|
Um Caso de Sucesso in "Areias movediças e outras
histórias de inquietação"
Qualquer pessoa com mais de vinte anos
de idade lembrar-se-á do estrondoso
sucesso que constituiu o lançamento do
Sublimac pela empresa Vago SA. A
publicidade inicial foi discreta, assim
como a adesão do público. Porém,
depressa a procura aumentou, atingindo
um nível inusitado, até se tornar
verdadeiramente frenética. Dia após dia,
as lojas dos artigos do género, mal
abriam as portas, eram invadidas por
hordas de clientes ansiosos. Cá fora,
longas filas de pessoas aguardavam com a
paciência possível a sua vez de entrar.
O stock existente era esgotado
rapidamente e muita gente acabava por
sair contrafeita, de mãos vazias, com a
promessa de, no dia seguinte, a situação
estar normalizada.
Quando a venda de Sublimac’s disparou,
trucidando as previsões mais ambiciosas,
a gestão da Vago SA, temendo que a
procura cessasse tão rapidamente como
havia começado, manteve a produção a
meio gás durante algumas semanas. Quando
se tornou evidente que o público estava
definitivamente conquistado, os
Sublimac’s começaram a ser fabricados
dia e noite, sem interrupção. Durante
meses os fabricantes não cessaram de
receber matéria-prima e produzir as suas
diversas componentes. Foi necessário
criar novos turnos e fazer horas
extraordinárias para conseguir
satisfazer todas as encomendas. Em
grandes armazéns, as peças constituintes
eram montadas e embaladas sem parar, até
à completa assemblagem do produto final.
E, todas as madrugadas, frotas de
camiões transportavam as palettes de
Sublimacs’s acabados de montar até aos
pontos de venda, a fim de satisfazer a
insaciável demanda.
Este êxito estrondoso teve inevitáveis
consequências. A Vago SA, de firma de
segunda categoria, quase que de vão de
escada, transformou-se numa empresa
poderosa, cotada na bolsa de Nova
Iorque. O número de funcionários
decuplicou. De umas modestas instalações
nos subúrbios, transitou para um
opulento edifício numa nobre zona
empresarial. E o Engº Estorninho,
presidente da Vago SA, tornou-se
mundialmente famoso como o “Pai do
Sublimac”. Consequentemente, passou a
ser assediado pelos media, instigado a
aderir a partidos políticos e, até,
convidado a integrar o governo, muito
embora como independente. O êxito do
Sublimac foi tão extraordinário que,
segundo dizem os entendidos, tem lugar
assegurado em todos os compêndios de
sociologia e, quiçá, na história da
economia mundial
Face a tão invulgar ocorrência, ademais
numa época de acentuada crise económica,
importa esclarecer as razões exactas que
estiveram na origem de tão retumbante
sucesso. Sendo sabido que, ao contrário
de outras ideias bem sucedidas
(provenientes de cabeças iluminadas do
marketing ou de aturados e científicos
estudos sobre as necessidades do
mercado), o único responsável pelo
brilhante conceito subjacente ao
Sublimac foi o presidente da Vago SA, o
Engº Estorninho. Ele mesmo, em pessoa.
Debrucemo-nos pois, sobre as verdadeiras
circunstâncias que o levaram a
congeminar tão luminosa ideia.
O Engº Estorninho era um homem baixo,
franzino, de físico pouco atractivo. A
sua face era redonda e avermelhada, de
orelhas grandes e olhos pequeninos por
detrás de umas fortes lentes de miopia.
As mãos eram papudas, de dedos curtos e
gordos. Devido a uma calvície prematura,
exibia um crânio luzidio, semeado de uma
penugem oleosa, tão avermelhado como a
cara. Malgrado sofrer das paixões comuns
aos seres humanos, que todavia dominava
com mestria, era inteligente,
trabalhador e tinha bom coração.
Filho de gente pobre da província, o
Engº Estorninho estudara a expensas
próprias, à custa de enormes
sacrifícios. Viera para Lisboa com doze
anos de idade e o quarto ano de
escolaridade, tendo ido viver no Bairro
Alto, em casa de uma tia, irmã mais
velha do pai, viúva e com mau feitio.
Arranjara emprego como marçano num dos
merceeiros da rua, e continuara a
estudar aos solavancos, no pouco tempo
livre que o trabalho lhe permitia.
Sovina, a tia ficava-lhe com metade do
ordenado, em troca do parco alojamento e
das sopas de cavalo cansado com que o
obsequiava, além de lhe exigir
colaboração nos trabalhos domésticos.
Ávido de independência, o Engº
Estorninho aforrara cada tostão poupado
e, com a idade de dezasseis anos deixara
a casa da tia e alugara um pequeno
quarto esconso (o único compatível com o
seu ordenado de marçano), nas traseiras
de uma casa sórdida. A senhoria da nova
residência era intratável mas, não sendo
da família, ele sentia-se livre para a
votar ao mais completo desprezo.
Ignorava as instruções que o obrigavam a
não acender a luz do quarto à noite e,
mal ela virava costas, ligava o
esquentador e tomava banho, apesar da
sua orientação taxativa de só utilizar
água quente uma vez por semana. Sempre
determinado, o Engº Estorninho
dedicara-se aos estudos com afinco,
lutando contra todas as dificuldades
inerentes à sua condição de estudante e
trabalhador (e não trabalhador-estudante
visto que, para tal estatuto, ainda nem
sequer tinha idade). As adversidades
eram inúmeras: falta de dinheiro para
livros e material escolar, pouco tempo
para o estudo e até o sono invencível
que o acometia nas aulas, devido ao
insuficiente repouso nocturno, derivado
da hora matutina a que o patrão o
obrigava a apresentar-se ao serviço
todas as manhãs.
Com dezoito anos e o nono ano de
escolaridade feito às três pancadas, a
vida do Engº Estorninho sofreu
finalmente um incremento apreciável.
Concorreu e ganhou, com toda a lisura,
um lugar de ajudante de escriturário num
tribunal. O novo emprego, que além do
ordenado lhe rendia emolumentos,
permitia-lhe comer na cantina do
tribunal, pagar o quarto onde dormia e
custear os estudos com um desafogo que,
até aí, o Engº Estorninho nunca
conhecera. Além disso, o vegetar na
função pública (e porque um ajudante de
escriturário não tem, em rigor,
absolutamente nada para fazer),
possibilitava-lhe estudar durante as
horas de serviço e ser dispensado de
comparência nas vésperas e dias de
exame, desde que devidamente
justificados. E o Engº Estorninho
completara o secundário, ingressara na
Faculdade de Engenharia e acabara o
curso, sem nunca mais perder um único
ano.
Apesar do seu bom sucesso escolar, não
se pense, porém, que estes anos de
progressão e emprego a meio gás lhe
tivessem sido fáceis. O Engº Estorninho
continuara a viver em quartos alugados,
aturando senhorios execráveis, e a
dedicar o seu tempo livre aos estudos,
sem um único instante de descontracção.
No cômputo geral, a vida fora-lhe muito
dura e, somente por uma extraordinária
força de vontade, o Engº Estorninho não
cedera à tentação da facilidade e
perseverara em se licenciar. A palavra
sorte não existia no seu vocabulário. Se
tal havia, ele não a conhecia. Um a um e
em esforço, ultrapassara todos os
obstáculos, e amadurecera com a
convicção de que, sem sacrifícios, nada
se consegue na vida.
Detentor do tão almejado canudo, o Engº
Estorninho (pela primeira vez, no
decorrer desta narrativa, usufruindo do
título por direito próprio), concorrera
a tudo o que era proposta de emprego
compatível com as suas habilitações, na
ânsia de sair do tribunal e obter um
emprego que lhe possibilitasse alguma
largueza económica. E, não sendo tolo, à
custa de bons testes psicotécnicos,
conseguira entrar para uma empresa que,
embora pequena, fazia parte de um
importante grupo empresarial, abarcando
múltiplas e diversificadas áreas de
negócio.
No novo emprego, entrara com o pé
direito. A sua longa tarimba de luta
pela vida levava-o a não cometer os
erros vulgares nos novatos. Trabalhava
com gosto. Era criativo mas nunca
ultrapassava as suas competências. E
soubera tornar-se precioso não
transpondo o limiar do indispensável,
situação fatalmente geradora de
anticorpos. Começara até a vestir-se com
aprumo, na tentativa de disfarçar a
fraca figura. E, de promoção em promoção
(sempre com todo o mérito, importa
reconhecê-lo), com a idade de trinta e
cinco anos e ao fim de dez de serviço,
chegara a presidente da Vago SA,
situação ímpar para quem não detinha
cunhas, e que durante bastante tempo não
deixara de o espantar. De facto, o Engº
Estorninho sabia-se competente mas não
brilhante, e uma total ausência de
padrinhos havia-o levado, desde sempre,
a conformar-se com a perspectiva de
nunca atingir nenhum cargo
verdadeiramente importante. Porém, a
pouco e pouco, deixara de ter ilusões
sobre o motivo pelo qual a gestão da
holding do grupo o içara a um tal posto,
e, paralelamente, não mais se sentira
lisonjeado com a promoção. É que,
objectivamente, ninguém no grupo queria
aquele lugar. Vejamos porquê.
A Vago SA era uma espécie de agência
funerária. A sua função era descontinuar
produtos e serviços que estivessem em
declínio, acompanhando o seu estertor
até à completa extinção. Sempre que a
gestão de uma das empresas do grupo
decidia acabar com uma oferta ao
mercado, esta transitava para a alçada
da Vago SA. Seguidamente, competia a
esta empresa uma análise completa das
potencialidades residuais do produto,
assim como a elaboração de um plano que
possibilitasse a sua morte com o mínimo
de impacto nos clientes e de danos
colaterais no grupo. Note-se que, no
estatutário da Vago SA, nada a impedia
de ela mesma comercializar produtos e
serviços. Contudo, na prática, isso
nunca acontecia. Em rigor, a Vago SA
limitava-se a exercer uma função de
eutanásia, e o Engº Estorninho não
passava de um cangalheiro.
Não estando orgulhoso, o Engº Estorninho
também não se sentia incomodado com a
situação. Uma presidência é uma
presidência. E, embora longe do nível
dos outros cargos máximos do grupo, o
ordenado permitia-lhe uma vida
desafogada, totalmente isenta de
preocupações de ordem financeira. Por
outro lado, sabia que nunca lhe faltaria
trabalho. Num mundo em permanente
mutação, tudo tem um fim. E essa
inexorabilidade era a sua garantia de
futuro. Enquanto qualquer outra empresa
poderia eventualmente acabar, a Vago SA
nunca se extinguiria.
A gestão da Vago SA dava trabalho. Muito
trabalho. Qualquer coisa lá podia ir
parar. Por consequência, uma enorme
versatilidade era exigida aos seus
elementos, obrigando a constantes acções
de formação. Tinham de possuir vastos
conhecimentos técnicos, jurídicos e
económicos, e uma infinita capacidade de
aprendizagem.
Todavia, apesar de tudo o que atrás foi
dito, a Vago SA não contava com o
reconhecimento da holding. Era
considerada uma empresa de segunda
ordem, sem categoria para ocupar
instalações condignas no parque
empresarial do grupo. Por isso
funcionava num prédio degradado nos
subúrbios, e era a primeira a sofrer os
cortes orçamentais. E, à excepção do
Engº Estorninho, nenhum presidente do
grupo tinha um gabinete cuja janela dava
para um saguão.
O Engº Estorninho era complexado junto
do sexo feminino. Sempre o fora. Durante
muitos anos saciara o desejo sexual
sozinho ou com as mulheres de vida fácil
que o seu magro ordenado conseguia
pagar. Por diversas vezes se sentira
atraído por colegas, da Faculdade ou do
Tribunal, mas, por insegurança, nunca se
atrevera a avançar. Todavia, acabara por
casar, já entradote, com a secretária,
por ter sido ela a única mulher que, até
então, olhara para ele. Quando a
conhecera e a contratara, ela era uma
mãe solteira. Não tinha uma beleza por
aí além, mas era simpática e afável.
Tinha um filho com doze anos, um rapaz
alto e bonito chamado Rudolfo Frederico,
filho de um sedutor igualmente alto e
bonito que, mal soubera da gravidez, a
abandonara.
Os enredos de dificuldades, lutas e
abandonos sempre haviam impressionado o
Engº Estorninho. Não pudera deixar de se
comover com a história daquela mulher
que tão corajosamente assumira uma
maternidade sem pai e conseguira, sempre
sozinha, criar o filho com desvelo. E o
Engº Estorninho, galvanizado pelas
confidências de que era alvo, tivera
coragem para dar o primeiro passo e
acabara por casar com ela, convencido de
que unia a sua vida à mais fiel e
intrépida das mulheres.
O casamento foi uma reviravolta total na
vida do Engº Estorninho. De uma cajadada
obtivera, não só uma esposa, mas uma
família completa.
Durante os primeiros tempos o Engº
Estorninho procurara afeiçoar-se ao
enteado. Achava graça ao facto de ter
ganho um filho, assim de repente, já com
doze anos de idade. Mas Rudolfo
Frederico era um rapazola atrevido e,
sobretudo, estruturalmente calão. E o
Engº Estorninho acabara por se desgostar
do dito, limitando-se a tolerá-lo por
único e exclusivo amor da mãe dele. Por
seu lado, a mulher, que adorava o filho,
envidava todos os esforços para que o
marido procedesse como um verdadeiro
pai. Mas era inútil. O Engº Estorninho
não conseguia nutrir pelo enteado um
único laivo de amor paternal.
Sem ser estúpido, Rudolfo Frederico era
muito menos esperto do que se julgava.
Ao atingir os quinze anos tornara-se
insolente e malcriado. Exigia dinheiro e
liberdade, o que, não sendo raro na sua
faixa etária, indignava o Engº
Estorninho, cuja juventude não gozara de
quaisquer prerrogativas. Tendo subido na
vida a pulso, não podia aceitar os
gostos dispendiosos do enteado, que só
queria roupa de marca e fundos para
esbanjar em discotecas. Com ênfase, pois
tal era a sua maneira de ser, tentava
educá-lo, transmitindo-lhe os princípios
por que norteara a sua vida. Mas era
desajeitado e a mulher acabava por se
aborrecer com ele. Escusado será referir
que a mãe fazia todas as vontades ao
filho. E que essas vontades eram
financiadas exclusivamente pelo Engº
Estorninho, pois a esposa, após o
casamento, deixara de trabalhar.
Por tudo isto, o Engº Estorninho
sustentava o enteado a contragosto. No
fundo, considerava-o um bastardo, gerado
por um pai celerado, que não contribuía
com um cêntimo para a subsistência e
educação do filho. Contudo, dado que não
se queria incompatibilizar com a esposa
a quem amava ternamente, limitava-se a
sonhar com o dia em que o enteado
arranjasse um modo de vida e lhe saísse
da porta para fora. E, apesar de
detentor de um certo machismo, o Engº
Estorninho chegava a sentir inveja das
mulheres que, mesmo casando com homens
com filhos, não eram obrigadas a
conviver diariamente com os enteados.
Era o Engº Estorninho dotado de uma
notável perspicácia em relação ao
psiquismo alheio. Captando com exactidão
os sentimentos das pessoas que o
rodeavam, sabia perfeitamente que
Rudolfo Frederico não gostava dele. Por
outro lado, a verdadeira modéstia é um
sentimento muito raro, e o Engº
Estorninho não era isento a uma certa
dose de vaidade. Como tal, não resistia
a enfatuar-se com a percepção de que o
enteado, consciente de que vivia agora
muito melhor do que antes do casamento
da mãe, não tinha coragem de o afrontar
abertamente. De facto, quando Rudolfo
Frederico queria alguma coisa, optava
por passar a mensagem à mãe, confiando
no poder de persuasão desta sobre o
marido.
Decorria da forma atrás descrita a vida
do Engº Estorninho, quando algo
aconteceu que veio inundar o seu coração
de felicidade - a mulher engravidou!...
Desta gestação nasceu um filho, um
rapaz, que era o retrato vivo do pai.
O Engº Estorninho gozou a paternidade em
toda a plenitude e, durante meses, viveu
submerso no seu encantamento. Rudolfo
Frederico passou definitivamente para
segundo plano. Porém, a pouco e pouco, o
facto do filho ser muito parecido com
ele, que nos primeiros tempos fora
motivo de júbilo, acabou por constituir
fundamento de um secreto desgosto do
Engº Estorninho. Por via da semelhança,
a sua inteligência implacável vaticinava
para o filho o mesmo físico ingrato e os
mesmos complexos junto do sexo feminino
de que ele próprio sofria. Por outro
lado, apercebia-se que o enteado, de dia
para dia, se ia tornando fantasticamente
bonito. Alto, musculoso, de feições
correctíssimas, qualquer trapo lhe
ficava bem. Quando recebiam visitas em
casa, nada irritava mais o Engº
Estorninho que gabarem a figura do
enteado, esquecendo-se de tecer elogios
ao próprio filho, que ainda era uma
criancinha, e não possuía os dotes
físicos do meio irmão.
E foi assim que, em contraste com a
ternura que sentia pelo filho, o Engº
Estorninho começou a nutrir um
verdadeiro ódio pelo enteado, ódio este
que tinha de manter secreto, pois a
esposa, sendo acima de tudo uma mãe,
nunca aceitaria que um filho seu
despertasse um tal sentimento.
À medida que Rudolfo Frederico se
tornava um homem cada vez mais belo,
crescia também a sua exigência. Queria
viajar, passar férias longe da
família... E, para tanto, solicitava à
mãe dinheiro e mais dinheiro. A mãe,
cega de amor pelo filho, não o
contrariava (parece até que o
encorajava) e pedia ao marido os fundos
necessários para manter o rapaz
satisfeito. O Engº Estorninho, a quem o
ódio tornara mais frio, cedia com
aparente bonomia, porque não queria
aborrecer a esposa e porque o enteado
era tecnicamente menor. Mas aguardava
uma oportunidade de oiro para saborear
uma vingança bem planeada.
Como já foi dito, Rodolfo Frederico
tinha uma inteligência mediana. Era um
estudante pouco mais que medíocre. No
entanto fazia um alto conceito de si
próprio, o que exasperava sobremaneira o
Engº Estorninho. Ademais, por via de uma
sorte extraordinária, nunca chumbava.
Passava sempre à tangente. E, contra
todas as probabilidades, conseguiu fazer
o 12º ano, o que não agradou ao
padrasto. Sim, porque nada daria mais
gozo ao Engº Estorninho (um gozo
secreto, é certo) que ver o enteado
reprovar no 12º e baixar a proa. Sem
peias, admitia para si mesmo que o
prazer de assistir ao chumbo do enteado
era muito superior ao prejuízo
financeiro que tal lhe acarretaria.
Mas Rudolfo Frederico fez o 12ºano.
Claro que as notas obtidas não lhe
abriam as portas de nenhuma universidade
pública, de forma que fez finca-pé para
entrar numa privada, obrigando uma vez
mais o Engº Estorninho a abrir os
cordões à bolsa.
Mas o pior foi que, mesmo numa privada,
Rudolfo Frederico não se aplicava. E a
boa sorte, que até aí o fizera
progredir, acabou por abandoná-lo. Não
fazia mais que uma ou duas cadeiras por
ano. Andava à boa vida e só estudava
(pouco) nas vésperas dos exames. Quando
questionado, desculpava-se com condições
exógenas adversas, algumas bastante
controversas, como por exemplo,
embirração dos professores... E, incapaz
de reconhecer a sua preguiça estrutural,
Rudolfo Frederico exigia melhores e mais
dispendiosas condições de estudo, numa
táctica fuga para a frente. Assim, de
Lisboa quis ir estudar para Coimbra,
forçando o Engº Estorninho à despesa
adicional do alojamento e das
deslocações entre Lisboa e aquela
cidade. Todavia, nem em Coimbra Rudolfo
Frederico viria a obter sucesso nos
estudos.
Ao fim de quatro anos (dois em Lisboa
mais dois em Coimbra), o Engº Estorninho
estava decidido a não tolerar por mais
tempo este estado de coisas. O enteado
era já maior e vacinado, e era mais que
justo que sofresse as consequências da
sua vadiagem. Impunha-se que começasse a
ganhar a vida. Se quisesse prosseguir
nos estudos, fá-lo-ia à noite, como
qualquer trabalhador-estudante. Para
tal, almejando mostrar-lhe a dureza da
vida, que o outro desconhecia por
completo, o Engº Estorninho tencionava
empregá-lo na Vago SA como auxiliar não
especializado, designação pomposa dada
aos moços de recados (os antigos
marçanos, como ele mesmo fora). Mas
sabia que teria pela frente, pela
primeira vez, uma árdua batalha contra a
esposa.
Entretanto Rudolfo Frederico, farto de
Coimbra, havia decidido ir estudar para
Londres e, para tanto, lançara a escada
à mãe. Mas até a super convincente
esposa do Engº Estorninho hesitava
quanto à melhor forma de desferir o
ataque ao marido. Desta vez, ela própria
parecia não encontrar argumentos capazes
de pleitear a causa do filho. No fundo,
sentia o disparate que era premiar a
preguiça de Rudolfo Frederico, pois que
em todo o ser humano, por muito
pusilânime que seja, existe um
rudimentar sentido de justiça.
Não obstante, nada disto chegou a ser
discutido. Poucos dias depois, Rudolfo
Frederico foi convidado para trabalhar
como modelo numa agência muito
conceituada. Havia sido um caçador de
talentos que, numa noitada de discoteca,
sem o conhecer de lado nenhum, reparara
nele. E, de tal maneira ficara
impressionado com o seu fabuloso físico,
que o abordara e o convidara para fazer
os testes de imagem exigidos por esse
tipo de profissão. Rudolfo Frederico
passou magnificamente em todos os testes
e iniciou assim uma fulgurante carreira
de modelo, esquecendo em definitivo a
intenção de ir estudar para Londres.
É impossível exprimir a raiva interior
que, a partir desta altura, começou a
consumir o Engº Estorninho. O enteado
desfilava, viajava, fazia anúncios,
aparecia na televisão, andava nas
revistas e nos jornais... Além disso,
tinha dinheiro e mulheres a rodos!... E
o Engº Estorninho sentia saudades do
tempo em que sustentava o enteado.
Qualquer coisa se lhe afigurava
preferível a assistir àquele triunfo
imerecido. E o pior de tudo é que,
apesar de todo o dinheiro que agora
detinha, Rudolfo Frederico não
abandonava a casa materna. O Engº
Estorninho sabia que a razão deste
procedimento se devia unicamente ao
proverbial comodismo do enteado. Mas a
mãe dele andava nas nuvens, pois
acreditava que ele o fazia por amor da
família, sobretudo do irmão mais novo, a
quem, até à data, nunca dedicara um
segundo de atenção. E assim se via, o
Engº Estorninho, obrigado a aceitar a
permanência do enteado em casa.
Que pode um homem fazer em tais
circunstâncias? Dia após dia, um fogo
interior tomava conta do Engº
Estorninho. A ideia de se vingar do
enteado obcecava-o. Tinha de arranjar
algo terrível, demolidor, que o fizesse
vir comer na palma da sua mão. Mas o
Engº Estorninho não tinha pressa.
Cauteloso, sabia que o manjar dos deuses
não perde por arrefecer. E ia deixando a
coisa amadurecer dentro de si.
Foi num dia cinzento, sentado no seu
gabinete com vista para o saguão, que
lhe surgiu uma ideia. A Vago SA tinha
recebido ordens para descontinuar um
produto – um apito para chamar pássaros
que funcionava à base de ultra sons. O
apito era inaudível para o ouvido
humano, o que o tornara pouco atractivo
para o público. Por isso fora
substituído por outro que, além dos
ultra sons que efectivamente chamavam os
pássaros, emitia gorjeios de aves
autênticas. Meticuloso, um dos técnicos
que manuseava os apitos viera dizer-lhe
que andara a experimentar, um a um,
todos os exemplares do stock
remanescente, e descobrira alguns que
pareciam afectar o sistema nervoso das
pessoas.
- Como? Que quer você dizer com isso? –
indagara o Engº Estorninho, subitamente
interessado.
- Senhor Engenheiro – respondera o
técnico - por enquanto só lhe posso
dizer que, ao soprar por alguns daqueles
apitos, os experimentadores são presa de
um indefinível mal estar. Sentem-se
ansiosos e inseguros. Ainda não
determinei as causas, pois queria saber
se valia a pena prosseguir com...
O Engº Estorninho interrompera-o:
- De que é que está à espera? Determine
as causas do fenómeno! Homem, se faz
favor, determine-as depressa!...
- Mas, Senhor Engenheiro... – balbuciara
o técnico, pouco habituado a receber
ordens tão peremptórias.
- Já lhe disse! Quero isto investigado a
fundo! Faça o que for preciso!...
O técnico saíra do gabinete do Engº
Estorninho muito apardalado, pois
fenómenos estranhos nos artigos a
descontinuar era o que mais havia, e
nunca ninguém se tinha preocupado com o
assunto. As investigações eram caras, e
competia à Vago SA matar os produtos e
não analisar-lhes os defeitos.
Depois do técnico sair, o Engº
Estorninho imergiu na mais profunda
reflexão. Sabia muito bem porque é que
tinha dado aquela orientação tão
invulgar. As palavras do técnico haviam
despertado uma semente no seu espírito
que começava a germinar. Se se
descobrisse alguma coisa capaz de
retirar a confiança de um indivíduo, de
o fazer duvidar de si mesmo, de lhe
criar ataques de pânico... Seguramente,
não haveria carreira de modelo que
resistisse a vicissitudes desse cariz...
Não foi preciso muito tempo para o
técnico do Engº Estorninho descobrir as
causas da estranha má disposição que
acometia os funcionários que manuseavam
determinados apitos (o que vinha
corroborar a opinião de que os grandes
achados são quase sempre fruto do acaso
e não de prolongada investigação).
- Trata-se de certa substância existente
na tonalidade amarela. Nos apitos desta
cor, a radiação electromagnética do
comprimentos de onda correspondente a
essa frequência parece interceptar certa
gama de ultra sons e interferir com a
produção de serotonina no cérebro –
comunicou o técnico, certa manhã, ao
Engº Estorninho.
- Extraordinário! – exclamou o Engº
Estorninho.
- Continuamos as investigações?
- Evidentemente!... Não parem!... Isto
pode ser um filão!... – vociferou o Engº
Estorninho, visualizando mentalmente o
enteado sofrendo um ataque de pânico em
plena passagem de modelos...
Como já aqui foi referido, e para que o
leitor não estranhe a vastidão de campos
que abrangia esta investigação, relembro
que os técnicos da Vago SA eram
altamente qualificados, aptos a efectuar
estudos e pesquisas nos mais diversos
domínios da ciência. Todavia, a
verdadeira intenção do Engº Estorninho
não era retirar dividendos de uma
eventual descoberta no campo da
influência comportamental. Ele desejava
tão somente um artefacto de pequenas
dimensões, talvez um chip, que pudesse
ser usado por Rudolfo Frederico sem este
desconfiar, de forma a provocar-lhe
alterações no humor e a destruir-lhe a
carreira! Assim mesmo, sem tirar nem
pôr.
E, pela primeira vez na vida, a sorte
bafejou o Engº Estorninho. Os técnicos
da Vago SA conseguiram determinar com
exactidão, não só as condicionantes
precisas para provocar ataques de mau
humor nas pessoas, como as necessárias
para produzir o efeito exactamente
oposto, este comercialmente muito
interessante. Em suma: pela primeira vez
na história da ciência física, era
possível controlar os níveis de
serotonina no cérebro humano, usando
apenas as mensagens subliminares
irradiadas por um pequeno chip,
dispensando qualquer recurso a drogas
químicas.
Dominado pela sensação de triunfo que
lhe dava a certeza de possuir finalmente
um meio subtil e demolidor de se vingar
do enteado, o Engº Estorninho decidiu
quebrar a tradição da Vago SA, pouco
mais ligando ao assunto. Mas o
orientação foi seguida com empenho e,
pela primeira vez, a Vago SA lançou um
produto no mercado...
E assim nasceu o Sublimac. Era pequeno,
discreto, passava despercebido em
qualquer bolso, e bastava mantê-lo
ligado durante o tempo necessário para
incutir no utente o bem estar e a
confiança desejados. E, no mesmo dia em
que o Sublimac foi posto à venda, por
coincidência o aniversário de Rudolfo
Frederico, o Engº Estorninho levou para
casa um relógio de ouro de uma marca
distintíssima, no qual colocara
pessoalmente um pequeno chip quase
invisível, e com ele presenteou o
enteado.
O que se seguiu é do domínio público. A
adesão ao Sublimac começou por ser
tímida, pois ninguém gosta de admitir
que necessita de um estimulante para
andar bem disposto. Porém, numa
sociedade com uma enorme percentagem de
pessoas deprimidas, o sucesso de tal
dispositivo foi inevitável. O Sublimac
era barato, simples de usar, inofensivo
e, acima de tudo, eficaz, o que não
tardou a transformá-lo num retumbante
sucesso. A tal ponto que acabou por
extravasar fronteiras e ser vendido aos
países mais evoluídos. Evidentemente,
granjeou inimigos. Muitos entendidos na
matéria conotavam o “efeito Sublimac”
com o “efeito placebo” e desmistificavam
a eficácia do produto. Mas o público foi
indiferente a estas arremetidas.
Como consequência do sucesso do
Sublimac, o Engº Estorninho
metamorfoseou-se num homem
importantíssimo, conhecido e respeitado
tanto no país como no estrangeiro, e a
Vago SA passou a empresa de primeira
categoria, vanguarda do grupo que
durante tanto tempo a desprezara.
Mas a grande descoberta do Engº
Estorninho seria de carácter privado,
quase íntimo. Depois de se ter tornado
muito mais famoso do que Rudolfo
Frederico alguma vez sonharia ser,
passou a olhar para o enteado com outros
olhos. Agora, era-lhe indiferente o
sucesso ou insucesso do dito. Este
apreciava verdadeiramente o relógio de
ouro com que fora presenteado e usava-o
a toda a hora. Mas (vá lá saber-se
porquê!), dera em faltar aos
compromissos, em sofrer crises
depressivas e em sentir insegurança, com
os correspondentes reflexos negativos na
sua carreira de modelo. A sua auto
estima descia a olhos vistos. E, ao
ver-se necessitado de apoio e
compreensão, voltara-se para o Engº
Estorninho, agora tão bem sucedido.
Desabafava com ele, solicitava-lhe
conselhos e escutava-lhe as opiniões.
Pela primeira vez na vida, Rudolfo
Frederico venerava o padrasto como um
verdadeiro pai.
Por seu lado o Engº Estorninho, imerso
na fama e cercado de mordomias,
compreendia melhor as fraquezas do
enteado. Ver Rudolfo Frederico ansioso e
deprimido não lhe trouxera a satisfação
almejada. E sentir que o enteado o
admirava, levava-o a nutrir por ele um
sentimento suave, protector, quiçá
paternal!... Entre os dois cimentava-se
uma verdadeira amizade. O Engº
Estorninho preocupava-se com o estado de
saúde de Rudolfo Frederico e tratava-o
em pé de igualdade com o próprio filho.
E um dia, desejando mais do que nunca a
felicidade de Rudolfo Frederico, o Engº
Estorninho resolveu mimoseá-lo com mais
um presente especial. Quando o enteado
abriu o embrulho, exclamou:
- Oh, outro relógio! Mas aquele que me
deu ainda está novo!... – e o rapaz,
exibindo o braço, deixou-se cair numa
cadeira para melhor observar a prenda.
- Que importa? Este aqui é o último
grito da tecnologia. Para os meus
filhos, só quero o melhor...
- Oh, meu pai!... Como é bom para
mim!...
- Nada disso, meu filho!... Tenho é
sorte, muita sorte!... – respondeu o
Engº Estorninho, enquanto acariciava a
cabeça de Rudolfo Frederico com as suas
mãos papudas.
Adelina Velho da Palma
http://adelinapalma.com/um-caso-de-sucesso/ |