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O
SOBRENOME
Nunca
esquecerei o dia em que conheci Mário
Corte-Real. Lembro-me como se fosse
hoje. Seriam umas nove horas da manhã e
o dia estava escuro. Uma luz difusa e
amarelada iluminava o meu local de
trabalho, um amplo gabinete de grandes
janelas de vidro fumado, chão e teto
falsos. Apesar da hora matutina, os meus
colegas encontravam-se sentados à
secretária, imersos no trabalho. Pelo
menos manipulavam o rato e teclavam de
forma sonora. De repente, a porta
abriu-se e o nosso diretor entrou,
seguido de um homem magro, de estatura
média. Aproximou-se da minha secretária
e, desajeitado como sempre, disse-me,
enquanto apontava o dedo para o ilustre
desconhecido:
- Eis o nosso novo colaborador!
Olhei o recém-chegado e estendi-lhe a
mão. Mais uma vítima do capitalismo
desenfreado que se vê forçada a vir aqui
vender a sua força de trabalho, pensei
para mim mesma, com ironia.
- Mário Corte-Real, muito prazer –
proferiu o indivíduo um pouco corado,
numa voz baixa com um ligeiro sotaque
nortenho, esboçando um sorriso e
apertando a minha mão com firmeza.
Nesse preciso momento o ruído das teclas
cessou. E os meus colegas de gabinete
levantaram os olhos.
- Bem vindo! – respondi, olhando aquela
aparição com mais atenção.
O nosso diretor prosseguiu com as
apresentações à pressa e, a cada uma,
faziam-se ouvir as palavras mágicas:
- Prazer. Mário Corte-Real.
Concluídas as formalidades no nosso
gabinete, o diretor rodou sobre os
calcanhares e desapareceu pela porta,
levando consigo a nova aquisição da
Direção, rumo a outros gabinetes e
apresentações.
Ninguém teceu um único comentário (que
estranhos estavam os ânimos naquela
manhã!). Olhámos uns para os outros,
meio embruxados e durante trinta ou
quarenta segundos pairou na atmosfera
uma espécie de êxtase coletivo.
Evaporado este, os olhares regressaram
aos monitores e fez-se ouvir de novo o
matraquear dos dedos nos teclados.
Não sei porque recordo este singelo
episódio com tanta nitidez. Naquela
altura a empresa encontrava-se em franco
crescimento e as admissões eram
frequentes. Claro que, a não ser que
viessem aliviar diretamente o trabalho
de cada um, eram recebidas com
displicência. E só encontro uma
explicação para o fenómeno - Mário
Corte-Real era um caso à parte. Ninguém
ficava indiferente àquela sonoridade
sobrenominal. E, embora houvesse
suspeitas (nunca confirmadas, aliás) de
que a sua admissão não seguira os
trâmites habituais, toda a gente
aceitava o facto como natural.
Mário Corte-Real não era propriamente
bonito. Contudo, tinha uma figura
agradável, um sorriso simpático e um ar
suficientemente masculino para se tornar
atraente. O rosto era oval, de testa
alta, nobre, nariz aquilino e lábios
finos. O cabelo era castanho claro,
rebelde e um pouco comprido, com alguns
fios prateados. Os olhos eram grandes,
de uma cor indefinida entre o castanho e
o esverdeado, e transmitiam a sensação
de uma argúcia extrema. Eram olhos que
nunca vagueavam ao acaso, que analisavam
e sintetizavam sem cessar. Os seus
gestos eram contidos e vestia com
simplicidade.
Com efeito, Mário Corte-Real era um
homem encantador. Ao contrário da
generalidade das pessoas de apelido
sonante, propensas a provocar antipatias
viscerais, ninguém resistia ao seu
fascínio. E um fator decisivo para tal
consistia na evidência de que tudo fazia
para não dar nas vistas. Quem é que
podia deixar de reparar num homem
assim?! E, embora isso se notasse
maioritariamente depois de lhe
conhecermos o sobrenome – selo
inequívoco da melhor das estirpes - o
certo é que se desprendia dele uma tão
elegante reserva que o tornava
irresistível.
Mário Corte-Real entrava cedo. Às oito
horas da manhã estava no seu posto.
Cumpria escrupulosamente o horário de
forma a não deixar dúvidas de que não
gozava de quaisquer privilégios.
Contudo, saía cedo também. O que
originava especulações fortuitas sobre
eventuais afazeres fora da empresa. Por
norma, almoçava sozinho. Porém, se
alguém o desafiasse, alinhava sem se
fazer rogado. No entanto, conquanto
fosse simpático, nunca falava de si
próprio. Às vezes deixava escapar uma
informação solta, desgarrada, que nada
revelava de importante sobre a sua
pessoa. No fundo, não se dava a
conhecer. E conseguia esquivar-se com
tal tato que, quem procurasse saber mais
da sua vida (sempre de forma subtil -
ninguém se atrevia a questioná-lo
diretamente) acabava por desistir sem
chegar a sentir-se intruso. Sim, Mário
Corte-real era um homem com o seu quê de
misterioso. O que o tornava ainda mais
cativante.
Não foi preciso muito tempo para a fama
de Mário Corte-Real se propagar para
fora da nossa Direção. E foi inevitável
a minha colega Fátima Figueira, uma
criativa iluminada da direção comercial
da empresa, reparar nele. Um dia,
passado cerca de um mês sobre a admissão
de Mário Corte-Real, enquanto nos
dirigíamos as duas para o restaurante
onde almoçávamos às quartas-feiras,
agarrou-me o braço e segredou-me ao
ouvido:
- Posso morrer!... Já vi o Corte-Real.
Estive numa reunião com ele.
- E que tal?...
- Lindoooo!... Simples, simpático, sem
peneiras nenhumas. E deve ser muito
esperto. Já reparaste nos olhos que ele
tem?...
- Não achas que é um pouco cedo para uma
opinião tão perentória?
Mas não era. Mário Corte-real era
competentíssimo. Ao fim de somente seis
ou sete semanas havia na Direção uma
total unanimidade em relação à invulgar
qualidade do seu trabalho. À primeira
vista poderia parecer apenas mais um de
entre os muitos que contribuíam
ativamente para a geração das toneladas
(melhor dizendo, dos gigabytes) de
código que ali se produziam por ano.
Nada mais errado. Por sistema, lograva
encurtar os prazos de execução e
demonstrar um rigor muito superior ao
expectável em todas as tarefas que lhe
eram confiadas. Às vezes eu
questionava-me se tal se deveria a uma
real craveira superior ou simplesmente a
uma gestão pessimista de expectativas.
Mistério. O efeito do nome Corte-Real
era imponderável.
Nas reuniões, falava pouco. Mas, quando
o fazia, era escutado com atenção e
nunca era interrompido. A sua presença
impunha-se de tal modo que, conquanto
não defendesse as suas ideias com garra,
estas evidenciavam uma inquestionável
aura de rasgo e eram invariavelmente
aceites. Todavia, nem sempre surtiam os
resultados esperados. Mas, curiosamente,
esse facto não parecia preocupar
ninguém. Enfim, Mário Corte-Real era um
génio.
Ao fim de três meses foi promovido a um
lugar de chefia. Bem sei que, antes de
mais nada, foi tudo uma questão de
sorte. O colega que ocupava o cargo saiu
repentinamente da empresa e Mário
Corte-Real foi substitui-lo. E pareceu a
todos que se tratava de uma justa
recompensa pelos elevados serviços que
já havia prestado. Contudo, creio não
ser descabido afirmar que, muito
provavelmente, já nessa altura Mário
Corte-Real detinha o estatuto suficiente
para que, caso o destino não o
facultasse, fosse criado um cargo de
chefia na hierarquia da empresa de
propósito para ele.
Uma vez chefe, Mário Corte-Real
pulverizou as previsões mais otimistas
(embora eu continuasse a não conseguir
determinar se estes sistemáticos erros
de paralaxe por defeito não derivariam
de uma instintiva indulgência perante um
membro de uma mui antiga família de
valorosos navegadores). Era um líder, na
verdadeira aceção da palavra. O seu
comando era exercido na perspetiva de
prestação de um serviço e não (como
acontece com a maioria dos chefes) como
um mero exercício de autoridade. Claro
que os seus subordinados não ousavam,
muitas vezes, colocar-lhe problemas de
difícil solução. Antes mostravam uma
nova e inusitada vontade de apresentar
trabalho, de forma a brilhar diante do
novo chefe, que adivinhavam influente.
Por isso, resolviam sozinhos as questões
que se lhes apresentavam, por muito
complicadas que fossem. Todavia, em
rigor, tal atitude positiva devia-se
unicamente ao efeito catalisador de
Mário Corte-Real. Sim, se alguém tivesse
duvidado do acerto da escolha dele para
o lugar, acabaria por ser forçado a
reconhecer o erro crasso de uma tal
opinião.
Foi por acaso que descobri que a minha
colega Fátima Figueira estava apaixonada
por Mário Corte-Real. Em certa ocasião,
ele cruzou-se connosco num corredor da
empresa. Ao passar por nós sorriu-nos e
eu, que conhecia a Fátima Figueira muito
bem, percebi que ela, por baixo da
maquilhagem, corava como uma
adolescente. Talvez este sinal pudesse
parecer insuficiente ou equívoco mas,
naquele momento, atingida pelo seu olhar
atrapalhado, tive a certeza absoluta de
que ela, sem querer, me acabara de
revelar o seu mais recôndito segredo.
Só depois, olhando para trás no tempo,
me apercebi de que Fátima Figueira
sofrera uma singular transformação nas
últimas semanas. Desde sempre alegre e
faladora, andava mais aérea e, ao mesmo
tempo, menos exuberante. E, malgrado
saber que ela formara uma opinião muito
positiva de Mário Corte-Real desde a
primeira hora, fiquei perplexa. Eu sabia
que Fátima Figueira era uma mulher de
paixões. Enamorava-se com facilidade.
Mas os seus casos de amor eram de curta
duração e não deixavam marcas. Como sua
amiga e confidente, eu estava habituada
a acompanhar a par e passo o desenrolar
dos seus affaires desde a primeira hora,
e conhecia bem os sintomas das suas
diversas fases. Por isso mesmo, agora,
parecia-me que o caso era mais sério.
Tão sério que ela não tivera coragem de
mo confessar. E este pensamento fez-me
sentir vagamente arrepiada.
A verdade é que Fátima Figueira (como
aliás qualquer de nós) mal conhecia
Mário Corte-Real. Raramente falava com
ele. Como diabo se fora enamorar de uma
pessoa de quem, em rigor, nada se sabia?
Ainda por cima daquela maneira absurda?!
Não perceberia ela que, como qualquer
membro de uma boa família, ele só se
uniria a alguém do seu nível social? Que
nunca se envolveria a sério com uma
Figueira? Como é que ela podia ter
esperanças de que um Corte-Real olhasse
para ela?...
Todavia, Fátima Figueira era uma mulher
muito interessante. Bonita e com boa
figura. Morena clara, com uma pele
lindíssima e uns espetaculares olhos
verdes, estava habituada a atrair o sexo
forte. Porém, embora eu não percebesse
porquê, sofrera sempre de uma bizarra
inclinação por homens divorciados,
complicados e difíceis. Os namorados
revelavam-se invariavelmente criaturas
complexadas, com situações mal
resolvidas, juncados de problemas de
toda a ordem. E, por norma, depois de a
conquistarem, aguardavam com serenidade
que ela descortinasse soluções para as
questões que, sozinhos, não haviam
conseguido resolver. Fátima Figueira
acabava por descobrir que sofriam de um
vício oculto ou de um complexo ingerível.
Por outro lado, passavam a vida a dizer
mal da ex-mulher, conseguindo
transmitir, no meio da maledicência, que
nunca seriam capazes de a esquecer. Além
disso, tinham aquele filho terrorista ou
aquela filha embirrante que, para eles,
estaria eternamente acima de qualquer
outra pessoa. E, claro está, entendiam
que Fátima Figueira devia não só adorar
como aturar o rebento. A tal ponto estes
clichés se haviam repetido na sua vida
amorosa que Fátima Figueira acabara
nutrindo um verdadeiro horror a homens
divorciados.
Fátima Figueira pertencia àquela espécie
de mulheres que querem casar. Casar bem.
Fundar uma família e ter filhos.
Todavia, depois do último desaire
sofrido, confessara-me que não mais se
deixaria envolver a não ser que
estivesse absolutamente certa de ter
encontrado o homem ideal. E, enquanto
aguardava essa dádiva do destino, Fátima
Figueira não deixava de se divertir.
Mas a realidade torna-se, muitas vezes,
mais inverosímil que a própria ficção. A
partir de certa altura, apercebi-me de
que também Mário Corte-Real nutria uma
certa predileção por Fátima Figueira.
Quase impercetível, é certo. Mas, ainda
assim, uma predileção. Sempre que nos
encontrávamos as duas numa pausa laboral
ao pé da máquina de café do nosso piso e
ele passava por perto, infletia a
trajetória e juntava-se a nós. E,
enquanto beberricávamos o café o mais
devagar possível, a fim de repor
lentamente os níveis de cafeína no
sangue, não despegava os olhos dela.
Confesso que, durante algum tempo, ainda
estive em dúvida sobre qual de nós as
duas seria o alvo preferencial das suas
atenções… Mas depressa me desenganei. E,
apesar de apanhar estas coisas no ar,
fingia-me desentendida. E não dizia uma
palavra sobre isto a ninguém, muito
menos a Fátima Figueira.
Iam as nossas vidas decorrendo desta
maneira quando a nossa empresa, a
pretexto de um qualquer sucesso
comercial, resolveu oferecer um jantar a
todos os colaboradores. Claro que a
Fátima Figueira arranjou maneira de
ficar sentada ao lado do Mário
Corte-Real (ou teria sido o contrário?).
Eu, que também estava na mesma mesa,
reparei que durante o jantar quase não
falaram. Porém, no fim do repasto,
quando os outros convivas se dirigiram
para a pista de dança, eles permaneceram
sentados à mesa, como que à espera de
uma oportunidade para falarem a sós. Fui
também dançar e, vários trechos de
música depois, quando regressei ao meu
lugar a fim de descansar os meus pés
pouco habituados à mistura de saltos
altos com folia, verifiquei que Fátima
Figueira e Mário Corte-Real haviam
desaparecido. E, durante toda a noite,
nunca mais lhes pus a vista em cima.
Passaram duas semanas durante as quais
não vi a Fátima Figueira. Parecia que se
tinha evaporado. E, como eu atravessava
um pico de intenso trabalho que
facilmente justificaria o meu mutismo
(além de que me sentia melindrada por
ela não me ter confessado abertamente a
sua paixão), não a procurei. Ademais,
porque o faria? Para mim era claro que
Fátima Figueira, desde a noite do
jantar, andava envolvida com Mário
Corte-Real. O que a devia absorver
totalmente. Todavia, quando eu me
cruzava com ele, não conseguia
descortinar nada de inusitado no seu
nobre semblante.
Quando, umas semanas depois, finalmente
se dignou comparecer ao nosso almoço,
Fátima Figueira parecia outra. Estava
feliz, radiante.
- Estou apaixonada! – disse-me, mal nos
sentámos à mesa do restaurante.
Olhei para os seus olhos brilhantes e
não resisti a revelar:
- Sim, já sabia…
- Ah sim?!...
- Sim. Estás apaixonada pelo Corte-Real.
Já há algum tempo que percebi.
Fátima Figueira sustentou o meu olhar
ligeiramente abespinhado.
- Desculpa não te ter dito nada, mas não
estava segura de ser correspondida.
- E desde quando é que esse facto te
impediu de falares comigo?... No
entanto, não há nada a desculpar. Não
tens qualquer obrigação de me contar a
tua vida – e, esboçando um sorriso,
inquiri - Mas diz-me, como vão as
coisas?
- Oh, vão muito bem. Ele é um homem
maravilhoso. Tem muita classe e trata-me
como se eu fosse uma rainha.
- É solteiro?
Fátima olhou para mim e respondeu,
tentando parecer natural:
- Não. É divorciado.
- Fátima! – respondi, desta vez num tom
de verdadeira censura - Já te esqueceste
do passado? Não consegues evitar repetir
os mesmos erros?...
- Oh, desta vez é diferente. Ele não tem
filhos. Além disso, nunca fala da
ex-mulher. É como se não existisse. Nem
sei como ela se chama…
Calei-me. Na vida, tudo é possível.
Talvez ela tivesse acertado em cheio na
roleta da sorte. Afinal, um Corte-Real é
um Corte-Real. Decerto o comportamento
dele seria díspar de o de outro
divorciado qualquer. O sangue fazia a
diferença.
Durante o nosso almoço, Fátima Figueira
não parou de me relatar as inúmeras
qualidades do novo amante. E eu
escutei-a, interessada, desejando que,
finalmente, ela tivesse encontrado o
homem certo. Nunca vira Fátima Figueira
tão enredada nas teias da paixão.
O tempo foi passando. Decorreu um mês,
dois meses, seis meses. O envolvimento
de Fátima Figueira com Mário Corte-Real
prosseguia num crescendo. Ela estava
cada vez mais enamorada. Agora, já
falava em casamento.
Feliz pela minha amiga, eu acompanhava o
evoluir do romance com agrado. Afinal,
apesar de divorciado, Mário Corte-Real
ainda não evidenciara nenhum dos
inconvenientes dos anteriores namorados
de Fátima. Era cordato, seguro,
descomplicado. Sim, eu tinha de admitir
que, desta vez, ela parecia ter acertado
em cheio.
No entanto, havia algo que me começava a
provocar uma certa estranheza. Devo
confessar que sou um pouco desconfiada.
Afigurava-se-me que havia ali perfeição
a mais. Por outro lado, continuava a não
se saber nada dele, a não ser que vivia
sozinho e era natural do Porto. Enquanto
Fátima Figueira já havia percorrido com
ele todas as capelinhas, apresentando-o
à generalidade da família e dos amigos,
ela continuava sem conhecer ninguém
relacionado com o namorado.
- Vivem todos no Porto… – respondeu-me
quando, em certa ocasião, tentei
insinuar-lhe no espírito as minhas
dúvidas.
- Oh, que horror!... O Porto é tão
longe!... Está nos antípodas!... –
respondi eu, ridicularizando aquela
justificação tão fácil de refutar –
Vocês até já foram passar uma semana em
Porto Galinhas, mas o Brasil é muito
mais perto…
Fátima olhou para mim e não respondeu.
Eu continuei:
- Fátima, vocês estão a pensar em casar.
Ele vai ter de te apresentar à família.
Não achas esquisito que ainda não o
tenha feito?...
- Oh, não sei… Talvez tenha de esperar
mais algum tempo. Sabes como a família
dele é importante…
- Não sei se é importante… Já os
conheces?... Ao menos, sabes como se
chamam os pais? Se tem irmãos? Parece-me
que há vários ramos de “Cortes-Reais”…
- Não, não sei. Mas tenho toda a
confiança nele. Mesmo sem saber a que
ramo pertence, não deixa de ser um
Corte-Real. Tem bons genes, bons
princípios. E nós vamos casar. Eu sei
que ele me ama verdadeiramente. Também
és mulher. Deves saber que uma mulher
sente estas coisas – afirmou perentória,
sustentando o meu olhar duvidoso. E
acrescentou:
– Tenho a certeza de que, daqui a uns
tempos, chamar-me-ei Fátima
Corte-Real!...
Mas a marcha inexorável do tempo foi
prosseguindo sem trazer qualquer
evolução ao romance de Fátima Figueira e
Mário Corte-Real. Claro que eu agora já
não duvidava de que ele nunca se casaria
com ela. Tinham ambos um bom ordenado,
eram independentes, maiores e vacinados.
Ele estava à espera de quê? Que motivo
poderia haver para ainda não ter
assumido o romance junto dos seus? E só
podia haver uma razão – ele não gostava
verdadeiramente dela. Fora tudo um
embuste.
Entretanto, realista que era, também
Fátima se viu forçada a admitir a
verdade. E, a pouco e pouco, foi
perdendo o ar enlevado e feliz que
exibira desde o começo do envolvimento.
Agora, já tinha sérias dúvidas quanto à
inclusão da sua pessoa nos planos de
futuro de Mário Corte-Real. Contudo
dizia-me que quando estava ao pé dele
lhe era impossível fugir ao fascínio que
tal criatura exercia sobre ela.
- Não sei o que tem este homem. Deve ser
bruxo. Quando estamos juntos, não
consigo resistir-lhe. Basta tocar à
campainha da minha porta para eu
esquecer de imediato o ultimatum que
tinha decorado na ponta da língua!...
- Mas tens de acabar com isto, Fátima.
Já se viu que não te vai levar a lado
nenhum. Ele não quer casar contigo. Se
não te importas de continuar solteira e
viver amancebada…
- Sabes bem que me importo. Sempre
sonhei com uma família, com filhos, tudo
nos conformes… - calou-se durante uns
segundos, com ar pensativo, para depois
acrescentar sonhadoramente – desta vez,
estava tudo tão bem… Ele parecia gostar
tanto de mim…
- Coragem! Já passaste por isto antes.
Manda o tipo passear. Ele não é flor que
se cheire!... – incentivei-a uma vez
mais.
Claro que, durante todo este tempo, eu
estivera atenta a Mário Corte-Real. E,
nas últimas semanas, julgara notar-lhe
algum abatimento no semblante. Parecia
preocupado. Quando passava por mim,
baixava os olhos. E eu sabia porquê. O
romance entre ele e Fátima Figueira
conseguira permanecer secreto graças à
minha discrição. Conhecedor da minha
amizade por ela, Mário Corte-Real devia
temer que eu, irritada com o facto de
ele a ter enganado, pusesse fim ao meu
mutismo, dando a conhecer a toda a
empresa os seus esquemas de conquistador
de meia-tigela. O que teria fatalmente
efeitos nefastos na sua brilhante
carreira. De facto, atitudes destas não
granjeavam a simpatia de ninguém. Mesmo
oriundas de um Corte-Real.
Só havia um pormenor que não encaixava
no quadro que eu desenhava de toda a
situação. Porque razão Mário Corte-Real
não punha um termo na relação com Fátima
Figueira? Teria medo que ela sofresse
uma depressão nervosa?... Ela não era
desse género. Mas talvez ele ainda não a
conhecesse o suficiente para saber isso.
Sim, para ele era preferível ir
arrastando a situação até ela acabar por
se chatear. Só que ela tardava em
fazê-lo.
Todavia, tal como um copo que extravasa
com a última gota, um dia chegou em que
Fátima Figueira me telefonou
transtornada:
- Acabou-se! Não aguento mais! Imagina
que o homem me disse que há vários anos
não vê os pais!... Nem sabe se são vivos
ou mortos!... E que vai precisar ainda
de mais tempo para voltar ao convívio
com eles… Achas normal?... Desta vez é a
sério. Vou acabar com isto. E já!...
Nem me deu tempo para responder.
Desligou, deixando-me em suspenso
daquilo que se seguiria.
No dia seguinte convidei-a para almoçar.
Desejava saber o resultado prático da
sua conversa da véspera e, sobretudo,
dar-lhe apoio. Afinal, tratava-se do fim
de uma relação que a havia afetado
profundamente. Apesar de toda a sua
força anímica, Fátima Figueira devia
sentir-se carente, necessitada de
encostar a cabeça a um ombro amigo.
Quando a observei, achei-a calma, embora
triste. Fátima Figueira sabia encarar de
frente a adversidade. Estava conformada.
Durante o caminho para o restaurante não
abriu a boca. Sentámo-nos, escolhemos os
pratos e foi necessário eu encetar as
hostilidades para ela dizer alguma
coisa:
- Então?... Como correram as coisas
ontem? Sempre acabaste com o
Corte-Real?... Conta-me tudo!
- Não há nada para contar. Acabei tudo,
como te disse.
- E… é definitivo?
- Não podia ser mais. Este homem não
gosta de mim. Reconheço que fez uma boa
imitação do contrário, durante quase um
ano. Mas tu é que tinhas razão. Era tudo
muito esquisito. Um Corte-Real não pode
casar com uma Figueira…
Fátima deteve-se por um momento,
pensativa. Depois olhou para mim e
forçou um sorriso - Mas agora,
acabou-se. Sou livre, de novo!...
- E ele? Como reagiu?...
- Oh, pessimamente. Suplicou-me que lhe
desse mais algum tempo. Jurou que me
amava. Chegou ao ponto de chorar!... Mas
nada me conseguiu demover. Já conheço
bem o espécime. Mas digo-te, está ali um
ator como nunca vi!... Parecia mesmo
desesperado!...
- Deixa lá! Fizeste o que tinha de ser
feito. Agora, esquece. Os homens
consolam-se depressa.
Passaram-se três ou quatro dias. Logo
que arranjei um pretexto, fui até ao
gabinete onde trabalhava o Mário
Corte-Real. Curiosa por natureza, não
resistia a tentar avaliar pelos meus
próprios olhos o impacto que o fim do
romance com a minha amiga pudesse ter
tido naquele energúmeno. Como é
evidente, esperava encontrá-lo aliviado.
Afinal, ele conseguira o seu objetivo.
Ela afastara-se, ilibando-o
automaticamente de quaisquer culpas.
Contudo, quando olhei para a criatura,
tive um choque. Estava abatidíssimo.
Parecia até doente:
- Corte-Real, você está bem? – não pude
deixar de perguntar, embora o tom me
saísse um pouco ríspido.
- Nem por isso… – respondeu com uma voz
roufenha - tenho andado com uma gripe
tremenda – após o que fungou e tossiu
três ou quatro vezes.
Estranho, pensei para mim mesma. A
fungadela e o ataque de tosse haviam-me
parecido mais do que forçados. O homem
devia estar realmente doente, mas não
com gripe. A não ser que… E conjeturei -
até onde pode chegar a capacidade de
representar de um ser humano? Não
haveria limites para o fingimento? Bem
sei que se tratava de um Corte-Real, e
não de um comum mortal! Mas, mesmo
assim… E saí do gabinete sem saber o que
pensar.
No dia seguinte, quando menos esperava,
cruzei-me com ele no corredor. E,
durante uma fração de segundo, tive a
sensação de que me olhava com um ar
suplicante. Mau! Que quereria aquilo
dizer? Agora, que se livrara da Fátima
Figueira, considerar-me-ia a mim um alvo
apetecível para os seus deboches?...
Todavia, a minha confusão poder-se-ia
considerar diminuta comparada com a que
eu sentiria três dias depois, ao receber
um telefonema de Mário Corte-Real,
absolutamente inesperado. O telefone
tocou e eu atendi:
- Está lá? – disse eu distraidamente.
- Estou sim… – responderam-me do outro
lado do fio, com uma voz fanhosa que me
pareceu vagamente familiar.
- Quem fala? – perguntei.
- Mário Corte-Real. Preciso de falar
consigo...
Abafei uma exclamação de surpresa. Era
só o que me faltava o homem começar a
assediar-me.
- Ah, sim?... E porquê, posso saber?...
- É um assunto particular, para ser
falado pessoalmente.
O desprezo que agora sentia pelo homem
era superior à eventual curiosidade que
me pudesse despertar. Julgaria ele que o
nome Corte-Real lhe dava o direito de
brincar com as pessoas? Quem pensaria
ele que eu era? Outra Fátima?...
- Pois eu não quero falar consigo. Muito
menos pessoalmente. Nada do que você
possa dizer é suscetível de me
interessar!...
Fez-se silêncio. Poucos segundos depois
escutei uma espécie de soluço. E, quando
Mário Corte-Real voltou a falar, estava
claramente a chorar, de voz embargada
pela emoção.
- Meia hora! Só lhe peço meia hora!
Suplico-lhe que não me volte as costas!
É sobre a Fátima…
A contra gosto, senti a minha fúria
esmorecer. Ninguém neste mundo
conseguiria fingir tão bem, a não ser
que fosse um louco furioso. Não. Aquele
homem estava realmente aflito.
- Como quiser – respondi - onde e quando
nos encontramos?
Combinámos encontrar-nos nessa mesma
noite, num bar recatado, onde a
probabilidade de darmos de caras com
alguém conhecido era quase nula. Eu
queria tudo menos ser vista na companhia
de Mário Corte-Real.
Quando cheguei, ele já estava à minha
espera. Reparei que continuava com um ar
combalido, embora o seu olhar tivesse
readquirido a argúcia. Sentámo-nos e,
sem mais preâmbulos, disse-lhe:
- Vamos ao que interessa. Sou toda
ouvidos.
Ele cravou-me um olhar intenso. Parecia
hesitar. Por fim, acabou por dizer,
olhando em volta com um ar sonhador:
- Vim aqui com a Fátima, algumas vezes.
Ela não conhecia isto…
Eu começava a impacientar-me:
- Não me diga que foi para me dizer isso
que me fez vir até aqui!...
Ele voltou a mergulhar os olhos nos meus
e adquiriu uma atitude algo rígida.
- Não, claro que não. O que eu lhe quero
dizer é o seguinte. Amo profundamente a
sua amiga Fátima Figueira. O meu maior
desejo no mundo é casar com ela.
- Ah, sim?
- Sim.
Nova pausa. A minha paciência estava no
fim:
– Ou você me diz o que quer de mim ou
vou-me embora imediatamente. Não estou
para ficar aqui a noite inteira a ouvir
as suas baboseiras.
Enquanto eu falava, Mário Corte-Real
mantivera os olhos baixos. Quando os
ergueu, vi que estavam cheios de
lágrimas. Tentava desesperadamente
controlar a emoção na voz:
- Mas não são baboseiras!... Eu quero
mesmo casar com a Fátima. Estou disposto
a tudo para isso. E sei que ela também
quer casar comigo. Mas não consigo falar
com ela. Não atende os meus telefonemas…
Não me responde às mensagens…
E, enquanto ele desfiava o seu rosário,
pensei: Grande Fátima! Quanto a ele, não
sentia nenhum dó. Por muito arrependido
que agora se mostrasse, ela dera-lhe
muito tempo para se decidir.
- E que quer que eu faça?
- Fale com ela! Peça-lhe que me receba
uma última vez!...
Olhei para ele. Era a máscara do
sofrimento. Quase senti pena do homem.
- Agora é tarde, Corte-Real. Nunca vi a
Fátima voltar atrás numa decisão.
E, percebendo que ele ia continuar com
os rogos, desferi:
- Esse seu sentimento é muito bonito!
Mas diga-me, se gostava dela a esse
ponto, porque demorou tanto tempo a
decidir-se a casar?...
- Oh, tinha as minhas razões…
- Ah sim? Pois acho melhor que mas
explique, senão não vejo como possa
ajudá-lo…
Entretanto, aproximara-se de nós o
empregado de mesa. Apesar da disposição
bizarra que sentia, fiz a minha escolha:
- Um Bloody Mary, se faz favor.
- O mesmo para mim – murmurou
Corte-Real, que nem se dera ao trabalho
de abrir o menu dos cocktails.
Quando o empregado se afastou, voltei à
carga:
- Vamos. Estou à espera.
Mário Corte-Real voltou a encarar-me e
disse, não sem uma certa altivez:
- Seja! Farei o que me pede. Mas quero
que perceba, desde já, que o que lhe vou
contar me é extremamente penoso. E que é
somente por amor da Fátima que consinto
em dar-lhe a conhecer o meu segredo mais
bem escondido. E que espero que a minha
franqueza a convença a pleitear a minha
causa junto dela…
Eu começava a sentir um vivo interesse.
De forma que me apressei a concordar.
- A minha capacidade de compreensão é
ilimitada. Faça-me o favor de continuar.
Mário Corte-Real respirou fundo e
fixou-me de novo:
- Aqui vai. Não sou um verdadeiro
Corte-Real. O meu nome de batismo é
Mário Martins. Corte-Real é o apelido da
mulher com quem casei.
- O quê? Como? Não pode ser!...
Mário Corte-Real fez um sorriso
trocista.
- Eu já esperava a sua reação. Mas com
certeza não ignora que a lei vigente
prevê que qualquer dos cônjuges possa
adotar o apelido do outro. No meu caso,
fui eu que adotei o da minha mulher.
- Mas porquê, Corte-Real, porquê?
- Porque sendo filho de gente modesta,
desde muito cedo percebi que, neste
mundo, um bom nome vale mais que mil
aptidões. E tive a sorte de encontrar no
meu caminho uma Corte-Real que se
apaixonou por mim.
- Que se apaixonou por si?... E você?
Não se apaixonou por ela?...
- Eu? Não, de maneira nenhuma. Tinha-lhe
amizade, mas nunca a amei. A tal ponto
que o nosso casamento fracassou. E,
dando-se conta disso, ela acabou por
pedir o divórcio.
- Mas então… Então… Como é que você
ainda conserva o apelido de Corte-Real?
Não o devia ter perdido após o divórcio?
- Não forçosamente. A lei também prevê
que, em caso de divórcio, os nomes
adquiridos através do casamento possam
manter-se, desde que os cônjuges estejam
de acordo. De forma que, naquela altura,
admitindo que havia toda a vantagem em
continuar Mário Corte-Real em vez de
voltar a ser Mário Martins, pedi
autorização à minha esposa e ela
consentiu. Divorciado, conservei o
apelido que adquirira através do
casamento. Claro que, se voltasse a
casar, não faria sentido manter o
apelido que herdara de outra mulher.
Mas, na altura, eu tinha outros
objetivos na vida. Queria vir para
Lisboa, começar uma nova carreira como
um genuíno Corte-Real onde ninguém me
conhecesse. Sim, qualquer que fosse o
rumo que a minha vida tomasse, estava
certo que o nome de Corte-Real me
facilitaria a vida.
- E facilitou? – não pude deixar de
perguntar, embora já conhecesse a
resposta.
- Oh, nem imagina quanto! É incrível o
poder que duas simples palavras podem
ter. Claro que tenho consciência do meu
valor intrínseco. Trabalho bem, sou
criativo e cumpridor. Porém, estou
convencido de que, se tivesse conservado
o nome de Mário Martins, mesmo
demonstrando um desempenho absolutamente
idêntico, não teria alcançado metade das
posições que alcancei. Cheguei a dar-me
ao luxo de mudar de empresa sempre que
alguma coisa me desagradava. Nunca temi
o desemprego. Ao som do meu nome, todas
as portas se abriam…. – e acrescentou
sonhadoramente – Sim, era
verdadeiramente impressionante o que eu
conseguia como Mário Corte-Real…
- Era?... Era, porquê? Já não é?...
Mário Corte-Real abanou a cabeça:
- Para casar com a Fátima tenho de
abandonar o nome de Corte-Real e voltar
a ser o Mário Martins. Quero dar-lhe o
meu nome e não o nome de outra mulher.
Decidi-o há poucos dias – parou como que
a tomar fôlego, e acrescentou - quando
me apercebi de que não posso viver sem a
Fátima…
Eu estava atónita. Sim, tudo batia
certo.
- Agora percebo porque nunca a quis
levar ao Porto para a apresentar à
família…
- Família? Eu já não tenho família!
Quando me casei e adotei o nome da minha
mulher o meu pai bradou que nunca mais
me queria ver. Quanto à minha mãe,
sempre fez tudo o que o meu pai queria.
Aliás, soube há poucos dias que ela já
morreu. Pobre mãe, que tanto sofreu por
causa da minha ambição! Quanto a meu
pai, como é que eu podia pensar sequer
em levar a Fátima até ele?!...
As lágrimas caíam-lhe do rosto. Vi-o
respirar fundo. Quando conseguiu dominar
o choro, continuou:
- Mas agora estou disposto a tudo. Ela é
a mulher da minha vida. Estou decidido a
ir procurar o meu pai e pedir-lhe
perdão. Depois casarei com a Fátima e
voltarei a ser o Mário Martins. Para
tanto só preciso que ela me aceite… Pode
ajudar-me?...
Eu estava impressionada. Que narrativa!
E que amor, o daquele homem!... Errara,
decerto, mas quem é que não tem direito
à redenção? Comovida, só pude responder:
- Conte comigo. Ainda hoje falarei com
ela!...
E assim fiz. Acabei a bebida de um
trago, despedi-me de Corte-Real e saí do
bar. Uma vez cá fora, telefonei à Fátima
Figueira e avisei-a de que precisava de
a ver. Imediatamente.
- Credo! O que é que aconteceu? –
perguntou-me ela quando, de roupão e
chinelos devido ao adiantado da hora, me
abriu a porta do seu apartamento – o que
é que não podia esperar até amanhã de
manhã?...
- Isto que te vou contar… E, não me
interrompas, por favor. Venho
entregar-te a felicidade de bandeja!...
Intrigada, ela assentiu com a cabeça. E
eu, acomodando-me num dos sofás da sua
agradável sala imersa na penumbra,
desfiei a comovedora história de Mário
Corte-Real. Fátima, sentada ao meu lado,
escutava com atenção. A sua expressão
era impenetrável. Reparei que à luz
mortiça do candeeiro de pé, estava mais
bonita do que nunca. E, enquanto narrava
aquilo que me fora revelado, compreendi
que ela era daquele género de mulher
pela qual um homem pode facilmente
perder a cabeça.
Quando terminei, exclamei:
- Oh, Fátima! Estou tão feliz por ti!
Ele ama-te verdadeiramente. Já pensaste
em tudo o que ele vai ter de enfrentar
pelo teu amor?!... Perdoas-lhe, não é
verdade?... E casas com ele, certo?...
Mas Fátima continuava com um semblante
enigmático. Olhou para mim e, quando
intersetei o seu olhar, senti um
arrepio. Era um olhar por onde
perpassava uma frieza glacial.
- Não, minha querida. Não vou casar com
ele. Muito menos depois de saber aquilo
que acabaste de me contar. Eu queria ser
Fátima Corte-Real, não Fátima Martins.
Para isso, mais vale continuar como
Fátima Figueira…
Fez uma pausa. E, enquanto me fitava, o
seu olhar suavizou-se um pouco.
- De qualquer maneira agradeço o que
fizeste por mim. És uma verdadeira
amiga. E a melhor conselheira que já
tive. Juro-te que doravante vou seguir o
teu conselho. Nunca mais, ouve bem,
nunca mais me vou envolver com um homem
divorciado!... Está provado que, duma
maneira ou de outra, uma ex-mulher deixa
sempre rasto!...
Adelina Velho da Palma |