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AS
MARAVILHAS
DO
CINEMA
Naquela
semana
não
queria
pensar
mais em
trabalho,
ou em
outras
preocupações,
mas,
antes,
em
responder
ao
anunciado
no Cine
Victória:
o grande
filme de
Tarzan.
Seu
patrão
tinha-lhe
dado um
bom
prémio,
e
naquela
semana
podia
dar-se
ao luxo
de
comprar
uma
plateia
para a
sessão
de
domingo
à tarde.
Fez
anunciar
a sua
intenção
no seio
de
amigos e
lá por
casa foi
dizendo
que
gostava
de ir ao
cinema.
Mas,
chegado
o
domingo,
não
falou
mais no
assunto,
pelo
receio
de lhe
perguntarem
com que
dinheiro
comprava
o
bilhete
de
entrada.
Então,
pelas
três e
meia da
tarde,
lá foi
ver uma
personagem
criada
por
Edgar
Rice
Burroughs,
que
apareceu
pela
primeira
vez no
romance
em 1912.
O
primeiro
filme de
Tarzan
surgiu
em 1919.
O mais
famoso
Tarzan
no
cinema
foi o
nadador
americano
Johnny
Weissmuller
que, ao
lado de
Maureen
O’Sullivan,
como
Jane,
estrelou
numa
série de
filmes,
a partir
de 1932.
A
História
de
Tarzan é
a de uma
criança
criada
por uma
macaca,
após a
morte de
seus
pais.
Tarzan
acredita
ser um
macaco e
sofre
por ser
diferente
dos
outros.
O rapaz
sabia
que na
verdade
um dos
maiores
dramas
da
humanidade
era ter
que
viver
com as
diferenças,
mas são
também
as
diferenças
que
fazem a
razão da
vida!
Então
ele viu
na tela
que,
depois
de
Tarzan
matar o
líder
dos
macacos,
que
havia
matado
sua mãe
adoptiva,
o herói
tornara-se
líder da
tribo de
macacos.
Com o
tempo,
acabava
por
descobrir
ser um
homem,
quando
então
encontra
um grupo
de
americanos
deixados
na costa
por
marujos
amotinados.
Tarzan
salva-os
e
apaixona-se
por Jane
Porter,
filha de
um
professor
americano.
Por
coincidência,
no grupo
encontrava-se
seu
primo,
William
Clayton,
que
havia
herdado
o título
de Lorde
Greystoke,
e estava
para se
casar
com
Jane.
Quando
termina
o
primeiro
volume,
Tarzan
havia
renunciado
ao amor
de Jane
e ao
título,
por
acreditar
que
ambos
estariam
melhor
com o
primo.
Somente
no
segundo
livro,
em “O
Regresso
de
Trazan
eles
ficaram
juntos.
Enquanto
emocionado,
ele se
deixava
transportar
para
aquela
beleza
natural,
que a
tela
mostrava,
ao mesmo
tempo
recordava
os seus
tempos
de
criança,
na sua
aldeia,
onde
também
tinha
uma
”Jane”
por quem
se
apaixonara,
filha de
uma
professora,
e que
fora a
causa de
ele
subir
aquela
árvore
com
figos
maduros
que se
esmagavam
no seu
corpo! O
facto de
começar
cedo a
trabalhar,
desde
quase
logo que
nascera,
sempre o
fizera o
rei dos
macacos,
que era
como
quem diz
o líder
dos
rapazes
que
subiam
às
árvores
como
ele!
Trabalhar
era
coisa
que não
o
afligia,
que
muito
cedo se
habituara
a
engendrar,
para
sobreviver
na selva
onde seu
pai o
deixara.
Já
quando
trepava
nas
árvores
da sua
aldeia
fazia os
melhores
esconderijos,
que
construía
com os
próprios
ramos
das
árvores,
que
resultavam
naquelas
perfeitas
casas
que eram
autênticas
maravilhas
em arte,
como
afinal
também
Tarzan o
fizera!
Depois
assaltava
os
pomares
vizinhos
e
transportava
a fruta
que
colhia
dentro
da
camisa
amarrada
na cinta
que
muito
engordava
com bons
sabores
no
repasto
sobre
árvores
de
outros
frutos,
desde
que a
árvore
não
fosse a
figueira,
porque a
figueira
tem ramo
oco e
não tem
resistência
para
aguentar
peso por
muito
tempo. O
povo até
diz que
a
figueira
é uma
árvore
podre. A
selva
onde o
rapaz
cresceu
ensinara-lhe
muita
coisa.
Os
pinheiros
da sua
aldeia
não
tinham
resistência
como as
árvores
da selva
por onde
Tarzan
viajava
baloiçando,
mas
ramos
secos
que
enganavam,
em
estado
de
envelhecimento
precoce
ou já
podre...
Tal como
um dia
lhe
acontecera
quando
com sua
irmã foi
ao monte
à
procura
de lenha
para
cozinhar.
Movimentava-se
sobre um
ramo
seco,
que
seria
bom
pasto
para a
sua
lareira,
e
inesperadamente
o ramo
quebrou-se
e caiu a
cerca de
seis
metros
de
altura
de
costas
no solo.
Embora
amortecido
pelo
mato,
ficou
sem fala
durante
alguns
minutos,
o que
levou
sua irmã
a gritar
desesperadamente
por um
socorro
que não
existia
naquele
sítio
abandonado!
Apenas
os
ouvidos
de Deus
fizeram
com que,
passados
uns dez
minutos,
o rapaz
voltasse
a
respirar
milagrosamente!
Fora
talvez a
sua
primeira
lição de
Tarzan
mal
sucedida.
Na tela,
o Tarzan
lançava
o grito
para
chamar
os
animais
sempre
prontos
para
ajudá-lo,
enquanto,
que a
ele, que
já
tantos
gritos
de dor
dera,
nenhum
animal
chegou
para lhe
prestar
ajuda ou
solidariedade!
A sua
vida
estava
em
mudança,
com o
gosto
pelo
cinema!
A
vontade
de
namorar,
ou
simplesmente
de estar
junto
delas,
fazia
seus
fins-de-semana
diferentes:
experimentando
novas
salas ou
procurando
salões
de
baile.
Para
admirar
a arte
procurava
o
"cinema
fino",
em dia
de
mesada
ou
aniversário
nas
salas de
S. João,
do
Coliseu,
do
Trindade,
do
Rivoli e
até no
Batalha.
Para
encher o
olho,
havia o
Carlos
Alberto,
duas
sessões,
dois
filmes,
cadeiras
de pau,
barulheira
infernal,
índios e
cowboys,
submarinos,
guerra
da
Coreia,
Japoneses
e
Alemães
com
cicatriz
na cara,
Totó,
Fernandel,
a as
cantorias
esganiçadas
de
Joselito
com
lenços a
sair das
carteiras
para
fungar e
as
tosses,
de vez
enquanto,
para
interromper
o
silêncio
dos mais
atentos
à fita.
Podia
ver no
Olímpia
ou no
Odeon-Cine
outro
género
que
interessava:
filmes
de
guerra,
de
espionagem,
policial,
de amor,
drama,
comédia
e do
cómico
e, por
aí
fora...
Depois
aparecia
o
estupor
daquela
cultura
do plano
americano
que
mostrava
o mundo
enganador
e
inatingível
pela
maior
parte
dos
mortais,
mas
sempre
com a
intenção
de
mostrar
ao mundo
que eram
os
melhores!
Como ele
estava
naquela
idade
das
coisas
profundas,
a armar
ao
pingarelho,
cineclubes
para
trás e
para a
frente,
gramava
as
sessões
do
cinema
do Terço
com
estopadas
sem fim.
Muitos
dos
filmes
ajudaram
a
construir
as suas
ideias e
tantas
mensagens
foram
orientadoras
nos seus
projectos
de vida!
Porque o
realizador
sempre
pretende
passar
uma
mensagem,
pelo
menos, e
ele
seleccionava
a que
mais lhe
interessava
na
orientação
dos seus
ideais.
Os
espectadores
ficavam
contentes
quando
era a
cores:
VistaVision,
CinemasCope
mais
tarde,
montanha-gelada
da
Paramount,
holofotes
a rodar
da Fox,
leão da
Metro, e
gostavam
de
aventuras
como o
"Cavaleiro
Andante",
o
"Pirata
Vermelho",
do Burt
Lencaster,
Ilha de
Tortuga,
Donzelas
de
Espanha,
um duelo
a
espadalhão
que
subia e
descia
escadas.
E, no
fim, com
um
grande
beijo, "The
End" no
écran,
já com
quase
toda a
malta a
sair e a
olhar
para
trás, o
que
muito o
arreliava,
porque
ele
gostava
de ficar
a ler a
ficha
técnica
para
saber os
nomes de
todos os
responsáveis
pela
obra
produzida,
enquanto
ouvia
grandes
bandas
sonoras
produzidas
em
exclusivo
para
aquele
filme!
Depois
saía
para o
frio, lá
fora,
enquanto
guarda-chuvas
se
abriam
para
evitar
uma
molha
num
regresso
a casa,
sonhando
com
batalhas,
naufrágios,
pradarias,
espiões,
gajas
com
boquilha
que nos
mandavam
para
"Rilha
Foles"
com um
sorriso
nos
lábios:
era o
culminar
de mais
um dia.
E os
filmes
de
natação?!
A Esther
Williams
a descer
como
quem vai
para uma
recepção
com
duzentas
nadadoras
no meio
dum
salão-piscina,
muito
penteada
a entrar
e sair
da água,
cem
pernas,
quinhentos
pés,
quatrocentas
mãos
sincronizadas?!
E o Fred
Astaire
a fazer
sapateado,
de
casaca e
chapéu
alto, os
"musicais"
da
grande
depressão
em que,
quanto
maior
fosse o
desemprego
cá fora,
mais
champanhes,
diamantes
e luxos
na tela!
Filmes
de
"Corte e
realeza",
a Sissi
e o
Francisco
José
austro-húngaros,
os
salões
de
Viena,
as
valsas,
as
estalagens
no Tirol,
os
hussardos
de
casaco
com uma
manga,
cheios
de
alamares,
uma
espada a
arrastar
no meio
de
faisões,
javalis
assados
e
galinhola
transportada
em
cortejo
por
vasta
criadagem
de libré!
O
canastrão
do
Humphrey
Boggart
no "Rick's
Café" de
Casablanca,
de
smoking,
depois a
gabardina
ritual e
o
chapéu,
rosto
cirrótico
e maus
fígados!
Salvava-se,
no
piano,
uma
espantosa
melodia,
uma
pérola
eterna.
Ele
emocionava-se
com as
histórias
contadas
como:
"Play it
again,
Sam! "
ou “Love
Story”.
Mas fora
assim
sempre
que
alimentara
a sua
ilusão
de vida
no sonho
da sua
vontade
de
vencer
que
queria
ver
real!
E na
segunda-feira,
ainda em
rescaldo
de
emoções
e na
gestão
de todas
as
mensagens
absorvidas,
sempre
regressava,
mais
animado,
para
mais uma
semana
de
trabalho!
O rapaz
sempre
podia
ver, no
cine
Carlos
Alberto,
Cabeça
Satânica,
um filme
de 1949,
baseado
no livro
A Lenda
do
Cavaleiro
Sem
Cabeça (The
Legend
of
Sleepy
Hollow),
de
Washington
Irving.
A
história
passava-se
em 1799
e
tratava
de um
sanguinário
cavaleiro
sem
cabeça
que
tinha
predilecção
por
cortá-las
aos
habitantes
de uma
cidadezinha
americana.
A
segunda
versão,
aquela
que fez
sucesso,
era de
1961. O
suspense
do filme
dava-se
no
momento
em que
uma
caixa
era
encontrada
numa
escavação
nos
fundos
da
propriedade.
A
mocinha,
ao
abri-la,
arregalava
os
olhos,
quando
via uma
cabeça
abrindo
a boca e
pronunciando
umas
palavras.
A cena
era
horripilante
e
deixava
o cinema
completamente
mudo.
Até aí,
tudo
bem, o
mais
difícil
era sair
de lá e
tomar o
caminho
que o
levava à
sua casa
fora da
cidade.
Esse foi
um filme
dos que
ficou
mais
tempo em
cartaz
por
falta de
recursos
para
alugar
um
melhor.
Já
estava
há muito
tempo no
programa
do
Carlos
Alberto!
Assim
viviam
os
cinemas
do Porto
com
filmes
baratos
e muito
tempo no
cartaz
para
sustentar
as
despesas
de salas
quase
vazias
durante
a
semana.
Mas
aquele
filme
tinha
muito a
ver com
o
arrepiante
de vida
que o
jovem
sempre
levara!
Depois
de ter
dado
aquela
vista de
olhos
pelo
cartaz
de
cinemas
da sua
cidade e
novamente
no seu
posto de
trabalho,
o rapaz
aguardou
a
chegada
da miúda
que
queria
levar ao
cinema...
Ela
chegou
ainda
mais
bonita.
Olhou
para a
ela e
viu o
cabelo
penteado
como ele
havia
sugerido
de
véspera!
Aquela
atitude
silenciou-o
de
imediato
e
aumentou
a sua
admiração
por ela,
pela sua
coragem.
Podia
até
fazer-lhe
o mais
belo
poema,
podia
envolvê-la
no
novelo
do seu
sonho,
na
viagem
dos seus
dias.
Podia
dizer-lhe
que a
amava,
intensamente!
Mas para
que tudo
acontecesse
neles
era
preciso
que
tudo,
tudo
fosse
previsto
e
preciso!
Ele
apenas
via dias
felizes
para os
dois, e
depois?
Ele não
sabia se
adiantava
pensar
no
depois!
Sabia
apenas
que
estavam
ali
juntos
os dois
naquele
momento!
Mas a
vida não
é apenas
um
momento!..
Caminharam
na
direção
do
cinema,
ele
tocou
com a
sua mão
direita
na
esquerda
dela e
logo se
enlaçaram
a duas
naquele
gesto
simples
de amor
de dois
corpos
que se
enamoram.
Estava
uma
noite
cinzenta
a
ameaçar
chuva e
lá foram
os dois
festejar
o
Carnaval.
A festa
começou
logo
pelas
vinte e
uma
horas
com um
filme, O
Último
Pôr-do-sol
(The
Last
sunset).
Era um
“faroeste”
clássico,
de 1961,
dirigido
por
Dalton
Trumbo e
estrelado
por Kirk
Douglas,
Rock
Hudson e
Doroty
Malone.
Era um
excelente
western,
repleto
de ódios
e
vinganças
pessoais.
O galã
Rock
Hudson
fazia o
papel de
um
xerife
que
pretendia
fazer
justiça
a
qualquer
preço e
saía em
busca de
um
pistoleiro
(Kirk
Douglas)
que
também
estava à
procura
de um
antigo
amor (Doroty
Malone).
Imagine-se
Rock
Hudson,
o
mocinho
mais
viril
dos
faroestes
daquele
tempo,
num
morrer
de rir
que foi
decepção
para
muitos
de seus
fãs.
Convém
esclarecer
para os
menos
experientes
que o
cinema
da época
tinha
locutor.
Era o
homem
que
divulgava
o filme
no
altifalante,
fazendo-se
necessário
relembrar
o
episódio
da
divulgação
de O
Último
Pôr-do-sol.
O
cartaz,
com
influência
do "art
déco",
fixava
os nomes
dos
actores
de forma
irregular,
ou seja,
não
estavam
expostos
de
carreirinha,
como
estavam
habituados
a ler. O
locutor
entusiasmou-se
tanto ao
fazer o
anúncio
do dia
da
estreia
que
soltou o
seguinte
vozeirão:
“Muita
atenção.
Não
percam,
logo
mais, no
Cine
Victória,
sensacional
película
cinematográfica:
O Último
Pôr-do-sol,
com Rock
Douglas
e Kirk
Hudson".
Mais
tarde,
alguém
lhe
disse
que não
podia
ler de
carreirinha
porque
se
tratava
do Rock
Hudson e
Kirk
Douglas.
Era
noite de
Carnaval
e tudo
servia
para
divertir.
O povo
até
costuma
dizer
que “em
dia de
carnaval
ninguém
leva a
mal”,
por
isso, o
rapaz
esperava
que tudo
acontecesse
naquele
dia...
Acabada
a
sessão,
começou
o baile
em todo
o espaço
livre do
Cine
Victória:
no átrio
principal
de
acesso,
desde a
porta
principal
até à
entrada
para a
plateia
e toda a
envolvência
de
corredores
laterais.
Uma
senhora
que
estava
na
proximidade
do bar
abeirou-se
do
ouvido
dele e
disse-lhe:
- Sei
que não
sou uma
jovem da
sua
idade,
mas
gostava
que
dançasse
comigo
algumas
vezes.
Já falei
no bar
para que
lhe
sirvam
durante
a noite
o que
quiser:
caldo
verde,
pregos,
cachorros,
sanduíches
de
qualquer
tipo e
bebidas!
Sempre
que
quiser,
pode
dirigir-se
ao
empregado.
No final
do baile
eu passo
pelo bar
e
liquido
a conta!
Entretanto,
divirta-se!
Dance
com quem
você
quiser,
mas de
vez em
quando
venha
dançar
comigo!
Ele não
podia
ficar
mais
naquele
baile,
tinha
que
voltar
para
casa e
combinar
outro
filme,
em outro
lugar,
onde
pudessem
discretamente
sentir
as
emoções
do filme
com
eles...
Combinaram
novo
encontro
para o
domingo
seguinte,
para a
sessão
da
tarde...
Estava
em cena,
no
Rivoli,
um filme
protagonizado
pela
atrevida
e alegre
Doris
Day, um
famoso
musical
da
Broadway.
Era a
história
dos
empregados
de uma
fábrica
de
pijamas,
obrigados
a
aumentar
a sua
carga
horária
em mais
sete e
meio por
cento
para
terem os
seus
salários
aumentados,
uma vez
que
todos
recebiam
menos do
que a
companhia
deveria
pagar.
Sid
Sorokin
(John
Raitt),
o novo
superintendente
da
empresa,
e os
empregados
trabalhavam
duro
para
provarem
ao
proprietário
que eram
capazes
de
realizar
o
trabalho
nestas
condições.
Tudo ia
bem até
à visita
da
encantadora
Baby
Williams
(Doris
Day),
representante
do
sindicato,
que toca
o
coração
de Sid
Baby
fica
descontente
com a
situação
dos
empregados.
Por
isso, a
força de
Sid para
ter que
escolher
entre o
seu
trabalho,
o seu
coração
e a sua
consciência.
Considerado
um dos
melhores
filmes
de
Stanley
Donen,
que
presenteou
o mundo
do
cinema
com
filmes
como
Cantando
na
Chuva,
Kismet e
Cinderela
em
Paris,
Um
Pijama
Para
Dois,
matinha
as
músicas
do
musical
da
Broadway
incrementadas
pela
maravilhosa
voz de
Doris
Day.
O filme
estava
classificado
para
maior de
dezoito
anos,
mas a
namorada
do rapza
tinha
apenas
catorze.
Ele
pensou
então
torná-la
mais
adulta à
sua
beira.
Ofereceu-lhe
as suas
primeiras
meias de
lã de
vidro. O
nylon da
meia e
tudo a
realizar-se,
nesse
dia num
bate-bate
de
emoções.
Joel
levou
uma
gabardina
de
nylon,
castanho,
larga,
para
avolumar
os dois
corpos
na
entrada
do
cinema.
A miúda
de meias
de vidro
e sapato
de tacão
alto não
deixou
margem
para
dúvidas.
O
porteiro
pediu os
bilhetes
e a sua
determinação
não
sustentou
quaisquer
suspeitas.
Mesmo
apesar
do
controlo
apertado
da
fiscalização
e
censura,
o
porteiro
deu
sinal
para
entrar!
A sessão
começara
e aquele
corpo
macio
junto ao
seu
começava
a
produzir
um forte
desejo.
O rapaz
estava
eufórico
e com a
temperatura
elevada,
despiu a
gabardina
e
lançou-a
sobre os
joelhos
de
ambos,
cobrindo
de
imediato
as suas
mãos no
regaço
dela. No
momento
em que a
Baby, lá
na tela,
repartia
“o
pijama
para
dois”,
aparecendo
ambos na
cama,
ele com
as
calças e
ela com
o
casaco,
revelando
uma
linda
cueca
vermelha,
o que
era
muito
atrevido
na
época, o
jovem
passava
a mão
pela
superfície
lisa da
meia que
tinha
oferecido,
enquanto
a luz do
fogo
brincava
na sua
pele,
lançando
no
cabelo
dela um
suspiro
em tom
de ouro
avermelhado.
A
respiração
dela
enchia a
sala
silenciosa,
as
pernas
aqueciam-se,
procurando
aconchego
nas
suas,
enquanto
ele
imaginava
a
simetria
perfeita,
secreta,
de todo
o espaço
envolvente
numa
vulva
talvez
ardente.
Ela
parecia
ainda
mais
bonita,
mas
frágil,
com as
finas
meias
escuras
transparecendo
vagamente
a pele
alva e
pálida,
ou
vermelha,
conforme
o
reflexo
da luz
que dava
no seu
rosto.
Ali,
naquela
plateia
semi-escura,
os seus
olhos
brilhavam
no odor
do sexo.
Quando
se fala
de
sexualidade
é
conveniente
associá-la
ao amor,
à
ternura,
ao
bem-estar
e ao
prazer.
A
sexualidade
é uma
força
viva no
indivíduo,
um meio
de
expressão
dos
afectos,
uma
maneira
de cada
pessoa
se
descobrir
e
descobrir
o outro.
Eles
estavam
ali sem
palavras,
porque
há
momentos
em que o
silêncio
fala
mais que
as
palavras!
A
sociedade
do seu
tempo
classificava
o sexo
como
pecaminoso
e
confuso,
mas a
Organização
Mundial
de Saúde
definiu
a
sexualidade
como
"uma
energia
onde se
encontra
a
expressão
física,
psicológica
e social
no
desejo
de
contacto,
ternura
e às
vezes
amor".
O filme
terminou
com um
desfile
dos
trabalhadores
da
fábrica
em
pijama,
para
projectarem
a
empresa
e
finalmente
verem
satisfeita
a
reivindicação
do
aumento
do
salário
de sete
e meio
por
cento.
Mas o
rapaz
conseguira
levar a
sua
namorada
ao
Rivoli e
tê-la
sua de
corpo e
alma nos
seus
braços
com a
gabardina
a
aquecer
os
joelhos,
como o
cortinado
do palco
onde se
sentia a
paixão!
No final
da
sessão
foram
ainda
tomar um
copo à
Travessa
dos
Congregados
e depois
despediram-se
como a
maior
parte
das
vezes na
Praça
Almeida
Garrett.
Voltaram
a casa
com a
alegria
estampada
nos
rostos,
apaixonados
pela
vida e
pelo
cinema,
com
energias
renovadas
para uma
vida
trabalho.
São as
maravilhas
do
cinema.
Angelino
Pereira
Uma
adaptação
do seu
livro “O
Preço da
Vitória”
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