
amante e
estava
preparado,
mas
encontrou
a casa
em ordem
com os
recortes
colados,
as
revistas
em seus
lugares,
as fotos
novamente
em seus
álbuns e
Geraldine
calmamente
lendo
Cahiers
du
Cinèma,
como se
nada
houvesse
acontecido.
Lendo
estava,
lendo
ficou.
Alberto
se jogou
na cama
do jeito
que
estava.
Na manhã
seguinte
–
terça-feira
–
Geraldine
saiu
para o
trabalho
(Alberto
de há
muito
havia
perdido
o seu na
loja de
ferragens)
e deixou
um
bilhete
“hoje
virei
almoçar
em
casa”.
Alberto,
perto de
11 horas
acordou-se
e
começou
o
almoço,
coisa
que
vinha
fazendo
desde o
desemprego.
Antes
abriu
umas
cervejas.
Geraldine
chegou
calma,
tranqüila,
beijou
Alberto
e
almoçou.
Elogiou
o
cozinheiro
e disse
que
tinha
tempo,
iria
lavar a
louça,
que ele
fosse
descansar,
escutar
as
notícias
no
rádio.
Assim
Alberto
fez,
certo de
que sua
atitude
tinha
revelado
que quem
mandava
em casa
era ele.
Ouvindo
o rádio
e com o
efeito
das
cervejas
do
almoço e
resquícios
do porre
da noite
anterior,
Alberto
adormeceu.
Para
nunca
mais
acordar.
Geraldine,
sem dó
nem
piedade,
cravou-lhe
um
punhal
no peito
que foi
fatal.
Geraldine
observou
o corpo
sem vida
do
amante,
mas não
se
abalou.
Arrumou-se
calmamente,
fechou o
apê e
saiu.
Afinal,
era dia
da
sessão
das
moças e
Marlene
Dietrich
estaria
brilhando
na tela
em
Testemunha
de
Acusação.
Depois
viria o
que
fazer
com o
corpo.
Maura
Soares |