Sebo - Adelina Velho da Palma

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Um Caso de Sucesso in "Areias movediças e outras histórias de inquietação"

Qualquer pessoa com mais de vinte anos de idade lembrar-se-á do estrondoso sucesso que constituiu o lançamento do Sublimac pela empresa Vago SA. A publicidade inicial foi discreta, assim como a adesão do público. Porém, depressa a procura aumentou, atingindo um nível inusitado, até se tornar verdadeiramente frenética. Dia após dia, as lojas dos artigos do género, mal abriam as portas, eram invadidas por hordas de clientes ansiosos. Cá fora, longas filas de pessoas aguardavam com a paciência possível a sua vez de entrar. O stock existente era esgotado rapidamente e muita gente acabava por sair contrafeita, de mãos vazias, com a promessa de, no dia seguinte, a situação estar normalizada.
Quando a venda de Sublimac’s disparou, trucidando as previsões mais ambiciosas, a gestão da Vago SA, temendo que a procura cessasse tão rapidamente como havia começado, manteve a produção a meio gás durante algumas semanas. Quando se tornou evidente que o público estava definitivamente conquistado, os Sublimac’s começaram a ser fabricados dia e noite, sem interrupção. Durante meses os fabricantes não cessaram de receber matéria-prima e produzir as suas diversas componentes. Foi necessário criar novos turnos e fazer horas extraordinárias para conseguir satisfazer todas as encomendas. Em grandes armazéns, as peças constituintes eram montadas e embaladas sem parar, até à completa assemblagem do produto final. E, todas as madrugadas, frotas de camiões transportavam as palettes de Sublimacs’s acabados de montar até aos pontos de venda, a fim de satisfazer a insaciável demanda.
Este êxito estrondoso teve inevitáveis consequências. A Vago SA, de firma de segunda categoria, quase que de vão de escada, transformou-se numa empresa poderosa, cotada na bolsa de Nova Iorque. O número de funcionários decuplicou. De umas modestas instalações nos subúrbios, transitou para um opulento edifício numa nobre zona empresarial. E o Engº Estorninho, presidente da Vago SA, tornou-se mundialmente famoso como o “Pai do Sublimac”. Consequentemente, passou a ser assediado pelos media, instigado a aderir a partidos políticos e, até, convidado a integrar o governo, muito embora como independente. O êxito do Sublimac foi tão extraordinário que, segundo dizem os entendidos, tem lugar assegurado em todos os compêndios de sociologia e, quiçá, na história da economia mundial
Face a tão invulgar ocorrência, ademais numa época de acentuada crise económica, importa esclarecer as razões exactas que estiveram na origem de tão retumbante sucesso. Sendo sabido que, ao contrário de outras ideias bem sucedidas (provenientes de cabeças iluminadas do marketing ou de aturados e científicos estudos sobre as necessidades do mercado), o único responsável pelo brilhante conceito subjacente ao Sublimac foi o presidente da Vago SA, o Engº Estorninho. Ele mesmo, em pessoa. Debrucemo-nos pois, sobre as verdadeiras circunstâncias que o levaram a congeminar tão luminosa ideia.
O Engº Estorninho era um homem baixo, franzino, de físico pouco atractivo. A sua face era redonda e avermelhada, de orelhas grandes e olhos pequeninos por detrás de umas fortes lentes de miopia. As mãos eram papudas, de dedos curtos e gordos. Devido a uma calvície prematura, exibia um crânio luzidio, semeado de uma penugem oleosa, tão avermelhado como a cara. Malgrado sofrer das paixões comuns aos seres humanos, que todavia dominava com mestria, era inteligente, trabalhador e tinha bom coração.
Filho de gente pobre da província, o Engº Estorninho estudara a expensas próprias, à custa de enormes sacrifícios. Viera para Lisboa com doze anos de idade e o quarto ano de escolaridade, tendo ido viver no Bairro Alto, em casa de uma tia, irmã mais velha do pai, viúva e com mau feitio. Arranjara emprego como marçano num dos merceeiros da rua, e continuara a estudar aos solavancos, no pouco tempo livre que o trabalho lhe permitia. Sovina, a tia ficava-lhe com metade do ordenado, em troca do parco alojamento e das sopas de cavalo cansado com que o obsequiava, além de lhe exigir colaboração nos trabalhos domésticos.
Ávido de independência, o Engº Estorninho aforrara cada tostão poupado e, com a idade de dezasseis anos deixara a casa da tia e alugara um pequeno quarto esconso (o único compatível com o seu ordenado de marçano), nas traseiras de uma casa sórdida. A senhoria da nova residência era intratável mas, não sendo da família, ele sentia-se livre para a votar ao mais completo desprezo. Ignorava as instruções que o obrigavam a não acender a luz do quarto à noite e, mal ela virava costas, ligava o esquentador e tomava banho, apesar da sua orientação taxativa de só utilizar água quente uma vez por semana. Sempre determinado, o Engº Estorninho dedicara-se aos estudos com afinco, lutando contra todas as dificuldades inerentes à sua condição de estudante e trabalhador (e não trabalhador-estudante visto que, para tal estatuto, ainda nem sequer tinha idade). As adversidades eram inúmeras: falta de dinheiro para livros e material escolar, pouco tempo para o estudo e até o sono invencível que o acometia nas aulas, devido ao insuficiente repouso nocturno, derivado da hora matutina a que o patrão o obrigava a apresentar-se ao serviço todas as manhãs.
Com dezoito anos e o nono ano de escolaridade feito às três pancadas, a vida do Engº Estorninho sofreu finalmente um incremento apreciável. Concorreu e ganhou, com toda a lisura, um lugar de ajudante de escriturário num tribunal. O novo emprego, que além do ordenado lhe rendia emolumentos, permitia-lhe comer na cantina do tribunal, pagar o quarto onde dormia e custear os estudos com um desafogo que, até aí, o Engº Estorninho nunca conhecera. Além disso, o vegetar na função pública (e porque um ajudante de escriturário não tem, em rigor, absolutamente nada para fazer), possibilitava-lhe estudar durante as horas de serviço e ser dispensado de comparência nas vésperas e dias de exame, desde que devidamente justificados. E o Engº Estorninho completara o secundário, ingressara na Faculdade de Engenharia e acabara o curso, sem nunca mais perder um único ano.
Apesar do seu bom sucesso escolar, não se pense, porém, que estes anos de progressão e emprego a meio gás lhe tivessem sido fáceis. O Engº Estorninho continuara a viver em quartos alugados, aturando senhorios execráveis, e a dedicar o seu tempo livre aos estudos, sem um único instante de descontracção. No cômputo geral, a vida fora-lhe muito dura e, somente por uma extraordinária força de vontade, o Engº Estorninho não cedera à tentação da facilidade e perseverara em se licenciar. A palavra sorte não existia no seu vocabulário. Se tal havia, ele não a conhecia. Um a um e em esforço, ultrapassara todos os obstáculos, e amadurecera com a convicção de que, sem sacrifícios, nada se consegue na vida.
Detentor do tão almejado canudo, o Engº Estorninho (pela primeira vez, no decorrer desta narrativa, usufruindo do título por direito próprio), concorrera a tudo o que era proposta de emprego compatível com as suas habilitações, na ânsia de sair do tribunal e obter um emprego que lhe possibilitasse alguma largueza económica. E, não sendo tolo, à custa de bons testes psicotécnicos, conseguira entrar para uma empresa que, embora pequena, fazia parte de um importante grupo empresarial, abarcando múltiplas e diversificadas áreas de negócio.
No novo emprego, entrara com o pé direito. A sua longa tarimba de luta pela vida levava-o a não cometer os erros vulgares nos novatos. Trabalhava com gosto. Era criativo mas nunca ultrapassava as suas competências. E soubera tornar-se precioso não transpondo o limiar do indispensável, situação fatalmente geradora de anticorpos. Começara até a vestir-se com aprumo, na tentativa de disfarçar a fraca figura. E, de promoção em promoção (sempre com todo o mérito, importa reconhecê-lo), com a idade de trinta e cinco anos e ao fim de dez de serviço, chegara a presidente da Vago SA, situação ímpar para quem não detinha cunhas, e que durante bastante tempo não deixara de o espantar. De facto, o Engº Estorninho sabia-se competente mas não brilhante, e uma total ausência de padrinhos havia-o levado, desde sempre, a conformar-se com a perspectiva de nunca atingir nenhum cargo verdadeiramente importante. Porém, a pouco e pouco, deixara de ter ilusões sobre o motivo pelo qual a gestão da holding do grupo o içara a um tal posto, e, paralelamente, não mais se sentira lisonjeado com a promoção. É que, objectivamente, ninguém no grupo queria aquele lugar. Vejamos porquê.
A Vago SA era uma espécie de agência funerária. A sua função era descontinuar produtos e serviços que estivessem em declínio, acompanhando o seu estertor até à completa extinção. Sempre que a gestão de uma das empresas do grupo decidia acabar com uma oferta ao mercado, esta transitava para a alçada da Vago SA. Seguidamente, competia a esta empresa uma análise completa das potencialidades residuais do produto, assim como a elaboração de um plano que possibilitasse a sua morte com o mínimo de impacto nos clientes e de danos colaterais no grupo. Note-se que, no estatutário da Vago SA, nada a impedia de ela mesma comercializar produtos e serviços. Contudo, na prática, isso nunca acontecia. Em rigor, a Vago SA limitava-se a exercer uma função de eutanásia, e o Engº Estorninho não passava de um cangalheiro.
Não estando orgulhoso, o Engº Estorninho também não se sentia incomodado com a situação. Uma presidência é uma presidência. E, embora longe do nível dos outros cargos máximos do grupo, o ordenado permitia-lhe uma vida desafogada, totalmente isenta de preocupações de ordem financeira. Por outro lado, sabia que nunca lhe faltaria trabalho. Num mundo em permanente mutação, tudo tem um fim. E essa inexorabilidade era a sua garantia de futuro. Enquanto qualquer outra empresa poderia eventualmente acabar, a Vago SA nunca se extinguiria.
A gestão da Vago SA dava trabalho. Muito trabalho. Qualquer coisa lá podia ir parar. Por consequência, uma enorme versatilidade era exigida aos seus elementos, obrigando a constantes acções de formação. Tinham de possuir vastos conhecimentos técnicos, jurídicos e económicos, e uma infinita capacidade de aprendizagem.
Todavia, apesar de tudo o que atrás foi dito, a Vago SA não contava com o reconhecimento da holding. Era considerada uma empresa de segunda ordem, sem categoria para ocupar instalações condignas no parque empresarial do grupo. Por isso funcionava num prédio degradado nos subúrbios, e era a primeira a sofrer os cortes orçamentais. E, à excepção do Engº Estorninho, nenhum presidente do grupo tinha um gabinete cuja janela dava para um saguão.
O Engº Estorninho era complexado junto do sexo feminino. Sempre o fora. Durante muitos anos saciara o desejo sexual sozinho ou com as mulheres de vida fácil que o seu magro ordenado conseguia pagar. Por diversas vezes se sentira atraído por colegas, da Faculdade ou do Tribunal, mas, por insegurança, nunca se atrevera a avançar. Todavia, acabara por casar, já entradote, com a secretária, por ter sido ela a única mulher que, até então, olhara para ele. Quando a conhecera e a contratara, ela era uma mãe solteira. Não tinha uma beleza por aí além, mas era simpática e afável. Tinha um filho com doze anos, um rapaz alto e bonito chamado Rudolfo Frederico, filho de um sedutor igualmente alto e bonito que, mal soubera da gravidez, a abandonara.
Os enredos de dificuldades, lutas e abandonos sempre haviam impressionado o Engº Estorninho. Não pudera deixar de se comover com a história daquela mulher que tão corajosamente assumira uma maternidade sem pai e conseguira, sempre sozinha, criar o filho com desvelo. E o Engº Estorninho, galvanizado pelas confidências de que era alvo, tivera coragem para dar o primeiro passo e acabara por casar com ela, convencido de que unia a sua vida à mais fiel e intrépida das mulheres.
O casamento foi uma reviravolta total na vida do Engº Estorninho. De uma cajadada obtivera, não só uma esposa, mas uma família completa.
Durante os primeiros tempos o Engº Estorninho procurara afeiçoar-se ao enteado. Achava graça ao facto de ter ganho um filho, assim de repente, já com doze anos de idade. Mas Rudolfo Frederico era um rapazola atrevido e, sobretudo, estruturalmente calão. E o Engº Estorninho acabara por se desgostar do dito, limitando-se a tolerá-lo por único e exclusivo amor da mãe dele. Por seu lado, a mulher, que adorava o filho, envidava todos os esforços para que o marido procedesse como um verdadeiro pai. Mas era inútil. O Engº Estorninho não conseguia nutrir pelo enteado um único laivo de amor paternal.
Sem ser estúpido, Rudolfo Frederico era muito menos esperto do que se julgava. Ao atingir os quinze anos tornara-se insolente e malcriado. Exigia dinheiro e liberdade, o que, não sendo raro na sua faixa etária, indignava o Engº Estorninho, cuja juventude não gozara de quaisquer prerrogativas. Tendo subido na vida a pulso, não podia aceitar os gostos dispendiosos do enteado, que só queria roupa de marca e fundos para esbanjar em discotecas. Com ênfase, pois tal era a sua maneira de ser, tentava educá-lo, transmitindo-lhe os princípios por que norteara a sua vida. Mas era desajeitado e a mulher acabava por se aborrecer com ele. Escusado será referir que a mãe fazia todas as vontades ao filho. E que essas vontades eram financiadas exclusivamente pelo Engº Estorninho, pois a esposa, após o casamento, deixara de trabalhar.
Por tudo isto, o Engº Estorninho sustentava o enteado a contragosto. No fundo, considerava-o um bastardo, gerado por um pai celerado, que não contribuía com um cêntimo para a subsistência e educação do filho. Contudo, dado que não se queria incompatibilizar com a esposa a quem amava ternamente, limitava-se a sonhar com o dia em que o enteado arranjasse um modo de vida e lhe saísse da porta para fora. E, apesar de detentor de um certo machismo, o Engº Estorninho chegava a sentir inveja das mulheres que, mesmo casando com homens com filhos, não eram obrigadas a conviver diariamente com os enteados.
Era o Engº Estorninho dotado de uma notável perspicácia em relação ao psiquismo alheio. Captando com exactidão os sentimentos das pessoas que o rodeavam, sabia perfeitamente que Rudolfo Frederico não gostava dele. Por outro lado, a verdadeira modéstia é um sentimento muito raro, e o Engº Estorninho não era isento a uma certa dose de vaidade. Como tal, não resistia a enfatuar-se com a percepção de que o enteado, consciente de que vivia agora muito melhor do que antes do casamento da mãe, não tinha coragem de o afrontar abertamente. De facto, quando Rudolfo Frederico queria alguma coisa, optava por passar a mensagem à mãe, confiando no poder de persuasão desta sobre o marido.
Decorria da forma atrás descrita a vida do Engº Estorninho, quando algo aconteceu que veio inundar o seu coração de felicidade - a mulher engravidou!... Desta gestação nasceu um filho, um rapaz, que era o retrato vivo do pai.
O Engº Estorninho gozou a paternidade em toda a plenitude e, durante meses, viveu submerso no seu encantamento. Rudolfo Frederico passou definitivamente para segundo plano. Porém, a pouco e pouco, o facto do filho ser muito parecido com ele, que nos primeiros tempos fora motivo de júbilo, acabou por constituir fundamento de um secreto desgosto do Engº Estorninho. Por via da semelhança, a sua inteligência implacável vaticinava para o filho o mesmo físico ingrato e os mesmos complexos junto do sexo feminino de que ele próprio sofria. Por outro lado, apercebia-se que o enteado, de dia para dia, se ia tornando fantasticamente bonito. Alto, musculoso, de feições correctíssimas, qualquer trapo lhe ficava bem. Quando recebiam visitas em casa, nada irritava mais o Engº Estorninho que gabarem a figura do enteado, esquecendo-se de tecer elogios ao próprio filho, que ainda era uma criancinha, e não possuía os dotes físicos do meio irmão.
E foi assim que, em contraste com a ternura que sentia pelo filho, o Engº Estorninho começou a nutrir um verdadeiro ódio pelo enteado, ódio este que tinha de manter secreto, pois a esposa, sendo acima de tudo uma mãe, nunca aceitaria que um filho seu despertasse um tal sentimento.
À medida que Rudolfo Frederico se tornava um homem cada vez mais belo, crescia também a sua exigência. Queria viajar, passar férias longe da família... E, para tanto, solicitava à mãe dinheiro e mais dinheiro. A mãe, cega de amor pelo filho, não o contrariava (parece até que o encorajava) e pedia ao marido os fundos necessários para manter o rapaz satisfeito. O Engº Estorninho, a quem o ódio tornara mais frio, cedia com aparente bonomia, porque não queria aborrecer a esposa e porque o enteado era tecnicamente menor. Mas aguardava uma oportunidade de oiro para saborear uma vingança bem planeada.
Como já foi dito, Rodolfo Frederico tinha uma inteligência mediana. Era um estudante pouco mais que medíocre. No entanto fazia um alto conceito de si próprio, o que exasperava sobremaneira o Engº Estorninho. Ademais, por via de uma sorte extraordinária, nunca chumbava. Passava sempre à tangente. E, contra todas as probabilidades, conseguiu fazer o 12º ano, o que não agradou ao padrasto. Sim, porque nada daria mais gozo ao Engº Estorninho (um gozo secreto, é certo) que ver o enteado reprovar no 12º e baixar a proa. Sem peias, admitia para si mesmo que o prazer de assistir ao chumbo do enteado era muito superior ao prejuízo financeiro que tal lhe acarretaria.
Mas Rudolfo Frederico fez o 12ºano. Claro que as notas obtidas não lhe abriam as portas de nenhuma universidade pública, de forma que fez finca-pé para entrar numa privada, obrigando uma vez mais o Engº Estorninho a abrir os cordões à bolsa.
Mas o pior foi que, mesmo numa privada, Rudolfo Frederico não se aplicava. E a boa sorte, que até aí o fizera progredir, acabou por abandoná-lo. Não fazia mais que uma ou duas cadeiras por ano. Andava à boa vida e só estudava (pouco) nas vésperas dos exames. Quando questionado, desculpava-se com condições exógenas adversas, algumas bastante controversas, como por exemplo, embirração dos professores... E, incapaz de reconhecer a sua preguiça estrutural, Rudolfo Frederico exigia melhores e mais dispendiosas condições de estudo, numa táctica fuga para a frente. Assim, de Lisboa quis ir estudar para Coimbra, forçando o Engº Estorninho à despesa adicional do alojamento e das deslocações entre Lisboa e aquela cidade. Todavia, nem em Coimbra Rudolfo Frederico viria a obter sucesso nos estudos.
Ao fim de quatro anos (dois em Lisboa mais dois em Coimbra), o Engº Estorninho estava decidido a não tolerar por mais tempo este estado de coisas. O enteado era já maior e vacinado, e era mais que justo que sofresse as consequências da sua vadiagem. Impunha-se que começasse a ganhar a vida. Se quisesse prosseguir nos estudos, fá-lo-ia à noite, como qualquer trabalhador-estudante. Para tal, almejando mostrar-lhe a dureza da vida, que o outro desconhecia por completo, o Engº Estorninho tencionava empregá-lo na Vago SA como auxiliar não especializado, designação pomposa dada aos moços de recados (os antigos marçanos, como ele mesmo fora). Mas sabia que teria pela frente, pela primeira vez, uma árdua batalha contra a esposa.
Entretanto Rudolfo Frederico, farto de Coimbra, havia decidido ir estudar para Londres e, para tanto, lançara a escada à mãe. Mas até a super convincente esposa do Engº Estorninho hesitava quanto à melhor forma de desferir o ataque ao marido. Desta vez, ela própria parecia não encontrar argumentos capazes de pleitear a causa do filho. No fundo, sentia o disparate que era premiar a preguiça de Rudolfo Frederico, pois que em todo o ser humano, por muito pusilânime que seja, existe um rudimentar sentido de justiça.
Não obstante, nada disto chegou a ser discutido. Poucos dias depois, Rudolfo Frederico foi convidado para trabalhar como modelo numa agência muito conceituada. Havia sido um caçador de talentos que, numa noitada de discoteca, sem o conhecer de lado nenhum, reparara nele. E, de tal maneira ficara impressionado com o seu fabuloso físico, que o abordara e o convidara para fazer os testes de imagem exigidos por esse tipo de profissão. Rudolfo Frederico passou magnificamente em todos os testes e iniciou assim uma fulgurante carreira de modelo, esquecendo em definitivo a intenção de ir estudar para Londres.
É impossível exprimir a raiva interior que, a partir desta altura, começou a consumir o Engº Estorninho. O enteado desfilava, viajava, fazia anúncios, aparecia na televisão, andava nas revistas e nos jornais... Além disso, tinha dinheiro e mulheres a rodos!... E o Engº Estorninho sentia saudades do tempo em que sustentava o enteado. Qualquer coisa se lhe afigurava preferível a assistir àquele triunfo imerecido. E o pior de tudo é que, apesar de todo o dinheiro que agora detinha, Rudolfo Frederico não abandonava a casa materna. O Engº Estorninho sabia que a razão deste procedimento se devia unicamente ao proverbial comodismo do enteado. Mas a mãe dele andava nas nuvens, pois acreditava que ele o fazia por amor da família, sobretudo do irmão mais novo, a quem, até à data, nunca dedicara um segundo de atenção. E assim se via, o Engº Estorninho, obrigado a aceitar a permanência do enteado em casa.
Que pode um homem fazer em tais circunstâncias? Dia após dia, um fogo interior tomava conta do Engº Estorninho. A ideia de se vingar do enteado obcecava-o. Tinha de arranjar algo terrível, demolidor, que o fizesse vir comer na palma da sua mão. Mas o Engº Estorninho não tinha pressa. Cauteloso, sabia que o manjar dos deuses não perde por arrefecer. E ia deixando a coisa amadurecer dentro de si.
Foi num dia cinzento, sentado no seu gabinete com vista para o saguão, que lhe surgiu uma ideia. A Vago SA tinha recebido ordens para descontinuar um produto – um apito para chamar pássaros que funcionava à base de ultra sons. O apito era inaudível para o ouvido humano, o que o tornara pouco atractivo para o público. Por isso fora substituído por outro que, além dos ultra sons que efectivamente chamavam os pássaros, emitia gorjeios de aves autênticas. Meticuloso, um dos técnicos que manuseava os apitos viera dizer-lhe que andara a experimentar, um a um, todos os exemplares do stock remanescente, e descobrira alguns que pareciam afectar o sistema nervoso das pessoas.
- Como? Que quer você dizer com isso? – indagara o Engº Estorninho, subitamente interessado.
- Senhor Engenheiro – respondera o técnico - por enquanto só lhe posso dizer que, ao soprar por alguns daqueles apitos, os experimentadores são presa de um indefinível mal estar. Sentem-se ansiosos e inseguros. Ainda não determinei as causas, pois queria saber se valia a pena prosseguir com...
O Engº Estorninho interrompera-o:
- De que é que está à espera? Determine as causas do fenómeno! Homem, se faz favor, determine-as depressa!...
- Mas, Senhor Engenheiro... – balbuciara o técnico, pouco habituado a receber ordens tão peremptórias.
- Já lhe disse! Quero isto investigado a fundo! Faça o que for preciso!...
O técnico saíra do gabinete do Engº Estorninho muito apardalado, pois fenómenos estranhos nos artigos a descontinuar era o que mais havia, e nunca ninguém se tinha preocupado com o assunto. As investigações eram caras, e competia à Vago SA matar os produtos e não analisar-lhes os defeitos.
Depois do técnico sair, o Engº Estorninho imergiu na mais profunda reflexão. Sabia muito bem porque é que tinha dado aquela orientação tão invulgar. As palavras do técnico haviam despertado uma semente no seu espírito que começava a germinar. Se se descobrisse alguma coisa capaz de retirar a confiança de um indivíduo, de o fazer duvidar de si mesmo, de lhe criar ataques de pânico... Seguramente, não haveria carreira de modelo que resistisse a vicissitudes desse cariz...
Não foi preciso muito tempo para o técnico do Engº Estorninho descobrir as causas da estranha má disposição que acometia os funcionários que manuseavam determinados apitos (o que vinha corroborar a opinião de que os grandes achados são quase sempre fruto do acaso e não de prolongada investigação).
- Trata-se de certa substância existente na tonalidade amarela. Nos apitos desta cor, a radiação electromagnética do comprimentos de onda correspondente a essa frequência parece interceptar certa gama de ultra sons e interferir com a produção de serotonina no cérebro – comunicou o técnico, certa manhã, ao Engº Estorninho.
- Extraordinário! – exclamou o Engº Estorninho.
- Continuamos as investigações?
- Evidentemente!... Não parem!... Isto pode ser um filão!... – vociferou o Engº Estorninho, visualizando mentalmente o enteado sofrendo um ataque de pânico em plena passagem de modelos...
Como já aqui foi referido, e para que o leitor não estranhe a vastidão de campos que abrangia esta investigação, relembro que os técnicos da Vago SA eram altamente qualificados, aptos a efectuar estudos e pesquisas nos mais diversos domínios da ciência. Todavia, a verdadeira intenção do Engº Estorninho não era retirar dividendos de uma eventual descoberta no campo da influência comportamental. Ele desejava tão somente um artefacto de pequenas dimensões, talvez um chip, que pudesse ser usado por Rudolfo Frederico sem este desconfiar, de forma a provocar-lhe alterações no humor e a destruir-lhe a carreira! Assim mesmo, sem tirar nem pôr.
E, pela primeira vez na vida, a sorte bafejou o Engº Estorninho. Os técnicos da Vago SA conseguiram determinar com exactidão, não só as condicionantes precisas para provocar ataques de mau humor nas pessoas, como as necessárias para produzir o efeito exactamente oposto, este comercialmente muito interessante. Em suma: pela primeira vez na história da ciência física, era possível controlar os níveis de serotonina no cérebro humano, usando apenas as mensagens subliminares irradiadas por um pequeno chip, dispensando qualquer recurso a drogas químicas.
Dominado pela sensação de triunfo que lhe dava a certeza de possuir finalmente um meio subtil e demolidor de se vingar do enteado, o Engº Estorninho decidiu quebrar a tradição da Vago SA, pouco mais ligando ao assunto. Mas o orientação foi seguida com empenho e, pela primeira vez, a Vago SA lançou um produto no mercado...
E assim nasceu o Sublimac. Era pequeno, discreto, passava despercebido em qualquer bolso, e bastava mantê-lo ligado durante o tempo necessário para incutir no utente o bem estar e a confiança desejados. E, no mesmo dia em que o Sublimac foi posto à venda, por coincidência o aniversário de Rudolfo Frederico, o Engº Estorninho levou para casa um relógio de ouro de uma marca distintíssima, no qual colocara pessoalmente um pequeno chip quase invisível, e com ele presenteou o enteado.
O que se seguiu é do domínio público. A adesão ao Sublimac começou por ser tímida, pois ninguém gosta de admitir que necessita de um estimulante para andar bem disposto. Porém, numa sociedade com uma enorme percentagem de pessoas deprimidas, o sucesso de tal dispositivo foi inevitável. O Sublimac era barato, simples de usar, inofensivo e, acima de tudo, eficaz, o que não tardou a transformá-lo num retumbante sucesso. A tal ponto que acabou por extravasar fronteiras e ser vendido aos países mais evoluídos. Evidentemente, granjeou inimigos. Muitos entendidos na matéria conotavam o “efeito Sublimac” com o “efeito placebo” e desmistificavam a eficácia do produto. Mas o público foi indiferente a estas arremetidas.
Como consequência do sucesso do Sublimac, o Engº Estorninho metamorfoseou-se num homem importantíssimo, conhecido e respeitado tanto no país como no estrangeiro, e a Vago SA passou a empresa de primeira categoria, vanguarda do grupo que durante tanto tempo a desprezara.
Mas a grande descoberta do Engº Estorninho seria de carácter privado, quase íntimo. Depois de se ter tornado muito mais famoso do que Rudolfo Frederico alguma vez sonharia ser, passou a olhar para o enteado com outros olhos. Agora, era-lhe indiferente o sucesso ou insucesso do dito. Este apreciava verdadeiramente o relógio de ouro com que fora presenteado e usava-o a toda a hora. Mas (vá lá saber-se porquê!), dera em faltar aos compromissos, em sofrer crises depressivas e em sentir insegurança, com os correspondentes reflexos negativos na sua carreira de modelo. A sua auto estima descia a olhos vistos. E, ao ver-se necessitado de apoio e compreensão, voltara-se para o Engº Estorninho, agora tão bem sucedido. Desabafava com ele, solicitava-lhe conselhos e escutava-lhe as opiniões. Pela primeira vez na vida, Rudolfo Frederico venerava o padrasto como um verdadeiro pai.
Por seu lado o Engº Estorninho, imerso na fama e cercado de mordomias, compreendia melhor as fraquezas do enteado. Ver Rudolfo Frederico ansioso e deprimido não lhe trouxera a satisfação almejada. E sentir que o enteado o admirava, levava-o a nutrir por ele um sentimento suave, protector, quiçá paternal!... Entre os dois cimentava-se uma verdadeira amizade. O Engº Estorninho preocupava-se com o estado de saúde de Rudolfo Frederico e tratava-o em pé de igualdade com o próprio filho.
E um dia, desejando mais do que nunca a felicidade de Rudolfo Frederico, o Engº Estorninho resolveu mimoseá-lo com mais um presente especial. Quando o enteado abriu o embrulho, exclamou:
- Oh, outro relógio! Mas aquele que me deu ainda está novo!... – e o rapaz, exibindo o braço, deixou-se cair numa cadeira para melhor observar a prenda.
- Que importa? Este aqui é o último grito da tecnologia. Para os meus filhos, só quero o melhor...
- Oh, meu pai!... Como é bom para mim!...
- Nada disso, meu filho!... Tenho é sorte, muita sorte!... – respondeu o Engº Estorninho, enquanto acariciava a cabeça de Rudolfo Frederico com as suas mãos papudas.

Adelina Velho da Palma
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