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AREIAS MOVEDIÇAS
Não há,
em todo o Algarve, lugar mais belo e
impregnado de história que a cidade de
Tavira. Situada a meia distância entre o
Cabo de Santa Maria e a foz do Guadiana,
desce do interior para o litoral, branca
e lânguida, protegida pelos cabeços
circundantes.
A sua origem remonta ao tempo da
ocupação muçulmana. Porém, já antes
desta, o domínio romano deixara marcas
indeléveis em toda a região, a mais
emblemática das quais é a Ponte sobre o
rio Gilão, em cujas margens a cidade
está implantada. Com nascente na Serra
do Caldeirão, este rio tem a curiosa
particularidade de mudar de nome (para
rio Séqua) precisamente no local onde é
atravessado pela Estrada Nacional 125,
porque é aí que, por coincidência, deixa
de sofrer a influência das marés
oceânicas.
Nos séculos seguintes à reconquista
cristã, devido à sua posição
privilegiada, Tavira aumentou de
importância, tornando-se no principal
porto comercial e aglomerado
populacional do Algarve. Foi, por esse
motivo, elevada à categoria de cidade no
reinado D. Manuel I, o que a torna uma
das mais antigas do país. Hoje, malgrado
o declínio e o marasmo de séculos, a
cidade conserva a magia dos locais onde
foram cometidos grandes feitos.
Quando se entra em Tavira, é-se dominado
pela sensação de ter recuado no tempo
até uma época remota. Um manto de
calmaria desce sobre o visitante. Na
paisagem envolvente tudo é mavioso e
pacífico. O rio de águas turvas
atravessa a cidade com indolência. As
margens são baixas, presa fácil de
inundações em tempo de marés vivas.
Traineiras e barcos de recreio repousam
encostados ao cais do paredão direito do
contraforte do rio, junto à lota e ao
antigo mercado, hoje um agradável e bem
enquadrado centro comercial. Até onde a
vista alcança, não existem edifícios com
mais de quatro andares. Nunca os houve
e, mesmo nos dias de hoje, com o turismo
em franca ascensão, a autarquia não os
autoriza. No centro, o trânsito
automóvel está reduzido ao mínimo e, na
ponte romana, só circulam peões e
velocípedes.
Quando, pela primeira vez, visitei
Tavira, não podia imaginar que, menos de
um ano depois, o rumo da minha vida me
levasse a fixar-me na cidade durante
alguns meses. A quietude do ambiente
agradou-me e, talvez fruto da minha
imaginação, pressenti que aquela paz
esconderia vivências trágicas e
acontecimentos dramáticos.
Aconteceu no outono. Embora todas as
estações do ano tenham os seus encantos,
esta é, talvez, aquela em que Tavira é
mais atraente. Findo o verão, o sol
torna-se macio e fiável, permitindo-nos
prescindir do protetor de ultravioletas.
Liberta da tremura da refração provocada
pelo excesso de calor, a visibilidade
aumenta. O azul do céu adquire um tom
límpido, magnífico, e o pôr do sol é
rosado e belíssimo. A inércia térmica
mantém a água do mar a uma temperatura
amena. Geralmente não há vento, a não
ser a eterna brisa de sudoeste, ao cair
da tarde. Depois de três meses de
bulício provocado pela sazonal invasão
de turistas, a vida na cidade retorna à
sua pacatez. O parque de campismo fecha.
Os trabalhadores temporários de apoio à
época balnear cessam atividades.
Encontrava-me eu no rescaldo de uma
relação amorosa e desejava distanciar-me
do passado arquivando na memória os bons
momentos, após tê-los estripado de toda
a mágoa. E o meu apartamento em Lisboa,
tão cheio de recordações de toda a
espécie, não era o lugar ideal para tal.
Quando saía, parava diante das montras
das agências de viagens. México, Dubai,
Tailândia... Tantos e tão longínquos
destinos à escolha! Mas nada daquilo me
atraía. A dimensão da fuga não dependia
da distância. Além disso, era tudo muito
azul, muito APA, muito plástico...
Já nem sei como nem porquê, ocorreu-me
Tavira. Sem avião, sem transfer, apenas
uma cidade despretensiosa, tímida e
cheia de segredos, como eu própria me
sentia. E, quanto mais pensava nela,
mais a ideia me agradava. Tavira.
Meti-me no carro e fui até lá. Permaneci
dois dias numa pensão enquanto
contactava com agências de Real Estate.
E, depois de várias deambulações
infrutíferas, acabei por alugar uma
pequena casa, tipicamente algarvia,
mobilada com parcimónia e situada numa
ruela de sentido único (a largura dava à
justa para um carro não muito grande)
perto da Igreja de Santiago. O
proprietário falecera e os herdeiros
haviam decidido alugar a casa por um
preço módico enquanto não chegassem a
acordo sobre as partilhas.
Facilmente instalada, predispus-me a
retirar o máximo apaziguamento, diria
até o máximo prazer, do meu exílio
voluntário. Acordava tarde. Ao almoço
partia à descoberta das muitas tascas
que oferecem peixe grelhado, delicioso e
fresquíssimo. À tarde percorria a pé os
dois quilómetros e meio de estrada por
entre as salinas até ao local onde o
Gilão desagua na Ria Formosa. Aí, a
barra artificial, cujos molhes são
sustidos à custa de tetrápodos, rasga a
Ilha de Tavira em toda a largura,
permitindo a comunicação da ria com o
mar. Trata-se, com efeito, da junção de
quatro águas, fazendo jus à denominação
do lugar. A oriente, mesmo à beira da
ria, situa-se o Arraial Ferreira Neto,
antiga aldeia (hoje transformada em
hotel de quatro estrelas) onde, há
muitos anos, se fabricavam conservas de
atum.
Purificada pelo ar limpo e pela beleza
da paisagem, eu apanhava o barco da
carreira, que funciona todo o ano apesar
do escasso número de passageiros fora da
época estival, e desembarcava na Ilha de
Tavira. Aí entregava-me a caminhadas
sobre a areia lisa, deixada pela maré
cheia, maculada apenas por conchas e
pegadas de gaivota. Aqui e além,
pescadores andavam à conquilha com redes
artesanais. As poucas casas na ilha,
dispersas no meio do arvoredo,
encontravam-se desabitadas. Apesar da
distância, avistava-se toda a orla
costeira até Monte Gordo e, nos melhores
dias, até Isla Canela, em Espanha. Uma
sucessão de ilhas separadas por barras
estendia-se para oriente até Cacela
Velha, o ponto mais alto do litoral,
onde sobressaía a Igreja e o Forte da
Guarda Fiscal. Nesse local, reduzida a
uma fina língua de areia, a ilha
juntava-se suavemente ao continente,
pondo um término à Ria Formosa. Eu
seguia pela beira-mar, apreciando a
natureza ao meu redor. Quando as pernas
me pediam repouso, sentava-me na areia a
ler, ou simplesmente a respirar e a
tomar consciência da existência. Ao fim
da tarde, quando começava a arrefecer,
fazia o caminho inverso.
Enquanto me lavava do meu passado, ia-me
inteirando do da cidade, dos seus feitos
e lendas. Soube que Tavira possuía
trinta e duas igrejas, todas elas
antigas e com história. Infelizmente,
muitas estavam fechadas, não se
encontrando visitáveis. A cidade
mantinha inalterado um notável núcleo
medieval, do qual fazia parte o Castelo
e a Igreja de Santa Maria, cuja torre do
relógio constituía um ex-libris da
localidade. Ali estavam sepultados D.
Paio Peres Correia, Mestre da Ordem
Militar de Santiago da Espada que, em
1240, conquistou Tavira aos mouros,
assim como os Sete Cavaleiros Mártires,
seus companheiros, tombados durante a
batalha. Quando pisei o chão da capela
mor e passei junto daquelas veneráveis
ossadas, senti quase que o pulsar da
batalha. Diz a lenda que, no reinado de
D. Afonso IV de Portugal, D. Afonso de
Castela cercou Tavira, assentando
arraiais na Igreja de São Francisco.
Quando, numa madrugada, escolhia o local
mais adequado para assaltar a muralha,
avistou sobre a Igreja de Santa Maria
sete enormes vultos erguendo bandeiras
com as armas do apóstolo Santiago.
Estupefacto, chamou os seus
conselheiros. Estes identificaram os
vultos como pertencendo aos sete
cavaleiros mortos aquando da conquista
de Tavira, que eram os guardiões da
cidade. Ao saber disto, o rei de Castela
ficou deveras impressionado e retornou
ao seu reino sem tentar a planeada
conquista.
Os meus dias decorriam, calmos e
felizes. O pesar diluía-se na bonança.
E, sem dar conta, eu ia substituindo o
hábito de olhar para o relógio de pulso
pelo de ver as horas na torre da Igreja
de Santa Maria.
Se não tivesse começado a frequentar o
café Gilão, nunca teria conhecido a
estranha história de Maria Neves. E isso
ficou a dever-se à minha vizinha do
lado, a Dra. Tânia. Havíamos metido
conversa, com a maior naturalidade,
poucos dias depois da minha chegada. Era
ela uma mulher de cerca de trinta e
cinco anos, morena, baixa e com
tendência para engordar. Vestia-se bem e
era muito simpática. Ensinava História
na escola preparatória e o marido era
arquiteto na Câmara Municipal. A casa
deles, contígua à que eu alugara, era um
exemplo perfeito de uma obra de
recuperação bem conduzida. Segundo me
revelou, quando ela e o marido
adquiriram a casa, esta encontrava-se em
estado de completa degradação. Ambos
haviam sido atraídos pela traça
original. O trabalho de reconstrução que
se seguira, orientado pelo marido, fora
apaixonante. Agora, podiam orgulhar-se
do resultado final. A casa tinha uma
fachada sóbria, mas que patenteava o bom
gosto e a qualidade dos materiais
utilizados.
Sempre bem disposta, a Dra. Tânia, que
enquanto professora tinha um horário
reduzido, insistia comigo para que a
acompanhasse às compras e ao café. Eu
havia-lhe dito que queria passar uns
tempos - talvez dois ou três meses - a
descansar e a escrever, e ela
perseverava em fazer-me companhia. Com a
sua jovial loquacidade, devia considerar
pouco saudável o facto de eu andar
sempre sozinha. Todavia, eu escusava-me.
Sentia-me bem assim e não me apetecia
conversar.
Acabei por aceitar um convite para um
jantar de marisco em sua casa. Quando lá
cheguei, verifiquei que havia mais
alguns convidados. Tratava-se de um
casal, cuja esposa era colega da Dra.
Tânia, e de um médico. Fui apresentada
como a “escritora que estava na cidade a
descansar”. O médico, que era primo do
dono da casa, atraiu a minha atenção.
Devia ter uns cinquenta anos e, apesar
da idade, ou talvez por causa dela – era
daquele tipo de pessoas que melhoram com
os anos - era um homem atraente. De
estatura média, era seco, desprovido da
inevitável barriga da vida sedentária.
Tinha uma testa alta, cabelos grisalhos
cortados rente, olhos castanhos francos
e um pequeno bigode. Os seus modos eram
simples e a sua voz grave, com um
pronunciado sotaque algarvio. Vestia
informalmente, mas com gosto. Era o Dr.
Raúl Mendonça.
Durante o jantar, um pouco constrangida,
estive no centro das atenções. Reparei
que o Dr. Mendonça me observava, o que
devo confessar que não me desagradou.
Estava uma noite magnífica e, no fim do
jantar, a Dra. Tânia, satisfeita com os
elogios que as suas amêijoas ao natural
tinham suscitado, propôs irmos todos a
pé até ao café Gilão. Caminhámos junto
ao rio, em cujas águas negras se
refletia a iluminação da ponte romana. A
maré estava a subir, o que provocava a
impressão do rio correr em direção à
nascente. Homens movimentavam-se dentro
das traineiras, fazendo os últimos
preparativos para a pesca.
Chegámos ao café, situado na avenida
principal, sobranceiro ao rio. Durante
as minhas explorações da cidade, eu já
tinha reparado nas pequenas mesas do
interior e da esplanada, sempre cheias
de gente de aspeto despreocupado,
sentada diante de chávenas de café,
copos de uísque ou cálices de medronho.
O interior do estabelecimento era
forrado a madeira, escuro e muito
acolhedor. Era barulhento, devido à
ressonância das vozes e ao som da
televisão, permanentemente ligada. O
Gilão era o ponto de encontro noturno
não só dos intelectuais da terra, entre
os quais o juiz, o notário e alguns
médicos e professores, mas também de
comerciantes, vereadores, reformados e
até, estrangeiros residentes em Tavira.
Nas cidades de província toda a gente se
conhece. No Gilão, a Dra. Tânia
apresentou-me a mais algumas pessoas, em
número suficiente para eu concluir que,
naquela terra, todos se chamavam
Custódio, Mendonça ou Padinha. Bebi um
Bailey’s na esplanada, enquanto o Dr.
Mendonça falava comigo sem uma única
alusão aos meus livros que, obviamente,
não conhecia. Perto da meia-noite
apareceram pescadores, que vinham beber
um último trago antes de se fazerem ao
mar, a fim de se insensibilizarem do
frio e da humidade. Tavira era uma terra
de pessoas felizes.
A partir de então, comecei a frequentar
o Gilão. Qualquer coisa de
tranquilizador me envolvia no meio
daquela gente bem disposta, em gozo de
umas horas de ócio. Encontrava sempre
alguém com vontade de conversar. E
escutava. Sempre fui melhor ouvinte que
oradora. Algumas conversas eram
interessantes, outras, nem por isso.
Muitas versavam política e futebol. Às
vezes apetecia-me falar e agradecia
interiormente à minha vizinha o ter-me
introduzido naquele círculo. Outras,
jogava snooker, ouvia anedotas e ria. Só
depois da meia-noite é que me recolhia a
casa. Então, inspirada nem sei por que
maresia noturna, atirava-me à escrita.
Adormecia de madrugada.
O Dr. Mendonça aparecia com regularidade
mas falava pouco. Contudo, sempre que me
via sozinha, sentada diante de uma
chávena de café, vinha fazer-me
companhia. Ao princípio, não se
demorava. Julgo que, embora gostasse de
ver pessoas à volta, no fundo, era um
solitário. Por isso, a sua preocupação
em evitar-me um provável aborrecimento
derivado da falta de companhia era
tocante. Era muito delicado. Soube que
era natural da terra e vivia sozinho.
Era divorciado. Em certa ocasião
confessou-me que essa situação ficara a
dever-se mais às circunstâncias do que a
uma opção de fundo. Mas eu percebia que
não era verdade. Nesta vida, cada um
escolhe a maneira de reagir às
circunstâncias. Estas, muito raramente
são imperativas.
Eu simpatizava muito com ele. Falava
sobre qualquer assunto, mas nada do que
dizia era banal. Parecia ver as coisas
segundo um prisma peculiar. Decerto, já
refletira muito. E atraía-me a sua
atitude reservada e cortês. Entre nós ia
surgindo uma tácita cumplicidade. Cada
um a seu modo, éramos ambos marginais.
Nas noites de outono não há nada para
fazer em Tavira. Mas eu sentia-me
totalmente encaixada na calmaria da
cidade. Raramente pegava no carro. Não
tinha a mínima apetência pela animação
de Albufeira, Vilamoura ou Monte Gordo.
O Dr. Mendonça acompanhava-me numa volta
a pé, ao fim da noite, e deixava-me à
porta de minha casa. Eu sentia-me
agradada por desfrutar de uma companhia
que praticamente não exigia que eu
falasse. Acreditava que a minha pessoa
lhe dava um genuíno prazer e era-me
indiferente a existência de especulações
sobre um possível envolvimento amoroso
entre nós.
Numa tarde em que não trabalhava,
acompanhou-me às Quatro Águas. Aí
alugámos um pequeno barco no Clube
Náutico e seguimos pela ria até à ilha
de Cabanas. Esta é bem mais deserta que
a de Tavira. Não é arborizada nem tem
parque de campismo. Quando os pés do Dr.
Mendonça pisaram a areia finíssima de
Cabanas, o seu semblante iluminou-se.
Aquele era o seu elemento. Caminhámos à
beira-mar, observando as poucas casas da
encosta litoral sobranceira à ria,
visíveis por entre a vegetação. Nenhuma
era recente. O meu companheiro
explicou-me que todas haviam sido
construídas antes da Ria Formosa ser
considerada zona de paisagem protegida,
o que viria a dificultar em extremo a
obtenção de licenças de construção. Por
entre a vegetação que as encobria
parcialmente, adivinhavam-se grandes,
centradas em propriedades de dimensões
consideráveis. Ao longo da ria havia
depósitos de dragados, deixados por
operações de desassoreamento, despojos
da luta sem tréguas para manter o canal
navegável. Assistimos ao ocaso na ilha e
regressámos praticamente no escuro.
Na noite seguinte estávamos no Gilão,
numa acolhedora mesa de canto a saborear
um café, quando entrou um homem já
velho, alto e bem constituído. Tinha
cabelo esbranquiçado ralo, lábios finos
e uns olhos azuis incisivos. Eu nunca o
tinha visto por lá. Era uma figura
imponente. As feições eram corretas mas
a sua fisionomia não era amistosa.
Dirigiu-se ao balcão e, quando passou
perto da minha mesa, cumprimentou o Dr.
Mendonça com um aceno de cabeça. Não
esboçou o mínimo sorriso. Por um
momento, os seus olhos encontraram os
meus e pareceu-me detetar neles uma
expressão vagamente trocista. O seu
olhar era frio como aço e fez-me sentir
um arrepio. Olhei para o Dr. Mendonça
com curiosidade:
- Quem é este homem? – perguntei,
apercebendo-me que o ruído de fundo do
café baixara. Ao contrário do habitual,
distinguia-se com nitidez o som da
televisão.
- Feliciano Neves. Militar de carreira,
aposentado. É muito raro vir aqui. Estou
admirado de o ver por cá.
- Por que é que as pessoas se calaram?
- Coincidência. Mas não é pessoa da
simpatia geral.
- Tem um ar sinistro... – acrescentei,
enquanto o observava.
Raúl Mendonça fitou-me:
- Não há dúvida que os escritores têm
intuição...
- Porquê? O homem é mesmo sinistro?
O meu interlocutor franziu o sobrolho.
- Digamos que não é muito recomendável.
- Porquê? Que fez ele?
- É uma longa história...
Não havia no mundo frase que mais me
despertasse a curiosidade:
- Oh, conte-me, por favor! Adoro
histórias longas...
Raúl Mendonça olhou para Feliciano Neves
e reparei que a sua expressão endureceu.
Parecia hesitar. Depois voltou-se para
mim.
- Tudo se passou há muito tempo, há mais
de vinte anos. Feliciano Neves vivia com
a filha, Maria Neves, e com o genro.
- Eram daqui?
- O genro, não. Quanto a ele, não sei
bem. Creio que era algures do Algarve e
viera para aqui já homem feito, prestar
serviço no Quartel. Não se sabia nada
dele. Fisicamente era muito bem
parecido. Em pouco tempo e com
facilidade conquistou o melhor partido
da região. Mas os pais dela não gostaram
e opuseram-se ao namoro. Não tinham
confiança nele. Achavam-no estranho,
demasiado insinuante. O resultado disso
foi que ela engravidou. Claro que,
perante este facto, viram-se forçados a
consentir no casamento.
O Dr. Mendonça fez uma pausa e
prosseguiu com uma expressão sonhadora:
- Recordo-me muito vagamente de Maria
Neves ter nascido. O nascimento foi
muito comentado porque, além de se
tratar de uma família importante, a mãe
dela morreu alguns dias depois do parto.
Desfeitos, os sogros de Feliciano
culparam-no pela morte da filha e
cortaram definitivamente relações com
ele.
- E a neta?
- Maria Neves? Foi criada por amas. Os
avós maternos viam-na quando o pai
estava ausente, o que acontecia com
frequência, dada a sua carreira militar.
- Quer dizer que a filha viveu sempre
com o pai?
- Sim, mas ele estava sempre fora.
Quando ela chegou à idade de ir para a
escola, Feliciano mandou-a para Lisboa,
para um internato. Claro que os avós não
gostaram. Mas não podiam fazer nada. E a
ausência da neta a somar à morte da
única filha acabou por matar os
velhotes.
- Que horror!... – exclamei – compreendo
que ele não seja bem visto...
- Sim. Mas há mais... Não prefere
caminhar um bocado?
- Pois sim.
Saímos os dois para a quietude da noite.
Os transeuntes eram escassos. O rio
encontrava-se muito vazio devido à
baixa-mar e eram visíveis as pedras do
fundo. Encostados aos paredões havia
pedregulhos negros cobertos de lodo,
dispostos aleatoriamente uns sobre os
outros. Seguimos a passo lento até à
ponte romana. Aí encostei-me ao muro e
olhei para baixo. Grandes ratazanas
escuras apareciam e desapareciam por
baixo das pedras do leito do rio.
Sentámo-nos num dos bancos de pedra. Não
abri a boca. Tinha compreendido que a
história bulia com o meu interlocutor e
não queria pressioná-lo. Sob a luz
amarelada do candeeiro da ponte, o rosto
do Dr. Mendonça parecia pálido. Por fim,
prosseguiu:
- Maria Neves herdou todos os bens dos
avós, que ficaram sob a administração de
Feliciano. Entre estes contava-se uma
grande propriedade com uma casa
sobranceira à ria, daquelas que se
avistam da ilha de Cabanas, com uma
localização fabulosa. Ainda ontem a
vimos. Maria Neves adorava a Casa da
Ria. Sempre que o pai estava em Tavira,
pedia-lhe para irem até lá.
- Ela deixou o internato?
- Sim. Veio fazer os últimos anos do
liceu aqui, em Tavira. Eu conhecia-a dos
verãos, na praia da ilha.
Raúl Mendonça deteve-se mais uma vez. O
seu olhar parecia fixo num determinado
ponto do rio. Não resisti a dizer-lhe:
- Esta história mexe consigo...
- Sim, é verdade. Foi uma época marcante
na minha vida.
- Que idade tinha?
- Eu? Dezassete ou dezoito anos. E ela
era três anos mais nova. Passava férias
na Casa da Ria. Nadava muito bem e
conhecia o canal como ninguém. Saltitava
por entre as zonas de areia movediça,
sem se enganar. Tinha espírito de
aventura. Gostava de atirar pedras para
os depósitos de dragados e observá-las a
afundarem-se. Éramos dois adolescentes à
solta, no meio das dunas e das
correntes. Apanhávamos conquilha e
lingueirão. Passávamos os dias dentro de
água ou a navegar no barco de borracha.
Explorávamos tudo o que havia para
explorar e ela era mais afoita do que
eu. Parece que ainda a estou a ver, com
os cabelos molhados, bronzeada pelo sol,
os olhos esverdeados... Bem, não adianta
dizer mais nada. Você já deve ter
percebido que eu estava apaixonado por
ela.
Calou-se. Mas eu queria conhecer o resto
da história.
- Como era a relação de Maria Neves com
o pai? – perguntei.
- De facto, não sei. Distante, segundo
creio. Ela fora habituada a estar longe
dele. Crescera com o carinho de
estranhos. Quando ele aparecia, escondia
a exuberância. Creio que o respeitava,
até que o temia. Na altura parecia-me
que, quando ele partia, sentia algum
alívio. Voltava a ser ela mesma. Só mais
tarde compreendi que, apesar do escasso
convívio, ele tinha um grande ascendente
sobre ela.
- Ele não voltou a casar?
- Não. E, no entanto, naqueles tempos
era um belo homem, com boa figura e de
porte altivo. Mas havia qualquer coisa
na sua pessoa que, malgrado a altivez e
a severidade, aliás frequentes nos
militares, deixava transparecer um certo
deboche, como que uma sugestão de
sensualidade perversa. Mas na altura era
novo demais para intuir certas coisas.
Ele tinha dinheiro. Claro que deve ter
tido os seus affaires, mas nunca
transpirou absolutamente nada.
- Estranho... Numa cidade de província,
um meio pequeno...
- Na realidade, ele pouco tempo passava
cá. Praticamente, só as férias. Mas o
que diz é verdade. Por fim, eu acabei o
liceu e fui para Lisboa, para a
universidade. Queria ser médico. Era,
juntamente com Maria Neves, o sonho da
minha vida. Mas foi inevitável um certo
distanciamento. Durante as férias eu
voltava e, às vezes, ia ter com ela à
Casa da Ria. Ela continuava a ir para
lá, apesar do isolamento e da
dificuldade de abastecimento. Tinha de
trazer comida de Tavira e deslocar-se de
bicicleta. Mas estávamos ambos a entrar
na idade adulta e, em grande parte, a
naturalidade da nossa relação havia
desaparecido. Não que não houvesse
confiança, mas já não éramos dois
adolescentes a brincar às aventuras, mas
um homem e uma mulher em vias de entrar
na idade adulta.
- Chegaram a namorar?
- Não. Suponho que ela sabia que eu não
desejava outra coisa. Mas nunca lhe
falei nisso. Ela dizia sempre que não
queria namorar com ninguém. E eu tinha
medo de perder a amizade dela, caso me
declarasse abertamente. O tempo foi
passando e ela acabou o liceu e foi
também estudar para Lisboa. Enquanto lá
esteve, residiu num lar de estudantes.
- Que estudou ela?
- Não sei porquê, escolheu Germânicas,
um curso muito em voga entre as
raparigas, na altura. Devo dizer que
estranhei esta opção, pois sempre
pensara que ela escolheria algo ligado
ao mar e à vida animal. Biologia,
talvez. Decerto tinha inteligência para
algo mais ambicioso que a mera questão
linguística. Mas não. Em Lisboa, só
raramente me encontrava com ela. Fora do
nosso habitat natural, sentíamo-nos um
pouco estranhos. Ela transformara-se
numa mulher muito bonita. Mas os nossos
interesses divergiam e eu afastava-a do
meu espírito. Tinha a certeza de que
nunca me aceitaria. A certa altura
acabei envolvido com outras mulheres.
Nada de sério. Mas era forçoso andar
para a frente. Ela dizia sempre que não
queria ninguém. A ideia de ter filhos
horrorizava-a. Creio que achava que se
tivesse um filho morreria, tal como
havia acontecido à mãe. Por outro lado,
depois de acabar o curso, queria voltar
para Tavira e viver na Casa da Ria. E
dizia-o abertamente e com veemência. Ora
eu começava a olhar para a vida mais
friamente. Queria fazer carreira de
médico, seguir uma especialidade, montar
consultório. Não me sentia nenhum João
Semana. Não tinha tido a sorte de nascer
rico, de forma que tinha as minhas
ambições. E viver junto à ria, de verão
e de inverno, com tanta humidade, também
não me parecia muito saudável...
- Mas voltou para Tavira...
- Sim, vim cá fazer o meu tempo de
serviço na periferia.
- E Maria Neves?
- Acabou por voltar também uns anos
depois, após ter acabado o curso...
Raúl Mendonça voltou a calar-se. Estava
emocionado. Já não era a pessoa
perfeitamente segura de si, de quando
iniciara a narrativa. Erguemo-nos e
recomeçámos a caminhar, junto ao rio. Eu
respeitei o seu silêncio.
- Entretanto passou-se comigo uma coisa
muito estranha – disse bruscamente.
- Que coisa?
- Esta terra tem o condão de prender as
pessoas. Depois de tanto ter sonhado com
um consultório em Lisboa, após ter
acabado o tempo obrigatório de serviço
na periferia, um dia, de repente,
percebi que tinha de ficar por cá. Não
conseguiria viver sem este ar puro, este
sol, esta paz...
- E Maria Neves?
- Arranjara colocação aqui, como
professora de inglês. Vivia entre Tavira
e a Casa da Ria. Víamo-nos de vez em
quando, mas nunca mais privámos com a
desenvoltura e a confiança do passado. A
nossa adolescência estava
definitivamente enterrada. Na altura, eu
não fazia tenção de me casar e estava
convencido de que ela nunca se
casaria... – Raúl Mendonça fez mais uma
pausa - Contudo, um dia, sem ninguém
estar à espera, ela casou-se!...
- Quê?
- É verdade! Resolveu casar, assim de
repente, ninguém sabe porquê!...
- Deve ter sido difícil para si...
- Não consegui compreender. Naquela
época, eu estava quase curado da paixão.
Consolava-me com a ideia de que, se não
a podia ter, mais ninguém a teria. Mas
quando soube que ela ia casar, foi como
se o meu sentimento, havia tanto tempo
apaziguado, recrudescesse subitamente.
Senti-me desfeito, como se acabasse de
sofrer uma grande perda. Ainda por cima,
corria o boato de que era o pai que lhe
impunha o casamento, com um homem da sua
confiança. Não resisti e fui à procura
dela, à escola onde ela lecionava.
Esperei pacientemente que as aulas
acabassem e, quando a vi sair, fui ao
seu encontro.
“É verdade o que ouvi dizer? Vais
casar?” perguntei-lhe quando ela ia a
passar por mim, sem sequer notar a minha
presença. Ela voltou-se e encarou-me. A
expressão de surpresa foi substituída
por um sorriso um pouco forçado:
“Sim, é verdade”.
“E com quem? Pode saber-se?” esta
pergunta era mais do que justificada,
pois eu não lhe conhecia namorado.
“É farmacêutico, conhecido de meu pai”
“Mas porquê, Maria, porquê?”. O meu tom
de voz deve ter subido pois o sorriso
murchou-lhe nos lábios.
“Raúl, acalma-te e não me faças
perguntas. Vou apenas casar-me, não é o
fim do mundo!”.
- Fiquei estático e ela despediu-se e
voltou-me as costas. Pouco tempo depois,
casou-se, efetivamente. O casamento não
foi em Tavira, nem ninguém da terra foi
convidado. Maria Neves desapareceu e
reapareceu um mês depois, com o marido
ao lado.
- Como era ele?
- Bem, era um homem apagado. Estava
longe de possuir o rasgo e o brilho que
eu imaginaria como capazes de a
conquistar. Não que fosse feio ou
desagradável, mas parecia não ter
personalidade. Uma espécie de boneco
empalhado. Ainda por cima, era uns bons
dez anos mais velho que ela. Apesar da
minha opinião não ser totalmente isenta,
não podia perceber o que ela tinha visto
nele. Todavia, o certo é que ele montou
uma farmácia em Faro, segundo dizem com
o dinheiro do sogro, e foi viver com
Maria Neves na Casa da Ria.
- E Feliciano?
- Deu-se uma mudança radical na vida
dele. Passou à reforma, aliás com várias
condecorações por bravura, e foi viver
com a filha e o genro. Nunca mais andou
por fora. Aqueles saíam para o trabalho,
cada um dentro do seu horário, e ele
permanecia a maior parte do tempo em
casa. Dedicava-se à pesca, coisa que até
aí, que se soubesse, nunca o
interessara. Quanto a mim, nunca mais me
dei com Maria Neves. Embora a
encontrasse de vez em quando – numa
terra pequena, isso é inevitável – nunca
mais troquei com ela nenhuma palavra
para além de banais cumprimentos. E,
poucos meses depois, acabei por, também
eu, engrossar o rol dos casados.
Dediquei-me a fundo à missão e à
carreira de médico, e tratei de esquecer
tudo o resto. Talvez por isso – eu
andava sempre de cabeça ocupada – não
senti qualquer curiosidade em indagar se
Maria Neves seria ou não feliz no
casamento. Para mim, era assunto
arrumado. Agora, eu tinha a minha mulher
para cuidar. E assim decorreram quase
dois anos, sem acontecimentos de maior.
Só muito raramente via Maria Neves
acompanhada pelo marido. Contudo, sempre
que isso acontecia, reiterava a opinião
inicial de que ele era invulgarmente
banal. Parecia não ter personalidade
autónoma. Sugeria um ator em permanente
representação. Não obstante, uma tarde,
aconteceu o impensável. Eram perto de
seis horas e estava eu no meu
consultório, quando recebo um
telefonema:
“Raúl? És tu?”
“Quem fala? “
“Sou eu...”
“Maria Neves!” – a minha surpresa era
autêntica. Havia anos que ela não me
telefonava.
“Oh Raúl., ainda bem que te encontro...”
havia um timbre de desespero na sua voz
que me fez estremecer.
“Que aconteceu?” quis saber.
“Oh, ainda bem... Ainda bem que te
oiço...” repetiu. E percebi que chorava
de uma forma desabalada, entrecortada
por soluços. Era horrível de escutar.
“Onde estás?”
“Eu? Na Casa da Ria” – conseguiu
articular com dificuldade.
“Vou já para aí” disse eu. E, sem
esperar resposta, desliguei o telefone,
peguei no estojo de primeiros socorros e
saí, deixando ainda alguns doentes na
sala de espera.
- Não sei como consegui conduzir o meu
carro pela estrada 125 e tomar o caminho
de terra batida que levava até à Casa da
Ria. Não me lembro de nada. Devo ter
executado os movimentos como um
autómato, sem qualquer consciência dos
meus atos. Só me recordo de chegar e
estacionar o carro de qualquer maneira,
no terreiro em frente da casa. O dia
estava a escurecer e a casa estava
imersa numa penumbra silenciosa.
Aproximei-me da porta e gritei:
“Maria! Maria!”
- Ouvi passos que se aproximavam do
interior. A porta abriu-se e Feliciano
apareceu à minha frente, com uma cara de
meter medo:
“Ah! É você! Que quer daqui?”
“Chamaram-me para ver um doente” menti
eu, “Posso entrar?”
“Aqui ninguém está doente. Deve ter
havido algum engano”
“Tenho a certeza que não há qualquer
engano. Deixe-me entrar, por favor”,
insisti.
- Feliciano encolheu os ombros e
afastou-se para eu entrar. Percorri a
casa inteira, de ponta a ponta. Não
estava lá mais ninguém. Então lembrei-me
de ter visto o carro de Maria Neves
estacionado à entrada, do lado oposto
àquele em que eu parara o meu.
“Onde está a Maria Neves?” quis saber,
“o carro dela está lá fora”
“Anda por aí...” foi a única resposta
que obtive.
- Saí sem saber o que pensar de tudo
aquilo. Entrei no carro e, quando ia
ligar a ignição, um relâmpago
atravessou-me o cérebro. Voltei a sair
e, às apalpadelas, pois escurecia
rapidamente, desci o carreiro inclinado
até à ria. O sol já não era visível.
Perscrutei o horizonte, esforçando os
olhos ao máximo. O céu tinha adquirido
uma tonalidade cinzento chumbo, com uns
laivos rosados. Um pouco à esquerda
havia a zona das areias movediças. Olhei
nessa direção e pareceu-me ver um vulto
ao longe. Fechei e abri os olhos com
força para aumentar a acuidade visual
mas, quando fixei novamente o ponto
visado, o vulto havia desaparecido. Não
sei quanto tempo passei a esquadrinhar a
ria com o olhar. E depois... bem,
depois... fiz uma coisa absolutamente
inacreditável!...
- Que foi? – perguntei, parecendo-me que
passara uma eternidade desde que, pela
última vez, abrira a boca.
- Nada! Absolutamente nada! Subi a
ladeira, alcancei o meu carro e voltei
para o consultório. Sentia-me um
perfeito idiota, completamente
apardalado. Pensei que talvez Maria
Neves tivesse querido brincar comigo. Ou
então, que fora tudo uma partida do meu
cérebro, provocada por excesso de
trabalho. Sei lá que disparates me
passaram pela cabeça! Agora, parece mais
do que absurdo que eu não tivesse
percebido que alguma coisa de grave se
tinha passado. Mas, acima de tudo, o que
me torturou durante muito tempo foi
saber que, muito possivelmente, se
tivesse raciocinado como deve de ser,
poderia ter evitado a tragédia...
A voz do Dr. Mendonça embargara-se.
Levantei os olhos, que havia vários
minutos mantinha fixos no reflexo das
luzes nas águas negras, e olhei para o
seu rosto. Duas lágrimas escorriam-lhe
pela face, sem que ele fizesse qualquer
esforço para as disfarçar. Agarrei-lhe
na mão:
- Pobre Raúl!... Mas a que tragédia se
refere? E que poderia ter feito?...
- Desculpe-me! Mas tudo isto ainda me
emociona bastante. Maria Neves nunca
mais foi vista. Só dois dias depois é
que Feliciano comunicou oficialmente o
desaparecimento da filha. Alertei
imediatamente as autoridades sobre a
possibilidade dela ter sido sugada por
uma das panelas de areia movediça.
Fizeram-se pesquisas com redes e não se
descobriu nada. Somente duas semanas
depois, por meio de uma dragagem, é que
o cadáver foi recuperado. O marido foi
reconhecer o corpo. Na autópsia
verificou-se que não tinha sofrido
quaisquer maus tratos. Foi sepultada no
dia seguinte.
- Não houve investigação criminal?
- Porquê? Era óbvio que se tratava de um
acidente. Ninguém correria o risco de
empurrar alguém para uma panela de
areias, sabendo que poderia também ser
sugado.
- E o pai?
- Mostrou-se abatido, mas encaixou bem o
desgosto. E ficou a viver com o genro.
Passados dois ou três anos, este também
morreu e Feliciano acabou a viver
sozinho na Casa da Ria.
- Mas porque é que ela fez uma coisa
dessas?... Parecia que queria morrer...
- Oh, demorei anos a perceber. Era óbvio
que ela, quando me telefonou, tinha
acabado de sofrer um choque psicológico
de enorme violência. Hoje acho que sei o
que aconteceu. Mas é demasiado vil,
demasiado escabroso. Aquele casamento
era falso, não passava de uma farsa
orquestrada por Feliciano.
Provavelmente, o genro era seu amante de
longa data. Ele dominava o outro por
completo e conseguiu casá-lo com a
filha. Você acertou em cheio. Nunca
conheci ninguém tão sinistro, tão baixo.
Quando ela descobriu, o choque foi tão
grande que a fez perder o juízo. Claro
que eu não poderia jurar nada disto em
tribunal. Nem posso ter a pretensão de
saber exatamente o que se passou, nem
sequer que razão a levou a telefonar-me.
Mas não posso deixar de pensar que ela
se lembrou de mim num momento de
desespero, como uma tábua de salvação, e
que eu pouco fiz para a salvar!...
- Meu Deus! E as pessoas souberam?
Desconfiaram?
- É difícil responder a essa pergunta.
Ninguém gosta de Feliciano. Mas ele tem
dinheiro e todos o toleram. Se sabem ou
não, não sei. A atmosfera que aqui se
respira parece que adormece os
espíritos. As pessoas vivem e deixam
viver. Só falam do que não tem
importância. Uma coisa deste calibre, se
tivesse andado de boca em boca, se
tivesse sido mastigada, comentada e
discutida, teria adquirido uma realidade
capaz de perturbar o sono dos Sete
Cavaleiros. E ninguém quer uma coisa
dessas. Preferem fingir que nada
aconteceu. Aliás, a Feliciano é
perfeitamente indiferente aquilo que
possam pensar dele. Sempre viveu para
satisfazer as suas paixões. Com a
profissão de militar teve oportunidade
de saciar a sua apetência por sangue.
Daí as medalhas de bravura. É um ser
abjeto. Não tem sentimentos nem
princípios morais. Como ele suportou
espantosamente bem a morte da filha!
Tenho de confessar que fico siderado
quando penso na frieza de um tal
indivíduo. Ainda agora, apesar de velho
e de estar muito provavelmente no fim da
vida, está sempre sozinho e não se abre
com ninguém.
O ruído excecionalmente forte do motor
de uma traineira, que partia em direção
à barra, interrompeu o Dr. Mendonça.
Olhámos ambos na direção do barco
iluminado, onde três homens empilhavam
redes. Sem repararmos, embrenhados na
emoção daquela extraordinária história,
tínhamos percorrido todo o trajeto até à
barra.
- Quem consegue penetrar nos segredos da
alma humana?!... – exclamei,
verdadeiramente impressionada. O meu
companheiro não respondeu. Ouvi-lhe
apenas um suspiro. Depois tocou no meu
braço com gentileza e apontou-me a
cidade adormecida.
- Venha. Estamos longe e já é tarde. Vou
levá-la a casa – disse.
Adelina Velho da Palma
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