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UMA QUESTÃO DE
PRINCÍPIO
Nunca
encontrei clã com tão sólido espírito de
família como o dos Moreira e Sousa.
Quando comecei a conviver com eles, os
oito irmãos eram já todos casados e a
mãe, septuagenária, viúva havia quinze
anos, morava numa vivenda no Monte
Estoril. Não obstante viver sozinha, na
prática pouco tempo passava sem
companhia. Todos os membros da família
residiam nas imediações e havia sempre
um filho, neto, ou outro parente mais ou
menos afastado, a passarinhar à sua
volta. Não que a senhora não se bastasse
a si própria - apesar da idade avançada,
era ativa e de espírito prático, uma
autêntica força da natureza - mas por
genuína solidariedade familiar.
A casa de Maria José Moreira e Sousa,
que lhe pertencia, estava longe de ser
luxuosa. O jardim envolvente, visível do
exterior através do gradeamento frontal,
era parco em árvores frondosas e
canteiros de flores. A maior parte do
terreno era ocupado por uma horta
cultivada de acordo com as normas da
agricultura de subsistência. A vivenda
era grande e ocupava uma posição
central, mas a pintura exterior estava
deteriorada, dando-lhe um aspeto sujo.
Do lado esquerdo do edifício principal
havia uma pequeníssima casa, antigo
albergue do caseiro, e, ao fundo, do
lado direito, eram percetíveis várias
arrecadações danificadas, a abarrotar de
velharias enferrujadas, visíveis através
de portas empenadas e mal fechadas. Um
telheiro incipiente cobria uma comprida
e tosca mesa de madeira ladeada por dois
bancos corridos do mesmo material,
conjunto destinado às patuscadas que
eram organizadas no exterior. A casota
do cão, um meigo “Castro Laboreiro”, era
igualmente decrépita. Tudo indiciava uma
manutenção precária, destinada
unicamente a assegurar o mínimo
indispensável para uma vida sem
pretensões, desprovida de qualquer
preocupação com a estética visual.
Desejosa de um ambiente sossegado a fim
de dar rédea solta à minha imaginação,
eu abandonara Lisboa e arrendara, pouco
tempo antes, uma casa cujo quintal
confinava com o dos Moreira e Sousa.
Todos os domingos escutava uma saudável
algaraviada, sinal de que estava em
curso o almoço familiar que congregava
toda a descendência - filhos, noras,
genros e netos - e a que só se faltava
por motivo de força maior. Os garotos
brincavam e corriam no quintal,
chilreando alegremente. Às vezes, uma
bola pontapeada por um deles galgava o
muro e vinha parar a meus pés. Desejosa
de voltar à escrita – na altura eu
trabalhava num romance que me empolgava
– devolvia prontamente a bola,
disfarçando o aborrecimento que me
causavam as interrupções.
Certo dia, cruzei-me na rua com uma das
Moreira e Sousa, que fora minha colega
na faculdade, e que não via desde essa
altura. Reconhecemo-nos, e fiquei
finalmente ciente da identidade dos meus
vizinhos.
Pouco tempo depois, ao ir, uma vez mais,
devolver o esférico, dei de caras com a
matriarca em pessoa. Era uma mulher de
estatura média e aspeto maciço. O
cabelo, totalmente branco, estava
penteado de uma maneira complicada e
fora de moda. No rosto, sulcado de
rugas, sobressaíam uns olhos vivos e um
queixo forte. Sem dúvida, estava diante
de alguém dotado de personalidade
vincada. Viera abrir-me o portão de
acesso à casa, e dirigiu-se-me sem mais
preâmbulos:
- É então você que passa a vida a
apanhar as bolas dos meus netos?...
Peço-lhe que nos desculpe o incómodo...
Não quer almoçar connosco?...
Apanhada de surpresa, não tive a
presença de espírito necessária para
recusar. E em boa hora não o fiz, pois a
refeição volante, sem pretensões, acabou
por se revelar muito agradável.
Mantive-me discreta, enquanto observava
os muitos comensais, dispersos pelas
salas de jantar e de estar, em amena
cavaqueira. Maria José falava comigo,
esforçando-se por me fazer sentir à
vontade.
- Já sei que foi colega da minha filha
Eunice...
- Sim, no primeiro ano de Letras.
Depois, nunca mais a vi até há umas
semanas atrás...
- Constou-me que escreve...
- Assim é...
- Não quer servir-se de pudim?
O assunto não lhe suscitava um interesse
superior ao trivial, de modo que a
conversa foi conduzida para outro tema.
Maria José falava com desenvoltura, mas
às vezes era um pouco brusca, quase
inconveniente, deixando deslizar, no
meio da conversação, uma ou outra
pergunta de cariz pessoal. Talvez
considerasse que a sua linhagem e
provecta idade lhe conferiam o direito
de dizer qualquer coisa, sem ferir
suscetibilidades. E um lampejo fugidio
perpassava no seu olhar, revelando-me
que a pergunta não fora ocasional.
Contudo, era evidente a sua boa índole.
A partir desse dia, esclarecida em
relação às minhas origens e
tranquilizada pelo meu apelido, a
matriarca convidava-me regularmente para
participar no repasto dominical. A maior
parte das vezes havia outros convidados,
para além da família. E, sempre que
podia, eu aceitava. Sentia-me bem-vinda,
tratada com cortesia. Eram pessoas
afáveis e o ambiente de alegria e
movimento, consequência dos numerosos
netos, distraía-me. Aliás, não deixava
de ser uma honra que me era concedida.
Os Moreira e Sousa eram herméticos. Só
privavam com quem considerassem de boa
estirpe.
Com o convívio continuado pude constatar
que o interior da habitação transmitia a
mesma impressão de decadência, que eu
notara no exterior. Embora grande, a
casa tinha uma dimensão inferior à
expectável, atendendo ao número de
habitantes que já havia albergado. As
paredes estavam amarelecidas pelo tempo,
necessitadas de pintura. O mobiliário
era antiquado e demasiado profuso,
desprovido de gosto e de estilo. Alguns
candeeiros de teto mais não eram do que
lâmpadas enroscadas em casquilhos
penduradas pelo próprio cabo elétrico.
Nos vários quartos, uma imensidade de
caixas atravancava o pouco espaço
disponível. Na sala, três estantes
abertas deixavam infiltrar o pó nos
numerosos livros, decerto merecedores de
melhor resguardo. Os móveis exibiam
abundantes molduras, antigas e modernas,
enquadrando fotografias dos inúmeros
membros da família, representativos do
passado e do presente, numa disposição
aleatória. De entre estas, sobressaía
uma fotografia do patriarca da família,
maior do que as outras e numa posição de
destaque, como que a sugerir uma
silenciosa vigilância. Os sofás eram
feios e desirmanados, como se cada um
fosse o único sobrevivente de um
conjunto votado ao abandono. O chão, de
tacos velhos e bamboleantes, estava
parcialmente coberto por tapetes
desbotados e puídos. A cozinha e a casa
de banho eram arcaicas, com azulejos
acinzentados e rachados pelo tempo,
torneiras oxidadas e armários
emperrados. Não havia quaisquer
cortinados ou adornos tendentes a criar
um ambiente quente e colorido. A casa
era, ela mesma, uma amálgama de
resquícios sóbrios do passado, que o
tempo e a inércia haviam feito declinar
até à mais completa desorganização. Não
obstante, os Moreira e Sousa atuavam
como se o ambiente fosse totalmente
diferente. Através das suas conversas,
hábitos e atitudes, dir-se-ia que se
moviam em aposentos confortáveis e
decorados com aprumo. Sabiam estar.
Suponho que a matriarca se opunha
ferozmente a qualquer sugestão de
reforma ou limpeza geral, que implicaria
desfazer-se de muitos objetos que lhe
eram caros. E, na prática, todos os dias
acumulava mais uns tantos, sob o
pretexto de que poderiam ainda vir a ser
úteis. Como já só ela lá vivia, nenhum
dos filhos parecia preocupar-se com este
estado de coisas. O respeito e o amor
que lhe devotavam eram superiores ao
desejo de pôr a casa em ordem.
Cristãos assumidos, todos os membros da
família casavam pela igreja e cumpriam à
risca os trâmites do catolicismo. Não
falhavam um único Sacramento, do Batismo
à Extrema-unção. Todavia, gostavam de se
divertir. Adoravam festas. Qualquer
efeméride era pretexto para uma
jantarada. Especialistas em preparar
comida para muita gente, organizavam-se
maravilhosamente, conseguindo servir uma
ótima refeição despendendo o mínimo.
Conheciam a fundo a história de todas as
boas famílias portuguesas, e referiam-se
às pessoas do jet set pelo diminutivo.
Tradicionalistas, imperava no seu seio
um certo machismo camuflado. Os
diferentes papéis do homem e da mulher
estavam perfeitamente delimitados. Só os
homens eram licenciados. As mulheres
tinham empregos que, embora louváveis,
detinham um estatuto inferior. Eram
educadoras de infância, técnicas
administrativas ou decoradoras. Eunice,
a minha ex-colega, desistira da
frequência universitária para se casar,
e trabalhava atualmente ao balcão de uma
agência de viagens. Eu não percebia se
tal situação se devia a um defeito de
educação ou a uma mera coincidência.
Contudo, como solteirona empedernida
(apesar de hoje em dia só se poder
considerar uma mulher como tal quando já
atingiu a casa dos quarenta), sentia-me
alvo de alguma estranheza. Para Maria
José, era difícil compreender uma mulher
que tivesse ficado solteira por opção, e
a quem bastasse a dedicação à arte,
neste caso à escrita, para preencher a
vida. Para ela, a verdadeira vocação da
mulher era o casamento e a procriação.
Tudo o resto, não contando com as
vocações religiosas, soava-lhe a
desperdício. Não obstante, evitava
fazer-me sentir essa sua maneira de
pensar. E chamava-me a atenção para os
numerosos livros que forravam as paredes
da sua sala de estar, que já ninguém
lia, mas que constituíam testemunho
inequívoco de um passado literato. Não
sendo uma intelectual, reconhecia na
minha profissão a argúcia necessária
para desfiar os meandros da alma humana,
e respeitava-me por isso.
- Como é que consegue inventar as
histórias dos seus romances? Porque as
inventa, não é verdade? – perguntou-me
uma vez, interessada.
- Sim, invento. Mas geralmente baseio-me
em pessoas que conheci, em factos que
presenciei ou ainda, que me foram
relatados. Reflito sobre o material
durante algum tempo e, se percebo que
tem a substância necessária, começo a
enriquecê-lo de pormenores, de
situações, a imaginar os diálogos entre
as personagens...
- E vai tecendo tudo isso à medida que
escreve?
- Não, não sou esse tipo de escritor.
Também os há. Mas eu, quando me sento
para escrever, preciso de já ter o fio
condutor da história montado na íntegra.
Sou adepta do planeamento.
- Talvez um dia tenha uma inspiração cá
em casa, no meio desta gente toda...
- Quem sabe...
Os Moreira e Sousa eram orgulhosos. Não
tinham dinheiro e faziam gala em
considerá-lo como um assunto menor.
Todos viviam do seu trabalho. Maria José
mantinha-se à custa de uma modesta
pensão cujo direito adquirira por morte
do marido. Os filhos cotizavam-se para
suportar o ordenado da empregada externa
e qualquer gasto extraordinário.
Contudo, era patente uma desculpável
incoerência entre o princípio cristão do
desapego e um certo apreço por bens
materiais. Às vezes lastimavam a magreza
das suas bolsas, que consideravam pouco
compatíveis com os respetivos percursos
profissionais. E, sobretudo entre os
machos da família, filhos e genros,
existia uma indisfarçável rivalidade.
Todavia, todos faziam questão de frisar
que não se privavam de nada.
Desta contradição, nem a matriarca
estava isenta. Declarava, sem rodeios,
ter vivido toda a vida com pouco
dinheiro. Ela e o marido haviam criado
os oito filhos sem luxos. Ela nunca
trabalhara e ele atravessara a
existência agarrado ao mesmo emprego
público, sem grandes ganhos.
Curiosamente, haviam viajado pelo mundo
inteiro. Os filhos tinham frequentado os
melhores colégios, e o serviço de casa
fora assegurado por várias criadas
internas. Era estranho que a matriarca
se esquecesse de referir um facto
importante, de que eu tomara
conhecimento através de uma indiscrição
de um outro visitante: filha única,
Maria José herdara uma razoável fortuna,
que decerto desempenhara um papel
crucial na manutenção da família. Até a
vivenda onde residia lhe fora oferecida
pelo pai.
Apesar da sólida amizade que unia os
Moreira e Sousa, as discussões no seio
da família não eram raras. Às vezes
perdiam as estribeiras por motivos de
somenos importância. Nessas alturas,
Maria José intervinha e envidava todos
os esforços para manter a harmonia entre
os contendores. No entanto, a sua visão
era muitas vezes redutora, evidenciando
um sentido prático louvável mas
inoperante perante a necessidade de uma
firmeza capaz de resolver divergências
de fundo. Porém, uma vez zangados,
depressa se reconciliavam, recuperando o
bom humor como se nada se tivesse
passado. As palavras proferidas nos
momentos de exaltação eram esquecidas
por completo. Não eram rancorosos.
Os Moreira e Sousa não se divorciavam. O
casamento era para toda a vida. E até
para além da morte. Uma das Moreira e
Sousa ficara viúva ainda muito nova.
Numa das minhas frequentes conversas com
a matriarca, eu indagara:
- A Silvana não tem intenção de casar
outra vez?
- Credo, não! Seria uma falta de
respeito para com a memória do marido.
- Não me venha com essa! Que eu saiba, a
religião católica permite que os viúvos
voltem a casar... - na altura, eu já
tinha o à-vontade suficiente para me
permitir uma resposta mordaz.
- Sim, mas, para nós, é uma questão de
princípio.
- Desculpe, mas isso é inaceitável.
Compreendo que ela não queira casar. Eu
também não quero. Mas que não o faça
para não desrespeitar a memória de
alguém que já morreu, é a coisa mais
absurda que já ouvi!...
- Acredito que tenha dificuldade em
perceber. Para nós, o casamento é
sagrado! – e encerrava assim o assunto,
fitando-me com a condescendência própria
de quem se sente num plano superior da
existência, não acessível ao comum dos
mortais.
Eunice, a minha ex-colega, não me
dedicava mais atenção do que qualquer
dos outros membros da família. Pouco
tempo andara na universidade e não
tínhamos chegado a conhecer-nos bem.
Morena, delgada, de traços suaves, belos
olhos escuros e abundantes cabelos
cendrados, toda ela refletia ouro e
castanho. Era, sem dúvida, a mais bonita
das Moreira e Sousa. O marido, Ludgero,
também tinha boa aparência. Era alto e
desempenado, alourado e de tez
permanentemente bronzeada. Mas, enquanto
Eunice exalava afabilidade e doçura, o
marido era pedante. Comigo, em
particular, era seco e frio. Penso que
me considerava uma pessoa bizarra e
metediça pelo simples facto de escrever
– um escritor põe a nu o recôndito mais
profundo (e nem sempre belo) do seu
próximo – e não perdia uma oportunidade
de mo demonstrar. No entanto, parecia
adorar a mulher, assim como as duas
filhas do casal, de nove e sete anos,
ambas lindas como a mãe. Os dois
encarnavam o casal modelo, vivendo o
casamento perfeito.
Ludgero era economista e tinha um alto
cargo numa empresa multinacional com
instalações fabris nos arredores de
Lisboa. Não era tolo e exercia o cargo
com competência. Mesmo assim, quando foi
convidado para coadjuvar o responsável
pela gestão financeira da empresa em
todo o sul da Europa, ficou deveras
surpreendido. Tratava-se de uma promoção
extraordinária, até então nunca
oferecida a um português. Ludgero
mostrou-se impante de orgulho. Porém,
hesitou. Teria de residir
permanentemente em Roma, o que implicava
deslocar a mulher e as filhas para lá.
Contudo, não demorou muito a decidir-se
por aceitar o novo desafio. Segundo dava
a entender, o ganho financeiro era muito
substancial. E não resistia a uma boa
dose de bazófia, meio a sério meio a
brincar, junto dos outros homens do clã:
- Agora, em Roma, é que eu vou ganhar
muito dinheiro!...
Ninguém soube ao certo quanto é que ele
iria auferir no novo cargo. Mas a inveja
dos outros membros da família foi
generalizada. E isto não se devia
somente à questão material. Os Moreira e
Sousa eram obcecados por viagens, forma
de cultura que sobrevalorizavam em
detrimento de todas as outras. No seu
entender, partir para a Cidade Eterna
era equivalente a embarcar numa
maravilhosa e prolongada viagem, que só
acabaria por opção própria. De facto, a
notícia da promoção de Ludgero
constituía um golpe de misericórdia para
todos os seus cunhados e concunhados,
que assim se supunham irremediavelmente
batidos na tácita competição familiar.
Durante um par de meses Ludgero fez
algumas viagens relâmpago a Roma, com o
fito de se inteirar das suas novas
responsabilidades e arranjar acomodação
para a família. Eunice e as filhas
frequentaram um curso intensivo de
italiano. Pouco tempo depois, partiam os
quatro. Eunice largara o emprego na
agência de viagens e as meninas haviam
sido matriculadas num colégio romano.
Deixei de os ver. Nos almoços
dominicais, perguntava por eles a Maria
José:
- Estão ótimos. A Isaurinha até já sabe
rezar o Pai-Nosso em italiano!
- E a Eunice? Conseguiu trabalho?
- Não. Ela não tem intenção de procurar
trabalho. Ele é um ótimo marido e agora,
que não é necessário, não quer que ela
trabalhe. Além disso, eles têm uma vida
social intensa e ela precisa de tempo
para organizar tudo.
A vida corria-lhes de feição. Ludgero
estava a sair-se bem e decidira fazer
carreira em Roma. Por isso, passados
poucos meses, tomaram resoluções que os
afastavam ainda mais do país natal. O
contrato de arrendamento da sua casa no
Monte Estoril foi denunciado, e dadas
orientações à família no sentido de se
desfazer do respetivo recheio. Era o
corte do cordão umbilical com a pátria.
De longe em longe, ele arranjava uns
dias de licença e vinha até Portugal com
a família. Acomodavam-se então em casa
de Maria José, que se via forçada a
desobstruir dois dos quartos, a fim de
os receber. Quando os revi, vários meses
depois, durante uma pausa laboral de
Ludgero, fiquei admirada com o aspeto
deste. Não parecia o mesmo. Estava mais
magro e envelhecido. Provavelmente,
trabalhava demais. Em contrapartida,
Eunice tinha a mesma fisionomia de
sempre, calma e saudável, e as filhas
estavam crescidas e pareciam-se cada vez
mais com a mãe.
Soube que haviam viajado por toda a
Itália, facto que relatavam com orgulho,
afirmando já conhecer aquele país como a
palma da mão.
- Como vai o trabalho? – perguntei a
Ludgero.
- Vai bem. Trabalha-se muito, mas vai
bem – pela primeira vez, senti uma nota
de simpatia na sua voz.
- Está mais magro... – atirei.
- É natural. Trabalho de dez a doze
horas por dia. Mas sinto-me bem.
Continuei a vê-los muito
esporadicamente. Sempre que vinham a
Portugal mostravam-se contentes com a
sua situação. Sabiam-se alvo de cobiça,
o que não lhes desagradava. Eram os
vencedores da família. Mas não eram
muito efusivos. Ela continuava branda e
simpática, e ele tinha perdido o ar
pedante. Tornara-se mais afável. Era
evidente que amadurecera.
Durante as ausências, Maria José ia-me
contando as novidades. Tudo parecia
correr às mil maravilhas. As netas
escreviam à avó cartas em italiano, que
esta se via forçada a decifrar de
dicionário em punho.
- Quando voltarem, mal sabem escrever em
português – lamentava-se.
- Mas, será que voltam? Têm-se dado tão
bem por lá...- retorqui.
- Nunca se sabe!...Um dia destes, podem
querer voltar...
Era certo que, na hipótese de
regressarem, dificilmente se poderiam
instalar junto de Maria José. A casa
desta estava cada vez mais atravancada,
e eu notava-lhe uma expressão apreensiva
sempre que a filha estava para chegar.
Arranjar acomodação para quatro pessoas
no meio da imensa tralha amontoada, sem
se desfazer de nada, era muito
complicado. Até que um dia lhe sugeri:
- Ludgero devia comprar um apartamento
aqui. Serviria para se instalarem quando
viessem cá, e seria, decerto, um bom
investimento.
- Com que dinheiro? – A pergunta foi-me
lançada com brusquidão.
- Com que dinheiro?! Que quer dizer com
isso? Já lá estão há mais de três
anos... Ainda não juntaram o suficiente
para a entrada de um apartamento?!...
- Não. Não juntaram nada! – Maria José
parecia ligeiramente irritada com a
minha estranheza.
- Mas é esquisito... Ele foi para lá com
tão boas condições...
- Que condições, hein? Que condições?
Você sabe as condições em que ele foi?
Sabe? – abanei a cabeça – pois eu também
não sei. Só sei que continuam sem
dinheiro. E, um dia, terão de voltar...
Fiquei boquiaberta. Não só porque este
desabafo me revelava que as coisas em
Roma talvez não corressem assim tão bem,
como também pelo muito que o assunto
mexia com ela. Eu nunca a tinha visto
tão perto de se exaltar. Todavia, não
sendo da minha conta, achei por bem
calar-me. Eu ia viajar no dia seguinte
de manhã, bem cedo, de forma que
aproveitei o ensejo para me despedir.
Apesar de ter consciência de que a
estadia de Ludgero e Eunice em Roma não
era afinal nenhum caso de sucesso,
estava longe de lhe imaginar um epílogo
tão rápido. Quando, algumas semanas
depois, voltei a casa dos Moreira e
Sousa, esperava-me uma surpresa. Depois
de cumprimentar a matriarca,
perguntei-lhe, como sempre:
- Como estão os romanos?
- Estão bem, mas vão voltar... .-
respondeu-me com uma inflexão de
desalento na voz.
- Ah, sim?! Porquê? – desta vez, a minha
curiosidade acicatada não resistiu a uma
interrogação direta. Maria José fitou-me
por um momento e desferiu:
- Ele foi despedido.
- O quê?!
- Exatamente. Despedido!...
- Essa é boa! Não estava à espera
disto!...
- Ninguém estava.
- Porque teria sido?...
Mas a minha interrogação não conseguiu
extrair nenhuma informação adicional.
Com efeito, passado um mês, eles
voltaram. Ludgero era um homem acabado.
O seu aspeto impressionava. Era evidente
que alguma coisa de grave se tinha
passado. Mas, fosse o que fosse, tinha
operado uma transformação para melhor no
protagonista. Passara até a gostar de
conversar comigo. Possivelmente,
considerava-me como a pessoa com mais
capacidade para entender todas as
vertentes do seu drama pessoal. O facto
de escrever, que dantes me remetera à
condição de intrometida, guindava-me
agora a confidente.
Roma era assunto para esquecer. E havia
que andar para a frente. Com o dinheiro
da indemnização recebida, o casal pagou
a entrada de um apartamento que mobilou
e para o qual se mudou com as duas
filhas. Fluente em línguas, com boa
apresentação e (segundo me inteirei mais
tarde) ajudada por uma influência,
Eunice arranjou colocação numa outra
agência de viagens, em Lisboa. As filhas
ingressaram num bom colégio privado, e
tudo tendia a retornar à normalidade. No
entanto, Ludgero parecia não ter pressa
de arranjar emprego. Feitas as contas, a
indemnização recebida era de molde a
permitir-lhe estar alguns meses sem
trabalhar. Mas tal não era o juízo que,
de vez em quando, através de fugidios
lapsos verbais, Eunice deixava escapar.
Em certa ocasião vi-a adoentada e
perguntei-lhe se ia meter baixa por
doença.
- Eu? Nem pensar! Não me posso dar a
esse luxo...
- Mas estás doente...
- Sim, mas faltar ao trabalho teria
consequências nefastas no meu emprego.
Agora, o sustento da casa depende de
mim...
Para a família Moreira e Sousa, o
inopinado regresso de Ludgero
metamorfoseara-o de vencedor em vencido.
Todos se abstinham de comentários mas,
lá no fundo, não resistiam a um certo
regozijo pelo facto dele ter sofrido
aquilo que consideravam um justo castigo
pela sua prosápia. Não obstante, eram
solidários com o casal em dificuldades.
De forma subtil, para não ferir
suscetibilidades, dispensavam-no do
pagamento das comparticipações nas
despesas comuns.
A situação ia-se arrastando quando
Ludgero conseguiu, por fim, granjear
colocação. Foi manifesto o alívio do
resto do clã Moreira e Sousa. Embora não
lhes tivesse desagradado o fracasso
daquele, temiam que a sua situação
precária se prolongasse para além do
razoável, sob pena de terem de
contribuir indefinidamente para o
sustento da irmã, cunhado e sobrinhas.
Do lado da família de Ludgero, ainda
mais numerosa e elitista do que a
Moreira e Sousa, o auxílio era nulo.
Todavia, Ludgero não aqueceu o novo
lugar. Dois meses depois estava outra
vez desempregado. Despedira-se. Os
Moreira e Sousa já não se coibiam de
tecer comentários. O problema estava a
tomar proporções alarmantes. Apesar do
seu proverbial otimismo, até Maria José
começava a estar seriamente preocupada e
desabafava comigo:
- O Ludgero não se deu bem no novo
emprego. Parece que o puseram como
subordinado de uma pessoa horrível que
ele já conhecia de outra empresa...
- É uma situação desagradável, de facto.
Mas ele podia ter esperado até ter outro
trabalho garantido.
- Não foi capaz. Ele anda perturbado.
Não consegue dormir. Não consegue
conduzir. A Eunice é que tem de o ir
levar e buscar a qualquer lado onde ele
precise de ir...
- Coitado! Quem o viu e quem o vê! –
esta observação saiu-me espontaneamente.
Eu tinha sincera pena dele.
- Coitado? Porque é que aceitou aquele
lugar em Roma? Quem o mandou ter a mania
das grandezas? Ele não tinha garras para
aquilo. Quando o trabalho começou a
apertar, foi-se abaixo. Despediram-no
por incompetência. E agora, depois do
desaire, já ninguém o quer. Só para
lugares subalternos.
- Mas, aceitar o lugar em Roma era a
coisa mais natural. Afinal, ia ganhar
muito dinheiro. E; antes de
experimentar, ninguém sabe se vai ou não
ser capaz...
- Não é bem assim. Ele não foi ganhar
tão bem como isso. O apartamento em Roma
era caríssimo e ele é que o pagava. E
por diversas vezes foi avisado de que
não estava a corresponder às
expectativas. Deram-lhe duas
oportunidades de voltar para cá, para um
bom cargo. Ele não aceitou. Até que o
despediram...
- Mesmo assim, tenho pena dele. Essas
decisões não são fáceis de tomar. Ele
deve ter pensado que ainda conseguia
corresponder ao que dele era esperado.
Se as coisas lhe tivessem corrido bem,
seria considerado um vitorioso. Quem é
que resistiria a essa tentação?
- Sim, mas agora está desempregado, e a
minha filha ainda tem de o apoiar
durante os ataques de pânico e as crises
existenciais.
- Claro! É a mulher dele! O casamento é
ou não é para toda a vida? Para o bem e
para o mal?
- É verdade. O casamento é sagrado. Mas
ela é que é coitada, e não ele...
Cada vez tenho por mais certo que não
existe maior teste à solidez de um
casamento do que ser defrontado com
sérias dificuldades materiais. Por isso,
depois deste diálogo, fiquei mais atenta
às reações de Eunice e Ludgero. Os
princípios cristãos tão amplamente
propalados não me davam garantias.
Resistiria o casamento deles à dura
provação que atravessava? Parecia-me que
sim. Aparentemente, continuavam a dar-se
muito bem. Ela deixara de se queixar e
já não se referia à sua situação de
único suporte da família. Respondia
quando era abordada, mas nunca puxava o
assunto. Por sua vez, ele tentava
aparentar boa disposição. Mas o seu
aspeto abatido traía-lhe a preocupação.
A partir daí, a vida profissional de
Ludgero entrou em derrapagem
incontrolável. Não parava nos empregos.
Ou porque não o satisfaziam, pelos mais
variados motivos, ou porque era
dispensado. E os que ia obtendo não eram
compatíveis com a sua experiência e
habilitações. Eunice dedicava-se cada
vez mais ao trabalho na agência de
viagens, única fonte regular de
rendimentos do casal. Mas este, por si
só, era insuficiente para fazer face aos
encargos com o colégio das filhas,
acrescido da hipoteca sobre a habitação
adquirida e dos muitos gastos correntes.
Claro que tinham de receber ajuda. A
solidariedade dos Moreira e Sousa era
proverbial.
Mas o facto de se solidarizarem não os
impedia de, no fundo, considerarem
Ludgero um falhado, que desperdiçara uma
oportunidade de ouro, arrastara Eunice
na queda e acabara sendo pesado à
família. Eu, que não compartilhava dessa
opinião (achava que ele tivera azar puro
e simples), observava com horror a
precariedade do bom conceito que os
seres humanos têm uns dos outros.
Felizmente Ludgero acabou por
estabilizar num emprego. Não tinha
viatura da empresa nem telemóvel de
serviço, mas ganhava um dinheiro certo
ao fim do mês. Passados seis meses sem
sinais de rutura, o clã Moreira e Sousa
começou a acalmar. O equilíbrio parecia
reencontrado. Maria José não escondia a
satisfação:
- O dinheiro não é tudo. Ele agora não
ganha tão bem, mas têm o suficiente para
viver e criar as filhas...
- E continuam a dar-se bem...
- Muito bem! Nem me passava outra coisa
pela cabeça pois, como já lhe disse,
entre nós o casamento é para toda a
vida...
- Eunice teve muita coragem e
paciência...
- Sim. Não há nada melhor para nos
apoiarmos do que a consciência tranquila
pelo dever cumprido. Ela sempre ajudou o
marido, em todas as circunstâncias, e
juntos, conseguiram ultrapassar as
dificuldades... Bem vistas as coisas, o
casamento deles é um exemplo a ser
seguido – e acrescentava, com um
indisfarçável orgulho – os bons
princípios vencem sempre...
Tranquilizada, a matriarca não podia
prever que esta história ainda estava
longe de terminar. Na realidade, nas
relações entre as pessoas não há fins
felizes, apenas épocas de maior ou menor
acalmia.
Um ano passou sem acontecimentos de
maior. Um dia, ao entrar na sala dos
Moreira e Sousa para mais um repasto
dominical, pressenti que se passava algo
de anormal. Pairava no ar uma espécie de
apreensão coletiva, sem que eu pudesse
descortinar a razão. Conquanto me
recebessem tão bem como o costume,
pareciam comprometidos, como se
estivessem a esconder qualquer coisa que
não queriam partilhar com quem não
fizesse parte da família. Na sequência
de mais algumas visitas, acabei por
perceber que este clima peculiar dizia
respeito a Eunice e Ludgero.
Observando-os disfarçadamente a fim de
não me tornar indelicada, reparei que
Ludgero não se poupava a discretas
manifestações de carinho para com a
esposa. Ele amava e ela deixava-se amar.
O afeto bipartido transmutara-se em
unilateral.
Apesar das minhas visitas periódicas à
matriarca, não percebi exatamente quando
é que se deu a separação. Tinha-me
ausentado durante algumas semanas e,
quando voltei ao convívio com os meus
vizinhos, Ludgero havia desaparecido dos
almoços semanais. Todavia, Eunice
comparecia, acompanhada pelas filhas.
Reparei que ninguém pronunciava o nome
de Ludgero. E não percebi bem o que
estava a acontecer.
Algum tempo depois compreendi que Eunice
já havia abandonado o domicílio conjugal
e vivia agora em casa da mãe. A
separação tornara-se efetiva. Maria José
conseguira arranjar-lhe um quarto de
dormir com um mínimo de condições. As
filhas, agora com doze e catorze anos,
continuavam com o pai. Eunice não
quisera privá-las do conforto da sua
casa, instalando-as na balbúrdia da casa
da avó.
Uma redoma de frieza envolvia Eunice. Os
irmãos e cunhados estavam contra ela.
Ninguém a hostilizava diretamente, mas
todos a olhavam de esguelha. Até a mãe.
Pela primeira vez, punham de lado
censuras e rivalidades e sentiam-se
solidários com Ludgero. Ele fora
abandonado pela mulher, uma Moreira e
Sousa. E o espírito de família levava-os
a sentirem-se corresponsáveis por uma
ofensa cometida por alguém do seu
sangue. No entanto, queriam acreditar
que Eunice estivesse a ser movida por
uma estranha reação retardada às muitas
dificuldades que o casal havia
atravessado. E, como saída honrosa para
a crise, só entreviam a reconciliação.
Enquanto isso, Eunice pairava acima dos
sentimentos contraditórios que
provocava. Não dava explicações a
ninguém. Eu não resistia a questionar a
matriarca:
- Que lhe parece? Eles ainda se vão
reconciliar?
- Estou em crer que sim. Afinal, existem
duas filhas. Têm o dever de pensar nelas
- Maria José ainda mantinha a esperança,
embora já não fosse tão perentória:
- O que mais existe são casais
separados, com filhos...
- Mesmo assim, ainda acredito que Eunice
reconsidere. Ela teve uma certa educação
e conhece os seus deveres. E ele era um
bom marido...
Porém, o tempo foi passando e a
separação mantinha-se, tornando cada vez
mais longínqua a hipótese de
reconciliação. A filha mais velha de
Eunice, farta de aturar aquilo a que
chamava “o mau génio do pai”, acabou por
vir também viver para casa da avó. Pouco
tempo depois, juntava-se-lhe a filha
mais nova. Ludgero ficava só.
No verão que se seguiu, Eunice
desapareceu durante duas semanas.
Enquanto as filhas passavam férias com o
pai, manteve-se incontactável. Ninguém
sabia onde ela estava. E uma terrível
suspeita começou a imiscuir-se no
espírito da família Moreira e Sousa.
Seria que?... Mas não, era demasiado
escabroso... E, no entanto, houve alguém
que referiu que, tempos atrás, Eunice
havia sido vista a sair de um hotel
acompanhada, quando deveria estar a
trabalhar... Teria ela um amante? Se
sim, havia quanto tempo? Tê-lo-ia antes
de se separar de Ludgero? Teria sido
esse o verdadeiro motivo da separação?
Toda a família estava em pânico. Não
podiam crer em tamanha ignomínia.
Quando Eunice regressou, foi atacada de
todos os lados. E, sem pestanejar,
confirmou que não tinha estado só. Como
uma bomba, as piores suposições da
família foram confirmadas. Tratava-se de
um caso antigo, muito anterior à
separação. Maria José sofreu o baque em
silêncio. Uma filha sua, comportar-se
dessa maneira! Que vergonha! E Ludgero?
Nunca mais seria capaz de o encarar. E
ele? Agora, não mais receberia Eunice de
volta. E as meninas? Como é que Eunice
conseguia olhar para as filhas?
Eunice, porém, permanecia incólume,
pairando acima do sentimento adverso que
a cercava. Por várias vezes pude
observar como prosseguia a sua vida sem
se deixar abater ou influenciar. De
facto, era forçoso reconhecer que a
minha ex-colega, por debaixo da
afabilidade, dava mostras de uma coragem
e determinação que eu estaria longe de
lhe atribuir. Apesar das dificuldades de
toda a ordem que enfrentava, inclusive
económicas, parecia imperturbável.
Malgrado a delicadeza da matéria e a
discrição que a envolvia, chegou um dia
em que ouvi alguém, pela primeira vez,
pronunciar a palavra divórcio. E não
resisti a perguntar a Eunice:
- Então, já deste início ao processo?
- Ainda não. Estou a preparar-me para a
luta...
- Luta? Porquê luta?... O Ludgero não
quer o divórcio?...
- Quer. O que ele certamente não vai
querer é dar-me o que é meu por
direito...
E não se enganava. Ludgero, despeitado,
reduzido a um macho ferido no seu
orgulho, recusou-se a compartilhar
aquilo que, na sua opinião, fora só ele
a ganhar. Se a mulher se queria
divorciar, problema dela. Mas não
ficaria com um único despojo do
casamento. Era evidente que conhecia
toda a verdade. Desde quando? Impossível
sabê-lo. Claro que, para Eunice, a
questão económica e a regulação do poder
paternal assumiam cada vez maior
importância, uma vez que tinha as duas
filhas a cargo. Além disso, não estava
disposta a abdicar do seu quinhão dos
bens do casal, mesmo reduzido a metade
de um apartamento hipotecado no Monte
Estoril.
Começou então uma longa batalha
judicial. Nas minhas visitas regulares à
família, eu verificava que o assunto ia
deixando, a pouco e pouco, de ser tabu.
Embora de uma forma velada, falava-se,
abanava-se a cabeça, expressava-se um ar
pesaroso, numa mímica coletiva de
consternação. Porém, Ludgero, decerto
acreditando contar com o apoio, ou pelo
menos com o beneplácito, dos Moreira e
Sousa, radicalizava posições, propondo a
Eunice condições inaceitáveis. Quase
parecia estar a brincar. Por outro lado,
ia diminuindo a pensão das filhas,
previamente combinada, até a reduzir a
um montante ridículo. E, mais uma vez, a
família Moreira e Sousa foi obrigada a
auxiliar a irmã.
Mas Ludgero não ficou por aqui.
Obcecado, perseguia agora Eunice pelos
lugares públicos. Espionagem,
telefonemas provocatórios, enfim, tudo o
que podia ser feito para agredir a
(ainda) sua esposa, era perpetrado sem
remorso... E, lentamente, os Moreira e
Sousa foram mudando de opinião. Diante
de tais atos tresloucados, até a ofensa
praticada por Eunice perdia a
importância. Nada justificava que um
homem prejudicasse assim a mulher e,
sobretudo, as próprias filhas. Tinham
descoberto um novo Ludgero, até aí
insuspeito, capaz das ações mais vis.
Maria José, sempre pacífica, estava
indignada:
- Agora percebo o que Eunice deve ter
suportado a esse homem... – dizia-me.
- Ela é muito reservada. Acredito que
nunca vá contar nada do que se passou
entre eles...
- Sim. Mas, pela amostra, podemos
imaginar... Já lhe disse que ela,
enquanto esteve em Roma, pensou
seriamente e por várias vezes em vir-se
embora sem ele?...
E prosseguia desfiando-me um rol imenso
de atrocidades que Ludgero, o antigo bom
marido, havia cometido.
Não obstante a generalizada inflexão de
opinião, a figura do misterioso amante
de Eunice continuava a ensombrar o
pensamento coletivo. O facto de
reconhecerem à irmã o direito de se
separar de um marido execrável, não
significava que aceitassem a relação
pecaminosa – pelo menos ilícita – que
ela vivia com um desconhecido. E a
identidade e as intenções deste era alvo
das piores suposições. Ninguém tinha
vontade de saber quem ele era, muito
menos de o conhecer. Aliás, a começar
por Eunice, ninguém o mencionava.
Passou um ano, talvez mais. O processo
de divórcio arrastava-se. Eunice, que em
todo este processo ia-se revelando, de
dia para dia, a pessoa mais lúcida,
deixava o tempo correr. Inteligente,
sabia-o o seu aliado mais poderoso.
A história parecia condenada à
estagnação, quando de súbito, sem
ninguém estar à espera, adquiriu um novo
fôlego. Certo domingo, tendo eu
comparecido ao habitual almoço familiar,
reparei que Eunice não estava presente.
Não estranhei o facto. De vez em quando,
acontecia. Já perto do final do repasto,
eis senão quando ela apareceu,
acompanhada por um ilustre desconhecido
– obviamente o amante!
Apanhados de surpresa, mas acima de tudo
civilizados, os Moreira e Sousa
amorteceram o choque sem vacilar. O
amante da irmã foi brindado com sorrisos
e palavras de simpatia. E, enquanto lhes
era apresentado, visivelmente
atrapalhado, (conhecer os Moreira e
Sousa, todos de uma assentada, era obra
de envergadura) observavam-no
atentamente. Tinha muito bom aspeto e
parecia bem educado... Os Moreira e
Sousa respiraram de alívio. Quem era
ele, afinal? Um homem de negócios,
discreto e abastado. Viajava muito, e
conhecera Eunice na agência onde esta
trabalhava, que era também onde tratava
das suas deslocações ao estrangeiro.
A partir desse dia, sempre que visitava
os meus vizinhos, assistia à progressiva
conquista da família Moreira e Sousa
pelo namorado de Eunice. Um a um, todos
se iam rendendo às suas qualidades. Não
havia dúvidas de que ela tivera bom
gosto. O homem era bem intencionado e,
ainda por cima, vivia bem. Apenas um
senão: era separado e tinha quatro
filhos. Mas, isso não passava de um
pormenor. Afinal, ela também tinha duas
filhas, não podia ser muito esquisita.
Maria José, embora sem grandes efusões
exteriores, exultava:
- João é um belo homem, um autêntico
cavalheiro... Decerto, será um bom
marido...
- E o casamento para toda a vida? –
atrevi-me a recordar-lhe, com alguma
malícia.
- Oh! Às vezes, é impossível. E, quando
se vai para melhor, vale a pena mudar...
Sabe, uma filha é uma filha... E só Deus
pode verdadeiramente julgar...
Era de uma adorável incoerência. Mas
todos nós temos de nos adaptar aos novos
tempos. De qualquer maneira, dedico uma
sincera amizade aos Moreira e Sousa, em
particular a Maria José. Às vezes, dou
comigo a pensar que gostaria de ter
nascido no seio de uma família assim...
Adelina
Velho da Palma |