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Prenda de Aniversário in "O gato das oito vidas"

Verónica Contreiras fazia anos. Cinquenta e cinco.
Acordara tranquila, depois de um sono natural e reparador, sem sonhos. Espreguiçara-se languidamente e permanecera deitada, concedendo-se uns minutos adicionais de repouso. O lugar na cama ao lado do seu estava vazio e fazia-se ouvir o ruído da água do chuveiro na casa de banho contígua. O marido estava a tomar duche.
Alguns minutos depois o ruído da água corrente cessara e o marido aparecera em tronco nu, com a toalha de banho à cintura, pele e cabelo ainda húmidos. Inclinara-se sobre a cama e beijara-a carinhosamente:
- Muitos parabéns, meu amor!...
- Obrigada, querido! – respondera Verónica com um sorriso, limpando com a mão as gotas de água com que havia sido involuntariamente salpicada.
Ainda na cama, observara o marido enquanto se vestia com desembaraço, peça a peça como num ritual, diante do grande espelho da cómoda. Era uma visão que sempre lhe dera prazer. Gostava em especial da precisão com que ele executava o nó da gravata, cuja ponta ficava a bater rigorosamente a meia altura da fivela do cinto, exactamente como mandam as regras.
Verónica viu-o pentear o cabelo, muito curto e grisalho, vestir o casaco de bom corte e perfumar-se com uma quantidade mínima de eau de toilette. E não pôde deixar de sorrir. O marido não gostava de se perfumar. Fazia-o apenas porque era um dia especial – o aniversário da esposa.
António Contreiras era um homem de meia-idade, alto e bem constituído, sólido e desempenado. O rosto, escanhoado e escurecido pelas raízes de uma barba cerrada, era um pouco largo mas não deixava de ser agradável. Era o rosto de uma pessoa calma e controlada. A pele era morena e os olhos pequenos, de cor azul miosótis, encimados por sobrancelhas espessas que quase se uniam. O nariz era direito e correcto, e os lábios carnudos abriam-se amiúde num sorriso franco. Vestia-se com o aprumo adequado à sua idade e posição. Bastava olhar para ele para se perceber que provinha de uma boa estirpe. Contudo, era simpático, sem quaisquer resquícios de afectação.
Estavam casados havia trinta anos. Um casamento feliz. Porém, em termos de trabalho, para ele, reputado arquitecto, era um dia como outro qualquer. As comemorações da efeméride teriam de ficar para a noite, com tempo.
- Um dia feliz, querida! – desejara, antes de sair de casa, beijando a esposa ao de leve – Até logo!
Na editora que Verónica dirigia também era um dia como outro qualquer. Por isso não quisera deixar de ir trabalhar. Mas dera-se ao luxo de se levantar tarde e de se arranjar com um especial cuidado. Pintara-se menos discretamente que o habitual e fora à massagista e ao cabeleireiro. O que a fizera chegar à editora com duas horas de atraso. Facto irrelevante, quando se é a patroa. Os seus colaboradores haviam-na felicitado e presenteado com um grande ramo de rosas, de um branco imaculado, símbolo da amizade e respeito que lhe dedicavam. Verónica deixara-se sensibilizar mais que aquilo que o seu carácter um tanto rígido faria prever. Conquanto não fosse snobe, sabia marcar as distâncias. E permitira-se sair cedo, de forma a desfrutar de umas horas de ócio privado, antes de jantar.
Bem disposta, dirigira-se para casa, ao volante do seu carro de serviço, conduzindo suavemente, sem pressas. Chegada, substituíra o tailleur por um confortável roupão e os sapatos de salto por um par de pantufas macias, após o que se recostara num dos sofás da sala, imersa na penumbra, de olhos fechados e corpo relaxado, enquanto da aparelhagem sonora saíam os acordes de uma fuga de Bach. E depressa adormecera.
Quando acordou, verificou que tinha dormido quase duas horas. Sentia-se leve, retemperada. Não havia nada melhor que uma boa sesta. Verónica olhou para a parede iluminada pelos raios de sol que entravam através das junções da persiana. O seu salão agradava-lhe. Era amplo e bem decorado, como convinha a um casal bem sucedido na vida. Em tons de cinza e beije, onde reproduções de quadros de Kandinsky e Braque davam uma nota de cor, harmonizava-se com o panorama oferecido por uma janela rasgada que se abria sobre o Tejo. Verónica ergueu-se do sofá, aproximou-se da janela e olhou para fora. Um mar cinzento, espelhado, espraiava-se à sua frente, enquanto uma névoa esbranquiçada envolvia o extremo sul da ponte Vasco da Gama. A pujança do sol primaveril, em declínio num céu azul pálido, não fora suficiente para evaporá-la.
- Ainda bem que nasci na primavera! – pensou. Era a estação do ano que melhor se coadunava com a sua personalidade. A natureza desabrochava, propagando uma renovada energia de esperança. Distraída, deixou o olhar deambular pela vastidão do horizonte. Sem dúvida, era um privilégio desfrutar de tal panorama da casa onde se vivia. A visão daquele extenso lençol de elemento líquido apaziguava a sua natureza lutadora, com tendência para um excesso de adrenalina. Adrenalina aliás necessária para bem gerir a empresa que herdara do pai. Administrava-a com mão de ferro. E a sua gerência eficaz içara-a a uma posição mais elevada que aquela onde se encontrava quando lhe viera parar às mãos. Verónica tinha espírito de liderança e não temia um desafio. Gostava da sensação de poder, de ser obedecida, do risco. A sua intuição era certeira e raramente perdia uma aposta. E, se tal acontecia, aprendia pelo menos a lição. Nunca repetia um erro.
Mas fazer cinquenta e cinco anos era um caso sério. A velhice batia-lhe à porta. Verónica relembrou com nostalgia os dias de aniversário passados sem que tais pensamentos lhe aflorassem o cérebro. Recordava em particular uma frase ouvida inúmeras vezes a seu pai:
- A decrepitude não se instala lentamente. Não. Chega de repente. Um dia olhamos para o espelho e achamo-nos muito bem e, no dia seguinte, reparamos que estamos velhos!...
Cinquenta e cinco anos! Num impulso voltou costas à janela e dirigiu-se à casa de banho - à sua casa de banho privativa. Aí, em frente do espelho, examinou-se demorada e friamente. Ainda era bonita. Tinha boa figura. E classe. Possuía um bom cabelo, que usava escadeado curto, no tom natural castanho escuro. Não havia necessidade de o pintar. Os cabelos brancos ainda eram raros. No rosto oval a fronte era larga e lisa e os olhos, grandes e castanhos, mal tinham pés de galinha. O nariz era perfeito (quem disse que nariz não é feição?), e a boca, pequena e de lábios finos, quando queria, abria-se num sorriso cativante. A maquilhagem camuflava as raras manchas castanhas da pele, que muitos verões na praia haviam provocado. Sim, estava satisfeita com o que via. Sorriu intimamente. Continuava a passar por muito mais nova. Todavia, o olhar desceu um pouco e encontrou um queixo cuja flacidez o fazia pender ligeiramente. E, mais abaixo ainda, um pescoço onde eram nítidos dois vincos paralelos, em circunferência. A satisfação esmoreceu. Pescoço de velha. Tinha de fazer um peeling com urgência. Havia muito tempo que não fazia nenhum. E pediria ao seu esteticista que dedicasse uma atenção especial àquela zona. Não havia dúvida de que o pescoço era uma das partes do corpo onde a idade era mais indisfarçável. Fez um esforço para se endireitar e aquele, distendido ao máximo, ficou quase liso. Era isso. Manter uma aparência jovem exigia, cada vez mais, pose permanente e vigilância constante. Enquanto fosse praticável. Depois, talvez a cirurgia. Verónica não entregava os pontos finalmente.
Voltou a mirar-se de um lado e de outro, na nova postura. De facto, em rigor, não aparentava mais de quarenta anos. Além de que as roupas de tons claros que usava aliviavam-lhe o semblante. Tranquilizada, voltou para a sala e sentou-se comodamente. Uma vez aí, voltou a mergulhar na reflexão. Com efeito, a idade não trazia nada de bom, excepto um maior discernimento sobre os factos da vida. Envelhecer era o preço a pagar pela clarividência. E imaginou a noite que se aproximava.
Dificilmente a surpreenderiam. O filho e a nora apareceriam em sua casa, à hora dos aperitivos, ele bem-humorado e ela com um sorriso de plástico. Depois, chegaria o marido, cansado mas prazenteiro. Tomariam um aperitivo na sala, fruindo da feérica beleza do Tejo, transformado em presépio pelo cair da noite. E seria obsequiada. Do marido, provavelmente uma jóia, que em nada a interessava. Do filho e da nora, talvez uma écharpe assinada ou uma carteira em pele, que ela juntaria, com pretenso agrado, à sua extensa colecção de acessórios. Claro que teria de fingir um verdadeiro apreço pelas ofertas. E seria de bom tom usá-las imediatamente, se a tal fossem passíveis. Agradeceria, moderadamente comovida, o cuidado evidenciado na escolha das ditas que, afirmaria, vinham totalmente ao encontro do seu gosto pessoal. E depois sairiam para jantar a expensas do marido (que era o mesmo que dizer, das suas). Iriam a um bom restaurante, talvez ao Casino, onde decerto a mesa estaria reservada. O repasto decorreria num ambiente aprazível. Falar-se-ia muito, mas de generalidades. Viagens e política. Talvez desporto. Degustariam um bom vinho e ela, pouco habituada a beber, sentir-se-ia algo inebriada. E a noite terminaria num amplexo de amor com o marido que, não sendo um homem apaixonado, era cioso dos deveres conjugais, e nunca deixava passar uma data importante para o casal sem manifestar aquilo que acreditava ser a expressão mais autêntica do seu amor pela esposa.
Enfastiada com estes pensamentos, Verónica abanou a cabeça. Tretas! Tretas e bagatelas! Era evidente a clivagem entre aquilo que os outros pensavam e os seus desejos mais profundos. Porque ninguém sabia o que ela verdadeiramente ambicionava. Nunca o dera a entender. E da sua imagem, profissional e dinâmica, pouco compatível com sentimentalismos, nada era presumível.
Verónica desejava um neto. Aliás, melhor dizendo, uma neta. Mas enfim, desde que se tratasse de uma criança perfeita, não seria esquisita quanto ao sexo. Nascida entre dois irmãos rapazes e privada da mãe (que morrera quando ela tinha doze anos), atravessara a adolescência num universo familiar exclusivamente masculino, com tudo o que isso implica de reserva e sensaboria. Nesse ambiente desarticulado, aprendera a arte de bem ocultar as dúvidas e anseios mais íntimos. O irmão mais velho morrera na Guiné, durante a Guerra Colonial, e o mais novo estava ausente em parte incerta. Provavelmente morto. A última vez que se soubera dele, havia mais de quinze anos, encontrava-se no Rio de Janeiro a contas com a justiça por tráfico de droga. A seguir, desaparecera sem deixar rasto. Constituíra uma longa batalha jurídica dar o irmão como desaparecido para poder tomar posse da empresa do pai, após a morte deste.
Embora involuntariamente, a perda da mãe e de ambos os irmãos havia inculcado em Verónica a consciência da precaridade da vida. E sentira mais do que nunca a falta de alguém que aliasse a empatia do mesmo sexo à proximidade do sangue. Por isso, uma vez casada, desejara uma filha. E nascera-lhe um filho. Contudo, fora fácil conformar-se. O marido ficara radiante com o primogénito varão. E haveria outras hipóteses. Três anos depois tentara de novo a sorte e perdera a criança. Então, contra a sua maneira de ser, fora-se abaixo, física e psicologicamente. Uma sensação de vazio irremediável instalara-se no seu psiquismo marcado por desaparecimentos. No âmago, acreditava ter perdido a tão desejada filha. E, mais por opção própria que por conselho médico, decidira nunca mais engravidar – nunca mais arriscar.
Agora, mais do que nunca, aguardava em silêncio por um rebento do seu sangue. Um herdeiro, o mais completo e empolgante sentido para a vida, perto do qual tudo o resto perdia a importância. E o deslizar do tempo, imparável, empurrando-a para o ocaso da vida, começava a emprestar a esse desejo um carácter de urgência. Todavia Miguel, o filho, casado havia perto de quatro anos, tardava em dar-lhe essa alegria.
É certo que Verónica não gostava da nora. O sentimento que esta lhe inspirava oscilava entre a condescendência e a antipatia. Não obstante, tolerava-a, esperando que ela desse corpo, no sentido literal do termo, ao seu mais secreto e ardente (quiçá o único) desejo na vida.
Com efeito, Marta estava a milhas da nora ideal. Quando a conhecera, Verónica sofrera um choque, só amortecido pelo seu longo tirocínio de auto domínio. Custara-lhe a acreditar que fosse aquela a eleita do coração do filho. Apesar de burilada, era patente a sua baixa origem social. Pobre Miguel! Como fora possível que tivesse caído por uma criatura assim?! Ele, que podia ter qualquer mulher no mundo! Não sendo uma mãe galinha, Verónica reconhecia no filho um belo rapaz. Alto e bem constituído, não era nenhum Adónis, mas tinha umas feições regulares e agradáveis. Herdara a compleição física do pai e os belos olhos da mãe. Era saudável, cheio de energia e possuía uma elegância inata. Jogava ténis e praticava natação. Além disso, era um bom partido. Com trinta anos apenas, adivinhava-se-lhe já uma promissora carreira profissional. Não obstante, Verónica não tentara compreender o filho nem as razões da sua escolha. Havia muito que se recusava a qualquer avaliação dele que ultrapassasse as meras qualidades exteriores. Desde o triste epílogo do caso com Sofia, o seu amor-próprio de mãe impedia-a de o aquilatar segundo outros prismas.
Apesar de pouco emotiva, Verónica sentia um nó na garganta sempre que recordava a infeliz história do namoro de Miguel e Sofia. E, para tanto, tinha razões que só ela e a própria conheciam.
Lembrava-se como se tivesse sido ontem. Miguel conhecera Sofia na Faculdade de Arquitectura. Tinham a mesma idade e, por via de serem colegas de ano e curso, haviam começado a estudar juntos. Verónica surpreendera-os algumas vezes em casa, aparentemente embrenhados no estudo. Não havendo, entre ela e o filho, uma confiança por aí além, escusara-se a comentários. Mas não pudera deixar de reparar na rapariga.
Sofia era linda. O seu cabelo era escuro, ondulado natural, a pele muito branca e os olhos azuis. Conquanto alta e delgada, tinha o busto cheio. Era difícil desprender os olhos dela. Possuía aquilo que se chama encanto natural, além de que os seus modos educados eram reveladores de um bom nível social.
Não foi preciso decorrer muito tempo para se tornar óbvio que a camaradagem de Sofia e Miguel se convertera em namoro. O que agradou sobremaneira a Verónica que, de dia para dia, se sentia conquistada por Sofia. Davam-se bem. Quando conversavam, Verónica ficava admirada com o bom senso e a maturidade da namorada do filho. Em certos aspectos, considerava-a superior a ele. E quase via nela a filha que não tivera.
Poucos meses depois, Miguel declarara que fazia tenção de passar férias com a namorada. Queriam fazer o Inter Rail. Para Verónica, fora a assunção da plenitude da relação do filho. Era óbvio que, se ainda não tinham, iriam ter vida sexual. O que era mais do que natural.
Sendo mulher, Verónica nunca abordara as questões sexuais com o filho. Isso competia ao pai dele. E não pôde deixar de chamar a atenção deste sobre a matéria.
- Está descansada. Eu já tive uma conversa com ele – asseverou António quando Verónica abordou o assunto – além disso, esta geração está muito bem informada.
- Mesmo assim, sinto um certo mal-estar em relação aos pais dela... – retorquiu Verónica – vê-se logo que é uma filha de família...
- Não sintas. Isto agora é o normal.
Verónica não respondeu logo. E, quando falou, fê-lo num murmúrio:
- São muito jovens. Quem anda à chuva, molha-se… E se ela engravidar?...
Porém, o tempo foi passando e os receios de Verónica iam-se revelando infundados. Sofia e Miguel progrediam nos estudos - ela mais depressa que ele, diga-se de passagem - e o namoro singrava sem escolhos. Ambos jogavam ténis, conviviam com outros jovens e viajavam à boa maneira dos andarilhos. Acampavam aqui e ali, durante férias e fins-de-semana, findos os quais cada um regressava à respectiva casa.
- A vida mudou dramaticamente, desde a minha juventude!... – pensava Verónica - ... para melhor!...
Sofia era tudo o que um homem podia desejar. Ela e Miguel formavam um lindo par e pareciam gostar muito um do outro. Raramente se envolviam em discussões, embora Verónica reparasse que Sofia era mais incisiva na maneira de defender os seus pontos de vista. Ela tornara-se praticamente “da casa” e Verónica adorava-a. E, um dia, foi fatal os pais de ambos travarem conhecimento. Como Miguel, Sofia era filha única. O pai era médico - escritor nas horas vagas - e a mãe pintora. Um casal culto, simpático e sem afectações. E foi fácil, da amizade propiciada pelo namoro dos filhos, desembocar-se numa relação de trabalho, com Verónica a editar os livros do pai de Sofia.
Haviam passado meses, anos. Tudo parecia perfeito. Sofia estava no último ano da licenciatura e Miguel um pouco atrás. Provavelmente casariam quando ele acabasse o curso e arranjasse um emprego estável. Ela já granjeara colocação num bom atelier, em part-time.
Apesar da posição confortável, a recordação dos acontecimentos subsequentes provocou em Verónica uma súbita tensão muscular. Com efeito, naquela altura, nada poderia fazer prever o mau bocado que se seguiria.
Certo dia, ao chegar a casa, entrara na sala e vira o filho a preparar-se para sair. Reparara então que, havia duas ou três semanas, não via a futura nora:
- A Sofia? Está fora? Há muito tempo que não a vejo... – perguntara.
Miguel abrira a boca como quem vai responder mas calara-se, indeciso.
- Passa-se alguma coisa? – inquirira Verónica, a quem a hesitação do filho não passara despercebida.
Miguel parecera tomar uma decisão. O seu semblante endurecera:
- Mãe, quero dizer-lhe uma coisa. Mais tarde ou mais cedo, teria de ficar a saber...
Houve um instante de silêncio.
- Más notícias?... – perguntara Verónica, com um súbito pressentimento, suspensa das palavras do filho.
- Sim. Acho que não vai gostar... O meu namoro com a Sofia acabou.
- Quê?!...
- É verdade. Está tudo acabado.
- Miguel!... Não posso acreditar!... Estás a falar a sério?...
- Nunca falei tão a sério na minha vida.
Habitualmente senhora de si e imune à vulgar curiosidade, Verónica não pudera evitar a pergunta fatal:
- Mas porquê, Miguel, porquê?... Que aconteceu?...
- Desculpe, mãe, mas não tem nada com isso!
Estas palavras foram proferidas num tom frio que, embora respeitoso, não admitia réplica. Aos ouvidos de Verónica soaram como uma chicotada. Atónita, só agora percebia o extremo abatimento patente no rosto do filho. E o seu cérebro foi atravessado pela percepção de que pouco conhecia aquele rapaz, melhor dizendo, aquele homem, que fora gerado nas suas entranhas. Não obstante, não se podia calar.
- Não tenho nada com isso? Como, não tenho? Conheço a família! Até edito os livros do pai dela! Que brincadeira é esta? Foste tu que acabaste? – E Verónica cravara os olhos no rosto pálido e inexpressivo do filho.
- Eu já sabia que ia ser difícil dar-lhe a notícia… – dissera Miguel, encarando-a de frente sem subir o tom de voz. E acrescentou, com uma expressão de cansaço – mas, com todo o respeito, da minha vida eu é que sei. Peço-lhe que não insista.
Verónica nunca vira o filho tão determinado. Incapaz de retorquir, permanecera calada e Miguel, tirando partido da atmosfera pesada e imóvel de densa consternação, despedira-se com uma calma forçada, que aos ouvidos de Verónica soara quase como um desafio:
- Até logo, mãe. E acalme-se. Não vale a pena perder o seu tempo a pensar neste assunto!…
Dito isto, rodara sobre os calcanhares e saíra porta fora sem que Verónica conseguisse esboçar um gesto para o reter.
Verónica cerrou os lábios. Tinha sido uma bomba. Não só de alta potência como também de efeito retardado, cujos estilhaços levariam tempo a remover. E pela primeira vez na vida Verónica tivera consciência da relação pouco próxima que a ligava ao filho. É certo que era um rapaz. Todavia, talvez durante a infância de Miguel tivesse sido possível estabelecer um laço mais forte com o filho, enquanto escondia a sua frustração por não ter conseguido gerar uma rapariga.
Nessa noite, discutira longamente o assunto com o marido, que, apesar da sua proverbial bonomia, ficara quase tão incomodado como ela.
- Que nos sirva de lição! – acabara por vociferar António – Não quero mais namoradas cá em casa, muito menos travar conhecimento com as famílias!... Ele que faça o que quiser, desde que seja longe da minha vista!...
- Talvez possas falar com ele... Fazê-lo voltar à razão… – sugerira Verónica, sem grande convicção.
- Eu? Nem penses nisso! Não me vou imiscuir nos assuntos íntimos do meu filho. Se ele precisar de orientação, estarei no meu posto. Mas ir meter-me na vida dele, nunca! O Miguel tem vinte e três anos. É um homem. No entanto, repito, que nos sirva de lição. Intimidades familiares com namoradas, nunca mais!...
Quando duas semanas mais tarde Verónica, por imperativos de negócio, se viu forçada a contactar com o pai de Sofia, fê-lo com algum constrangimento. Porém, para sua surpresa, foi aquele que, logo de início e sem peias, abordou o melindroso assunto:
- Os nossos jovens lá se aborreceram um com o outro... – escutou Verónica, incrédula.
- Parece que sim... – respondeu, sem saber que mais dizer.
- É a vida. Eles é que sabem… Bom, mas em relação à capa do livro, a minha opinião é... - que alívio! O pai de Sofia não estava ofendido! Decerto considerava o que acontecera como uma vicissitude inevitável da vida, e continuaria a falar com ela com toda a naturalidade. Antes assim. Verónica respirou fundo. E concentrou-se na questão colocada com todo o profissionalismo.
Após desligar, raciocinara. Porque supusera ela que o pai de Sofia pudesse sentir-se lesado? Verónica desconhecia por completo razões e detalhes da rotura. Da bonomia do pai poder-se-ia deduzir ter sido a filha a responsável. Nos últimos dias, Verónica tinha vindo, gradualmente, a aceitar os factos. Afinal, o filho é que sabia. Era maior e vacinado. A vida era dele. Tratava-se tão somente do término de um namoro - nada de grave, portanto! E, não sem um certo mal-estar, foi forçada a reconhecer que também ela sofria de algum machismo, que a levava a, no subconsciente, considerar as mulheres mais vulneráveis que os homens. Agora, havia apenas que esquecer, tarefa de que o tempo se encarregaria. Confortada com este pensamento, mergulhou no trabalho. E nessa noite, quando encarou o filho, fê-lo de semblante desanuviado, pela primeira vez, desde a confissão do rompimento.
Poucos dias depois, Verónica encontrava-se na editora quando recebeu um telefonema inesperado.
- Está ao telefone a D. Sofia Veiga – dissera a secretária.
- Estranho… - murmurou Verónica, que nunca mais falara com a ex-futura nora - Que me quererá ela?...
- Pode passar – acabou por dizer.
...
- Está?
- Estou sim, Sofia.
- Preciso muito de falar consigo...
- Estou a ouvir – respondeu Verónica, tentando que a voz lhe saísse o mais natural possível. Não queria mostrar nenhuma espécie de animosidade para com a rapariga.
- Preferia pessoalmente, se não se importa. Posso passar por aí?
- Com certeza.
- Então, até já!
Havia mais de um mês que Verónica não a via e, durante as últimas semanas pensara mil vezes em conversar com ela. Mas decidira-se pelo silêncio. Acima de tudo, queria manter-se no seu lugar. E, no seu imaginário, a imagem de Sofia sofrera um certo decréscimo. Afinal, talvez não fosse assim tão bonita. E havia muitas outras, que diabo!
Meia hora depois, Sofia Veiga entrava no gabinete de Verónica Contreiras. E esta percebeu que o subconsciente lhe tinha pregado uma partida. Sofia continuava linda, como sempre fora. A expressão grave aumentava-lhe o charme. Um pouco a contragosto, Verónica sentiu-se rendida. Sim, ali estava a filha que não tivera. Como negar-lhe alguma coisa?
Cumprimentaram-se. Sofia sentou-se à sua frente e Verónica notou-lhe qualquer coisa de diferente. Talvez estivesse mais pálida que de costume. Ou ligeiramente mais magra.
- Já sabe que eu e o Miguel acabámos tudo – começou Sofia com expressão decidida.
- Sim, já sei. Lamento muito, Sofia – e pensou que não adiantava perguntar porquê. Se ela quisesse dizer, diria.
- Apesar disso, e porque penso que é minha amiga, venho pedir-lhe um favor. Um favor muito especial...
- Sou, efectivamente, muito tua amiga. Pede o que quiseres. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
- Em primeiro lugar, gostaria que a nossa conversa ficasse, para sempre, entre nós. Que nada do que lhe vou dizer alguma vez seja divulgado por si seja a quem for. Refiro-me, em particular, ao Miguel.
- Podes contar comigo. Mas, estás a assustar-me... Que é que se passa?
Sofia pareceu tomar balanço. Os seus olhos procuraram a janela do gabinete, que dava para uma rua movimentada. Quando falou, a sua voz suou a Verónica com um timbre irreal, como se proferida por uma terceira pessoa insensível à gravidade do significado das palavras que acabava de proferir.
- Estou grávida.
- Sofia! - exclamou Verónica, atónita.
Aquilo era um dado novo, crucial! Aquilo mudava tudo! Verónica sentiu o seu coração disparar. A custo, conseguiu articular:
- Tens a certeza?
Sofia largou os olhos da janela e encarou-a de frente:
- Absoluta.
- Meu Deus! E o Miguel sabe?
- Não. Nem pode saber. Eu não posso ter a criança.
- Quê? Que queres dizer com isso?
- Isso mesmo que já percebeu. E é por isso que venho pedir-lhe ajuda. Os meus pais não podem saber de nada. Só em si eu posso confiar!...
- Queres dizer que... - Verónica calou-se, enquanto um turbilhão de pensamentos lhe revolvia a mente.
- Não tenho mais ninguém para me acompanhar, mais ninguém em quem confiar... Por favor... - e Verónica estremeceu ante a súplica velada daqueles belos olhos azuis dos quais começavam a escorrer algumas lágrimas impossíveis de conter. Pobre criança! Agora, percebia tudo. E, naquele momento, só conseguiu sentir horror por aquilo que o filho tinha sido capaz de fazer. Ali, diante de si, não estava apenas a filha sonhada, mas, e sobretudo, a vítima a pedir ajuda.
- Pois sim... – viu-se forçada a dizer, como se o destino a houvesse encurralado numa armadilha cruel.
Foi uma temeridade. Só mais tarde Verónica se aperceberia de todas as vertentes do risco tremendo que correra. Mas algo muito forte a impelia a ajudar uma pessoa que acreditava ter sido prejudicada pelo próprio filho. E era mulher de uma só palavra.
Como que comandada por uma vontade superior à sua, e despida de toda a carga emocional, Verónica acompanhou Sofia à clínica e aguardou pacientemente enquanto, na sala de operações, um médico exterminava o seu neto indefeso. Durante as horas subsequentes, não saiu da cabeceira da rapariga, atenta a qualquer sinal de alarme. Sofia gemia e Verónica mantinha a mão dela dentro das suas, enquanto lhe segredava, na voz mais doce de que era capaz, palavras de calma e de ânimo.
No dia seguinte voltou ao teatro das operações, passou um cheque que liquidava a intervenção por inteiro (contra o desejo de Sofia, que não desejava ajuda financeira) e transportou a paciente, pálida e combalida, até à porta de casa. No final, despediram-se sem efusões. Apesar de todo o apoio que lhe prodigalizara, Verónica não podia perdoar a Sofia o ter-lhe destruído a imagem do filho. Nunca mais a queria ver. Mas o seu segredo não podia estar mais seguro. Verónica levá-lo-ia para o túmulo.
Três anos depois, de curso acabado e em franca ascensão na vida, Miguel declarara em casa que se ia casar. Verónica e o marido haviam-se negado a qualquer convívio com a namorada do filho até a data do enlace estar fixada. E, somente algumas semanas antes desta, anuíram em conhecer a futura nora.
E que nora! Marta era insinuante, demasiado vistosa. Bonita, sem dúvida, mas de um tipo levemente grosseiro. Com o cabelo loiro artificial, os olhos enormes maquilhados em excesso, as maçãs do rosto salientes e o corpo curvilíneo, tornava-se mais sensual que elegante. Ademais, vestia-se e movimentava-se como se o seu maior fito fosse atrair os homens.
Verónica não conseguia perceber o que Miguel vira nela. Nem nunca o saberia. A confiança entre ela e o filho esmorecera havia muito. Mas não tivera outro remédio senão receber a nora condignamente. Marta era a antítese de Sofia. Embora não fosse malcriada, falava sem propriedade, revelando uma certa dificuldade de expressão. Não era, sequer, simpática. Os seus modos eram bruscos, de quem prefere o alarde ao diálogo. Com uma escolaridade mediana e oriunda de uma família sem posses, trabalhava desde os dezoito anos para os seus gastos pessoais, como operadora de back office, por conta de uma empresa de trabalho temporário. Intelectualmente era um zero.
Verónica ainda se recordava demasiado bem das expressões perplexas de muitos dos seus convidados para o casamento, (financiado exclusivamente pela família Contreiras – afinal, casavam o seu único rebento), ante o aspecto daquela noiva, pintada como uma corista e vestida com um arrojo despropositado. E aquela família?! Santo Nome de Cristo! Cada um pior do que o outro. Uma longa série de irmãos e irmãs, elas com ar de galdérias, eles com ar de chulos, filhos de um labrego que nunca abria a boca e de uma varina que nunca a fechava!...
Verónica suspirou, descontente. Dentro de cada homem há uma besta e o seu filho não era excepção. Verónica sabia-o bem. Miguel fora apanhado pela cama. Tratar-se-ia, fundamentalmente, de atracção física. E lá bom físico tinha Marta, sem dúvida: pernas bem torneadas, peitos salientes, cintura marcada, traseiro protuberante... Toda ela transpirava lascívia. Além disso, possuía o viço da juventude. Esse, porém, não duraria muito. Marta era uma grande fumadora e é um dado adquirido que o tabaco dá cabo da pele. Decerto, se chegasse aos cinquenta e cinco anos, estaria muito pior do que a sogra. E, no meio da amarga avalanche de pensamentos que a submergia, Verónica sentiu algum consolo com esta percepção.
Mas a vida acabara pregando a Verónica uma grande partida – o facto de ter de confiar ao ventre daquela criatura desinteressante a geração do seu herdeiro. Todavia, nem para isso ela parecia servir. Marta tivera vários rebates falsos, todos durante os primeiros anos de casada. Depois, nem isso. Incrível como o seu bem dotado físico se estava a revelar ineficaz em relação à função reprodutora. Verónica chegara a sugerir-lhe que consultasse um especialista em esterilidade. Mas o assunto nunca mais fora abordado.
Verónica estremeceu ante a necessidade absoluta de esconder o seu desapontamento. Que orgulho incomensurável este, o de desejar descendência! Nascemos com o desejo inculcado, no mais fundo do nosso ser, de transmitir os nossos genes, como se o nosso código genético fosse um imenso tesouro, um tesouro a preservar a qualquer preço. Estranha armadilha da natureza! Por isso o desejo sexual era tão forte, a energia sexual tão determinante na vida das espécies! Infelizmente, a idade apaziguava-nos o desejo sexual mas não o orgulho de desejar descendência.
Quanto a Sofia, teria preferido permanecer na total ignorância de tudo o que lhe dizia respeito. Porém, a continuada relação de trabalho com o pai dela tornava isso virtualmente impossível. Nunca mais a vira mas, mesmo sem querer (era evidente a discrição e o tacto do progenitor), Verónica acabara por saber que, cerca de um ano depois do enlace de Miguel, ela também havia casado. O marido era médico, já tinham dois filhos – um rapaz e uma rapariga - e tudo indiciava que a vida lhe corresse de feição. Verónica suspirou entristecida. Uma dorzinha muito fina trespassava-lhe o peito sempre que se recordava que, muito provavelmente, não fosse a cobardia do filho, poderia já ter um neto (ou neta!) com sete anos de idade, além de uma nora maravilhosa.
De repente Verónica reparou no relógio de parede e teve um sobressalto. Passara mais de uma hora entregue às divagações. Havia que descer à terra. O filho não tardaria aí. Espreguiçou-se para desanuviar o espírito e afastar os fantasmas. Pragmática, sabia que tinha de viver de realidades e não de sonhos. Era tempo de se ir arranjar. Dirigiu-se ao seu closet onde escolheu uma indumentária apropriada. Vestiu-se, retocou a pintura e regressou à sala. Nesse preciso momento, a campainha da porta tocou.
Pouco depois, Miguel entrou na sala, seguido por Marta.
- Muitos parabéns, mãe! Conte muitos! E que a vida lhe traga muitas coisas boas!... – exclamou Miguel, enquanto estendia os braços para Verónica e a abraçava.
- Obrigada, meu filho – respondeu, perfeitamente senhora de si. Fechada a janela dos devaneios, readquirira a compostura habitual.
Marta avançou para ela.
- Parabéns! – disse, enquanto se beijavam.
Verónica e Marta sentaram-se. Miguel foi preparar as bebidas - para a mãe e para a mulher, gin tónico, para si, uísque com gelo. Verónica estranhou. E a sua prenda? Não que lhe interessasse particularmente, mas nunca passara um aniversário sem receber uma lembrança do filho. Perplexa, observou-o. Estava bonito, num fato escuro, com colete. Volveu os olhos para a nora e apreciou-lhe a toilette. Para não variar, era um pouco espaventosa. A blusa coleante, preta e arrendada, deixava de fora metade do seio. A saia preta, embora comprida, cindia-se em dois panos através de uma abertura que lhe expunha por completo as coxas. Verónica encontrou os olhos de Marta, e esta esboçou um sorriso.
- Miguel, podemos contar a novidade à tua mãe?... – proferiu, fitando a sogra com uma inusitada expressão de simpatia.
- Que novidade? – quis saber Verónica, a quem as palavras da nora haviam espevitado.
Nesse momento, a porta abriu-se e o marido de Verónica apareceu. Trazia na mão um embrulho, sóbrio e de pequena dimensão, típico de joalharia. Verónica não pôde deixar de reparar como o marido ainda era um belo homem. Miguel parecia-se com ele.
- Alguém falou em novidade? – inquiriu. E estendeu os braços para Verónica, enquanto lhe introduzia na mão o discreto embrulho. – Parabéns!...
Como lhe competia, Verónica concentrou-se na prenda. Rasgou o papel e destapou a caixa, exibindo um estojo de veludo azul-escuro. Aberto este, revelou um relógio de ouro branco, incrustado com pequenos diamantes, lindíssimo. Apesar do seu moderado entusiasmo, não pôde impedir uma exclamação:
- Que maravilha!
- Os diamantes são eternos, minha querida – brincou o marido. E, enquanto preparava uma bebida, perguntou:
- Então? E essa novidade?...
- Eu é que pergunto – respondeu Verónica – Miguel, o que é que se passa?
Marta e Miguel estavam de pé, perto da janela.
- Nunca me canso desta vista – disse Miguel. Depois, despegou os olhos do panorama, passou o braço pelos ombros de Marta e proferiu:
- Mãe, a novidade que a Marta e eu temos para lhe dar é que, finalmente, vai ser avó. Ambos acreditamos ser esse o seu maior desejo. Por isso, embora já o saibamos há algum tempo, esperámos por este dia especial para lho comunicar...
Verónica susteve a respiração. O coração acelerou-se-lhe. Porém, lembrou-se dos falsos alarmes do passado e questionou com uma entoação de dúvida na voz:
- Têm a certeza?
- Sim.
Para evitar ter de falar, Verónica bebeu um longo trago do gin tónico. Não sabia bem porquê, não sentia a alegria esfuziante que seria suposto sentir. Alguma coisa lhe estava a soar a falso. Eles nem por isso pareciam radiantes. Contudo, levantou-se e beijou a nora e o filho.
- Então, também estão de parabéns!... – e sorriu o melhor de que foi capaz. – Tens passado bem, Marta? – perguntou, solícita.
Escutando esta interrogação, Miguel interveio:
- Mãe, a Marta não está grávida. Nós vamos adoptar uma criança. Uma menina.
- Quê?!
- É verdade. Já está tudo tratado. Foi um processo longo mas, desde a semana passada, já conhecemos a bebé que nos está destinada.
- Meu Deus! – Verónica não sabia o que pensar. Afinal, eles conheciam o seu maior desejo! – Mas porque tomaram esta decisão? – perguntou.
Foi Marta quem se adiantou. E falou com uma segurança que Verónica nunca lhe conhecera.
- Porque, com muita pena nossa, não podemos ter filhos. Tentámos tudo o que podia ser tentado.
António, até aí calado, acrescentou:
- A bebé é linda, Verónica. E eles vão dar-lhe o teu nome.
- O quê?! Tu sabias disto?... Mas é um autêntico complot!...
- Soube há uma semana.
- Fui eu que pedi ao pai para não lhe dizer nada – interferiu Miguel – Como se aproximava o dia do seu aniversário, resolvemos esperar para então lhe dar a notícia.
Verónica calou-se. Estava em choque. Ia ser avó de uma criança que nunca vira, que não era do seu sangue, que, consequentemente, não lhe asseguraria a perpetuação dos genes... Não era isso que queria! NÃO ERA! E sentiu uma repentina revolta contra tudo e contra todos. Contra o filho, que desprezara o fruto do seu amor no ventre de Sofia. Contra a nora, cujo útero estéril a impedia de cumprir a única função para a qual Verónica a julgara competente. E até contra o marido que, apesar de dormir com ela havia trinta anos, a desconhecia ao ponto de supor que a notícia acabada de receber a encheria de alegria. Imbecis! Pobres tolos, todos eles!...
- Não ficou contente? – Marta olhava para ela com uns olhos atentos, demasiado pintados.
- Eu? Oh, fiquei! Claro que fiquei! É que... foi uma notícia muito repentina. Mas diz-me Marta, fizeste tudo o que podias fazer? Todos os exames?... Todos os tratamentos?... Tudo?...
- Eu? Sim, fiz. Claro que fiz. Não há nada de errado comigo!... – Marta regressara ao costumeiro tom abrupto.
- Como, não há? Então, porque é que nunca engravidaste?... – Verónica fixou na nora um olhar abismado.
- Mãe, escute – interveio de novo Miguel, de semblante severo – A Marta é uma mulher perfeita. Com ela, está tudo bem. Pode ter os filhos que quiser. Eu é que... - E Miguel hesitou.
- Oh! Cala-te! – interrompeu-o Verónica.
Não queria ouvir mais nada. Não conseguia compreender. Decorreram uns instantes de silêncio espesso, que ninguém ousou violar.
- É verdade, mãe! – proferiu Miguel, por fim, com a voz embargada – Também me foi difícil aceitar. Lembra-se daquela virose estranha que eu tive em criança? Foi isso que me esterilizou. Pelo menos, os médicos inclinam-se para essa hipótese. Nunca gerei nem nunca poderei gerar nenhum filho. Perdoe-me por não poder dar-lhe essa alegria.
- Cala-te! Por amor de Deus, cala-te! – Verónica tapou os ouvidos e, num repente, levantou-se e saiu da sala. Miguel fez menção de a seguir. O pai segurou-o por um braço.
- Deixa-a ir… Ela precisa de estar só.
Calaram-se todos. O som do choro de Verónica, vertido nas entranhas da casa, chegava até à sala, entrecortado por soluços. Trémulo, Miguel levantou-se e foi preparar outra bebida. Não se lembrava de alguma vez ter ouvido a mãe chorar. Marta acendeu um cigarro, pegou numa revista e começou a folheá-la compulsivamente. O pai olhava a vastidão do mundo, através da janela. Os soluços de Verónica sacudiam-no interiormente. Estava casado havia trinta anos e amava a mulher.
Esperaram. A pouco e pouco o choro foi abrandando, até se tornar inaudível. Ninguém ousava falar. Por fim, vinte minutos depois, Verónica apareceu de novo na sala. Mudara de roupa, escovara o cabelo e retocara a pintura.
O marido olhou-a com uma expressão de aprovação. Ninguém diria que ela fazia cinquenta e cinco anos. Aparentava quarenta.
- Já deve passar da hora que marcaste no restaurante – disse Verónica, dirigindo-se ao marido.
- Com efeito, já passa...
- Aonde vamos? – quis saber.
- Ao Casino.

Adelina Velho da Palma
http://adelinapalma.com/prenda-de-anivers-rio/

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