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O Mestre in "Areias
movediças e outras histórias de inquietação
Foi o acaso e não uma
verdadeira decisão de abraçar a modalidade que levou Lucília a entrar
pela primeira vez num Centro de Yoga. Como a maioria das pessoas, ela
não tinha uma ideia clara sobre esta actividade. Moradora num bairro
elegante e sossegado de Lisboa, ao chegar a casa num fim de tarde,
reparara numa tabuleta, impressa em letras pretas sobre metal, ao lado
da porta de entrada de um prédio vizinho:
CENTRO PORTUGUÊS DE YOGA
7ºandar esquerdo
Observadora, a sobriedade da referência chamara a sua atenção de forma
mais eficaz do que o teria feito um grande letreiro luminoso. Num
impulso tocara à campainha, e subira até ao 7ºandar num elevador que, na
altura, lhe parecera lento. Uma mulher baixa e afável viera abrir-lhe a
porta. Lucília entrara num hall espaçoso, a meia-luz, onde pairava um
ligeiro aroma a sândalo. O tecto era baixo e as paredes claras exibiam
um único quadro: um diploma emoldurado, comprovativo de que o Professor
Joaquim de Oliveira exercia legitimamente o cargo de mestre de
Hatha-Yoga, tendo concluído o seu tirocínio no Brasil, numa data já
remota, sob a orientação do grande Caio Miranda.
Lucília sentara-se na cadeira indicada pela anfitriã, e recebera desta a
informação necessária à iniciação em qualquer actividade – normas,
horários e condicionalismos. O Centro funcionava nas actuais instalações
havia pouco tempo. Qualquer pessoa, mesmo doente ou idosa, podia
frequentar as aulas. Estas eram exclusivamente masculinas ou femininas e
duravam cerca de hora e meia. Era desaconselhável a prática de estômago
cheio. A parte final de cada aula consistia num relaxamento profundo,
durante o qual era interdito entrar ou sair da sala de aula.
Enquanto escutava, Lucília reparara que a recepcionista não parecia
talhada para a função. Vestia de escuro, de forma despretensiosa, e
devia rondar os cinquenta anos. Tinha tez pálida e cabelo de um castanho
cajú indisfarçavelmente artificial. Os traços eram regulares e
denunciavam uma beleza passada, que uma expressão de cansaço atenuava.
Por detrás de uns óculos de aros finos, os olhos eram claros e um pouco
salientes. A boca era pequena e bem desenhada. Falava de uma maneira
afável e pausada, articulando as palavras cuidadosamente, como se
desejasse ser compreendida de imediato e não ter de repetir nenhuma
indicação. Contudo, por detrás da suavidade, a sua voz acoitava também
alguma fadiga.
Lucília decidira-se pela inscrição. A proximidade de sua casa consistia
uma vantagem considerável em relação a todas as alternativas. Havia
tempo que sentia a necessidade de praticar uma actividade física. O seu
trabalho como professora do ensino secundário, responsável pela
disciplina de Português junto de várias turmas de adolescentes, era por
demais exigente. Entregava-se com vigor à sua profissão, que considerava
quase um sacerdócio, mas a sua índole sensível não lhe permitia ainda,
ao fim de quinze anos de carreira, ganhar a distância suficiente para
não sofrer com o insucesso dos alunos. Sendo o Português, mais que
qualquer outra disciplina, uma questão cultural, Lucília esgotava a
imaginação na busca de ideias que a pudessem ajudar a despertar um
interesse genuíno junto dos alunos. Praticando uma actividade física
regular, esperava desanuviar o espírito.
Não tinha filhos. O marido subira na vida a pulso e chegara a director
financeiro de uma grande empresa. Trabalhava, em média, dez horas por
dia. Quando chegava a casa, vinha esgotado, sem disposição para
conversar e com pouca paciência para a mulher. Com o passar dos anos,
Lucília acabara por se dedicar quase exclusivamente aos alunos e à nobre
missão de ensinar. Não fora a profissão, a vida afigurar-se-lhe-ia
vazia, sem sentido. Por isso, apesar de não necessitar do dinheiro que
ganhava, conservava o emprego como a parcela mais importante da sua
vida.
No começo de cada ano lectivo, aguardava a primeira aula com mais
nervosismo que os alunos que iria enfrentar pela primeira vez. Não
ignorava que, de início, lhes causava uma boa impressão. Era alta, tinha
boa figura e sabia colocar a voz. Durante as primeiras aulas conseguia
manter a turma atenta, suspensa de suas palavras. Mas, à medida que o
ano progredia, vinham à tona as deficiências de base. Então tornava-se
cada vez mais penoso manter os alunos interessados e disciplinados.
Aqueles cujo comportamento não extravasava dos limites aceitáveis, caíam
na apatia. Os restantes obrigavam Lucília a um esforço continuado de
manutenção da ordem. E este panorama repetia-se de ano para ano.
Sucessivas reformas e alterações de programa não surtiam efeito contra a
disseminação generalizada dos erros gramaticais e da má construção de
frases. Os bons alunos rareavam cada vez mais. E a leitura adquiria
reputação de passatempo bizarro, só apetecível a um número restrito de
psicopatas.
No dia da sua primeira aula de Yoga, Lucília chegou cedo. A porta
foi-lhe aberta pela recepcionista que a conduziu ao vestiário, uma sala
com várias poltronas e uma parede revestida de cacifos. A atmosfera era
familiar, bem diferente da de um ginásio. Lucília despiu-se, guardou a
roupa num dos cacifos e vestiu o leve fato de treino que adquirira para
o efeito. Pouco depois chegaram duas senhoras que a cumprimentaram e
começaram também a trocar de roupa. A aula tinha lugar numa divisão
grande, presumivelmente a maior da casa, embora ficasse muito aquém das
dimensões habituais de um ginásio. Dentro da sala, fracamente iluminada,
Lucília distinguiu, numa das paredes, um quadro esquemático com uma
figura humana indicando a localização dos sete chakras. A palavra não
lhe era estranha mas, em rigor, desconhecia-lhe o significado. Um dos
cantos da sala continha uma aparelhagem sonora, cujo par de colunas
ocupava outros dois cantos. No quarto canto, numerosas pranchas estavam
encostadas à parede numa posição quase vertical, ladeadas por vários
cobertores dobrados e uns curiosos apoios triangulares empilhados. Junto
das paredes, uma série de tapetes dispostos lado a lado sugeria as
posições individuais dentro da aula. Quando Lucília entrou, já havia uma
colega deitada sobre um dos tapetes. Lucília escolheu uma posição,
deitou-se sobre o tapete respectivo e fechou os olhos.
Alguns minutos depois, o silêncio foi quebrado por uma voz masculina:
- Muito boa tarde senhoras!
Lucília abriu os olhos e viu o mestre. Era um belo tipo de homem, mais
jovem do que seria expectável. Alto, bem constituído, de postura
impecável e cabeça bem implantada nos ombros. Possuía cabelos grisalhos,
bastos, e uma barba bem aparada, igualmente grisalha. Os olhos eram
escuros, grandes e ligeiramente amendoados. O nariz perfeito e a boca de
lábios carnudos e sensuais. Envergava um fato de treino em tons
discretos e, ao pescoço, exibia um fio sustendo uma estrela com um
número imperceptível de bicos. Sem mais preâmbulos, dirigiu-se a Lucília:
- É estreante, não é verdade? Vai tentar acompanhar a aula com a minha
ajuda...
E, enquanto as outras senhoras executavam as posturas sob o comando da
voz musical do mestre, este, posicionado ao lado de Lucília, ia
aproveitando todas as pausas para lhe transmitir as explicações
necessárias para a completa compreensão dos exercícios. Porém, os muitos
anos de inactividade impediam o corpo de Lucília de responder
devidamente às solicitações. Sentia-se tensa e anquilosada. Debalde
tentava respirar ou inclinar-se da maneira requerida. O mestre, amável,
intervinha:
- Não consegue fazer? Não desanime e, sobretudo, não se esforce
tanto!...
Apesar de quase se ter limitado a assistir, no fim da aula, Lucília
sentia uma saudável boa disposição. As breves explicações do mestre
haviam sido esclarecedoras e o relaxamento final de cabeça para baixo na
prancha inclinada, conseguira plenamente os seus objectivos. Estava
calma e descontraída.
Persistente por natureza, Lucília não desanimou. As aulas sucediam-se em
bom ritmo e, a pouco e pouco, foi vencendo os obstáculos iniciais e
adaptando-se à nova prática. À medida que os conseguia concretizar, os
exercícios começaram a parecer-lhe fáceis. Enquanto, a princípio, fitava
perplexa as outras praticantes e lhes invejava a desenvoltura, ao fim de
poucas semanas executava já a maioria das posturas de olhos fechados,
imersa na sua própria concentração. A voz do mestre, serena e bem
articulada, facilitava a compreensão e a fixação. Esclarecida sobre os
efeitos de cada postura, Lucília executava as compressões e distensões,
percebendo com nitidez o seu sangue a afluir em abundância ao órgão
visado, e depois a abandoná-lo deixando-o descongestionado e purificado.
Durante os exercícios respiratórios, sentia o ar entrar através das
narinas, mais frio, e o ar exalado durante a expiração, mais quente,
experimentando um controlo perfeito da mais básica das funções vitais.
De olhos fechados, visualizava as cores dos chakras do seu corpo,
intensas e brilhantes, – desde o vermelho, na base da coluna, até ao
violeta no alto da cabeça. Agora, já sabia o que cada um representava. A
saudação ao sol, quiçá o exercício mais exigente em termos físicos,
limpava-a de todo o desânimo. Nas posturas invertidas, sentia o cérebro
e o rosto serem irrigados pelo sangue carregado do prâna, a energia
cósmica, nutrindo-os e revigorando-os.
As aulas reequilibravam-na. Pareciam ter sempre o efeito desejado. Se
entrava cansada e deprimida, saía cheia de energia. Se entrava tensa e
ansiosa, saía calma e confiante.
- Imagine que está a respirar por cada poro da sua pele! – repetia o
mestre dando à voz uma inflexão hipnótica – Imagine que, juntamente com
o ar expirado, está a expulsar de dentro de si todas as tensões
acumuladas...
Nunca se calava. Falava pausadamente, dando à voz uma entoação que fazia
adivinhar que o mais importante ainda estava por ser dito. Como se o
maior ensinamento fosse sempre o seguinte, o que tornava impossível
qualquer distracção. Mas não se limitava a comandar sequências de
exercícios. Uma porção significativa da aula, que tinha lugar durante um
dos relaxamentos, era reservada a ensinamentos teóricos. Aí dissertava
sobre os mais variados assuntos. E, em todas as dissertações, havia uma
mensagem simples mas de importância vital. Era fantasticamente bem
formado. A sua maior preocupação consistia em dar conselhos práticos,
fáceis de seguir, conducentes à felicidade de cada um. Felicidade que,
segundo dizia, estava ao alcance de qualquer pessoa. Bastava ter fé em
si mesmo.
- Cada um de nós é dotado de um poder extraordinário. Não sou religioso
mas sei que a fé funciona. A questão fulcral é acreditar no nosso
próprio poder.
E prosseguia ensinando fórmulas infalíveis para se alcançar a saúde, o
bem-estar, a felicidade conjugal, a realização profissional e até a
prosperidade material. Às vezes, em plena aula, lia excertos de livros
de autores consagrados, corroborando as suas teorias. Noutras ocasiões,
recomendava a assistência a certos programas de televisão, que tratavam
de assuntos do foro sobrenatural.
Acreditava na vida depois da morte e na reencarnação. Não por uma
questão de dogma, mas por puro raciocínio lógico:
- São cada vez mais os cientistas que afirmam que as “Experiências de
Quase-Morte” não podem ser ignoradas. Os relatos de pessoas que viveram
EQM têm fortíssimos traços comuns e mudaram a vida dos protagonistas. Só
o corpo físico morre. O corpo astral permanece até reencarnar. Há, em
definitivo, uma vida para além da morte, tal como a entendemos.
Alguns dos seus ditames seriam susceptíveis de gerar controvérsia, não
fosse a constante preocupação em exprimir o maior respeito por todas as
fés religiosas. Mas não podia deixar de transmitir tudo aquilo que, no
seu entender, um verdadeiro yogi devia saber, baseando premissas
espirituais em leis científicas.
Não se acanhava de abordar as questões do sexo. Como homem, afirmava ter
a mulher todo o direito a desfrutar do prazer sexual com a mesma
plenitude do companheiro. Indignava-se com algumas opiniões médicas
segundo as quais a natureza teria prejudicado irremediavelmente a mulher
nessa matéria, negando-lhe a mesma profusão de terminações nervosas com
que havia dotado os genitais masculinos. E chamava a atenção para a
postura de contracção dos esfíncteres, que tanto contribuiria para
melhorar a vida sexual da mulher.
Lucília considerava as aulas de Yoga muitíssimo agradáveis. Não só as
posturas eram benéficas para a saúde, como os ensinamentos do mestre a
predispunham a ganhar uma nova atitude, mais positiva, perante a vida. O
relaxamento final, em particular, era fabuloso. Imersa na penumbra da
sala, deitada de costas na prancha inclinada suportada por um dos apoios
triangulares, deixava-se embalar com facilidade pela fórmula sonora,
única na sua harmonia, do mantra musical cujos acordes envolviam o
ambiente.
- Agora, eu vou relaxar – dizia o mestre com a sua voz hipnótica – A
minha voz é a sua voz. Pense comigo - eu vou relaxar...
E Lucília embarcava no relaxamento, começando pelos pés, mexendo um
pouco os dedos como se brincasse com eles, até os largar, soltos,
completamente descontraídos. Depois centrava a atenção nas pernas, coxas
e glúteos. E ia subindo pelo seu corpo, lentamente, imaginando uma luz
azul feita de prâna, a energia mais poderosa do universo, queimando as
toxinas dos diversos órgãos, revitalizando-os e harmonizando-os. No
final, era outra mulher.
Não foi preciso muito tempo para os efeitos da prática do Yoga se
repercutirem de forma positiva em todas as vertentes da vida de Lucília.
Sentia-se leve, feliz por estar viva. A sua paciência aumentara. A sua
actividade lectiva ganhara um novo brilho com as ideias que lhe surgiam
espontaneamente, sem esforço. E os alunos correspondiam às suas
solicitações, melhorando o desempenho. Na vida conjugal, tornara-se mais
compreensiva para com o marido. De boa vontade lhe perdoava os maus
humores. A sua saúde melhorara a olhos vistos. Rejuvenescera.
Parecia-lhe agora ter a flexibilidade dos vinte anos e, quando olhava
para o espelho, gostava do que via.
Pouco tempo depois já conversava com as colegas da aula, em número de
uma escassa meia dúzia, mais velhas e com ar respeitável. Todas
praticavam Yoga havia muito tempo, eram admiradoras incondicionais do
mestre e tinham-no seguido na mudança de instalações. Um dia, uma das
colegas revelou-lhe que a recepcionista era, afinal, sua esposa. Ele e a
mulher residiam naquela mesma casa e tinham um filho, já casado.
À medida que o tempo passava, Lucília progredia na sua descoberta das
maravilhas do Yoga. Agora, lamentava não ter começado mais cedo. O
ambiente de luzes suave, aromas de incenso e mantras musicais
tornara-se-lhe tão necessário como o pão para a boca. Só faltava a uma
aula por motivo de força maior. E nada a deixava mais aborrecida.
O mestre ensinara vários métodos de entrar em “estado alfa”, o estado de
máximo poder mental, e Lucília começava a sentir-se detentora de uma
inusitada força interior.
- Tudo tem início no pensamento. Um arquitecto, antes de concretizar uma
obra, começa por concebê-la na imaginação. Aquilo que imaginamos em alfa
desencadeia forças gigantescas e... acontece! Imagine aquilo que deseja
como se já fosse uma realidade. Aja como se já tivesse acontecido! Não
se preocupe com o “como”. O universo encarregar-se-á disso...
Era uma fantástica doutrina e Lucília começara a aplicá-la. Sempre que
tinha oportunidade, entrava em alfa e imaginava os alunos cumpridores e
bem comportados, o marido terno e apaixonado...
Porém, desde que soubera que o mestre era casado, Lucília olhava-o com
outros olhos. A esposa, que durante várias semanas julgara ser uma
assalariada, mantinha-se a maior parte do tempo fechada nas entranhas da
casa, provavelmente na cozinha, a avaliar pelos odores que às vezes
invadiam o vestiário. Mas, apesar de pouco a ver, Lucília reparava na
sua expressão cansada e no seu ar envelhecido. Que estranho par! Ele, um
homem bem parecido, culto, de idade indefinida mas de aspecto vigoroso,
e ela, apagada e desinteressante. Lucília não resistia a opinar - mal
empregado marido para semelhante mulher! Passavam ambos o dia em casa,
ele dando as aulas e ela entregue às lides caseiras. Deviam viver
desafogadamente, atendendo à casa que detinham... Seria própria? Porque
teriam casado? Era óbvio que ela era muito mais velha do que ele. Ele
devia sustentá-la. Mas como? Fazendo contas ao escasso número de alunos
do Centro, deviam ter outras fontes de rendimento. E recordando a imagem
do seu próprio marido, prematuramente calvo e obeso, Lucília invejava a
sombra fugidia da mulher do mestre, apagada e desinteressante, mas que
detinha um marido invejável, sob todos os pontos de vista.
As sessões de relaxamento eram cada vez mais intensas. Apesar de
acompanhada pelas outras alunas, Lucília abstraía-se de tudo o que a
rodeava. Mal o relaxamento começava, mergulhava sem esforço num mundo
onde apenas existia a música que a transportava, a luz azul criada pela
sua mente, e a voz magnética do mestre. A luz ia percorrendo o seu
corpo, lentamente, sob a orientação do mestre, detendo-se em cada zona
específica. Quando alcançava os órgãos exclusivamente femininos, a luz
azul pairava, hesitava, mas acabava prosseguindo, purificando ovários,
útero e a zona genital. À sua passagem, Lucília sentia um estranho calor
tomar conta do seu corpo, como se um efectivo afluxo sanguíneo acorresse
a essa zona. O chakra laranja brilhava em todo o seu esplendor. Era um
mundo novo de sensações do mais puro erotismo, no entanto, desligadas de
qualquer vulgar conotação sexual. Lucília sabia-se então parte de um
todo localizado num plano superior da existência. Comparado com o prazer
desfrutado durante o relaxamento, o sexo adquiria um incontornável sabor
a trivialidade.
Seria ela a única a saborear as impressões únicas do relaxamento?
Experimentariam as suas colegas a mesma sensação de comunhão com o
absoluto? Lucília não tinha confiança para lhes perguntar... Mas quando,
no fim da aula, os seus olhos encontravam os do mestre, parecia-lhe que
estes eram trespassados por um clarão fugidio. Ele sabia. Era um homem,
de facto, extraordinário. Conhecia e respeitava a alma feminina. E o
corpo também. Devia ser maravilhoso estar casada com ele.
A admiração que nutria pelo mestre não cessava de aumentar quando, em
certa ocasião, Lucília reparou num pormenor estranho. Inadvertidamente
esquecera-se do fato de treino. Contrariada, pois tal inviabilizava a
sua participação na aula, não pode reprimir uma exclamação de desagrado.
Curiosamente, a mulher do mestre viera perguntar-lhe se precisava de
alguma coisa e oferecera-se para lhe emprestar uma camisola larga e umas
calças de malha. Ao ir buscar as peças de roupa, deixara aberta a porta
que comunicava com o resto da casa, habitualmente fechada. E Lucília
vira, sobre uma cómoda ao lado da face interior da porta, uma fotografia
emoldurada de um casal de noivos. A curiosidade fê-la aproximar-se e
observar a fotografia com atenção. O noivo era o mestre. A noiva era
nova e linda, um pedaço de mulher. Mas não era a esposa que agora vivia
com ele... Ou era?... Apurando a vista, Lucília descobriu nos traços
daquela noiva feliz, o semblante original daquela mulherzinha mirrada
que agora atendia à porta. Ele estava praticamente na mesma. E ela? Como
era possível alguém ter mudado tanto? Contudo, sobre ambos decorrera o
mesmo tempo!...
- É uma fotografia do meu casamento – ouviu Lucília atrás de si.
- Desculpe! Não pude deixar de reparar...
- Eu estava bem, não estava? – inquiriu com uma voz sumida.
- Oh! Muito bem! É uma bela fotografia...
- A Dra é muito simpática! Estão aqui as calças e a camisola para a
aula.
A partir desse dia, as aulas tornaram-se melhores do que nunca. Qualquer
coisa de mágico, quase que de miraculoso, acontecia dentro daquela sala
escura. Todavia, era tão imperceptível que Lucília não conseguia
descortinar se era ou não fruto da sua imaginação. Apesar da presença
das colegas, o mestre parecia falar só para ela. Não que a fitasse mais
do que a qualquer das outras, mas ela sabia que todas as palavras por
ele proferidas só a si eram dirigidas.
- Eu sou calma, despreocupada, feliz... Estou aberta e receptiva à vida,
à energia, à consciência cósmica que através de mim flui... – repetia o
mestre.
E Lucília, deitada na penumbra, de olhos fechados e sentidos
exacerbados, era de facto percorrida pela energia cósmica. Ela, só ela,
conhecia a comunhão com o absoluto...
Um dia, ao terminar a aula, o mestre perguntou-lhe:
- Tem-se sentido bem? Gosta das aulas?
- Oh sim, muito!...
- Paz para si!...
Seria impressão ou Lucília percebera um brilhozinho especial naqueles
belos e argutos olhos castanhos?
Mas, enquanto as aulas iam num crescendo de plenitude, a mulher do
mestre aparecia cada vez menos. Abria a porta de olhos baixos. Quase não
se dava por ela. Quando Lucília a entrevia, sempre entre a cozinha e a
casa de banho, parecia-lhe que envelhecera e mirrara ainda mais. A sua
expressão denunciava um extremo cansaço.
Certo dia, ouviu um ruído estranho, durante um lapso silencioso de uma
aula. O mantra começara logo a seguir, transportando Lucília para o
paraíso, e ela esqueceu o assunto. Mas, na aula seguinte, a coisa
repetiu-se. Era um som quase imperceptível, mas inequivocamente humano.
Talvez alguém a falar muito baixo. Mas quem? Só podia ser a esposa do
mestre. Apurando o ouvido, Lucília sofreu um choque – ela estava a
chorar!... Não era um soluçar desbragado mas um chorar contido, cujo
silêncio só era traído por um leve fungar. Aquela mulher sofria!...
Porquê? Que se passaria? Casada com um homem tão maravilhoso!... Estaria
doente?... Embora ténue, o som, agora identificado, impedia-a de se
concentrar. E, em pleno relaxamento, Lucília abriu os olhos. O mestre
saíra da sala e deixara uma gravação a conduzir a aula. Logo a seguir, o
choro cessara. Terminada a aula, Lucília tentou vislumbrar nas colegas
algum indício de que teriam ouvido o choro, mas nada notou de anormal.
Porém, agora, a curiosidade de Lucília dominava-a por completo.
Desejava, a todo o custo, saber o que se passava. Por isso, começou a
chegar ao Centro cada vez mais cedo, com o intuito de apanhar a mulher
do mestre sozinha e poder conversar com ela.
Um dia, teve sorte. A mulher do mestre veio abrir-lhe a porta e, em vez
de desaparecer nas entranhas da casa, como era seu hábito, acompanhou
Lucília até ao vestiário e sentou-se. Parecia que, também ela, tinha
vontade de conversar...
- Tem-se dado bem com o Yoga? – perguntou, fixando em Lucília os olhos
cansados.
- Oh, muito bem. Sinto-me muito melhor. O seu marido é um mestre
extraordinário...
- Sim, ele lê muito, procura sempre cultivar-se...
- E interessa-se pelos alunos. Dá-nos conselhos. Vê-se que tem uma
genuína vontade de ajudar as pessoas a serem mais felizes...
- Infelizmente, como marido, deixa muito a desejar...
Atingida por esta súbita confissão, Lucília calou-se. Ardia em
curiosidade, mas não queria ser inconveniente. Porém, não foi preciso
encorajar a interlocutora. Esta parecia desejosa de desabafar.
- Tem-me mantido estes anos todos praticamente prisioneira. Nunca me
deixou trabalhar para eu não ser independente. E, para cúmulo, quase não
me dá dinheiro. Ele, por seu lado, diverte-se com as amantes...
Lucília teve de chamar a si todo o controlo para não soltar uma
exclamação de assombro. Aquela mulher havia perdido por completo o
pudor! Já não queria ouvir mais nada! Mas a outra prosseguia:
- A si posso dizer a verdade. Tenho confiança em si. Ele é muito
diferente do que dá a entender. Às vezes, ameaça-me com pancada. E
suga-me a energia. Já viu como ele tem um aspecto jovem? E olhe para
mim! Sabe quantos anos ele tem? E eu vou morrendo aos poucos, sem me
conseguir libertar dele... É um monstro!...
E, enquanto proferia tais barbaridades, a sua face distorcia-se numa
máscara de ignomínia. Lucília estava siderada. Nem sabia que dizer. Era
óbvio que estava perante uma louca! Conhecendo o mestre, a sua bonomia,
como acreditar em semelhantes disparates?
Felizmente, tocaram à campainha e a mulher do mestre levantou-se para ir
abrir a porta. A chegada de mais uma aluna pusera fim à sua confissão.
A partir deste dia, sempre que Lucília se adiantava na chegada, a mulher
do mestre vinha importuná-la com os seus desabafos. Às vezes não havia
tempo para mais do que uma frase fugidia. Lucília evitava-a. E estava
cada vez mais convencida da inocência do mestre. Aliás, passara a
admirá-lo ainda mais. Estava obcecada por ele. À noite, nas suas
mentalizações em estado alfa, o rosto do marido fora substituído pelo do
mestre. Em vão tentara afastá-lo e repor o do cônjuge. A imagem do
mestre dominava-a por completo. Não obstante, não se tratava de nenhuma
paixão no sentido usual do termo, e sim do mais puro reconhecimento. O
mestre era a melhor pessoa do mundo. Com ele, rejuvenescera, readquirira
saúde, sentira-se em Paz. E, mais importante do que tudo - através do
estado alfa, aprendera a fazer acontecer milagres na sua vida!... O
próprio marido de Lucília notara-lhe a mudança:
- Agora, andas sempre bem disposta...
- Sim! É do Yoga.
- Então, continua, não pares!...
O marido dava-lhe agora mais atenção. Trazia-a nas palminhas. Não que a
intimidade tivesse recrudescido – afinal doze anos de casados é demais
para manter a chama a crepitar – mas era amável e carinhoso. Também ele
parecia ter sido afectado indirectamente pelos benefícios do Yoga. Não
chegava mais cedo a casa, mas vinha com boa cara. E isso bastava a
Lucília. Afinal, havia muitos anos que a sua vida não se centrava no
casamento.
O tempo decorria desta forma agradável quando, uma noite, o marido de
Lucília a obsequiou com um presente lindíssimo – uma gargantilha de
ouro. E, no dia seguinte, confessou-lhe que estava apaixonado por outra
mulher e que tencionava sair de casa. Aguardara pacientemente
descortinar em Lucília força anímica para suportar a separação, antes de
lhe dar a notícia.
Lucília não fez nenhuma cena. Sentia-se superior a qualquer vicissitude
exterior à sua pessoa. Afinal, também já não amava o marido.
Agradeceu-lhe todos os anos de bem-estar que ele lhe havia
proporcionado, e desejou-lhe as maiores felicidades. E, ao fazer estes
votos, era absolutamente sincera. Três dias depois, o marido fez as
malas e saiu de casa, deixando-a perfeitamente senhora de si.
Os trâmites da separação tomaram algum tempo a Lucília que, muito a
contragosto, se viu forçada a faltar a várias aulas de Yoga. Quando
regressou, foi o mestre em pessoa que lhe abriu a porta. Notara-lhe a
ausência:
- Não tem vindo... Esteve de férias?
- Oh! Não, tive de tratar de umas papeladas...
- Ah! Isso é sempre muito aborrecido... Cheguei a pensar que tinha
desistido – e Lucília sentiu o olhar perscrutador do mestre fixá-la por
um momento.
- Não desistiria do Yoga por nada deste mundo – respondeu Lucília, sem
perceber bem porque lhe saíam tais palavras da boca.
Regressou à magia das posturas e ao feitiço dos relaxamentos. O mestre
excedia-se. As aulas eram cada vez melhores. Já não duvidava de que ele
falava só para ela. E a mulher dele? Nunca mais tinha aparecido. Agora,
era sempre ele que abria a porta e recebia o dinheiro das mensalidades.
Intrigada, Lucília questionou uma das colegas.
- Durante aquele período em que você faltou, ela desapareceu. Parece que
está doente.
- Doente? Com quê?
- Não sabemos bem. O mestre disse-nos que ela não conseguia dormir de
noite. Um caso agudo de insónia. Está hospitalizada.
- Oh! Coitado!...
Sim, a comiseração de Lucília era destinada àquele homem calmo e
altruísta, que aguentava com tanto estoicismo o facto de ter uma mulher
psicótica. Ela estava efectivamente internada num hospital psiquiátrico.
Devia ter acabado por enlouquecer de vez. Pobre mestre! Devia ser-lhe
difícil manter as aulas em funcionamento, tratar da casa e, em
simultâneo, atender às necessidades de tal criatura.
Todavia, uma dúvida ainda muito ténue, como um minúsculo grão de areia
no sapato, havia-se introduzido no cérebro de Lucília. Agora, que sabia
onde estava internada a mulher do mestre, sentia uma atracção bizarra
por aquela alma doente e sofredora. Era mister ir visitá-la e avaliar,
por si mesma, o seu estado.
Tomada a decisão, Lucília não perdeu tempo. Na primeira oportunidade
dirigiu-se à clínica onde as colegas lhe haviam dito que a mulher do
mestre se encontrava. Deu com ela na sala do estabelecimento, com um
aspecto mais abatido do que nunca. Os cabelos cor de caju revelavam umas
raízes brancas, ralas e oleosas. E, nos olhos, a expressão de cansaço
fora substituída por um verdadeiro terror. Quando reconheceu Lucília,
agarrou-lhe na mão febrilmente.
- Oh! Bem-haja! Ainda bem que veio cá!... O meu marido internou-me
contra minha vontade. Todos os dias me obrigam a engolir drogas para
dormir. Se não sair daqui, morro!...
- Disparate! Nem pense nisso! – retorquiu Lucília, impressionada com
aquela expressão de animal acossado – Quando melhorar, vai sair daqui
óptima. Ninguém morre por causa de uma depressão nervosa!...
- Não acredita em mim? Pois asseguro-lhe que nunca mais nos vamos
ver!... Só sairei daqui dentro de um caixão!... – e apertava a mão de
Lucília com força, como se disso dependesse a sua salvação.
Assim que foi possível, Lucília despediu-se e saiu. Ficara
impressionada. Nem por um momento duvidara da sinceridade das palavras
que havia escutado. Mas não conseguia encaixá-las na imagem de uma
pessoa no seu perfeito juízo. Contudo, a pedra no sapato subsistia.
Esperaria algum tempo e iria novamente visitar a senhora.
Mas os acontecimentos precipitaram-se de outra maneira. Poucos dias
depois, ao dirigir-se para o Centro de Yoga, esbarrou com um recado
manuscrito, fixado na parte inferior da placa indicativa da entrada do
prédio:
Por morte de minha esposa, não haverá aulas até ao dia 7
Joaquim de Oliveira
Lucília estacou. Não conseguia acreditar no que estava escrito. Então
ela morrera mesmo! Inacreditável! O que fazem os nervos... Ou seria
que... O pensamento era demasiado tenebroso para Lucília o acolher.
Afastou-o. Mas ele retornou. Teria a falecida dito a verdade? Ter-lhe-ia
sido induzida a morte através de narcóticos? Ou teria ela ingerido uma
dose excessiva, levada pelo desespero de não dormir? Mas como? Numa
clínica os doentes só ingerem os medicamentos que lhes são prescritos.
Era, pois, irrealista, qualquer especulação nesse sentido.
Abalou para casa. Doía-lhe a cabeça e resolveu deitar-se em cima da
cama, de olhos fechados. Era em alturas de crise que os ensinamentos do
mestre se revelavam mais preciosos. Tentou descontrair-se, usando as
técnicas de relaxamento aprendidas. Concentrou-se no próprio corpo e na
respiração. O seu coração pulsava forte e a imagem da infeliz morta não
a abandonava. Mas insistiu na mentalização e acabou por adormecer.
Quando acordou, já não lhe doía a cabeça. E outro pensamento a assaltou.
O mestre, agora, era um homem livre!... Que horror! Como é que ela podia
pensar numa coisa dessas? O homem acabara de enviuvar! E quem era ele,
verdadeiramente? Que sabia Lucília sobre ele, além de ser um mestre
admirável? Que percentagem de verdade houvera nos queixumes da mulher?
Parecia-lhe agora que, sem sombra de dúvida, aqueles deviam conter, pelo
menos, uma parcela da realidade! O homem podia até ser um monstro!
Afinal, o que a esposa previra, tinha acontecido: não chegara a sair da
clínica com vida.
Mas Lucília era uma mulher racional e, a pouco e pouco, conseguiu pôr
ordem nos seus pensamentos. Depois do que acontecera, não mais voltaria
ao Centro de Yoga. Era-lhe impossível. Havia demasiada emoção envolvida.
Adorava a modalidade, fizera-lhe muitíssimo bem e alterara a sua vida
para melhor, mas havia outros locais onde praticá-la. Não faltavam
anúncios de professores de Yoga nas Páginas Amarelas. Onde, aliás, o
Centro do Professor Joaquim de Oliveira era omisso. Parecia que o mestre
não quisera aumentar o número de alunos recorrendo à publicidade.
Lucília encontraria decerto outro professor junto de quem pudesse
progredir no seu aperfeiçoamento yogi.
Decidida a encetar uma nova etapa da sua vida, Lucília aceitou o convite
para jantar de um colega, professor de Física na mesma escola. E deu
início a uma relação morna mas agradável. O namorado era um homem
divorciado e culto. Embora não fosse de natureza apaixonada, era
delicado e atencioso. Falava bem e Lucília gostava de o ouvir. A voz
afigurava-se-lhe agora como o atributo mais importante de um homem. Por
outro lado, dedicou-se ainda mais aos alunos. Aproximava-se a época de
exames e as horas destinadas a tirar-lhes dúvidas multiplicavam-se. E,
entre o ensino e o namoro, Lucília esperava preencher a vida.
Fiel à prática do Yoga, inscreveu-se num instituto muito publicitado. O
professor era um rapaz novo, substituto de um qualquer grande mestre,
cujo nome era usado como engodo mas que, na prática, nunca aparecia.
Lucília tentava furtar-se a comparações, mas tinha de reconhecer que as
aulas eram desenxabidas e sem rasgo. Além disso, não tinham parte
teórica. O jovem professor era pragmático e frio. Estava ali para ganhar
o ordenado, não para criar laços com os alunos. Focava-se exclusivamente
na parte física dos exercícios, que explorava até à exaustão. A saudação
ao sol era executada doze vezes, mas, em lugar de a valorizar, a
repetição banalizava a sequência, desvirtuando o seu verdadeiro
significado. Os exercícios respiratórios eram comandados de forma
automática, como se se tratasse de mera ginástica torácica e abdominal.
As raras mentalizações feitas durante a aula, eram-no num tom de voz
neutro e desprendido, sem qualquer carga emotiva. Em lugar de
revigorada, Lucília saía cansada das aulas. Porém, nunca faltava,
receando que, se o fizesse, a flexibilidade adquirida a abandonasse de
vez. Ainda assim, era preferível frequentar uma classe de Yoga medíocre
do que nenhuma.
Todavia, cedo se tornou evidente que a nova orientação yogi a
prejudicava. Lucília andava cada vez mais fatigada. Além disso, tinha
dores musculares, resultantes da repetição sistemática de certos
exercícios, que em nada contribuíam para a melhoria do seu estado geral.
Não teve, pois, outro remédio senão anular a inscrição no Instituto que
frequentava. Porém, incapaz de se resignar a prescindir do Yoga,
resolveu tentar a sorte num famoso ginásio de cuja oferta, no meio de
uma imensa panóplia de actividades, aquele fazia parte. Mas a desilusão
repetiu-se. Aqui, o professor novo e distante dera lugar a um orientador
demasiado velho, meio surdo e esquecido. Às vezes, perdia o tino das
sequências recomendadas. Noutras, confundia as posturas. Lucília
perseverava mas considerava as aulas um autêntico desastre.
Uma vez, atreveu-se a comentar com os outros praticantes uma confusão
imperdoável que o velho professor acabara de perpetrar. Mas ninguém
concordou com o seu ponto de vista. Todos consideraram a actuação do
professor correctíssima e fitaram Lucília com estranheza. Esta
estremeceu interiormente. Aquela gente era cega. Ou então, não percebia
nada de Yoga. Provavelmente nunca tinham tido a sorte de frequentar as
aulas de um verdadeiro mestre. Ou, ter-se-ia ela tornado demasiado
exigente?
Apesar das muitas dúvidas que a assaltavam, Lucília não esmoreceu.
Manteve a relação amorosa que encetara, continuou a leccionar com
entusiasmo e a ir às aulas do velho professor do ginásio.
Mas, à medida que o tempo passava, as premissas em que resolvera basear
a sua vida, tendiam a evaporar-se. E Lucília não conseguia impedi-lo. À
sua volta, tudo perdia a importância. O amante aborrecia-a. Apesar de
pretender levá-la a sério, Lucília sentia-se a pairar acima dessa
relação. Quanto ao ensino, não mais o considerava central na sua
existência. O que não deixava de ser estranho, atendendo a que
constituía a sua única fonte de rendimentos. Mas esse facto era agora
encarado como uma circunstância menor. Não que as aulas tivessem voltado
a constituir a batalha frustrante do passado. Simplesmente Lucília agora
sabia-se talhada para um destino diferente, mais alto, como se
encarnasse uma peça de um puzzle cuja verdadeira dimensão lhe escapava.
Por outro lado, os estranhos acontecimentos em que se vira envolvida
tinham-se esbatido da sua memória. Já mal recordava a face da falecida.
E, se pensava nela, já não o fazia com horror. Consolava-a o pensar que
aquela criatura infeliz repousava agora, onde já nada a poderia agredir.
Quanto ao olhar do mestre, não conseguia esquecê-lo. Pelo contrário. Mal
fechava os olhos, via a sua face de olhar arguto, observando-a
atentamente, com uma sugestão de sorriso na boca sensual. Muitas vezes,
sonhava com ele. Aparecia-lhe, falando com aquela voz hipnótica de que
ela tanto gostava. Lucília sabia que o que ele lhe queria transmitir era
importante. Mas, quando acordava, não conseguia lembrar-se das suas
palavras. Divino ou diabólico, não lhe saía do pensamento. Mas nunca
mais o queria ver.
Contudo, uma noite, acordou a meio do sonho. O prâna tomara conta do seu
corpo e da sua mente, em uníssono, guindando-a ao êxtase da comunhão com
o absoluto. Eram duas horas da manhã. Levantou-se, vestiu-se à pressa e
saiu de casa. A noite estava escura. Seguiu como um autómato a luz azul
vinda doutro plano da existência, que parecia indicar-lhe o caminho.
Parou em frente de um prédio onde havia uma tabuleta ao lado da porta.
Sem hesitar tocou na campainha do sétimo andar esquerdo. A porta da rua
abriu-se e ela entrou. Enquanto subia no elevador, teve consciência do
que estava a fazer. Era um disparate! Seria que, também ela, tinha
enlouquecido?! Tinha de parar o elevador e fugir dali para fora!
Carregou no botão de STOP mas o elevador continuou a subir. E, quando
chegou ao sétimo andar, a porta abriu-se sem a sua intervenção. No
patamar, o mestre, equipado com o fato de treino, segurava na porta. A
estrela de muitos bicos refulgia no seu peito.
- Estava à sua espera – disse.
Adelina Velho da Palma
http://adelinapalma.com/o-mestre/
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