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O CÍRCULO
A sala de
espera era pequena e acolhedora. Pairava
no ar um aroma peculiar, adocicado, e
fazia-se ouvir uma música suave,
entorpecente. O teto era baixo, forrado
a madeira, e as paredes,
maioritariamente ornadas de prateleiras,
exibiam uma cor quente, entre o castanho
e o alaranjado. Na parede do fundo, uma
janela estreita deixava entrar uma
réstia de luz solar filtrada por
trepadeiras. Num dos cantos da sala, a
rececionista, uma mulher jovem de rosto
inexpressivo, trabalhava sentada diante
de um computador, de olhar fixo no ecrã,
manuseando o rato. No canto oposto, um
conjunto de sofás garridos, de gosto
duvidoso, tentava alegrar o ambiente.
Sentada num dos sofás, com as costas
muito direitas, Maria do Carmo aguardava
a sua vez. Nunca tinha estado numa sala
assim. Para além da recepcionista, era a
única pessoa presente. Os seus olhos
observavam os variadíssimos objetos que
enchiam as prateleiras. Havia de tudo –
imagens de anjos, aromas, paus de
incenso, chás, livros sobre astrologia e
ciências ocultas, velas e sacos de pó de
todas as cores e tamanhos... Pequenos
cartazes dispersos ofereciam a preços
módicos um vasto leque de serviços
esotéricos especializados, desde
consultas de Tarot e alinhamentos de
chakras até mapas astrais e fotografias
da aura.
Para manter a postura, descruzou e
tornou a cruzar as pernas. Sentia-se
tensa e cheia de dúvidas. Sabia porque é
que estava ali, mas não fazia a mais
pequena ideia da entrevista que a
aguardava. Suspirou e tentou relaxar,
permitindo que as costas se apoiassem na
parte posterior do sofá. Fechou os olhos
e, numa tentativa de sistematizar as
suas próprias ideias, passou em revista
os acontecimentos que a tinham conduzido
até àquele lugar.
O marido, José António, andava
intratável. Desde sempre calmo e
cordato, sofrera, nos últimos meses, uma
considerável mutação. A pouco e pouco,
tornara-se desagradável e intolerante,
como se vivesse debaixo de uma grande
tensão. A paciência havia-o abandonado
gradualmente e, nos últimos tempos,
qualquer contrariedade, por
insignificante que fosse, provocava-lhe
uma reação desmedida, desproporcionada
em relação à real dimensão do
aborrecimento.
Em vão Maria do Carmo tentara perceber
as razões de tão estranha metamorfose.
Chegara a suspeitar de que o marido
estivesse doente. Havia tempo soubera de
um caso semelhante, em que acabara por
se descobrir que o paciente sofria de um
tumor nas cápsulas suprarrenais. Porém,
usando de diplomacia, indagara junto dos
colegas do marido se a sua alteração de
comportamento seria extensiva ao
emprego. E o que soubera levara-a a
concluir que não. Na fábrica onde
trabalhava como chefe de produção, José
António continuava a ser considerado de
fácil relacionamento e mantinha a boa
imagem que sempre tivera.
Por consequência, Maria do Carmo já não
tinha dúvidas de que a alteração do
marido se circunscrevia ao ambiente
familiar. O que a levava a presumir que
seria ela a causa próxima dessa
modificação. No entanto, repudiava
qualquer explicação que envolvesse a
existência de outra mulher. E, amando o
marido, suportara os seus maus humores
com paciência, agarrando-se à esperança
de que tratar-se-ia de uma fase
passageira.
Todavia, dois dias antes, as coisas
haviam mudado de cariz. José António
pisara o risco. À noite, após o jantar,
por uma questão de lana caprina,
tinha-lhe levantado a mão! Não lhe
chegara a bater, mas o braço fora
erguido, num inequívoco gesto de
agressão, e Maria do Carmo ficara em
estado de choque. Nunca, no decorrer dos
já doze anos de casamento, imaginara que
um dia pudesse vir a defrontar-se com
uma tal situação. Nessa noite não
conseguira dormir e, no dia seguinte,
indignada e deprimida, desabafara com a
sua amiga Joana.
Maria do Carmo abriu os olhos e sorriu.
Joana era uma boa amiga. Todavia, as
duas eram muito diferentes. Enquanto
Maria do Carmo parecia exatamente aquilo
que era - uma engenheira, funcionária
pública, racional e de poucas falas,
Joana, empresária de sucesso, detentora
de um grande dom de palavra, escondia
uma perfeita simbiose de misticismo e
pragmatismo.
Após ouvir o relato do drama conjugal da
amiga, Joana dissera-lhe:
- Conheço uma pessoa que pode ajudar-te.
- Quem?
- Uma pessoa...
Maria do Carmo sentia-se tão em baixo
que nem chegara a perceber muito bem de
quem se tratava. Uma espécie de vidente,
supunha. O nome era Luís do Lago. E nem
tivera forças para protestar. Apática,
deixara-se conduzir por Joana até uma
obscura ruela na vila de Sintra, nas
faldas da serra. Aí, Joana largara-a à
porta de uma casa baixa, de aspeto menos
que modesto, exclamando:
- Boa sorte! - e abalara a fim de ir
tomar chá ao centro da vila, enquanto
aguardava o fim da entrevista da amiga.
Como um autómato, Maria do Carmo tocara
à campainha premindo um botão
enferrujado. A porta abrira-se e ela
descera umas escadas rangentes e
sombrias, rumo a uma cave em cuja porta
se encontrava uma rececionista jovem, de
aspeto vulgar. E assim chegara àquela
sala de espera. A consulta, com caráter
de urgência, fora conseguida por
especial favor, visto Joana ser uma
cliente antiga de Luís do Lago. E fora
necessário fornecer certos dados
previamente - a data de nascimento de
Maria do Carmo e o diminutivo pelo qual
os pais a chamavam em criança.
Os olhos de Maria do Carmo humedeceram
com a lembrança do marido numa atitude
ameaçadora, de braço erguido e fácies
transtornado. E percebeu que só o
desespero a podia ter levado até ali.
Um ruído de vozes chamou-a à realidade.
Viu a porta da sala de espera, até aí
aberta, fechar-se, e ouviu uns passos
que se afastavam. Pouco depois, a porta
abria-se de novo, deixando entrar um
homem baixo e atarracado, muito largo de
ombros e totalmente calvo, envergando
umas calças de ganga e uma swet shirt de
aspeto enxovalhado. O homem olhou na
direção de Maria do Carmo e disse-lhe
com voz roufenha:
- Desculpe ter fechado a porta mas,
neste ramo, temos de usar a máxima
discrição...
Maria do Carmo fitou-o incrédula.
Imaginara alguém com aspeto menos
abrutalhado. Joana tinha-lhe dito:
- Aquele homem tem qualquer coisa...
- É simpático?... Atraente?... –
perguntara Maria do Carmo.
- Não! Nada disso!... Mas tem qualquer
coisa...
E Maria do Carmo ficara sem perceber a
que é que a amiga se referia. Mas a
criatura que tinha diante de si era
muito pior do que previra. Podia ser um
estivador.
- Vamos?
Com relutância, Maria do Carmo seguiu o
homem até uma salinha exígua, com uma
mesa e duas cadeiras. Uma porta
envidraçada entreaberta deixava entrar
uma aragem fresca, proveniente do
quintal das traseiras. Ouvia-se,
insistente, o ladrar de um cão. Maria do
Carmo sentiu uma súbita vontade de
desistir e sair dali para fora. Porém,
enquanto o homem se aproximava da porta
e a encostava, reparou em várias imagens
de Cristo que ornamentavam as paredes, e
esse facto aquietou-a. No entanto,
decidiu manter os sentidos alerta. Tudo
menos ser vítima de uma mistificação.
O homem sentou-se e fez-lhe sinal para
que o imitasse. Ficaram frente a frente.
Maria do Carmo notou que os olhos de
Luís do Lago eram azuis muito pequenos,
e a cara grande, redonda, escanhoada e
lisa, quase imberbe. Impossível
calcular-lhe a idade. Tanto podia ter
trinta anos como sessenta.
- Não gosto de consultas de última hora!
– exclamou com a sua voz fanhosa,
fitando Maria do Carmo com os olhos
penetrantes - Preciso de tempo para me
preparar!...
Dito isto, agarrou numa espécie de
listagem de computador, que tinha em
cima da mesa, e começou a observá-la
atentamente. Afinal isto mete ciência,
pensou Maria do Carmo, vislumbrando a
ininteligível profusão de números
impressa na listagem.
- Você tem um filho, com dez ou onze
anos, que é muito parecido consigo –
afirmou Luís do Lago, depois de vários
segundos de perscrutação da listagem.
- Sim, é verdade – respondeu Maria do
Carmo pensando “ele podia ter sabido
disso por Joana”.
- O seu ponto fraco são os
intestinos!... – acrescentou franzindo o
cenho, sem despegar os olhos da
listagem..
- Sim... (que assunto desagradável...)
- E vai fazer uma viagem...
- Sim, provavelmente... (Grande
previsão!... Hoje em dia toda a gente
viaja...)
- Você vai... – Luís do Lago pareceu
concentrar-se - ...a Estocolmo!...
Maria do Carmo susteve a respiração.
Daquilo, ninguém podia saber, nem mesmo
Joana. Durante uma pausa do mau génio,
José António falara-lhe de uma
hipotética viagem a Estocolmo que andava
a planear. Maria do Carmo olhou para
Luís do Lago com um súbito interesse.
Este pusera de lado a listagem e
manuseava agora um baralho de cartas de
Tarot, sebosas e alquebradas. As suas
mãos eram enormes, papudas e róseas, sem
pelos, com unhas de um oval belíssimo,
muito largo, fazendo jus à dimensão das
falangetas. Quando falou, fê-lo com
autoridade:
- Descruze as pernas e parta com a mão
esquerda – disse, indicando o baralho.
Maria do Carmo obedeceu.
- Que é que queres saber? – perguntou,
cravando o olhar em Maria do Carmo. Esta
estremeceu ante o inesperado tratamento
por tu.
- Bem, de há uns tempos para cá, o meu
marido anda sempre irritado. Quero saber
o que se passa com ele, se tem alguma
amante... Enfim, o que vai acontecer ao
meu casamento... – balbuciou.
As grandes mãos de Luís do Lago pegaram
no baralho e, com destreza, foi voltando
e dispondo cartas em montículos, numa
espécie de círculo.
- Hum! – exclamou, olhando para as
estranhas figuras das cartas – isto está
mau!... Se continua assim, acaba em
divórcio...
- Oh!
- É isso que tu queres?
- Não!
- Não mesmo?...
Maria do Carmo calou-se. As lágrimas
caíam-lhe dos olhos em dois fios
paralelos. Como confessar certas dúvidas
que ultimamente a assaltavam? Não sabia
o que dizer.
- Quero o que for melhor para o meu
filho! – acabou por retorquir enxugando
as lágrimas, como se a resposta lhe
fosse tirada a ferros. Depois,
lembrou-se de que trazia sempre consigo
uma fotografia do marido. Tirou-a da
carteira e mostrou-a a Luís do Lago.
- Ele não tem nenhuma amante – disse
este, mal olhou para a fotografia – mas
é uma pessoa dependente, que sofre...
Luís do Lago recolheu as cartas,
baralhou-as, pediu a Maria do Carmo que
as partisse e de novo as distribuiu aos
montículos. Quando voltou a falar, a sua
voz tinha, pela primeira vez, um timbre
de simpatia:
- Sabes, tudo o que fazemos aos outros,
a nós retorna... E tudo o que nos rodeia
é o reflexo de nós próprios...
Durante uns segundos Luís do Lago
observou as cartas. Parecia hesitar. Por
fim, exclamou num tom perentório:
- Vamos acalmá-lo!
Levantou o corpanzil da cadeira e saiu
da saleta. Quando voltou, trazia um
pequeno saco transparente contendo um pó
de cor amarelo vivo.
- Este saco – disse, sentando-se – tem
um pó extraído de uma terra muito
especial... Vais colocar uma pitada
deste pó, todos os dias, dentro dos
sapatos do teu marido – e frisou –
Dentro dos sapatos que o teu marido
calçar nesse dia.
- E que faz isso?
- Vai acalmá-lo.
- Meu Deus! E resulta? Como? Porquê? – a
racionalidade de Maria do Carmo exigia
respostas.
- Não te posso explicar o como nem o
porquê. Mas que resulta, resulta! Vais
ver!...
Maria do Carmo fitava a saqueta.
- Como é que se chama o teu marido? –
perguntou Luís do Lago, pegando num
pequeno papel onde desenhou um
pentagrama..
- José António.
- O nome todo, filha!
- Oh, desculpe! José António da Silva
Domingues de Carvalho.
Luís do Lago escreveu o nome debaixo do
pentagrama. Maria do Carmo atreveu-se a
perguntar:
- E... se não fizer efeito?
- Só depende de ti! Tens de fazer tudo
como eu te disse...
- E... devo cá voltar?
- Se quiseres... Mas não gosto que criem
dependências comigo. Estou aqui para
ajudar as pessoas e não para ganhar
dinheiro. Se quisesse enriquecer, tinha
continuado na construção...
Ah, afinal sempre era um construtor,
pensou Maria do Carmo. Mesmo empresário,
não deixava de ser um homem das obras...
Luís do Lago levantou-se, dando a
entrevista por concluída. Perplexa,
Maria do Carmo não encontrou mais nada
para dizer. Não previra um fim tão
abrupto. Ergueu-se da cadeira devagar,
com o saco de pó na mão e as pernas
bambas. Sentia-se esgotada.
Pagou a consulta à rececionista - vinte
euros - e saiu para a rua. A noite tinha
caído e estava frio. A encosta da serra,
imensa e negra, parecia tão oculta e
recheada de segredos como o estranho
homem com quem acabara de falar. O vento
provocava um restolhar de folhas. Uma
lua branca era visível ao longe, e a
vila, em baixo, tinha um ar
fantasmagórico. Maria do Carmo teve um
arrepio. Nervosa, sacou o telemóvel da
carteira e ligou para Joana. Dez
intermináveis minutos depois, os faróis
do carro da amiga iluminavam a ruela.
- Então? Que te disse ele? – perguntou,
mal Maria do Carmo entrou no carro.
- Bem, para começar, disse que o José
António não tem nenhuma amante.
- Se ele o diz, é verdade.
- E vendeu-me um pó para eu pôr dentro
dos sapatos dele!... – prosseguiu,
sentindo-se completamente ridícula –
...achas que ponha?
- Claro! Se ele mandou é o que deves
fazer. Mas... – acrescentou Joana a rir
– ...isso é uma coisa que não vais poder
contar a ninguém, nem aos teus netos!...
- Pois não... – e, aborrecida consigo
mesma, Maria do Carmo resmungou em voz
sumida – Como é que podes acreditar
nestas coisas?!.. Que homem horrível!
Nunca mais cá venho!...
Maria do Carmo chegou a casa muito
tarde. O filho já dormia. O marido
estava na sala a ler um jornal, com ar
carrancudo, e nem lhe respondeu à
saudação. Ainda se encontrava no
rescaldo da cena de há dois dias. Maria
do Carmo fitou-o durante alguns momentos
mas acabou por encolher os ombros e ir
deitar-se. Antes de adormecer lembrou-se
de David, um colega do serviço com quem
simpatizava. Ultimamente tinham-se
aproximado. Embora não lhe fizesse
confidências, gostava de conversar com
ele. Ajudava-a a esquecer as diatribes
do marido. Riam muito os dois. Claro que
nunca lhe poderia contar que havia
consultado um cartomante. Seria uma
bomba. E era curioso que se tivesse
lembrado dele fora do ambiente de
trabalho. Nunca tinha acontecido. Mas o
melhor era esquecer o que fizera. Estava
muito cansada mas, por outro lado,
estranhamente calma. E, pouco depois,
mergulhou num sono profundo, sem sonhos.
O dia seguinte era sábado. Maria do
Carmo levantou-se deixando o marido na
cama a dormir. Ao recordar os
acontecimentos da véspera pareceu-lhe
que tinha decorrido uma eternidade sobre
eles. Mas logo a seguir lembrou-se do pó
amarelo e ficou tensa. Foi buscar a
carteira e, com as mãos trémulas,
retirou dela o saco de pó. Agora, à luz
solar, o amarelo era ainda mais forte,
cor de gema de ovo. Abriu-o
cuidadosamente e tocou-lhe com os dedos.
Exalava um cheiro esquisito e era
extraordinariamente fino. Olhou para os
dedos e viu que estavam amarelos. Que
horror! Tinha de fazer desaparecer
aquilo! A não ser que... Mas não. Ela
não acreditava em bruxedos. Num momento
de angústia, deixara-se arrastar por
Joana, apenas isso. Além do que, aquela
cor sobressairia muito, qualquer que
fosse o tom das peúgas. José António
poderia notar o colorido nas meias e
desconfiar. Teria de colocar uma
quantidade diminuta, que decerto não
seria eficaz... Ora, que estupidez de
raciocínio! Nada daquilo poderia
resultar!..
Abanou a cabeça. Sentia-se como um burro
no meio de uma ponte. Todavia, já que
tinha ido tão longe, não perdia nada em
experimentar. E, hesitante, com os dedos
tingidos de amarelo, dirigiu-se à
sapateira da casa e tocou a parte
interior dos sapatos vela do marido, que
eram os que ele costumava calçar durante
os fins de semana. A seguir foi
sentar-se na sala a fazer tricô
compulsivamente, enquanto escutava o
bater do seu próprio coração.
Tinha passado uma hora quando Maria do
Carmo ouviu José António levantar-se e
dirigir-se à casa de banho. Vinte
minutos depois estava diante dela,
lavado, barbeado, vestido e... calçado
com os sapatos vela. Tinha os olhos
húmidos de comoção.
- Minha querida! – exclamou, olhando-a
com ternura – quero pedir-te perdão!...
A surpresa de Maria do Carmo foi tão
grande que ficou sem palavras. Raramente
vira o marido assim. Seria coincidência?
Ou seria... ? Ela colocara tão
poucochinho... Mal aflorara os sapatos
com os dedos... Que disparate! Estava a
raciocinar como se, efetivamente, o pó
estivesse na origem da atitude do
marido. Porém, fosse do que fosse, o
resultado agradava-lhe. E foi com prazer
que se aninhou naqueles braços que havia
muito não se estendiam para ela.
Este episódio marcou o início de uma
época de acalmia no casamento de Maria
do Carmo e José António. Não obstante
alguns altos e baixos, a conduta deste
regressou, a pouco e pouco, aos
parâmetros normais.
Maria do Carmo não sabia o que pensar.
Quando, algum tempo depois, contactou
com Joana, foi forçada a confessar-lhe
que as coisas estavam muito melhores.
- Não te tinha dito? Aquele homem é
extraordinário... – respondeu a amiga.
- E eu não sei que te diga. Estou
espantada. Mas ainda não estou
convencida de que não se trate de uma
coincidência...
- Pensa o que quiseres, mas não
interrompas o tratamento!... – retorquiu
Joana, antes de se despedir.
Com efeito, o intelecto de Maria do
Carmo escamoteava o que se passava à sua
volta. No entanto os factos estavam ali,
inegáveis, diante dos seus olhos. Por
conseguinte, não se atrevia a cortar com
o pó amarelo.
Cumpria escrupulosamente as orientações
recebidas de Luís do Lago. O que não era
fácil. O pó tinha de permanecer
escondido num local onde ninguém o
descobrisse, imune à curiosidade do
filho que tinha a mania de lhe mexer nas
gavetas. Além disso, era preciso
adivinhar que sapatos o marido iria
calçar, sob pena de ter de aplicar o pó
em vários pares. Por último, sempre que
dormiam fora de casa, Maria do Carmo
tinha de transportar o pó consigo, com
todos os riscos inerentes.
A quantidade que aplicava era mínima.
Mesmo assim, dada a cor garrida do dito,
Maria do Carmo estranhava que José
António nunca reparasse nos vestígios de
pó nas meias que despia todos os dias.
Parecia quase um milagre. O que a fazia
lembrar-se amiúde de Luís do Lago que,
com tanta autoridade, lhe prescrevera um
remédio obscuro para amaciar o marido.
No entanto, era com relutância que
perdoava a si própria o facto de ter
confiado um segredo íntimo a alguém
totalmente estranho, assim como o de
proceder diariamente a um ritual que o
seu bom senso classificava de grotesco.
Todavia, à medida que o tempo passava,
Maria do Carmo era tentada a pôr de lado
a hipótese de coincidência. Nas raras
vezes em que falhara a colocação do pó,
parecera-lhe que o humor do marido
piorara. Mas o seu raciocínio não a
deixava mergulhar a fundo naquilo que
considerava uma crendice. Era uma
intelectual, um quadro superior, que
diabo!... E ia vivendo sem conseguir
destrinçar a meada de pensamentos
contraditórios em que se atolara.
Durava esta paz aparente havia várias
semanas, quando Maria do Carmo reparou
que, apesar da diminuta quantidade
consumida diariamente, o pó se ia
gastando. E, contra tudo o que a sua
inteligência lhe ditava, começou a
sentir-se apreensiva. Olhava para a
saqueta, esforçando-se por calcular para
quanto tempo lhe daria. E tentava
imaginar o que sucederia quando o pó
acabasse.
Ao mesmo tempo, paradoxalmente, uma
outra transformação ia-se processando no
seu âmago. Sem saber como nem porquê,
deixara de se sentir atraída pelo
marido. Às vezes, submetia-se às suas
carícias com um ligeiro enfado. Agora,
que o tinha na mão, achava a paixão dele
um pouco opressiva. Quase que a
aborrecia. E, com alguma ironia,
concluía haver mais prazer na
perseguição que na posse. Por outro
lado, a simpatia por David convertera-se
numa forte atração. Todos os dias
esperava que ele se oferecesse para a
acompanhar ao almoço. E, quando assim
não sucedia, sentia-se desiludida.
Sim, Maria do Carmo andava cada vez mais
confusa. E era ela mesma o motivo da
insegurança. Queria tudo menos complicar
a vida. Mas a vida parecia complicar-se
sozinha. As coisas à sua volta
conspiravam contra ela. Sentia-se sem
controlo sobre os seus próprios
sentimentos. Por isso, levada pela
imensa curiosidade que agora Luís do
Lago lhe despertava, pôs de lado
reticências, hesitações e dúvidas, e
resolveu ir de novo falar com ele.
Desta vez foi sozinha. Marcou a consulta
pelo telefone e, no dia indicado,
arrumou o carro na viela onde Luís do
Lago exercia. Tocou à campainha com
desenvoltura. Agora, tudo lhe parecia
natural. Já nada lhe transmitia aquela
sensação de decrepitude que tanto a
impressionara.
Mais uma vez, aguardou na sala de espera
acompanhada unicamente pela
rececionista. Os produtos das
prateleiras eram-lhe agora familiares,
nomeadamente os saquinhos de pó de cores
vivas, cada um com o seu propósito.
Quando Luís do Lago abriu a porta, foi
quase como reencontrar um velho amigo.
- Então? Como estão as coisas com o teu
marido? – perguntou o bruxo, mal se
sentaram na saleta das consultas.
- Oh, estão melhores... Eu é que não me
sinto bem...
- Ah sim?...
- É... As coisas estão a ficar fora de
controlo...
- Já te disse que tudo o que nos rodeia
é...
- ...um reflexo de nós próprios!... Sim,
não mais me esqueci dessa frase... (Se
ele é um autêntico adivinho, deve
conseguir ler na minha alma!...)
Luís do Lago agarrou no baralho de Tarot
e disse:
- Descruza as pernas e parte com a mão
esquerda! Vou ver como é que tu estás...
Como que hipnotizada, Maria do Carmo
seguiu com o olhar aquelas manápulas,
enquanto dispunham as cartas no
costumeiro círculo de montículos. Apesar
de ter várias perguntas na ponta da
língua, não se atrevia a interrompê-lo.
Luís do Lago fitou demoradamente as
figuras. Quando falou, fê-lo mais baixo
que o habitual:
- Olha! Olha!... Hoje, tu ainda me vais
telefonar!...
E ergueu um olhar perfurante para Maria
do Carmo, que se sentiu estremecer.
- Telefonar?... Hoje?... (Impossível!...
Desta vez, ele está a meter água...).
Luís do Lago pegou num pequeno pedaço de
papel, onde rabiscou um número, que
depois estendeu a Maria do Carmo.
- Está aqui o meu número de telemóvel.
Se precisares de alguma coisa...
Maria do Carmo guardou o papel no bolso
sem ligar importância:
- E como é que eu estou?...
- Isso agora não interessa... Tu
precisas é de ler este livro... – e Luís
do Lago agarrou noutro pedaço de papel
onde escreveu “Tudo pode ser
conseguido”, por Joel Barbott, edições
Maravilha.
Estendeu o segundo papel a Maria do
Carmo e levantou-se dando a consulta por
terminada. Maria do Carmo hesitou mas
acabou por se erguer também. Mais uma
vez não esperava um final tão inopinado.
Ao passar pelo corredor rumo à porta,
entreviu por um instante umas pernas na
sala de espera. Eram pernas de homem.
Incrível! Ela pensava que só as mulheres
é que recorriam a videntes e
cartomantes... E esta reflexão fê-la
sentir-se menos ridícula por se ter
metido naquelas andanças.
Saiu para a rua. Já em pleno IC19
ocorreu-lhe que esta segunda entrevista
com Luís do Lago não lhe tinha trazido
quaisquer orientações. Uma certa
frustração arrepanhava-a. Desta vez, o
bruxo não lhe fizera uma única revelação
nem lhe dera nenhuma mezinha.
Limitara-se a atirar uma bola para o ar
e a mandá-la ler um livro!... Enfim!
Talvez, como toda a gente, ele tivesse
dias melhores e piores, com mais ou
menos inspiração... E, ainda por cima, o
pó estava no fim e ela não chegara a
perguntar se seria necessário adquirir
outro saco para manter o marido nos
carris.
Nessa noite, o filho de Maria do Carmo
recusou-se a jantar. Pouco depois,
torcia-se com cólicas abdominais. Como
as dores não abrandassem, Maria do Carmo
e José António levaram-no à urgência
hospitalar. E o diagnóstico foi
taxativo. Apendicite aguda.
Enquanto o filho estava na sala de
operações, Maria do Carmo caminhava,
para cá e para lá, ao longo de um
corredor próximo do bloco operatório,
escutando o ruído que os saltos dos seus
sapatos faziam no pavimento. Não
conseguia estar quieta. Uma sensação de
angústia subjugava-a. E repetia
mentalmente – o Vasco vai ficar bom! O
Vasco vai ficar bom!...
Olhou para o marido, que aguardava
pacientemente, sentado num banco do
corredor, e percebeu que já não tinha
nada a ver com aquele homem. Num gesto
maquinal, meteu a mão ao bolso e
encontrou os dois papéis entregues por
Luís do Lago. Graças a Deus! Com o ar
mais natural do mundo, disse ao marido:
- Vou à procura de uma casa de banho.
Em vez disso, encontrou rapidamente a
saída do hospital, tirou o telemóvel da
carteira e ligou para o número escrito
num dos papéis:
- Está?
- Estou sim, filha!...
- É Maria do Carmo Carvalho...
- Eu sei...
O tom de excessiva familiaridade
desagradou a Maria do Carmo.
- O meu filho adoeceu. Está, neste
momento, a ser operado.
- Também sei disso, filha!...
- Oh! Faz com que corra tudo bem com o
meu filho, por favor...
- Fica tranquila. Vou ver o que posso
fazer... – respondeu Luís do Lago. E
desligou.
Ao entrar de novo no hospital, Maria do
Carmo reparou que o relógio de parede
marcava meia-noite.
Uma grande serenidade invadiu-lhe o
coração. Luís do Lago era um bruxo
autêntico. Isso era uma verdade
insofismável.
O filho de Maria do Carmo regressou a
casa ao fim de três dias. Recuperara
muitíssimo bem. Uma semana depois da
crise, estava como novo. Nunca se vira
recobro tão rápido e completo. O médico
estava admirado. Até a cicatriz, tão
recente, se esbatia rapidamente. Parecia
operado por mãos de fada.
Maria do Carmo estava rendida. Rendida e
grata. Nem por uma fração de segundo
duvidava de que a extraordinária
recuperação do filho se devia unicamente
à intervenção de Luís do Lago.
Que fantástico poder o daquele homem de
aspeto abrutalhado! E que benesse
magnífica tê-lo por aliado! Ainda por
cima, ao contrário do que seria
expectável, não era nenhum chupista.
Aliás, com tanto poder, Luís do Lago só
não enriqueceria se o não quisesse...
Sim, não havia dúvidas de que era uma
pessoa excecional.
Mas a rendição de Maria do Carmo não se
limitava ao reconhecimento das
qualidades de Luís do Lago. Ele fizera-a
pensar. Recordava-se da estranha frase
do bruxo “Tudo o que nos rodeia é um
reflexo de nós próprios” cujo
significado só agora atingia. Sim, havia
muito tempo que albergava a incerteza
dentro de si. Não o confessara a
ninguém, nem mesmo a Luís do Lago. Seria
que ela, já antes da crise, deixara de
amar o marido?... E que o mau humor
deste não fora mais que uma reação
inconsciente a esse fenómeno?... As
coisas dependiam da maneira como as
víamos. Afinal, agora que o facto lhe
era indiferente, o pó acabara e o marido
permanecia manso...
E David? Sentia tanto prazer na sua
companhia!... E era tão atraente e
delicado!... Quando entrava no gabinete
cinzento onde ela trabalhava, parecia
emitir luz própria. Ignorava se o amava
ou não. Nem lhe apetecia aprofundar o
fenómeno. E o facto de serem ambos
casados, potenciais protagonistas de um
duplo adultério, afigurava-se-lhe
irrelevante. A única coisa que sabia é
que sentia por ele uma atração
irresistível. Quando pensava no assunto,
estranhava ter demorado tanto a perceber
isso. Eram colegas havia anos. E ela
sempre o considerara desinteressante.
Agora, porém, o dia só começava
verdadeiramente quando o via. E
desejava-o! Oh, meu Deus, como o
desejava!
A manhã decorria na espera da hora do
almoço. Ele trabalhava noutro gabinete.
Por isso, nunca seria por acaso que se
juntariam. Tinha de haver intenção,
apetência. Mas ele raramente falhava. Às
vezes vinha mais alguém a reboque, o
que, para Maria do Carmo, retirava algum
encanto à refeição. Falavam de tudo.
Maria do Carmo achava-o detentor de um
humor impagável. Com ele, o tempo voava.
Quando, no final do almoço, David dizia
que era tempo de regressar, olhava
invariavelmente para o relógio,
admirada.
Maria do Carmo sentia-se cheia de
esperança. Não lhe passava pela cabeça
deixar o marido, em relação a quem se
sentia infinitamente distante. Muito
menos causar infelicidade a alguém que
nem sequer conhecia. Nem ela nem David
se referiam aos respetivos cônjuges. Não
obstante, acreditava que, de alguma
maneira imprevisível, o destino
asseguraria a sua felicidade.
Mas o cerne da questão escapava-lhe. No
fundo, David tratava-a como uma simples
colega. Nunca lhe dera a entender
pretender algo mais que companhia para
almoçar. Às vezes, Maria do Carmo tinha
a impressão que ele ia esboçar um gesto,
dizer uma palavra... Mas isso não
chegava a acontecer.
Seria que ele não percebia o que se
passava com ela? Não notaria a paixão
que lhe ardia no peito? Claro que não
poderia ser ela a declarar-se. Não lhe
ficaria bem. O primeiro passo competia
ao homem. Que fazer? Oh, meu Deus! Que
fazer?...
Em certa ocasião, abriu-se com Joana:
- Luís do Lago resolveu-me um problema
mas criou-me outro...
- Sim?
- Agora dou comigo a pensar que, com a
ajuda dele, posso conseguir tudo o que
quiser... E há uma coisa que eu quero
muito. Mas não tenho descaramento para
ir lá pedir-lhe para fazer alguém
apaixonar-se por mim...
- Ele não te recomendou um livro?...
- Recomendou.
- E já o leste?
- Ainda não.
- Então lê-o. É um livro fantástico. No
fundo, todos nós podemos ser como Luís
do Lago.
- Queres dizer... ?!
- Lê-o! E depois fala comigo...
Maria do Carmo comprou o livro. E
começou a lê-lo. E, à medida que a
leitura avançava, o seu cérebro
amadurecido absorvia todos os
ensinamentos. Sabia agora donde vinha o
poder de Luís do Lago. E o tremendo
sucesso dos empreendimentos de Joana.
Ela também podia usufruir de tudo
isso... O livro era quase uma Bíblia.
Começou a andar sempre com ele na
carteira, a fim de o consultar, se
necessário. Sabia que a leitura a
distanciava cada vez mais da sua antiga
maneira de ver o mundo. Sentia-se nas
nuvens. Mas... conseguiria fazer David
apaixonar-se por ela? Decerto, seria um
teste decisivo para os ensinamentos
adquiridos.
Tinha de acreditar! Acreditar que era
capaz de despertar no peito dele a mesma
paixão que a consumia. Porque não ser
ela a dar o primeiro passo? E, incapaz
de se conter, decidiu abrir o jogo.
Tinha de o fazer. Já esperara tempo de
mais.
Certa manhã, sentada à secretária,
preparava mentalmente as palavras que
iria proferir. Palavras decisivas.
- Não fiz de propósito, mas estou
loucamente apaixonada por ti!...
Não! Era demasiado patético. Talvez:
- Quero dormir contigo, não penso noutra
coisa!...
Também não. Demasiado carnal.
Ensaiou dezenas de frases. Nenhuma a
satisfazia. Paciência! Seguiria a
inspiração do momento! Determinada,
levantou-se e encaminhou-se para o
gabinete onde David trabalhava. O colega
com quem ele o compartilhava saía muito.
Com sorte, talvez David estivesse
sozinho. Chegada à porta, antes de se
mostrar, espreitou.
David estava recostado na cadeira, com
as costas bem apoiadas e uma expressão
concentrada. Nas mãos segurava um livro.
Maria do Carmo teve um baque. O livro
era “Tudo pode ser conseguido” de Joel
Barbott, edições Maravilha.
Em vez de se mostrar, voou de volta até
ao seu lugar. Agarrou no casaco
pendurado no cabide e revistou-lhe os
bolsos. Nada. Com as mãos percorreu o
próprio corpo, freneticamente, à procura
de algo que não sabia bem o que era.
Nada.
De repente, reparou na carteira. A
carteira que usava todos os dias.
Abriu-a, inverteu-a e deixou que todo o
seu conteúdo caísse sobre a secretária.
Sacudiu-a com força e susteve a
respiração. Do seu interior escorria um
pó muito fino, cor-de-rosa vivo, que ia
colorindo suavemente o tampo cinzento da
secretária.
Adelina Velho da Palma |