Este livro foi escrito, em parte, baseado sobre o
filme de ficção Casablanca (*) produzido em 1942. Comecei então
a imaginar: o que teria acontecido a estas personagens depois de
Casablanca? Como dizia o Mestre Almada Negreiros: a caverna da
mente dos escritores é insondável e imprevista. E assim, comecei
a escrever este livro, que é pura ficção.
Carlos Leite Ribeiro
(*) Casablanca, (Marrocos África
Oriental) em árabe dar al-Bayda ou Dar el-Beida que quer dizer a
casa branca. Cidade de Marrocos e seu principal porto no oceano
Atlântico. Casablanca desenvolveu-se durante o período colonial
francês. Em Janeiro de 1943, realizou-se nesta cidade
marroquina, uma conferência entre Churchill e Roosevelt, no
decurso da qual os generais franceses De Gaulle e Giraud tiveram
o primeiro encontro.
Ambos trabalharam durante muitos anos num
escritório de advogados em Lisboa, em gabinetes diferentes e
separados.
Quando se cruzavam no corredor, davam um simples
cumprimento, como: olá; bom dia; tarde. Só uma vez em tantos
anos, ele deu-lhe uma boleia (carona), numa tarde muito chuvosa,
até ao Metro que nem ficava longe do escritório, pois ela tinha
o carro a reparar. Nem almoçavam no mesmo restaurante.
Os anos foram passando e chegou a
altura da reforma: primeiro ela e meses depois ele.
Por casualidade, ambos começaram
a lanchar na mesma pastelaria que ficava no centro de Lisboa.
Olhavam um para o outro, sorriam
e cumprimentavam-se.
Certo dia e também por
casualidade, ela sentou-se numa mesa junto à mesa que ele
ocupava.
- Então Dona Ivone, como vai a
sua vidinha, depois de se reformar?
- Vai bem Sr. Júlio, só com uns
achaques de vez em quando, devido à idade. E a sua vidinha como
vai perguntou-lhe ela, o que ele respondeu-lhe:
- Descontando o reumatismo e uns
ataques de artrite, vai indo bem. E podia ser melhor se os
impostos não fossem tão altos!
- Desse mal, também me queixo,
meu caro amigo (não sei se possa e deva trata-lo como amigo?)
- Trate-me como quiser, desde que
retire o Sr. Pode tratar-me só por Júlio e eu a tratarei só por
Ivone. Está de acordo?
Começou a ser habitual os tais
encontros naquela pastelaria, só com a diferença de ambos se
sentarem na mesma mesa. Durante semanas, as conversas foram
banais, praticamente só falando dos filhos e dos netos. Até que
um dia, começaram a falar de suas famílias. A determinada
altura, Ivone perguntou-lhe:
- Júlio, o que lhe vou perguntar,
corro o risco de estar completamente enganada. Seu sobrenome é
Blaine certo?
- Desde que nasci disse-lhe ele
com um sorriso aberto.
- O sobrenome Lund, não lhe diz
nada?
- Confesso que não, mas porquê?
- O nome de seu avô, por acaso
não era Rick Blaine?
- Sim, era do sobrenome do meu
avô paterno. Mas porque essa pergunta, digamos tão misteriosa?
- Minha avó escreveu um diário
que quando morreu, entregou-o a minha mãe que por sua vez mo deu
a mim. Nesse diário, minha avó materna, conta que conheceu
durante a segunda guerra, um americano de nome Rick Blaine, o
qual foi a paixão de sua vida.
- Meu avô Rick, foi um
aventureiro, digamos compulsivo. Conseguiu fugir de França
quando os alemães ocuparam-na, e durante uns anos fixou-se em
Casablanca, em pleno Marrocos.
- Então acertei, é mesmo de seu
avô que estou a falar, mas fale de seu avô.
- Segundo as crónicas da família,
meu avô em Casablanca, teve de matar um general ou major alemão
para ajudar a fugir uma mulher que até era casada.
- Até aqui conheço a história,
que depois lhe contarei. O que foi feito de seu avô?
- Quero saber essa história
direitinha. Continuando a falar do que dizem as crónicas
familiares. Meu avô Rick teve de fugir de Casablanca para
Brazzaville (ex- Congo Belga, onde montou um bar em parceria com
um chefe de polícia que tinha conhecido em Casablanca, e parece
que ajudou a matar o tal general alemão. O Louis Renault.
Mas Brazzaville era um ninho de
nazis que estavam espalhados por toda a parte e, por azar, foi
lá assassinado. Meu avô mais uma vez teve de abandonar o negócio
e fugir com a filha do Louis Renault, para Lourenço Marques
(hoje Maputo) em Moçambique e lá casou com ela, ou seja com
minha avó. Casamento esse que durou pouco tempo, pois minha avó
fugiu, levando-lhe todo o seu dinheiro, abandonando o assim como
o filho.
Meu avô teve de trabalhar no duro
em Moçambique, para poder sobreviver. Entretanto, uma família
portuguesa que vivia nesse país africano, acolheu e mais tarde
adotou meu pai. Quando regressaram a Portugal, trouxeram meu pai
que cá casou e eu nasci aqui nesta bela cidade que é Lisboa.
- Nunca soube mais nada de seu
avô Rick?. Só agora reparo que já é noite e tenho que me ir
embora. Amanhã continuaremos a história. Esta noite quero dar
uma vista de olhos pelo diário que minha avó Ilsa Lund escreveu.
- Sim, já é noite e estava quase
a convidá-la para jantar comigo. Como quer ir para casa, eu
acompanho-a até lá.
Foi uma noite em que ambos
tiveram dificuldade em adormeceu. Ela impressionada com o que
ele lhe contou do avô; ela desejosa de lhe contar a história de
sua avó. Ambos tiveram vontade de ligar um ao outro, mas tinham
receio de incomodar a outra parte. Por fim, Ivone encheu-se de
coragem e ligou para ele.
- É o Júlio? Desculpe de lhe
ligar a esta hora?.
- É um prazer ouvi-la! Também
tinha vontade de lhe ligar, mas não queria incomodá-la. Pelos
vistos, ambos estamos com dificuldade em adormecer!
- Estou deitada a passar os olhos
sobre o diário de minha avó.
- Tem encontrado coisas
interessantes?
- Afirmativo, mas não lhe vou
contar aqui pelo telefone. Nem antes de saber toda a história de
seu avô! Temos muito que falar sobre nossos avós!
- Deve ser preciso muitas horas!
Atrevo-me a convidá-la para um almoço, pois assim teríamos mais
tempo para dar à língua. Aceita?
- Aceito!
- Já amanhã?
- Amanhã não pode ser pois tenho
cá em casa a senhora que faz a limpeza. Se o Júlio aceitar,
poderá ser na próxima sexta-feira?
- Por mim está tudo bem. E onde a
Ivone quer almoçar (e se quiser jantar também), diga que eu
aceito. E também diga a hora em que posso a ir buscar no fundo
da sua rua.
- Gosto muito da beira-mar da
zona de Setúbal. Mas só almoçar.
- Proponho-lhe a Serra de
Arrábida, depois as praias da Figueirinha, Portinho da Arrábida
e almoçar em Sesimbra no restaurante O Velho e o Mar, que tem
sempre um peixe espetacular.
- Também gosto muito da Arrábida,
de suas belas praias e de Sesimbra e também conheço esse
restaurante. Também conheço o belo Convento de Nossa Senhora da
Arrábida. A hora, pode ser às 10??
- Amiga Ivone, não pode ser mais
cedo? Tomávamos o pequeno-almoço em Almada.
- Pensando bem, o Júlio pode
vir-me esperar ás 08.30. E o pequeno-almoço poderá ser em
Corroios, numa pastelaria que também conheço e tem sempre bolos
quentinhos rssss.
- Então até sexta-feira e tente
fazer um soninho bem descansado.
- Também tenha uma boa noite.
Abraço.
- Um beijo!