Sebo - Adelina Velho da Palma

SEBO LITERÁRIO

Contos

autor

 
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O VIZINHO

Sou um homem solitário e pouco gregário. Amo o silêncio, a quietude e o isolamento. Ainda estou na primeira metade da vida mas nunca senti aquela necessidade de me atordoar que parece ter-se generalizado na minha geração. Como se a perturbação dos sentidos constituísse antídoto eficaz para a angústia da existência. Suponho que isto se deve apenas ao facto de eu gostar de mim próprio e de, por consequência, retirar o prazer e a motivação suficientes para a vida de atividades solitárias como a leitura, a música e, até, a simples reflexão.
Portanto, evito os outros seres humanos. Não que não aprecie as pessoas e não sinta, de quando em quando, um certo prazer na sua companhia. Porém, ao fim de algum tempo de convivência, sobrevém-me invariavelmente um imenso desejo de me fechar na minha concha, de me esconder, de ficar só. Aceito a vida filosoficamente e, se tenho momentos de pesar, depressa os ultrapasso sozinho. Aliás, nunca senti verdadeiramente a falta de ninguém e, em boa verdade, embora não seja imune às emoções, reconheço que os outros não me suscitam o menor interesse. Claro que sou celibatário.
A única exceção a esta postura é o meu círculo de amigos do Clube de Bridge, com quem me encontro regularmente para um rubber. Todavia, embora se trate de uma longa amizade, sei que subsiste porque, além de todos pensarmos da mesma maneira, a maior parte do tempo que despendemos uns com os outros passamo-la imersos no jogo, absorvidos no mais solitário dos raciocínios, e não em verdadeiro convívio.
Também os bens materiais não me atraem. Contudo, trabalho num banco. Lido com dinheiro, dívidas, juros, créditos e penhoras. E tenho uma palavra decisiva no que respeita o deferimento de solicitações de empréstimo. Porém, até esse facto acabou por acentuar o meu desejo de distância em relação ao meu semelhante. E, apesar do lucro que a minha entidade patronal deles obtém, nutro o mais profundo desprezo pelos desgraçados que, querendo a todo o custo viver acima das posses, para tanto se endividam até à completa ruína.
No meu trabalho cumpro leal e escrupulosamente as minhas funções. Sou responsável, assíduo e pontual. Ninguém conhece a minha vida e eu não conheço a de ninguém. E assim pretendo continuar. Não tive a sorte de nascer rico, de forma que tenho de trabalhar para viver. Contudo, não sou ambicioso. Nem alimento qualquer desejo de ascensão numa hierarquia laboral cuja trama condeno. Ademais, o rendimento que o meu cargo me proporciona é o necessário e suficiente para os meus gastos.
Por outro lado, gosto de viajar. A natureza agrada-me, assim como as suas leis incontornáveis. Apraz-me atravessar regiões inexploradas, calcorreando o desconhecido, dormindo em abrigos à beira dos caminhos, sem guia nem cicerone, no mais puro e egoísta espírito de descoberta. Mas também experimento um enorme prazer ao explorar os segredos das velhas capitais europeias e asiáticas. Quando penetro nos seus templos e catedrais, sinto-me envolvido por uma atmosfera feita da vibração de gerações de preces silenciosas, dos tempos em que a humanidade se norteava por outros valores que não o Dow Jones e a concorrência. E detesto as hordas de turistas que penetram nesses lugares santos, palrando sem recato e abusando dos flashes, especialmente os japoneses, cujos olhos míopes por detrás das câmaras de filmar, para tudo registar nada veem.
No entanto, apesar da minha índole desprendida, desde muito jovem que eu nutria um sonho, um único sonho na vida - uma casa minha. Mas atenção! Não uma casa qualquer, mas a morada perfeita, o bunker privado, o santuário onde me sentisse protegido das agressões do mundo.
Quando a minha situação económica o permitiu, comecei a pensar a sério no assunto. Porém, não cheguei sequer a empenhar-me a fundo na análise do que as imobiliárias tinham para oferecer. Numa luminosa tarde de primavera, daquelas em que somos atingidos pela súbita perceção de que nada é impossível, fui atraído (quiçá por uma força oculta) até um certo bairro. E, assim que pisei o soalho flutuante de um certo apartamento, intui de imediato que aquelas paredes mudas exigiam a minha presença.
O que não deixou de ser curioso, pois poder-se-ia inferir da minha maneira de ser que eu seria mais facilmente seduzido por uma vivenda isolada. Todavia, não foi o caso. As partes comuns do imóvel tinham portas por todo o lado. Eram saudavelmente labirínticas. Qualquer outra pessoa consideraria esse facto como um inconveniente mas eu encarei-o como uma subtil proteção. E foi assim que, acordado o montante da transação e feita a escritura do apartamento, procedi à mudança.
Se porventura me perpassavam dúvidas de que aquela era a materialização da habitação perfeita, depressa se dissiparam. Tudo o que eu sempre almejara numa casa, fora conseguido em plenitude. As janelas deixavam entrar a luz do sol, mas não a dos candeeiros da rua. Escutava o vento, mas não o trânsito. Apercebia-me da chuva, mas não da poluição. A casa era o meu mundo. Outro mundo. Um mundo melhor.
Decorei-a a meu gosto. Cada objeto me dizia alguma coisa. Muitos constituíam recordações de viagens longínquas e haviam sido comprados, não por exibicionismo, mas por puro deleite de contemplação. Eram, sem exceção, obras de artífices esmerados, dos que constroem com as próprias mãos aquilo que concebem, e não meros produtos de linhas de montagem. Quanto aos quadros e gravuras, considerava-os preciosidades sem preço, devido ao único e exclusivo critério do meu agrado. E, tanto uns como outros, conquanto já os possuísse antes da mudança, coadunavam-se tão bem com o novo enquadramento que surgiam aos meus olhos realçados por um brilho renovado.
No dia a dia, sempre me bastei a mim próprio. Por conseguinte, fazia as minhas compras, cozinhava o necessário, tinha um contrato com uma lavandaria e eu mesmo procedia à limpeza da minha casa usando o sistema de aspiração centralizado. Nada me desagradaria mais que saber os meus pertences devassados pelas mãos de uma empregada doméstica.
De manhã, ao sair, retirava o estímulo necessário para enfrentar um novo dia de trabalho do pensamento de que a casa ficava à minha espera. Que nada nem ninguém perturbaria aquele espaço só meu, cujas delícias só a mim se destinavam, e cujo usufruto somente eu soubera conquistar.
Ao fim da tarde, gostava de regressar do trabalho e de entrar diretamente na garagem ao volante do meu carro, de descer as sucessivas rampas até ao meu parqueamento situado no piso -4 (o último, contando de cima para baixo) sentindo-me imergir lentamente num mar de segurança e de ordem. Gostava de estacionar a viatura bem centrada no lugar que lhe estava destinado e de absorver o silêncio das caves, apenas quebrado pelo borbulhar da água nas canalizações e pelo sopro da ventilação. Gostava de subir no elevador, eternamente surpreendido pela leveza e suavidade do movimento, e do gesto de meter a chave na fechadura de alta segurança e senti-la ceder mais em jeito do que em força. E gostava, acima de tudo, de perceber a porta a fechar-se atrás de mim, com um baque surdo e um ligeiro estremecimento, tornando-me no único ser humano à face do planeta. Só então me sentia verdadeiramente tranquilo.
Uma vez dentro de casa, deixava-me invadir pela paz que invariavelmente me assaltava. A construção era excelente. O isolamento, melhor ainda. E um bálsamo reparador, quase milagroso, fazia-me esquecer o mundo barulhento e confuso que acabara de abandonar.
E era esta ordem sistemática, esta rotina perfeita, assente num deslizar habilidoso e programado por entre os sarcasmos da civilização, que me permitia saborear a dádiva da vida como um ritual sagrado.
O prédio era imenso - mais de sessenta apartamentos, com os respetivos parqueamentos e arrecadações, a que se somava uma dezena de lojas. Diariamente, centenas de pessoas frequentavam o imóvel. Além dos moradores, havia os vigilantes, os empregados da limpeza, os que tratavam das plantas, os que garantiam a manutenção dos diversos equipamentos e até os que analisavam a água da piscina e retificavam o seu nível de cloro.
Malgrado estar ciente destes procedimentos, na prática, raramente me cruzava com alguém. E a existência de todos estes serviços, aparentemente necessários para manter o imóvel em funcionamento, consubstanciava-se apenas em várias rubricas do orçamento do condomínio, onerando-o, e forçando-me desse modo a senti-la como factual.
Durante meses não conheci ninguém. Sentia-me nas nuvens. Claro que o que eu mais detestaria seria uma vizinhança barulhenta, desordeira e metediça. Porém, ninguém me incomodava. Aliás, tinha a sensação de estar sozinho nesta babilónia, de tal maneira o labirinto das partes comuns me protegia dos encontros, e as paredes do meu apartamento, do ruído das cercanias. De facto, encontrara o meu tabernáculo.
Um dia, acabei por travar conhecimento com o vizinho que habitava no apartamento cuja porta me ficava mais próxima. Era um senhor já idoso, e tão recatado como eu. Raramente o via e nunca o ouvia. Respirei fundo, aliviado. O Sr. Santos (pois era esse o seu nome), que também vivia sozinho, era o vizinho ideal. Não só passava despercebido (tanto quanto é possível passá-lo a quem mora ao nosso lado), como era prestável sem ser gregário. As nossas frações eram confinantes, assim como os nossos parqueamentos e arrecadações. Compartilhávamos a casa do lixo e os patamares de acesso aos apartamentos. Cuidadoso, o Sr. Santos deixava sempre tudo limpo e arrumado, sem uma vírgula fora do lugar. De facto, o nosso entendimento como vizinhos era perfeito. A tal ponto que começámos a revezarmo-nos mutuamente nas reuniões de condomínio, cada um munido de uma procuração do outro, evitando assim de forma alternada o aborrecimento de ter de participar nessas sessões, ao mesmo tempo que não escamoteávamos a representação da nossa permilagem.
Passaram três anos e tudo caminhava pelo melhor. A minha ligação à casa fortalecera-se. Todas as suas qualidades, que eu de imediato pressentira, haviam recrudescido. O silêncio era cada vez mais intenso, a paz cada vez mais reconfortante e a ordem cada vez mais sublime.
Mas o Sr. Santos morreu. Não o soube logo, mas apenas quando percebi que o seu apartamento estava à venda. Um enorme cartaz de “VENDE-SE”, pendurado no exterior de uma das janelas, anunciava-o. Apressei-me a questionar o vigilante que estava de serviço na portaria:
- O Sr, Santos faleceu de repente – esclareceu - e os herdeiros puseram a casa à venda…
Não fiquei muito tranquilo. Quem compraria a casa? Que tipo de pessoa viria morar ao meu lado? Depois de um vizinho como o Sr. Santos, as coisas só poderiam piorar…
Porém, o apartamento tardava em ser vendido. Cheguei até a pensar em adquiri-lo eu mesmo, mas a deliciosa rotina de minha vida impedia-me tacitamente de tomar qualquer iniciativa nesse sentido. Até que um dia, quando regressei do trabalho, compreendi que o andar ia finalmente ser ocupado. Uma enorme camioneta de uma empresa de mudanças descarregava móveis à entrada do prédio. Homens iam e vinham, transportando caixotes para as entranhas do imóvel. Quando cheguei ao hall de acesso à minha casa, encontrei-o completamente atravancado. Os mesmos homens retiravam os caixotes do monta-cargas, erguiam-nos à força de braços e introduziam-nos no apartamento contíguo ao meu. Um homem alto e mal-encarado, de ombros largos, cabelo ralo, vestimenta descuidada e idade indefinida, orientava as operações. Não sei se se apercebeu da minha presença, mas o certo é que não me dirigiu a palavra. E eu, apesar da educação me mandar tomar a iniciativa do cumprimento, esqueci momentaneamente as boas maneiras e entrei na minha casa. Sentia-me atingido por um súbito desconforto. Acabara de travar conhecimento com o novo vizinho.
Com efeito, a pouco e pouco, foram-se tornando evidentes os indícios da presença do novo condómino. O primeiro sinal com que me deparei foi a dificuldade em retirar o meu carro do parqueamento, uma vez que o veículo do novo vizinho, uma carrinha descomunal, ocupava parcialmente o meu lugar. Ainda por cima, nunca saía antes de mim. De forma que, todas as manhãs, eu tinha de proceder a um sem número de manobras para conseguir retirar o meu carro.
Para tentar evitar este contratempo matinal, comecei a estacionar o meu veículo afastando-o ao máximo da linha divisória dos dois parqueamentos. Todavia, quanto mais me desviava mais o vizinho parecia invadir o meu lugar, deixando o meu carro literalmente entalado.
O pequeno compartimento de acesso à conduta do lixo evidenciava também a presença do novo morador. E de que maneira! Embora eu ainda não tivesse visto ninguém a entrar ou a sair da casa do vizinho (a própria arquitetura interior do prédio tornava isso difícil), não podia deixar de imaginar que horda poderia constituir uma tão profusa fonte de desperdícios! Diariamente, quando ia colocar o meu lixo na conduta, deparava-se-me uma monumental quantidade de sacos, com diâmetro avantajado e odor desagradável, aguardando a passagem do encarregado da recolha do lixo.
Por outro lado, insensivelmente, iam surgindo tralhas estranhas encostadas às paredes do parqueamento e da arrecadação do vizinho. Como se esta, apesar de grande (era, pelo menos, do tamanho da minha), fosse insuficiente para guardar todos os seus pertences. Eram tábuas de madeira, ferros de metal curvos e retos, e uma série de apetrechos estranhos, cheios de manchas de óleo e de massa consistente, vagamente aparentados a instrumentos de tortura (como eu já havia contemplado numa exposição, tendo ficado abismado com o aspeto insuspeito de alguns deles, só tendo compreendido a crueldade da respetiva função depois de uma explicação do guia). Para que serviria tudo aquilo? A que estranhas atividades se dedicaria aquela criatura?
Comecei a sentir-me indisposto. O novo vizinho respeitava cada vez menos as delimitações. Eu já mal tinha espaço para parquear o meu carro. As tralhas cresciam de dia para dia, e já invadiam as paredes da minha arrecadação e do meu parqueamento. O piso tinha agora um aspeto sujo e desleixado. A ordem visual que eu tanto apreciava, desaparecera.
Contudo, apesar do incómodo da situação, eu hesitava em tomar uma atitude. Adepto absoluto da neutralidade, chamar-lhe a atenção afigurava-se-me como um empreendimento ingrato, cujas consequências podiam levar à animosidade assumida ou à amizade declarada, ambas a evitar. Por conseguinte, limitava-me a desejar intimamente que ele arrepiasse caminho.
Foi com um extremo aborrecimento que, em determinada altura, a juntar a todos os outros incómodos atrás descritos, comecei a escutar uns ruídos estranhos em casa. Eram irregulares e imprevisíveis. Às vezes não se ouviam durante vários dias. Outras, faziam-se sentir uma semana inteira. Incrédulo ao princípio, acabei por ter de aceitar a minha nova triste realidade. O silêncio, o silêncio sagrado que eu tanto prezava, deixara de existir. Não consigo descrever a revolta que crescia dentro de mim. A paz, a minha paz, abandonava-me! Ah, vizinho vândalo!... Que saudades do Sr. Santos, da sua bonomia e discrição! No entanto, o que mais me perturbava era a completa impossibilidade de determinar a origem de tais sons. Provinham do apartamento do vizinho, indubitavelmente. Mas, ora se assemelhavam aos guinchos intermitentes de rodas metálicas mal lubrificadas, ora imitavam o som de gargarejos cavos. E, tanto uns como outros, arrepiavam-me até à raiz dos cabelos. E, pela primeira vez na vida, confesso que comecei a sentir uma insidiosa e pertinente curiosidade.
Um dia, ao chegar do trabalho, verifiquei que a porta da arrecadação do vizinho se encontrava aberta. Um triângulo de luz proveniente do seu interior iluminava o chão escuro. Saí do carro e, de soslaio, olhei para o cubículo iluminado. É inimaginável a quantidade de tralha que continha. A parede visível estava forrada de prateleiras completamente atravancadas de sacos colocados numa disposição caótica. Uma mulherzinha delgada, vestida de escuro e de costas para a entrada, erguia um dos sacos tentando que ele se equilibrasse no topo de uma das prateleiras. No dedo anelar da mão esquerda brilhava uma aliança de casamento. Decerto era a esposa do vizinho, o tipo mal-encarado que eu vira no dia da mudança. Afastei-me devagar, mas a mulher devia ter ouvido os meus passos pois voltou-se bruscamente. Olhei-a. Rondava a minha idade e tinha um ar frágil, desgastado e cansado. Parecia assustada. Contudo, não era feia.
- Boa tarde – exclamou, com uma voz baixa mas perfeitamente audível.
- Boa tarde – respondi. E apressei-me a alcançar o elevador.
Sabia agora que o vizinho era casado.
Alguns dias depois, ao regressar numa sexta-feira às três horas da madrugada de uma noitada de bridge, enquanto aguardava os quinze segundos que a porta em harmónio de acesso à garagem demora a abrir, vi o vizinho pela segunda vez. Dirigia-se a pé para a porta de entrada do prédio, trazendo um cãozinho pela trela. O animal era pequeno e irrequieto, pouco consonante com o aspeto abrutalhado do dono.
Esquisita hora para levar o cão a fazer as necessidades, pensei. Muito menos para o andar a passear! E ocorreu-me que, no meio dos estranhos ruídos que provinham da casa do vizinho, eu nunca me tivesse apercebido de nenhum ladrar canino.
Uns tempos depois, numa manhã em que me dirigia para a minha viatura, reparei num objeto claro caído no chão, perto de uma das rodas do meu carro. Abaixei-me e apanhei-o. Era um pequeno livro. Num gesto maquinal, meti-o no bolso e dirigi-me para o emprego, não pensando mais no assunto.
Quando, nesse mesmo dia, regressei a casa, a minha mão extraiu da algibeira não só a chave da porta de alta segurança mas também o meu achado matinal. Entrei em casa e olhei-o com mais atenção. Era uma agenda. Abri-a na primeira página, que habitualmente contem os dados de identificação do possuidor, e li o seguinte:

Vitorino Murteira Roçadas
Rua do Purgatório, 114, 3ªB
1900 Lisboa

Meu Deus! Era a agenda do vizinho! Aliás, pensando bem (apesar da multidão que frequentava o prédio todos os dias), no local onde a encontrara dificilmente poderia pertencer a outra pessoa.
Como já referi, não sou, por natureza, curioso. No entanto, o novo vizinho tivera um tão grande impacto negativo na minha vida que eu havia muito me sentia presa de uma tremenda curiosidade. Mais até do que curiosidade. Considerava-me com direito à posse dos segredos de uma criatura que tão cruelmente invadira o meu território. Tinha de descobrir quem ele era. O destino devia-me isso! E afinal, pensando bem, era o próprio destino que mo confirmava, proporcionando-me esta incrível oportunidade. E foi imbuído deste pensamento que, mesmo sabendo tratar-se de um ato reprovável – uma clara violação da privacidade alheia - não resisti à tentação de folhear a agenda.
Fi-lo e fiquei varado. Uma sucessão interminável de garatujas incompreensíveis, anárquicas, acompanhada de esquemas ininteligíveis, ocupava-a quase por inteiro. Eram algarismos indiciando operações aritméticas, sucessões de letras formando palavras desconhecidas, e desenhos esquemáticos representando apetrechos estranhos. De facto, a agenda fazia jus ao proprietário. A caótica desordem exposta no parqueamento e arrecadação encontrava-se ali presente em toda a plenitude!
De súbito, fui invadido por um sentimento de repulsa. Num ápice, agarrei na fatídica agenda e na chave de casa, e saí. Decidido, ultrapassei a portada corta-fogo que dava acesso ao patamar do apartamento do vizinho e premi o botão da campainha com força.
Esperei. Ouvia-se a chiadeira metálica intermitente. Contei até dez e voltei a tocar à campainha. A chiadeira metálica cessou. Alguns segundos depois, uma voz masculina, roufenha e desagradável, abafada pela espessura da porta de alta segurança, inquiriu:
~ - Quem é?
- É o vizinho do 3º A.
- Que deseja?... – seria impressão minha, ou a voz adquirira um timbre propositadamente seco?
- Venho entregar-lhe algo que lhe pertence. Mas se não está interessado…- confesso que, ao dizer isto, a minha voz também me soou pouco amistosa.
Ouvi um estalido e a porta abriu-se. Aliás, melhor dizendo, entreabriu-se uma nesga, permitindo-me visualizar apenas uma fatia da cara carrancuda do vizinho e do seu corpanzil. Das entranhas da casa faziam-se ouvir agora, com toda a nitidez, os sons de gargarejo.
Estendi-lhe a agenda.
- Isto é seu, não é verdade?...
O vizinho olhou para a agenda e franziu o cenho:
- Onde é que arranjou isto?...
- Mais devagar! – respondi, de forma desabrida – eu não arranjei isto. Isto estava caído esta manhã, na garagem, ao pé do meu carro. Li os dados da primeira página e, pela morada, concluí que devia pertencer-lhe. Mas, se estou enganado…
A expressão do vizinho desanuviou-se ligeiramente.
- É minha, de facto…
E, com uma insuspeita e repentina destreza, introduziu o braço pela nesga entreaberta, arrancou a agenda da minha mão e fechou-me a porta na cara, enquanto me atirava:
- Boa tarde! Passe bem!...
Era demais! Nunca vira tamanha falta de consideração!... Permaneci uns segundos a olhar para a porta, tentado a tocar de novo à campainha e a obrigar o vizinho a engolir a sua má educação, mas acabei por girar sobre os meus pés e voltar para casa. Quando entrei, verifiquei que os sons metálicos intermitentes haviam regressado.
Além de aborrecido, estava perturbado. Pior do que ter de aguentar um vizinho intratável era a desconfiança que sorrateiramente se tinha introduzido no meu cérebro. De facto, era agora evidente que algo de muito estranho se passava naquela casa. Nada daquilo era normal. Ninguém era tão ostensivamente antipático. E os ruídos? Não havia bricolage caseira que pudesse produzir tais sons. Ali havia gato. Deus sabe que práticas macabras teriam lugar ali, paredes-meias com a minha casa!... Macumbas?... Missas negras?... E sentia-me quase como o observador da “Janela indiscreta” de Hitchcock.
Alguns dias depois teve lugar uma reunião de condomínio. Sem ninguém em quem confiar uma procuração, fui obrigado a comparecer. A reunião efetivou-se à custa do quorum mínimo de vinte e cinco por cento, como aliás já vinha sendo hábito. O vizinho não apareceu. Em dado momento, a administração distribuiu pelos presentes uma lista dos condóminos com pagamentos em atraso. Qual não foi o meu espanto quando, assim que peguei na lista, ressaltou aos meus olhos o nome do Sr. Vitorino Murteira Roçadas! E com uma dívida considerável! Impossível atribuí-la a um atraso esporádico ou a um mero esquecimento. De facto, recordando-me com clareza da época em que ele viera habitar para o prédio (como poderia esquecê-la?), o montante em causa significava que, pura e simplesmente, o Sr. Roçadas nunca honrara os seus compromissos para com o condomínio. Sim, além de malcriado e barulhento, o vizinho era um caloteiro, um vigarista!...
Não fiz qualquer declaração. Nunca me passara pela cabeça colocar publicamente o problema do barulho e da desarrumação provocados pelo vizinho. O meu recato natural impedia-me de discutir qualquer assunto que não fosse mensurável. Votava até uma certa antipatia pelos condóminos que tendiam a transformar as reuniões num muro de lamentações de queixumes comezinhos e pouco objetivos. Portanto, limitei-me a votar favoravelmente a decisão de meter em tribunal os maus pagadores (apenas por uma questão de princípio pois, conhecendo a ineficácia da justiça portuguesa, não acreditava que fosse aquecer ou arrefecer). Aliás, considerava o problema económico de somenos importância. Com efeito, seria eu o único a saber que se tratava de uma personagem sinistra, que se entregava a atividades suspeitas, e que, ainda por cima, não tinha respeito por nada nem por ninguém?!...
Quem não está bem muda-se, sempre fora o meu lema. Por muita empatia que eu tivesse com a casa, (o saudoso santuário onde fora felicíssimo!), não podia continuar a ser vítima das tácitas agressões do vizinho. E, como não me dispunha a enfrentá-lo (não que sentisse medo, mas ele provocava-me demasiada repugnância), só havia uma solução – tinha de arranjar outra casa e sair dali.
Para tanto, comecei por fazer umas pesquisas tímidas nas agências imobiliárias. Mas hesitava. No fundo, talvez não estivesse convencido em absoluto de que tinha de abandonar a minha morada de sonho. Seria que, a mesma vontade oculta que me conduzira até ali, se estivesse a manifestar de uma forma sub-reptícia, tolhendo-me os movimentos e enfraquecendo-me a vontade? Eu próprio não me reconhecia. E o certo é que o tempo ia passando e eu nada fazia de concreto para resolver o meu problema.
Uma noite, ao regressar do trabalho (eu agora chegava mais tarde, já não sentia aquela urgência em me refugiar na casa), cruzei-me com a mulher do vizinho. Ela saíra do elevador e dirigia-se para a arrecadação. Ao passar por mim baixou os olhos e virou a cara. Mas, apesar desse gesto, não deixou de me cumprimentar.
- Boa noite – a sua voz era triste, sem alento.
- Boa noite – respondi. No mesmo instante, lembrei-me de algo de que me esquecera dentro da viatura. Voltei atrás. A mulher do vizinho, parada em frente da porta da arrecadação, mexia num molho de chaves. De repente o temporizador fez com que as luzes se apagassem, deixando o espaço imerso na penumbra. Num gesto automático, ela deu um passo atrás e acionou o interruptor que se encontrava numa parede próxima. No momento em que o fez as luzes acenderam-se e, na posição em que eu me encontrava, pude ver a sua cara totalmente iluminada. E percebi que ela tinha um olho negro.
Parei, estupefacto. Pobre senhora!... Por isso desviara a cara quando se cruzara comigo. Não queria dar a conhecer ao mundo a sua infelicidade!...
É impossível exprimir a indignação que senti crescer dentro de mim. Com que então o vizinho batia na mulher?!... Era uma situação intolerável! Que mais factos terríveis iria eu descobrir acerca daquela - não encontrava outra palavra para o classificar - besta? A que torturas, físicas e psicológicas, sujeitaria ele aquela infeliz a quem unira a vida?!... E, apesar do meu temperamento misógino (reconheço-o!), percebi que aquela criatura frágil e sofredora me despertava um sentimento protetor que, até aí, me era desconhecido.
Sim, algo de novo, de inusitado, se passava comigo. Recordava amiúde este episódio, revendo mentalmente a expressão daquele pequeno rosto ferido. Era a fácies de um imenso sofrimento, daqueles em que a resignação se sobrepôs a toda a esperança. Contudo, ter-lhe-ia eu notado uma muda súplica, que só por alguma razão muito forte não se materializava?...
Qual é o homem digno desse nome que permanece indiferente perante uma situação destas? Não se depreenda daqui que eu alimentasse qualquer tipo de pensamento reservado sobre a esposa do vizinho. Nada disso. Porém, não podia ficar de braços cruzados perante aquele caso flagrante de violência doméstica. E o meu cérebro era atravessado pelos raciocínios mais bizarros. Porque razão teria o vizinho adquirido aquela casa?... Pelo seu bom isolamento acústico?... Seriam os outros ruídos estranhos unicamente destinados a desviar as atenções?... Seria ele um novo Casanova?...
Contudo, na prática, que poderia eu fazer? Ajudá-la a fugir, talvez… E, para tanto, por muito que me fosse desagradável a ideia, escondê-la durante algum tempo na minha própria casa. Decerto, ela não tinha dinheiro. Devia pertencer àquele tipo de esposas que dependem totalmente dos maridos, mesmo para os gastos mais elementares. Mas eu prontificar-me-ia a emprestar-lhe o necessário para a fuga. Ou melhor, oferecer-lho-ia!... Era óbvio que ela nunca poderia pagar-me. Mas tudo isso me era indiferente. Queria apenas ajudá-la. Escondê-la-ia o tempo necessário e depois pagar-lhe-ia uma passagem aérea para a América do Sul, para África, para onde ela quisesse... Teria ela alguém, familiares ou amigos, fora do país, a quem pudesse solicitar abrigo? Porém, qualquer que fosse o caso, eu sabia que podia auxiliá-la a encontrar uma solução.
Todavia, antes de mais nada, precisava de lhe dar a entender que conhecia o seu drama pessoal. Impunha-se ela saber que já não estava só. Eu, o vizinho do lado, sabia tudo! Ela podia contar comigo, com o meu empenho e discrição. Porém, como comunicar com ela? Claro que ir bater-lhe à porta estava fora de questão. Com efeito, não havia outro remédio senão esperar que o destino me fizesse cruzar com ela novamente. E, quando tal acontecesse, não deveria ter lugar um único instante de hesitação!...
Esperei. Levado por um pressentimento, comecei a chegar a casa cada vez mais tarde. Não sei porquê, achava que deste modo aumentava as probabilidades de a encontrar.
E assim veio a acontecer. Um fim de tarde, já quase à hora de jantar, arrumava eu o carro no exíguo espaço que me era permitido, quando vi a vizinha encaminhar-se para a zona do elevador. Completei a manobra o mais depressa que pude e segui-a, esperando que o elevador estivesse num piso distante e demorasse ainda alguns segundos a alcançar o -4. Quando abri a porta do cubículo, deparou-se-me a vizinha. Com uma perna posicionada à frente do sensor, mantinha a porta do elevador aberta. Atónito, percebi que estivera à minha espera!
- Boa tarde! – disse, fitando-me pela primeira vez nos olhos enquanto esboçava um sorriso.
- Boa tarde – respondi, querendo parecer o mais simpático possível – aliás, boa noite!... Já é tarde…
Entrámos no ascensor. Carreguei no botão do 3ºandar e esperei que a porta se fechasse. Começámos a subir. Eram 7 pisos, desde o -4 ao 3. Quanto tempo demoraria o elevador a subir 7 pisos? Eu sabia a resposta – poucos segundos. Tinha de dizer alguma coisa, e depressa! O indicador de piso já exibia “-1”. Atentei no semblante da vizinha e reparei que tinha os olhos avermelhados, como se estivesse estado a chorar. Senti-me enfurecer. Patife! E abri a boca para lhe dizer nem eu sabia bem o quê. Porém, nesse preciso momento, ela encarou-me de frente e, com uma expressão simultaneamente decidida e amedrontada, de quem faz um tremendo esforço para vencer a timidez natural, proferiu:
- Sr. Alarcão, ainda bem que o encontro!...
- Sim?...
- Sim!... Eu preciso muito de falar consigo!... Sabe quem eu sou, não é verdade?...
- Sei. A senhora mora no apartamento contíguo ao meu.
- Oh sim, claro! Mas não me refiro somente a vizinhança, refiro-me a…
Nesse instante o elevador estacou e a porta abriu-se. Estávamos no 3ºpiso. Saímos e, aproveitando a deixa, atrevi-me a sugerir:
- E se fôssemos conversar em minha casa? Decerto estaríamos mais tranquilos do que aqui fora, no patamar…
- Com certeza! – respondeu, parecendo tão ansiosa como eu em abandonar aquela zona perigosa.
Abri a porta de minha casa e afastei-me para a vizinha passar. Quando a porta se fechou atrás de nós, suspirei aliviado. Estávamos a salvo. Conduzi-a até à sala e convidei-a a instalar-se numa das minhas confortáveis poltronas. Ela sentou-se e eu acomodei-me também, à distância mandada pela boa educação.
- Quer tomar alguma coisa? – perguntei.
- Oh não! Obrigada, mas não! – e deixou-se ficar calada, olhando ao redor. Estava visivelmente atrapalhada. A coragem que a acometera no elevador parecia tê-la abandonado. Por fim, proferiu, esboçando um sorriso:
- Tem uma casa muito bonita! E que belas peças!...
- São recordações de viagens. Sabe, existem muitas coisas neste mundo à espera de serem apreciadas... Quanto à casa, é igual à sua... – afirmei, tentando fazer humor.
Ela não respondeu. Ergueu-se devagar e aproximou-se da parede em frente, de olhos fixos na máscara veneziana que, de uma posição de destaque, dominava todo o ambiente.
- Dantes, eu também viajava… - balbuciou com uma voz sonhadora, sem descolar o olhar da belíssima máscara colorida. Porém, alguns segundos depois pareceu acordar e, como quem afasta um pensamento, estremeceu e voltou a sentar-se.
Sentindo que tinha de a acicatar para que começasse a falar, disse-lhe:
- Sei qual é o seu problema…
Ela olhou-me com uma expressão de enorme estranheza.
- Sabe?...
- Sim, sei. E percebo a delicadeza do assunto. Mas acredite que pode confiar em mim, e que farei tudo o que estiver ao meu alcance para a ajudar…
Ela calou-se. Parecia hesitar. Por fim, acabou por dizer:
- Sendo assim, terá a bondade de deferir o pedido de empréstimo que eu submeti ao banco onde o senhor trabalha.
Ao escutar estas palavras, senti um ligeiro sobressalto. Então ela precisava mesmo de dinheiro para abandonar o marido e fugir para outro país… Além disso, sabia quem eu era, onde eu trabalhava… Só que isso colocava-me num terrível dilema. Quando chegaria o pedido às minhas mãos? Teria de o analisar cuidadosamente. E não poderia deferi-lo sem as necessárias garantias. Por nada nem ninguém. E ocorreu-me então que nem sabia o nome dela.
- Senhora…
- Chamo-me Júlia. Júlia Roçadas.
- D. Júlia Roçadas, não precisa de pedir dinheiro emprestado ao banco para o fim que ambos conhecemos. Estou pronto a emprestar-lhe, ou melhor, a dar-lhe do meu próprio dinheiro. E creia que nada me fará mais feliz que contribuir de algum modo para o bem-estar de outro ser humano. Tenho vivido até hoje uma existência egoísta, centrada em exclusivo na minha própria pessoa. Acho que preciso de provar a mim próprio que sou capaz de um ato generoso. Peço-lhe, portanto, que aceite a minha ajuda. A única paga que desejo é ter a certeza de que contribuí para a sua libertação.
À medida que eu falara, a expressão da vizinha passara da simples surpresa ao mais genuíno espanto.
- Libertação? Que libertação?...
- D. Júlia, deixemo-nos de rodeios. Pretende dinheiro para fugir do país, não é verdade?...
- Eu?! Fugir do país? De que é que o senhor está a falar?...
- Estou a dizer-lhe que não precisa de utilizar subterfúgios comigo. Eu sei que a senhora é muito infeliz no seu casamento. O seu marido maltrata-a…
Ela abriu a boca, de olhos muito abertos, mas eu não a deixei falar:
- Não me interrompa, por favor. Não preciso que me conte o que se passa em sua casa. Não pretendo ser seu confidente. Acho até que deve guardar os seus segredos unicamente para si. Diga-me só para onde deseja ir e de quanto precisa, e eu verei o que posso fazer.
- Mas então… Então… O senhor pensa que… - a vizinha falava com uma expressão estranha, como se as minhas palavras não fizessem o mínimo sentido. E, de repente, como se tivesse sido atingida por um súbito lampejo de compreensão, desatou a rir. Era um riso nervoso, descontrolado. As lágrimas saltavam-lhe dos olhos enquanto torcia as mãos. Queria parar, mas não conseguia:
- Ah! Ah! Ah! Já percebi! Ah! Ah! Ah! O senhor pensa que… Ah! Ah! Ah!... Imaginem só…
Fiquei estupefacto. A conversa estava a tomar um rumo imprevisível.
- Por que é que está a rir? – perguntei, com um ar ligeiramente agastado. Não me sentia propriamente com disposição para brincadeiras.
Apesar do riso da vizinha, de repente percebi que haviam começado os ruídos metálicos intermitentes já tão meus conhecidos.
- Escute – disse a vizinha, abrandando o riso e parecendo prestar atenção aos sons que provinham da sua casa – tenho de me ir embora…
- Mas porquê? Que significa isto? Que barulho é este?
- É o Vitorino a ajudar o Daniel nos aparelhos… - respondeu ela, erguendo-se do sofá, agora já sem qualquer vontade de rir.
- O Daniel?... Quem é o Daniel?...
- Oh! É o meu filho – e a vizinha acrescentou, após uma breve hesitação – Tem catorze anos. Infelizmente não é uma pessoa como as outras. Não anda… E mal consegue falar… Quando o faz, mais se assemelha a um gargarejo… - e a sua voz embargou-se um pouco, antecipando a pergunta que eu não chegaria a formular:
- Traumatismo de parto – disse, abanando a cabeça - o seu cérebro esteve demasiado tempo sem oxigénio... Às vezes é muito difícil lidar com ele. Tem crises de agressividade. Mas o pior é que o meu marido nunca mais foi o mesmo. Não quer que se saiba. Recusa-se a mandar o Daniel para uma instituição e não permite que mais ninguém trate dele. Por isso, apesar do prejuízo financeiro, mantemo-lo em casa, com toda a imensa infra estrutura de que ele necessita…
- Lamento muito – respondi, sentindo-me o maior idiota do mundo – Diga-me o que posso fazer…
- Conceda-nos o empréstimo!... É tudo o que precisamos até o meu marido e eu encontrarmos uma solução definitiva para o nosso filho. E não revele a ninguém cá do prédio o nosso segredo… - e os olhos dela encheram-se de lágrimas.
- Serei um túmulo – respondi.
A vizinha caminhou para a saída com o seu passo ansioso. Eu segui-a, abri-lhe a porta e afastei-me para ela passar. Ela transpôs a saída e deu dois passos, após o que olhou para trás:
- Quando, há pouco, disse que sabia que o meu marido me maltratava, estava a falar a sério?... Ou tratou-se de alguma brincadeira?...
Senti-me corar até à raiz dos cabelos:
- Peço mil desculpas – respondi – não sei porque disse aquilo. Faça-me o favor de esquecer os meus disparates. Não passo de um solteirão imbecil.
- É que nunca houve melhor marido nem melhor pai no mundo!... – atirou-me, antes de desaparecer por detrás da porta corta fogo de acesso à sua casa.
Permaneci no patamar por um tempo indeterminado. Por fim, voltei para dentro, para a minha casa, para o meu mundo. Senti o baque surdo da porta a fechar-se atrás de mim e percebi que os ruídos metálicos continuavam.
Aproximei-me lentamente de uma das janelas da minha sala e olhei para fora. Pela primeira vez na vida, apetecia-me observar os transeuntes que circulavam.

 Adelina Velho da Palma

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