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PÁGINA 13
 

 

 

 

A BELDADE

 

Por pouco permeáveis que sejamos, há sempre algo das opiniões alheias que se sedimenta dentro de nós. Talvez por isso, quando travei conhecimento com Eduardo Sanches, tive uma certa dificuldade em avaliar de forma isenta a impressão que me causou.
O nosso encontro deu-se em casa de Rita Trajouce, a esposa de um homem de negócios que, após ter alcançado uma razoável fortuna à custa de especulação bolsista, soubera parar a tempo. Mulher na casa dos quarenta anos, bonita e exuberante, o dinheiro do marido dava-lhe a margem de manobra de que ela necessitava para brilhar em sociedade. Rita dava numerosas festas e frequentava os lugares mais em voga. Contudo, não era snobe. Gostava verdadeiramente das pessoas e não convivia apenas com quem, de algum modo, pudesse contribuir para a sua aura de notoriedade. Nas suas receções, figuras badaladas misturavam-se saudavelmente com amigos menos notáveis.
Os Trajouce moravam numa belíssima vivenda em Colares, quase um solar, adquirida por bom preço a uns nobres empobrecidos. Situada na parte mais antiga daquela que é a vila mais ocidental da Europa (e Património Mundial), a propriedade era maravilhosa. Quando Rita e o marido a tinham adquirido, encontrava-se abandonada havia décadas. Fora necessário levar a cabo um difícil e dispendioso trabalho de reconstrução, sem mudar fosse o que fosse da estética original. Mas os Trajouce estavam de parabéns. O resultado final, conjugando a arquitetura de origem com toda as comodidades modernas, era deveras impressionante.
Para lá se chegar era necessário alcançar a Várzea de Colares e, a partir daí, subir por ruas íngremes e tortuosas, de piso irregular. Todavia, o trajeto valia a pena. Logo no início encontrava-se a Quinta de Santo Expedito, uma razoável extensão outrora luxuriante e então tristemente abandonada, como um vasto sepulcro de cameleiras mortas. Contudo, uma breve paragem permitia já usufruir de uns primeiros laivos de panorama. Em baixo, a Várzea espraiava-se a nossos pés, com o seu casario branco e desempoeirado. Pressentia-se de imediato a existência de muita água. Por toda a parte havia ribeiros e fontes, e quase que se podia reconhecer o borbulhar dos sifões naturais do subsolo. Até onde a vista alcançava, o vale e a encosta estavam cobertos de arvoredo e a vegetação era abundante e viçosa. Continuando a subir encontrava-se o Largo da Igreja Matriz com a Fonte de Melides, onde se situava o café mais antigo da vila. À medida que se prosseguia a escalada, as ruas estreitavam-se e as construções iam evidenciando um cunho cada vez mais antigo. Passava-se por uma pequena praça dominada por uma casa imponente, um edifício peculiar e um pelourinho, respetivamente o tribunal, a prisão e a forca de tempos idos. Do lado direito avistava-se já o Palácio da Pena. À esquerda, uma nesga de oceano insinuava-se por entre dois cabeços, alargando rapidamente à medida que se subia. Se o mar estivesse bravo, eram visíveis os cachões de espuma branca e audível o fragor da rebentação. Por fim, alcançava-se o Castelo de D. Nuno Álvares Pereira, assim chamado devido a ter sido oferecido ao Condestável por el-rei D.João I após a batalha de Aljubarrota. Nas imediações do castelo a vegetação era singularmente tropical, composta por bananeiras e árvores de borracha, facto que se devia a, em determinada altura, terem sido pertença do Ministro Fontes Pereira de Melo, que trouxera numerosas espécimes africanas das suas frequentes viagens àquele continente.
Oculta entre o castelo e a parte posterior da encosta, não era fácil encontrar a casa de Rita Trajouce. Um sóbrio portão em ferro dava acesso ao jardim fronteiro à mansão, arranjado com gosto e sem ostentação. O mesmo se podia dizer da vivenda propriamente dita, que se enquadrava harmoniosamente no ambiente ao redor.
Eu conhecera Rita havia algum tempo (alguém a trouxera ao lançamento de um dos meus livros) e, embora não nos pudéssemos considerar íntimas, a nossa amizade crescera rapidamente, alimentada por uma mútua empatia. Na verdade, era evidente para mim que Rita, indiferente de início, me passara a olhar com outros olhos após ter lido alguns dos meus escritos. Este fenómeno não era incomum. Todavia, tal reconhecimento implícito, vindo de uma mulher culta e inteligente como Rita, era-me particularmente lisonjeiro. A sua admiração pelo meu trabalho e pelas condições difíceis em que eu o desenvolvia era genuína. Aliás, não haveria mais nenhuma razão para Rita me brindar tão amiúde a mim, uma obscura escritora em início de carreira, com amáveis convites para jantares em sua casa, que eu aceitava de bom grado. O que não deixava de ser curioso pois o meu psiquismo era radicalmente adverso à vacuidade desse tipo de ambientes. Todavia, a casa de Rita Trajouce era uma exceção. Afigurava-se-me encontrar ali, no meio de um punhado de figuras conhecidas, o contraponto indispensável ao desenvolver de uma escrita com pretensões de profundidade.
Quanto a Rogério, o marido de Rita, era um homem amistoso, mas de poucas falas. No entanto, submetia-se com bonomia às iniciativas da mulher. Não lhe desagradava receber convidados e dava-lhe um particular prazer mostrar a propriedade e descrever em pormenor a maneira como as obras de recuperação haviam sido conduzidas. Claro que havia quem assegurasse que Rogério Trajouce não havia enriquecido da maneira mais honesta. Eu própria apenas podia fazer uma pálida ideia do valor de certas obras de arte exibidas no salão da residência, como um pequeno quadro atribuído a Turner. Mas, quem se importaria com a verticalidade da origem dos fundos cuja fruição era tão simpaticamente compartilhada com os amigos?...
Certa noite, os Trajouce comemoravam um aniversário de casamento e haviam reunido na sua residência três ou quatro dúzias de convidados. Deambulava eu, de copo de vermute na mão, pelo agradável jardim da propriedade, perscrutando com o meu olhar a acidentada Praia da Adraga (que tinha o condão de sempre me recordar o drama da Rainha D.Amélia de Órleans e Bragança, nos dias que se seguiram ao golpe de 1910), quando Rita se me dirigiu com a habitual desenvoltura:
- Venha, minha querida. Quero apresentá-la a uma pessoa.
- A quem?
- Eduardo Sanches.
Rita já se havia referido a esse personagem como o divorciado mais cobiçado da linha de Sintra. Expressão de que eu não podia, à partida, compreender o fundamento, pois sabia que não era propriamente um bom partido. E depreendia que se tratava de uma avaliação derivada unicamente da simpatia pessoal da minha amiga. Com efeito, ela e Eduardo conheciam-se havia muitos anos, praticamente desde a infância. As famílias de ambos pertenciam ao mesmo círculo de amigos. Rita teria tido um fraquinho por Eduardo durante a adolescência (que porventura ainda se mantinha), mas o namoro não dera em nada e cada um seguira o seu caminho. Formado em Economia com distinção, Eduardo casara ainda jovem, loucamente apaixonado, e tivera uma filha. Porém, ao fim de poucos anos, acabara por se divorciar. Desde então, Rita nunca mais lhe conhecera qualquer relação. Já lá iam mais de dez anos.
Rita considerava Eduardo Sanches um génio financeiro. Dizia que ele conseguia prever com uma exatidão milimétrica toda e qualquer oscilação bolsista. Se o quisesse, seria milionário. Todavia, isso não o interessava. Vivia sozinho em Sintra, num pequeno apartamento alugado. Um automóvel barato era o seu único pertence. Trabalhava como controller numa firma de comércio marítimo em Lisboa e todos os dias se deslocava de comboio para o emprego. Não se interessava por bens materiais e nunca utilizara os seus dotes em proveito próprio. O que não o impedia de aconselhar os amigos. Era às premonições de Eduardo, segundo Rita, que o marido devia uma fatia considerável da sua fortuna.
Retrato psicológico tão extraordinário acicatara a minha curiosidade. Portanto foi com um inegável interesse que me deixei conduzir por Rita, através de vários grupos de convidados, até um recanto de um dos salões, onde um homem encostado a um aparador, de costas para nós, preparava uma bebida. Rita chamou-o e fomos apresentados.
Eduardo Sanches era um homem alto e magro. O rosto era estreito e mal escanhoado, com uma pele macilenta e irregular, de poros dilatados. As feições eram angulosas, como se um escultor as houvesse talhado a escopro e martelo sem lhes dar os retoques finais. O nariz era comprido e a boca grande, de lábios carnudos. O cabelo era castanho claro, liso e um pouco comprido. Envergava um traje informal que, apesar das linhas clássicas, me pareceu antiquado. No entanto, a presença de Eduardo Sanches era por si só suficientemente marcante para a indumentária desempenhar um papel secundário no cômputo geral da sua pessoa.
Apesar da magreza, Eduardo Sanches não parecia frágil. Pelo contrário, emanava dele uma inequívoca sensação de força, tanto física como anímica. Todavia eram os olhos, claros e enormes, o seu detalhe mais digno de realce. Quando se detiveram em mim, fizeram-no com intensidade, como se fossem incapazes de um simples olhar superficial. Era, decerto, mais feio que bonito. No entanto era também, indubitavelmente, um homem de uma invulgar sensualidade.
Mostrou-se cortês e manteve-se em polida conversação comigo durante perto de meia hora. Queria ser simpático. Contudo, notei-lhe algum cuidado em evitar temas privados. Era obviamente uma pessoa reservada. Não sei porquê, fiquei com a sensação que isto se aplicava, em particular, às mulheres. Decerto conhecedor da atração que exercia sobre elas, e determinado a não se envolver com ninguém, nem por um momento baixava a guarda.
Com o passar do tempo, fui-me tornando visita frequente em casa de Rita Trajouce e não era raro encontrar Eduardo Sanches por lá. Nada mais natural pois afinal ele era amigo de infância da dona da casa. Quanto a mim, atraía-me a atmosfera de cordialidade e, claro está, a beleza do local. Paisagens como aquela haviam sido desenhadas pelo Criador para serem admiradas. Até o ato de conduzir o meu carro pela curvilínea e eternamente fresca estrada entre Sintra e Colares me descontraía.
Quando via Eduardo Sanches, eu interrogava-me de onde proviria, em rigor, o seu charme. E acabei por concluir que encontrar-se-ia provavelmente no olhar macio e profundo, aliado a uma ténue sugestão de brutalidade que exalava dos seus gestos contidos. Por outro lado, o fruto proibido é o mais apetecido. O facto de ele viver sozinho e assumidamente assim pretender continuar, contribuía para o tornar ainda mais atraente. O que não deixava de ser esquisito pois, em rigor, Eduardo Sanches não passava de um assalariado de quarenta anos, sem qualquer fortuna pessoal e com uma filha a cargo.
No entanto, estes encontros ocasionais acabariam por me permitir traçar um perfil mais completo e coerente de Eduardo Sanches. Apesar de reservado, gostava de conversar. Quando falava, por vezes entusiasmava-se. Nessas alturas gesticulava muito, e era interessante verificar que quando comparecia num evento social em casa de Rita, embora cumprimentasse toda a gente, geralmente restringia o diálogo a uma única pessoa. Várias vezes o vi percorrer a massa humana com o olhar à procura de um interlocutor com quem pudesse emparceirar por várias horas. E não gostava de diversificar a conversa. Por hábito, dissertava à volta do mesmo tema a noite inteira e sabia defender os seus pontos de vista com veemência. Notava-se que já tinha refletido muito. Por vezes era teimoso e acabava por se repetir um pouco mas, apesar disso, podia considerar-se um bom conversador.
Contudo, havia algo na sua pessoa que soava a falso. Quando o observava, eu ficava com a sensação de que, acima de tudo, Eduardo Sanches pretendia demonstrar (aos outros e a si próprio) que era perfeitamente feliz sozinho. Que, para viver, não precisava de uma companheira. Nem sequer de uma amante ocasional. O que me levava a considerá-lo um farsante. Afigurava-se-me que uma genuína vocação para o celibato se teria manifestado na adolescência e não na idade adulta, após um casamento falhado. Portanto, aquela maneira de estar na vida só podia ser imposta por um ego ferido, necessitado de independência e ávido de auto estima.
Eduardo Sanches decidira fria e racionalmente nunca mais se entregar a nenhuma mulher. Sob nenhum aspeto, nem sequer o sexual. O que era, no mínimo, bizarro, atendendo a que se tratava de um homem saudável, na força da vida. E refutava com desembaraço qualquer argumentação contrária. Dizia só ter medo da solidão quem não gosta de si mesmo. E afirmava não compreender a razão do estatuto privilegiado que o sexo ocupava na sociedade.
- Cada vez ligo menos a essas coisas – afirmou-me em certa ocasião, quando entre nós já havia alguma confiança – nem percebo o alarde que se faz à volta disso. Para mim, a necessidade sexual não existe enquanto tal, mas apenas em função de alguém.
- É uma ideia contrária à que é vulgarmente aceite – respondi, tentando espicaçá-lo – costuma até dizer-se que o apetite sexual, sobretudo nos homens, funciona como um relógio. E é, em grande parte, determinante nos comportamentos.
- Cada um é livre de pensar o que quiser. Eu não penso assim.
Era uma opinião controversa. Ainda por cima, proveniente de um homem onde se adivinhava uma sensualidade forte. Encarei-o e atentei na sua expressão carregada, com rugas à volta dos olhos e vincos nas faces descoradas. Estava ali um ser humano com uma sensibilidade exacerbada. E também uma grande capacidade de sofrimento. Um ser humano que se fechara hermeticamente para conter os seus próprios ímpetos. E que, inteligente, soubera criar os sustentáculos teóricos necessários para manter uma barreira voluntária entre si e os outros. Conquistá-lo seria um enorme desafio para qualquer mulher. Agora, eu percebia porque é que à própria Rita ele não era indiferente.
Eduardo Sanches canalizara todo a afeição para a filha, Violeta Sanches, então uma adolescente com treze anos. E o seu amor por ela era tão grande que a ele subordinara toda a sua vida. Mimava-a de todas as maneiras possíveis. Segundo ele, a filha tinha direito a usufruir do amor do pai em exclusividade. Exclusividade que não obtivera do lado materno. E essa era a principal razão pela qual Eduardo Sanches decidira nunca mais refazer a vida. Claro que, na base de tudo isto, havia um grande complexo de culpa. Filho de um lar sereno, sem tribulações, Eduardo Sanches penalizava-se por não ter conseguido dar à filha um ambiente familiar em idênticas condições àquele em que crescera.
- Porque se separou Eduardo da mulher? – perguntei uma vez a Rita, no decorrer de uma conversa.
- Oh, ela não prestava para nada! Queria apenas dinheiro. Ele trabalhava e ela gastava. Quando percebeu que Eduardo não era ambicioso, que nunca seria rico, tratou de arranjar um marido com maior poder económico e deixou-o.
Pela maneira de falar de Rita, percebi que não simpatizava com a ex-mulher de Eduardo Sanches.
- Ele sofreu muito com a separação?
- Sim, muito. Gostava verdadeiramente da mulher. Embora eu, sinceramente, não consiga perceber porquê. Porém, creio que o que o magoou mais foi ter tomado consciência da sua própria cegueira. Afinal, ela nunca o enganara. Ele é que não tinha visto a realidade. Andou uns tempos perturbado. Nessa altura, aparecia cá em casa quase todos os dias. Era óbvio que precisava de companhia. E acabou por ficar descrente do amor. Penso que foi essa a razão que o levou a decidir nunca mais assumir nenhuma relação. E, para ele, passou a existir apenas o amor de pai, aquele que não poderia ser posto em causa por nada nem por ninguém
- E a filha, como é ela?
- Violeta? Você vai acabar por conhecê-la e julgará por si mesma. Ela vive com a mãe e o padrasto, mas passa dois fins de semana por mês com o pai. De vez em quando ele trá-la aqui. Só por acaso é que ainda não a encontrou.
Percebi que Rita não queria dizer mais nada e o assunto morreu ali. Todavia, por um lampejo do seu olhar, fiquei com a sensação de que, à semelhança do que sentia pela mãe dela, a minha amiga também não gostava de Violeta Sanches.
Tal como Rita previra, pouco tempo depois, acabei por travar conhecimento com a filha de Eduardo Sanches. E que filha! Quando a vi pela primeira vez, fiquei surpreendida. Violeta era muito bonita. Uma autêntica beldade. Parecia saída de uma pintura de Sandro Botticelli. Tinha uma figura franzina e uma belíssima cabeleira loura, muito comprida e ondulada, que lhe emoldurava um rosto de um oval perfeito. A tez era clara e aveludada e as feições suaves como as de um anjo. Os olhos eram lindos, com a cor dos do pai, embora mais rasgados e límpidos. Quanto à boca, assemelhava-se a um botão de rosa, pequena, bem desenhada e carnuda. Por outro lado, era tímida. O que contribuía para o seu aspeto celestial. Eduardo tinha razão em se mostrar tão orgulhoso da filha.
No entanto, bastaram dois ou três encontros com Violeta para eu vir a descobrir o erro tremendo da minha primeira avaliação. À custa de observação atenta, acabei por concluir ela nada ter de angelical. Antes pelo contrário. Para começar, parecia mais velha. Não que o seu corpo fosse desenvolvido para a idade, mas pelas posturas que assumia. Notava-se que gostava de contactos. A maneira de se movimentar, propositadamente ou não, tinha a particularidade de varrer um espaço muito superior ao volume que o seu corpo efetivamente ocupava. Por isso, ao passar, roçava-se sempre (mais ou menos ao de leve) em alguém, maioritariamente do sexo oposto. Quanto à voz, era gutural, de uma sensualidade sem doçura.
Mais tarde, Rita comentaria comigo que Violeta, ainda de tenra idade, tentava chamar a atenção por todos os meios. Para tanto berrava e guinchava produzindo no ouvido alheio um ruído semelhante ao da esferovite. Nem o pai nem a mãe logravam calá-la. Segundo a minha amiga, via-se logo que estava ali uma alminha geniosa e prepotente.
Este retrato remoto não era concordante com o atual. Agora, Violeta falava pouco. Mas a explicação para o facto nada tinha a ver com timidez. Provavelmente, à medida que fora percebendo que a sua beleza se impunha por si, passara a preferir um papel de recato. E dava-lhe gozo perceber que as outras raparigas da sua idade nunca causavam a impressão que ela própria produzia, ao entrar numa sala.
Devo confessar que não consegui simpatizar com Violeta Sanches. Talvez por isso (a impressão que um ser humano nos provoca não pode ser compartimentada) acabaram por me saltar à vista alguns traços grotescos na sua figura seráfica. Apesar de indubitavelmente bonita, fazia-me lembrar vagamente um inseto, com uns olhos excessivamente laterais e oblíquos, e uma estrutura frágil, com uns membros e um pescoço demasiado delgados.
O pai idolatrava-a. Dava-lhe toda a liberdade e fazia-lhe todas as vontades, mesmo quando se tratava de caprichos passageiros. Tanto amor era comovente, quiçá exagerado, pois eu duvidava que a filha fosse merecedora de tão grande devoção. Era até um pouco chocante observar como um homem tão frugal consigo mesmo se dispunha a desbaratar fundos em luxos supérfluos unicamente para satisfazer a cria. Era evidente que a cegueira que o acometera em relação à mãe dela se havia reproduzido na filha. Nem percebia que, para esta, tudo o que obtinha do pai não passava de uma bagatela insignificante ao pé da vida faustosa que a mãe e o padrasto lhe proporcionavam. Porque o padrasto de Violeta tinha dinheiro. Violeta sabia-o. E gostava de propalá-lo.
Embora Violeta mostrasse alguma ternura pelo pai era óbvio que, entre os dois progenitores, preferia a mãe. E preferia-a porque a considerava um modelo a imitar. Melhor ainda, a superar. Soubera arranjar um marido rico e tinha uma boa vida. Dava-se até ao luxo de pretender ser uma mulher de negócios. Rita revelara-me que a ex-mulher de Eduardo Sanches já dirigira uma empresa especializada no tratamento e conservação de piscinas, uma loja de pronto-a-vestir e um consultório de medicina veterinária. Infelizmente, todos os seus empreendimentos haviam dado prejuízo.
- O marido vai-lhe dando umas sobras para ela brincar às empresas!... – comentava a minha amiga, com sarcasmo.
Contudo, eu não tinha ilusões. Malgrado admirar a mãe, Violeta, acima de tudo, gostava de si mesma. O que não me chocava particularmente pois está mais que demonstrado que, a não ser que se persiga a santidade, é esta afinal a maneira mais saudável de se atravessar a existência. E as teorias propaladas pelo pai faziam-na olhá-lo com condescendência. Não obstante, Violeta era emotiva. Chorava com facilidade. Várias vezes a vi em lágrimas. Às vezes a mãe negava-lhe qualquer coisa e ela, como qualquer frágil adolescente, vinha consolar-se nos braços paternos. Mas não era sensível à dor alheia. No fundo, em rigor, considerava o resto da humanidade perfeitamente insignificante.
Foi por um acaso fortuito que captei, sem margem para dúvida, a altura exata em que Violeta perdeu a virgindade. Na passagem de ano subsequente ao tê-la conhecido, eu tinha sido convidada por Rita Trajouce para o réveillon em sua casa. Eduardo Sanches também estava lá. Quando me cruzei com ele, cumprimentei-o e perguntei-lhe pela filha.
- Violeta foi para o Algarve com uns amigos. Mas ficou de vir aqui ter. Ainda deve chegar a tempo de passar a meia-noite comigo – respondeu sorridente.
Achei estranho que a uma rapariga tão nova já fosse dada tanta liberdade. Mas o pai não lhe sabia dizer que não.
Com efeito, Violeta apareceu pouco depois. Mais atenta que o costume, percebi logo, pela sua expressão afogueada, que algo se tinha passado.
- Como estás? – perguntei-lhe, enquanto ela me estendia a face em vez de me beijar, como era seu hábito.
- Bem, obrigada – respondeu com a sua voz grave, com uma evidente nota de secura. Tal como eu não gostava dela, também ela não gostava de mim.
- O Algarve é muito estimulante fora da época balnear… – não resisti a comentar.
Violeta fitou-me com os seus olhos de mosquito e nada disse. Uma hora depois, por mero acaso, fui dar com ela numa pequena antecâmara um pouco afastada do salão principal. Estava sozinha e parecia pensativa. Mas na realidade estava apenas a afogar-se, perfeitamente embriagada pelas emoções do seu sistema hormonal tão precoce e recentemente estimulado. Tinha catorze anos de idade.
Uma coincidência nunca vem só. Pouco tempo depois fui assistir à estreia de um filme muito publicitado. No intervalo, quando toda a gente se dirigia para o foyer, ouvi uma voz chamar-me. Voltei-me e vi Violeta na companhia de um casal. A mulher era muito bonita e vistosa. Tinha boa figura e estava bem arranjada, com roupas caras e maquilhagem cuidada. Parecia uma top model. Quanto ao homem, era calvo e entroncado, de aspeto abrutalhado. Apesar do bom corte, a indumentária não lhe assentava bem. Parecia um carroceiro em fato de domingo. Feitas as apresentações, confirmei o que já suspeitara. Tratava-se da mãe e do padrasto de Violeta. Esta, ufana do aspeto da progenitora (com quem era, aliás, extremamente parecida) não resistira a exibi-la perante os meus olhos. Quanto ao padrasto, ninguém diria ser aquela criatura um empresário de sucesso. Mas era-o. E a isso, provavelmente, se devia o afeto que Violeta e a mãe lhe devotavam.
Trocámos as frases de conveniência, após o que me despedi polidamente. E, enquanto me afastava em direção ao bar para tomar um café, percebi que tinha descoberto uma das razões que levavam Eduardo Sanches a ser tão ostensivamente desprendido em relação ao dinheiro. Pura e simplesmente, recusava-se a competir com o padrasto da filha.
Apesar da sua boa-fé, Eduardo Sanches não era estúpido. Portanto, com o passar do tempo, acabou por perceber que Violeta já tinha vida sexual ativa. E foi tocante assistir ao esforço que fez para encarar o facto como natural.
- Eu, na idade dela, já tinha dormido com várias mulheres - confidenciou-me um dia à laia de justificação, quando se tornou evidente que já todos sabíamos o que se passava.
Não respondi. Não acreditava numa só palavra do que acabara de ouvir.

Durante os tempos que se seguiram, vi Eduardo Sanches com alguma frequência. Agora que a filha já tinha uma vida própria, ele não sabia o que fazer durante os fins de semana. Alguns passava-os a trabalhar, embora daí não lhe adviesse qualquer ganho adicional. Mas Eduardo Sanches era assim. Bastava-lhe saber que empregara o tempo livre da melhor maneira possível. E à noite, tal como nos tempos que se haviam seguido ao divórcio, a casa de Rita Trajouce tornara-se poiso obrigatório.
Entre nós despontava uma serena amizade. Ciente de que eu não pretendia conquistá-lo, Eduardo Sanches abria-se comigo. Era evidente que buscava o equilíbrio perdido. A vida deixara de fazer sentido. A filha já não precisava dele.
Quanto a Violeta, aparecia cada vez menos. Quando o fazia, já vinha pelos seus próprios meios e ficava pouco tempo. Apenas o suficiente para fazer quinze minutos de companhia ao pai e cobrar-lhe a semanada. Enquanto isso, o namorado no ativo aguardava dentro do carro o fim da curta visita ao progenitor.
Várias vezes me interroguei a respeito da razão que levaria a filha de Eduardo Sanches a encontrar-se com o pai em casa de terceiras pessoas, em vez de o procurar na sua própria casa. E só pude encontrar uma explicação. Procedendo desta maneira, os seus contactos com o progenitor ficavam reduzidos ao mínimo.
Todos os namorados de Violeta tinham, em média, mais dez anos que ela, e já todos possuíam carro e rendimentos próprios. A que se devia isso? Mero acaso? Duvido. Na minha opinião, a sua incrível precocidade tinha o condão de atrair homens mais velhos. Os machos da sua faixa etária pareciam não reparar nela. Ou talvez ficassem intimidados com a sua etérea beleza. E, sempre que a via, eu não podia deixar de me sentir abismada. Violeta mantinha um aspeto extraordinariamente inocente. Parecia a pureza personificada. A quem a visse pela primeira vez, seria impossível intuir a sua verdadeira natureza.

Aconteceu por esta altura o início de um grande interregno no meu convívio com todas estas pessoas que acabo de descrever. Por circunstâncias da vida que agora não vêm ao caso, durante mais de dois anos vivi no estrangeiro. Sempre que vinha a Portugal, o tempo era pouco para reencontrar todos os amigos. Mantive alguns contactos telefónicos esporádicos com Rita Trajouce, que era avessa a e-mails. Porém, tendo deixado de a visitar, perdi totalmente de vista Eduardo Sanches.
Encontrava-me de regresso à pátria havia já várias semanas, quando finalmente contactei com a minha amiga. Rita não escondeu a satisfação pelo meu regresso. Simpática e loquaz, como sempre, convidou-me imediatamente para jantar em sua casa.
- Venha jantar connosco no próximo sábado! – e, soltando uma risadinha, acrescentou – tenho saudades de falar com alguém que tenha um cérebro dotado de alguma capacidade de compreensão. Além disso, se não vier, vai arrepender-se…
No entanto, para ir jantar a casa de Rita na data proposta, eu teria de faltar a um encontro já agendado. Por isso recusei polidamente:
- Lamento, Rita, mas não posso. Já tenho um compromisso. Tenho muita pena.
- Ah sim? Pois garanto-lhe que terá muito mais pena se faltar. Lembra-se de Eduardo Sanches?...
- Sim, claro…
- E de Violeta?...
- Também.
- Pois eles também cá estarão. Você tem de os ver. Aconteceram muitas coisas….
- Ah sim?... Que coisas?....
- Só lhe digo quando cá vier…
Apesar da insistência de Rita, não compareci ao seu jantar. Porém, não deixara de ficar intrigada. Embora por regra não me interessasse pela vida alheia, a história de Eduardo Sanches e da filha era suficientemente singular para me espicaçar a curiosidade.
Contudo, os múltiplos afazeres derivados do meu regresso, fizeram com que se passassem duas semanas até me ser possível visitar Rita Trajouce. E, quando o fiz, a minha amiga não me poupou:
- Você, como escritora, devia interessar-se mais pela vida do seu semelhante!... Não ficou curiosa?...
- Fiquei, claro que fiquei. Mas era-me impossível…
- Tretas! – interrompeu-me – Não consegue imaginar o que aconteceu?...
- Violeta engravidou e o pai está furioso?... – era a única ideia que me ocorria.
Rita soltou uma gargalhada:
- Frio… Muito frio…
- Não sei. Não faço ideia.
- A mãe e o padrasto separaram-se.
- Quê?!
- É verdade! – exclamou Rita, com uma entoação ligeiramente teatral. E acrescentou:
- Agora, você já não tem qualquer hipótese de conquistar Eduardo Sanches…
Ao escutar isto, reagi:
- Mas eu nunca tive intenção de o conquistar!...
- Ora, deixe-se disso! Você teve, eu tive, todas as mulheres que conheço tiveram. O homem não tem um chavo, é feio que se farta, mas é irresistível. Mas agora, acabou-se!...
Por entre a evidente chalaça de Rita, entrevi um minúsculo grão de areia de verdade. E perguntei:
- Que aconteceu? Eduardo vai voltar para a ex-mulher?
Rita fixou em mim um olhar espantado:
- Nem pensar! Seria a última coisa que ele faria. Pensei que já o conhecia melhor que isso…
- Mas então, não percebo – e abanei a cabeça.
- Minha querida – e a expressão de Rita perdeu a leveza – agora Eduardo reencontrou o sentido da vida. Não o confessa a ninguém, mas está cheio de esperança de que Violeta queira viver com ele.
Quedei-me pensativa e nada respondi. Apesar dos dados novos de que tomara conhecimento, eu percebia que ainda me faltavam muitas peças chave para completar o puzzle de toda esta história.
Pouco tempo depois, revi Eduardo Sanches. Ao contrário do que seria expectável, tinha um aspeto rejuvenescido. Já de si intenso, o seu olhar parecia ter adquirido um novo brilho. Todavia, patenteava também uma certa tensão acrescida, como se algo de muito decisivo na sua vida estivesse para acontecer a qualquer momento.
Conhecendo o seu espírito reservado, receei ter de usar algum subterfúgio com a finalidade de o levar a revelar-me os seus anseios. No entanto, tal não foi necessário. Foi ele mesmo que puxou o assunto:
- A mãe e o padrasto de Violeta separaram-se – disse-me, mal nos sentámos num dos recantos do agradável salão de Rita.
- Sim, já sei.
- Violeta está a reagir muito mal.
- Sabe qual foi o motivo da separação?
- Não sei, nem quero saber. Nesta história toda só me interessa preservar a estabilidade emocional de minha filha.
- Compreendo.
Conversámos durante uma hora, durante a qual Eduardo Sanches me falou exclusivamente de Violeta. Ela estava muito deprimida. Não conseguia aceitar a separação da mãe. As duas discutiam muito. E Violeta só encontrava consolo junto do pai
Enquanto Eduardo Sanches falava, eu não despegava os olhos dele. Era evidente que acreditava em tudo o que dizia. No entanto, aquilo que descrevia era inverosímil. Violeta, tristonha, a envidar esforços para reconciliar a mãe com o padrasto?!... Era impensável, totalmente incompatível com a Violeta que eu conhecia. Poderia ela ter mudado assim tanto?...
Mas nem sempre as coisas seguem a lógica da plausibilidade. Duas semanas depois, quando voltei a casa de Rita, pai e filha estavam lá. Não fiquei admirada ao verificar que, durante a minha ausência, Violeta desabrochara por completo. Crescera e ganhara formas, tornando-se numa mulher deslumbrante. E digo mulher na verdadeira aceção da palavra. Apesar de ainda não ter completado dezoito anos, todo e qualquer resquício de candura havia desaparecido do seu semblante de aparência virginal.
Todavia, ostentava uma expressão abatida. E cheguei a questionar a minha avaliação psicológica da sua pessoa. Talvez, perante a adversidade, tivesse germinado algum bom sentimento naquele coração ambicioso e egoísta. E senti esbater-se um pouco a antipatia visceral que lhe dedicava. No fundo, era digna de dó. E olhei para ela como aquilo que objetivamente era – uma jovem que via o seu mundo familiar ruir pela segunda vez. Todavia, mais tarde, eu recordaria este meu momentâneo sentimento de comiseração como um lapso de imperdoável pieguice.
A pouco e pouco, fui apreendendo os detalhes da situação e retificando a minha avaliação sobre a mesma. Fora o padrasto de Violeta que abandonara o domicílio conjugal, uma opulenta vivenda em Nafarros, enquanto Violeta e a mãe nela permaneciam. No entanto, pouco tempo decorrera até aquele exigir a venda do imóvel de que era proprietário. A mãe de Violeta, que provavelmente contava com alguma parcimónia por parte do marido, fora forçada a sair da dita residência na companhia da filha, e a acomodar-se num pequeno apartamento compatível com as suas posses. Enquanto não conquistasse outro homem rico, teria de viver exclusivamente do último negócio que montara – um franchising de produtos de beleza de cariz esotérico e cabalístico, que se adivinhava pouco lucrativo.
Qual teria sido o motivo da separação? Mistério. Aparentemente, decorrera de comum acordo. Se havia terceiras pessoas envolvidas no rompimento, permaneciam na sombra. No entanto, conhecedora dos antecedentes da mãe de Violeta, Rita Trajouce apostava que haveria mouro na costa. Um mouro mais rico (e sobretudo) mais bonito que o anterior. E que, em devido tempo, surgiria em cena.
Violeta continuou a exibir um ar sofredor. No entanto, apesar de esporádicos ataques de choro, não se abria. Era impossível perceber exatamente o que se passava dentro dela. Todavia, uma subtil alteração do seu comportamento levava-me a concluir que insensivelmente, no seu espírito arguto, os antigos papéis dos progenitores se haviam invertido. De vez em quando, deixava escapar uma crítica acerba à mãe, seu antigo ídolo. E fazia-o com frieza e precisão, como um corte a bisturi. Por outro lado, o pai já não era apenas um simpático desmiolado das teorias estapafúrdicas, mas a sua principal fonte de rendimentos.
Durante essa fase vi Eduardo Sanches manifestamente perturbado. Não suportava ver Violeta sofrer. Mais do que nunca, cumulava-a de atenções. As quantias que lhe dava eram agora mais substanciais, sobretudo se atendermos ao seu nível de vida. No fundo, embora quisesse disfarçá-lo, estava suspenso da decisão da filha. Era tocante de observar. Aquele homem solitário depositava toda a sua esperança de felicidade num gesto, numa palavra, numa sugestão do ser que gerara. Mas o tempo foi passando e Violeta nunca mencionou a hipótese, mesmo remota, de querer ir viver com o pai. Até que este acabou por perder as ilusões a tal respeito.
Foi um duro golpe para Eduardo Sanches. Golpe só amortecido pela sua grande capacidade de encaixe e pelo seu longo tirocínio de auto domínio.

Decorreram alguns meses sem novidades de maior. E as coisas acabaram por tender a estabilizar-se. A mãe de Violeta foi-se aguentando com os proventos da loja, e Violeta continuou a viver com ela, a namorar e a aparecer em casa de Rita Trajouce sempre que queria encontrar-se com o pai. Quanto ao padrasto (o empedernido detentor de negócios lucrativos, agora divorciado) desaparecera completamente de circulação. Ninguém sabia dele.
Todavia, o tempo é suave remédio para todos os males. Sempre que visitava a minha amiga de Colares e me encontrava com Eduardo Sanches, eu reparava que a conversação já versava outros temas. E, a começar pela dona da casa, todos evitavam assuntos delicados e constrangedores.
E foi assim que, quase insensivelmente, me apercebi de que Eduardo Sanches estava a mudar. Lenta mas seguramente. A grande desilusão sofrida parecia tê-lo aberto para os outros. Cada vez que o via notava-o mais compreensivo, com opiniões menos radicais. Não havia dúvidas de que adquirira jogo de cintura. E isso agradava-me. Culto e bom pensador, o facto de variar a temática fazia dele um conversador maravilhoso. No entanto, não se tratava de nenhuma viragem para o oposto, mas de uma evolução positiva. Os pilares da sua estrutura honesta e desinteressada mantinham-se intactos.
Acabámos trocando contactos e marcando encontros diretamente. Já não nos víamos apenas em casa de Rita. Dia após dia, descobríamos que nos uniam novas afinidades e, entre nós, a amizade tendia a transmutar-se em algo mais profundo. Amiúde percorríamos juntos o trajeto de Sintra a Colares, no pequeno carro de Eduardo. Na sua companhia eu ia descobrindo as pequenas maravilhas desse delicioso percurso por entre a frescura do arvoredo, emparelhado com a linha do elétrico, ora de um lado, ora do outro. Identificava-me com os suaves montes e vales, com o cheiro a campo, com as moradias esparsas e floridas, com o chilrear dos pássaros e com a sugestão de mar que ainda se não via mas já se adivinhava. Quanto ao meu companheiro, reconhecia-o nas árvores altas e imponentes, perfiladas, resistentes às intempéries. E também no aspeto da paisagem do final do percurso, quando esta, devido à proximidade do oceano, perdia de repente a suavidade, tornando-se acidentada e agreste.
Rita metia-se comigo:
- Então? Foi difícil mas conseguiu!...
- Ora Rita, consegui o quê? Que é que você quer dizer?...
- Não se faça de inocente. Sabe muito bem o que eu quero dizer…
Mas, na realidade, eu não sabia bem o que pensar. Deixava-me embalar em sonhos como uma adolescente. Às vezes parecia-me que Eduardo se interessava verdadeiramente por mim. Já não evitava falar de si próprio nem dar-me a conhecer o seu passado. Gostava particularmente de dissertar sobre os pais (ambos já falecidos) e sobre a sua infância tranquila e feliz. Era como se um imenso mundo de emoções venturosas, até aí submerso pelo poder da vontade, estivesse, a pouco e pouco, a emergir. Todavia, em rigor, não havia nada entre nós. Porém, eu tinha toda a paciência do mundo. E ia saboreando a sua companhia no momento presente, sem passado nem futuro, enquanto aguardava serenamente que os nossos sentimentos amadurecessem e se clarificassem.
Até que algo aconteceu. Violeta fez dezoito anos. E, definitiva e legalmente emancipada, comunicou a todos a sua decisão de ir viver para Londres. Segundo dizia, estava farta de viver com a mãe e queria a todo o custo sair de casa.
De novo não colocou sequer a hipótese de ir viver com o pai. Porém, desta vez, este aceitou o facto como natural. Teria Eduardo, já nessa altura, consciência da verdadeira natureza do ser que gerara? Não o posso saber. Todavia, o certo é que não mostrou desgosto, nem sequer ansiedade. E não se opôs à vontade da filha. Afinal, ela sempre fora uma aluna fraca, sem grandes perspetivas profissionais. E, em Londres, não sei por que artes, conseguira um contrato de trabalho lícito e previamente firmado.
Obtida a tácita autorização do pai, a própria Violeta tratou de todos os detalhes com uma surpreendente ligeireza. Acomodações, papelada e todos os trâmites legais necessários à sua ida para Londres apareceram ultimados como que por milagre. E, por fim, Violeta partiu e Eduardo ficou.
Quanto a mim, fui observando atentamente as reações do meu amigo. Estaria ele curado do amor obsessivo que nutria pela filha? Impossível sabê-lo. Porém, a nossa mútua predileção ia-se fortalecendo. Os seus diques cediam. Às vezes eu percebia o seu olhar intenso pousado em mim. E intuía que pouco faltaria para aquele coração fechado se entreabrir de vez.
Violeta dava notícias esporadicamente, por e-mail ou telefone. E, a este respeito, Eduardo era lacónico. Por outro lado, eu não puxava um assunto que adivinhava desagradável. Afinal de contas, pai é pai. Era mister respeitá-lo como tal. Aliás eu nem sequer sabia ao certo em que ramo trabalhava Violeta. Numa espécie de Cyber Café, supunha. Porém, fosse onde fosse, já não dependia do pai.
Aproximava-se o Natal, o primeiro desde que Violeta estava ausente. Alguma coisa me dizia que seria uma época decisiva para Eduardo e para mim. Pela primeira vez, ele iria passar aquela quadra tão significativa longe da filha. E eu não podia suportar a ideia de ele ficar sozinho. Por isso, reunindo toda a minha coragem, propus-lhe passarmos a consoada juntos.
- Também já tinha pensado nisso – respondeu Eduardo esboçando um sorriso – mas, entretanto, tive uma ideia melhor.
- Ah sim? Que ideia?...
- Fazermos uma viagem. Passarmos o Natal no estrangeiro.
Ao escutar estas palavras, o meu coração começou a bater com mais força.
- É uma ótima ideia! E onde iremos? Tens algum destino em mente?...
Eduardo fitou-me e respondeu, tentando parecer natural:
- Londres.
- Oh, não!
Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Mas a expressão de Eduardo endureceu:
- Tem de ser.
Abanei a cabeça.
- Não, Eduardo. Não vou. Não contes comigo.
- Tem de ser – repetiu.
- Mas porque não vais sozinho? Porque é que tenho de te acompanhar?...
Eduardo aproximou a sua face da minha e olhou bem dentro dos meus olhos. Nunca havíamos estado tão próximos. E então devagar, muito devagar, pondo no gesto uma suavidade sobrenatural, roçou docemente os seus lábios pelos meus.
- Porque é a única maneira de eu conseguir ter paz… – respondeu por fim, num sussurro.

Duas semanas depois, levantei voo rumo a Londres com o homem que amava. Era antevéspera de Natal. Como única referência, tínhamos uma morada. E, propositadamente ou não, Violeta não fora avisada.
Um inexplicável sentimento de angústia dominava-me por completo. Acudia-me ao pensamento o drama da infeliz Rainha D.Amélia a caminho do exílio, e a minha intuição, exacerbada nem sei por que ventos premonitórios, segredava-me que um destino sorrateiro e implacável, nos aguardava, a Eduardo e a mim, naquela cidade soturna.
Chegámos. Era noite cerrada. Caía uma cacimba gelada, tão característica daquelas paragens. O frio era de rachar. Mas eu tinha pressa de encontrar Violeta e acabar com aquele medo sobrenatural. Por isso, apesar do meu cansaço, sugeri que despachássemos o assunto o mais depressa possível. Eduardo concordou.
Uma vez alcançado o hotel que havíamos reservado, deixámos lá as malas e metemo-nos no underground rumo a uma determinada estação. Aparentemente, Eduardo estava calmo. Eu tremia. Meu Deus, parecia que só eu tinha consciência da estranheza de tudo aquilo!...
Saímos na estação prevista e procurámos o endereço que nos interessava. Caminhámos rapidamente e ao fim de pouco tempo encontrámos a rua. E, à medida que íamos avançando, o olhar de Eduardo ensombrava-se. O seu braço apertava o meu. O número que procurávamos não existia.
Percorremos novamente a rua do princípio ao fim, em silêncio. A única morada de referência que Violeta fornecera ao pai, era falsa. Não havia mais pistas.
Vagueámos ao acaso. À medida que caminhava, eu tentava esvaziar o cérebro de hipóteses absurdas e concentrar-me apenas na bruma gelada que me batia no rosto. E não consigo avaliar o tempo que decorreu até me aperceber que tinha de romper o silêncio:
- Esquece, meu amor! Oh, por favor, esquece! Eu sei que é difícil, mas é o que tens de fazer.
Que vãs me soaram as minhas próprias palavras!... Mas Eduardo não me respondeu. E continuou a caminhar com uma expressão vazia, como um autómato, guiando-me com o seu braço magro e firme, através de um emaranhado de artérias.
Acabámos por ir parar a uma zona movimentada, pejada de pub’s e clubes noturnos que começavam a abrir as portas. Havia muita gente nas ruas e fazia-se ouvir uma saudável algaraviada. E, quando se falava, o vapor de água condensava-se em pequenas nuvens em frente das faces congestionadas pelo frio.
De súbito, senti fome. Mencionei o facto a Eduardo e entrámos num pub. Mal nos sentámos num recanto obscuro, percebi que Eduardo chorava. O seu rosto permanecia impassível mas a humidade dos olhos traía-o.
- Tenho de saber o que se passa! – disse.
Olhei-o surpreendida.
- Mas… ainda não percebeste?...
- Não sei.
Abanei a cabeça. Agora, estava um pouco mais calma. Apesar de tudo, preferia não ter de me encontrar com Violeta. Ela nunca gostara de ser controlada. Provavelmente, dera uma morada falsa ao pai para evitar este tipo de surpresas.
Comemos qualquer coisa e voltámos à rua. Eduardo já não chorava. De cabeça erguida, parecia querer fixar cada rosto que passava. Não voltara a proferir uma palavra.
Para me distrair, comecei a reparar nas montras das Sex. shops e outras lojas de artefactos fetichistas que povoavam a zona. Imagens sugestivas convidavam os seres humanos a espojar-se e a fossar na torpeza e na obscenidade. Eduardo, chocado, olhava noutra direção. Encolhi os ombros. O seu humano está agrilhoado aos seus instintos. E, para a maioria, só a plena satisfação destes possibilita os pensamentos elevados.
Em determinada altura, vi um grupo de homens a discutir em frente de um clube noturno. À porta, um outro homem participava na contenda. Estava de perfil e pareceu-me vagamente familiar. Tinha um corpo atarracado e usava uma espécie de boina. Falava baixo mas gesticulava muito. Tive a sensação de que era o gerente do clube e que tentava aliciar aquele grupo de homens a entrar.
Com efeito, pouco depois, o grupo entrou e o homem desapareceu nas entranhas do estabelecimento. O meu olhar vagueou ao acaso pela fachada grosseira. Era um antro de streap tease. E, de súbito, senti a angústia recrudescer. Como num filme em câmara lenta, larguei o braço de Eduardo, que parara e olhava para outro lado, e aproximei-me. Pequenos letreiros de néon rosa vivo exibiam os nomes das principais atrações, num novelo de gosto duvidoso. Perante os meus olhos atónitos, sobressaíram da amálgama de luz duas palavras, numa versão artística com um toque british do nome da pessoa que tínhamos ido procurar:

VIOLET SANDEMAN

E lá estava ela, seminua, numa espécie de fotografia retocada, exibindo o seu olhar provocador. Mais bonita do que nunca, havia algo de terrível na sua perfeição impoluta, como se se tratasse de um exemplar representativo de uma espécie biológica diferente, mais evoluída mas menos humana. A cabeleira loira e ondulada, de anjo, reforçava-lhe a imagem de malignidade.
Recuei alguns passos e, a poucos metros de distância, o gerente do clube assomou de novo à porta e voltou a cara para mim. Nesse preciso momento reconheci-o. Era o ex-padrasto de Violeta.
Dei um grito e senti-me desfalecer. Voltei-me e vi Eduardo olhar-me com uma expressão alarmada e estender os braços para me amparar. Depois, não me recordo bem do que se seguiu. Apercebi-me vagamente de que era metida dentro de um automóvel e transportada com suavidade através das ruas iluminadas, numa espécie de torpor cataléptico.
Quando recuperei a consciência, estava deitada numa cama no nosso quarto de hotel. Deviam ter passado várias horas. Eduardo estava ao meu lado. Aos meus olhos mal focados o seu rosto aparecia embaciado. Abri a boca para falar mas não fui capaz.
- Sossega… – disse-me Eduardo com ternura.
- Estás bem?... – consegui articular, numa voz quase impercetível.
Vi Eduardo acenar com a cabeça, afirmativamente. Porém, cansada, voltei a fechar os olhos. Senti então a sua mão acariciar-me a cabeça. Era um gesto de uma tão grande doçura que me transmitiu uma imensa serenidade. E, nesse preciso momento, tive a certeza de que ele sabia. Sim, sabia, e nunca falaria no assunto. Lágrimas de incontida comoção rolaram dos meus olhos fechados. Então Eduardo inclinou-se e beijou uma das lágrimas que me escorria pela face. Abri de novo os olhos e vi-o levantar-se e apontar para a janela onde se notava já o lusco-fusco da madrugada.
- Olha, o dia já está a nascer – disse.

Adelina Velho da Palma

 

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