Edição de Carlos Leite Ribeiro
 

Apollo Revelando a sua divindade a Isse

 (Boucher)

 
 

MAGAZINE CEN

 

 AGOSTO 2012

  

 
 
 

Joaquim Marques
Vila Nova de Gaia - Porto  - Portugal


RIO POLUÍDO


Que água barrenta, corre neste rio!...
É terra dos montes, que a chuva arrastou
E as flores dos campos, consigo levou;
Nos vales, agora, é só neve e frio.

O Estio se foi e, o calor ardente
O acompanhou. Mudaram os tempos
E para o povo, os contratempos…
Tão logo apareceram, num repente.

A ordem no tempo já é conhecida
Mas as pessoas, o mundo postergam
E o céu, parece, tudo ignorar!…

As opiniões são tão esbatidas…
Que nossos olhos apenas enxergam
Nas águas do rio, cinzas a boiar…

Joaquim Marques

 

 
 
 
 

José Hilton Rosa
Belo Horizonte - MG - Brasil


MEDO


Sem saber quem me escuta
Choro no escuro querendo gritar
Tenho medo do homem
Querendo me torturar

Olhando feio
Sempre a desabonar
Falando como rei
Um intruso naquele lugar

Medo do homem
Que não sabe o valor da vida
Rodeado por ignorância
Falando sempre está

Homem, bicho pobre
Não sabe se valorizar
Ocupando espaço neste lugar
Que só Deus pode explicar

Homem frio
Querendo sempre matar
Os outros nada valem
Sozinho não sabe ficar

Calado nunca fica
Falando sempre
Nada a aproveitar
Neste mundo só ele pode ficar.

José Hilton Rosa

 

 

 

 

Juçara Medeiros Lasmar
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil


Nova Raça


Neandertal eu era
dormia
numa funda caverna.
Machos iam caçar
todos os dias
Fêmeas amamentavam
suas crias.

Eu, jovem ainda
para me aquecer na noite fria
enroscava no canto da caverna
junto àquele que me protegia.

Sozinha estava junto ao lago
ele chegou alto, muito alto, diferente
seus olhos me olhavam com ardor
em minhas entranhas senti grande calor.

Levou-me para o alto da planície
me amou como eu nunca imaginara
olhos nos olhos, face a face,
assim amavam os cro-magnon
enquanto os neandertais
cruzavam em dorso
como os animais.

Fui embora deixando a caverna
a minha espécie
e quem me protegia.

Parti com ele rumo a outras terras
para ser mãe de uma nova raça
carregando em meu ventre sua cria.

Juçara Medeiros Lasmar

 

A CAÇULA
Juçara Medeiros Lasmar


Todos se encantaram com aquela coisinha mirradinha e chorona que nasceu ao meio dia de um domingo de carnaval. Tomaram de amores por ela e a mimaram desde o primeiro instante.
A parteira, que de delicada não tinha nada, foi cauterizar o toco do umbigo com uma colher quente e desastradamente encostou a dita colher naquela perninha fina... Foi um choro só. Como se não bastasse, no dia seguinte, na hora do primeiro banho – naqueles tempos o banho só era dado 24 horas após o nascimento – ela, a parteira, achando linda aquela coisinha enrugada a ergueu frente ao espelho... Todos diziam que por isso ela cresceu tão vaidosa...
Todos os irmãos esperavam ansiosos o nascimento e quando a menina chorou foi uma festa, as irmãs diziam que era uma boneca que chorava e não perdia a mola – elas tinham bonecas que choravam devido a uma mola e então ficavam economizando o choro para não estragar -.
Ela foi tratada como uma bonequinha, mimada pelos irmãos e irmãs, pelos pais, tias e todos... Fazia cinco anos que não tinha nenhum bebê na família, ela era a caçulinha de uma turma de sete onde o mais velho tinha apenas quatorze...
O umbigo demorou nove dias para cair, toco grosso, sinal de boa saúde,
E assim ela foi crescendo e ficando bonitinha, mas continuava magrinha...
Adorava ficar na cama grande brincando, se enrolando num vestido de seda de listras verdes e brancas de sua mãe. Esse vestido era sua babá, bastava colocá-la na cama com ele que ela se distraia por horas seguidas...
Quando fez cinco anos sua mãe recortou o vestido e fez um para ela comprido e rodado... Ela pedalava o seu velocípede vermelho se julgando uma rainha com o vento inflando aquele vestidão.
Voltando ao tempo em que era pequenina... Já tinha um ano e ainda não andava. Um dia um amigo de seu pai veio fazer uma visita e comentou que o filho dele, da idade dela, já andava por todo lado. O pai disse, pois é, esta aí não anda, está muito mole. Ela estava quieta encostada em um banco, quando ouviu isso saiu correndo e foi até o outro lado da sala... Já sabia andar, mas simplesmente não queria, era muito gostoso ficar no colo...
A família fazia passeios à tarde, todos os dias e na volta desses passeios, ao chegar à porteirinha, no fundo do quintal, perto das bananeiras ou se o caminho fosse pela frente da casa, quando chegavam ao início das gramas, ela simplesmente sentava no chão e empacava, só conseguiam tirá-la de lá sua mãe ou sua Dindinha, mais ninguém. Birra sim, porém uma birra silenciosa, apenas sentava e ficava quieta esperando que uma das duas a pegasse no colo e a carregasse.
Gostava tanto de chouriço que queria comer chouriço com leite. Antes de dormir todas as crianças tomavam leite e para ela era um desperdício não comer chouriço neste horário.
Um dia passeando com o pai ao lado de uma casa vizinha ouviu o ronco dos porcos e pediu para matá-los para fazer chouriço.
Outra coisa que gostava muito era de leite de ontem da lata. Eu explico, é leite fervido em banho Maria e com as natas agarradas na borda, no dia seguinte é que deve ser consumido, é uma delícia.
Falava demais, adorava ouvir sua mãe contando histórias, dava palpite em tudo, tinha resposta para tudo e na sua visão estava sempre certa.
Um dia, brincando com sua amiguinha Leila, tinha uns dois anos na época, perguntou para a Leila como era o nome do pai dela. Leila, tadinha, ficou calada, não tinha pai, era filha de mãe solteira. Ela então vendo que a amiga não respondia nada falou: “Já sei, seu pai nasceu morto”! Sua mãe e a mãe da Leila caíram na gargalhada.
Ela adorava esta amiguinha, mas tinha muito medo de seu gato. Gostava de ir à casa dela, para tomar água da talha. Achava uma delícia a água de uma talha imensa que tinha na casa da amiga...
E o tempo foi passando, ela crescendo, subindo em árvores, brincando de bonecas...
Muitas histórias aconteceram nesta caminhada até que hoje ela está aqui narrando estes fatos...Juçara Medeiros Lasmar
A protagonista

Juçara Medeiros Lasmar

 

 

 

 

Juraci da Silva Martins
São Sepé - RS - Brasil

REMISSÃO



Fiz vigias no tempo,
Pra ver dos meus sonhos
A parte concreta
Nas Tábuas da Lei.

Neste tempo bonito, um ser erudito
Num monte Sinai
Fez-me paciente,
Eu esperei,
Na espera e escuta
Razões de permuta
Dos meus ideais

E num desafio
Bebi nessa taça,
Todas as graças
Pra ser perfeição.
E, no entanto,
Recusei o grandioso
Pelo ocioso
Na fuga da lei.

Meu sonho, bem sei,
Perdeu seu encanto,
Por dar preferência
À vil omissão.

Recusei a taça,
Porém na desgraça
De não ser alguém,
Alguém que recebe,
E percebe que tem
O dever de doar,
E se faz retentor.

Hoje sou penitente,
Curvo meu dorso
Por ser consciente
Desta inversão.
Faço-me mendigo,
Dá-me um sorriso.

Juraci da Silva Martins

  

 
 
 

Lauro Kisielewicz
Ponta Grossa - Paraná - Brasil

VOLUNTÁRIO


Eis-me aqui,
disposto
e disponível,
para servir,
amparar,
consolar,
auxiliar,
aprender junto,
crescer junto,
amadurecer junto,
envelhecer junto...

Juntando tudo
que nos faz ser
do jeito que somos,
muito falante,
ou meio mudo;
uns mais,
muitos outros menos,
todos porém iguais,
nas suas diferenças,
de cores,
de raças
e de crenças,
ou descrenças,
desde crianças
céticas,
ou crentes,
atenciosas,
indiferentes,
tão diferentes,
tão parecidas,
curtas vidas,
pouco vividas
muito lamentadas
e desperdiçadas
com rancores,
desamores,
dissabores...

Eis-me aqui,
voluntário,
solidário,
para te auxiliar,
a tentar se livrar
do que te atormenta...
Vem!
Conversemos,
confessemos
e despejemos
tudo que dói,
e que nos corrói,
mas que precisa
ser despejado,
despachado
para fora de nós,
para longe de nós,
para entrarmos na luz,
e desfrutarmos a Paz,
tão sonhada paz!

Lauro Kisielewicz

 

Registre sua opinião no

Livro de Visitas: