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O VIZINHO
Sou
um homem solitário e pouco gregário.
Amo o silêncio, a quietude e o
isolamento. Ainda estou na primeira
metade da vida mas nunca senti
aquela necessidade de me atordoar
que parece ter-se generalizado na
minha geração. Como se a perturbação
dos sentidos constituísse antídoto
eficaz para a angústia da
existência. Suponho que isto se deve
apenas ao facto de eu gostar de mim
próprio e de, por consequência,
retirar o prazer e a motivação
suficientes para a vida de
atividades solitárias como a
leitura, a música e, até, a simples
reflexão.
Portanto, evito os outros seres
humanos. Não que não aprecie as
pessoas e não sinta, de quando em
quando, um certo prazer na sua
companhia. Porém, ao fim de algum
tempo de convivência, sobrevém-me
invariavelmente um imenso desejo de
me fechar na minha concha, de me
esconder, de ficar só. Aceito a vida
filosoficamente e, se tenho momentos
de pesar, depressa os ultrapasso
sozinho. Aliás, nunca senti
verdadeiramente a falta de ninguém
e, em boa verdade, embora não seja
imune às emoções, reconheço que os
outros não me suscitam o menor
interesse. Claro que sou
celibatário.
A única exceção a esta postura é o
meu círculo de amigos do Clube de
Bridge, com quem me encontro
regularmente para um rubber.
Todavia, embora se trate de uma
longa amizade, sei que subsiste
porque, além de todos pensarmos da
mesma maneira, a maior parte do
tempo que despendemos uns com os
outros passamo-la imersos no jogo,
absorvidos no mais solitário dos
raciocínios, e não em verdadeiro
convívio.
Também os bens materiais não me
atraem. Contudo, trabalho num banco.
Lido com dinheiro, dívidas, juros,
créditos e penhoras. E tenho uma
palavra decisiva no que respeita o
deferimento de solicitações de
empréstimo. Porém, até esse facto
acabou por acentuar o meu desejo de
distância em relação ao meu
semelhante. E, apesar do lucro que a
minha entidade patronal deles obtém,
nutro o mais profundo desprezo pelos
desgraçados que, querendo a todo o
custo viver acima das posses, para
tanto se endividam até à completa
ruína.
No meu trabalho cumpro leal e
escrupulosamente as minhas funções.
Sou responsável, assíduo e pontual.
Ninguém conhece a minha vida e eu
não conheço a de ninguém. E assim
pretendo continuar. Não tive a sorte
de nascer rico, de forma que tenho
de trabalhar para viver. Contudo,
não sou ambicioso. Nem alimento
qualquer desejo de ascensão numa
hierarquia laboral cuja trama
condeno. Ademais, o rendimento que o
meu cargo me proporciona é o
necessário e suficiente para os meus
gastos.
Por outro lado, gosto de viajar. A
natureza agrada-me, assim como as
suas leis incontornáveis. Apraz-me
atravessar regiões inexploradas,
calcorreando o desconhecido,
dormindo em abrigos à beira dos
caminhos, sem guia nem cicerone, no
mais puro e egoísta espírito de
descoberta. Mas também experimento
um enorme prazer ao explorar os
segredos das velhas capitais
europeias e asiáticas. Quando
penetro nos seus templos e
catedrais, sinto-me envolvido por
uma atmosfera feita da vibração de
gerações de preces silenciosas, dos
tempos em que a humanidade se
norteava por outros valores que não
o Dow Jones e a concorrência. E
detesto as hordas de turistas que
penetram nesses lugares santos,
palrando sem recato e abusando dos
flashes, especialmente os japoneses,
cujos olhos míopes por detrás das
câmaras de filmar, para tudo
registar nada veem.
No entanto, apesar da minha índole
desprendida, desde muito jovem que
eu nutria um sonho, um único sonho
na vida - uma casa minha. Mas
atenção! Não uma casa qualquer, mas
a morada perfeita, o bunker privado,
o santuário onde me sentisse
protegido das agressões do mundo.
Quando a minha situação económica o
permitiu, comecei a pensar a sério
no assunto. Porém, não cheguei
sequer a empenhar-me a fundo na
análise do que as imobiliárias
tinham para oferecer. Numa luminosa
tarde de primavera, daquelas em que
somos atingidos pela súbita perceção
de que nada é impossível, fui
atraído (quiçá por uma força oculta)
até um certo bairro. E, assim que
pisei o soalho flutuante de um certo
apartamento, intui de imediato que
aquelas paredes mudas exigiam a
minha presença.
O que não deixou de ser curioso,
pois poder-se-ia inferir da minha
maneira de ser que eu seria mais
facilmente seduzido por uma vivenda
isolada. Todavia, não foi o caso. As
partes comuns do imóvel tinham
portas por todo o lado. Eram
saudavelmente labirínticas. Qualquer
outra pessoa consideraria esse facto
como um inconveniente mas eu
encarei-o como uma subtil proteção.
E foi assim que, acordado o montante
da transação e feita a escritura do
apartamento, procedi à mudança.
Se porventura me perpassavam dúvidas
de que aquela era a materialização
da habitação perfeita, depressa se
dissiparam. Tudo o que eu sempre
almejara numa casa, fora conseguido
em plenitude. As janelas deixavam
entrar a luz do sol, mas não a dos
candeeiros da rua. Escutava o vento,
mas não o trânsito. Apercebia-me da
chuva, mas não da poluição. A casa
era o meu mundo. Outro mundo. Um
mundo melhor.
Decorei-a a meu gosto. Cada objeto
me dizia alguma coisa. Muitos
constituíam recordações de viagens
longínquas e haviam sido comprados,
não por exibicionismo, mas por puro
deleite de contemplação. Eram, sem
exceção, obras de artífices
esmerados, dos que constroem com as
próprias mãos aquilo que concebem, e
não meros produtos de linhas de
montagem. Quanto aos quadros e
gravuras, considerava-os
preciosidades sem preço, devido ao
único e exclusivo critério do meu
agrado. E, tanto uns como outros,
conquanto já os possuísse antes da
mudança, coadunavam-se tão bem com o
novo enquadramento que surgiam aos
meus olhos realçados por um brilho
renovado.
No dia a dia, sempre me bastei a mim
próprio. Por conseguinte, fazia as
minhas compras, cozinhava o
necessário, tinha um contrato com
uma lavandaria e eu mesmo procedia à
limpeza da minha casa usando o
sistema de aspiração centralizado.
Nada me desagradaria mais que saber
os meus pertences devassados pelas
mãos de uma empregada doméstica.
De manhã, ao sair, retirava o
estímulo necessário para enfrentar
um novo dia de trabalho do
pensamento de que a casa ficava à
minha espera. Que nada nem ninguém
perturbaria aquele espaço só meu,
cujas delícias só a mim se
destinavam, e cujo usufruto somente
eu soubera conquistar.
Ao fim da tarde, gostava de
regressar do trabalho e de entrar
diretamente na garagem ao volante do
meu carro, de descer as sucessivas
rampas até ao meu parqueamento
situado no piso -4 (o último,
contando de cima para baixo)
sentindo-me imergir lentamente num
mar de segurança e de ordem. Gostava
de estacionar a viatura bem centrada
no lugar que lhe estava destinado e
de absorver o silêncio das caves,
apenas quebrado pelo borbulhar da
água nas canalizações e pelo sopro
da ventilação. Gostava de subir no
elevador, eternamente surpreendido
pela leveza e suavidade do
movimento, e do gesto de meter a
chave na fechadura de alta segurança
e senti-la ceder mais em jeito do
que em força. E gostava, acima de
tudo, de perceber a porta a
fechar-se atrás de mim, com um baque
surdo e um ligeiro estremecimento,
tornando-me no único ser humano à
face do planeta. Só então me sentia
verdadeiramente tranquilo.
Uma vez dentro de casa, deixava-me
invadir pela paz que invariavelmente
me assaltava. A construção era
excelente. O isolamento, melhor
ainda. E um bálsamo reparador, quase
milagroso, fazia-me esquecer o mundo
barulhento e confuso que acabara de
abandonar.
E era esta ordem sistemática, esta
rotina perfeita, assente num
deslizar habilidoso e programado por
entre os sarcasmos da civilização,
que me permitia saborear a dádiva da
vida como um ritual sagrado.
O prédio era imenso - mais de
sessenta apartamentos, com os
respetivos parqueamentos e
arrecadações, a que se somava uma
dezena de lojas. Diariamente,
centenas de pessoas frequentavam o
imóvel. Além dos moradores, havia os
vigilantes, os empregados da
limpeza, os que tratavam das
plantas, os que garantiam a
manutenção dos diversos equipamentos
e até os que analisavam a água da
piscina e retificavam o seu nível de
cloro.
Malgrado estar ciente destes
procedimentos, na prática, raramente
me cruzava com alguém. E a
existência de todos estes serviços,
aparentemente necessários para
manter o imóvel em funcionamento,
consubstanciava-se apenas em várias
rubricas do orçamento do condomínio,
onerando-o, e forçando-me desse modo
a senti-la como factual.
Durante meses não conheci ninguém.
Sentia-me nas nuvens. Claro que o
que eu mais detestaria seria uma
vizinhança barulhenta, desordeira e
metediça. Porém, ninguém me
incomodava. Aliás, tinha a sensação
de estar sozinho nesta babilónia, de
tal maneira o labirinto das partes
comuns me protegia dos encontros, e
as paredes do meu apartamento, do
ruído das cercanias. De facto,
encontrara o meu tabernáculo.
Um dia, acabei por travar
conhecimento com o vizinho que
habitava no apartamento cuja porta
me ficava mais próxima. Era um
senhor já idoso, e tão recatado como
eu. Raramente o via e nunca o ouvia.
Respirei fundo, aliviado. O Sr.
Santos (pois era esse o seu nome),
que também vivia sozinho, era o
vizinho ideal. Não só passava
despercebido (tanto quanto é
possível passá-lo a quem mora ao
nosso lado), como era prestável sem
ser gregário. As nossas frações eram
confinantes, assim como os nossos
parqueamentos e arrecadações.
Compartilhávamos a casa do lixo e os
patamares de acesso aos
apartamentos. Cuidadoso, o Sr.
Santos deixava sempre tudo limpo e
arrumado, sem uma vírgula fora do
lugar. De facto, o nosso
entendimento como vizinhos era
perfeito. A tal ponto que começámos
a revezarmo-nos mutuamente nas
reuniões de condomínio, cada um
munido de uma procuração do outro,
evitando assim de forma alternada o
aborrecimento de ter de participar
nessas sessões, ao mesmo tempo que
não escamoteávamos a representação
da nossa permilagem.
Passaram três anos e tudo caminhava
pelo melhor. A minha ligação à casa
fortalecera-se. Todas as suas
qualidades, que eu de imediato
pressentira, haviam recrudescido. O
silêncio era cada vez mais intenso,
a paz cada vez mais reconfortante e
a ordem cada vez mais sublime.
Mas o Sr. Santos morreu. Não o soube
logo, mas apenas quando percebi que
o seu apartamento estava à venda. Um
enorme cartaz de “VENDE-SE”,
pendurado no exterior de uma das
janelas, anunciava-o. Apressei-me a
questionar o vigilante que estava de
serviço na portaria:
- O Sr, Santos faleceu de repente –
esclareceu - e os herdeiros puseram
a casa à venda…
Não fiquei muito tranquilo. Quem
compraria a casa? Que tipo de pessoa
viria morar ao meu lado? Depois de
um vizinho como o Sr. Santos, as
coisas só poderiam piorar…
Porém, o apartamento tardava em ser
vendido. Cheguei até a pensar em
adquiri-lo eu mesmo, mas a deliciosa
rotina de minha vida impedia-me
tacitamente de tomar qualquer
iniciativa nesse sentido. Até que um
dia, quando regressei do trabalho,
compreendi que o andar ia finalmente
ser ocupado. Uma enorme camioneta de
uma empresa de mudanças descarregava
móveis à entrada do prédio. Homens
iam e vinham, transportando caixotes
para as entranhas do imóvel. Quando
cheguei ao hall de acesso à minha
casa, encontrei-o completamente
atravancado. Os mesmos homens
retiravam os caixotes do
monta-cargas, erguiam-nos à força de
braços e introduziam-nos no
apartamento contíguo ao meu. Um
homem alto e mal-encarado, de ombros
largos, cabelo ralo, vestimenta
descuidada e idade indefinida,
orientava as operações. Não sei se
se apercebeu da minha presença, mas
o certo é que não me dirigiu a
palavra. E eu, apesar da educação me
mandar tomar a iniciativa do
cumprimento, esqueci momentaneamente
as boas maneiras e entrei na minha
casa. Sentia-me atingido por um
súbito desconforto. Acabara de
travar conhecimento com o novo
vizinho.
Com efeito, a pouco e pouco,
foram-se tornando evidentes os
indícios da presença do novo
condómino. O primeiro sinal com que
me deparei foi a dificuldade em
retirar o meu carro do parqueamento,
uma vez que o veículo do novo
vizinho, uma carrinha descomunal,
ocupava parcialmente o meu lugar.
Ainda por cima, nunca saía antes de
mim. De forma que, todas as manhãs,
eu tinha de proceder a um sem número
de manobras para conseguir retirar o
meu carro.
Para tentar evitar este contratempo
matinal, comecei a estacionar o meu
veículo afastando-o ao máximo da
linha divisória dos dois
parqueamentos. Todavia, quanto mais
me desviava mais o vizinho parecia
invadir o meu lugar, deixando o meu
carro literalmente entalado.
O pequeno compartimento de acesso à
conduta do lixo evidenciava também a
presença do novo morador. E de que
maneira! Embora eu ainda não tivesse
visto ninguém a entrar ou a sair da
casa do vizinho (a própria
arquitetura interior do prédio
tornava isso difícil), não podia
deixar de imaginar que horda poderia
constituir uma tão profusa fonte de
desperdícios! Diariamente, quando ia
colocar o meu lixo na conduta,
deparava-se-me uma monumental
quantidade de sacos, com diâmetro
avantajado e odor desagradável,
aguardando a passagem do encarregado
da recolha do lixo.
Por outro lado, insensivelmente, iam
surgindo tralhas estranhas
encostadas às paredes do
parqueamento e da arrecadação do
vizinho. Como se esta, apesar de
grande (era, pelo menos, do tamanho
da minha), fosse insuficiente para
guardar todos os seus pertences.
Eram tábuas de madeira, ferros de
metal curvos e retos, e uma série de
apetrechos estranhos, cheios de
manchas de óleo e de massa
consistente, vagamente aparentados a
instrumentos de tortura (como eu já
havia contemplado numa exposição,
tendo ficado abismado com o aspeto
insuspeito de alguns deles, só tendo
compreendido a crueldade da
respetiva função depois de uma
explicação do guia). Para que
serviria tudo aquilo? A que
estranhas atividades se dedicaria
aquela criatura?
Comecei a sentir-me indisposto. O
novo vizinho respeitava cada vez
menos as delimitações. Eu já mal
tinha espaço para parquear o meu
carro. As tralhas cresciam de dia
para dia, e já invadiam as paredes
da minha arrecadação e do meu
parqueamento. O piso tinha agora um
aspeto sujo e desleixado. A ordem
visual que eu tanto apreciava,
desaparecera.
Contudo, apesar do incómodo da
situação, eu hesitava em tomar uma
atitude. Adepto absoluto da
neutralidade, chamar-lhe a atenção
afigurava-se-me como um
empreendimento ingrato, cujas
consequências podiam levar à
animosidade assumida ou à amizade
declarada, ambas a evitar. Por
conseguinte, limitava-me a desejar
intimamente que ele arrepiasse
caminho.
Foi com um extremo aborrecimento
que, em determinada altura, a juntar
a todos os outros incómodos atrás
descritos, comecei a escutar uns
ruídos estranhos em casa. Eram
irregulares e imprevisíveis. Às
vezes não se ouviam durante vários
dias. Outras, faziam-se sentir uma
semana inteira. Incrédulo ao
princípio, acabei por ter de aceitar
a minha nova triste realidade. O
silêncio, o silêncio sagrado que eu
tanto prezava, deixara de existir.
Não consigo descrever a revolta que
crescia dentro de mim. A paz, a
minha paz, abandonava-me! Ah,
vizinho vândalo!... Que saudades do
Sr. Santos, da sua bonomia e
discrição! No entanto, o que mais me
perturbava era a completa
impossibilidade de determinar a
origem de tais sons. Provinham do
apartamento do vizinho,
indubitavelmente. Mas, ora se
assemelhavam aos guinchos
intermitentes de rodas metálicas mal
lubrificadas, ora imitavam o som de
gargarejos cavos. E, tanto uns como
outros, arrepiavam-me até à raiz dos
cabelos. E, pela primeira vez na
vida, confesso que comecei a sentir
uma insidiosa e pertinente
curiosidade.
Um dia, ao chegar do trabalho,
verifiquei que a porta da
arrecadação do vizinho se encontrava
aberta. Um triângulo de luz
proveniente do seu interior
iluminava o chão escuro. Saí do
carro e, de soslaio, olhei para o
cubículo iluminado. É inimaginável a
quantidade de tralha que continha. A
parede visível estava forrada de
prateleiras completamente
atravancadas de sacos colocados numa
disposição caótica. Uma mulherzinha
delgada, vestida de escuro e de
costas para a entrada, erguia um dos
sacos tentando que ele se
equilibrasse no topo de uma das
prateleiras. No dedo anelar da mão
esquerda brilhava uma aliança de
casamento. Decerto era a esposa do
vizinho, o tipo mal-encarado que eu
vira no dia da mudança. Afastei-me
devagar, mas a mulher devia ter
ouvido os meus passos pois voltou-se
bruscamente. Olhei-a. Rondava a
minha idade e tinha um ar frágil,
desgastado e cansado. Parecia
assustada. Contudo, não era feia.
- Boa tarde – exclamou, com uma voz
baixa mas perfeitamente audível.
- Boa tarde – respondi. E
apressei-me a alcançar o elevador.
Sabia agora que o vizinho era
casado.
Alguns dias depois, ao regressar
numa sexta-feira às três horas da
madrugada de uma noitada de bridge,
enquanto aguardava os quinze
segundos que a porta em harmónio de
acesso à garagem demora a abrir, vi
o vizinho pela segunda vez.
Dirigia-se a pé para a porta de
entrada do prédio, trazendo um
cãozinho pela trela. O animal era
pequeno e irrequieto, pouco
consonante com o aspeto abrutalhado
do dono.
Esquisita hora para levar o cão a
fazer as necessidades, pensei. Muito
menos para o andar a passear! E
ocorreu-me que, no meio dos
estranhos ruídos que provinham da
casa do vizinho, eu nunca me tivesse
apercebido de nenhum ladrar canino.
Uns tempos depois, numa manhã em que
me dirigia para a minha viatura,
reparei num objeto claro caído no
chão, perto de uma das rodas do meu
carro. Abaixei-me e apanhei-o. Era
um pequeno livro. Num gesto
maquinal, meti-o no bolso e
dirigi-me para o emprego, não
pensando mais no assunto.
Quando, nesse mesmo dia, regressei a
casa, a minha mão extraiu da
algibeira não só a chave da porta de
alta segurança mas também o meu
achado matinal. Entrei em casa e
olhei-o com mais atenção. Era uma
agenda. Abri-a na primeira página,
que habitualmente contem os dados de
identificação do possuidor, e li o
seguinte:
Vitorino Murteira Roçadas
Rua do Purgatório, 114, 3ªB
1900 Lisboa
Meu Deus! Era a agenda do vizinho!
Aliás, pensando bem (apesar da
multidão que frequentava o prédio
todos os dias), no local onde a
encontrara dificilmente poderia
pertencer a outra pessoa.
Como já referi, não sou, por
natureza, curioso. No entanto, o
novo vizinho tivera um tão grande
impacto negativo na minha vida que
eu havia muito me sentia presa de
uma tremenda curiosidade. Mais até
do que curiosidade. Considerava-me
com direito à posse dos segredos de
uma criatura que tão cruelmente
invadira o meu território. Tinha de
descobrir quem ele era. O destino
devia-me isso! E afinal, pensando
bem, era o próprio destino que mo
confirmava, proporcionando-me esta
incrível oportunidade. E foi imbuído
deste pensamento que, mesmo sabendo
tratar-se de um ato reprovável – uma
clara violação da privacidade alheia
- não resisti à tentação de folhear
a agenda.
Fi-lo e fiquei varado. Uma sucessão
interminável de garatujas
incompreensíveis, anárquicas,
acompanhada de esquemas
ininteligíveis, ocupava-a quase por
inteiro. Eram algarismos indiciando
operações aritméticas, sucessões de
letras formando palavras
desconhecidas, e desenhos
esquemáticos representando
apetrechos estranhos. De facto, a
agenda fazia jus ao proprietário. A
caótica desordem exposta no
parqueamento e arrecadação
encontrava-se ali presente em toda a
plenitude!
De súbito, fui invadido por um
sentimento de repulsa. Num ápice,
agarrei na fatídica agenda e na
chave de casa, e saí. Decidido,
ultrapassei a portada corta-fogo que
dava acesso ao patamar do
apartamento do vizinho e premi o
botão da campainha com força.
Esperei. Ouvia-se a chiadeira
metálica intermitente. Contei até
dez e voltei a tocar à campainha. A
chiadeira metálica cessou. Alguns
segundos depois, uma voz masculina,
roufenha e desagradável, abafada
pela espessura da porta de alta
segurança, inquiriu:
~ - Quem é?
- É o vizinho do 3º A.
- Que deseja?... – seria impressão
minha, ou a voz adquirira um timbre
propositadamente seco?
- Venho entregar-lhe algo que lhe
pertence. Mas se não está
interessado…- confesso que, ao dizer
isto, a minha voz também me soou
pouco amistosa.
Ouvi um estalido e a porta abriu-se.
Aliás, melhor dizendo, entreabriu-se
uma nesga, permitindo-me visualizar
apenas uma fatia da cara carrancuda
do vizinho e do seu corpanzil. Das
entranhas da casa faziam-se ouvir
agora, com toda a nitidez, os sons
de gargarejo.
Estendi-lhe a agenda.
- Isto é seu, não é verdade?...
O vizinho olhou para a agenda e
franziu o cenho:
- Onde é que arranjou isto?...
- Mais devagar! – respondi, de forma
desabrida – eu não arranjei isto.
Isto estava caído esta manhã, na
garagem, ao pé do meu carro. Li os
dados da primeira página e, pela
morada, concluí que devia
pertencer-lhe. Mas, se estou
enganado…
A expressão do vizinho desanuviou-se
ligeiramente.
- É minha, de facto…
E, com uma insuspeita e repentina
destreza, introduziu o braço pela
nesga entreaberta, arrancou a agenda
da minha mão e fechou-me a porta na
cara, enquanto me atirava:
- Boa tarde! Passe bem!...
Era demais! Nunca vira tamanha falta
de consideração!... Permaneci uns
segundos a olhar para a porta,
tentado a tocar de novo à campainha
e a obrigar o vizinho a engolir a
sua má educação, mas acabei por
girar sobre os meus pés e voltar
para casa. Quando entrei, verifiquei
que os sons metálicos intermitentes
haviam regressado.
Além de aborrecido, estava
perturbado. Pior do que ter de
aguentar um vizinho intratável era a
desconfiança que sorrateiramente se
tinha introduzido no meu cérebro. De
facto, era agora evidente que algo
de muito estranho se passava naquela
casa. Nada daquilo era normal.
Ninguém era tão ostensivamente
antipático. E os ruídos? Não havia
bricolage caseira que pudesse
produzir tais sons. Ali havia gato.
Deus sabe que práticas macabras
teriam lugar ali, paredes-meias com
a minha casa!... Macumbas?... Missas
negras?... E sentia-me quase como o
observador da “Janela indiscreta” de
Hitchcock.
Alguns dias depois teve lugar uma
reunião de condomínio. Sem ninguém
em quem confiar uma procuração, fui
obrigado a comparecer. A reunião
efetivou-se à custa do quorum mínimo
de vinte e cinco por cento, como
aliás já vinha sendo hábito. O
vizinho não apareceu. Em dado
momento, a administração distribuiu
pelos presentes uma lista dos
condóminos com pagamentos em atraso.
Qual não foi o meu espanto quando,
assim que peguei na lista, ressaltou
aos meus olhos o nome do Sr.
Vitorino Murteira Roçadas! E com uma
dívida considerável! Impossível
atribuí-la a um atraso esporádico ou
a um mero esquecimento. De facto,
recordando-me com clareza da época
em que ele viera habitar para o
prédio (como poderia esquecê-la?), o
montante em causa significava que,
pura e simplesmente, o Sr. Roçadas
nunca honrara os seus compromissos
para com o condomínio. Sim, além de
malcriado e barulhento, o vizinho
era um caloteiro, um vigarista!...
Não fiz qualquer declaração. Nunca
me passara pela cabeça colocar
publicamente o problema do barulho e
da desarrumação provocados pelo
vizinho. O meu recato natural
impedia-me de discutir qualquer
assunto que não fosse mensurável.
Votava até uma certa antipatia pelos
condóminos que tendiam a transformar
as reuniões num muro de lamentações
de queixumes comezinhos e pouco
objetivos. Portanto, limitei-me a
votar favoravelmente a decisão de
meter em tribunal os maus pagadores
(apenas por uma questão de princípio
pois, conhecendo a ineficácia da
justiça portuguesa, não acreditava
que fosse aquecer ou arrefecer).
Aliás, considerava o problema
económico de somenos importância.
Com efeito, seria eu o único a saber
que se tratava de uma personagem
sinistra, que se entregava a
atividades suspeitas, e que, ainda
por cima, não tinha respeito por
nada nem por ninguém?!...
Quem não está bem muda-se, sempre
fora o meu lema. Por muita empatia
que eu tivesse com a casa, (o
saudoso santuário onde fora
felicíssimo!), não podia continuar a
ser vítima das tácitas agressões do
vizinho. E, como não me dispunha a
enfrentá-lo (não que sentisse medo,
mas ele provocava-me demasiada
repugnância), só havia uma solução –
tinha de arranjar outra casa e sair
dali.
Para tanto, comecei por fazer umas
pesquisas tímidas nas agências
imobiliárias. Mas hesitava. No
fundo, talvez não estivesse
convencido em absoluto de que tinha
de abandonar a minha morada de
sonho. Seria que, a mesma vontade
oculta que me conduzira até ali, se
estivesse a manifestar de uma forma
sub-reptícia, tolhendo-me os
movimentos e enfraquecendo-me a
vontade? Eu próprio não me
reconhecia. E o certo é que o tempo
ia passando e eu nada fazia de
concreto para resolver o meu
problema.
Uma noite, ao regressar do trabalho
(eu agora chegava mais tarde, já não
sentia aquela urgência em me
refugiar na casa), cruzei-me com a
mulher do vizinho. Ela saíra do
elevador e dirigia-se para a
arrecadação. Ao passar por mim
baixou os olhos e virou a cara. Mas,
apesar desse gesto, não deixou de me
cumprimentar.
- Boa noite – a sua voz era triste,
sem alento.
- Boa noite – respondi. No mesmo
instante, lembrei-me de algo de que
me esquecera dentro da viatura.
Voltei atrás. A mulher do vizinho,
parada em frente da porta da
arrecadação, mexia num molho de
chaves. De repente o temporizador
fez com que as luzes se apagassem,
deixando o espaço imerso na
penumbra. Num gesto automático, ela
deu um passo atrás e acionou o
interruptor que se encontrava numa
parede próxima. No momento em que o
fez as luzes acenderam-se e, na
posição em que eu me encontrava,
pude ver a sua cara totalmente
iluminada. E percebi que ela tinha
um olho negro.
Parei, estupefacto. Pobre
senhora!... Por isso desviara a cara
quando se cruzara comigo. Não queria
dar a conhecer ao mundo a sua
infelicidade!...
É impossível exprimir a indignação
que senti crescer dentro de mim. Com
que então o vizinho batia na
mulher?!... Era uma situação
intolerável! Que mais factos
terríveis iria eu descobrir acerca
daquela - não encontrava outra
palavra para o classificar - besta?
A que torturas, físicas e
psicológicas, sujeitaria ele aquela
infeliz a quem unira a vida?!... E,
apesar do meu temperamento misógino
(reconheço-o!), percebi que aquela
criatura frágil e sofredora me
despertava um sentimento protetor
que, até aí, me era desconhecido.
Sim, algo de novo, de inusitado, se
passava comigo. Recordava amiúde
este episódio, revendo mentalmente a
expressão daquele pequeno rosto
ferido. Era a fácies de um imenso
sofrimento, daqueles em que a
resignação se sobrepôs a toda a
esperança. Contudo, ter-lhe-ia eu
notado uma muda súplica, que só por
alguma razão muito forte não se
materializava?...
Qual é o homem digno desse nome que
permanece indiferente perante uma
situação destas? Não se depreenda
daqui que eu alimentasse qualquer
tipo de pensamento reservado sobre a
esposa do vizinho. Nada disso.
Porém, não podia ficar de braços
cruzados perante aquele caso
flagrante de violência doméstica. E
o meu cérebro era atravessado pelos
raciocínios mais bizarros. Porque
razão teria o vizinho adquirido
aquela casa?... Pelo seu bom
isolamento acústico?... Seriam os
outros ruídos estranhos unicamente
destinados a desviar as atenções?...
Seria ele um novo Casanova?...
Contudo, na prática, que poderia eu
fazer? Ajudá-la a fugir, talvez… E,
para tanto, por muito que me fosse
desagradável a ideia, escondê-la
durante algum tempo na minha própria
casa. Decerto, ela não tinha
dinheiro. Devia pertencer àquele
tipo de esposas que dependem
totalmente dos maridos, mesmo para
os gastos mais elementares. Mas eu
prontificar-me-ia a emprestar-lhe o
necessário para a fuga. Ou melhor,
oferecer-lho-ia!... Era óbvio que
ela nunca poderia pagar-me. Mas tudo
isso me era indiferente. Queria
apenas ajudá-la. Escondê-la-ia o
tempo necessário e depois
pagar-lhe-ia uma passagem aérea para
a América do Sul, para África, para
onde ela quisesse... Teria ela
alguém, familiares ou amigos, fora
do país, a quem pudesse solicitar
abrigo? Porém, qualquer que fosse o
caso, eu sabia que podia auxiliá-la
a encontrar uma solução.
Todavia, antes de mais nada,
precisava de lhe dar a entender que
conhecia o seu drama pessoal.
Impunha-se ela saber que já não
estava só. Eu, o vizinho do lado,
sabia tudo! Ela podia contar comigo,
com o meu empenho e discrição.
Porém, como comunicar com ela? Claro
que ir bater-lhe à porta estava fora
de questão. Com efeito, não havia
outro remédio senão esperar que o
destino me fizesse cruzar com ela
novamente. E, quando tal
acontecesse, não deveria ter lugar
um único instante de hesitação!...
Esperei. Levado por um
pressentimento, comecei a chegar a
casa cada vez mais tarde. Não sei
porquê, achava que deste modo
aumentava as probabilidades de a
encontrar.
E assim veio a acontecer. Um fim de
tarde, já quase à hora de jantar,
arrumava eu o carro no exíguo espaço
que me era permitido, quando vi a
vizinha encaminhar-se para a zona do
elevador. Completei a manobra o mais
depressa que pude e segui-a,
esperando que o elevador estivesse
num piso distante e demorasse ainda
alguns segundos a alcançar o -4.
Quando abri a porta do cubículo,
deparou-se-me a vizinha. Com uma
perna posicionada à frente do
sensor, mantinha a porta do elevador
aberta. Atónito, percebi que
estivera à minha espera!
- Boa tarde! – disse, fitando-me
pela primeira vez nos olhos enquanto
esboçava um sorriso.
- Boa tarde – respondi, querendo
parecer o mais simpático possível –
aliás, boa noite!... Já é tarde…
Entrámos no ascensor. Carreguei no
botão do 3ºandar e esperei que a
porta se fechasse. Começámos a
subir. Eram 7 pisos, desde o -4 ao
3. Quanto tempo demoraria o elevador
a subir 7 pisos? Eu sabia a resposta
– poucos segundos. Tinha de dizer
alguma coisa, e depressa! O
indicador de piso já exibia “-1”.
Atentei no semblante da vizinha e
reparei que tinha os olhos
avermelhados, como se estivesse
estado a chorar. Senti-me enfurecer.
Patife! E abri a boca para lhe dizer
nem eu sabia bem o quê. Porém, nesse
preciso momento, ela encarou-me de
frente e, com uma expressão
simultaneamente decidida e
amedrontada, de quem faz um tremendo
esforço para vencer a timidez
natural, proferiu:
- Sr. Alarcão, ainda bem que o
encontro!...
- Sim?...
- Sim!... Eu preciso muito de falar
consigo!... Sabe quem eu sou, não é
verdade?...
- Sei. A senhora mora no apartamento
contíguo ao meu.
- Oh sim, claro! Mas não me refiro
somente a vizinhança, refiro-me a…
Nesse instante o elevador estacou e
a porta abriu-se. Estávamos no
3ºpiso. Saímos e, aproveitando a
deixa, atrevi-me a sugerir:
- E se fôssemos conversar em minha
casa? Decerto estaríamos mais
tranquilos do que aqui fora, no
patamar…
- Com certeza! – respondeu,
parecendo tão ansiosa como eu em
abandonar aquela zona perigosa.
Abri a porta de minha casa e
afastei-me para a vizinha passar.
Quando a porta se fechou atrás de
nós, suspirei aliviado. Estávamos a
salvo. Conduzi-a até à sala e
convidei-a a instalar-se numa das
minhas confortáveis poltronas. Ela
sentou-se e eu acomodei-me também, à
distância mandada pela boa educação.
- Quer tomar alguma coisa? –
perguntei.
- Oh não! Obrigada, mas não! – e
deixou-se ficar calada, olhando ao
redor. Estava visivelmente
atrapalhada. A coragem que a
acometera no elevador parecia tê-la
abandonado. Por fim, proferiu,
esboçando um sorriso:
- Tem uma casa muito bonita! E que
belas peças!...
- São recordações de viagens. Sabe,
existem muitas coisas neste mundo à
espera de serem apreciadas... Quanto
à casa, é igual à sua... – afirmei,
tentando fazer humor.
Ela não respondeu. Ergueu-se devagar
e aproximou-se da parede em frente,
de olhos fixos na máscara veneziana
que, de uma posição de destaque,
dominava todo o ambiente.
- Dantes, eu também viajava… -
balbuciou com uma voz sonhadora, sem
descolar o olhar da belíssima
máscara colorida. Porém, alguns
segundos depois pareceu acordar e,
como quem afasta um pensamento,
estremeceu e voltou a sentar-se.
Sentindo que tinha de a acicatar
para que começasse a falar,
disse-lhe:
- Sei qual é o seu problema…
Ela olhou-me com uma expressão de
enorme estranheza.
- Sabe?...
- Sim, sei. E percebo a delicadeza
do assunto. Mas acredite que pode
confiar em mim, e que farei tudo o
que estiver ao meu alcance para a
ajudar…
Ela calou-se. Parecia hesitar. Por
fim, acabou por dizer:
- Sendo assim, terá a bondade de
deferir o pedido de empréstimo que
eu submeti ao banco onde o senhor
trabalha.
Ao escutar estas palavras, senti um
ligeiro sobressalto. Então ela
precisava mesmo de dinheiro para
abandonar o marido e fugir para
outro país… Além disso, sabia quem
eu era, onde eu trabalhava… Só que
isso colocava-me num terrível
dilema. Quando chegaria o pedido às
minhas mãos? Teria de o analisar
cuidadosamente. E não poderia
deferi-lo sem as necessárias
garantias. Por nada nem ninguém. E
ocorreu-me então que nem sabia o
nome dela.
- Senhora…
- Chamo-me Júlia. Júlia Roçadas.
- D. Júlia Roçadas, não precisa de
pedir dinheiro emprestado ao banco
para o fim que ambos conhecemos.
Estou pronto a emprestar-lhe, ou
melhor, a dar-lhe do meu próprio
dinheiro. E creia que nada me fará
mais feliz que contribuir de algum
modo para o bem-estar de outro ser
humano. Tenho vivido até hoje uma
existência egoísta, centrada em
exclusivo na minha própria pessoa.
Acho que preciso de provar a mim
próprio que sou capaz de um ato
generoso. Peço-lhe, portanto, que
aceite a minha ajuda. A única paga
que desejo é ter a certeza de que
contribuí para a sua libertação.
À medida que eu falara, a expressão
da vizinha passara da simples
surpresa ao mais genuíno espanto.
- Libertação? Que libertação?...
- D. Júlia, deixemo-nos de rodeios.
Pretende dinheiro para fugir do
país, não é verdade?...
- Eu?! Fugir do país? De que é que o
senhor está a falar?...
- Estou a dizer-lhe que não precisa
de utilizar subterfúgios comigo. Eu
sei que a senhora é muito infeliz no
seu casamento. O seu marido
maltrata-a…
Ela abriu a boca, de olhos muito
abertos, mas eu não a deixei falar:
- Não me interrompa, por favor. Não
preciso que me conte o que se passa
em sua casa. Não pretendo ser seu
confidente. Acho até que deve
guardar os seus segredos unicamente
para si. Diga-me só para onde deseja
ir e de quanto precisa, e eu verei o
que posso fazer.
- Mas então… Então… O senhor pensa
que… - a vizinha falava com uma
expressão estranha, como se as
minhas palavras não fizessem o
mínimo sentido. E, de repente, como
se tivesse sido atingida por um
súbito lampejo de compreensão,
desatou a rir. Era um riso nervoso,
descontrolado. As lágrimas
saltavam-lhe dos olhos enquanto
torcia as mãos. Queria parar, mas
não conseguia:
- Ah! Ah! Ah! Já percebi! Ah! Ah!
Ah! O senhor pensa que… Ah! Ah!
Ah!... Imaginem só…
Fiquei estupefacto. A conversa
estava a tomar um rumo imprevisível.
- Por que é que está a rir? –
perguntei, com um ar ligeiramente
agastado. Não me sentia propriamente
com disposição para brincadeiras.
Apesar do riso da vizinha, de
repente percebi que haviam começado
os ruídos metálicos intermitentes já
tão meus conhecidos.
- Escute – disse a vizinha,
abrandando o riso e parecendo
prestar atenção aos sons que
provinham da sua casa – tenho de me
ir embora…
- Mas porquê? Que significa isto?
Que barulho é este?
- É o Vitorino a ajudar o Daniel nos
aparelhos… - respondeu ela,
erguendo-se do sofá, agora já sem
qualquer vontade de rir.
- O Daniel?... Quem é o Daniel?...
- Oh! É o meu filho – e a vizinha
acrescentou, após uma breve
hesitação – Tem catorze anos.
Infelizmente não é uma pessoa como
as outras. Não anda… E mal consegue
falar… Quando o faz, mais se
assemelha a um gargarejo… - e a sua
voz embargou-se um pouco,
antecipando a pergunta que eu não
chegaria a formular:
- Traumatismo de parto – disse,
abanando a cabeça - o seu cérebro
esteve demasiado tempo sem
oxigénio... Às vezes é muito difícil
lidar com ele. Tem crises de
agressividade. Mas o pior é que o
meu marido nunca mais foi o mesmo.
Não quer que se saiba. Recusa-se a
mandar o Daniel para uma instituição
e não permite que mais ninguém trate
dele. Por isso, apesar do prejuízo
financeiro, mantemo-lo em casa, com
toda a imensa infra estrutura de que
ele necessita…
- Lamento muito – respondi,
sentindo-me o maior idiota do mundo
– Diga-me o que posso fazer…
- Conceda-nos o empréstimo!... É
tudo o que precisamos até o meu
marido e eu encontrarmos uma solução
definitiva para o nosso filho. E não
revele a ninguém cá do prédio o
nosso segredo… - e os olhos dela
encheram-se de lágrimas.
- Serei um túmulo – respondi.
A vizinha caminhou para a saída com
o seu passo ansioso. Eu segui-a,
abri-lhe a porta e afastei-me para
ela passar. Ela transpôs a saída e
deu dois passos, após o que olhou
para trás:
- Quando, há pouco, disse que sabia
que o meu marido me maltratava,
estava a falar a sério?... Ou
tratou-se de alguma brincadeira?...
Senti-me corar até à raiz dos
cabelos:
- Peço mil desculpas – respondi –
não sei porque disse aquilo. Faça-me
o favor de esquecer os meus
disparates. Não passo de um
solteirão imbecil.
- É que nunca houve melhor marido
nem melhor pai no mundo!... –
atirou-me, antes de desaparecer por
detrás da porta corta fogo de acesso
à sua casa.
Permaneci no patamar por um tempo
indeterminado. Por fim, voltei para
dentro, para a minha casa, para o
meu mundo. Senti o baque surdo da
porta a fechar-se atrás de mim e
percebi que os ruídos metálicos
continuavam.
Aproximei-me lentamente de uma das
janelas da minha sala e olhei para
fora. Pela primeira vez na vida,
apetecia-me observar os transeuntes
que circulavam.
Adelina
Velho da Palma |