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UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO

Nunca encontrei clã com tão sólido espírito de família como o dos Moreira e Sousa. Quando comecei a conviver com eles, os oito irmãos eram já todos casados e a mãe, septuagenária, viúva havia quinze anos, morava numa vivenda no Monte Estoril. Não obstante viver sozinha, na prática pouco tempo passava sem companhia. Todos os membros da família residiam nas imediações e havia sempre um filho, neto, ou outro parente mais ou menos afastado, a passarinhar à sua volta. Não que a senhora não se bastasse a si própria - apesar da idade avançada, era ativa e de espírito prático, uma autêntica força da natureza - mas por genuína solidariedade familiar.
A casa de Maria José Moreira e Sousa, que lhe pertencia, estava longe de ser luxuosa. O jardim envolvente, visível do exterior através do gradeamento frontal, era parco em árvores frondosas e canteiros de flores. A maior parte do terreno era ocupado por uma horta cultivada de acordo com as normas da agricultura de subsistência. A vivenda era grande e ocupava uma posição central, mas a pintura exterior estava deteriorada, dando-lhe um aspeto sujo. Do lado esquerdo do edifício principal havia uma pequeníssima casa, antigo albergue do caseiro, e, ao fundo, do lado direito, eram percetíveis várias arrecadações danificadas, a abarrotar de velharias enferrujadas, visíveis através de portas empenadas e mal fechadas. Um telheiro incipiente cobria uma comprida e tosca mesa de madeira ladeada por dois bancos corridos do mesmo material, conjunto destinado às patuscadas que eram organizadas no exterior. A casota do cão, um meigo “Castro Laboreiro”, era igualmente decrépita. Tudo indiciava uma manutenção precária, destinada unicamente a assegurar o mínimo indispensável para uma vida sem pretensões, desprovida de qualquer preocupação com a estética visual.
Desejosa de um ambiente sossegado a fim de dar rédea solta à minha imaginação, eu abandonara Lisboa e arrendara, pouco tempo antes, uma casa cujo quintal confinava com o dos Moreira e Sousa. Todos os domingos escutava uma saudável algaraviada, sinal de que estava em curso o almoço familiar que congregava toda a descendência - filhos, noras, genros e netos - e a que só se faltava por motivo de força maior. Os garotos brincavam e corriam no quintal, chilreando alegremente. Às vezes, uma bola pontapeada por um deles galgava o muro e vinha parar a meus pés. Desejosa de voltar à escrita – na altura eu trabalhava num romance que me empolgava – devolvia prontamente a bola, disfarçando o aborrecimento que me causavam as interrupções.
Certo dia, cruzei-me na rua com uma das Moreira e Sousa, que fora minha colega na faculdade, e que não via desde essa altura. Reconhecemo-nos, e fiquei finalmente ciente da identidade dos meus vizinhos.
Pouco tempo depois, ao ir, uma vez mais, devolver o esférico, dei de caras com a matriarca em pessoa. Era uma mulher de estatura média e aspeto maciço. O cabelo, totalmente branco, estava penteado de uma maneira complicada e fora de moda. No rosto, sulcado de rugas, sobressaíam uns olhos vivos e um queixo forte. Sem dúvida, estava diante de alguém dotado de personalidade vincada. Viera abrir-me o portão de acesso à casa, e dirigiu-se-me sem mais preâmbulos:
- É então você que passa a vida a apanhar as bolas dos meus netos?... Peço-lhe que nos desculpe o incómodo... Não quer almoçar connosco?...
Apanhada de surpresa, não tive a presença de espírito necessária para recusar. E em boa hora não o fiz, pois a refeição volante, sem pretensões, acabou por se revelar muito agradável. Mantive-me discreta, enquanto observava os muitos comensais, dispersos pelas salas de jantar e de estar, em amena cavaqueira. Maria José falava comigo, esforçando-se por me fazer sentir à vontade.
- Já sei que foi colega da minha filha Eunice...
- Sim, no primeiro ano de Letras. Depois, nunca mais a vi até há umas semanas atrás...
- Constou-me que escreve...
- Assim é...
- Não quer servir-se de pudim?
O assunto não lhe suscitava um interesse superior ao trivial, de modo que a conversa foi conduzida para outro tema. Maria José falava com desenvoltura, mas às vezes era um pouco brusca, quase inconveniente, deixando deslizar, no meio da conversação, uma ou outra pergunta de cariz pessoal. Talvez considerasse que a sua linhagem e provecta idade lhe conferiam o direito de dizer qualquer coisa, sem ferir suscetibilidades. E um lampejo fugidio perpassava no seu olhar, revelando-me que a pergunta não fora ocasional. Contudo, era evidente a sua boa índole.
A partir desse dia, esclarecida em relação às minhas origens e tranquilizada pelo meu apelido, a matriarca convidava-me regularmente para participar no repasto dominical. A maior parte das vezes havia outros convidados, para além da família. E, sempre que podia, eu aceitava. Sentia-me bem-vinda, tratada com cortesia. Eram pessoas afáveis e o ambiente de alegria e movimento, consequência dos numerosos netos, distraía-me. Aliás, não deixava de ser uma honra que me era concedida. Os Moreira e Sousa eram herméticos. Só privavam com quem considerassem de boa estirpe.
Com o convívio continuado pude constatar que o interior da habitação transmitia a mesma impressão de decadência, que eu notara no exterior. Embora grande, a casa tinha uma dimensão inferior à expectável, atendendo ao número de habitantes que já havia albergado. As paredes estavam amarelecidas pelo tempo, necessitadas de pintura. O mobiliário era antiquado e demasiado profuso, desprovido de gosto e de estilo. Alguns candeeiros de teto mais não eram do que lâmpadas enroscadas em casquilhos penduradas pelo próprio cabo elétrico. Nos vários quartos, uma imensidade de caixas atravancava o pouco espaço disponível. Na sala, três estantes abertas deixavam infiltrar o pó nos numerosos livros, decerto merecedores de melhor resguardo. Os móveis exibiam abundantes molduras, antigas e modernas, enquadrando fotografias dos inúmeros membros da família, representativos do passado e do presente, numa disposição aleatória. De entre estas, sobressaía uma fotografia do patriarca da família, maior do que as outras e numa posição de destaque, como que a sugerir uma silenciosa vigilância. Os sofás eram feios e desirmanados, como se cada um fosse o único sobrevivente de um conjunto votado ao abandono. O chão, de tacos velhos e bamboleantes, estava parcialmente coberto por tapetes desbotados e puídos. A cozinha e a casa de banho eram arcaicas, com azulejos acinzentados e rachados pelo tempo, torneiras oxidadas e armários emperrados. Não havia quaisquer cortinados ou adornos tendentes a criar um ambiente quente e colorido. A casa era, ela mesma, uma amálgama de resquícios sóbrios do passado, que o tempo e a inércia haviam feito declinar até à mais completa desorganização. Não obstante, os Moreira e Sousa atuavam como se o ambiente fosse totalmente diferente. Através das suas conversas, hábitos e atitudes, dir-se-ia que se moviam em aposentos confortáveis e decorados com aprumo. Sabiam estar.
Suponho que a matriarca se opunha ferozmente a qualquer sugestão de reforma ou limpeza geral, que implicaria desfazer-se de muitos objetos que lhe eram caros. E, na prática, todos os dias acumulava mais uns tantos, sob o pretexto de que poderiam ainda vir a ser úteis. Como já só ela lá vivia, nenhum dos filhos parecia preocupar-se com este estado de coisas. O respeito e o amor que lhe devotavam eram superiores ao desejo de pôr a casa em ordem.
Cristãos assumidos, todos os membros da família casavam pela igreja e cumpriam à risca os trâmites do catolicismo. Não falhavam um único Sacramento, do Batismo à Extrema-unção. Todavia, gostavam de se divertir. Adoravam festas. Qualquer efeméride era pretexto para uma jantarada. Especialistas em preparar comida para muita gente, organizavam-se maravilhosamente, conseguindo servir uma ótima refeição despendendo o mínimo. Conheciam a fundo a história de todas as boas famílias portuguesas, e referiam-se às pessoas do jet set pelo diminutivo.
Tradicionalistas, imperava no seu seio um certo machismo camuflado. Os diferentes papéis do homem e da mulher estavam perfeitamente delimitados. Só os homens eram licenciados. As mulheres tinham empregos que, embora louváveis, detinham um estatuto inferior. Eram educadoras de infância, técnicas administrativas ou decoradoras. Eunice, a minha ex-colega, desistira da frequência universitária para se casar, e trabalhava atualmente ao balcão de uma agência de viagens. Eu não percebia se tal situação se devia a um defeito de educação ou a uma mera coincidência. Contudo, como solteirona empedernida (apesar de hoje em dia só se poder considerar uma mulher como tal quando já atingiu a casa dos quarenta), sentia-me alvo de alguma estranheza. Para Maria José, era difícil compreender uma mulher que tivesse ficado solteira por opção, e a quem bastasse a dedicação à arte, neste caso à escrita, para preencher a vida. Para ela, a verdadeira vocação da mulher era o casamento e a procriação. Tudo o resto, não contando com as vocações religiosas, soava-lhe a desperdício. Não obstante, evitava fazer-me sentir essa sua maneira de pensar. E chamava-me a atenção para os numerosos livros que forravam as paredes da sua sala de estar, que já ninguém lia, mas que constituíam testemunho inequívoco de um passado literato. Não sendo uma intelectual, reconhecia na minha profissão a argúcia necessária para desfiar os meandros da alma humana, e respeitava-me por isso.
- Como é que consegue inventar as histórias dos seus romances? Porque as inventa, não é verdade? – perguntou-me uma vez, interessada.
- Sim, invento. Mas geralmente baseio-me em pessoas que conheci, em factos que presenciei ou ainda, que me foram relatados. Reflito sobre o material durante algum tempo e, se percebo que tem a substância necessária, começo a enriquecê-lo de pormenores, de situações, a imaginar os diálogos entre as personagens...
- E vai tecendo tudo isso à medida que escreve?
- Não, não sou esse tipo de escritor. Também os há. Mas eu, quando me sento para escrever, preciso de já ter o fio condutor da história montado na íntegra. Sou adepta do planeamento.
- Talvez um dia tenha uma inspiração cá em casa, no meio desta gente toda...
- Quem sabe...
Os Moreira e Sousa eram orgulhosos. Não tinham dinheiro e faziam gala em considerá-lo como um assunto menor. Todos viviam do seu trabalho. Maria José mantinha-se à custa de uma modesta pensão cujo direito adquirira por morte do marido. Os filhos cotizavam-se para suportar o ordenado da empregada externa e qualquer gasto extraordinário. Contudo, era patente uma desculpável incoerência entre o princípio cristão do desapego e um certo apreço por bens materiais. Às vezes lastimavam a magreza das suas bolsas, que consideravam pouco compatíveis com os respetivos percursos profissionais. E, sobretudo entre os machos da família, filhos e genros, existia uma indisfarçável rivalidade. Todavia, todos faziam questão de frisar que não se privavam de nada.
Desta contradição, nem a matriarca estava isenta. Declarava, sem rodeios, ter vivido toda a vida com pouco dinheiro. Ela e o marido haviam criado os oito filhos sem luxos. Ela nunca trabalhara e ele atravessara a existência agarrado ao mesmo emprego público, sem grandes ganhos. Curiosamente, haviam viajado pelo mundo inteiro. Os filhos tinham frequentado os melhores colégios, e o serviço de casa fora assegurado por várias criadas internas. Era estranho que a matriarca se esquecesse de referir um facto importante, de que eu tomara conhecimento através de uma indiscrição de um outro visitante: filha única, Maria José herdara uma razoável fortuna, que decerto desempenhara um papel crucial na manutenção da família. Até a vivenda onde residia lhe fora oferecida pelo pai.
Apesar da sólida amizade que unia os Moreira e Sousa, as discussões no seio da família não eram raras. Às vezes perdiam as estribeiras por motivos de somenos importância. Nessas alturas, Maria José intervinha e envidava todos os esforços para manter a harmonia entre os contendores. No entanto, a sua visão era muitas vezes redutora, evidenciando um sentido prático louvável mas inoperante perante a necessidade de uma firmeza capaz de resolver divergências de fundo. Porém, uma vez zangados, depressa se reconciliavam, recuperando o bom humor como se nada se tivesse passado. As palavras proferidas nos momentos de exaltação eram esquecidas por completo. Não eram rancorosos.
Os Moreira e Sousa não se divorciavam. O casamento era para toda a vida. E até para além da morte. Uma das Moreira e Sousa ficara viúva ainda muito nova. Numa das minhas frequentes conversas com a matriarca, eu indagara:
- A Silvana não tem intenção de casar outra vez?
- Credo, não! Seria uma falta de respeito para com a memória do marido.
- Não me venha com essa! Que eu saiba, a religião católica permite que os viúvos voltem a casar... - na altura, eu já tinha o à-vontade suficiente para me permitir uma resposta mordaz.
- Sim, mas, para nós, é uma questão de princípio.
- Desculpe, mas isso é inaceitável. Compreendo que ela não queira casar. Eu também não quero. Mas que não o faça para não desrespeitar a memória de alguém que já morreu, é a coisa mais absurda que já ouvi!...
- Acredito que tenha dificuldade em perceber. Para nós, o casamento é sagrado! – e encerrava assim o assunto, fitando-me com a condescendência própria de quem se sente num plano superior da existência, não acessível ao comum dos mortais.
Eunice, a minha ex-colega, não me dedicava mais atenção do que qualquer dos outros membros da família. Pouco tempo andara na universidade e não tínhamos chegado a conhecer-nos bem. Morena, delgada, de traços suaves, belos olhos escuros e abundantes cabelos cendrados, toda ela refletia ouro e castanho. Era, sem dúvida, a mais bonita das Moreira e Sousa. O marido, Ludgero, também tinha boa aparência. Era alto e desempenado, alourado e de tez permanentemente bronzeada. Mas, enquanto Eunice exalava afabilidade e doçura, o marido era pedante. Comigo, em particular, era seco e frio. Penso que me considerava uma pessoa bizarra e metediça pelo simples facto de escrever – um escritor põe a nu o recôndito mais profundo (e nem sempre belo) do seu próximo – e não perdia uma oportunidade de mo demonstrar. No entanto, parecia adorar a mulher, assim como as duas filhas do casal, de nove e sete anos, ambas lindas como a mãe. Os dois encarnavam o casal modelo, vivendo o casamento perfeito.
Ludgero era economista e tinha um alto cargo numa empresa multinacional com instalações fabris nos arredores de Lisboa. Não era tolo e exercia o cargo com competência. Mesmo assim, quando foi convidado para coadjuvar o responsável pela gestão financeira da empresa em todo o sul da Europa, ficou deveras surpreendido. Tratava-se de uma promoção extraordinária, até então nunca oferecida a um português. Ludgero mostrou-se impante de orgulho. Porém, hesitou. Teria de residir permanentemente em Roma, o que implicava deslocar a mulher e as filhas para lá. Contudo, não demorou muito a decidir-se por aceitar o novo desafio. Segundo dava a entender, o ganho financeiro era muito substancial. E não resistia a uma boa dose de bazófia, meio a sério meio a brincar, junto dos outros homens do clã:
- Agora, em Roma, é que eu vou ganhar muito dinheiro!...
Ninguém soube ao certo quanto é que ele iria auferir no novo cargo. Mas a inveja dos outros membros da família foi generalizada. E isto não se devia somente à questão material. Os Moreira e Sousa eram obcecados por viagens, forma de cultura que sobrevalorizavam em detrimento de todas as outras. No seu entender, partir para a Cidade Eterna era equivalente a embarcar numa maravilhosa e prolongada viagem, que só acabaria por opção própria. De facto, a notícia da promoção de Ludgero constituía um golpe de misericórdia para todos os seus cunhados e concunhados, que assim se supunham irremediavelmente batidos na tácita competição familiar.
Durante um par de meses Ludgero fez algumas viagens relâmpago a Roma, com o fito de se inteirar das suas novas responsabilidades e arranjar acomodação para a família. Eunice e as filhas frequentaram um curso intensivo de italiano. Pouco tempo depois, partiam os quatro. Eunice largara o emprego na agência de viagens e as meninas haviam sido matriculadas num colégio romano.
Deixei de os ver. Nos almoços dominicais, perguntava por eles a Maria José:
- Estão ótimos. A Isaurinha até já sabe rezar o Pai-Nosso em italiano!
- E a Eunice? Conseguiu trabalho?
- Não. Ela não tem intenção de procurar trabalho. Ele é um ótimo marido e agora, que não é necessário, não quer que ela trabalhe. Além disso, eles têm uma vida social intensa e ela precisa de tempo para organizar tudo.
A vida corria-lhes de feição. Ludgero estava a sair-se bem e decidira fazer carreira em Roma. Por isso, passados poucos meses, tomaram resoluções que os afastavam ainda mais do país natal. O contrato de arrendamento da sua casa no Monte Estoril foi denunciado, e dadas orientações à família no sentido de se desfazer do respetivo recheio. Era o corte do cordão umbilical com a pátria.
De longe em longe, ele arranjava uns dias de licença e vinha até Portugal com a família. Acomodavam-se então em casa de Maria José, que se via forçada a desobstruir dois dos quartos, a fim de os receber. Quando os revi, vários meses depois, durante uma pausa laboral de Ludgero, fiquei admirada com o aspeto deste. Não parecia o mesmo. Estava mais magro e envelhecido. Provavelmente, trabalhava demais. Em contrapartida, Eunice tinha a mesma fisionomia de sempre, calma e saudável, e as filhas estavam crescidas e pareciam-se cada vez mais com a mãe.
Soube que haviam viajado por toda a Itália, facto que relatavam com orgulho, afirmando já conhecer aquele país como a palma da mão.
- Como vai o trabalho? – perguntei a Ludgero.
- Vai bem. Trabalha-se muito, mas vai bem – pela primeira vez, senti uma nota de simpatia na sua voz.
- Está mais magro... – atirei.
- É natural. Trabalho de dez a doze horas por dia. Mas sinto-me bem.
Continuei a vê-los muito esporadicamente. Sempre que vinham a Portugal mostravam-se contentes com a sua situação. Sabiam-se alvo de cobiça, o que não lhes desagradava. Eram os vencedores da família. Mas não eram muito efusivos. Ela continuava branda e simpática, e ele tinha perdido o ar pedante. Tornara-se mais afável. Era evidente que amadurecera.
Durante as ausências, Maria José ia-me contando as novidades. Tudo parecia correr às mil maravilhas. As netas escreviam à avó cartas em italiano, que esta se via forçada a decifrar de dicionário em punho.
- Quando voltarem, mal sabem escrever em português – lamentava-se.
- Mas, será que voltam? Têm-se dado tão bem por lá...- retorqui.
- Nunca se sabe!...Um dia destes, podem querer voltar...
Era certo que, na hipótese de regressarem, dificilmente se poderiam instalar junto de Maria José. A casa desta estava cada vez mais atravancada, e eu notava-lhe uma expressão apreensiva sempre que a filha estava para chegar. Arranjar acomodação para quatro pessoas no meio da imensa tralha amontoada, sem se desfazer de nada, era muito complicado. Até que um dia lhe sugeri:
- Ludgero devia comprar um apartamento aqui. Serviria para se instalarem quando viessem cá, e seria, decerto, um bom investimento.
- Com que dinheiro? – A pergunta foi-me lançada com brusquidão.
- Com que dinheiro?! Que quer dizer com isso? Já lá estão há mais de três anos... Ainda não juntaram o suficiente para a entrada de um apartamento?!...
- Não. Não juntaram nada! – Maria José parecia ligeiramente irritada com a minha estranheza.
- Mas é esquisito... Ele foi para lá com tão boas condições...
- Que condições, hein? Que condições? Você sabe as condições em que ele foi? Sabe? – abanei a cabeça – pois eu também não sei. Só sei que continuam sem dinheiro. E, um dia, terão de voltar...
Fiquei boquiaberta. Não só porque este desabafo me revelava que as coisas em Roma talvez não corressem assim tão bem, como também pelo muito que o assunto mexia com ela. Eu nunca a tinha visto tão perto de se exaltar. Todavia, não sendo da minha conta, achei por bem calar-me. Eu ia viajar no dia seguinte de manhã, bem cedo, de forma que aproveitei o ensejo para me despedir.
Apesar de ter consciência de que a estadia de Ludgero e Eunice em Roma não era afinal nenhum caso de sucesso, estava longe de lhe imaginar um epílogo tão rápido. Quando, algumas semanas depois, voltei a casa dos Moreira e Sousa, esperava-me uma surpresa. Depois de cumprimentar a matriarca, perguntei-lhe, como sempre:
- Como estão os romanos?
- Estão bem, mas vão voltar... .- respondeu-me com uma inflexão de desalento na voz.
- Ah, sim?! Porquê? – desta vez, a minha curiosidade acicatada não resistiu a uma interrogação direta. Maria José fitou-me por um momento e desferiu:
- Ele foi despedido.
- O quê?!
- Exatamente. Despedido!...
- Essa é boa! Não estava à espera disto!...
- Ninguém estava.
- Porque teria sido?...
Mas a minha interrogação não conseguiu extrair nenhuma informação adicional. Com efeito, passado um mês, eles voltaram. Ludgero era um homem acabado. O seu aspeto impressionava. Era evidente que alguma coisa de grave se tinha passado. Mas, fosse o que fosse, tinha operado uma transformação para melhor no protagonista. Passara até a gostar de conversar comigo. Possivelmente, considerava-me como a pessoa com mais capacidade para entender todas as vertentes do seu drama pessoal. O facto de escrever, que dantes me remetera à condição de intrometida, guindava-me agora a confidente.
Roma era assunto para esquecer. E havia que andar para a frente. Com o dinheiro da indemnização recebida, o casal pagou a entrada de um apartamento que mobilou e para o qual se mudou com as duas filhas. Fluente em línguas, com boa apresentação e (segundo me inteirei mais tarde) ajudada por uma influência, Eunice arranjou colocação numa outra agência de viagens, em Lisboa. As filhas ingressaram num bom colégio privado, e tudo tendia a retornar à normalidade. No entanto, Ludgero parecia não ter pressa de arranjar emprego. Feitas as contas, a indemnização recebida era de molde a permitir-lhe estar alguns meses sem trabalhar. Mas tal não era o juízo que, de vez em quando, através de fugidios lapsos verbais, Eunice deixava escapar. Em certa ocasião vi-a adoentada e perguntei-lhe se ia meter baixa por doença.
- Eu? Nem pensar! Não me posso dar a esse luxo...
- Mas estás doente...
- Sim, mas faltar ao trabalho teria consequências nefastas no meu emprego. Agora, o sustento da casa depende de mim...
Para a família Moreira e Sousa, o inopinado regresso de Ludgero metamorfoseara-o de vencedor em vencido. Todos se abstinham de comentários mas, lá no fundo, não resistiam a um certo regozijo pelo facto dele ter sofrido aquilo que consideravam um justo castigo pela sua prosápia. Não obstante, eram solidários com o casal em dificuldades. De forma subtil, para não ferir suscetibilidades, dispensavam-no do pagamento das comparticipações nas despesas comuns.
A situação ia-se arrastando quando Ludgero conseguiu, por fim, granjear colocação. Foi manifesto o alívio do resto do clã Moreira e Sousa. Embora não lhes tivesse desagradado o fracasso daquele, temiam que a sua situação precária se prolongasse para além do razoável, sob pena de terem de contribuir indefinidamente para o sustento da irmã, cunhado e sobrinhas. Do lado da família de Ludgero, ainda mais numerosa e elitista do que a Moreira e Sousa, o auxílio era nulo.
Todavia, Ludgero não aqueceu o novo lugar. Dois meses depois estava outra vez desempregado. Despedira-se. Os Moreira e Sousa já não se coibiam de tecer comentários. O problema estava a tomar proporções alarmantes. Apesar do seu proverbial otimismo, até Maria José começava a estar seriamente preocupada e desabafava comigo:
- O Ludgero não se deu bem no novo emprego. Parece que o puseram como subordinado de uma pessoa horrível que ele já conhecia de outra empresa...
- É uma situação desagradável, de facto. Mas ele podia ter esperado até ter outro trabalho garantido.
- Não foi capaz. Ele anda perturbado. Não consegue dormir. Não consegue conduzir. A Eunice é que tem de o ir levar e buscar a qualquer lado onde ele precise de ir...
- Coitado! Quem o viu e quem o vê! – esta observação saiu-me espontaneamente. Eu tinha sincera pena dele.
- Coitado? Porque é que aceitou aquele lugar em Roma? Quem o mandou ter a mania das grandezas? Ele não tinha garras para aquilo. Quando o trabalho começou a apertar, foi-se abaixo. Despediram-no por incompetência. E agora, depois do desaire, já ninguém o quer. Só para lugares subalternos.
- Mas, aceitar o lugar em Roma era a coisa mais natural. Afinal, ia ganhar muito dinheiro. E; antes de experimentar, ninguém sabe se vai ou não ser capaz...
- Não é bem assim. Ele não foi ganhar tão bem como isso. O apartamento em Roma era caríssimo e ele é que o pagava. E por diversas vezes foi avisado de que não estava a corresponder às expectativas. Deram-lhe duas oportunidades de voltar para cá, para um bom cargo. Ele não aceitou. Até que o despediram...
- Mesmo assim, tenho pena dele. Essas decisões não são fáceis de tomar. Ele deve ter pensado que ainda conseguia corresponder ao que dele era esperado. Se as coisas lhe tivessem corrido bem, seria considerado um vitorioso. Quem é que resistiria a essa tentação?
- Sim, mas agora está desempregado, e a minha filha ainda tem de o apoiar durante os ataques de pânico e as crises existenciais.
- Claro! É a mulher dele! O casamento é ou não é para toda a vida? Para o bem e para o mal?
- É verdade. O casamento é sagrado. Mas ela é que é coitada, e não ele...
Cada vez tenho por mais certo que não existe maior teste à solidez de um casamento do que ser defrontado com sérias dificuldades materiais. Por isso, depois deste diálogo, fiquei mais atenta às reações de Eunice e Ludgero. Os princípios cristãos tão amplamente propalados não me davam garantias. Resistiria o casamento deles à dura provação que atravessava? Parecia-me que sim. Aparentemente, continuavam a dar-se muito bem. Ela deixara de se queixar e já não se referia à sua situação de único suporte da família. Respondia quando era abordada, mas nunca puxava o assunto. Por sua vez, ele tentava aparentar boa disposição. Mas o seu aspeto abatido traía-lhe a preocupação.
A partir daí, a vida profissional de Ludgero entrou em derrapagem incontrolável. Não parava nos empregos. Ou porque não o satisfaziam, pelos mais variados motivos, ou porque era dispensado. E os que ia obtendo não eram compatíveis com a sua experiência e habilitações. Eunice dedicava-se cada vez mais ao trabalho na agência de viagens, única fonte regular de rendimentos do casal. Mas este, por si só, era insuficiente para fazer face aos encargos com o colégio das filhas, acrescido da hipoteca sobre a habitação adquirida e dos muitos gastos correntes. Claro que tinham de receber ajuda. A solidariedade dos Moreira e Sousa era proverbial.
Mas o facto de se solidarizarem não os impedia de, no fundo, considerarem Ludgero um falhado, que desperdiçara uma oportunidade de ouro, arrastara Eunice na queda e acabara sendo pesado à família. Eu, que não compartilhava dessa opinião (achava que ele tivera azar puro e simples), observava com horror a precariedade do bom conceito que os seres humanos têm uns dos outros.
Felizmente Ludgero acabou por estabilizar num emprego. Não tinha viatura da empresa nem telemóvel de serviço, mas ganhava um dinheiro certo ao fim do mês. Passados seis meses sem sinais de rutura, o clã Moreira e Sousa começou a acalmar. O equilíbrio parecia reencontrado. Maria José não escondia a satisfação:
- O dinheiro não é tudo. Ele agora não ganha tão bem, mas têm o suficiente para viver e criar as filhas...
- E continuam a dar-se bem...
- Muito bem! Nem me passava outra coisa pela cabeça pois, como já lhe disse, entre nós o casamento é para toda a vida...
- Eunice teve muita coragem e paciência...
- Sim. Não há nada melhor para nos apoiarmos do que a consciência tranquila pelo dever cumprido. Ela sempre ajudou o marido, em todas as circunstâncias, e juntos, conseguiram ultrapassar as dificuldades... Bem vistas as coisas, o casamento deles é um exemplo a ser seguido – e acrescentava, com um indisfarçável orgulho – os bons princípios vencem sempre...
Tranquilizada, a matriarca não podia prever que esta história ainda estava longe de terminar. Na realidade, nas relações entre as pessoas não há fins felizes, apenas épocas de maior ou menor acalmia.
Um ano passou sem acontecimentos de maior. Um dia, ao entrar na sala dos Moreira e Sousa para mais um repasto dominical, pressenti que se passava algo de anormal. Pairava no ar uma espécie de apreensão coletiva, sem que eu pudesse descortinar a razão. Conquanto me recebessem tão bem como o costume, pareciam comprometidos, como se estivessem a esconder qualquer coisa que não queriam partilhar com quem não fizesse parte da família. Na sequência de mais algumas visitas, acabei por perceber que este clima peculiar dizia respeito a Eunice e Ludgero. Observando-os disfarçadamente a fim de não me tornar indelicada, reparei que Ludgero não se poupava a discretas manifestações de carinho para com a esposa. Ele amava e ela deixava-se amar. O afeto bipartido transmutara-se em unilateral.
Apesar das minhas visitas periódicas à matriarca, não percebi exatamente quando é que se deu a separação. Tinha-me ausentado durante algumas semanas e, quando voltei ao convívio com os meus vizinhos, Ludgero havia desaparecido dos almoços semanais. Todavia, Eunice comparecia, acompanhada pelas filhas. Reparei que ninguém pronunciava o nome de Ludgero. E não percebi bem o que estava a acontecer.
Algum tempo depois compreendi que Eunice já havia abandonado o domicílio conjugal e vivia agora em casa da mãe. A separação tornara-se efetiva. Maria José conseguira arranjar-lhe um quarto de dormir com um mínimo de condições. As filhas, agora com doze e catorze anos, continuavam com o pai. Eunice não quisera privá-las do conforto da sua casa, instalando-as na balbúrdia da casa da avó.
Uma redoma de frieza envolvia Eunice. Os irmãos e cunhados estavam contra ela. Ninguém a hostilizava diretamente, mas todos a olhavam de esguelha. Até a mãe. Pela primeira vez, punham de lado censuras e rivalidades e sentiam-se solidários com Ludgero. Ele fora abandonado pela mulher, uma Moreira e Sousa. E o espírito de família levava-os a sentirem-se corresponsáveis por uma ofensa cometida por alguém do seu sangue. No entanto, queriam acreditar que Eunice estivesse a ser movida por uma estranha reação retardada às muitas dificuldades que o casal havia atravessado. E, como saída honrosa para a crise, só entreviam a reconciliação. Enquanto isso, Eunice pairava acima dos sentimentos contraditórios que provocava. Não dava explicações a ninguém. Eu não resistia a questionar a matriarca:
- Que lhe parece? Eles ainda se vão reconciliar?
- Estou em crer que sim. Afinal, existem duas filhas. Têm o dever de pensar nelas - Maria José ainda mantinha a esperança, embora já não fosse tão perentória:
- O que mais existe são casais separados, com filhos...
- Mesmo assim, ainda acredito que Eunice reconsidere. Ela teve uma certa educação e conhece os seus deveres. E ele era um bom marido...
Porém, o tempo foi passando e a separação mantinha-se, tornando cada vez mais longínqua a hipótese de reconciliação. A filha mais velha de Eunice, farta de aturar aquilo a que chamava “o mau génio do pai”, acabou por vir também viver para casa da avó. Pouco tempo depois, juntava-se-lhe a filha mais nova. Ludgero ficava só.
No verão que se seguiu, Eunice desapareceu durante duas semanas. Enquanto as filhas passavam férias com o pai, manteve-se incontactável. Ninguém sabia onde ela estava. E uma terrível suspeita começou a imiscuir-se no espírito da família Moreira e Sousa. Seria que?... Mas não, era demasiado escabroso... E, no entanto, houve alguém que referiu que, tempos atrás, Eunice havia sido vista a sair de um hotel acompanhada, quando deveria estar a trabalhar... Teria ela um amante? Se sim, havia quanto tempo? Tê-lo-ia antes de se separar de Ludgero? Teria sido esse o verdadeiro motivo da separação? Toda a família estava em pânico. Não podiam crer em tamanha ignomínia.
Quando Eunice regressou, foi atacada de todos os lados. E, sem pestanejar, confirmou que não tinha estado só. Como uma bomba, as piores suposições da família foram confirmadas. Tratava-se de um caso antigo, muito anterior à separação. Maria José sofreu o baque em silêncio. Uma filha sua, comportar-se dessa maneira! Que vergonha! E Ludgero? Nunca mais seria capaz de o encarar. E ele? Agora, não mais receberia Eunice de volta. E as meninas? Como é que Eunice conseguia olhar para as filhas?
Eunice, porém, permanecia incólume, pairando acima do sentimento adverso que a cercava. Por várias vezes pude observar como prosseguia a sua vida sem se deixar abater ou influenciar. De facto, era forçoso reconhecer que a minha ex-colega, por debaixo da afabilidade, dava mostras de uma coragem e determinação que eu estaria longe de lhe atribuir. Apesar das dificuldades de toda a ordem que enfrentava, inclusive económicas, parecia imperturbável.
Malgrado a delicadeza da matéria e a discrição que a envolvia, chegou um dia em que ouvi alguém, pela primeira vez, pronunciar a palavra divórcio. E não resisti a perguntar a Eunice:
- Então, já deste início ao processo?
- Ainda não. Estou a preparar-me para a luta...
- Luta? Porquê luta?... O Ludgero não quer o divórcio?...
- Quer. O que ele certamente não vai querer é dar-me o que é meu por direito...
E não se enganava. Ludgero, despeitado, reduzido a um macho ferido no seu orgulho, recusou-se a compartilhar aquilo que, na sua opinião, fora só ele a ganhar. Se a mulher se queria divorciar, problema dela. Mas não ficaria com um único despojo do casamento. Era evidente que conhecia toda a verdade. Desde quando? Impossível sabê-lo. Claro que, para Eunice, a questão económica e a regulação do poder paternal assumiam cada vez maior importância, uma vez que tinha as duas filhas a cargo. Além disso, não estava disposta a abdicar do seu quinhão dos bens do casal, mesmo reduzido a metade de um apartamento hipotecado no Monte Estoril.
Começou então uma longa batalha judicial. Nas minhas visitas regulares à família, eu verificava que o assunto ia deixando, a pouco e pouco, de ser tabu. Embora de uma forma velada, falava-se, abanava-se a cabeça, expressava-se um ar pesaroso, numa mímica coletiva de consternação. Porém, Ludgero, decerto acreditando contar com o apoio, ou pelo menos com o beneplácito, dos Moreira e Sousa, radicalizava posições, propondo a Eunice condições inaceitáveis. Quase parecia estar a brincar. Por outro lado, ia diminuindo a pensão das filhas, previamente combinada, até a reduzir a um montante ridículo. E, mais uma vez, a família Moreira e Sousa foi obrigada a auxiliar a irmã.
Mas Ludgero não ficou por aqui. Obcecado, perseguia agora Eunice pelos lugares públicos. Espionagem, telefonemas provocatórios, enfim, tudo o que podia ser feito para agredir a (ainda) sua esposa, era perpetrado sem remorso... E, lentamente, os Moreira e Sousa foram mudando de opinião. Diante de tais atos tresloucados, até a ofensa praticada por Eunice perdia a importância. Nada justificava que um homem prejudicasse assim a mulher e, sobretudo, as próprias filhas. Tinham descoberto um novo Ludgero, até aí insuspeito, capaz das ações mais vis.
Maria José, sempre pacífica, estava indignada:
- Agora percebo o que Eunice deve ter suportado a esse homem... – dizia-me.
- Ela é muito reservada. Acredito que nunca vá contar nada do que se passou entre eles...
- Sim. Mas, pela amostra, podemos imaginar... Já lhe disse que ela, enquanto esteve em Roma, pensou seriamente e por várias vezes em vir-se embora sem ele?...
E prosseguia desfiando-me um rol imenso de atrocidades que Ludgero, o antigo bom marido, havia cometido.
Não obstante a generalizada inflexão de opinião, a figura do misterioso amante de Eunice continuava a ensombrar o pensamento coletivo. O facto de reconhecerem à irmã o direito de se separar de um marido execrável, não significava que aceitassem a relação pecaminosa – pelo menos ilícita – que ela vivia com um desconhecido. E a identidade e as intenções deste era alvo das piores suposições. Ninguém tinha vontade de saber quem ele era, muito menos de o conhecer. Aliás, a começar por Eunice, ninguém o mencionava.
Passou um ano, talvez mais. O processo de divórcio arrastava-se. Eunice, que em todo este processo ia-se revelando, de dia para dia, a pessoa mais lúcida, deixava o tempo correr. Inteligente, sabia-o o seu aliado mais poderoso.
A história parecia condenada à estagnação, quando de súbito, sem ninguém estar à espera, adquiriu um novo fôlego. Certo domingo, tendo eu comparecido ao habitual almoço familiar, reparei que Eunice não estava presente. Não estranhei o facto. De vez em quando, acontecia. Já perto do final do repasto, eis senão quando ela apareceu, acompanhada por um ilustre desconhecido – obviamente o amante!
Apanhados de surpresa, mas acima de tudo civilizados, os Moreira e Sousa amorteceram o choque sem vacilar. O amante da irmã foi brindado com sorrisos e palavras de simpatia. E, enquanto lhes era apresentado, visivelmente atrapalhado, (conhecer os Moreira e Sousa, todos de uma assentada, era obra de envergadura) observavam-no atentamente. Tinha muito bom aspeto e parecia bem educado... Os Moreira e Sousa respiraram de alívio. Quem era ele, afinal? Um homem de negócios, discreto e abastado. Viajava muito, e conhecera Eunice na agência onde esta trabalhava, que era também onde tratava das suas deslocações ao estrangeiro.
A partir desse dia, sempre que visitava os meus vizinhos, assistia à progressiva conquista da família Moreira e Sousa pelo namorado de Eunice. Um a um, todos se iam rendendo às suas qualidades. Não havia dúvidas de que ela tivera bom gosto. O homem era bem intencionado e, ainda por cima, vivia bem. Apenas um senão: era separado e tinha quatro filhos. Mas, isso não passava de um pormenor. Afinal, ela também tinha duas filhas, não podia ser muito esquisita. Maria José, embora sem grandes efusões exteriores, exultava:
- João é um belo homem, um autêntico cavalheiro... Decerto, será um bom marido...
- E o casamento para toda a vida? – atrevi-me a recordar-lhe, com alguma malícia.
- Oh! Às vezes, é impossível. E, quando se vai para melhor, vale a pena mudar... Sabe, uma filha é uma filha... E só Deus pode verdadeiramente julgar...
Era de uma adorável incoerência. Mas todos nós temos de nos adaptar aos novos tempos. De qualquer maneira, dedico uma sincera amizade aos Moreira e Sousa, em particular a Maria José. Às vezes, dou comigo a pensar que gostaria de ter nascido no seio de uma família assim...

Adelina Velho da Palma

 

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