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A
BELDADE
Por pouco permeáveis que sejamos, há sempre algo das
opiniões alheias que se sedimenta dentro de nós.
Talvez por isso, quando travei conhecimento com
Eduardo Sanches, tive uma certa dificuldade em
avaliar de forma isenta a impressão que me causou.
O nosso encontro deu-se em casa de Rita Trajouce, a
esposa de um homem de negócios que, após ter
alcançado uma razoável fortuna à custa de
especulação bolsista, soubera parar a tempo. Mulher
na casa dos quarenta anos, bonita e exuberante, o
dinheiro do marido dava-lhe a margem de manobra de
que ela necessitava para brilhar em sociedade. Rita
dava numerosas festas e frequentava os lugares mais
em voga. Contudo, não era snobe. Gostava
verdadeiramente das pessoas e não convivia apenas
com quem, de algum modo, pudesse contribuir para a
sua aura de notoriedade. Nas suas receções, figuras
badaladas misturavam-se saudavelmente com amigos
menos notáveis.
Os Trajouce moravam numa belíssima vivenda em
Colares, quase um solar, adquirida por bom preço a
uns nobres empobrecidos. Situada na parte mais
antiga daquela que é a vila mais ocidental da Europa
(e Património Mundial), a propriedade era
maravilhosa. Quando Rita e o marido a tinham
adquirido, encontrava-se abandonada havia décadas.
Fora necessário levar a cabo um difícil e
dispendioso trabalho de reconstrução, sem mudar
fosse o que fosse da estética original. Mas os
Trajouce estavam de parabéns. O resultado final,
conjugando a arquitetura de origem com toda as
comodidades modernas, era deveras impressionante.
Para lá se chegar era necessário alcançar a Várzea
de Colares e, a partir daí, subir por ruas íngremes
e tortuosas, de piso irregular. Todavia, o trajeto
valia a pena. Logo no início encontrava-se a Quinta
de Santo Expedito, uma razoável extensão outrora
luxuriante e então tristemente abandonada, como um
vasto sepulcro de cameleiras mortas. Contudo, uma
breve paragem permitia já usufruir de uns primeiros
laivos de panorama. Em baixo, a Várzea espraiava-se
a nossos pés, com o seu casario branco e
desempoeirado. Pressentia-se de imediato a
existência de muita água. Por toda a parte havia
ribeiros e fontes, e quase que se podia reconhecer o
borbulhar dos sifões naturais do subsolo. Até onde a
vista alcançava, o vale e a encosta estavam cobertos
de arvoredo e a vegetação era abundante e viçosa.
Continuando a subir encontrava-se o Largo da Igreja
Matriz com a Fonte de Melides, onde se situava o
café mais antigo da vila. À medida que se prosseguia
a escalada, as ruas estreitavam-se e as construções
iam evidenciando um cunho cada vez mais antigo.
Passava-se por uma pequena praça dominada por uma
casa imponente, um edifício peculiar e um
pelourinho, respetivamente o tribunal, a prisão e a
forca de tempos idos. Do lado direito avistava-se já
o Palácio da Pena. À esquerda, uma nesga de oceano
insinuava-se por entre dois cabeços, alargando
rapidamente à medida que se subia. Se o mar
estivesse bravo, eram visíveis os cachões de espuma
branca e audível o fragor da rebentação. Por fim,
alcançava-se o Castelo de D. Nuno Álvares Pereira,
assim chamado devido a ter sido oferecido ao
Condestável por el-rei D.João I após a batalha de
Aljubarrota. Nas imediações do castelo a vegetação
era singularmente tropical, composta por bananeiras
e árvores de borracha, facto que se devia a, em
determinada altura, terem sido pertença do Ministro
Fontes Pereira de Melo, que trouxera numerosas
espécimes africanas das suas frequentes viagens
àquele continente.
Oculta entre o castelo e a parte posterior da
encosta, não era fácil encontrar a casa de Rita
Trajouce. Um sóbrio portão em ferro dava acesso ao
jardim fronteiro à mansão, arranjado com gosto e sem
ostentação. O mesmo se podia dizer da vivenda
propriamente dita, que se enquadrava harmoniosamente
no ambiente ao redor.
Eu conhecera Rita havia algum tempo (alguém a
trouxera ao lançamento de um dos meus livros) e,
embora não nos pudéssemos considerar íntimas, a
nossa amizade crescera rapidamente, alimentada por
uma mútua empatia. Na verdade, era evidente para mim
que Rita, indiferente de início, me passara a olhar
com outros olhos após ter lido alguns dos meus
escritos. Este fenómeno não era incomum. Todavia,
tal reconhecimento implícito, vindo de uma mulher
culta e inteligente como Rita, era-me
particularmente lisonjeiro. A sua admiração pelo meu
trabalho e pelas condições difíceis em que eu o
desenvolvia era genuína. Aliás, não haveria mais
nenhuma razão para Rita me brindar tão amiúde a mim,
uma obscura escritora em início de carreira, com
amáveis convites para jantares em sua casa, que eu
aceitava de bom grado. O que não deixava de ser
curioso pois o meu psiquismo era radicalmente
adverso à vacuidade desse tipo de ambientes.
Todavia, a casa de Rita Trajouce era uma exceção.
Afigurava-se-me encontrar ali, no meio de um punhado
de figuras conhecidas, o contraponto indispensável
ao desenvolver de uma escrita com pretensões de
profundidade.
Quanto a Rogério, o marido de Rita, era um homem
amistoso, mas de poucas falas. No entanto,
submetia-se com bonomia às iniciativas da mulher.
Não lhe desagradava receber convidados e dava-lhe um
particular prazer mostrar a propriedade e descrever
em pormenor a maneira como as obras de recuperação
haviam sido conduzidas. Claro que havia quem
assegurasse que Rogério Trajouce não havia
enriquecido da maneira mais honesta. Eu própria
apenas podia fazer uma pálida ideia do valor de
certas obras de arte exibidas no salão da
residência, como um pequeno quadro atribuído a
Turner. Mas, quem se importaria com a verticalidade
da origem dos fundos cuja fruição era tão
simpaticamente compartilhada com os amigos?...
Certa noite, os Trajouce comemoravam um aniversário
de casamento e haviam reunido na sua residência três
ou quatro dúzias de convidados. Deambulava eu, de
copo de vermute na mão, pelo agradável jardim da
propriedade, perscrutando com o meu olhar a
acidentada Praia da Adraga (que tinha o condão de
sempre me recordar o drama da Rainha D.Amélia de
Órleans e Bragança, nos dias que se seguiram ao
golpe de 1910), quando Rita se me dirigiu com a
habitual desenvoltura:
- Venha, minha querida. Quero apresentá-la a uma
pessoa.
- A quem?
- Eduardo Sanches.
Rita já se havia referido a esse personagem como o
divorciado mais cobiçado da linha de Sintra.
Expressão de que eu não podia, à partida,
compreender o fundamento, pois sabia que não era
propriamente um bom partido. E depreendia que se
tratava de uma avaliação derivada unicamente da
simpatia pessoal da minha amiga. Com efeito, ela e
Eduardo conheciam-se havia muitos anos, praticamente
desde a infância. As famílias de ambos pertenciam ao
mesmo círculo de amigos. Rita teria tido um
fraquinho por Eduardo durante a adolescência (que
porventura ainda se mantinha), mas o namoro não dera
em nada e cada um seguira o seu caminho. Formado em
Economia com distinção, Eduardo casara ainda jovem,
loucamente apaixonado, e tivera uma filha. Porém, ao
fim de poucos anos, acabara por se divorciar. Desde
então, Rita nunca mais lhe conhecera qualquer
relação. Já lá iam mais de dez anos.
Rita considerava Eduardo Sanches um génio
financeiro. Dizia que ele conseguia prever com uma
exatidão milimétrica toda e qualquer oscilação
bolsista. Se o quisesse, seria milionário. Todavia,
isso não o interessava. Vivia sozinho em Sintra, num
pequeno apartamento alugado. Um automóvel barato era
o seu único pertence. Trabalhava como controller
numa firma de comércio marítimo em Lisboa e todos os
dias se deslocava de comboio para o emprego. Não se
interessava por bens materiais e nunca utilizara os
seus dotes em proveito próprio. O que não o impedia
de aconselhar os amigos. Era às premonições de
Eduardo, segundo Rita, que o marido devia uma fatia
considerável da sua fortuna.
Retrato psicológico tão extraordinário acicatara a
minha curiosidade. Portanto foi com um inegável
interesse que me deixei conduzir por Rita, através
de vários grupos de convidados, até um recanto de um
dos salões, onde um homem encostado a um aparador,
de costas para nós, preparava uma bebida. Rita
chamou-o e fomos apresentados.
Eduardo Sanches era um homem alto e magro. O rosto
era estreito e mal escanhoado, com uma pele
macilenta e irregular, de poros dilatados. As
feições eram angulosas, como se um escultor as
houvesse talhado a escopro e martelo sem lhes dar os
retoques finais. O nariz era comprido e a boca
grande, de lábios carnudos. O cabelo era castanho
claro, liso e um pouco comprido. Envergava um traje
informal que, apesar das linhas clássicas, me
pareceu antiquado. No entanto, a presença de Eduardo
Sanches era por si só suficientemente marcante para
a indumentária desempenhar um papel secundário no
cômputo geral da sua pessoa.
Apesar da magreza, Eduardo Sanches não parecia
frágil. Pelo contrário, emanava dele uma inequívoca
sensação de força, tanto física como anímica.
Todavia eram os olhos, claros e enormes, o seu
detalhe mais digno de realce. Quando se detiveram em
mim, fizeram-no com intensidade, como se fossem
incapazes de um simples olhar superficial. Era,
decerto, mais feio que bonito. No entanto era
também, indubitavelmente, um homem de uma invulgar
sensualidade.
Mostrou-se cortês e manteve-se em polida conversação
comigo durante perto de meia hora. Queria ser
simpático. Contudo, notei-lhe algum cuidado em
evitar temas privados. Era obviamente uma pessoa
reservada. Não sei porquê, fiquei com a sensação que
isto se aplicava, em particular, às mulheres.
Decerto conhecedor da atração que exercia sobre
elas, e determinado a não se envolver com ninguém,
nem por um momento baixava a guarda.
Com o passar do tempo, fui-me tornando visita
frequente em casa de Rita Trajouce e não era raro
encontrar Eduardo Sanches por lá. Nada mais natural
pois afinal ele era amigo de infância da dona da
casa. Quanto a mim, atraía-me a atmosfera de
cordialidade e, claro está, a beleza do local.
Paisagens como aquela haviam sido desenhadas pelo
Criador para serem admiradas. Até o ato de conduzir
o meu carro pela curvilínea e eternamente fresca
estrada entre Sintra e Colares me descontraía.
Quando via Eduardo Sanches, eu interrogava-me de
onde proviria, em rigor, o seu charme. E acabei por
concluir que encontrar-se-ia provavelmente no olhar
macio e profundo, aliado a uma ténue sugestão de
brutalidade que exalava dos seus gestos contidos.
Por outro lado, o fruto proibido é o mais apetecido.
O facto de ele viver sozinho e assumidamente assim
pretender continuar, contribuía para o tornar ainda
mais atraente. O que não deixava de ser esquisito
pois, em rigor, Eduardo Sanches não passava de um
assalariado de quarenta anos, sem qualquer fortuna
pessoal e com uma filha a cargo.
No entanto, estes encontros ocasionais acabariam por
me permitir traçar um perfil mais completo e
coerente de Eduardo Sanches. Apesar de reservado,
gostava de conversar. Quando falava, por vezes
entusiasmava-se. Nessas alturas gesticulava muito, e
era interessante verificar que quando comparecia num
evento social em casa de Rita, embora cumprimentasse
toda a gente, geralmente restringia o diálogo a uma
única pessoa. Várias vezes o vi percorrer a massa
humana com o olhar à procura de um interlocutor com
quem pudesse emparceirar por várias horas. E não
gostava de diversificar a conversa. Por hábito,
dissertava à volta do mesmo tema a noite inteira e
sabia defender os seus pontos de vista com
veemência. Notava-se que já tinha refletido muito.
Por vezes era teimoso e acabava por se repetir um
pouco mas, apesar disso, podia considerar-se um bom
conversador.
Contudo, havia algo na sua pessoa que soava a falso.
Quando o observava, eu ficava com a sensação de que,
acima de tudo, Eduardo Sanches pretendia demonstrar
(aos outros e a si próprio) que era perfeitamente
feliz sozinho. Que, para viver, não precisava de uma
companheira. Nem sequer de uma amante ocasional. O
que me levava a considerá-lo um farsante.
Afigurava-se-me que uma genuína vocação para o
celibato se teria manifestado na adolescência e não
na idade adulta, após um casamento falhado.
Portanto, aquela maneira de estar na vida só podia
ser imposta por um ego ferido, necessitado de
independência e ávido de auto estima.
Eduardo Sanches decidira fria e racionalmente nunca
mais se entregar a nenhuma mulher. Sob nenhum
aspeto, nem sequer o sexual. O que era, no mínimo,
bizarro, atendendo a que se tratava de um homem
saudável, na força da vida. E refutava com
desembaraço qualquer argumentação contrária. Dizia
só ter medo da solidão quem não gosta de si mesmo. E
afirmava não compreender a razão do estatuto
privilegiado que o sexo ocupava na sociedade.
- Cada vez ligo menos a essas coisas – afirmou-me em
certa ocasião, quando entre nós já havia alguma
confiança – nem percebo o alarde que se faz à volta
disso. Para mim, a necessidade sexual não existe
enquanto tal, mas apenas em função de alguém.
- É uma ideia contrária à que é vulgarmente aceite –
respondi, tentando espicaçá-lo – costuma até
dizer-se que o apetite sexual, sobretudo nos homens,
funciona como um relógio. E é, em grande parte,
determinante nos comportamentos.
- Cada um é livre de pensar o que quiser. Eu não
penso assim.
Era uma opinião controversa. Ainda por cima,
proveniente de um homem onde se adivinhava uma
sensualidade forte. Encarei-o e atentei na sua
expressão carregada, com rugas à volta dos olhos e
vincos nas faces descoradas. Estava ali um ser
humano com uma sensibilidade exacerbada. E também
uma grande capacidade de sofrimento. Um ser humano
que se fechara hermeticamente para conter os seus
próprios ímpetos. E que, inteligente, soubera criar
os sustentáculos teóricos necessários para manter
uma barreira voluntária entre si e os outros.
Conquistá-lo seria um enorme desafio para qualquer
mulher. Agora, eu percebia porque é que à própria
Rita ele não era indiferente.
Eduardo Sanches canalizara todo a afeição para a
filha, Violeta Sanches, então uma adolescente com
treze anos. E o seu amor por ela era tão grande que
a ele subordinara toda a sua vida. Mimava-a de todas
as maneiras possíveis. Segundo ele, a filha tinha
direito a usufruir do amor do pai em exclusividade.
Exclusividade que não obtivera do lado materno. E
essa era a principal razão pela qual Eduardo Sanches
decidira nunca mais refazer a vida. Claro que, na
base de tudo isto, havia um grande complexo de
culpa. Filho de um lar sereno, sem tribulações,
Eduardo Sanches penalizava-se por não ter conseguido
dar à filha um ambiente familiar em idênticas
condições àquele em que crescera.
- Porque se separou Eduardo da mulher? – perguntei
uma vez a Rita, no decorrer de uma conversa.
- Oh, ela não prestava para nada! Queria apenas
dinheiro. Ele trabalhava e ela gastava. Quando
percebeu que Eduardo não era ambicioso, que nunca
seria rico, tratou de arranjar um marido com maior
poder económico e deixou-o.
Pela maneira de falar de Rita, percebi que não
simpatizava com a ex-mulher de Eduardo Sanches.
- Ele sofreu muito com a separação?
- Sim, muito. Gostava verdadeiramente da mulher.
Embora eu, sinceramente, não consiga perceber
porquê. Porém, creio que o que o magoou mais foi ter
tomado consciência da sua própria cegueira. Afinal,
ela nunca o enganara. Ele é que não tinha visto a
realidade. Andou uns tempos perturbado. Nessa
altura, aparecia cá em casa quase todos os dias. Era
óbvio que precisava de companhia. E acabou por ficar
descrente do amor. Penso que foi essa a razão que o
levou a decidir nunca mais assumir nenhuma relação.
E, para ele, passou a existir apenas o amor de pai,
aquele que não poderia ser posto em causa por nada
nem por ninguém
- E a filha, como é ela?
- Violeta? Você vai acabar por conhecê-la e julgará
por si mesma. Ela vive com a mãe e o padrasto, mas
passa dois fins de semana por mês com o pai. De vez
em quando ele trá-la aqui. Só por acaso é que ainda
não a encontrou.
Percebi que Rita não queria dizer mais nada e o
assunto morreu ali. Todavia, por um lampejo do seu
olhar, fiquei com a sensação de que, à semelhança do
que sentia pela mãe dela, a minha amiga também não
gostava de Violeta Sanches.
Tal como Rita previra, pouco tempo depois, acabei
por travar conhecimento com a filha de Eduardo
Sanches. E que filha! Quando a vi pela primeira vez,
fiquei surpreendida. Violeta era muito bonita. Uma
autêntica beldade. Parecia saída de uma pintura de
Sandro Botticelli. Tinha uma figura franzina e uma
belíssima cabeleira loura, muito comprida e
ondulada, que lhe emoldurava um rosto de um oval
perfeito. A tez era clara e aveludada e as feições
suaves como as de um anjo. Os olhos eram lindos, com
a cor dos do pai, embora mais rasgados e límpidos.
Quanto à boca, assemelhava-se a um botão de rosa,
pequena, bem desenhada e carnuda. Por outro lado,
era tímida. O que contribuía para o seu aspeto
celestial. Eduardo tinha razão em se mostrar tão
orgulhoso da filha.
No entanto, bastaram dois ou três encontros com
Violeta para eu vir a descobrir o erro tremendo da
minha primeira avaliação. À custa de observação
atenta, acabei por concluir ela nada ter de
angelical. Antes pelo contrário. Para começar,
parecia mais velha. Não que o seu corpo fosse
desenvolvido para a idade, mas pelas posturas que
assumia. Notava-se que gostava de contactos. A
maneira de se movimentar, propositadamente ou não,
tinha a particularidade de varrer um espaço muito
superior ao volume que o seu corpo efetivamente
ocupava. Por isso, ao passar, roçava-se sempre (mais
ou menos ao de leve) em alguém, maioritariamente do
sexo oposto. Quanto à voz, era gutural, de uma
sensualidade sem doçura.
Mais tarde, Rita comentaria comigo que Violeta,
ainda de tenra idade, tentava chamar a atenção por
todos os meios. Para tanto berrava e guinchava
produzindo no ouvido alheio um ruído semelhante ao
da esferovite. Nem o pai nem a mãe logravam calá-la.
Segundo a minha amiga, via-se logo que estava ali
uma alminha geniosa e prepotente.
Este retrato remoto não era concordante com o atual.
Agora, Violeta falava pouco. Mas a explicação para o
facto nada tinha a ver com timidez. Provavelmente, à
medida que fora percebendo que a sua beleza se
impunha por si, passara a preferir um papel de
recato. E dava-lhe gozo perceber que as outras
raparigas da sua idade nunca causavam a impressão
que ela própria produzia, ao entrar numa sala.
Devo confessar que não consegui simpatizar com
Violeta Sanches. Talvez por isso (a impressão que um
ser humano nos provoca não pode ser compartimentada)
acabaram por me saltar à vista alguns traços
grotescos na sua figura seráfica. Apesar de
indubitavelmente bonita, fazia-me lembrar vagamente
um inseto, com uns olhos excessivamente laterais e
oblíquos, e uma estrutura frágil, com uns membros e
um pescoço demasiado delgados.
O pai idolatrava-a. Dava-lhe toda a liberdade e
fazia-lhe todas as vontades, mesmo quando se tratava
de caprichos passageiros. Tanto amor era comovente,
quiçá exagerado, pois eu duvidava que a filha fosse
merecedora de tão grande devoção. Era até um pouco
chocante observar como um homem tão frugal consigo
mesmo se dispunha a desbaratar fundos em luxos
supérfluos unicamente para satisfazer a cria. Era
evidente que a cegueira que o acometera em relação à
mãe dela se havia reproduzido na filha. Nem percebia
que, para esta, tudo o que obtinha do pai não
passava de uma bagatela insignificante ao pé da vida
faustosa que a mãe e o padrasto lhe proporcionavam.
Porque o padrasto de Violeta tinha dinheiro. Violeta
sabia-o. E gostava de propalá-lo.
Embora Violeta mostrasse alguma ternura pelo pai era
óbvio que, entre os dois progenitores, preferia a
mãe. E preferia-a porque a considerava um modelo a
imitar. Melhor ainda, a superar. Soubera arranjar um
marido rico e tinha uma boa vida. Dava-se até ao
luxo de pretender ser uma mulher de negócios. Rita
revelara-me que a ex-mulher de Eduardo Sanches já
dirigira uma empresa especializada no tratamento e
conservação de piscinas, uma loja de pronto-a-vestir
e um consultório de medicina veterinária.
Infelizmente, todos os seus empreendimentos haviam
dado prejuízo.
- O marido vai-lhe dando umas sobras para ela
brincar às empresas!... – comentava a minha amiga,
com sarcasmo.
Contudo, eu não tinha ilusões. Malgrado admirar a
mãe, Violeta, acima de tudo, gostava de si mesma. O
que não me chocava particularmente pois está mais
que demonstrado que, a não ser que se persiga a
santidade, é esta afinal a maneira mais saudável de
se atravessar a existência. E as teorias propaladas
pelo pai faziam-na olhá-lo com condescendência. Não
obstante, Violeta era emotiva. Chorava com
facilidade. Várias vezes a vi em lágrimas. Às vezes
a mãe negava-lhe qualquer coisa e ela, como qualquer
frágil adolescente, vinha consolar-se nos braços
paternos. Mas não era sensível à dor alheia. No
fundo, em rigor, considerava o resto da humanidade
perfeitamente insignificante.
Foi por um acaso fortuito que captei, sem margem
para dúvida, a altura exata em que Violeta perdeu a
virgindade. Na passagem de ano subsequente ao tê-la
conhecido, eu tinha sido convidada por Rita Trajouce
para o réveillon em sua casa. Eduardo Sanches também
estava lá. Quando me cruzei com ele, cumprimentei-o
e perguntei-lhe pela filha.
- Violeta foi para o Algarve com uns amigos. Mas
ficou de vir aqui ter. Ainda deve chegar a tempo de
passar a meia-noite comigo – respondeu sorridente.
Achei estranho que a uma rapariga tão nova já fosse
dada tanta liberdade. Mas o pai não lhe sabia dizer
que não.
Com efeito, Violeta apareceu pouco depois. Mais
atenta que o costume, percebi logo, pela sua
expressão afogueada, que algo se tinha passado.
- Como estás? – perguntei-lhe, enquanto ela me
estendia a face em vez de me beijar, como era seu
hábito.
- Bem, obrigada – respondeu com a sua voz grave, com
uma evidente nota de secura. Tal como eu não gostava
dela, também ela não gostava de mim.
- O Algarve é muito estimulante fora da época
balnear… – não resisti a comentar.
Violeta fitou-me com os seus olhos de mosquito e
nada disse. Uma hora depois, por mero acaso, fui dar
com ela numa pequena antecâmara um pouco afastada do
salão principal. Estava sozinha e parecia pensativa.
Mas na realidade estava apenas a afogar-se,
perfeitamente embriagada pelas emoções do seu
sistema hormonal tão precoce e recentemente
estimulado. Tinha catorze anos de idade.
Uma coincidência nunca vem só. Pouco tempo depois
fui assistir à estreia de um filme muito publicitado.
No intervalo, quando toda a gente se dirigia para o
foyer, ouvi uma voz chamar-me. Voltei-me e vi
Violeta na companhia de um casal. A mulher era muito
bonita e vistosa. Tinha boa figura e estava bem
arranjada, com roupas caras e maquilhagem cuidada.
Parecia uma top model. Quanto ao homem, era calvo e
entroncado, de aspeto abrutalhado. Apesar do bom
corte, a indumentária não lhe assentava bem. Parecia
um carroceiro em fato de domingo. Feitas as
apresentações, confirmei o que já suspeitara.
Tratava-se da mãe e do padrasto de Violeta. Esta,
ufana do aspeto da progenitora (com quem era, aliás,
extremamente parecida) não resistira a exibi-la
perante os meus olhos. Quanto ao padrasto, ninguém
diria ser aquela criatura um empresário de sucesso.
Mas era-o. E a isso, provavelmente, se devia o afeto
que Violeta e a mãe lhe devotavam.
Trocámos as frases de conveniência, após o que me
despedi polidamente. E, enquanto me afastava em
direção ao bar para tomar um café, percebi que tinha
descoberto uma das razões que levavam Eduardo
Sanches a ser tão ostensivamente desprendido em
relação ao dinheiro. Pura e simplesmente,
recusava-se a competir com o padrasto da filha.
Apesar da sua boa-fé, Eduardo Sanches não era
estúpido. Portanto, com o passar do tempo, acabou
por perceber que Violeta já tinha vida sexual ativa.
E foi tocante assistir ao esforço que fez para
encarar o facto como natural.
- Eu, na idade dela, já tinha dormido com várias
mulheres - confidenciou-me um dia à laia de
justificação, quando se tornou evidente que já todos
sabíamos o que se passava.
Não respondi. Não acreditava numa só palavra do que
acabara de ouvir.
Durante os tempos que se seguiram, vi Eduardo
Sanches com alguma frequência. Agora que a filha já
tinha uma vida própria, ele não sabia o que fazer
durante os fins de semana. Alguns passava-os a
trabalhar, embora daí não lhe adviesse qualquer
ganho adicional. Mas Eduardo Sanches era assim.
Bastava-lhe saber que empregara o tempo livre da
melhor maneira possível. E à noite, tal como nos
tempos que se haviam seguido ao divórcio, a casa de
Rita Trajouce tornara-se poiso obrigatório.
Entre nós despontava uma serena amizade. Ciente de
que eu não pretendia conquistá-lo, Eduardo Sanches
abria-se comigo. Era evidente que buscava o
equilíbrio perdido. A vida deixara de fazer sentido.
A filha já não precisava dele.
Quanto a Violeta, aparecia cada vez menos. Quando o
fazia, já vinha pelos seus próprios meios e ficava
pouco tempo. Apenas o suficiente para fazer quinze
minutos de companhia ao pai e cobrar-lhe a semanada.
Enquanto isso, o namorado no ativo aguardava dentro
do carro o fim da curta visita ao progenitor.
Várias vezes me interroguei a respeito da razão que
levaria a filha de Eduardo Sanches a encontrar-se
com o pai em casa de terceiras pessoas, em vez de o
procurar na sua própria casa. E só pude encontrar
uma explicação. Procedendo desta maneira, os seus
contactos com o progenitor ficavam reduzidos ao
mínimo.
Todos os namorados de Violeta tinham, em média, mais
dez anos que ela, e já todos possuíam carro e
rendimentos próprios. A que se devia isso? Mero
acaso? Duvido. Na minha opinião, a sua incrível
precocidade tinha o condão de atrair homens mais
velhos. Os machos da sua faixa etária pareciam não
reparar nela. Ou talvez ficassem intimidados com a
sua etérea beleza. E, sempre que a via, eu não podia
deixar de me sentir abismada. Violeta mantinha um
aspeto extraordinariamente inocente. Parecia a
pureza personificada. A quem a visse pela primeira
vez, seria impossível intuir a sua verdadeira
natureza.
Aconteceu por esta altura o início de um grande
interregno no meu convívio com todas estas pessoas
que acabo de descrever. Por circunstâncias da vida
que agora não vêm ao caso, durante mais de dois anos
vivi no estrangeiro. Sempre que vinha a Portugal, o
tempo era pouco para reencontrar todos os amigos.
Mantive alguns contactos telefónicos esporádicos com
Rita Trajouce, que era avessa a e-mails. Porém,
tendo deixado de a visitar, perdi totalmente de
vista Eduardo Sanches.
Encontrava-me de regresso à pátria havia já várias
semanas, quando finalmente contactei com a minha
amiga. Rita não escondeu a satisfação pelo meu
regresso. Simpática e loquaz, como sempre,
convidou-me imediatamente para jantar em sua casa.
- Venha jantar connosco no próximo sábado! – e,
soltando uma risadinha, acrescentou – tenho saudades
de falar com alguém que tenha um cérebro dotado de
alguma capacidade de compreensão. Além disso, se não
vier, vai arrepender-se…
No entanto, para ir jantar a casa de Rita na data
proposta, eu teria de faltar a um encontro já
agendado. Por isso recusei polidamente:
- Lamento, Rita, mas não posso. Já tenho um
compromisso. Tenho muita pena.
- Ah sim? Pois garanto-lhe que terá muito mais pena
se faltar. Lembra-se de Eduardo Sanches?...
- Sim, claro…
- E de Violeta?...
- Também.
- Pois eles também cá estarão. Você tem de os ver.
Aconteceram muitas coisas….
- Ah sim?... Que coisas?....
- Só lhe digo quando cá vier…
Apesar da insistência de Rita, não compareci ao seu
jantar. Porém, não deixara de ficar intrigada.
Embora por regra não me interessasse pela vida
alheia, a história de Eduardo Sanches e da filha era
suficientemente singular para me espicaçar a
curiosidade.
Contudo, os múltiplos afazeres derivados do meu
regresso, fizeram com que se passassem duas semanas
até me ser possível visitar Rita Trajouce. E, quando
o fiz, a minha amiga não me poupou:
- Você, como escritora, devia interessar-se mais
pela vida do seu semelhante!... Não ficou
curiosa?...
- Fiquei, claro que fiquei. Mas era-me impossível…
- Tretas! – interrompeu-me – Não consegue imaginar o
que aconteceu?...
- Violeta engravidou e o pai está furioso?... – era
a única ideia que me ocorria.
Rita soltou uma gargalhada:
- Frio… Muito frio…
- Não sei. Não faço ideia.
- A mãe e o padrasto separaram-se.
- Quê?!
- É verdade! – exclamou Rita, com uma entoação
ligeiramente teatral. E acrescentou:
- Agora, você já não tem qualquer hipótese de
conquistar Eduardo Sanches…
Ao escutar isto, reagi:
- Mas eu nunca tive intenção de o conquistar!...
- Ora, deixe-se disso! Você teve, eu tive, todas as
mulheres que conheço tiveram. O homem não tem um
chavo, é feio que se farta, mas é irresistível. Mas
agora, acabou-se!...
Por entre a evidente chalaça de Rita, entrevi um
minúsculo grão de areia de verdade. E perguntei:
- Que aconteceu? Eduardo vai voltar para a
ex-mulher?
Rita fixou em mim um olhar espantado:
- Nem pensar! Seria a última coisa que ele faria.
Pensei que já o conhecia melhor que isso…
- Mas então, não percebo – e abanei a cabeça.
- Minha querida – e a expressão de Rita perdeu a
leveza – agora Eduardo reencontrou o sentido da
vida. Não o confessa a ninguém, mas está cheio de
esperança de que Violeta queira viver com ele.
Quedei-me pensativa e nada respondi. Apesar dos
dados novos de que tomara conhecimento, eu percebia
que ainda me faltavam muitas peças chave para
completar o puzzle de toda esta história.
Pouco tempo depois, revi Eduardo Sanches. Ao
contrário do que seria expectável, tinha um aspeto
rejuvenescido. Já de si intenso, o seu olhar parecia
ter adquirido um novo brilho. Todavia, patenteava
também uma certa tensão acrescida, como se algo de
muito decisivo na sua vida estivesse para acontecer
a qualquer momento.
Conhecendo o seu espírito reservado, receei ter de
usar algum subterfúgio com a finalidade de o levar a
revelar-me os seus anseios. No entanto, tal não foi
necessário. Foi ele mesmo que puxou o assunto:
- A mãe e o padrasto de Violeta separaram-se –
disse-me, mal nos sentámos num dos recantos do
agradável salão de Rita.
- Sim, já sei.
- Violeta está a reagir muito mal.
- Sabe qual foi o motivo da separação?
- Não sei, nem quero saber. Nesta história toda só
me interessa preservar a estabilidade emocional de
minha filha.
- Compreendo.
Conversámos durante uma hora, durante a qual Eduardo
Sanches me falou exclusivamente de Violeta. Ela
estava muito deprimida. Não conseguia aceitar a
separação da mãe. As duas discutiam muito. E Violeta
só encontrava consolo junto do pai
Enquanto Eduardo Sanches falava, eu não despegava os
olhos dele. Era evidente que acreditava em tudo o
que dizia. No entanto, aquilo que descrevia era
inverosímil. Violeta, tristonha, a envidar esforços
para reconciliar a mãe com o padrasto?!... Era
impensável, totalmente incompatível com a Violeta
que eu conhecia. Poderia ela ter mudado assim
tanto?...
Mas nem sempre as coisas seguem a lógica da
plausibilidade. Duas semanas depois, quando voltei a
casa de Rita, pai e filha estavam lá. Não fiquei
admirada ao verificar que, durante a minha ausência,
Violeta desabrochara por completo. Crescera e
ganhara formas, tornando-se numa mulher
deslumbrante. E digo mulher na verdadeira aceção da
palavra. Apesar de ainda não ter completado dezoito
anos, todo e qualquer resquício de candura havia
desaparecido do seu semblante de aparência virginal.
Todavia, ostentava uma expressão abatida. E cheguei
a questionar a minha avaliação psicológica da sua
pessoa. Talvez, perante a adversidade, tivesse
germinado algum bom sentimento naquele coração
ambicioso e egoísta. E senti esbater-se um pouco a
antipatia visceral que lhe dedicava. No fundo, era
digna de dó. E olhei para ela como aquilo que
objetivamente era – uma jovem que via o seu mundo
familiar ruir pela segunda vez. Todavia, mais tarde,
eu recordaria este meu momentâneo sentimento de
comiseração como um lapso de imperdoável pieguice.
A pouco e pouco, fui apreendendo os detalhes da
situação e retificando a minha avaliação sobre a
mesma. Fora o padrasto de Violeta que abandonara o
domicílio conjugal, uma opulenta vivenda em Nafarros,
enquanto Violeta e a mãe nela permaneciam. No
entanto, pouco tempo decorrera até aquele exigir a
venda do imóvel de que era proprietário. A mãe de
Violeta, que provavelmente contava com alguma
parcimónia por parte do marido, fora forçada a sair
da dita residência na companhia da filha, e a
acomodar-se num pequeno apartamento compatível com
as suas posses. Enquanto não conquistasse outro
homem rico, teria de viver exclusivamente do último
negócio que montara – um franchising de produtos de
beleza de cariz esotérico e cabalístico, que se
adivinhava pouco lucrativo.
Qual teria sido o motivo da separação? Mistério.
Aparentemente, decorrera de comum acordo. Se havia
terceiras pessoas envolvidas no rompimento,
permaneciam na sombra. No entanto, conhecedora dos
antecedentes da mãe de Violeta, Rita Trajouce
apostava que haveria mouro na costa. Um mouro mais
rico (e sobretudo) mais bonito que o anterior. E
que, em devido tempo, surgiria em cena.
Violeta continuou a exibir um ar sofredor. No
entanto, apesar de esporádicos ataques de choro, não
se abria. Era impossível perceber exatamente o que
se passava dentro dela. Todavia, uma subtil
alteração do seu comportamento levava-me a concluir
que insensivelmente, no seu espírito arguto, os
antigos papéis dos progenitores se haviam invertido.
De vez em quando, deixava escapar uma crítica acerba
à mãe, seu antigo ídolo. E fazia-o com frieza e
precisão, como um corte a bisturi. Por outro lado, o
pai já não era apenas um simpático desmiolado das
teorias estapafúrdicas, mas a sua principal fonte de
rendimentos.
Durante essa fase vi Eduardo Sanches manifestamente
perturbado. Não suportava ver Violeta sofrer. Mais
do que nunca, cumulava-a de atenções. As quantias
que lhe dava eram agora mais substanciais, sobretudo
se atendermos ao seu nível de vida. No fundo, embora
quisesse disfarçá-lo, estava suspenso da decisão da
filha. Era tocante de observar. Aquele homem
solitário depositava toda a sua esperança de
felicidade num gesto, numa palavra, numa sugestão do
ser que gerara. Mas o tempo foi passando e Violeta
nunca mencionou a hipótese, mesmo remota, de querer
ir viver com o pai. Até que este acabou por perder
as ilusões a tal respeito.
Foi um duro golpe para Eduardo Sanches. Golpe só
amortecido pela sua grande capacidade de encaixe e
pelo seu longo tirocínio de auto domínio.
Decorreram alguns meses sem novidades de maior. E as
coisas acabaram por tender a estabilizar-se. A mãe
de Violeta foi-se aguentando com os proventos da
loja, e Violeta continuou a viver com ela, a namorar
e a aparecer em casa de Rita Trajouce sempre que
queria encontrar-se com o pai. Quanto ao padrasto (o
empedernido detentor de negócios lucrativos, agora
divorciado) desaparecera completamente de
circulação. Ninguém sabia dele.
Todavia, o tempo é suave remédio para todos os
males. Sempre que visitava a minha amiga de Colares
e me encontrava com Eduardo Sanches, eu reparava que
a conversação já versava outros temas. E, a começar
pela dona da casa, todos evitavam assuntos delicados
e constrangedores.
E foi assim que, quase insensivelmente, me apercebi
de que Eduardo Sanches estava a mudar. Lenta mas
seguramente. A grande desilusão sofrida parecia
tê-lo aberto para os outros. Cada vez que o via
notava-o mais compreensivo, com opiniões menos
radicais. Não havia dúvidas de que adquirira jogo de
cintura. E isso agradava-me. Culto e bom pensador, o
facto de variar a temática fazia dele um conversador
maravilhoso. No entanto, não se tratava de nenhuma
viragem para o oposto, mas de uma evolução positiva.
Os pilares da sua estrutura honesta e desinteressada
mantinham-se intactos.
Acabámos trocando contactos e marcando encontros
diretamente. Já não nos víamos apenas em casa de
Rita. Dia após dia, descobríamos que nos uniam novas
afinidades e, entre nós, a amizade tendia a
transmutar-se em algo mais profundo. Amiúde
percorríamos juntos o trajeto de Sintra a Colares,
no pequeno carro de Eduardo. Na sua companhia eu ia
descobrindo as pequenas maravilhas desse delicioso
percurso por entre a frescura do arvoredo,
emparelhado com a linha do elétrico, ora de um lado,
ora do outro. Identificava-me com os suaves montes e
vales, com o cheiro a campo, com as moradias
esparsas e floridas, com o chilrear dos pássaros e
com a sugestão de mar que ainda se não via mas já se
adivinhava. Quanto ao meu companheiro, reconhecia-o
nas árvores altas e imponentes, perfiladas,
resistentes às intempéries. E também no aspeto da
paisagem do final do percurso, quando esta, devido à
proximidade do oceano, perdia de repente a
suavidade, tornando-se acidentada e agreste.
Rita metia-se comigo:
- Então? Foi difícil mas conseguiu!...
- Ora Rita, consegui o quê? Que é que você quer
dizer?...
- Não se faça de inocente. Sabe muito bem o que eu
quero dizer…
Mas, na realidade, eu não sabia bem o que pensar.
Deixava-me embalar em sonhos como uma adolescente.
Às vezes parecia-me que Eduardo se interessava
verdadeiramente por mim. Já não evitava falar de si
próprio nem dar-me a conhecer o seu passado. Gostava
particularmente de dissertar sobre os pais (ambos já
falecidos) e sobre a sua infância tranquila e feliz.
Era como se um imenso mundo de emoções venturosas,
até aí submerso pelo poder da vontade, estivesse, a
pouco e pouco, a emergir. Todavia, em rigor, não
havia nada entre nós. Porém, eu tinha toda a
paciência do mundo. E ia saboreando a sua companhia
no momento presente, sem passado nem futuro,
enquanto aguardava serenamente que os nossos
sentimentos amadurecessem e se clarificassem.
Até que algo aconteceu. Violeta fez dezoito anos. E,
definitiva e legalmente emancipada, comunicou a
todos a sua decisão de ir viver para Londres.
Segundo dizia, estava farta de viver com a mãe e
queria a todo o custo sair de casa.
De novo não colocou sequer a hipótese de ir viver
com o pai. Porém, desta vez, este aceitou o facto
como natural. Teria Eduardo, já nessa altura,
consciência da verdadeira natureza do ser que
gerara? Não o posso saber. Todavia, o certo é que
não mostrou desgosto, nem sequer ansiedade. E não se
opôs à vontade da filha. Afinal, ela sempre fora uma
aluna fraca, sem grandes perspetivas profissionais.
E, em Londres, não sei por que artes, conseguira um
contrato de trabalho lícito e previamente firmado.
Obtida a tácita autorização do pai, a própria
Violeta tratou de todos os detalhes com uma
surpreendente ligeireza. Acomodações, papelada e
todos os trâmites legais necessários à sua ida para
Londres apareceram ultimados como que por milagre.
E, por fim, Violeta partiu e Eduardo ficou.
Quanto a mim, fui observando atentamente as reações
do meu amigo. Estaria ele curado do amor obsessivo
que nutria pela filha? Impossível sabê-lo. Porém, a
nossa mútua predileção ia-se fortalecendo. Os seus
diques cediam. Às vezes eu percebia o seu olhar
intenso pousado em mim. E intuía que pouco faltaria
para aquele coração fechado se entreabrir de vez.
Violeta dava notícias esporadicamente, por e-mail ou
telefone. E, a este respeito, Eduardo era lacónico.
Por outro lado, eu não puxava um assunto que
adivinhava desagradável. Afinal de contas, pai é
pai. Era mister respeitá-lo como tal. Aliás eu nem
sequer sabia ao certo em que ramo trabalhava
Violeta. Numa espécie de Cyber Café, supunha. Porém,
fosse onde fosse, já não dependia do pai.
Aproximava-se o Natal, o primeiro desde que Violeta
estava ausente. Alguma coisa me dizia que seria uma
época decisiva para Eduardo e para mim. Pela
primeira vez, ele iria passar aquela quadra tão
significativa longe da filha. E eu não podia
suportar a ideia de ele ficar sozinho. Por isso,
reunindo toda a minha coragem, propus-lhe passarmos
a consoada juntos.
- Também já tinha pensado nisso – respondeu Eduardo
esboçando um sorriso – mas, entretanto, tive uma
ideia melhor.
- Ah sim? Que ideia?...
- Fazermos uma viagem. Passarmos o Natal no
estrangeiro.
Ao escutar estas palavras, o meu coração começou a
bater com mais força.
- É uma ótima ideia! E onde iremos? Tens algum
destino em mente?...
Eduardo fitou-me e respondeu, tentando parecer
natural:
- Londres.
- Oh, não!
Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Mas a
expressão de Eduardo endureceu:
- Tem de ser.
Abanei a cabeça.
- Não, Eduardo. Não vou. Não contes comigo.
- Tem de ser – repetiu.
- Mas porque não vais sozinho? Porque é que tenho de
te acompanhar?...
Eduardo aproximou a sua face da minha e olhou bem
dentro dos meus olhos. Nunca havíamos estado tão
próximos. E então devagar, muito devagar, pondo no
gesto uma suavidade sobrenatural, roçou docemente os
seus lábios pelos meus.
- Porque é a única maneira de eu conseguir ter paz…
– respondeu por fim, num sussurro.
Duas semanas depois, levantei voo rumo a Londres com
o homem que amava. Era antevéspera de Natal. Como
única referência, tínhamos uma morada. E,
propositadamente ou não, Violeta não fora avisada.
Um inexplicável sentimento de angústia dominava-me
por completo. Acudia-me ao pensamento o drama da
infeliz Rainha D.Amélia a caminho do exílio, e a
minha intuição, exacerbada nem sei por que ventos
premonitórios, segredava-me que um destino
sorrateiro e implacável, nos aguardava, a Eduardo e
a mim, naquela cidade soturna.
Chegámos. Era noite cerrada. Caía uma cacimba
gelada, tão característica daquelas paragens. O frio
era de rachar. Mas eu tinha pressa de encontrar
Violeta e acabar com aquele medo sobrenatural. Por
isso, apesar do meu cansaço, sugeri que
despachássemos o assunto o mais depressa possível.
Eduardo concordou.
Uma vez alcançado o hotel que havíamos reservado,
deixámos lá as malas e metemo-nos no underground
rumo a uma determinada estação. Aparentemente,
Eduardo estava calmo. Eu tremia. Meu Deus, parecia
que só eu tinha consciência da estranheza de tudo
aquilo!...
Saímos na estação prevista e procurámos o endereço
que nos interessava. Caminhámos rapidamente e ao fim
de pouco tempo encontrámos a rua. E, à medida que
íamos avançando, o olhar de Eduardo ensombrava-se. O
seu braço apertava o meu. O número que procurávamos
não existia.
Percorremos novamente a rua do princípio ao fim, em
silêncio. A única morada de referência que Violeta
fornecera ao pai, era falsa. Não havia mais pistas.
Vagueámos ao acaso. À medida que caminhava, eu
tentava esvaziar o cérebro de hipóteses absurdas e
concentrar-me apenas na bruma gelada que me batia no
rosto. E não consigo avaliar o tempo que decorreu
até me aperceber que tinha de romper o silêncio:
- Esquece, meu amor! Oh, por favor, esquece! Eu sei
que é difícil, mas é o que tens de fazer.
Que vãs me soaram as minhas próprias palavras!...
Mas Eduardo não me respondeu. E continuou a caminhar
com uma expressão vazia, como um autómato,
guiando-me com o seu braço magro e firme, através de
um emaranhado de artérias.
Acabámos por ir parar a uma zona movimentada, pejada
de pub’s e clubes noturnos que começavam a abrir as
portas. Havia muita gente nas ruas e fazia-se ouvir
uma saudável algaraviada. E, quando se falava, o
vapor de água condensava-se em pequenas nuvens em
frente das faces congestionadas pelo frio.
De súbito, senti fome. Mencionei o facto a Eduardo e
entrámos num pub. Mal nos sentámos num recanto
obscuro, percebi que Eduardo chorava. O seu rosto
permanecia impassível mas a humidade dos olhos
traía-o.
- Tenho de saber o que se passa! – disse.
Olhei-o surpreendida.
- Mas… ainda não percebeste?...
- Não sei.
Abanei a cabeça. Agora, estava um pouco mais calma.
Apesar de tudo, preferia não ter de me encontrar com
Violeta. Ela nunca gostara de ser controlada.
Provavelmente, dera uma morada falsa ao pai para
evitar este tipo de surpresas.
Comemos qualquer coisa e voltámos à rua. Eduardo já
não chorava. De cabeça erguida, parecia querer fixar
cada rosto que passava. Não voltara a proferir uma
palavra.
Para me distrair, comecei a reparar nas montras das
Sex. shops e outras lojas de artefactos fetichistas
que povoavam a zona. Imagens sugestivas convidavam
os seres humanos a espojar-se e a fossar na torpeza
e na obscenidade. Eduardo, chocado, olhava noutra
direção. Encolhi os ombros. O seu humano está
agrilhoado aos seus instintos. E, para a maioria, só
a plena satisfação destes possibilita os pensamentos
elevados.
Em determinada altura, vi um grupo de homens a
discutir em frente de um clube noturno. À porta, um
outro homem participava na contenda. Estava de
perfil e pareceu-me vagamente familiar. Tinha um
corpo atarracado e usava uma espécie de boina.
Falava baixo mas gesticulava muito. Tive a sensação
de que era o gerente do clube e que tentava aliciar
aquele grupo de homens a entrar.
Com efeito, pouco depois, o grupo entrou e o homem
desapareceu nas entranhas do estabelecimento. O meu
olhar vagueou ao acaso pela fachada grosseira. Era
um antro de streap tease. E, de súbito, senti a
angústia recrudescer. Como num filme em câmara
lenta, larguei o braço de Eduardo, que parara e
olhava para outro lado, e aproximei-me. Pequenos
letreiros de néon rosa vivo exibiam os nomes das
principais atrações, num novelo de gosto duvidoso.
Perante os meus olhos atónitos, sobressaíram da
amálgama de luz duas palavras, numa versão artística
com um toque british do nome da pessoa que tínhamos
ido procurar:
VIOLET SANDEMAN
E lá estava ela, seminua, numa espécie de fotografia
retocada, exibindo o seu olhar provocador. Mais
bonita do que nunca, havia algo de terrível na sua
perfeição impoluta, como se se tratasse de um
exemplar representativo de uma espécie biológica
diferente, mais evoluída mas menos humana. A
cabeleira loira e ondulada, de anjo, reforçava-lhe a
imagem de malignidade.
Recuei alguns passos e, a poucos metros de
distância, o gerente do clube assomou de novo à
porta e voltou a cara para mim. Nesse preciso
momento reconheci-o. Era o ex-padrasto de Violeta.
Dei um grito e senti-me desfalecer. Voltei-me e vi
Eduardo olhar-me com uma expressão alarmada e
estender os braços para me amparar. Depois, não me
recordo bem do que se seguiu. Apercebi-me vagamente
de que era metida dentro de um automóvel e
transportada com suavidade através das ruas
iluminadas, numa espécie de torpor cataléptico.
Quando recuperei a consciência, estava deitada numa
cama no nosso quarto de hotel. Deviam ter passado
várias horas. Eduardo estava ao meu lado. Aos meus
olhos mal focados o seu rosto aparecia embaciado.
Abri a boca para falar mas não fui capaz.
- Sossega… – disse-me Eduardo com ternura.
- Estás bem?... – consegui articular, numa voz quase
impercetível.
Vi Eduardo acenar com a cabeça, afirmativamente.
Porém, cansada, voltei a fechar os olhos. Senti
então a sua mão acariciar-me a cabeça. Era um gesto
de uma tão grande doçura que me transmitiu uma
imensa serenidade. E, nesse preciso momento, tive a
certeza de que ele sabia. Sim, sabia, e nunca
falaria no assunto. Lágrimas de incontida comoção
rolaram dos meus olhos fechados. Então Eduardo
inclinou-se e beijou uma das lágrimas que me
escorria pela face. Abri de novo os olhos e vi-o
levantar-se e apontar para a janela onde se notava
já o lusco-fusco da madrugada.
- Olha, o dia já está a nascer – disse.
Adelina Velho da Palma |