No dia e hora combinada, Júlio
estava no fundo da rua esperando a Ivone. Quando já estava com o
telemóvel (celular) na mão para lhe ligar para lhe perguntar se
tinha esquecido o combinado, quando ela apareceu junto ao carro
e logo que entrou, perguntou-lhe:
- Não estou muito atrasada, pois
não?
- Claro que não. A Ivone só está
atrasada 25 minutos!
- Pelo meu relógio, são só 20
minutos, Veja se acerta seu relógio!
Ele deu uma sonora gargalhada e
partiram para o passeio. Depois de passar a Ponte 25 de Abril e
já à entrada de Almada, ela disse-lhe que estava com muita fome
e se podiam ir tomar o pequeno-almoço a Almada, talvez a um
Shopping, desculpando-se:
- Sabe, o atravessar o Tejo
faz-me sempre abrir o apetite.
- E também os 25 minutos de
atraso, também lhe provocaram ainda mais essa fome. rsssss
- Nem tenho palavras nem lhe
quero responder!
Já a caminho da Arrábida, ele
perguntou-lhe por onde queria começar, o que ela, depois de
pensar algum tempo, respondeu-lhe:
- Se o cavalheiro estiver de
acordo, podemos começar por visitar o Convento de Nossa Senhora
da Arrábida. É um local calmo, onde se vê o mar e sempre me
sinto bem.
- De acordo, pois ainda sou uma
cavalheiro à moda antiga!
- Daqueles que atiram flores às
damas?
- Sou ainda mais completo: não só atiro flores
como também o respectivo vaso! KKKKKKK !! E nesse local podemos
falar mais um pouco de seu avô.
Algum tempo depois chegaram ao convento e numa
das varandas superiores admiraram o belo estuário do rio Sado e
um pouco à esquerda, Troia (portuguesa que fica na margem
esquerda do Sado).
Lembrou-se que quando mais novo, conheceu Troia
ainda estado selvagem, era uma grande herdade, mais tarde
comprada pelo grupo Grão-Pará. Hoje tem vários pavilhões e
condomínios.
Também se lembrou que um grande amigo dele, nas
escavações arqueológicas para prática de seu curso, em
determinada altura encontrou um cobra. Fugiu gritando que tinha
encontrado uma cobra com mais de três metros. Os companheiros
mataram a cobra e ao medi-la não tinha mais de 70 centímetros.
Nesse acampamento, ficou conhecido por Cobra de três metros!
- Mas estamos aqui para falar de
meu avô Rick, não é assim bela dama?
- Foi o combinado, embora
possamos falar e admirar esta paradísica paisagem.
- Tínhamos ficado com meu avô em
Moçambique, onde trabalhou desde a hotelaria, construção civil,
e até de ladrão e assaltante de bancos, pessoas singulares,
casas tudo que lhe viesse à mão.
Teve vários filhos de várias
mulheres, moçambicanas, que os abandonou à sua sorte.
Nessa altura, Moçambique como
quase toda a África, exumava de nazis (identificados mas nunca
punidos).
Viu-se perseguido pelas
autoridades e pelos nazis que nunca lhe perdoaram o fato de ele
ter morto um seu general em Casablanca.
Por sorte, conseguiu arranjar
emprego, como ajudante de cozinheiro, num barco argentino, que
estava quase a zarpar para Montevidéu.
- Então seu avô viveu na
Argentina?
- Não por muito tempo. Mudou-se
para o Paraguai e com a dificuldade de arranjar emprego,
tornou-se contrabandista entre este país e o Brasil.
A propósito, para não ficarmos
aqui só a olhar para o estuário do Sado, podíamos ir até à praia
do Portinho da Arrábida, andar um pouco na areia e depois
sentarmos numa esplanada para lhe contar mais sobre a vida que
meu avô teve.
- Vamos então até à praia.
O caminho para esta praia é
deslumbrante, e a praia linda. Descalços, andaram pela areia
dourada e depois de distenderem os músculos das pernas,
sentaram-se numa esplanada junto ao mar, onde ele continuou a
narração.
- Ainda no Paraguai, meu avô teve
uma enorme rija com seus sócios do contrabando, onde matou dois
companheiros. Perseguido pelas autoridades desse país, andou
fugido de terra em terra, vivendo de roubos e de assaltos, em
companhia de uma mulher com quem viveu algum tempo.
Cada vez mais perseguido pela
polícia, teve de fugir e atravessar o rio Paraná, numa noite
escura, para se refugiar em território brasileiro.
Durante algum tempo, refugiou-se na cidade de
Bagé, onde reencontrou um antigo companheiro do contrabando e
outras coisas mais em território paraguaio, que lhe indicou um
amigo dele que vivia numa favela do Rio de Janeiro.
Como estava também referenciado no sul de Brasil,
urgia fugir daquelas paragens. Como não tinha dinheiro, teve de
voltar aos roubos e assaltos a pessoas para poder sair do sul o
mais rápido possível.
Num desses assaltos, feriu-se num
pé e teve que ficar escondido em casa de esse amigo, conhecido
por Speed. Foi esse amigo que pediu a um amigo camionista que
lhe desse uma boleia até Curitiba, dando-lhe também algum
dinheiro para que ele pudesse chegar ao Rio de Janeiro.
De Curitiba, conseguiu uma boleia
também em camião até Ribeirão Preto, já em pleno Estado de São
Paulo. Daí como não conseguiu arranjar boleia até ao Rio de
Janeiro, roubou um carro até gastar o combustível; depois outro
e ainda mais outro até chegar à favela para procurar o tal amigo
que o Speed lhe tinha indicado.
Esse amigo, o Amadeu só dois dias
regressou à favela com as suas meninas, pois, além de traficante
também era proxeneta. Desconfiado a princípio, foi ganhando
confiança no meu avô e até começou a dar-lhe trabalho fazendo
este entregas de produtos proibidos.
As coisas trabalho/dinheiro iam
correndo bem até que a polícia militar fez uma rigorosa rusga à
favela procurando marginais.
Meu avô, o tal Amadeu e suas
meninas conseguiram fugir indo viver para outra favela distante
daquela.
- Júlio, não vem a propósito, mas
já estamos na hora do almoço. Que tal?...
- Tem razão, Ivone. Vamos até Sesimbra e passar
por belos sítios com belos panoramas.
Já perto de Sesimbra, ela perguntou-lhe a sorrir:
- O meu nobre companheiro de passeio, o que me
vais sugerir para o almoço?
Ele deu uma gargalhada antes de replicar-lhe:
- Minha nobre e linda
companheira, quando chegarmos ao restaurante e consultar o
cardápio, é que lhe poderei sugerir um almoço digno de sua
nobreza! Kkkkkkk
- Kkkkk, confio plenamente no seu
gosto culinário, kkkkk, meu nobre amigo!
Já no restaurante bem perto do
mar, depois de consultar o cardápio, Júlio sugeriu a sua amiga
Robalo no Sal.
- É Júlio, é um manjar dos
deuses, já há muito tempo que não como essa especialidade. Será
preciso dizer que estou completamente de acordo?
- Só um pormenor: é um manjar
digno de uma deusa e de um deus. Também já há tempo que não
saboreio tal delícia! E preferência para o vinho?
- Se estiver de acordo, talvez um
verde Aveleda?
- Muito bem!
O robalo no sal é uma delícia. O
peixe é colocado num tabuleiro, no meio de sal grosso, vai ao
forno durante cerca de meia hora. Depois, o sal é retirado
juntamente com a pele e é servido com batatas cozidas pequenas,
verduras ou salada de alface.
Depois do almoço, resolveram ir
até à também linda praia de Figueirinha, onde ele continuou a
sua narrativa sobre o que sabia de seu avô paterno. Descalços
pisando a areia, desta vez de mãos dadas, andaram um pouco até
se sentarem numa esplanada.
- Como já lhe disse, meu avô teve
de mudar de favela com seu amigo. Tudo corria, digamos bem, até
meu avô Rick se apaixonar por uma prostituta, uma das meninas do
tal Amadeu, por acaso a mais bonita e mais novinha.
Quando Amadeu descobriu o tal
amor, jurou matar meu avô e a moça. Tiveram que se esconder para
outra parte do Rio de Janeiro, onde ela trabalhava e ele era o
proxeneta. Foram descobertos por capangas do Amadeu e tiveram
mais uma vez de fugir.
Como a Juciley tinha família no Nordeste, em
Fortaleza, resolveram ir para lá. Apanharam um pau de arara
(camioneta de caixa aberta, que transportava pessoas do nordeste
que iam procurar trabalho no Rio ou em São Paulo). Como o
dinheiro era pouco, só foram transportados até ao Recife, onde
Juciley começou a trabalhar até arranjarem dinheiro para chegar
a Fortaleza. Ela trabalhou vários meses até conseguir dinheiro
para a viagem, também de pau de arara.
O dia chegou e após vários dias de sol intenso e
chuva intensa, conseguiram chegar exaustos até à bela cidade de
Fortaleza. Na primeira noite, ficaram os dois na areia da praia
de Iracema, sem comerem nada.
No dia seguinte, foram a um
bairro desta cidade, a casa de uma prima de Juciley que era dona
de uma casa de passagem ou espécie de bordel. Recebeu-a com
simpatia, ela contou sua vida e apresentou-lhe o meu avô.
A moça, que na altura tinha 16
anos, pediu à prima que a ajudasse, mas esta fez certas
reticências pela pouca idade dela. No centro da cidade, não era
conveniente, só se ela quisesse trabalhar em Vicente Pinzon, o
que a moça, devido à situação financeira aceitou.
Combinaram então as condições
(quase um contrato de trabalho: 45% para a prima, outro tanto
para a Juciley e 10% para meu avô, como segurança (capanga)
dela.
- Se houver trabalho deve dar
para viver, ou seja, alugar uma casa e comer todos os dias.
- Para você, que é muito jovem,
trabalho não vai faltar, para mais tenho lá uma menina que se
vai reformar disse-lhe a tal prima.
Tudo corria normalmente, quando
uma noite, ao sair de um boteco, viu que um cliente estava a
agredir Juciley, Puxou por uma faca e dirigiu-se para defender a
mulher. O outro homem, pegou numa pistola e deu-lhe dois tiros
fugindo em seguida. Ainda levaram meu avô ao hospital, mas
quando lá chegou, já ia morto.
Como não tinha documentos nem
ninguém reclamou o corpo, meu avô foi enterrado numa vala comum
do cemitério São João Batista, como �desconhecido, em Fortaleza.
Foi assim, parte da vida e morte
de meu avô Rick Blaine.
- Júlio, e conseguiram apanhar o
agressor que causou a morte a seu avô?
- Não, pois não era conhecido por
aquelas bandas e a Juciley não conseguiu dar os dados precisos
do indivíduo.
- E como conseguiu esses dados
(ou pormenores) todos?
- Fui militar em Moçambique e
tive curiosidade em saber algo dele. Procurei em vários lados,
até na polícia e cheguei a um português que o tinha conhecido e
sabia que ele tinha arranjado trabalho nunca barco que ia para a
Argentina.
Mas deste país, não consegui
saber nada. Só mais tarde, um amigo que morava no sul do Brasil
começou a apanhar o fio da meada, em Bajé.
Numa das minhas visitas ao
Brasil, contatei com um indivíduo que na altura dos
acontecimentos, trabalhava para o Speed, que em troco de algum
dinheiro, me contou parte da história e me deu contato para eu
procurar no Rio de Janeiro o tal Amadeu.
Também já não era vivo, mas um
sobrinho dele, que também sabia da história, me contou algumas
coisas, entre as quais, ele e a Juciley tinha fugido para
Fortaleza. Fui até à linda Fortaleza e por informação de um
antigo agente da polícia, consegui saber que a antiga moça de
meu avô ainda era viva e deu-me o endereço.
- Quer então dizer que conseguiu
falar pessoalmente com a última mulher de seu avô?
- Tomou o negócio da prima quando
esta morreu e continuou-o com responsável. Quando me apresentei,
notei que ela ficou muito comovida, começando por me dizer:
- Você é tão bonito como era seu
avô! Quase cai das nuvens!
- Ainda hoje não é coisa para se
deitar fora! kkkkkkkk
- Ivone, por favor, não me goze.
Devia ter-me conhecido a alguns anos atrás digo sem vaidade.
- Acredito. Mas voltado a seu
avô, foi a Juciley que lhe contou o resto da história, não foi?
- Sim e com todos os detalhes
como contei a você.
- Está na hora de regressarmos a
nossas casas. E já vamos chegar de noite.
- Podíamos jantar pelo caminho?
- Não posso. Tenho que jantar em
casa pois é dia de meu filho que está nos Estados Unidos me
telefonar.
- Mas ainda não me contou a
história de sua avó Ilsa Lund.
- Que é longa, mas fica para
outro dia. Vai ver que em determinada época, seu avô não foi tão
mau como você no relato que me fez, o julga. Fica para outro
dia.
Já em Lisboa, ao despedir-se dela
ainda dentro do carro, beijaram-se nas faces, mas sem querer (?)
seus os lábios roçaram um pelo outro. Enquanto se afastava,
Júlio pensou:
- Que lábios macios a Ivone tem.
E doces.
- Será que o Júlio tivesse feito
de propósito? Mas tem uns lábios maravilhosos?.