MAGAZINE CEN / Setembro 2012
Tema: "CINEMA"
 
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Angelino Pereira
Guimarães - Portugal

AS MARAVILHAS DO CINEMA



Naquela semana não queria pensar mais em trabalho, ou em outras preocupações, mas, antes, em responder ao anunciado no Cine Victória: o grande filme de Tarzan. Seu patrão tinha-lhe dado um bom prémio, e naquela semana podia dar-se ao luxo de comprar uma plateia para a sessão de domingo à tarde.
Fez anunciar a sua intenção no seio de amigos e lá por casa foi dizendo que gostava de ir ao cinema. Mas, chegado o domingo, não falou mais no assunto, pelo receio de lhe perguntarem com que dinheiro comprava o bilhete de entrada. Então, pelas três e meia da tarde, lá foi ver uma personagem criada por Edgar Rice Burroughs, que apareceu pela primeira vez no romance em 1912. O primeiro filme de Tarzan surgiu em 1919. O mais famoso Tarzan no cinema foi o nadador americano Johnny Weissmuller que, ao lado de Maureen O’Sullivan, como Jane, estrelou numa série de filmes, a partir de 1932.
A História de Tarzan é a de uma criança criada por uma macaca, após a morte de seus pais. Tarzan acredita ser um macaco e sofre por ser diferente dos outros. O rapaz sabia que na verdade um dos maiores dramas da humanidade era ter que viver com as diferenças, mas são também as diferenças que fazem a razão da vida! Então ele viu na tela que, depois de Tarzan matar o líder dos macacos, que havia matado sua mãe adoptiva, o herói tornara-se líder da tribo de macacos. Com o tempo, acabava por descobrir ser um homem, quando então encontra um grupo de americanos deixados na costa por marujos amotinados. Tarzan salva-os e apaixona-se por Jane Porter, filha de um professor americano. Por coincidência, no grupo encontrava-se seu primo, William Clayton, que havia herdado o título de Lorde Greystoke, e estava para se casar com Jane. Quando termina o primeiro volume, Tarzan havia renunciado ao amor de Jane e ao título, por acreditar que ambos estariam melhor com o primo. Somente no segundo livro, em “O Regresso de Trazan eles ficaram juntos.
Enquanto emocionado, ele se deixava transportar para aquela beleza natural, que a tela mostrava, ao mesmo tempo recordava os seus tempos de criança, na sua aldeia, onde também tinha uma ”Jane” por quem se apaixonara, filha de uma professora, e que fora a causa de ele subir aquela árvore com figos maduros que se esmagavam no seu corpo! O facto de começar cedo a trabalhar, desde quase logo que nascera, sempre o fizera o rei dos macacos, que era como quem diz o líder dos rapazes que subiam às árvores como ele! Trabalhar era coisa que não o afligia, que muito cedo se habituara a engendrar, para sobreviver na selva onde seu pai o deixara. Já quando trepava nas árvores da sua aldeia fazia os melhores esconderijos, que construía com os próprios ramos das árvores, que resultavam naquelas perfeitas casas que eram autênticas maravilhas em arte, como afinal também Tarzan o fizera! Depois assaltava os pomares vizinhos e transportava a fruta que colhia dentro da camisa amarrada na cinta que muito engordava com bons sabores no repasto sobre árvores de outros frutos, desde que a árvore não fosse a figueira, porque a figueira tem ramo oco e não tem resistência para aguentar peso por muito tempo. O povo até diz que a figueira é uma árvore podre. A selva onde o rapaz cresceu ensinara-lhe muita coisa. Os pinheiros da sua aldeia não tinham resistência como as árvores da selva por onde Tarzan viajava baloiçando, mas ramos secos que enganavam, em estado de envelhecimento precoce ou já podre... Tal como um dia lhe acontecera quando com sua irmã foi ao monte à procura de lenha para cozinhar. Movimentava-se sobre um ramo seco, que seria bom pasto para a sua lareira, e inesperadamente o ramo quebrou-se e caiu a cerca de seis metros de altura de costas no solo. Embora amortecido pelo mato, ficou sem fala durante alguns minutos, o que levou sua irmã a gritar desesperadamente por um socorro que não existia naquele sítio abandonado! Apenas os ouvidos de Deus fizeram com que, passados uns dez minutos, o rapaz voltasse a respirar milagrosamente! Fora talvez a sua primeira lição de Tarzan mal sucedida. Na tela, o Tarzan lançava o grito para chamar os animais sempre prontos para ajudá-lo, enquanto, que a ele, que já tantos gritos de dor dera, nenhum animal chegou para lhe prestar ajuda ou solidariedade!
A sua vida estava em mudança, com o gosto pelo cinema! A vontade de namorar, ou simplesmente de estar junto delas, fazia seus fins-de-semana diferentes: experimentando novas salas ou procurando salões de baile. Para admirar a arte procurava o "cinema fino", em dia de mesada ou aniversário nas salas de S. João, do Coliseu, do Trindade, do Rivoli e até no Batalha. Para encher o olho, havia o Carlos Alberto, duas sessões, dois filmes, cadeiras de pau, barulheira infernal, índios e cowboys, submarinos, guerra da Coreia, Japoneses e Alemães com cicatriz na cara, Totó, Fernandel, a as cantorias esganiçadas de Joselito com lenços a sair das carteiras para fungar e as tosses, de vez enquanto, para interromper o silêncio dos mais atentos à fita. Podia ver no Olímpia ou no Odeon-Cine outro género que interessava: filmes de guerra, de espionagem, policial, de amor, drama, comédia e do cómico e, por aí fora... Depois aparecia o estupor daquela cultura do plano americano que mostrava o mundo enganador e inatingível pela maior parte dos mortais, mas sempre com a intenção de mostrar ao mundo que eram os melhores! Como ele estava naquela idade das coisas profundas, a armar ao pingarelho, cineclubes para trás e para a frente, gramava as sessões do cinema do Terço com estopadas sem fim. Muitos dos filmes ajudaram a construir as suas ideias e tantas mensagens foram orientadoras nos seus projectos de vida! Porque o realizador sempre pretende passar uma mensagem, pelo menos, e ele seleccionava a que mais lhe interessava na orientação dos seus ideais.
Os espectadores ficavam contentes quando era a cores: VistaVision, CinemasCope mais tarde, montanha-gelada da Paramount, holofotes a rodar da Fox, leão da Metro, e gostavam de aventuras como o "Cavaleiro Andante", o "Pirata Vermelho", do Burt Lencaster, Ilha de Tortuga, Donzelas de Espanha, um duelo a espadalhão que subia e descia escadas. E, no fim, com um grande beijo, "The End" no écran, já com quase toda a malta a sair e a olhar para trás, o que muito o arreliava, porque ele gostava de ficar a ler a ficha técnica para saber os nomes de todos os responsáveis pela obra produzida, enquanto ouvia grandes bandas sonoras produzidas em exclusivo para aquele filme!
Depois saía para o frio, lá fora, enquanto guarda-chuvas se abriam para evitar uma molha num regresso a casa, sonhando com batalhas, naufrágios, pradarias, espiões, gajas com boquilha que nos mandavam para "Rilha Foles" com um sorriso nos lábios: era o culminar de mais um dia.
E os filmes de natação?! A Esther Williams a descer como quem vai para uma recepção com duzentas nadadoras no meio dum salão-piscina, muito penteada a entrar e sair da água, cem pernas, quinhentos pés, quatrocentas mãos sincronizadas?! E o Fred Astaire a fazer sapateado, de casaca e chapéu alto, os "musicais" da grande depressão em que, quanto maior fosse o desemprego cá fora, mais champanhes, diamantes e luxos na tela! Filmes de "Corte e realeza", a Sissi e o Francisco José austro-húngaros, os salões de Viena, as valsas, as estalagens no Tirol, os hussardos de casaco com uma manga, cheios de alamares, uma espada a arrastar no meio de faisões, javalis assados e galinhola transportada em cortejo por vasta criadagem de libré! O canastrão do Humphrey Boggart no "Rick's Café" de Casablanca, de smoking, depois a gabardina ritual e o chapéu, rosto cirrótico e maus fígados! Salvava-se, no piano, uma espantosa melodia, uma pérola eterna. Ele emocionava-se com as histórias contadas como: "Play it again, Sam! " ou “Love Story”. Mas fora assim sempre que alimentara a sua ilusão de vida no sonho da sua vontade de vencer que queria ver real!
E na segunda-feira, ainda em rescaldo de emoções e na gestão de todas as mensagens absorvidas, sempre regressava, mais animado, para mais uma semana de trabalho!
O rapaz sempre podia ver, no cine Carlos Alberto, Cabeça Satânica, um filme de 1949, baseado no livro A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (The Legend of Sleepy Hollow), de Washington Irving. A história passava-se em 1799 e tratava de um sanguinário cavaleiro sem cabeça que tinha predilecção por cortá-las aos habitantes de uma cidadezinha americana. A segunda versão, aquela que fez sucesso, era de 1961. O suspense do filme dava-se no momento em que uma caixa era encontrada numa escavação nos fundos da propriedade. A mocinha, ao abri-la, arregalava os olhos, quando via uma cabeça abrindo a boca e pronunciando umas palavras. A cena era horripilante e deixava o cinema completamente mudo. Até aí, tudo bem, o mais difícil era sair de lá e tomar o caminho que o levava à sua casa fora da cidade.
Esse foi um filme dos que ficou mais tempo em cartaz por falta de recursos para alugar um melhor. Já estava há muito tempo no programa do Carlos Alberto! Assim viviam os cinemas do Porto com filmes baratos e muito tempo no cartaz para sustentar as despesas de salas quase vazias durante a semana. Mas aquele filme tinha muito a ver com o arrepiante de vida que o jovem sempre levara!
Depois de ter dado aquela vista de olhos pelo cartaz de cinemas da sua cidade e novamente no seu posto de trabalho, o rapaz aguardou a chegada da miúda que queria levar ao cinema... Ela chegou ainda mais bonita. Olhou para a ela e viu o cabelo penteado como ele havia sugerido de véspera! Aquela atitude silenciou-o de imediato e aumentou a sua admiração por ela, pela sua coragem. Podia até fazer-lhe o mais belo poema, podia envolvê-la no novelo do seu sonho, na viagem dos seus dias. Podia dizer-lhe que a amava, intensamente! Mas para que tudo acontecesse neles era preciso que tudo, tudo fosse previsto e preciso! Ele apenas via dias felizes para os dois, e depois? Ele não sabia se adiantava pensar no depois! Sabia apenas que estavam ali juntos os dois naquele momento! Mas a vida não é apenas um momento!..
Caminharam na direção do cinema, ele tocou com a sua mão direita na esquerda dela e logo se enlaçaram a duas naquele gesto simples de amor de dois corpos que se enamoram. Estava uma noite cinzenta a ameaçar chuva e lá foram os dois festejar o Carnaval. A festa começou logo pelas vinte e uma horas com um filme, O Último Pôr-do-sol (The Last sunset). Era um “faroeste” clássico, de 1961, dirigido por Dalton Trumbo e estrelado por Kirk Douglas, Rock Hudson e Doroty Malone. Era um excelente western, repleto de ódios e vinganças pessoais. O galã Rock Hudson fazia o papel de um xerife que pretendia fazer justiça a qualquer preço e saía em busca de um pistoleiro (Kirk Douglas) que também estava à procura de um antigo amor (Doroty Malone). Imagine-se Rock Hudson, o mocinho mais viril dos faroestes daquele tempo, num morrer de rir que foi decepção para muitos de seus fãs. Convém esclarecer para os menos experientes que o cinema da época tinha locutor. Era o homem que divulgava o filme no altifalante, fazendo-se necessário relembrar o episódio da divulgação de O Último Pôr-do-sol. O cartaz, com influência do "art déco", fixava os nomes dos actores de forma irregular, ou seja, não estavam expostos de carreirinha, como estavam habituados a ler. O locutor entusiasmou-se tanto ao fazer o anúncio do dia da estreia que soltou o seguinte vozeirão: “Muita atenção. Não percam, logo mais, no Cine Victória, sensacional película cinematográfica: O Último Pôr-do-sol, com Rock Douglas e Kirk Hudson". Mais tarde, alguém lhe disse que não podia ler de carreirinha porque se tratava do Rock Hudson e Kirk Douglas. Era noite de Carnaval e tudo servia para divertir. O povo até costuma dizer que “em dia de carnaval ninguém leva a mal”, por isso, o rapaz esperava que tudo acontecesse naquele dia...
Acabada a sessão, começou o baile em todo o espaço livre do Cine Victória: no átrio principal de acesso, desde a porta principal até à entrada para a plateia e toda a envolvência de corredores laterais. Uma senhora que estava na proximidade do bar abeirou-se do ouvido dele e disse-lhe:
- Sei que não sou uma jovem da sua idade, mas gostava que dançasse comigo algumas vezes. Já falei no bar para que lhe sirvam durante a noite o que quiser: caldo verde, pregos, cachorros, sanduíches de qualquer tipo e bebidas! Sempre que quiser, pode dirigir-se ao empregado. No final do baile eu passo pelo bar e liquido a conta! Entretanto, divirta-se! Dance com quem você quiser, mas de vez em quando venha dançar comigo! Ele não podia ficar mais naquele baile, tinha que voltar para casa e combinar outro filme, em outro lugar, onde pudessem discretamente sentir as emoções do filme com eles...
Combinaram novo encontro para o domingo seguinte, para a sessão da tarde... Estava em cena, no Rivoli, um filme protagonizado pela atrevida e alegre Doris Day, um famoso musical da Broadway. Era a história dos empregados de uma fábrica de pijamas, obrigados a aumentar a sua carga horária em mais sete e meio por cento para terem os seus salários aumentados, uma vez que todos recebiam menos do que a companhia deveria pagar. Sid Sorokin (John Raitt), o novo superintendente da empresa, e os empregados trabalhavam duro para provarem ao proprietário que eram capazes de realizar o trabalho nestas condições. Tudo ia bem até à visita da encantadora Baby Williams (Doris Day), representante do sindicato, que toca o coração de Sid Baby fica descontente com a situação dos empregados. Por isso, a força de Sid para ter que escolher entre o seu trabalho, o seu coração e a sua consciência. Considerado um dos melhores filmes de Stanley Donen, que presenteou o mundo do cinema com filmes como Cantando na Chuva, Kismet e Cinderela em Paris, Um Pijama Para Dois, matinha as músicas do musical da Broadway incrementadas pela maravilhosa voz de Doris Day.
O filme estava classificado para maior de dezoito anos, mas a namorada do rapza tinha apenas catorze. Ele pensou então torná-la mais adulta à sua beira. Ofereceu-lhe as suas primeiras meias de lã de vidro. O nylon da meia e tudo a realizar-se, nesse dia num bate-bate de emoções. Joel levou uma gabardina de nylon, castanho, larga, para avolumar os dois corpos na entrada do cinema. A miúda de meias de vidro e sapato de tacão alto não deixou margem para dúvidas. O porteiro pediu os bilhetes e a sua determinação não sustentou quaisquer suspeitas. Mesmo apesar do controlo apertado da fiscalização e censura, o porteiro deu sinal para entrar!
A sessão começara e aquele corpo macio junto ao seu começava a produzir um forte desejo. O rapaz estava eufórico e com a temperatura elevada, despiu a gabardina e lançou-a sobre os joelhos de ambos, cobrindo de imediato as suas mãos no regaço dela. No momento em que a Baby, lá na tela, repartia “o pijama para dois”, aparecendo ambos na cama, ele com as calças e ela com o casaco, revelando uma linda cueca vermelha, o que era muito atrevido na época, o jovem passava a mão pela superfície lisa da meia que tinha oferecido, enquanto a luz do fogo brincava na sua pele, lançando no cabelo dela um suspiro em tom de ouro avermelhado.
A respiração dela enchia a sala silenciosa, as pernas aqueciam-se, procurando aconchego nas suas, enquanto ele imaginava a simetria perfeita, secreta, de todo o espaço envolvente numa vulva talvez ardente. Ela parecia ainda mais bonita, mas frágil, com as finas meias escuras transparecendo vagamente a pele alva e pálida, ou vermelha, conforme o reflexo da luz que dava no seu rosto.
Ali, naquela plateia semi-escura, os seus olhos brilhavam no odor do sexo. Quando se fala de sexualidade é conveniente associá-la ao amor, à ternura, ao bem-estar e ao prazer. A sexualidade é uma força viva no indivíduo, um meio de expressão dos afectos, uma maneira de cada pessoa se descobrir e descobrir o outro. Eles estavam ali sem palavras, porque há momentos em que o silêncio fala mais que as palavras! A sociedade do seu tempo classificava o sexo como pecaminoso e confuso, mas a Organização Mundial de Saúde definiu a sexualidade como "uma energia onde se encontra a expressão física, psicológica e social no desejo de contacto, ternura e às vezes amor".
O filme terminou com um desfile dos trabalhadores da fábrica em pijama, para projectarem a empresa e finalmente verem satisfeita a reivindicação do aumento do salário de sete e meio por cento. Mas o rapaz conseguira levar a sua namorada ao Rivoli e tê-la sua de corpo e alma nos seus braços com a gabardina a aquecer os joelhos, como o cortinado do palco onde se sentia a paixão! No final da sessão foram ainda tomar um copo à Travessa dos Congregados e depois despediram-se como a maior parte das vezes na Praça Almeida Garrett. Voltaram a casa com a alegria estampada nos rostos, apaixonados pela vida e pelo cinema, com energias renovadas para uma vida trabalho.
São as maravilhas do cinema.

Angelino Pereira
Uma adaptação do seu livro “O Preço da Vitória”

 

Marisa Schmidt
Bertioga-São Paulo - Brasil

A Arte Imita a Vida


Todo caso de amor tem as suas cenas...
Às vezes de drama, outras de comédia
Algumas aventuras pontuando a média
E doce trilha sonora nas fases amenas

Mudam os cenários em outras locações
Segundo o enredo de cada romance
Tomadas picantes, caso o filme avance
Põe os personagens em novas situações

A partir de então se alternam os conflitos
Em cena aberta, entre sussurros e gritos,
Todas as emoções passam por essa tela


Porque nosso coração, tal qual o cinema,
É uma mistura de ilusão, alegria e dilema
Que entre luz e sombra fazem a vida bela...

Marisa Schmidt

 

 

Maria Mamede
Maia - Portugal

O Cinema


É magia concentrada
naquele feixe de luz
é notícia, cavalgada
janela aberta ou fechada
é nave que me conduz
a galáxias escondidas;
comédia, drama, terror
é mil histórias de amor
pirueta, gargalhada
tendo sonho e poesia
pode conter a agonia
da partida ou da chegada...
mostra-me vidas, mil vidas
vidas felizes, sofridas
aventuras, desventuras
fatalidades, quimeras
vem dentro do meu olhar
e faz-me acreditar
que eu já fui doutras eras...
é um pózinho de luz
concentrado numa tela
e a gente vê-se nela
de tanta cor, tanta raça
tanto país, continente
tão feliz e tão contente
tão triste e tão desgraçada
que não precisa mais nada
pra ser tudo quanto há
tudo quanto ela nos dá
num faz de conta infinito;
e é um eco, é um grito
é monte, mina, caverna
montanha de neve eterna
viagem, sonho impossível
maravilhoso e incrível!
E quando na sala escura
um feixe de luz se anima
e seu pózinho de cor
se vai projectar na tela
vivo a vida que sai dela
que me destrói ou ensina
que é tudo quanto eu quiser
bendizendo Lumiére
pela magia que me deu
e afirmo, neste Poema
que a magia do Cinema
faz o mundo inteiro, meu!

Maria Mamede

 

 

Mardilê Friedrich Fabre
São Leopoldo - RS - Brasil

No Escurinho do Cinema...


Aconteceu o primeiro beijo,
O despertar do desejo.
As faces rubras invisíveis
Escondiam a timidez.
Os corações explodiam emoções
Desencontradas: surpresa e angústia.
A imaginação descontrolava-se,
E o sonho se tornava viável...
Já não havia normas nem bloqueios,
E iniciava-se o reinado dos sentimentos,
Em que a razão desaparecia,
E o corpo, entorpecido pelo ambiente,
Tentado, obedecia à magia.
E tudo acabava no clarão da luz,
E no espanto dos olhos,
Que teimavam em ficar fechados.

Mardilê Friedrich Fabre

Livro de Visitas