Sebo - Adelina Velho da Palma

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O Velório in "O gato das oito vidas"

Naquela Igreja, além do velório decorria um casamento. Apesar da hora tardia, fazia-se sentir um calor abafado que amolecia os ânimos. No entanto, o átrio estava cheio e o ar ressoava de conversas e risos em surdina. Algumas pessoas encostavam-se às paredes, de expressão apática, fumando e beberricando garrafas de água. Outras sentavam-se na ampla escadaria em amena cavaqueira, e as restantes deambulavam por ali. Curiosamente, era impossível distinguir quem se encontrava adstrito a um e a outro dos eventos. O negro estava na moda e todos trajavam dessa cor, mesmo os convidados para o enlace.
Ana acabara de chegar. O seu vestuário, perfeitamente adequado ao ambiente, tranquilizou-a. Aparte a missão de que estava imbuída, queria passar despercebida. Contudo, sabia que tinha pela frente um par de horas extremamente aborrecidas e sentia-se contrafeita.
- Isto não era necessário! – pensou, enquanto à luz velada do fim de tarde tentava perceber para onde se devia dirigir.
Sentia-se protagonista de uma situação algo bizarra. Afinal, não conhecia pessoalmente a falecida nem a família. Estava ali em representação do marido, impossibilitado de comparecer. Alfredo encontrava-se no Funchal e só regressaria no dia seguinte. Ana sorriu com condescendência ante a lembrança do melindroso sentido das conveniências do cônjuge. Outro, no lugar dele, não teria feito questão do cumprimento daquela formalidade. Afinal, iam viajar daí a três dias. E não se tratava de nenhuma viagem de recreio mas de uma mudança de residência para os antípodas. O marido trabalhava numa multinacional e fora convidado para um lugar em Perth, na Austrália. Havia muito que Ana sonhava com uma vida num país distante. Só ela e Alfredo, como dois exploradores aventureiros. A sua quimera fora crescendo e, a pouco e pouco, acabara por contagiar o marido que a amava ternamente. Finalmente a oportunidade surgira. E, se tudo corresse bem, não voltariam.
Homem de múltiplos afazeres, para além da actividade principal Alfredo Simões era responsável pela orientação de mestrados na mesma faculdade onde a Dra Helena Bastos, a irmã da falecida, leccionava. Oriunda de uma família influente e bem apadrinhada, a Dra Helena Bastos ascenderia em breve ao cargo máximo. Esse facto era um dado adquirido. Como era a ela que Alfredo reportava, tais circunstâncias eram mais que suficientes para considerar que devia marcar presença nas cerimónias fúnebres:
- Há mar e mar, há ir e voltar… - dissera à esposa, quando lhe ligara do Funchal pelo telemóvel - Não quero que a Dra Helena Bastos pense que, pelo facto de me ir embora, não lhe apresento as minhas condolências. Devo-lhe muito.
- Bastaria mandar um telegrama… - sugerira Ana.
- Não. Não é a mesma coisa.
Apesar do nulo envolvimento afectivo, Ana sentira a garganta seca. Evitava, tanto quanto possível, velórios e funerais. Só comparecia quando era estritamente necessário. Havia muito que sabia o quanto a vida era precária. Porém, não conseguia habituar-se a encarar a morte com naturalidade. Não que temesse por si própria, mas porque a existência da morte transformava a vida num absurdo. E o facto de se tratar do falecimento de uma pessoa da sua idade exacerbava-lhe a angústia. No entanto, não era uma obcecada. Longe disso. Conseguia viver longos períodos sem pensar na morte, ignorando-a, como se esta fizesse parte de um universo paralelo, incomensuravelmente longínquo. Todavia, as suas arremetidas fortuitas tinham o condão de lhe recordar a sua proximidade, a sua inexorabilidade. O que a fazia sentir-se desarmada.
Não adianta afastarmos a morte do nosso pensamento se não a podemos afastar da nossa trajectória… – reflectiu Ana. E sentiu um ligeiro estremecimento. Porém, depressa se controlou. Alfredo dispensara-a da presença no funeral, no dia seguinte. Essa sim, teria sido uma provação. Ana abominava enterros. O eco do barulho da terra a cair sobre o caixão provocava-lhe calafrios. Por outro lado, encontrava no fumo negro de numa cremação um horror silencioso, quase tão agressivo como a descida de um esquife à terra.
Olhou ao redor com mais atenção. O velório estava extremamente concorrido. O que não admirava, uma vez que a Dra Helena Bastos era uma pessoa conceituada e respeitada. Ademais, casada com um afamado cirurgião.
Com o desembaraço possível, Ana abriu caminho rumo à capela mortuária através de uma pequena multidão. Não via uma única cara conhecida. E, mesmo sem prestar grande atenção, intersectou alguns comentários que circulavam no ar:
- …ainda era nova...
- …que me dizes das novas medidas do governo?...
- …que idade tinha?...
- …já sei que foram ao Egipto…
- …de que morreu ela?...
- …o João já entrou para a Faculdade…
- …parece que foi do coração...
- …conheces aquele ali, alto, moreno, com as mãos nos bolsos?...
- …não admira! Com a vida que levava...
- …a casa é óptima! Também, para aquilo que custou…
- …para a família, foi melhor assim...
- …oh querida! Continua linda!...
- …oh sim! Foi um alívio!...
Conquanto tensa e aborrecida, Ana sorriu. Que estranhos eram os velórios! Sobre o morto, pouco se falava. Como se não fosse ele a razão principal para se estar ali. E aquilo que se dizia tinha um único fito - fundamentar o falecimento na lógica. De preferência em circunstâncias das quais se estivesse excluído. Como se tal constituísse garantia de imunidade. Feito isto, respirava-se fundo e fazia-se por passar o tempo da maneira mais agradável possível.
Ana alcançou a entrada da capela mortuária e espreitou. Cinco ou seis pessoas, sentadas em cadeiras de aspecto desconfortável, velavam a morta. Mais um quadro invariável, pensou. Salvo raríssimas excepções, toda a gente preferia manter-se a uma distância confortável do caixão. Como se este fosse uma espécie de foco de infecção, susceptível de contagiar quem se aproximasse.
Ana observou os presentes. Uma senhora dos seus trinta e cinco anos, arruivada, de feições correctas, faces esquálidas e olheiras fundas, chamou-lhe a atenção. O seu aspecto coincidia com a descrição que Alfredo lhe fizera. A tal ponto que a face lhe parecia vagamente familiar.
Aproximou-se discretamente e inquiriu em voz baixa:
- Dra Helena Bastos?...
A interlocutora ergueu o olhar. A sua expressão era vazia.
- Sim, sou eu.
- Sou Ana, a esposa de Alfredo Simões – proferiu, estendendo-lhe a mão – Os nossos sinceros pêsames. Ele não pôde vir pois está no Funchal.
Um sorriso muito ligeiro, quase um simulacro, aflorou os lábios da Dra Helena Bastos. Era, sem dúvida, uma pessoa consumida pelo desgosto. A sua voz era quase inaudível:
- Compreendo. Muito obrigada.
Ana hesitou durante alguns segundos. Queria seguir todos os trâmites apropriados. Talvez fosse conveniente sentar-se ali durante uma meia hora.
- Quando é a partida? – ouviu de súbito. Ana fitou a Dra Helena Bastos e julgou notar-lhe no olhar uma espécie de lampejo fugidio. A sua voz animara-se um pouco.
- Partida?... Ah, sim! Daqui a três dias…. - desatenta, Ana não captara logo o sentido da pergunta
- Desejo-vos sorte e sucesso.
- Obrigada.
Os olhos pisados da Dra Helena Bastos não abandonavam Ana. Esta corou e desviou o olhar. Sentia um inexplicável constrangimento e não lhe ocorria nada para dizer.
- A morte é uma grande tristeza. Diante dela, tudo perde a importância… – acabou por proferir.
- Nada mais certo… - a Dra Helena Bastos continuava a olhá-la fixamente.
Incomodada, Ana evitou olhar para a interlocutora. Aquela maneira de proceder não era própria de uma pessoa bem-educada. Não saberia, a Dra Helena Bastos, que era indelicado olhar para alguém daquela maneira insistente? Claro que, muito provavelmente, a senhora estava em estado de choque. Perder uma irmã mais nova é algo contra a natureza. No entanto, a sua expressão controlada indiciava alguém que tivesse suportado uma longa mágoa contida ao invés da vítima de um tremendo desgosto repentino.
Felizmente surgiu outra pessoa para apresentar condolências e Ana aproveitou o ensejo para se afastar. Tentava mostrar naturalidade mas as pernas tremiam-lhe. Ficara perturbada. O que a fazia sentir-se algo irritada consigo mesma.
Naturalmente reservada, Ana não fingiria um desgosto que não tinha, muito menos teceria comentários sobre algo que não lhe dizia respeito. Contudo, impunha-se fazer o seu papel e aguentar no seu posto o tempo julgado conveniente. Por isso, dirigiu-se até ao caixão por entre um autêntico mar de belíssimas coroas de flores e olhou para dentro. Lá estava a defunta, de rosto branco, liso, emoldurado por uma cabeleira ruiva. Os lábios estavam ligeiramente entreabertos. Quase que sorria. Parecia muito nova e inocente. Malgrado os reparos que lhe haviam chegado aos ouvidos, era impossível imaginá-la como uma aventureira devassa. E, no entanto, também aquele rosto belo se afigurou a Ana estranhamente familiar, sem que lhe conseguisse precisar a origem. Provavelmente, essa impressão derivava da parecença com a irmã.
Manteve-se ali durante algum tempo, estática, como se rezasse. Enquanto isso, percebia o olhar da Dra Helena Bastos, intenso, cravado na sua pessoa. Os minutos pareciam horas. O coração batia-lhe descompassado. Por fim, decidida, com um passo o mais firme possível, voltou costas ao caixão, saiu da capela mortuária e entrou no compartimento contíguo. Este estava vazio. Respirou fundo, sentou-se e tentou relaxar. O pior já passara.
Não tinham decorrido mais de dez minutos quando Ana escutou um burburinho anormal que parecia vir da sala vizinha. Ergueu-se e tentou alcançar a entrada da capela mortuária, mas uma pequena e compacta multidão, tão curiosa como ela, obstruía-a por completo. Ana avançou conforme pôde até chegar perto de um homem alto que estava mais à frente:
- Que se passa? – perguntou.
- Parece que desmaiou uma pessoa...
De repente, ouviu-se uma voz masculina, autoritária.
- Deixem passar, por favor!
As pessoas presentes fizeram um tímido esforço para desobstruir a entrada e Ana viu a Dra Helena Bastos, de olhos semicerrados, apoiada em dois cavalheiros de aspecto respeitável, um de cada lado, sendo lentamente arrastada para a saída.
- Por favor... Deixem-nos passar... – insistiu a voz de um dos cavalheiros, provavelmente o marido, num tom onde era patente uma nota de alarme.
Não sem relutância, as pessoas afastaram-se. A Dra Helena Bastos foi levada para a pequena sala ao lado, onde Ana estivera.
- Deixem-nos sozinhos, por favor! – pediu o mesmo cavalheiro a um grupo de pessoas que se dirigiam para junto deles com ar diligente. E acrescentou – Está tudo bem. Ela está apenas fatigada, nada mais!...
Ana permaneceu à porta por uns momentos. Acabara de perder o seu refúgio. Os olhos da Dra Helena Bastos encontraram os seus e, mais uma vez, Ana julgou notar-lhes um clarão. Contra vontade, sentiu o coração acelerar-se-lhe e o mal-estar anterior regressar. Tinha de sair dali. Daria meia volta e iria até ao exterior da Igreja. Porém, mal dera dois passos, ouviu o seu nome:
- Ana!
Olhou para trás. A Dra Helena Bastos fazia-lhe sinal.
- É Ana, não é? – inquiriu a Dra Helena Bastos, enquanto Ana se aproximava.
- Sou, sim. Que aconteceu? Sentiu-se mal? – perguntou.
- Sim. Mas já estou bem.
E a Dra Helena Bastos voltou-se para os dois cavalheiro e esboçou um sorriso:
- Voltem para a capela mortuária, por favor. Eu prefiro ficar aqui a descansar um pouco – disse com voz firme.
- De certeza que já te sentes bem? – insistiu o presumível marido.
- Perfeitamente. Além disso, a Ana far-me-á companhia. – e, cravando em Ana um olhar mais imperativo que interrogador, acrescentou - Não é, Ana?
- Com certeza – respondeu Ana, temendo que a voz se lhe embargasse com a singular emoção que a assaltava.
Os dois cavalheiros saíram da sala, deixando a Dra Helena Bastos e Ana sozinhas. Assim que deixou de os ver, a expressão da Dra Helena Bastos alterou-se. Parecia que lhe tinham retirado um grande peso dos ombros.
- Até que enfim! – exclamou, com uma voz subitamente clara.
- Que se passa? – inquiriu Ana, admirada.
- Não se aflija. Eu não desmaiei. Apenas perpetrei uma pequena encenação de forma a ficar sozinha consigo. – apesar da palidez, a Dra Helena Bastos parecia agora perfeitamente segura de si.
- Queria ficar sozinha comigo?! Porquê?
- Porque me apetece falar. E ter um ouvido que me escute. Um ouvido atento e discreto, em quem eu possa confiar.
- E escolheu-me a mim? – Ana estava cada vez mais atónita.
- Sim. Você é a ouvinte ideal.
- E como pode ter essa certeza?
- Na realidade, não posso… Mas daqui a três dias você vai-se embora daqui para o outro lado do mundo. Talvez para sempre. Provavelmente nunca mais nos veremos. E, antes que isso aconteça, tenho de falar consigo.
Alguma coisa não batia certo. A cena tocava as raias do absurdo. Ana percebeu que a Dra Helena Bastos não desviava os olhos dela. Mais que observá-la, parecia perscrutar-lhe as entranhas. O seu aspecto era o de alguém atacado de febre. A sua face adquirira cor e os seus olhos brilhavam.
Na expectativa do que se seguiria, Ana conteve a ansiedade e sustentou-lhe o olhar. Por nada deste mundo daria parte de fraca. Notando isso, a Dra Helena Bastos fez um trejeito e assumiu um tom cordial, que a Ana lhe soou a falso:
- Não se assuste. Não lhe vou contar nada de estritamente pessoal. Mas a morte de minha irmã fez vir à tona uma outra história que se passou com uma amiga minha e gostava de saber a sua opinião a respeito.
- Sou toda ouvidos.
- Esta história é verdadeira. Não lhe vou dizer de quem se trata. Seria como trair um segredo. Esta minha amiga - vamos chamar-lhe Ema - era filha de um casal de princípios, educados e de boa índole. O pai era juiz. A mãe era filha de um comerciante endinheirado. Ema tinha uma irmã três anos mais nova - chamemos-lhe Beatriz.
A Dra Helena Bastos calou-se, como que a recuperar fôlego, após o que continuou:
- O ambiente familiar era bom. Os pais davam-se bem e poder-se-iam considerar uma família feliz. No entanto, nunca houve duas irmãs tão radicalmente diferentes. Ema era calma e ajuizada, Beatriz exaltada e desobediente. Apesar disso, talvez porque Beatriz fosse uma bebé lindíssima, cedo a mãe começou a revelar uma certa predilecção pela filha mais nova. Estragava-a com mimos e Ema tinha ciúmes. Escudava-se então no pai que, por inerência da profissão, incarnava um bastião de justiça. Ema sentia-se protegida pela imparcialidade e pelo carinho paternos que amiúde a compensavam das preferências da mãe.
O tempo foi passando e, à medida que Beatriz crescia, tornava-se deslumbrante. Assim que chegava a qualquer lugar, monopolizava olhares e atenções. No entanto, em boa verdade, nada fazia para isso. Porém, irradiava um encanto de tal ordem que se tornava impossível não reparar nela...
A Dra Helena Bastos suspendeu a fala por uns momentos e Ana manteve-se silenciosa. Continuava longe de imaginar onde conduziria aquele relato. Porém, já não se atrevia a abrir a boca. Qualquer coisa de muito ténue despontava nos confins da sua memória, enquanto a Dra Helena Bastos, indiferente à estranheza que provocava, prosseguiu:
- Quando se tornaram duas adolescentes, Beatriz, possuía um encanto extraordinário e um sex appeal irresistível. É difícil definir o que mais atraía nela. Se o seu extremo fascínio, se o facto de parecer totalmente alheia ao efeito que produzia. Era de uma alegria transbordante. Porém, descuidada e leviana, não levava nada a sério. Nem sequer a si mesma. Os namorados sucediam-se a um ritmo vertiginoso. Chegou, aliás, a roubar um ou dois à própria Ema. Era desconcertante. Limitava-se a viver o dia a dia, fazendo o que lhe apetecia, com uma noção muito peculiar dos seus deveres. Enquanto isso, nos estudos marcava passo. No fundo, talvez não passasse de uma egoísta. Ema, pelo contrário, era aplicada e ciente das suas obrigações. E ambiciosa também. O pai incentivava-a, enquanto pregava grandes sermões a Beatriz pelo seu mau desempenho.
A Dra Helena Bastos fez uma pequena pausa e, com um ar sonhador, continuou:
- Durante algum tempo, o facto de ser a mais velha levou Ema a sentir alguma indulgência em relação à irmã. Todavia, não a compreendia. Que queria ela fazer da vida? Os valores nos quais eram educadas, tão empenhadamente propalados pelo pai, pareciam não produzir o mínimo efeito naquela cabeça irresponsável. Nem o facto de Ema ter entrado na Faculdade a fazia aplicar-se. Por tudo isto, foi inevitável Ema acabar por considerar a irmã uma criatura inconsciente, talvez até aberrante. A sua condescendência esfumou-se. Por outro lado, amando o progenitor acima de tudo e vendo-o seriamente preocupado com o futuro de Beatriz, começou até a sentir uma certa revolta. De vez em quando, dava consigo a imaginar que Beatriz partia para longe, muito longe, onde lhe fosse impossível perturbar a paz do agregado familiar. E estes sentimentos iam, a pouco e pouco, sendo inculcados dentro de si. Até que um acontecimento trágico veio desequilibrar a vida desta família...
- Que aconteceu? – perguntou Ana. Agora já não se sentia no meio de um filme de aparência caótica, para onde tivesse sido arrastada por engano. Intuía com clareza que havia uma finalidade muito precisa em todo aquele arrazoado. Um arrazoado que lhe dizia respeito, embora ainda não conseguisse descortinar o como nem o porquê. E pressentia-se à beira de um abismo, como se bastasse uma pequena brisa para a precipitar nele.
- O pai morreu! Morreu de repente!... – respondeu a Dra Helena Bastos fechando os olhos. – Foi horrível!... – abanou a cabeça e repetiu – Horrível!... – E cravou em Ana dois olhos rasos de lágrimas, mas nem por isso menos perfurantes.
Ana sentiu um baque inexplicável. Cada vez mais perturbada, esforçou-se por se esquecer de si mesma. Antes tentou ansiosamente concentrar-se na análise da interlocutora. Era evidente que a história emocionava sobremaneira a Dra Helena Bastos. Onde estava a mulher controlada e senhora de si? Decerto relatava a sua própria vivência. Era ridículo! Pensaria ela que a enganaria com um estratagema tão primário?...
- Como morreu ele? – acabou por perguntar numa voz sumida.
- Com uma congestão. A família estava de férias em São Pedro de Moel, onde possuíam uma vivenda. Ema e Beatriz tinham ido à praia. Na altura teriam 20 e 17 anos, respectivamente. Tinham lá um grupo de verão, de rapazes e raparigas, com quem conviviam diariamente. Às vezes passavam o dia inteiro na praia. Almoçavam nos restaurantes ou levavam farnéis. Eram uns verões maravilhosos. Certa tarde o mar estava picado e frio, o que é comum naquela praia. A bandeira estava amarela. Beatriz, estarola como sempre, estava dentro de água com um pequeno grupo e fazia uma imensa algazarra. O pai e Ema haviam acabado de almoçar na esplanada. Tinham comido lulas recheadas, um prato pesado e indigesto...
À medida que escutava, Ana ia empalidecendo. Uma dor aguda trespassava-lhe o peito. Já não duvidava de que a Dra Helena Bastos relatava a sua própria história. Senão, como poderia lembrar-se do prato que o pai de Ema tinha comido?... E uma lembrança remota, muito remota, aflorava-lhe o espírito de forma insidiosa. Angustiada, engoliu em seco a fim de afastar o gosto amargo que lhe subira à boca. A recordação de um dia - um único dia em particular - de entre os muitos dias de verão passados em São Pedro de Moel, naquele ano longínquo da sua juventude, inculcada havia muito tempo, estava agora bem presente no seu cérebro. Entrementes, a Dra Helena Bastos prosseguira a sua narrativa:
- …alguém disse “Estão ali duas pessoas a afogar-se”…
Ana abanou a cabeça. Não precisava de ouvir mais nada. Conhecia a história.
- …o juiz olhou para o mar e exclamou:
“A Beatriz está a afogar-se!”. Ema olhou também. Beatriz e outra rapariga esbracejavam. Pareciam aflitas e estavam sozinhas. Os companheiros haviam-se afastado. O juiz fixou o olhar naqueles vultos que se debatiam e exclamou para Ema:
“Tenho de ir buscá-la!...”
“Não, pai! Por favor, o pai acabou de comer! Aquilo deve ser brincadeira!”
Ema não conseguia descortinar se a irmã e a companheira estariam ou não em atribulação.
“Não, tenho de ir!”
“Não! Vou buscar o nadador-salvador!”
“Mas ele é só um e elas são duas! Tenho de ir, de qualquer maneira!”.
Devo aqui referir que o juiz era um homem de porte atlético e óptimo nadador. Sem hesitação, atirou-se à água e nadou vigorosamente até junto da filha. Todavia, quando chegou ao pé dela, verificou com alívio que tudo não passara de uma infeliz encenação, parte de uma qualquer brincadeira. Tranquilizado, o juiz voltou para trás, desta vez nadando com calma. Alcançou a areia, aliviado, mas deu dois passos e caiu.
Ana estava pálida como cera. Uma lágrima escorria-lhe dos olhos húmidos. - Eu sei… – conseguiu articular...
- Foi uma morte estúpida, absurda – continuou a Dra Helena Bastos – E… causada por um gracejo!... Claro que a vida é assim mesmo e nnguém disse que tinha de ser justa… E, no entanto, foi um acontecimento demasiado surreal, demasiado aleatório, demasiado trágico… Como é óbvio, provocou um choque tremendo na família. A esposa ficou de rastos. Beatriz também. Apesar de toda a sua leviandade, sabia-se culpada pela morte do pai. Quanto a Ema, sofreu horrores. Privada da pessoa no mundo que mais amava, não conseguia esquecer que fora a irmã, com a sua inconsciência, a causadora da desgraça. A irmã e… a outra rapariga!...
Ana não queria ouvir mais nada.
- Oh! Cale-se, por favor!...
Mas a Dra Helena Bastos, implacável, continuou.
- Ema odiava a irmã. Não conseguia encará-la. E dentro de si, o desejo de afastar Beatriz transformou-se em obsessão. Queria-a fora da sua vida a qualquer preço. Porém, importa explicar que, além do desejo de vingar a morte do pai, existia ainda uma outra boa razão para Ema almejar o afastamento da irmã. Ema começara a namorar com um jovem de boas famílias, com uma carreira promissora, de quem gostava verdadeiramente, e não queria arriscar-se a que este novo pretendente sucumbisse também ele aos encantos de Beatriz…
A Dra Helena Bastos chorava agora sem qualquer recato. A sua voz saía-lhe trémula, alterada.
- Todavia, não foi preciso, pois Beatriz nunca mais foi a mesma. A sua vida ficara destruída. Consumida pelos remorsos, começou a ter pesadelos. A imagem do pai, lívido, tombado sobre a areia molhada, aparecia-lhe em sonhos e ela acordava a meio da noite, aos gritos. A casa de família, dantes serena, tornou-se num autêntico inferno. Parecia que se vivia no cenário de um filme de terror…
- Oh cale-se! Não diga mais nada! – repetiu Ana, ofegante.
Porém, como se falasse para si mesma, a Dra Helena Bastos prosseguiu:
- Beatriz acabou por abandonar o lar paterno, não por ser aventureira mas porque não aguentava permanecer lá dentro. E foi vivendo por esse mundo fora, de país em país, de cidade em cidade, de ocupação em ocupação, de companheiro em companheiro... De vez em quando, passava por cá. Visitava a mãe e depressa retornava. Quanto a Ema, acabou o curso, constituiu família com o tal namorado por quem se tinha apaixonado, e iniciou uma carreira profissional brilhante. Tornou-se uma pessoa respeitada, considerada irrepreensível por quem logrou conhecê-la. O permanente afastamento da irmã acabou por aplacar-lhe o desgosto. Não há ferida que o tempo não faça sarar. E contudo…
A Dra Helena Bastos deteve-se e suspirou. Parecia procurar as palavras adequadas:
- Contudo – prosseguiu por fim - com o passar dos anos, Ema começou a pensar que afinal, não fora Beatriz a principal responsável pela fatalidade que haviam vivido na juventude. Lembrava-se com frequência daquela rapariga que, de forma tão decisiva, contribuíra para a morte do pai. Que seria dela? Saberia o rasto de sofrimento que a sua ingénua brincadeira havia provocado? E Ema desejava ardentemente encontrá-la e contar-lhe tudo. Precisava de a ver, de a confrontar com o que fizera, de a levar a sentir remorso. Só isso poderia trazer-lhe a tranquilidade havia tanto tempo almejada. Porém, como descobri-la? Ela nunca mais aparecera em São Pedro de Moel. Desaparecera sem deixar rasto. De facto, só um acaso extraordinário as poderia voltar a juntar. Quanto à sua face, Ema julgava recordá-la para todo o sempre. Em qualquer tempo, em qualquer lugar, reconhecê-la-ia.
A Dra Helena Bastos parou subitamente. Já não chorava. O seu rosto era uma máscara de dor.
- O apelo do sangue é muito forte. Ema acabou por perdoar a irmã, compreendê-la, defendê-la diante de todos. A imagem de aventureira que Beatriz criara magoava-a. Era injusta. Ela era apenas uma fugitiva. Viagens, corridas através do mundo, não a tinham apaziguado. Até que a única fuga verdadeira, perfeita, intemporal veio ao seu encontro. A morte. Mas a outra rapariga… A outra… Que fizera? Que destino tivera? Ema nunca mais a vira até que… até que…
- Até hoje! – disse Ana. E, antes de mergulhar no abismo da inconsciência, ouviu de muito longe a voz da Dra Helena Bastos:
- Eu sabia que era você!... Conhecia-a assim que a vi!...
Horas depois, em casa, deitada na sua cama, Ana lutava em vão contra a insónia. Revirava-se entre os lençóis, tentando afastar as imagens que a dominavam e esquecer as palavras que lhe ressoavam aos ouvidos. Os seus fantasmas haviam sido ressuscitados. O passado, havia muito recalcado, viera ao seu encontro. Também ela era uma fugitiva. Porém, não tivera a sorte de fugir a tempo. Falhara por três dias.
Apesar de tudo, no velório, soubera pelo menos conservar a dignidade. Após o desmaio, alguém solícito e cortês a havia conduzido até casa. Por isso, não chegara a perpetrar uma confissão.
Eram três horas da manhã. Mais uma vez, fechou os olhos e tentou dormir. Porém, só conseguiu ver o rosto da Dra Helena Bastos, a sua expressão dura e cansada, o seu olhar acusador… Logo a seguir, essa imagem foi substituída por uma praia, um mar cinzento e alterado, um corpo caído na areia, rodeado por um círculo de pessoas aflitas… Meu Deus! Aquela visão estivera adormecida dentro da sua memória durante tantos anos!... E agora regressara em toda a sua pujança! Seria que, alguma vez, a esqueceria e voltaria a ter paz?...
Abriu os olhos e perscrutou a escuridão. Infelizmente o marido só chegaria na manhã seguinte. Ele não sabia de nada. Mas agora, Ana ansiava pela sua chegada para, finalmente, se abrir com ele. Tinha de lhe contar o seu maior segredo, de lhe confessar de onde provinha aquele seu imenso desejo de evasão. E arrependia-se de nunca lhe ter dito nada sobre o assunto. Afinal, amar é partilhar e confiar.
De repente, interrompendo o turbilhão dos seus pensamentos, Ana escutou um ruído. Apurou o ouvido. Alguém metia a chave na fechadura. Logo a seguir ouviu o som inconfundível da porta a abrir-se e a fechar-se, e entreviu a fraca luminosidade do candeeiro do hall de entrada. O seu coração bateu de alegria.
- Alfredo!
Os passos do marido encaminharam-se para o quarto. Ana levantou-se, dirigiu-se para aquele vulto amigo e abraçou-o.
- Querido! Pensei que só virias amanhã!
- Houve uma desistência num voo a uma hora tardia e eu aproveitei…
- Ainda bem!...
Alfredo afrouxou o abraço e olhou para a mulher com atenção:
- Que se passa? Que fazes acordada a esta hora?...
- Ainda não consegui adormecer…
- Mas… Estás com um ar muito fatigado!... Sentes-te bem?...
- Agora que estás aqui, já me sinto melhor!...
Alfredo abraçou-a novamente.
- Sempre foste ao velório?
- Fui.
- Oh, meu amor!... Já percebi! O velório cansou-te. Não devia ter insistido contigo para ires. Mas, compreendeste as minhas razões, não é verdade?
- Sim, claro.
- E foi muito aborrecido?...
Ana não respondeu logo. Em boa verdade, na vida, havia coisas impossíveis de dividir. Coisas cuja partilha, em vez de consolo, só poderia trazer um acréscimo de angústia.
- Sim, muito. – respondeu - Mas, nesta vida, há que ter paciência.

Adelina Velho da Palma
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