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Prenda de
Aniversário in "O gato das oito vidas"
Verónica Contreiras fazia anos.
Cinquenta e cinco.
Acordara tranquila, depois de um
sono natural e reparador, sem
sonhos. Espreguiçara-se
languidamente e permanecera deitada,
concedendo-se uns minutos adicionais
de repouso. O lugar na cama ao lado
do seu estava vazio e fazia-se ouvir
o ruído da água do chuveiro na casa
de banho contígua. O marido estava a
tomar duche.
Alguns minutos depois o ruído da
água corrente cessara e o marido
aparecera em tronco nu, com a toalha
de banho à cintura, pele e cabelo
ainda húmidos. Inclinara-se sobre a
cama e beijara-a carinhosamente:
- Muitos parabéns, meu amor!...
- Obrigada, querido! – respondera
Verónica com um sorriso, limpando
com a mão as gotas de água com que
havia sido involuntariamente
salpicada.
Ainda na cama, observara o marido
enquanto se vestia com desembaraço,
peça a peça como num ritual, diante
do grande espelho da cómoda. Era uma
visão que sempre lhe dera prazer.
Gostava em especial da precisão com
que ele executava o nó da gravata,
cuja ponta ficava a bater
rigorosamente a meia altura da
fivela do cinto, exactamente como
mandam as regras.
Verónica viu-o pentear o cabelo,
muito curto e grisalho, vestir o
casaco de bom corte e perfumar-se
com uma quantidade mínima de eau de
toilette. E não pôde deixar de
sorrir. O marido não gostava de se
perfumar. Fazia-o apenas porque era
um dia especial – o aniversário da
esposa.
António Contreiras era um homem de
meia-idade, alto e bem constituído,
sólido e desempenado. O rosto,
escanhoado e escurecido pelas raízes
de uma barba cerrada, era um pouco
largo mas não deixava de ser
agradável. Era o rosto de uma pessoa
calma e controlada. A pele era
morena e os olhos pequenos, de cor
azul miosótis, encimados por
sobrancelhas espessas que quase se
uniam. O nariz era direito e
correcto, e os lábios carnudos
abriam-se amiúde num sorriso franco.
Vestia-se com o aprumo adequado à
sua idade e posição. Bastava olhar
para ele para se perceber que
provinha de uma boa estirpe.
Contudo, era simpático, sem
quaisquer resquícios de afectação.
Estavam casados havia trinta anos.
Um casamento feliz. Porém, em termos
de trabalho, para ele, reputado
arquitecto, era um dia como outro
qualquer. As comemorações da
efeméride teriam de ficar para a
noite, com tempo.
- Um dia feliz, querida! – desejara,
antes de sair de casa, beijando a
esposa ao de leve – Até logo!
Na editora que Verónica dirigia
também era um dia como outro
qualquer. Por isso não quisera
deixar de ir trabalhar. Mas dera-se
ao luxo de se levantar tarde e de se
arranjar com um especial cuidado.
Pintara-se menos discretamente que o
habitual e fora à massagista e ao
cabeleireiro. O que a fizera chegar
à editora com duas horas de atraso.
Facto irrelevante, quando se é a
patroa. Os seus colaboradores
haviam-na felicitado e presenteado
com um grande ramo de rosas, de um
branco imaculado, símbolo da amizade
e respeito que lhe dedicavam.
Verónica deixara-se sensibilizar
mais que aquilo que o seu carácter
um tanto rígido faria prever.
Conquanto não fosse snobe, sabia
marcar as distâncias. E permitira-se
sair cedo, de forma a desfrutar de
umas horas de ócio privado, antes de
jantar.
Bem disposta, dirigira-se para casa,
ao volante do seu carro de serviço,
conduzindo suavemente, sem pressas.
Chegada, substituíra o tailleur por
um confortável roupão e os sapatos
de salto por um par de pantufas
macias, após o que se recostara num
dos sofás da sala, imersa na
penumbra, de olhos fechados e corpo
relaxado, enquanto da aparelhagem
sonora saíam os acordes de uma fuga
de Bach. E depressa adormecera.
Quando acordou, verificou que tinha
dormido quase duas horas. Sentia-se
leve, retemperada. Não havia nada
melhor que uma boa sesta. Verónica
olhou para a parede iluminada pelos
raios de sol que entravam através
das junções da persiana. O seu salão
agradava-lhe. Era amplo e bem
decorado, como convinha a um casal
bem sucedido na vida. Em tons de
cinza e beije, onde reproduções de
quadros de Kandinsky e Braque davam
uma nota de cor, harmonizava-se com
o panorama oferecido por uma janela
rasgada que se abria sobre o Tejo.
Verónica ergueu-se do sofá,
aproximou-se da janela e olhou para
fora. Um mar cinzento, espelhado,
espraiava-se à sua frente, enquanto
uma névoa esbranquiçada envolvia o
extremo sul da ponte Vasco da Gama.
A pujança do sol primaveril, em
declínio num céu azul pálido, não
fora suficiente para evaporá-la.
- Ainda bem que nasci na primavera!
– pensou. Era a estação do ano que
melhor se coadunava com a sua
personalidade. A natureza
desabrochava, propagando uma
renovada energia de esperança.
Distraída, deixou o olhar deambular
pela vastidão do horizonte. Sem
dúvida, era um privilégio desfrutar
de tal panorama da casa onde se
vivia. A visão daquele extenso
lençol de elemento líquido
apaziguava a sua natureza lutadora,
com tendência para um excesso de
adrenalina. Adrenalina aliás
necessária para bem gerir a empresa
que herdara do pai. Administrava-a
com mão de ferro. E a sua gerência
eficaz içara-a a uma posição mais
elevada que aquela onde se
encontrava quando lhe viera parar às
mãos. Verónica tinha espírito de
liderança e não temia um desafio.
Gostava da sensação de poder, de ser
obedecida, do risco. A sua intuição
era certeira e raramente perdia uma
aposta. E, se tal acontecia,
aprendia pelo menos a lição. Nunca
repetia um erro.
Mas fazer cinquenta e cinco anos era
um caso sério. A velhice batia-lhe à
porta. Verónica relembrou com
nostalgia os dias de aniversário
passados sem que tais pensamentos
lhe aflorassem o cérebro. Recordava
em particular uma frase ouvida
inúmeras vezes a seu pai:
- A decrepitude não se instala
lentamente. Não. Chega de repente.
Um dia olhamos para o espelho e
achamo-nos muito bem e, no dia
seguinte, reparamos que estamos
velhos!...
Cinquenta e cinco anos! Num impulso
voltou costas à janela e dirigiu-se
à casa de banho - à sua casa de
banho privativa. Aí, em frente do
espelho, examinou-se demorada e
friamente. Ainda era bonita. Tinha
boa figura. E classe. Possuía um bom
cabelo, que usava escadeado curto,
no tom natural castanho escuro. Não
havia necessidade de o pintar. Os
cabelos brancos ainda eram raros. No
rosto oval a fronte era larga e lisa
e os olhos, grandes e castanhos, mal
tinham pés de galinha. O nariz era
perfeito (quem disse que nariz não é
feição?), e a boca, pequena e de
lábios finos, quando queria,
abria-se num sorriso cativante. A
maquilhagem camuflava as raras
manchas castanhas da pele, que
muitos verões na praia haviam
provocado. Sim, estava satisfeita
com o que via. Sorriu intimamente.
Continuava a passar por muito mais
nova. Todavia, o olhar desceu um
pouco e encontrou um queixo cuja
flacidez o fazia pender
ligeiramente. E, mais abaixo ainda,
um pescoço onde eram nítidos dois
vincos paralelos, em circunferência.
A satisfação esmoreceu. Pescoço de
velha. Tinha de fazer um peeling com
urgência. Havia muito tempo que não
fazia nenhum. E pediria ao seu
esteticista que dedicasse uma
atenção especial àquela zona. Não
havia dúvida de que o pescoço era
uma das partes do corpo onde a idade
era mais indisfarçável. Fez um
esforço para se endireitar e aquele,
distendido ao máximo, ficou quase
liso. Era isso. Manter uma aparência
jovem exigia, cada vez mais, pose
permanente e vigilância constante.
Enquanto fosse praticável. Depois,
talvez a cirurgia. Verónica não
entregava os pontos finalmente.
Voltou a mirar-se de um lado e de
outro, na nova postura. De facto, em
rigor, não aparentava mais de
quarenta anos. Além de que as roupas
de tons claros que usava
aliviavam-lhe o semblante.
Tranquilizada, voltou para a sala e
sentou-se comodamente. Uma vez aí,
voltou a mergulhar na reflexão. Com
efeito, a idade não trazia nada de
bom, excepto um maior discernimento
sobre os factos da vida. Envelhecer
era o preço a pagar pela
clarividência. E imaginou a noite
que se aproximava.
Dificilmente a surpreenderiam. O
filho e a nora apareceriam em sua
casa, à hora dos aperitivos, ele
bem-humorado e ela com um sorriso de
plástico. Depois, chegaria o marido,
cansado mas prazenteiro. Tomariam um
aperitivo na sala, fruindo da
feérica beleza do Tejo, transformado
em presépio pelo cair da noite. E
seria obsequiada. Do marido,
provavelmente uma jóia, que em nada
a interessava. Do filho e da nora,
talvez uma écharpe assinada ou uma
carteira em pele, que ela juntaria,
com pretenso agrado, à sua extensa
colecção de acessórios. Claro que
teria de fingir um verdadeiro apreço
pelas ofertas. E seria de bom tom
usá-las imediatamente, se a tal
fossem passíveis. Agradeceria,
moderadamente comovida, o cuidado
evidenciado na escolha das ditas
que, afirmaria, vinham totalmente ao
encontro do seu gosto pessoal. E
depois sairiam para jantar a
expensas do marido (que era o mesmo
que dizer, das suas). Iriam a um bom
restaurante, talvez ao Casino, onde
decerto a mesa estaria reservada. O
repasto decorreria num ambiente
aprazível. Falar-se-ia muito, mas de
generalidades. Viagens e política.
Talvez desporto. Degustariam um bom
vinho e ela, pouco habituada a
beber, sentir-se-ia algo inebriada.
E a noite terminaria num amplexo de
amor com o marido que, não sendo um
homem apaixonado, era cioso dos
deveres conjugais, e nunca deixava
passar uma data importante para o
casal sem manifestar aquilo que
acreditava ser a expressão mais
autêntica do seu amor pela esposa.
Enfastiada com estes pensamentos,
Verónica abanou a cabeça. Tretas!
Tretas e bagatelas! Era evidente a
clivagem entre aquilo que os outros
pensavam e os seus desejos mais
profundos. Porque ninguém sabia o
que ela verdadeiramente ambicionava.
Nunca o dera a entender. E da sua
imagem, profissional e dinâmica,
pouco compatível com
sentimentalismos, nada era
presumível.
Verónica desejava um neto. Aliás,
melhor dizendo, uma neta. Mas enfim,
desde que se tratasse de uma criança
perfeita, não seria esquisita quanto
ao sexo. Nascida entre dois irmãos
rapazes e privada da mãe (que
morrera quando ela tinha doze anos),
atravessara a adolescência num
universo familiar exclusivamente
masculino, com tudo o que isso
implica de reserva e sensaboria.
Nesse ambiente desarticulado,
aprendera a arte de bem ocultar as
dúvidas e anseios mais íntimos. O
irmão mais velho morrera na Guiné,
durante a Guerra Colonial, e o mais
novo estava ausente em parte
incerta. Provavelmente morto. A
última vez que se soubera dele,
havia mais de quinze anos,
encontrava-se no Rio de Janeiro a
contas com a justiça por tráfico de
droga. A seguir, desaparecera sem
deixar rasto. Constituíra uma longa
batalha jurídica dar o irmão como
desaparecido para poder tomar posse
da empresa do pai, após a morte
deste.
Embora involuntariamente, a perda da
mãe e de ambos os irmãos havia
inculcado em Verónica a consciência
da precaridade da vida. E sentira
mais do que nunca a falta de alguém
que aliasse a empatia do mesmo sexo
à proximidade do sangue. Por isso,
uma vez casada, desejara uma filha.
E nascera-lhe um filho. Contudo,
fora fácil conformar-se. O marido
ficara radiante com o primogénito
varão. E haveria outras hipóteses.
Três anos depois tentara de novo a
sorte e perdera a criança. Então,
contra a sua maneira de ser, fora-se
abaixo, física e psicologicamente.
Uma sensação de vazio irremediável
instalara-se no seu psiquismo
marcado por desaparecimentos. No
âmago, acreditava ter perdido a tão
desejada filha. E, mais por opção
própria que por conselho médico,
decidira nunca mais engravidar –
nunca mais arriscar.
Agora, mais do que nunca, aguardava
em silêncio por um rebento do seu
sangue. Um herdeiro, o mais completo
e empolgante sentido para a vida,
perto do qual tudo o resto perdia a
importância. E o deslizar do tempo,
imparável, empurrando-a para o ocaso
da vida, começava a emprestar a esse
desejo um carácter de urgência.
Todavia Miguel, o filho, casado
havia perto de quatro anos, tardava
em dar-lhe essa alegria.
É certo que Verónica não gostava da
nora. O sentimento que esta lhe
inspirava oscilava entre a
condescendência e a antipatia. Não
obstante, tolerava-a, esperando que
ela desse corpo, no sentido literal
do termo, ao seu mais secreto e
ardente (quiçá o único) desejo na
vida.
Com efeito, Marta estava a milhas da
nora ideal. Quando a conhecera,
Verónica sofrera um choque, só
amortecido pelo seu longo tirocínio
de auto domínio. Custara-lhe a
acreditar que fosse aquela a eleita
do coração do filho. Apesar de
burilada, era patente a sua baixa
origem social. Pobre Miguel! Como
fora possível que tivesse caído por
uma criatura assim?! Ele, que podia
ter qualquer mulher no mundo! Não
sendo uma mãe galinha, Verónica
reconhecia no filho um belo rapaz.
Alto e bem constituído, não era
nenhum Adónis, mas tinha umas
feições regulares e agradáveis.
Herdara a compleição física do pai e
os belos olhos da mãe. Era saudável,
cheio de energia e possuía uma
elegância inata. Jogava ténis e
praticava natação. Além disso, era
um bom partido. Com trinta anos
apenas, adivinhava-se-lhe já uma
promissora carreira profissional.
Não obstante, Verónica não tentara
compreender o filho nem as razões da
sua escolha. Havia muito que se
recusava a qualquer avaliação dele
que ultrapassasse as meras
qualidades exteriores. Desde o
triste epílogo do caso com Sofia, o
seu amor-próprio de mãe impedia-a de
o aquilatar segundo outros prismas.
Apesar de pouco emotiva, Verónica
sentia um nó na garganta sempre que
recordava a infeliz história do
namoro de Miguel e Sofia. E, para
tanto, tinha razões que só ela e a
própria conheciam.
Lembrava-se como se tivesse sido
ontem. Miguel conhecera Sofia na
Faculdade de Arquitectura. Tinham a
mesma idade e, por via de serem
colegas de ano e curso, haviam
começado a estudar juntos. Verónica
surpreendera-os algumas vezes em
casa, aparentemente embrenhados no
estudo. Não havendo, entre ela e o
filho, uma confiança por aí além,
escusara-se a comentários. Mas não
pudera deixar de reparar na
rapariga.
Sofia era linda. O seu cabelo era
escuro, ondulado natural, a pele
muito branca e os olhos azuis.
Conquanto alta e delgada, tinha o
busto cheio. Era difícil desprender
os olhos dela. Possuía aquilo que se
chama encanto natural, além de que
os seus modos educados eram
reveladores de um bom nível social.
Não foi preciso decorrer muito tempo
para se tornar óbvio que a
camaradagem de Sofia e Miguel se
convertera em namoro. O que agradou
sobremaneira a Verónica que, de dia
para dia, se sentia conquistada por
Sofia. Davam-se bem. Quando
conversavam, Verónica ficava
admirada com o bom senso e a
maturidade da namorada do filho. Em
certos aspectos, considerava-a
superior a ele. E quase via nela a
filha que não tivera.
Poucos meses depois, Miguel
declarara que fazia tenção de passar
férias com a namorada. Queriam fazer
o Inter Rail. Para Verónica, fora a
assunção da plenitude da relação do
filho. Era óbvio que, se ainda não
tinham, iriam ter vida sexual. O que
era mais do que natural.
Sendo mulher, Verónica nunca
abordara as questões sexuais com o
filho. Isso competia ao pai dele. E
não pôde deixar de chamar a atenção
deste sobre a matéria.
- Está descansada. Eu já tive uma
conversa com ele – asseverou António
quando Verónica abordou o assunto –
além disso, esta geração está muito
bem informada.
- Mesmo assim, sinto um certo
mal-estar em relação aos pais
dela... – retorquiu Verónica – vê-se
logo que é uma filha de família...
- Não sintas. Isto agora é o normal.
Verónica não respondeu logo. E,
quando falou, fê-lo num murmúrio:
- São muito jovens. Quem anda à
chuva, molha-se… E se ela
engravidar?...
Porém, o tempo foi passando e os
receios de Verónica iam-se revelando
infundados. Sofia e Miguel
progrediam nos estudos - ela mais
depressa que ele, diga-se de
passagem - e o namoro singrava sem
escolhos. Ambos jogavam ténis,
conviviam com outros jovens e
viajavam à boa maneira dos
andarilhos. Acampavam aqui e ali,
durante férias e fins-de-semana,
findos os quais cada um regressava à
respectiva casa.
- A vida mudou dramaticamente, desde
a minha juventude!... – pensava
Verónica - ... para melhor!...
Sofia era tudo o que um homem podia
desejar. Ela e Miguel formavam um
lindo par e pareciam gostar muito um
do outro. Raramente se envolviam em
discussões, embora Verónica
reparasse que Sofia era mais
incisiva na maneira de defender os
seus pontos de vista. Ela tornara-se
praticamente “da casa” e Verónica
adorava-a. E, um dia, foi fatal os
pais de ambos travarem conhecimento.
Como Miguel, Sofia era filha única.
O pai era médico - escritor nas
horas vagas - e a mãe pintora. Um
casal culto, simpático e sem
afectações. E foi fácil, da amizade
propiciada pelo namoro dos filhos,
desembocar-se numa relação de
trabalho, com Verónica a editar os
livros do pai de Sofia.
Haviam passado meses, anos. Tudo
parecia perfeito. Sofia estava no
último ano da licenciatura e Miguel
um pouco atrás. Provavelmente
casariam quando ele acabasse o curso
e arranjasse um emprego estável. Ela
já granjeara colocação num bom
atelier, em part-time.
Apesar da posição confortável, a
recordação dos acontecimentos
subsequentes provocou em Verónica
uma súbita tensão muscular. Com
efeito, naquela altura, nada poderia
fazer prever o mau bocado que se
seguiria.
Certo dia, ao chegar a casa, entrara
na sala e vira o filho a preparar-se
para sair. Reparara então que, havia
duas ou três semanas, não via a
futura nora:
- A Sofia? Está fora? Há muito tempo
que não a vejo... – perguntara.
Miguel abrira a boca como quem vai
responder mas calara-se, indeciso.
- Passa-se alguma coisa? – inquirira
Verónica, a quem a hesitação do
filho não passara despercebida.
Miguel parecera tomar uma decisão. O
seu semblante endurecera:
- Mãe, quero dizer-lhe uma coisa.
Mais tarde ou mais cedo, teria de
ficar a saber...
Houve um instante de silêncio.
- Más notícias?... – perguntara
Verónica, com um súbito
pressentimento, suspensa das
palavras do filho.
- Sim. Acho que não vai gostar... O
meu namoro com a Sofia acabou.
- Quê?!...
- É verdade. Está tudo acabado.
- Miguel!... Não posso acreditar!...
Estás a falar a sério?...
- Nunca falei tão a sério na minha
vida.
Habitualmente senhora de si e imune
à vulgar curiosidade, Verónica não
pudera evitar a pergunta fatal:
- Mas porquê, Miguel, porquê?... Que
aconteceu?...
- Desculpe, mãe, mas não tem nada
com isso!
Estas palavras foram proferidas num
tom frio que, embora respeitoso, não
admitia réplica. Aos ouvidos de
Verónica soaram como uma chicotada.
Atónita, só agora percebia o extremo
abatimento patente no rosto do
filho. E o seu cérebro foi
atravessado pela percepção de que
pouco conhecia aquele rapaz, melhor
dizendo, aquele homem, que fora
gerado nas suas entranhas. Não
obstante, não se podia calar.
- Não tenho nada com isso? Como, não
tenho? Conheço a família! Até edito
os livros do pai dela! Que
brincadeira é esta? Foste tu que
acabaste? – E Verónica cravara os
olhos no rosto pálido e inexpressivo
do filho.
- Eu já sabia que ia ser difícil
dar-lhe a notícia… – dissera Miguel,
encarando-a de frente sem subir o
tom de voz. E acrescentou, com uma
expressão de cansaço – mas, com todo
o respeito, da minha vida eu é que
sei. Peço-lhe que não insista.
Verónica nunca vira o filho tão
determinado. Incapaz de retorquir,
permanecera calada e Miguel, tirando
partido da atmosfera pesada e imóvel
de densa consternação, despedira-se
com uma calma forçada, que aos
ouvidos de Verónica soara quase como
um desafio:
- Até logo, mãe. E acalme-se. Não
vale a pena perder o seu tempo a
pensar neste assunto!…
Dito isto, rodara sobre os
calcanhares e saíra porta fora sem
que Verónica conseguisse esboçar um
gesto para o reter.
Verónica cerrou os lábios. Tinha
sido uma bomba. Não só de alta
potência como também de efeito
retardado, cujos estilhaços levariam
tempo a remover. E pela primeira vez
na vida Verónica tivera consciência
da relação pouco próxima que a
ligava ao filho. É certo que era um
rapaz. Todavia, talvez durante a
infância de Miguel tivesse sido
possível estabelecer um laço mais
forte com o filho, enquanto escondia
a sua frustração por não ter
conseguido gerar uma rapariga.
Nessa noite, discutira longamente o
assunto com o marido, que, apesar da
sua proverbial bonomia, ficara quase
tão incomodado como ela.
- Que nos sirva de lição! – acabara
por vociferar António – Não quero
mais namoradas cá em casa, muito
menos travar conhecimento com as
famílias!... Ele que faça o que
quiser, desde que seja longe da
minha vista!...
- Talvez possas falar com ele...
Fazê-lo voltar à razão… – sugerira
Verónica, sem grande convicção.
- Eu? Nem penses nisso! Não me vou
imiscuir nos assuntos íntimos do meu
filho. Se ele precisar de
orientação, estarei no meu posto.
Mas ir meter-me na vida dele, nunca!
O Miguel tem vinte e três anos. É um
homem. No entanto, repito, que nos
sirva de lição. Intimidades
familiares com namoradas, nunca
mais!...
Quando duas semanas mais tarde
Verónica, por imperativos de
negócio, se viu forçada a contactar
com o pai de Sofia, fê-lo com algum
constrangimento. Porém, para sua
surpresa, foi aquele que, logo de
início e sem peias, abordou o
melindroso assunto:
- Os nossos jovens lá se aborreceram
um com o outro... – escutou Verónica,
incrédula.
- Parece que sim... – respondeu, sem
saber que mais dizer.
- É a vida. Eles é que sabem… Bom,
mas em relação à capa do livro, a
minha opinião é... - que alívio! O
pai de Sofia não estava ofendido!
Decerto considerava o que acontecera
como uma vicissitude inevitável da
vida, e continuaria a falar com ela
com toda a naturalidade. Antes
assim. Verónica respirou fundo. E
concentrou-se na questão colocada
com todo o profissionalismo.
Após desligar, raciocinara. Porque
supusera ela que o pai de Sofia
pudesse sentir-se lesado? Verónica
desconhecia por completo razões e
detalhes da rotura. Da bonomia do
pai poder-se-ia deduzir ter sido a
filha a responsável. Nos últimos
dias, Verónica tinha vindo,
gradualmente, a aceitar os factos.
Afinal, o filho é que sabia. Era
maior e vacinado. A vida era dele.
Tratava-se tão somente do término de
um namoro - nada de grave, portanto!
E, não sem um certo mal-estar, foi
forçada a reconhecer que também ela
sofria de algum machismo, que a
levava a, no subconsciente,
considerar as mulheres mais
vulneráveis que os homens. Agora,
havia apenas que esquecer, tarefa de
que o tempo se encarregaria.
Confortada com este pensamento,
mergulhou no trabalho. E nessa
noite, quando encarou o filho, fê-lo
de semblante desanuviado, pela
primeira vez, desde a confissão do
rompimento.
Poucos dias depois, Verónica
encontrava-se na editora quando
recebeu um telefonema inesperado.
- Está ao telefone a D. Sofia Veiga
– dissera a secretária.
- Estranho… - murmurou Verónica, que
nunca mais falara com a ex-futura
nora - Que me quererá ela?...
- Pode passar – acabou por dizer.
...
- Está?
- Estou sim, Sofia.
- Preciso muito de falar consigo...
- Estou a ouvir – respondeu
Verónica, tentando que a voz lhe
saísse o mais natural possível. Não
queria mostrar nenhuma espécie de
animosidade para com a rapariga.
- Preferia pessoalmente, se não se
importa. Posso passar por aí?
- Com certeza.
- Então, até já!
Havia mais de um mês que Verónica
não a via e, durante as últimas
semanas pensara mil vezes em
conversar com ela. Mas decidira-se
pelo silêncio. Acima de tudo, queria
manter-se no seu lugar. E, no seu
imaginário, a imagem de Sofia
sofrera um certo decréscimo. Afinal,
talvez não fosse assim tão bonita. E
havia muitas outras, que diabo!
Meia hora depois, Sofia Veiga
entrava no gabinete de Verónica
Contreiras. E esta percebeu que o
subconsciente lhe tinha pregado uma
partida. Sofia continuava linda,
como sempre fora. A expressão grave
aumentava-lhe o charme. Um pouco a
contragosto, Verónica sentiu-se
rendida. Sim, ali estava a filha que
não tivera. Como negar-lhe alguma
coisa?
Cumprimentaram-se. Sofia sentou-se à
sua frente e Verónica notou-lhe
qualquer coisa de diferente. Talvez
estivesse mais pálida que de
costume. Ou ligeiramente mais magra.
- Já sabe que eu e o Miguel acabámos
tudo – começou Sofia com expressão
decidida.
- Sim, já sei. Lamento muito, Sofia
– e pensou que não adiantava
perguntar porquê. Se ela quisesse
dizer, diria.
- Apesar disso, e porque penso que é
minha amiga, venho pedir-lhe um
favor. Um favor muito especial...
- Sou, efectivamente, muito tua
amiga. Pede o que quiseres. Farei
tudo o que estiver ao meu alcance.
- Em primeiro lugar, gostaria que a
nossa conversa ficasse, para sempre,
entre nós. Que nada do que lhe vou
dizer alguma vez seja divulgado por
si seja a quem for. Refiro-me, em
particular, ao Miguel.
- Podes contar comigo. Mas, estás a
assustar-me... Que é que se passa?
Sofia pareceu tomar balanço. Os seus
olhos procuraram a janela do
gabinete, que dava para uma rua
movimentada. Quando falou, a sua voz
suou a Verónica com um timbre
irreal, como se proferida por uma
terceira pessoa insensível à
gravidade do significado das
palavras que acabava de proferir.
- Estou grávida.
- Sofia! - exclamou Verónica,
atónita.
Aquilo era um dado novo, crucial!
Aquilo mudava tudo! Verónica sentiu
o seu coração disparar. A custo,
conseguiu articular:
- Tens a certeza?
Sofia largou os olhos da janela e
encarou-a de frente:
- Absoluta.
- Meu Deus! E o Miguel sabe?
- Não. Nem pode saber. Eu não posso
ter a criança.
- Quê? Que queres dizer com isso?
- Isso mesmo que já percebeu. E é
por isso que venho pedir-lhe ajuda.
Os meus pais não podem saber de
nada. Só em si eu posso confiar!...
- Queres dizer que... - Verónica
calou-se, enquanto um turbilhão de
pensamentos lhe revolvia a mente.
- Não tenho mais ninguém para me
acompanhar, mais ninguém em quem
confiar... Por favor... - e Verónica
estremeceu ante a súplica velada
daqueles belos olhos azuis dos quais
começavam a escorrer algumas
lágrimas impossíveis de conter.
Pobre criança! Agora, percebia tudo.
E, naquele momento, só conseguiu
sentir horror por aquilo que o filho
tinha sido capaz de fazer. Ali,
diante de si, não estava apenas a
filha sonhada, mas, e sobretudo, a
vítima a pedir ajuda.
- Pois sim... – viu-se forçada a
dizer, como se o destino a houvesse
encurralado numa armadilha cruel.
Foi uma temeridade. Só mais tarde
Verónica se aperceberia de todas as
vertentes do risco tremendo que
correra. Mas algo muito forte a
impelia a ajudar uma pessoa que
acreditava ter sido prejudicada pelo
próprio filho. E era mulher de uma
só palavra.
Como que comandada por uma vontade
superior à sua, e despida de toda a
carga emocional, Verónica acompanhou
Sofia à clínica e aguardou
pacientemente enquanto, na sala de
operações, um médico exterminava o
seu neto indefeso. Durante as horas
subsequentes, não saiu da cabeceira
da rapariga, atenta a qualquer sinal
de alarme. Sofia gemia e Verónica
mantinha a mão dela dentro das suas,
enquanto lhe segredava, na voz mais
doce de que era capaz, palavras de
calma e de ânimo.
No dia seguinte voltou ao teatro das
operações, passou um cheque que
liquidava a intervenção por inteiro
(contra o desejo de Sofia, que não
desejava ajuda financeira) e
transportou a paciente, pálida e
combalida, até à porta de casa. No
final, despediram-se sem efusões.
Apesar de todo o apoio que lhe
prodigalizara, Verónica não podia
perdoar a Sofia o ter-lhe destruído
a imagem do filho. Nunca mais a
queria ver. Mas o seu segredo não
podia estar mais seguro. Verónica
levá-lo-ia para o túmulo.
Três anos depois, de curso acabado e
em franca ascensão na vida, Miguel
declarara em casa que se ia casar.
Verónica e o marido haviam-se negado
a qualquer convívio com a namorada
do filho até a data do enlace estar
fixada. E, somente algumas semanas
antes desta, anuíram em conhecer a
futura nora.
E que nora! Marta era insinuante,
demasiado vistosa. Bonita, sem
dúvida, mas de um tipo levemente
grosseiro. Com o cabelo loiro
artificial, os olhos enormes
maquilhados em excesso, as maçãs do
rosto salientes e o corpo
curvilíneo, tornava-se mais sensual
que elegante. Ademais, vestia-se e
movimentava-se como se o seu maior
fito fosse atrair os homens.
Verónica não conseguia perceber o
que Miguel vira nela. Nem nunca o
saberia. A confiança entre ela e o
filho esmorecera havia muito. Mas
não tivera outro remédio senão
receber a nora condignamente. Marta
era a antítese de Sofia. Embora não
fosse malcriada, falava sem
propriedade, revelando uma certa
dificuldade de expressão. Não era,
sequer, simpática. Os seus modos
eram bruscos, de quem prefere o
alarde ao diálogo. Com uma
escolaridade mediana e oriunda de
uma família sem posses, trabalhava
desde os dezoito anos para os seus
gastos pessoais, como operadora de
back office, por conta de uma
empresa de trabalho temporário.
Intelectualmente era um zero.
Verónica ainda se recordava
demasiado bem das expressões
perplexas de muitos dos seus
convidados para o casamento,
(financiado exclusivamente pela
família Contreiras – afinal, casavam
o seu único rebento), ante o aspecto
daquela noiva, pintada como uma
corista e vestida com um arrojo
despropositado. E aquela família?!
Santo Nome de Cristo! Cada um pior
do que o outro. Uma longa série de
irmãos e irmãs, elas com ar de
galdérias, eles com ar de chulos,
filhos de um labrego que nunca abria
a boca e de uma varina que nunca a
fechava!...
Verónica suspirou, descontente.
Dentro de cada homem há uma besta e
o seu filho não era excepção.
Verónica sabia-o bem. Miguel fora
apanhado pela cama. Tratar-se-ia,
fundamentalmente, de atracção
física. E lá bom físico tinha Marta,
sem dúvida: pernas bem torneadas,
peitos salientes, cintura marcada,
traseiro protuberante... Toda ela
transpirava lascívia. Além disso,
possuía o viço da juventude. Esse,
porém, não duraria muito. Marta era
uma grande fumadora e é um dado
adquirido que o tabaco dá cabo da
pele. Decerto, se chegasse aos
cinquenta e cinco anos, estaria
muito pior do que a sogra. E, no
meio da amarga avalanche de
pensamentos que a submergia,
Verónica sentiu algum consolo com
esta percepção.
Mas a vida acabara pregando a
Verónica uma grande partida – o
facto de ter de confiar ao ventre
daquela criatura desinteressante a
geração do seu herdeiro. Todavia,
nem para isso ela parecia servir.
Marta tivera vários rebates falsos,
todos durante os primeiros anos de
casada. Depois, nem isso. Incrível
como o seu bem dotado físico se
estava a revelar ineficaz em relação
à função reprodutora. Verónica
chegara a sugerir-lhe que
consultasse um especialista em
esterilidade. Mas o assunto nunca
mais fora abordado.
Verónica estremeceu ante a
necessidade absoluta de esconder o
seu desapontamento. Que orgulho
incomensurável este, o de desejar
descendência! Nascemos com o desejo
inculcado, no mais fundo do nosso
ser, de transmitir os nossos genes,
como se o nosso código genético
fosse um imenso tesouro, um tesouro
a preservar a qualquer preço.
Estranha armadilha da natureza! Por
isso o desejo sexual era tão forte,
a energia sexual tão determinante na
vida das espécies! Infelizmente, a
idade apaziguava-nos o desejo sexual
mas não o orgulho de desejar
descendência.
Quanto a Sofia, teria preferido
permanecer na total ignorância de
tudo o que lhe dizia respeito.
Porém, a continuada relação de
trabalho com o pai dela tornava isso
virtualmente impossível. Nunca mais
a vira mas, mesmo sem querer (era
evidente a discrição e o tacto do
progenitor), Verónica acabara por
saber que, cerca de um ano depois do
enlace de Miguel, ela também havia
casado. O marido era médico, já
tinham dois filhos – um rapaz e uma
rapariga - e tudo indiciava que a
vida lhe corresse de feição.
Verónica suspirou entristecida. Uma
dorzinha muito fina trespassava-lhe
o peito sempre que se recordava que,
muito provavelmente, não fosse a
cobardia do filho, poderia já ter um
neto (ou neta!) com sete anos de
idade, além de uma nora maravilhosa.
De repente Verónica reparou no
relógio de parede e teve um
sobressalto. Passara mais de uma
hora entregue às divagações. Havia
que descer à terra. O filho não
tardaria aí. Espreguiçou-se para
desanuviar o espírito e afastar os
fantasmas. Pragmática, sabia que
tinha de viver de realidades e não
de sonhos. Era tempo de se ir
arranjar. Dirigiu-se ao seu closet
onde escolheu uma indumentária
apropriada. Vestiu-se, retocou a
pintura e regressou à sala. Nesse
preciso momento, a campainha da
porta tocou.
Pouco depois, Miguel entrou na sala,
seguido por Marta.
- Muitos parabéns, mãe! Conte
muitos! E que a vida lhe traga
muitas coisas boas!... – exclamou
Miguel, enquanto estendia os braços
para Verónica e a abraçava.
- Obrigada, meu filho – respondeu,
perfeitamente senhora de si. Fechada
a janela dos devaneios, readquirira
a compostura habitual.
Marta avançou para ela.
- Parabéns! – disse, enquanto se
beijavam.
Verónica e Marta sentaram-se. Miguel
foi preparar as bebidas - para a mãe
e para a mulher, gin tónico, para
si, uísque com gelo. Verónica
estranhou. E a sua prenda? Não que
lhe interessasse particularmente,
mas nunca passara um aniversário sem
receber uma lembrança do filho.
Perplexa, observou-o. Estava bonito,
num fato escuro, com colete. Volveu
os olhos para a nora e apreciou-lhe
a toilette. Para não variar, era um
pouco espaventosa. A blusa coleante,
preta e arrendada, deixava de fora
metade do seio. A saia preta, embora
comprida, cindia-se em dois panos
através de uma abertura que lhe
expunha por completo as coxas.
Verónica encontrou os olhos de
Marta, e esta esboçou um sorriso.
- Miguel, podemos contar a novidade
à tua mãe?... – proferiu, fitando a
sogra com uma inusitada expressão de
simpatia.
- Que novidade? – quis saber
Verónica, a quem as palavras da nora
haviam espevitado.
Nesse momento, a porta abriu-se e o
marido de Verónica apareceu. Trazia
na mão um embrulho, sóbrio e de
pequena dimensão, típico de
joalharia. Verónica não pôde deixar
de reparar como o marido ainda era
um belo homem. Miguel parecia-se com
ele.
- Alguém falou em novidade? –
inquiriu. E estendeu os braços para
Verónica, enquanto lhe introduzia na
mão o discreto embrulho. –
Parabéns!...
Como lhe competia, Verónica
concentrou-se na prenda. Rasgou o
papel e destapou a caixa, exibindo
um estojo de veludo azul-escuro.
Aberto este, revelou um relógio de
ouro branco, incrustado com pequenos
diamantes, lindíssimo. Apesar do seu
moderado entusiasmo, não pôde
impedir uma exclamação:
- Que maravilha!
- Os diamantes são eternos, minha
querida – brincou o marido. E,
enquanto preparava uma bebida,
perguntou:
- Então? E essa novidade?...
- Eu é que pergunto – respondeu
Verónica – Miguel, o que é que se
passa?
Marta e Miguel estavam de pé, perto
da janela.
- Nunca me canso desta vista – disse
Miguel. Depois, despegou os olhos do
panorama, passou o braço pelos
ombros de Marta e proferiu:
- Mãe, a novidade que a Marta e eu
temos para lhe dar é que,
finalmente, vai ser avó. Ambos
acreditamos ser esse o seu maior
desejo. Por isso, embora já o
saibamos há algum tempo, esperámos
por este dia especial para lho
comunicar...
Verónica susteve a respiração. O
coração acelerou-se-lhe. Porém,
lembrou-se dos falsos alarmes do
passado e questionou com uma
entoação de dúvida na voz:
- Têm a certeza?
- Sim.
Para evitar ter de falar, Verónica
bebeu um longo trago do gin tónico.
Não sabia bem porquê, não sentia a
alegria esfuziante que seria suposto
sentir. Alguma coisa lhe estava a
soar a falso. Eles nem por isso
pareciam radiantes. Contudo,
levantou-se e beijou a nora e o
filho.
- Então, também estão de
parabéns!... – e sorriu o melhor de
que foi capaz. – Tens passado bem,
Marta? – perguntou, solícita.
Escutando esta interrogação, Miguel
interveio:
- Mãe, a Marta não está grávida. Nós
vamos adoptar uma criança. Uma
menina.
- Quê?!
- É verdade. Já está tudo tratado.
Foi um processo longo mas, desde a
semana passada, já conhecemos a bebé
que nos está destinada.
- Meu Deus! – Verónica não sabia o
que pensar. Afinal, eles conheciam o
seu maior desejo! – Mas porque
tomaram esta decisão? – perguntou.
Foi Marta quem se adiantou. E falou
com uma segurança que Verónica nunca
lhe conhecera.
- Porque, com muita pena nossa, não
podemos ter filhos. Tentámos tudo o
que podia ser tentado.
António, até aí calado, acrescentou:
- A bebé é linda, Verónica. E eles
vão dar-lhe o teu nome.
- O quê?! Tu sabias disto?... Mas é
um autêntico complot!...
- Soube há uma semana.
- Fui eu que pedi ao pai para não
lhe dizer nada – interferiu Miguel –
Como se aproximava o dia do seu
aniversário, resolvemos esperar para
então lhe dar a notícia.
Verónica calou-se. Estava em choque.
Ia ser avó de uma criança que nunca
vira, que não era do seu sangue,
que, consequentemente, não lhe
asseguraria a perpetuação dos
genes... Não era isso que queria!
NÃO ERA! E sentiu uma repentina
revolta contra tudo e contra todos.
Contra o filho, que desprezara o
fruto do seu amor no ventre de
Sofia. Contra a nora, cujo útero
estéril a impedia de cumprir a única
função para a qual Verónica a
julgara competente. E até contra o
marido que, apesar de dormir com ela
havia trinta anos, a desconhecia ao
ponto de supor que a notícia acabada
de receber a encheria de alegria.
Imbecis! Pobres tolos, todos
eles!...
- Não ficou contente? – Marta olhava
para ela com uns olhos atentos,
demasiado pintados.
- Eu? Oh, fiquei! Claro que fiquei!
É que... foi uma notícia muito
repentina. Mas diz-me Marta, fizeste
tudo o que podias fazer? Todos os
exames?... Todos os tratamentos?...
Tudo?...
- Eu? Sim, fiz. Claro que fiz. Não
há nada de errado comigo!... – Marta
regressara ao costumeiro tom
abrupto.
- Como, não há? Então, porque é que
nunca engravidaste?... – Verónica
fixou na nora um olhar abismado.
- Mãe, escute – interveio de novo
Miguel, de semblante severo – A
Marta é uma mulher perfeita. Com
ela, está tudo bem. Pode ter os
filhos que quiser. Eu é que... - E
Miguel hesitou.
- Oh! Cala-te! – interrompeu-o
Verónica.
Não queria ouvir mais nada. Não
conseguia compreender. Decorreram
uns instantes de silêncio espesso,
que ninguém ousou violar.
- É verdade, mãe! – proferiu Miguel,
por fim, com a voz embargada –
Também me foi difícil aceitar.
Lembra-se daquela virose estranha
que eu tive em criança? Foi isso que
me esterilizou. Pelo menos, os
médicos inclinam-se para essa
hipótese. Nunca gerei nem nunca
poderei gerar nenhum filho.
Perdoe-me por não poder dar-lhe essa
alegria.
- Cala-te! Por amor de Deus,
cala-te! – Verónica tapou os ouvidos
e, num repente, levantou-se e saiu
da sala. Miguel fez menção de a
seguir. O pai segurou-o por um
braço.
- Deixa-a ir… Ela precisa de estar
só.
Calaram-se todos. O som do choro de
Verónica, vertido nas entranhas da
casa, chegava até à sala,
entrecortado por soluços. Trémulo,
Miguel levantou-se e foi preparar
outra bebida. Não se lembrava de
alguma vez ter ouvido a mãe chorar.
Marta acendeu um cigarro, pegou numa
revista e começou a folheá-la
compulsivamente. O pai olhava a
vastidão do mundo, através da
janela. Os soluços de Verónica
sacudiam-no interiormente. Estava
casado havia trinta anos e amava a
mulher.
Esperaram. A pouco e pouco o choro
foi abrandando, até se tornar
inaudível. Ninguém ousava falar. Por
fim, vinte minutos depois, Verónica
apareceu de novo na sala. Mudara de
roupa, escovara o cabelo e retocara
a pintura.
O marido olhou-a com uma expressão
de aprovação. Ninguém diria que ela
fazia cinquenta e cinco anos.
Aparentava quarenta.
- Já deve passar da hora que
marcaste no restaurante – disse
Verónica, dirigindo-se ao marido.
- Com efeito, já passa...
- Aonde vamos? – quis saber.
- Ao Casino.
Adelina Velho da Palma
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