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O Velório in "O gato
das oito vidas"
Naquela Igreja, além do
velório decorria um
casamento. Apesar da
hora tardia, fazia-se
sentir um calor abafado
que amolecia os ânimos.
No entanto, o átrio
estava cheio e o ar
ressoava de conversas e
risos em surdina.
Algumas pessoas
encostavam-se às
paredes, de expressão
apática, fumando e
beberricando garrafas de
água. Outras sentavam-se
na ampla escadaria em
amena cavaqueira, e as
restantes deambulavam
por ali. Curiosamente,
era impossível
distinguir quem se
encontrava adstrito a um
e a outro dos eventos. O
negro estava na moda e
todos trajavam dessa
cor, mesmo os convidados
para o enlace.
Ana acabara de chegar. O
seu vestuário,
perfeitamente adequado
ao ambiente,
tranquilizou-a. Aparte a
missão de que estava
imbuída, queria passar
despercebida. Contudo,
sabia que tinha pela
frente um par de horas
extremamente aborrecidas
e sentia-se contrafeita.
- Isto não era
necessário! – pensou,
enquanto à luz velada do
fim de tarde tentava
perceber para onde se
devia dirigir.
Sentia-se protagonista
de uma situação algo
bizarra. Afinal, não
conhecia pessoalmente a
falecida nem a família.
Estava ali em
representação do marido,
impossibilitado de
comparecer. Alfredo
encontrava-se no Funchal
e só regressaria no dia
seguinte. Ana sorriu com
condescendência ante a
lembrança do melindroso
sentido das
conveniências do
cônjuge. Outro, no lugar
dele, não teria feito
questão do cumprimento
daquela formalidade.
Afinal, iam viajar daí a
três dias. E não se
tratava de nenhuma
viagem de recreio mas de
uma mudança de
residência para os
antípodas. O marido
trabalhava numa
multinacional e fora
convidado para um lugar
em Perth, na Austrália.
Havia muito que Ana
sonhava com uma vida num
país distante. Só ela e
Alfredo, como dois
exploradores
aventureiros. A sua
quimera fora crescendo
e, a pouco e pouco,
acabara por contagiar o
marido que a amava
ternamente. Finalmente a
oportunidade surgira. E,
se tudo corresse bem,
não voltariam.
Homem de múltiplos
afazeres, para além da
actividade principal
Alfredo Simões era
responsável pela
orientação de mestrados
na mesma faculdade onde
a Dra Helena Bastos, a
irmã da falecida,
leccionava. Oriunda de
uma família influente e
bem apadrinhada, a Dra
Helena Bastos ascenderia
em breve ao cargo
máximo. Esse facto era
um dado adquirido. Como
era a ela que Alfredo
reportava, tais
circunstâncias eram mais
que suficientes para
considerar que devia
marcar presença nas
cerimónias fúnebres:
- Há mar e mar, há ir e
voltar… - dissera à
esposa, quando lhe
ligara do Funchal pelo
telemóvel - Não quero
que a Dra Helena Bastos
pense que, pelo facto de
me ir embora, não lhe
apresento as minhas
condolências. Devo-lhe
muito.
- Bastaria mandar um
telegrama… - sugerira
Ana.
- Não. Não é a mesma
coisa.
Apesar do nulo
envolvimento afectivo,
Ana sentira a garganta
seca. Evitava, tanto
quanto possível,
velórios e funerais. Só
comparecia quando era
estritamente necessário.
Havia muito que sabia o
quanto a vida era
precária. Porém, não
conseguia habituar-se a
encarar a morte com
naturalidade. Não que
temesse por si própria,
mas porque a existência
da morte transformava a
vida num absurdo. E o
facto de se tratar do
falecimento de uma
pessoa da sua idade
exacerbava-lhe a
angústia. No entanto,
não era uma obcecada.
Longe disso. Conseguia
viver longos períodos
sem pensar na morte,
ignorando-a, como se
esta fizesse parte de um
universo paralelo,
incomensuravelmente
longínquo. Todavia, as
suas arremetidas
fortuitas tinham o
condão de lhe recordar a
sua proximidade, a sua
inexorabilidade. O que a
fazia sentir-se
desarmada.
Não adianta afastarmos a
morte do nosso
pensamento se não a
podemos afastar da nossa
trajectória… – reflectiu
Ana. E sentiu um ligeiro
estremecimento. Porém,
depressa se controlou.
Alfredo dispensara-a da
presença no funeral, no
dia seguinte. Essa sim,
teria sido uma provação.
Ana abominava enterros.
O eco do barulho da
terra a cair sobre o
caixão provocava-lhe
calafrios. Por outro
lado, encontrava no fumo
negro de numa cremação
um horror silencioso,
quase tão agressivo como
a descida de um esquife
à terra.
Olhou ao redor com mais
atenção. O velório
estava extremamente
concorrido. O que não
admirava, uma vez que a
Dra Helena Bastos era
uma pessoa conceituada e
respeitada. Ademais,
casada com um afamado
cirurgião.
Com o desembaraço
possível, Ana abriu
caminho rumo à capela
mortuária através de uma
pequena multidão. Não
via uma única cara
conhecida. E, mesmo sem
prestar grande atenção,
intersectou alguns
comentários que
circulavam no ar:
- …ainda era nova...
- …que me dizes das
novas medidas do
governo?...
- …que idade tinha?...
- …já sei que foram ao
Egipto…
- …de que morreu ela?...
- …o João já entrou para
a Faculdade…
- …parece que foi do
coração...
- …conheces aquele ali,
alto, moreno, com as
mãos nos bolsos?...
- …não admira! Com a
vida que levava...
- …a casa é óptima!
Também, para aquilo que
custou…
- …para a família, foi
melhor assim...
- …oh querida! Continua
linda!...
- …oh sim! Foi um
alívio!...
Conquanto tensa e
aborrecida, Ana sorriu.
Que estranhos eram os
velórios! Sobre o morto,
pouco se falava. Como se
não fosse ele a razão
principal para se estar
ali. E aquilo que se
dizia tinha um único
fito - fundamentar o
falecimento na lógica.
De preferência em
circunstâncias das quais
se estivesse excluído.
Como se tal constituísse
garantia de imunidade.
Feito isto, respirava-se
fundo e fazia-se por
passar o tempo da
maneira mais agradável
possível.
Ana alcançou a entrada
da capela mortuária e
espreitou. Cinco ou seis
pessoas, sentadas em
cadeiras de aspecto
desconfortável, velavam
a morta. Mais um quadro
invariável, pensou.
Salvo raríssimas
excepções, toda a gente
preferia manter-se a uma
distância confortável do
caixão. Como se este
fosse uma espécie de
foco de infecção,
susceptível de contagiar
quem se aproximasse.
Ana observou os
presentes. Uma senhora
dos seus trinta e cinco
anos, arruivada, de
feições correctas, faces
esquálidas e olheiras
fundas, chamou-lhe a
atenção. O seu aspecto
coincidia com a
descrição que Alfredo
lhe fizera. A tal ponto
que a face lhe parecia
vagamente familiar.
Aproximou-se
discretamente e inquiriu
em voz baixa:
- Dra Helena Bastos?...
A interlocutora ergueu o
olhar. A sua expressão
era vazia.
- Sim, sou eu.
- Sou Ana, a esposa de
Alfredo Simões –
proferiu, estendendo-lhe
a mão – Os nossos
sinceros pêsames. Ele
não pôde vir pois está
no Funchal.
Um sorriso muito
ligeiro, quase um
simulacro, aflorou os
lábios da Dra Helena
Bastos. Era, sem dúvida,
uma pessoa consumida
pelo desgosto. A sua voz
era quase inaudível:
- Compreendo. Muito
obrigada.
Ana hesitou durante
alguns segundos. Queria
seguir todos os trâmites
apropriados. Talvez
fosse conveniente
sentar-se ali durante
uma meia hora.
- Quando é a partida? –
ouviu de súbito. Ana
fitou a Dra Helena
Bastos e julgou
notar-lhe no olhar uma
espécie de lampejo
fugidio. A sua voz
animara-se um pouco.
- Partida?... Ah, sim!
Daqui a três dias…. -
desatenta, Ana não
captara logo o sentido
da pergunta
- Desejo-vos sorte e
sucesso.
- Obrigada.
Os olhos pisados da Dra
Helena Bastos não
abandonavam Ana. Esta
corou e desviou o olhar.
Sentia um inexplicável
constrangimento e não
lhe ocorria nada para
dizer.
- A morte é uma grande
tristeza. Diante dela,
tudo perde a
importância… – acabou
por proferir.
- Nada mais certo… - a
Dra Helena Bastos
continuava a olhá-la
fixamente.
Incomodada, Ana evitou
olhar para a
interlocutora. Aquela
maneira de proceder não
era própria de uma
pessoa bem-educada. Não
saberia, a Dra Helena
Bastos, que era
indelicado olhar para
alguém daquela maneira
insistente? Claro que,
muito provavelmente, a
senhora estava em estado
de choque. Perder uma
irmã mais nova é algo
contra a natureza. No
entanto, a sua expressão
controlada indiciava
alguém que tivesse
suportado uma longa
mágoa contida ao invés
da vítima de um tremendo
desgosto repentino.
Felizmente surgiu outra
pessoa para apresentar
condolências e Ana
aproveitou o ensejo para
se afastar. Tentava
mostrar naturalidade mas
as pernas tremiam-lhe.
Ficara perturbada. O que
a fazia sentir-se algo
irritada consigo mesma.
Naturalmente reservada,
Ana não fingiria um
desgosto que não tinha,
muito menos teceria
comentários sobre algo
que não lhe dizia
respeito. Contudo,
impunha-se fazer o seu
papel e aguentar no seu
posto o tempo julgado
conveniente. Por isso,
dirigiu-se até ao caixão
por entre um autêntico
mar de belíssimas coroas
de flores e olhou para
dentro. Lá estava a
defunta, de rosto
branco, liso, emoldurado
por uma cabeleira ruiva.
Os lábios estavam
ligeiramente
entreabertos. Quase que
sorria. Parecia muito
nova e inocente.
Malgrado os reparos que
lhe haviam chegado aos
ouvidos, era impossível
imaginá-la como uma
aventureira devassa. E,
no entanto, também
aquele rosto belo se
afigurou a Ana
estranhamente familiar,
sem que lhe conseguisse
precisar a origem.
Provavelmente, essa
impressão derivava da
parecença com a irmã.
Manteve-se ali durante
algum tempo, estática,
como se rezasse.
Enquanto isso, percebia
o olhar da Dra Helena
Bastos, intenso, cravado
na sua pessoa. Os
minutos pareciam horas.
O coração batia-lhe
descompassado. Por fim,
decidida, com um passo o
mais firme possível,
voltou costas ao caixão,
saiu da capela mortuária
e entrou no
compartimento contíguo.
Este estava vazio.
Respirou fundo,
sentou-se e tentou
relaxar. O pior já
passara.
Não tinham decorrido
mais de dez minutos
quando Ana escutou um
burburinho anormal que
parecia vir da sala
vizinha. Ergueu-se e
tentou alcançar a
entrada da capela
mortuária, mas uma
pequena e compacta
multidão, tão curiosa
como ela, obstruía-a por
completo. Ana avançou
conforme pôde até chegar
perto de um homem alto
que estava mais à
frente:
- Que se passa? –
perguntou.
- Parece que desmaiou
uma pessoa...
De repente, ouviu-se uma
voz masculina,
autoritária.
- Deixem passar, por
favor!
As pessoas presentes
fizeram um tímido
esforço para desobstruir
a entrada e Ana viu a
Dra Helena Bastos, de
olhos semicerrados,
apoiada em dois
cavalheiros de aspecto
respeitável, um de cada
lado, sendo lentamente
arrastada para a saída.
- Por favor...
Deixem-nos passar... –
insistiu a voz de um dos
cavalheiros,
provavelmente o marido,
num tom onde era patente
uma nota de alarme.
Não sem relutância, as
pessoas afastaram-se. A
Dra Helena Bastos foi
levada para a pequena
sala ao lado, onde Ana
estivera.
- Deixem-nos sozinhos,
por favor! – pediu o
mesmo cavalheiro a um
grupo de pessoas que se
dirigiam para junto
deles com ar diligente.
E acrescentou – Está
tudo bem. Ela está
apenas fatigada, nada
mais!...
Ana permaneceu à porta
por uns momentos.
Acabara de perder o seu
refúgio. Os olhos da Dra
Helena Bastos
encontraram os seus e,
mais uma vez, Ana julgou
notar-lhes um clarão.
Contra vontade, sentiu o
coração acelerar-se-lhe
e o mal-estar anterior
regressar. Tinha de sair
dali. Daria meia volta e
iria até ao exterior da
Igreja. Porém, mal dera
dois passos, ouviu o seu
nome:
- Ana!
Olhou para trás. A Dra
Helena Bastos fazia-lhe
sinal.
- É Ana, não é? –
inquiriu a Dra Helena
Bastos, enquanto Ana se
aproximava.
- Sou, sim. Que
aconteceu? Sentiu-se
mal? – perguntou.
- Sim. Mas já estou bem.
E a Dra Helena Bastos
voltou-se para os dois
cavalheiro e esboçou um
sorriso:
- Voltem para a capela
mortuária, por favor. Eu
prefiro ficar aqui a
descansar um pouco –
disse com voz firme.
- De certeza que já te
sentes bem? – insistiu o
presumível marido.
- Perfeitamente. Além
disso, a Ana far-me-á
companhia. – e, cravando
em Ana um olhar mais
imperativo que
interrogador,
acrescentou - Não é,
Ana?
- Com certeza –
respondeu Ana, temendo
que a voz se lhe
embargasse com a
singular emoção que a
assaltava.
Os dois cavalheiros
saíram da sala, deixando
a Dra Helena Bastos e
Ana sozinhas. Assim que
deixou de os ver, a
expressão da Dra Helena
Bastos alterou-se.
Parecia que lhe tinham
retirado um grande peso
dos ombros.
- Até que enfim! –
exclamou, com uma voz
subitamente clara.
- Que se passa? –
inquiriu Ana, admirada.
- Não se aflija. Eu não
desmaiei. Apenas
perpetrei uma pequena
encenação de forma a
ficar sozinha consigo. –
apesar da palidez, a Dra
Helena Bastos parecia
agora perfeitamente
segura de si.
- Queria ficar sozinha
comigo?! Porquê?
- Porque me apetece
falar. E ter um ouvido
que me escute. Um ouvido
atento e discreto, em
quem eu possa confiar.
- E escolheu-me a mim? –
Ana estava cada vez mais
atónita.
- Sim. Você é a ouvinte
ideal.
- E como pode ter essa
certeza?
- Na realidade, não
posso… Mas daqui a três
dias você vai-se embora
daqui para o outro lado
do mundo. Talvez para
sempre. Provavelmente
nunca mais nos veremos.
E, antes que isso
aconteça, tenho de falar
consigo.
Alguma coisa não batia
certo. A cena tocava as
raias do absurdo. Ana
percebeu que a Dra
Helena Bastos não
desviava os olhos dela.
Mais que observá-la,
parecia perscrutar-lhe
as entranhas. O seu
aspecto era o de alguém
atacado de febre. A sua
face adquirira cor e os
seus olhos brilhavam.
Na expectativa do que se
seguiria, Ana conteve a
ansiedade e
sustentou-lhe o olhar.
Por nada deste mundo
daria parte de fraca.
Notando isso, a Dra
Helena Bastos fez um
trejeito e assumiu um
tom cordial, que a Ana
lhe soou a falso:
- Não se assuste. Não
lhe vou contar nada de
estritamente pessoal.
Mas a morte de minha
irmã fez vir à tona uma
outra história que se
passou com uma amiga
minha e gostava de saber
a sua opinião a
respeito.
- Sou toda ouvidos.
- Esta história é
verdadeira. Não lhe vou
dizer de quem se trata.
Seria como trair um
segredo. Esta minha
amiga - vamos chamar-lhe
Ema - era filha de um
casal de princípios,
educados e de boa
índole. O pai era juiz.
A mãe era filha de um
comerciante
endinheirado. Ema tinha
uma irmã três anos mais
nova - chamemos-lhe
Beatriz.
A Dra Helena Bastos
calou-se, como que a
recuperar fôlego, após o
que continuou:
- O ambiente familiar
era bom. Os pais
davam-se bem e
poder-se-iam considerar
uma família feliz. No
entanto, nunca houve
duas irmãs tão
radicalmente diferentes.
Ema era calma e
ajuizada, Beatriz
exaltada e desobediente.
Apesar disso, talvez
porque Beatriz fosse uma
bebé lindíssima, cedo a
mãe começou a revelar
uma certa predilecção
pela filha mais nova.
Estragava-a com mimos e
Ema tinha ciúmes.
Escudava-se então no pai
que, por inerência da
profissão, incarnava um
bastião de justiça. Ema
sentia-se protegida pela
imparcialidade e pelo
carinho paternos que
amiúde a compensavam das
preferências da mãe.
O tempo foi passando e,
à medida que Beatriz
crescia, tornava-se
deslumbrante. Assim que
chegava a qualquer
lugar, monopolizava
olhares e atenções. No
entanto, em boa verdade,
nada fazia para isso.
Porém, irradiava um
encanto de tal ordem que
se tornava impossível
não reparar nela...
A Dra Helena Bastos
suspendeu a fala por uns
momentos e Ana
manteve-se silenciosa.
Continuava longe de
imaginar onde conduziria
aquele relato. Porém, já
não se atrevia a abrir a
boca. Qualquer coisa de
muito ténue despontava
nos confins da sua
memória, enquanto a Dra
Helena Bastos,
indiferente à estranheza
que provocava,
prosseguiu:
- Quando se tornaram
duas adolescentes,
Beatriz, possuía um
encanto extraordinário e
um sex appeal
irresistível. É difícil
definir o que mais
atraía nela. Se o seu
extremo fascínio, se o
facto de parecer
totalmente alheia ao
efeito que produzia. Era
de uma alegria
transbordante. Porém,
descuidada e leviana,
não levava nada a sério.
Nem sequer a si mesma.
Os namorados sucediam-se
a um ritmo vertiginoso.
Chegou, aliás, a roubar
um ou dois à própria
Ema. Era desconcertante.
Limitava-se a viver o
dia a dia, fazendo o que
lhe apetecia, com uma
noção muito peculiar dos
seus deveres. Enquanto
isso, nos estudos
marcava passo. No fundo,
talvez não passasse de
uma egoísta. Ema, pelo
contrário, era aplicada
e ciente das suas
obrigações. E ambiciosa
também. O pai
incentivava-a, enquanto
pregava grandes sermões
a Beatriz pelo seu mau
desempenho.
A Dra Helena Bastos fez
uma pequena pausa e, com
um ar sonhador,
continuou:
- Durante algum tempo, o
facto de ser a mais
velha levou Ema a sentir
alguma indulgência em
relação à irmã. Todavia,
não a compreendia. Que
queria ela fazer da
vida? Os valores nos
quais eram educadas, tão
empenhadamente
propalados pelo pai,
pareciam não produzir o
mínimo efeito naquela
cabeça irresponsável.
Nem o facto de Ema ter
entrado na Faculdade a
fazia aplicar-se. Por
tudo isto, foi
inevitável Ema acabar
por considerar a irmã
uma criatura
inconsciente, talvez até
aberrante. A sua
condescendência
esfumou-se. Por outro
lado, amando o
progenitor acima de tudo
e vendo-o seriamente
preocupado com o futuro
de Beatriz, começou até
a sentir uma certa
revolta. De vez em
quando, dava consigo a
imaginar que Beatriz
partia para longe, muito
longe, onde lhe fosse
impossível perturbar a
paz do agregado
familiar. E estes
sentimentos iam, a pouco
e pouco, sendo
inculcados dentro de si.
Até que um acontecimento
trágico veio
desequilibrar a vida
desta família...
- Que aconteceu? –
perguntou Ana. Agora já
não se sentia no meio de
um filme de aparência
caótica, para onde
tivesse sido arrastada
por engano. Intuía com
clareza que havia uma
finalidade muito precisa
em todo aquele
arrazoado. Um arrazoado
que lhe dizia respeito,
embora ainda não
conseguisse descortinar
o como nem o porquê. E
pressentia-se à beira de
um abismo, como se
bastasse uma pequena
brisa para a precipitar
nele.
- O pai morreu! Morreu
de repente!... –
respondeu a Dra Helena
Bastos fechando os
olhos. – Foi
horrível!... – abanou a
cabeça e repetiu –
Horrível!... – E cravou
em Ana dois olhos rasos
de lágrimas, mas nem por
isso menos perfurantes.
Ana sentiu um baque
inexplicável. Cada vez
mais perturbada,
esforçou-se por se
esquecer de si mesma.
Antes tentou
ansiosamente
concentrar-se na análise
da interlocutora. Era
evidente que a história
emocionava sobremaneira
a Dra Helena Bastos.
Onde estava a mulher
controlada e senhora de
si? Decerto relatava a
sua própria vivência.
Era ridículo! Pensaria
ela que a enganaria com
um estratagema tão
primário?...
- Como morreu ele? –
acabou por perguntar
numa voz sumida.
- Com uma congestão. A
família estava de férias
em São Pedro de Moel,
onde possuíam uma
vivenda. Ema e Beatriz
tinham ido à praia. Na
altura teriam 20 e 17
anos, respectivamente.
Tinham lá um grupo de
verão, de rapazes e
raparigas, com quem
conviviam diariamente.
Às vezes passavam o dia
inteiro na praia.
Almoçavam nos
restaurantes ou levavam
farnéis. Eram uns verões
maravilhosos. Certa
tarde o mar estava
picado e frio, o que é
comum naquela praia. A
bandeira estava amarela.
Beatriz, estarola como
sempre, estava dentro de
água com um pequeno
grupo e fazia uma imensa
algazarra. O pai e Ema
haviam acabado de
almoçar na esplanada.
Tinham comido lulas
recheadas, um prato
pesado e indigesto...
À medida que escutava,
Ana ia empalidecendo.
Uma dor aguda
trespassava-lhe o peito.
Já não duvidava de que a
Dra Helena Bastos
relatava a sua própria
história. Senão, como
poderia lembrar-se do
prato que o pai de Ema
tinha comido?... E uma
lembrança remota, muito
remota, aflorava-lhe o
espírito de forma
insidiosa. Angustiada,
engoliu em seco a fim de
afastar o gosto amargo
que lhe subira à boca. A
recordação de um dia -
um único dia em
particular - de entre os
muitos dias de verão
passados em São Pedro de
Moel, naquele ano
longínquo da sua
juventude, inculcada
havia muito tempo,
estava agora bem
presente no seu cérebro.
Entrementes, a Dra
Helena Bastos
prosseguira a sua
narrativa:
- …alguém disse “Estão
ali duas pessoas a
afogar-se”…
Ana abanou a cabeça. Não
precisava de ouvir mais
nada. Conhecia a
história.
- …o juiz olhou para o
mar e exclamou:
“A Beatriz está a
afogar-se!”. Ema olhou
também. Beatriz e outra
rapariga esbracejavam.
Pareciam aflitas e
estavam sozinhas. Os
companheiros haviam-se
afastado. O juiz fixou o
olhar naqueles vultos
que se debatiam e
exclamou para Ema:
“Tenho de ir
buscá-la!...”
“Não, pai! Por favor, o
pai acabou de comer!
Aquilo deve ser
brincadeira!”
Ema não conseguia
descortinar se a irmã e
a companheira estariam
ou não em atribulação.
“Não, tenho de ir!”
“Não! Vou buscar o
nadador-salvador!”
“Mas ele é só um e elas
são duas! Tenho de ir,
de qualquer maneira!”.
Devo aqui referir que o
juiz era um homem de
porte atlético e óptimo
nadador. Sem hesitação,
atirou-se à água e nadou
vigorosamente até junto
da filha. Todavia,
quando chegou ao pé
dela, verificou com
alívio que tudo não
passara de uma infeliz
encenação, parte de uma
qualquer brincadeira.
Tranquilizado, o juiz
voltou para trás, desta
vez nadando com calma.
Alcançou a areia,
aliviado, mas deu dois
passos e caiu.
Ana estava pálida como
cera. Uma lágrima
escorria-lhe dos olhos
húmidos. - Eu sei… –
conseguiu articular...
- Foi uma morte
estúpida, absurda –
continuou a Dra Helena
Bastos – E… causada por
um gracejo!... Claro que
a vida é assim mesmo e
nnguém disse que tinha
de ser justa… E, no
entanto, foi um
acontecimento demasiado
surreal, demasiado
aleatório, demasiado
trágico… Como é óbvio,
provocou um choque
tremendo na família. A
esposa ficou de rastos.
Beatriz também. Apesar
de toda a sua
leviandade, sabia-se
culpada pela morte do
pai. Quanto a Ema,
sofreu horrores. Privada
da pessoa no mundo que
mais amava, não
conseguia esquecer que
fora a irmã, com a sua
inconsciência, a
causadora da desgraça. A
irmã e… a outra
rapariga!...
Ana não queria ouvir
mais nada.
- Oh! Cale-se, por
favor!...
Mas a Dra Helena Bastos,
implacável, continuou.
- Ema odiava a irmã. Não
conseguia encará-la. E
dentro de si, o desejo
de afastar Beatriz
transformou-se em
obsessão. Queria-a fora
da sua vida a qualquer
preço. Porém, importa
explicar que, além do
desejo de vingar a morte
do pai, existia ainda
uma outra boa razão para
Ema almejar o
afastamento da irmã. Ema
começara a namorar com
um jovem de boas
famílias, com uma
carreira promissora, de
quem gostava
verdadeiramente, e não
queria arriscar-se a que
este novo pretendente
sucumbisse também ele
aos encantos de Beatriz…
A Dra Helena Bastos
chorava agora sem
qualquer recato. A sua
voz saía-lhe trémula,
alterada.
- Todavia, não foi
preciso, pois Beatriz
nunca mais foi a mesma.
A sua vida ficara
destruída. Consumida
pelos remorsos, começou
a ter pesadelos. A
imagem do pai, lívido,
tombado sobre a areia
molhada, aparecia-lhe em
sonhos e ela acordava a
meio da noite, aos
gritos. A casa de
família, dantes serena,
tornou-se num autêntico
inferno. Parecia que se
vivia no cenário de um
filme de terror…
- Oh cale-se! Não diga
mais nada! – repetiu
Ana, ofegante.
Porém, como se falasse
para si mesma, a Dra
Helena Bastos
prosseguiu:
- Beatriz acabou por
abandonar o lar paterno,
não por ser aventureira
mas porque não aguentava
permanecer lá dentro. E
foi vivendo por esse
mundo fora, de país em
país, de cidade em
cidade, de ocupação em
ocupação, de companheiro
em companheiro... De vez
em quando, passava por
cá. Visitava a mãe e
depressa retornava.
Quanto a Ema, acabou o
curso, constituiu
família com o tal
namorado por quem se
tinha apaixonado, e
iniciou uma carreira
profissional brilhante.
Tornou-se uma pessoa
respeitada, considerada
irrepreensível por quem
logrou conhecê-la. O
permanente afastamento
da irmã acabou por
aplacar-lhe o desgosto.
Não há ferida que o
tempo não faça sarar. E
contudo…
A Dra Helena Bastos
deteve-se e suspirou.
Parecia procurar as
palavras adequadas:
- Contudo – prosseguiu
por fim - com o passar
dos anos, Ema começou a
pensar que afinal, não
fora Beatriz a principal
responsável pela
fatalidade que haviam
vivido na juventude.
Lembrava-se com
frequência daquela
rapariga que, de forma
tão decisiva,
contribuíra para a morte
do pai. Que seria dela?
Saberia o rasto de
sofrimento que a sua
ingénua brincadeira
havia provocado? E Ema
desejava ardentemente
encontrá-la e contar-lhe
tudo. Precisava de a
ver, de a confrontar com
o que fizera, de a levar
a sentir remorso. Só
isso poderia trazer-lhe
a tranquilidade havia
tanto tempo almejada.
Porém, como descobri-la?
Ela nunca mais aparecera
em São Pedro de Moel.
Desaparecera sem deixar
rasto. De facto, só um
acaso extraordinário as
poderia voltar a juntar.
Quanto à sua face, Ema
julgava recordá-la para
todo o sempre. Em
qualquer tempo, em
qualquer lugar,
reconhecê-la-ia.
A Dra Helena Bastos
parou subitamente. Já
não chorava. O seu rosto
era uma máscara de dor.
- O apelo do sangue é
muito forte. Ema acabou
por perdoar a irmã,
compreendê-la,
defendê-la diante de
todos. A imagem de
aventureira que Beatriz
criara magoava-a. Era
injusta. Ela era apenas
uma fugitiva. Viagens,
corridas através do
mundo, não a tinham
apaziguado. Até que a
única fuga verdadeira,
perfeita, intemporal
veio ao seu encontro. A
morte. Mas a outra
rapariga… A outra… Que
fizera? Que destino
tivera? Ema nunca mais a
vira até que… até que…
- Até hoje! – disse Ana.
E, antes de mergulhar no
abismo da inconsciência,
ouviu de muito longe a
voz da Dra Helena
Bastos:
- Eu sabia que era
você!... Conhecia-a
assim que a vi!...
Horas depois, em casa,
deitada na sua cama, Ana
lutava em vão contra a
insónia. Revirava-se
entre os lençóis,
tentando afastar as
imagens que a dominavam
e esquecer as palavras
que lhe ressoavam aos
ouvidos. Os seus
fantasmas haviam sido
ressuscitados. O
passado, havia muito
recalcado, viera ao seu
encontro. Também ela era
uma fugitiva. Porém, não
tivera a sorte de fugir
a tempo. Falhara por
três dias.
Apesar de tudo, no
velório, soubera pelo
menos conservar a
dignidade. Após o
desmaio, alguém solícito
e cortês a havia
conduzido até casa. Por
isso, não chegara a
perpetrar uma confissão.
Eram três horas da
manhã. Mais uma vez,
fechou os olhos e tentou
dormir. Porém, só
conseguiu ver o rosto da
Dra Helena Bastos, a sua
expressão dura e
cansada, o seu olhar
acusador… Logo a seguir,
essa imagem foi
substituída por uma
praia, um mar cinzento e
alterado, um corpo caído
na areia, rodeado por um
círculo de pessoas
aflitas… Meu Deus!
Aquela visão estivera
adormecida dentro da sua
memória durante tantos
anos!... E agora
regressara em toda a sua
pujança! Seria que,
alguma vez, a esqueceria
e voltaria a ter paz?...
Abriu os olhos e
perscrutou a escuridão.
Infelizmente o marido só
chegaria na manhã
seguinte. Ele não sabia
de nada. Mas agora, Ana
ansiava pela sua chegada
para, finalmente, se
abrir com ele. Tinha de
lhe contar o seu maior
segredo, de lhe
confessar de onde
provinha aquele seu
imenso desejo de evasão.
E arrependia-se de nunca
lhe ter dito nada sobre
o assunto. Afinal, amar
é partilhar e confiar.
De repente,
interrompendo o
turbilhão dos seus
pensamentos, Ana escutou
um ruído. Apurou o
ouvido. Alguém metia a
chave na fechadura. Logo
a seguir ouviu o som
inconfundível da porta a
abrir-se e a fechar-se,
e entreviu a fraca
luminosidade do
candeeiro do hall de
entrada. O seu coração
bateu de alegria.
- Alfredo!
Os passos do marido
encaminharam-se para o
quarto. Ana levantou-se,
dirigiu-se para aquele
vulto amigo e abraçou-o.
- Querido! Pensei que só
virias amanhã!
- Houve uma desistência
num voo a uma hora
tardia e eu aproveitei…
- Ainda bem!...
Alfredo afrouxou o
abraço e olhou para a
mulher com atenção:
- Que se passa? Que
fazes acordada a esta
hora?...
- Ainda não consegui
adormecer…
- Mas… Estás com um ar
muito fatigado!...
Sentes-te bem?...
- Agora que estás aqui,
já me sinto melhor!...
Alfredo abraçou-a
novamente.
- Sempre foste ao
velório?
- Fui.
- Oh, meu amor!... Já
percebi! O velório
cansou-te. Não devia ter
insistido contigo para
ires. Mas, compreendeste
as minhas razões, não é
verdade?
- Sim, claro.
- E foi muito
aborrecido?...
Ana não respondeu logo.
Em boa verdade, na vida,
havia coisas impossíveis
de dividir. Coisas cuja
partilha, em vez de
consolo, só poderia
trazer um acréscimo de
angústia.
- Sim, muito. –
respondeu - Mas, nesta
vida, há que ter
paciência.
Adelina Velho da Palma
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