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A SONHADORA

Por cada ser humano à face da terra, houve pelo menos uma mãe que gemeu.


Não há amor como o de mãe, dizem. E é decerto verdade. Mães do calibre de Catherine Trask(*) não passam, provavelmente, de personagens de ficção. Já o amor dos filhos é talvez menos absoluto, menos fiável, com maior probabilidade de claudicar. O que é, afinal, a lei da vida. Cada geração contrai uma dívida com a anterior cujo ónus só salda na seguinte. E é esta uma equação inevitável, fiel tradução de um dos mecanismos com que a Natureza assegura a perpetuação das espécies.
A história que se segue baseia-se em factos verídicos ocorridos na vida de certas pessoas que conheci e com quem fui convivendo ao longo dos anos. Relato-a, não porque as vicissitudes por que passaram os envolvidos hajam sido particularmente extraordinárias, mas pelo muito que me comoveram, fazendo-me entrever as cruéis (ainda que banais) realidades da vida, das quais eu nunca antes tomara consciência.
Com efeito, de todos os casos estranhos envolvendo mães e filhas que presenciei, nenhum me impressionou tão profundamente como o de Olga e Alexandra Brites. Foram-me apresentadas por intermédio de amigos comuns e, apesar de não ser propriamente íntima da família, quis o destino que eu acompanhasse a par e passo a sua história.
Quando as conheci, Alexandra, a filha, ainda era solteira e viviam ambas num pequeno apartamento alugado quase às portas de Benfica. O imóvel era recente – teria um ano ou dois, no máximo – com mais de dez andares e uma boa localização. Era, aliás, um dos poucos prédios altos que então havia na zona.
O apartamento de Olga Brites situava-se no oitavo andar e dele se desfrutava de uma vista desafogada sobre aquela zona da cidade, muito embora o panorama, com grande concentração de casario e de artérias movimentadas, não fosse dos mais atrativos. Quanto à casa, estava decorada com cuidado. As cores das paredes, alcatifas e cortinados harmonizavam-se na perfeição. Aqui e além, viam-se bibelôs de Limoges, Lladró e até Sèvres. No entanto, apesar da beleza das peças e da consonância dos tons, o apartamento não era aprazível. As divisões eram exíguas, o que coartava qualquer possibilidade de dar aos artefactos expostos o destaque que a sua categoria merecia. Por outro lado, o mobiliário era um tanto vulgar. A tal ponto que era óbvio ter sido adquirido numa época posterior à dos bibelôs, após os meios financeiros de Olga Brites terem sofrido uma drástica redução. Por tudo isto, a habitação era um triste testemunho de empobrecimento e transmitia uma constrangedora sensação de desolação. Quase que parecia haver sido decorada com vista a uma existência futura em permanente declínio. E, sempre que eu o visitava, sentia no ar a premonição de tempos cada vez mais difíceis.
Com efeito, a Revolução dos Cravos, célebre por não ter provocado derramamento de sangue, não deixara de fazer outro tipo de vítimas. Uma delas fora precisamente o marido de Olga. Por razões que eu não chegaria a aprofundar, José Brites perdera tudo com o 25 de Abril e falecera dois ou três anos depois, arruinado, deixando mulher e filha em má situação. Olga Brites fora obrigada a vender a casa onde tinha morado com o marido, a fim de realizar o capital necessário para viver e manter a filha a estudar. No entanto, dado ter ultimado o negócio no período pós revolucionário, em que a oferta de habitações de luxo era muito superior à procura (e também devido à sua ingenuidade e inexperiência neste tipo de transações), não chegara sequer a fazer um bom negócio.
À época a que remontam os meus primeiros contactos com a sua pessoa, Olga Brites era viúva havia poucos anos, e Alexandra era finalista do curso de Engenharia Química no Instituto Superior Técnico. Na altura, simpatizei mais com a mãe do que com a filha. Olga Brites era uma senhora. Não uma senhora qualquer, mas uma verdadeira dama, daquelas em que o berço se associou a uma boa índole. E não pude deixar de constatar com admiração que, apesar de se encontrar em plena curva descendente, marcada pelos desgostos e pela penúria, conservava a delicadeza e a sensibilidade dos espíritos superiores, que só uma educação esmerada e uma alma generosa podem propiciar.
Não obstante contar cinquenta e muitos anos, ainda era bonita. Possuía uma daquelas faces a que o amadurecimento confere uma aura de benignidade e compreensão. O seu rosto era redondo, moreno, quase sem rugas, com as maçãs do rosto salientes, o nariz ligeiramente arrebitado e uns olhos castanhos, em amêndoa. O cabelo era escuro, ondulado natural, com raras cãs. As mãos, de dedos longos e finos, pareciam singularmente jovens. Possuía ainda uma boa figura e as roupas que envergava, conquanto antiquadas, eram de bom corte e fino gosto. Em rigor, Olga Brites era ainda uma senhora atraente.
Não seria, talvez, muito inteligente. Se porventura detivera algum rasgo na juventude, este tinha-a abandonado. Por vezes era difícil fazê-la seguir um raciocínio mais elaborado. No entanto, era culta e viajada. Admirava a Arte nas suas diversas formas de expressão. Amava (e conhecia) a música, a literatura, a poesia, a pintura e a escultura. Claro que nunca saíra da Europa. Porém, quem é que o fazia nas décadas de sessenta e setenta? Nesses tempos, viajar era ir a Espanha, a França, à Itália e à Suiça. Quando muito, à Grã-Bretanha.
Todavia, não eram a beleza, a elegância nem tampouco a cultura as suas características mais relevantes. Eram, sim, a bondade e a simpatia. Olga Brites era uma pessoa extremamente afável e, para tanto, não fazia qualquer esforço. Estava-lhe na massa do sangue. Era muito bem-educada e, por sistema, concordava com tudo o que se lhe dizia, não por falta de sinceridade mas pelo simples desejo de agradar. Tinha um olhar meigo e carinhoso como nenhum outro. Conseguia ser, ao mesmo tempo, triste e venturoso. Havia algo de místico naquelas pupilas onde parecia perpassar toda a ternura e todo o pesar do mundo. E, de tal modo envolvia os interlocutores numa onda de simpatia, que se tornava difícil findar uma conversa.
Sempre que falava com ela, eu ficava com o coração apertado. Era evidente que a viuvez e a falta de dinheiro lhe haviam provocado uma depressão profunda. Eu nunca conhecera ninguém com tanta pena de si mesmo. Olga Brites considerava-se vítima de um destino imerecido e cruel, contra o qual não tinha armas para lutar. No entanto, dado ser profundamente crente, aceitava com resignação a cruz que lhe fora destinada. E eu intuía que, para o seu espírito permanecer acima da linha de água, Olga Brites encontrava algum conforto na beleza da sua própria imolação.
Alexandra, a filha, era muito diferente da mãe. Em termos estritamente físicos, seriam até parecidas. Alexandra era mais alta e mais magra, mas possuía o mesmo nariz arrebitado, o mesmo cabelo ondulado, e o mesmo rosto belo de maçãs salientes. Porém, na vertente psicológica, eram completamente opostas. Alexandra era ensimesmada. Não era fácil dialogar com ela. Aliás, considerava o ato de conversar uma pura perca de tempo. Tinha pouca paciência e não se acanhava de dar uma resposta desagradável a quem quer que fosse. Não obstante a boa educação recebida, havia nela uma agressividade latente, prestes a extravasar ao mínimo pretexto.
Era particularmente desagradável com a mãe. No entanto, acho que seria falso afirmar que não a amava. Aliás, o tempo encarregar-se-ia de me demonstrar o contrário, de forma cabal. Todavia, o certo é que não a admirava. A passividade da progenitora irritava-a profundamente. No fundo, considerava-a uma falhada, incapaz de reagir de forma prática e positiva à fatalidade que se abatera sobre a família. E acusava-a de sonhadora, de viver desligada da realidade e, até, de ser corresponsável pela má situação em que se encontravam.
Cheguei a presenciar algumas discussões desagradáveis entre mãe e filha. E por várias vezes me quedei abismada com as coisas que Alexandra dizia à mãe. Contudo, reconheço que pesava sobre os ombros desta jovem (que naquela altura contava apenas vinte e dois anos) uma carga imensa. Fora criada em berço de oiro e educada num mundo demasiado fácil que, de repente, ruíra por completo. Inteligente, sabia que a precária situação presente se devia à falta de discernimento do pai e à inércia da mãe. Infelizmente, o pai estava morto e ela já não podia revoltar-se contra ele. Para isso, restava-lhe a mãe.
- Ela devia ter alertado o meu pai para o perigo de certos investimentos... Mas só pensava em concertos e exposições!... – queixava-se, com tal raiva contida na voz que me fazia estremecer.
Eu argumentava com a serenidade possível:
- Alexandra, não se torture. Releve. O futuro a Deus pertence. Sabe lá como vai estar daqui a uns anos…
- Daqui a uns anos?... Pode ter a certeza de que sei muito bem como vou estar. A trabalhar, decerto, e com a minha mãe inteiramente a meu cargo…
Era, com efeito, um destino provável. Eu sabia que elas estavam absolutamente sós no mundo. Não havia mais família. Alexandra acabaria o curso e arranjaria um emprego. E, mais tarde ou mais cedo, o dinheiro da mãe chegaria ao fim. E ela teria de a sustentar.
É curioso referir que Olga, apesar da bondade, era extremamente orgulhosa. Nunca revelara a ninguém quanto ainda lhe restava. E, sempre que Alexandra, nalgum desabafo, aludia ao medo que tinha do futuro, Olga respondia com suavidade:
- Peço-te, minha filha, que não te preocupes comigo. Pensa só em ti. Eu cá me arranjarei.
Quando proferia tais palavras, Olga era absolutamente sincera. Adorava a filha e a última coisa que desejava era ser-lhe pesada. Todavia, estes dizeres não chegavam para sossegar Alexandra que tinha plena consciência dos seus deveres e, cada dia que passava, confiava menos na razoabilidade financeira da conduta da mãe. E, uma vez mais, tinha razão.
Com efeito, Olga ia-se tornando pouco razoável. No fundo, agarrava-se ao sonho para não enlouquecer. A nostalgia do passado dominava-a em absoluto levando-a a esforçar-se desesperadamente por viver acima das posses. Por exemplo, convidava amiúde grupos de amigos para jantar, à semelhança do que fizera quando o marido era vivo e possuía uma casa com a dimensão apropriada. Claro que a maior parte recusava, sob os mais diversos pretextos. E ela nem se apercebia de que o faziam porque o seu declínio económico a atirara para um extrato social mais baixo. Com efeito, os antigos convivas já não a consideravam como uma igual e dela só desejavam distância. Por outro lado, os raros que aceitavam os seus convites, faziam-no por condescendência, quase por piedade. Às vezes organizava idas ao teatro, ao cinema ou ao ballet. E então, mais uma vez, os companheiros desapareciam após o espetáculo, não lhe dando a menor hipótese de prolongar o contacto. E nunca ninguém a desafiava para nada.
Tudo isto não passava despercebido a Alexandra que sofria com estas sistemáticas humilhações a que a mãe se sujeitava, ao mesmo tempo que contabilizava o dinheiro jogado à rua com estas iniciativas patéticas. E, sempre que Olga afirmava não perceber porque é que tão pouca gente aceitava os seus convites, Alexandra não perdoava:
- Não percebe?!... Pois é muito simples. É que a mãe agora é pobre! E eles não são nem nunca foram verdadeiros amigos!...
Então Olga, incapaz de encaixar as acusações da filha, chorava amargamente. Todavia não há melhor barómetro da infelicidade que a agressividade. A violência com que Alexandra se dirigia à mãe era fruto de, também ela, se sentir profundamente infeliz.

Apesar de lhes ter amizade, o meu convívio com as Brites era esporádico. Aliás, devo confessar que raramente tomava a iniciativa dos nossos encontros. Esta partia quase sempre de Olga Brites. E eu, acomodada ao hábito de receber de tempos a tempos um telefonema seu, não fazia nenhuma diligência no sentido de saber como decorria a sua vida. E foi assim que um dia, de súbito, qualquer coisa me recordou as Brites e me dei conta de que havia muito tempo – talvez dois ou três anos – que não sabia nada delas.
Levada pelo desejo de ser simpática (e estranhando o seu longo silêncio), telefonei a Olga Brites. E foi com alívio que reconheci a sua voz do outro lado do fio, atendendo-me com a costumeira delicadeza. Disse-lhe que havia muito tempo não tinha notícias dela e pedi licença para a visitar. Ela pareceu muito feliz com o meu telefonema. No entanto, já depois de ter desligado, senti-me invadida por um súbito desconforto. Algo me dizia que Olga Brites não me reconhecera. Apesar da simpatia, falara de uma maneira vaga, cheia de hesitações, como se não identificasse o interlocutor e temesse, acima de tudo, cometer uma gaffe.
Talvez por isso, foi imbuída de um inexplicável mau pressentimento que, no dia combinado, toquei à campainha de Olga e Alexandra Brites. Olga veio abrir-me a porta. Olhámo-nos durante um momento e tive então a certeza de que ela não sabia quem eu era. No entanto, reconhecia o meu rosto como o de alguém amigável e a sua boca abriu-se num sorriso cheio de calor.
- Entre, amiga, entre… - disse-me.
Estava magra e envelhecida. Segui-a até à pequena sala de estar que eu tão bem conhecia. Sentei-me e olhei à minha volta, constrangida. Era evidente que, durante o nosso afastamento, a situação de Olga Brites se degradara substancialmente. A casa dava claros indícios da desorganização que costuma caracterizar os lares das pessoas de idade que vivem sozinhas e cujo cérebro começa a claudicar. Estava suja e desarrumada. O meu olhar desviou-se de tudo que me cercava e atentou na minha anfitriã. Como sempre, a sua indumentária era antiquada. Todavia, agora parecia também falha de asseio. Por outro lado, o cabelo precisava de um corte e as mãos estavam mal tratadas, com a pele avermelhada e as unhas rombas. Todavia, malgrado a confusão reinante e o aspeto decadente, Olga Brites recebia-me com todas as atenções.
- Querida amiga (era óbvio que esquecera o meu nome), deseja tomar alguma coisa?...
- Oh, não. Muito obrigada – respondi - Como está Alexandra?...
- A Alexandra casou – respondeu. E os seus olhos cansados fixaram o vazio.
- Quer dizer que agora vive sozinha ?l…
- Sim, sozinha… - respondeu, com uma infinita tristeza na voz.
Impressionada, tentei desanuviar o ambiente:
- E já é avó?...
O seu rosto adquiriu então uma expressão dulcíssima:
- Sou sim… Tenho uma linda netinha. É a minha Ritinha.
Estava claramente comovida. Observei-a durante mais alguns segundos. Por fim olhei à minha volta disfarçadamente, a fim de descobrir, no meio das inúmeras fotografias baças que populavam os móveis cheios de pó, alguma que mostrasse Alexandra em traje nupcial. Mas nada vi.
- O casamento foi bonito?...
Apesar de extemporânea, esta minha pergunta tinha a sua razão de ser. Eu sabia que Olga sonhara durante anos com um casamento de estadão para a filha. Podia prescindir de tudo menos disso. E, para tal, não olharia a despesas. Alexandra seria vestida de noiva pelo melhor costureiro de Lisboa. Entraria com passo cadenciado na Sé Patriarcal engalanada de flores ao som do Trumpet Voluntary, linda de morrer, causando o espanto e a admiração de uma pequena multidão, enquanto um noivo belo e garboso a esperaria no altar. Ter-se-ia este sonho concretizado?....
- Foi sim, muito bonito… - respondeu.
Mas, a avaliar pelo pouco entusiasmo com que a afirmação fora proferida, parecia estar a querer dizer precisamente o contrário.
Fiquei, pois, sem saber o que pensar. E assaltou-me uma viva vontade de rever Alexandra e saber como decorria a sua vida. Durante mais meia hora alimentei uma conversação desconexa com Olga Brites, até que olhei para o relógio, pedi-lhe o contacto da filha e fiz menção de me retirar.
- Oh, já se vai embora?... – perguntou-me desolada
A sua expressão era tão pungente que a olhei com sincero dó. Estava ali uma pessoa a quem um destino implacável impusera aquilo que mais detestava – viver sozinha. Por isso, uma breve visita ou uma simples conversa, fosse com quem fosse, lhe causava uma tão grande satisfação. E, quando me despedi, estava tão perturbada com o desgosto patente na fácies de Olga que quase me senti responsável pela sua solidão.
Alguns dias depois, contactei com Alexandra Brites. Esta, apesar dos anos decorridos, não teve dificuldade em identificar a minha voz pelo telefone. Mostrou-se muito simpática. Tagarelámos um pouco até que me convidou para jantar em sua casa alguns sábados depois. Tomei, pois, nota do seu endereço e desliguei.
No sábado combinado, bati à porta de Alexandra. A filha de Olga Brites vivia na Ajuda. De facto, sem ter saído de Lisboa, morava bem longe da mãe, na zona oposta da cidade. O prédio era antigo, dos anos trinta ou quarenta, e necessitava de obras. Subi uma escada de madeira e toquei à campainha. Alexandra veio abrir a porta com uma menina pequenina pela mão:
- Como está? – disse, enquanto nos cumprimentávamos. E acrescentou – esta é a Rita, a minha filha.
Depositei um beijo na testa da pequenita que, logo a seguir, se soltou da mão da mãe e desapareceu por uma porta aberta. Alexandra conduziu-me à sala, onde um homem jovem estava sentado num sofá a ler o jornal. Quando entrei, levantou-se.
- Nuno Seixas, muito prazer.
Apertei a mão que o marido de Alexandra Brites me estendia e, sem cerimónias, aceitei o convite que me fez para me sentar. Nuno Seixas era um homem dos seus trinta anos, magro, moreno e de rosto fino. Era de um tipo vulgar, nem feio nem bonito, nada revelando que chamasse a atenção. Aliás, a sua figura era um tanto fraca e eu apostaria, conquanto não tivesse chegado a vê-los lado a lado, que era mais baixo que a mulher. Admirei-me que Alexandra, bonita e inteligente, tivesse escolhido tal consorte. Todavia, decidi ser cautelosa no meu juízo. Afinal, mal de quem se esgota no seu aspeto físico. E quantas vezes as pessoas mais apagadas se vêm a revelar as de maior valor! Quanto ao apartamento, era pequeno e antiquado. Dava indícios de ter sofrido algumas obras no interior que, todavia, revelavam algum amadorismo. As fendas estavam mal tapadas e as portas haviam secado com a tinta a escorrer. Decerto haviam sido a própria Alexandra e o marido os artífices da obra.
Alexandra serviu um jantar simples, todavia, preparado com cuidado. O marido era simpático e ajudou-a a pôr e a levantar a mesa. Foi ele que se encarregou de dar a refeição à pequena Rita que, segundo me pareceu, nutria uma declarada predileção pelo pai. Era, aliás, muito parecida com ele.
Quando, no decorrer da conversa, Alexandra aludiu ao casamento, referiu-se-lhe como uma cerimónia simples, no registo, a que apenas assistiram duas pessoas amigas como testemunhas. Alexandra nem sequer usara um vestido de noiva.
- Foi tudo o mais simples possível. Não podia permitir que a minha mãe gastasse uma fortuna com o casamento, quando eu precisava de dinheiro para me instalar…
Eu não tinha a certeza de ter percebido bem:
- Quer dizer que Olga não assistiu ao casamento?... – perguntei, incrédula
Alexandra olhou-me sem pestanejar:
- Não, não assistiu.
- Mas porquê, Alexandra, porquê?... Deve ter sido um grande desgosto para ela!...
- Acha, mesmo?... – e o seu olhar tornou-se duro – pois eu acho que seria bem pior para ela presenciar um casamento que não correspondesse à sua mania das grandezas...
- Pois não… - corroborou o marido que, até então, se mantivera silencioso – pode ter a certeza de que foi melhor assim.
Percebendo que o assunto não agradava aos meus anfitriões, calei-me e comi em silêncio. Quando a refeição terminou, cavaqueámos mais um pouco. Fiquei a saber que o marido de Alexandra tinha sido colega dela no IST e também era engenheiro. Embora fosse mais velho, acabara o curso ao mesmo tempo que ela. Cada um tinha o seu emprego. Haviam alugado uma casa compatível com as suas posses de jovem casal em princípio de vida. Ninguém os ajudara. Pelo caminho, nascera-lhes a filha. E o seu dia a dia era uma batalha contínua.
Perguntei-me porque razão Alexandra, ao casar, decidira mudar de residência. Afinal, a casa onde agora vivia era tão pequena e desconfortável que até a casa da mãe lhe ofereceria melhores condições. E foi a própria Alexandra que, no meio da conversa, me esclareceu:
- Quando o Nuno e eu decidimos casar, tratámos de procurar uma casa. Continuar a viver com a minha mãe estava fora de questão. Há anos que eu ansiava por me libertar daquele ambiente de tristeza e de devaneio. Para mim, era uma questão de saúde mental.
Embora chocada com a sua fria sinceridade, eu conseguia perceber Alexandra. Nesta vida, há que manter o equilíbrio entre o sofrimento e a bonança. Se esse equilíbrio se rompe, estamos perdidos.
O resto do serão decorreu de forma agradável. Observei Alexandra e Nuno, os seus olhares, os seus ditos, os seus gestos e as suas reações. Era óbvio que ela não estava apaixonada por ele. Mais pareciam dois amigos que um casal. Todavia, ele aparentava ser uma pessoa alegre, paciente e de espírito prático. E estas qualidades eram essenciais para Alexandra, cujo psiquismo estava indelevelmente marcado. Nuno, mesmo apagado e sem rasgo, era um porto seguro para as águas revoltas dos traumas da mulher.
Decorreram alguns meses durante os quais contactei espaçadamente ora com Olga, ora com Alexandra Brites. Quando a minha vida mo permitia, visitava Olga e levava-a a dar um passeio. Para tanto, bastava ir com ela dar uma volta a pé pela Mata de São Domingos. Ter a companhia de alguém dava-lhe um prazer indescritível. Era-lhe indiferente o que via e o que ouvia. Desde que estivesse acompanhada doutro ser humano, tudo a maravilhava.
Era evidente que, na sua mente fragilizada, a depressão ganhava cada vez mais terreno. Falava muito da neta e, quando o fazia, deixava transparecer uma mágoa incompreensível. Amava-a, mas era um amor sem alegria. Por outro lado, recordava amiúde os pais, os avós e outros parentes já falecidos, referindo-se-lhes com uma afeição dolorosa. Uma vez mostrou-me um pequeno caderno onde tinha anotado as datas do nascimento e da morte de todos os seus familiares e amigos mais chegados. E era tocante observar como guardava com todo o carinho esse pequeno testemunho do seu mundo cada vez mais estreito, como se, com esse cuidado, conseguisse preservar os seus entes queridos do esquecimento total.
Era extraordinariamente generosa para com os pedintes. Malgrado as dificuldades com que vivia, não negava uma esmola fosse a quem fosse. Era incapaz de passar por um cego ou por um aleijado sem lhes prodigalizar uma moeda. Muitas vezes a vi gastar dinheiro na aquisição de objetos inúteis, levada pelo aspeto indigente dos vendedores ambulantes que os ofereciam a quem passava. E, nessas alturas, parecia-me que aquela mulher, prisioneira da própria redenção, só conseguia gostar verdadeiramente de quem despertasse a sua compaixão.
Por essa altura, a sua casa encontrava-se já num perfeito caos. Havia muito que não tinha mulher a dias. Por todos os lados se acumulava a tralha característica das casas dos idosos atacados por demências senis. Era como se a anarquia que a rodeava houvesse impregnado o seu subconsciente, contribuindo de forma inexorável para a sua própria perpetuação.
Em certa ocasião quis ajudá-la a preparar um chá e verifiquei que, tanto na cozinha como na despensa, pouco havia que comer. Perceberia mais tarde que Alexandra, com pouca confiança no acerto das compras da mãe, lhe adquiria apenas os víveres necessários para uma semana.
Por outro lado, o aspeto presente de Olga martirizava-a. Quase não conseguia olhar-se ao espelho. E sonhava com o dia em que detivesse os meios suficientes que lhe permitiriam fazer um lifting. Uma vez, esticou com as mãos a pele do pescoço de ambos os lados e perguntou-me:
- Que tal lhe pareço assim?...
Sim, o sonho invadira por completo a vida de Olga Brites. E, dado no presente encontrar-se sem nada, falava quase sempre do passado. Às vezes tinha devaneios onde entravam personagens de livros que lera havia muito. E a vivência de paixões e enredos que a vida lhe negara, provocava-lhe um êxtase próximo do provocado por acontecimentos reais.
Sensível à miséria da condição humana que a vida de Olga Brites encarnava, eu saía de perto dela sempre deprimida. E, até certo ponto, um pouco indignada. Afinal, Alexandra tinha o dever de tratar da mãe. Não podia deixá-la ali sozinha, sem cabeça para as tarefas mais elementares, durante dias a fio. Existia um problema que não podia ser escamoteado. E competia à filha solucioná-lo.
Todavia, quando eu me encontrava com Alexandra, não tinha coragem de ser tão frontal. No fundo, reconhecia que a vida dela também não era fácil. E vislumbrava a outra face do problema.
- Eu também tenho os meus sonhos… - disse-me uma vez – e um em particular…
- E o que é?... – perguntei. Porém, logo a seguir, dei-me conta da indelicadeza da minha pergunta e acrescentei – Não faça caso. Não quis ser indiscreta.
- Oh, não se aflija! Não é assim tão privado. O meu sonho é muito vulgar. Quero uma casa. Uma casa bonita, moderna e…minha!...
- Parece um sonho muito razoável e possível – comentei.
- Razoável é, sem dúvida. Quanto a ser possível, começo a duvidar. No entanto, estou a trabalhar para isso. Eu e o meu marido não desperdiçamos um tostão. Todos os meses colocamos de lado uma certa quantia que depositamos a prazo, a fim de obter algum rendimento isento de riscos. Claro que, sem o problema da minha mãe, seria tudo mais fácil…
- O dinheiro dela já chegou ao fim?... – atrevi-me a perguntar.
- Já. O seu único rendimento atual é a pensão social, que dá apenas para a renda da casa.
- Já imaginou quanto pouparia se vivessem juntas?...
Alexandra olhou-me de uma forma que não admitia réplica:
- Isso é impossível. Eu não era capaz de viver com a minha mãe.
- Sabe que é isso o que ela mais deseja na vida?
- Sei.
Dito isto, Alexandra levantou-se do sofá da sua sala onde estávamos sentadas e desapareceu. Voltou passado um ou dois minutos, com uma peça de roupa na mão de cor azul turquesa, que me estendeu:
- Aqui está uma prenda que a minha mãe me deu há uns tempos, Veja-a, se faz favor.
Pequei na peça azul turquesa, abri-a e verifiquei que era uma espécie de calça e casaco à odalisca, com dourados e um corte oriental.
- Que é isto? – perguntei.
- Segundo a minha mãe, é um robe de hostesse, uma indumentária usada pelas senhoras elegantes quando estão em casa a receber os amigos.
Não pude disfarçar um sorriso.
- Meu Deus! Que coisa mais absurda!...
- Pois é – respondeu Alexandra, sem qualquer vontade de rir – A minha mãe é uma senhora. Nunca trabalhou e parou no tempo. Ela não consegue interiorizar que eu quando chego a casa tenho tudo para fazer…
E Alexandra prosseguiu, num desabafo que eu nunca lhe havia escutado:
- Durante anos, nunca ouviu os meus conselhos. Dizia-me sempre que sabia muito bem conduzir-se e que nunca me seria pesada. Eu exasperava-me pois vi-a a caminhar para o abismo. Queria incutir-lhe lucidez e ela não se dignava dar-me atenção!... Agora, que se arranje! Levo-lhe comida todas as semanas e lavo-lhe os lençóis na minha máquina. E a mais não me sinto obrigada!...
- Não?... - perguntei mansamente.
Alexandra, afogueada pela veemências das suas próprias palavras, fixou em mim um olhar duro:
- Não me queira incutir remorsos!... Eu não posso viver com a minha mãe. Hoje sei que tudo o que ela fez e me tentou ensinar estava errado!...
Nesse dia, quando saí de casa de Alexandra Brites, ia deveras impressionada. Nunca supusera que uma filha pudesse guardar tanto rancor contra uma mãe.
Desde então, não mais visitei Alexandra Brites. Sentia-me deveras incomodada sempre que recordava a nossa última conversa. No entanto, continuei a ir regularmente a casa da mãe e a assistir, impotente e magoada, à crescente degradação daquele ser humano.
Estava cada vez mais desligada da realidade. Quando passeávamos, gostava muito de parar nas montras das lojas. E, sempre que eu tecia um comentário positivo sobre alguma das peças expostas, dizia-me admirada:
- Mas, porque não compra?... Afinal, para que trabalha?!...
A sua mente deteriorada aliada a um passado de senhora não conseguia perceber que a maior parte das pessoas labuta para conseguir o essencial e não o supérfluo!...
A partir de certa altura, apercebi-me de que Olga mudara de religião. Desiludida com tudo, até com o Deus dos católicos que até aí adorara, havia ingressado nas fileiras da religião batista. Não teci qualquer comentário, limitando-me a escutar com paciência as suas ilógicas elucubrações sobre o assunto. Não argumentava com ela. Nesta fase, a sua sensibilidade andava de tal forma exacerbada que eu receava que qualquer refutação a fizesse ficar desiludida comigo.
Chorava muito. Falava dos mortos como se estivessem vivos. Penso que os via em sonhos, com um aspeto mais real e saudável do que aquele que lhes conhecera em vida. A neta, agora, era muito pouco citada. Esquecera-a?... Não sei. Todavia, acredito que raramente a visse. E talvez a amasse menos efusivamente, agora que, à medida que crescia, se ia tornando menos indefesa. E recordei-me que Alexandra me contara que, em criança, via a mãe apanhar pequenas conchas e pedras na praia, enquanto estavam brilhantes, molhadas pela água do mar, que depois deitava fora, desiludida, por ficarem tão feias depois de secas.
A pouco e pouco, Olga foi deixando de saber tomar conta de si. Não se sabia lavar, não se sabia vestir. Várias vezes a encontrei envergando peças de roupa interior como se fossem exteriores e vice-versa. As suas indumentárias eram independentes do tempo que fazia. E a sua casa começava a ficar verdadeiramente inabitável.
Até que um dia, recebi um inesperado telefonema de Alexandra. Havia mais de um ano que não falava com ela e notei-lhe um inusitado tom de tristeza na voz:
- Aquilo que eu mais temia aconteceu!...
Pensei no pior.
- A sua mãe…?...
- Não, não morreu, esteja descansada. Mas tive de a pôr num lar. Já não havia condições para viver sozinha. Uma vez, quando me dirigia para casa dela, fui abordada por um dos vizinhos. Estavam muito preocupados. Temiam que ela pudesse provocar um acidente grave por inadvertida utilização do gás. E tinham resolvido denunciar a situação ao senhorio.
- Acho que fez muito bem em pôr a sua mãe num lar. Ela precisa de cuidados permanentes.
- Sim, é verdade. Mas é o fim do meu sonho…
Não soube que responder. A verdade é que a vida raramente é justa.
- Gostaria de me acompanhar numa visita à minha mãe?... – acabou por perguntar.
- Sem dúvida – respondi.

Alexandra internara a mãe no Lar de São Vicente, numa instituição da Igreja Católica destinada a senhoras doentes e idosas de parcas posses. Era muito difícil conseguir uma vaga.
- Sob esse aspeto, não imagina a sorte que tive! – disse-me Alexandra quando, pela primeira vez, a acompanhei numa ida lá.
A mensalidade imposta a cada utente era proporcional à respetiva reforma. Era esta uma regra que, no entanto, tinha exceções. Com efeito, Olga Brites usufruía de uma pensão tão baixa que, apesar das condições especiais daquele estabelecimento, ficava ainda muito aquém da mensalidade mínima. E Alexandra era obrigada a custear o défice do seu bolso.
O Lar de São Vicente situava-se no Largo de Santos, num prédio antigo, de gaveto, forrado a azulejos de cor verde-esmeralda. Notei que, apesar da evidente degradação da fachada, o aspeto do imóvel transmitia solidez e segurança, com as linhas direitas e as janelas dispostas a intervalos regulares, resguardadas por altos batentes de madeira escura. No rés do chão viam-se grandes portas encimadas por arcos rebatidos, fechadas a cadeado, outrora entradas de armazéns e estabelecimentos comerciais. A única porta que se abria tinha ao lado quatro pequenos botões de campainha e dava acesso à escada interior do prédio.
Subimos os degraus altos e abaulados. A luz entrava por uma claraboia estreita, iluminando fracamente as paredes ornadas de um lambrim de estuque pintado imitando mármore. O prédio contava apenas quatro andares e, de dois em dois lanços, a escada interrompia-se num patamar de acesso a uma habitação. No último piso, o mais iluminado pela claraboia, uma pequena tabuleta identificava o Lar de São Vicente.
Uma das empregadas veio abriu-nos a porta. Segui Alexandra através de um corredor invulgarmente largo e comprido, com portas de ambos os lados, até que entrámos num salão grande com duas janelas que abriam sobre a Avenida 24 de julho. O sol entrava a rodos. Havia uma grande mesa retangular ao centro, e vários sofás de dois e três lugares encostados às paredes. Nestes, uma dúzia de velhinhas descansava. Algumas faziam malha, outras viam televisão e outras ainda, conversavam. Era hora de visitas.
Olga Brites estava sentada num dos sofás. Vestia uma indumentária que já me era familiar e olhava fixamente a televisão. Todavia, parecia nada ver. Aproximei-me e verifiquei que tinha um aspeto impecável, limpa e bem penteada. Quando me sentei ao seu lado, olhou-me sem expressão, como se eu fosse uma completa desconhecida. Alexandra, do outro lado da mãe, sentou-se também e só então Olga Brites pareceu dar pela filha. A sua boca abriu-se num sorriso. Mas não um sorriso qualquer. Os olhos iluminaram-se e todo o seu rosto se transfigurou materializando o prazer mais genuíno e a alegria mais pura. De tal forma que, ao vê-lo, sofri uma espécie de choque. Apesar de muito doente, Olga Brites ainda reconhecia a filha. E senti escorrer-me pela face uma lágrima involuntária.
- Está sempre assim! – disse-me Alexandra – sorri-me, reconhece-me como amiga, mas já não sabe que sou sua filha...
Olga vivia agora em completo alheamento. Já não falava. Às vezes abria a boca mas não emitia nenhum som. O médico que dava assistência ao Lar diagnosticara-lhe a doença de Alzheimer, com total perca de memória e de identidade. Estava de tal modo diminuída que usava fraldas. Além disso, o seu sistema neurológico estava afetado. Quando, a meio da nossa visita, se levantou do sofá, fê-lo com dificuldade e reparei que colocava os pés no chão de um modo estranho, o que a fazia coxear.
Permanecemos as três caladas durante algum tempo. Alexandra mantinha a mão da mãe entre as suas. Todavia, fazia-o com desprendimento. Por fim, chegou a hora do lanche e despedimo-nos. Quando Alexandra a beijou, Olga abriu a boca e fitou-a. Nos seus olhos havia todo o amor do mundo. Parecia querer dizer qualquer coisa. Mas nada disse.
A esta visita ao Lar de São Vicente, seguir-se-iam outras. Alexandra ia lá uma vez por mês (não tinha disponibilidade para mais) à hora das visitas e, às vezes, eu acompanhava-a. Subíamos a íngreme escadaria de madeira arrastando os quatro pacotões de fraldas – as necessárias para um mês – que Alexandra adquiria numa farmácia próxima. Permanecíamos então cerca de uma hora ao pé de Olga, cujo estado se mantinha estacionário.
Acabei por conhecer muito bem o Lar de São Vicente e as suas utentes. Tal como o prédio, também o Lar, no seu interior, necessitava de obras. Com um pé direito avantajado, habitual nos bons imóveis construídos nos anos vinte, exibia umas paredes manchadas, com rachas e buracos. Nas divisões principais os tetos eram ornamentados, belíssimos, todavia com falhas no estuque esculpido. Nalguns locais estas eram tão fundas que deixavam entrever pedaços de ferro enferrujado da estrutura de alvenaria.
No entanto, apesar da decrepitude, o Lar era acolhedor. Transmitia uma singular sensação de consonância com a decadência que albergava no seu seio. Havia uma reconfortante harmonia no conjunto, impossível de encontrar nos lares modernos e bem apetrechados, iluminados por meio de lâmpadas fluorescentes e impregnados do cheiro acre dos desinfetantes, onde a cruel realidade da morte parece espreitar em cada canto. Ali, os cortinados pesados e desbotados, os sofás de veludo puído, as velhas mesas e cadeiras de madeira escura, e as camas e divãs desirmanados, davam a ideia de membros de um clã que, outrora espalhados pelo mundo, houvessem decidido viver em doce comunhão familiar. Claro que testemunhar a decadência de seres humanos é algo de terrível, a que nem a constante repetição consegue atenuar o horror. No entanto, no Lar de São Vicente, vivia-se uma ambiência de tal forma hospitaleira, que aquele grupo de velhinhas me surgiam como beneficiárias de uma proteção especial contra as agruras do mundo exterior, ao invés de simples condenadas à espera da contagem decrescente para a morte.
O Lar era dirigido por uma senhora ainda nova, experiente e organizada. O asseio era evidente, tanto nas utentes como nas instalações. As empregadas trabalhavam por turnos e havia uma cozinheira a tempo inteiro. Por outro lado, as comodidades essenciais estavam garantidas. Ao lado da cozinha, ficava um pequeno corredor secundário que dava acesso a meia dúzia de pequenas e modernas casas de banho, sempre meticulosamente limpas. Quanto às salas de estar, em número de três, tinham todas televisão.
Viviam ali cerca de vinte senhoras de idade. Algumas teriam mais de oitenta anos. Muitas tinham dificuldade em andar, de forma que nunca saíam à rua, para o que contribuía decisivamente o facto do prédio não ter elevador. No entanto, ainda havia quem tivesse energia suficiente para descer e subir a cansativa escada, ir às compras e dar passeios pelas imediações. Quanto às utentes acamadas (pois também as havia), estavam reunidas no quarto maior, conhecido por “enfermaria”, embora nada tivesse de hospitalar.
Olga dormia num quarto interior com mais duas senhoras. A divisão estava dotada de três estreitas camas de ferro e de um único armário. Por cima deste viam-se empilhadas algumas malas de viagem, que decerto haviam servido para trazer a roupa das utentes naquela sua viagem sem retorno.
Alexandra aguentava o seu calvário com uma estoica serenidade. Ao fim de alguns meses, reconheceu a impossibilidade da mãe algum dia vir a voltar para casa, de forma que entregou o apartamento de Benfica ao senhorio. Para tanto, arcou sozinha com o doloroso e cansativo trabalho de se desfazer de todo o seu recheio. Por outro lado, desde que a mãe dera entrada no Lar, nunca mais poupara um tostão. Porém, somente de quando em quando deixava escapar um lamento acerca da sua triste sina:
- Eu tinha um sonho, um único sonho!... Mas há pessoas que nascem com uma sorte negra…
- Deixou de procurar casa? – perguntei, pois sabia que, durante muito tempo, a busca da casa ideal constituíra uma das principais distrações de Alexandra. Todavia, a sua resposta surpreendeu-me:
- Continuo a procurar. Afinal, por ver não se paga nada. E, quem sabe, um dia posso ganhar o totoloto…
- Sim, enquanto há vida há esperança…
- Não é bem isso – respondeu Alexandra com amargura – é que toda a gente precisa de alguma coisa para se manter viva.
Por coincidência, poucas semanas depois desta conversa, Alexandra telefonou-me avisando que ia visitar a mãe. E, enquanto nos dirigíamos para o Largo de Santos, a certa altura, disse-me:
- Lembra-se da nossa conversa de aqui há uns tempos?... Pois imagine que encontrei a casa ideal…
- Ah sim?...
- Sim – retorquiu – tem tudo o que sempre sonhei. Com a vantagem de que ainda está em princípio de construção. Só fica pronta daqui a dois anos. De forma que as condições de pagamento são bastante suaves.
Enquanto dizia isto, abriu a carteira e retirou de lá um papel dobrado que me estendeu. Abriu-o. Era a planta de uma casa. Melhor dizendo, de um magnífico apartamento, amplo e bem dividido. Alexandra, apontando para a planta, começou a explicar-me todos os detalhes. Eu nunca a vira tão entusiasmada. A tal ponto que pensei que já se decidira pela compra. E não resisti a responder:
- Está a ver, Alexandra?... Demorou mas encontrou aquilo que queria. Vai finalmente concretizar o seu sonho! Afinal o diabo não está sempre atrás da porta…
Mas, ao ouvir isto, a alegria murchou no seu rosto e o seu olhar endureceu:
- Que é que está para aí a dizer?... Eu não vou comprar a casa. Antes fosse! Mas infelizmente é impossível. Já fiz e refiz as contas centenas de vezes…
Subimos até ao Lar. Durante a visita, Alexandra continuou a falar nas inúmeras qualidades da casa dos seus sonhos e na sua desdita por não poder adquiri-la. Como era seu hábito, manteve a mão de Olga entre as suas, mas pouco se concentrou na mãe. Esta, em contrapartida, olhava-a fixamente. Talvez estranhasse ver a filha tão faladora. O seu olhar benigno não abandonava Alexandra, como se estivesse a beber as suas palavras. Claro que não acompanhava a conversa. No entanto, a sua expressão habitual de dulcíssima alegria foi, a pouco e pouco, sendo substituída por um ricto de espanto e consternação. E, quando Alexandra fez menção de se retirar, Olga saiu da apatia e teve um gesto nunca visto, único, incompreensível – em silêncio, levou a mão da filha à boca e depositou-lhe um beijo.
Nesse dia, saí do Lar de São Vicente um pouco perturbada. A vida era injusta. Deus era injusto. Nada fazia sentido. Para quê manter Olga Brites viva, naquele estado?... E para quê sujeitar Alexandra a tanta privação?... E senti-me contrafeita, como se fosse a espectadora de uma longa tragédia sem beleza, consubstanciada numa trama sem nexo e representada por atores feios e mal ensaiados. Porém, estava muito longe de imaginar que era a penúltima vez que via Olga Brites.
Com efeito, menos de um mês depois, Alexandra telefonou-me comunicando-me que a mãe estava muito mal. Encontrei-me com ela ao pé do Lar e rapidamente fui posta ao corrente. Havia umas duas semanas, Olga Brites começara a perder sangue. Disso davam sinais evidentes todas as fraldas que lhe eram retiradas. A diretora do Lar avisara Alexandra que contratara uma ambulância e levara a mãe a uma consulta da especialidade. E o diagnóstico fora taxativo. Carcinoma inoperável. E tratável apenas com paliativos. Tempo de vida? Imprevisível, mas pouco. Talvez muito pouco.
Subimos as escadas do Lar arrostando com os pacotes de fraldas e, pela primeira vez, entrei na enfermaria sem ser por curiosidade. Olga estava deitada numa estreita cama, a um canto do aposento. Fazia calor e o seu corpo, tapado apenas por um fino lençol, parecia extremamente magro. Os olhos estavam entreabertos e fitavam o teto. Habitualmente fria, Alexandra segurou-lhe na mão descoberta e desfez-se em lágrimas. Olga volveu os olhos para a filha e esboçou um sorriso ténue. Depois olhou para mim com uns olhos que me pareceram enormes. Afastei-me um pouco, a fim de deixar mãe e filha a sós. No entanto, vi ainda Olga erguer ligeiramente a mão que Alexandra apertava, enquanto dos seus olhos brotava uma lágrima, grossa, redonda, que lhe escorreu pela têmpora e desapareceu no meio dos cabelos.
Alexandra permaneceu junto da mãe, de pé, ao lado da cama, a chorar silenciosamente durante aquilo que me pareceu uma eternidade. Olga, serena e imóvel, já não parecia deste mundo. Por fim, Alexandra inclinou-se e depositou um beijo na testa da mãe que ficou molhada das lágrimas da filha. Então, de repente, dita em voz baixa mas perfeitamente audível, saiu da boca da moribunda uma palavra:
- Casa!...
Alexandra fitou a mãe e, logo a seguir, sofreu um baque e deixou-se cair sem uma palavra, de joelhos, ao lado da cama. Impressionada, fechei os olhos. Quando os abri, Olga fitava o teto e Alexandra beijava a mão que caía do leito. Só perto de uma hora depois se levantou e saímos.

Olga Brites faleceu uma semana depois. Durante as cerimónias fúnebres Alexandra, vestida de negro dos pés à cabeça, nunca se afastou do féretro. Olga, de olhos fechados na sua máscara fúnebre, parecia muito nova e bonita. A morte esticara-lhe a pele, como o lifting que não chegara a fazer. E, não sei porquê, veio-me à cabeça James Dean, eternamente Caleb Trask. Olga não vivera depressa nem morrera jovem. Mas o corpo que jazia na urna era, sem sombra de dúvida, um cadáver bonito.
Segui com Alexandra no carro funerário, desde a Igreja de Benfica até ao forno crematório do Cemitério do Alto de São João. A cerimónia foi muito simples. Assim que o caixão entrou no forno as poucas pessoas – entre as quais algumas utentes do Lar de São Vicente - começaram a despedir-se. No final, vi-me só, ao lado de Alexandra. O marido desta ficara em casa com a filha.
- Paz, amiga, paz! – disse eu, beijando-a.
- Obrigado – respondeu Alexandra simplesmente.
No final, saímos ambas a passo lento do cemitério.

Voltei a ver Alexandra Brites uma semana depois, na missa do sétimo dia, na Igreja de Benfica. Esperava encontrá-la mais desanuviada. A vida continua e havia que reagir. E, bem vistas as coisas, fora melhor assim. Agora, aliviada do encargo da mãe, talvez Alexandra já pudesse concretizar o tão almejado sonho da compra da casa.
Quando a celebração findou, procurei-a no pequeno adro frontal à Igreja. Estava acompanhada pelo marido e pela pequena Rita que, por esta altura, devia já contar uns cinco anos. E continuava a trajar de negro.
Cumprimentei a família. Atentei no semblante de Alexandra e pareceu-me pouco tranquilo. Todavia, não se me deparou qualquer oportunidade para conversar com ela a sós. Esta só surgiria algumas semanas depois, na missa do trigésimo dia.
Com efeito, nessa ocasião, o marido de Alexandra não pôde estar presente. Esperei paciente e recatadamente que as restantes pessoas que tinham vindo assistir à celebração dispersassem. Tinha decido falar a sós com Alexandra.
Quando ela me viu, cumprimentou-me com simpatia.
- Como vai? – perguntei.
- Menos mal – respondeu com uma expressão de mágoa contida - Sinto um grande vazio interior. Foi uma grande perda, muito maior do que eu alguma vez imaginei que pudesse vir a ser!...
- Acredito.
- Sabe, tenho pensado muito em tudo o que aconteceu e gostava de falar consigo. Mas diga-me, como veio até aqui?
- De táxi.
- Então deixe-me levá-la a casa.
- Como queira.
Caminhámos até ao local onde Alexandra estacionara o veículo. Já era de noite e um vento frio fustigava-nos o rosto. Entrámos no carro e, durante uns segundos, saboreei o cálido conforto do pequeno carro de Alexandra. Por delicadeza, não queria ser eu a iniciar o diálogo. Tinha plena consciência de que, na minha última ida ao Lar de São Vicente, assistira a uma cena extraordinária. No entanto, desconhecia o impacto que esta teria tido em Alexandra. Por isso, esperei em silêncio.
- Sabe que já comprei a casa? – atirou-me ela, de súbito.
- Ótimo! Os meus sinceros parabéns!...
Alexandra não respondeu logo. Quando o fez, a sua voz saiu trémula, embargada.
- No entanto, duvido que consiga ser feliz por lá…
Reparei que duas lágrimas lhe rolavam pela face. E senti-me contrafeita. A felicidade conquista-se. Há que lutar por ela!...
- Que disparate, Alexandra! Claro que vai ser feliz por lá. Era ou não era o seu maior sonho?
- Era.
- Então?...
- Então, agora, parece que perdeu a importância. Agora… - e hesitou - dava tudo para que a minha mãe não tivesse morrido daquela maneira...
- Não pense mais nisso. Você não podia ter evitado nada do que aconteceu.
- Também, você?... Isso é o que o meu marido me diz.
- E tem razão.
Alexandra abanou a cabeça.
- Não sei, não. Olhe, durante anos detestei a minha mãe. Ou melhor, detestei a sua maneira de estar na vida, a sua infelicidade e o seu espírito derrotado. Achava que tudo o que ela me ensinara, o seu desprendimento e a sua resignação, mais não eram que patranhas lamechas sem qualquer grandeza espiritual. Mas agora…
- Agora… - repeti, encorajando-a a prosseguir.
- Bem, agora tenho refletido sobre a doença que a matou, a rapidez do desenlace e reconheço que a minha mãe me deu uma grande lição. A maior de todas. Estou certa de que ela morreu desta maneira rápida, quase precipitada, porque me quis facilitar a compra da casa…
Eu ia protestar com veemência, mas a recordação de Olga moribunda impediu-me o fazer. E Alexandra, como se falasse apenas para si mesma, continuou:
- A morte tocou-a no berço da vida, onde eu fui gerada. E eu hoje sinto-me tocada também. Apesar da sua demência, estou ciente de que a minha mãe percebeu o meu desespero e se ofereceu em holocausto para me facilitar a vida. E é essa certeza que agora me perturba.
A conversa estava a tomar um rumo estranho. A voz de Alexandra soava irreal, misteriosa, amotinada, e eu senti-me contagiada pela sua inquietação. Por isso, tentei reagir o mais racionalmente possível:
- Alexandra, a sua mãe estava muito doente. Claro que a amava muito, No entanto, não lhe teria sido possível demonstrar-lhe o seu amor dessa maneira. O que você ouviu e eu também ouvi, foi apenas uma palavra, mais nada. Uma palavra que ela escutou da sua boca repetidas vezes. E, talvez por isso, a tenha reproduzido. Como é que ela poderia ter provocado em si própria aquele mal terrível?... Ela devia sofrer da doença há anos…
Mas Alexandra abanou a cabeça.
- Não sabemos. E o facto dela estar demente, privada de todo o raciocínio, também nada representa. Através do seu instinto de mãe, ela soube que a única coisa que podia fazer por mim era morrer. E morreu.
E calou-se durante uns segundos, como se precisasse de fôlego,
- A natureza é muito estranha – exclamou por fim – há espécies onde a reprodução está intimamente ligada à morte, como se as duas fossem as faces de uma mesma realidade. Sabe que a fêmea do louva-a-deus devora o macho a seguir à cópula? E ele nem tenta fugir. Submete-se ao seu destino como se obedecesse a uma ordem inexorável…
Fitei Alexandra com estranheza:
- Não, não sabia. Mas não vejo a relação…
- Oh, foi apenas um exemplo. E nem sequer apropriado, concordo. Contudo, o que mais me impressiona é o caso dos salmões. Nadam milhares de quilómetros até encontrarem a foz do rio onde nasceram e depois sobem-no contra a corrente, num esforço tremendo, para desovarem. Há muitos que não aguentam a viagem e tombam pelo caminho. Todavia, aos que aguentam, o prémio que os espera é a morte. Não tem lógica. E, no entanto, eles não deixam de o fazer…
Não respondi. Uma súbita angústia alojara-se-me na garganta. Tinha compreendido.

Adelina Velho da Palma

 

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