|
A SONHADORA
Por cada ser humano à face da terra, houve pelo
menos uma mãe que gemeu.
Não há amor como o de mãe, dizem. E é decerto
verdade. Mães do calibre de Catherine Trask(*) não
passam, provavelmente, de personagens de ficção. Já
o amor dos filhos é talvez menos absoluto, menos
fiável, com maior probabilidade de claudicar. O que
é, afinal, a lei da vida. Cada geração contrai uma
dívida com a anterior cujo ónus só salda na
seguinte. E é esta uma equação inevitável, fiel
tradução de um dos mecanismos com que a Natureza
assegura a perpetuação das espécies.
A história que se segue baseia-se em factos
verídicos ocorridos na vida de certas pessoas que
conheci e com quem fui convivendo ao longo dos anos.
Relato-a, não porque as vicissitudes por que
passaram os envolvidos hajam sido particularmente
extraordinárias, mas pelo muito que me comoveram,
fazendo-me entrever as cruéis (ainda que banais)
realidades da vida, das quais eu nunca antes tomara
consciência.
Com efeito, de todos os casos estranhos envolvendo
mães e filhas que presenciei, nenhum me impressionou
tão profundamente como o de Olga e Alexandra Brites.
Foram-me apresentadas por intermédio de amigos
comuns e, apesar de não ser propriamente íntima da
família, quis o destino que eu acompanhasse a par e
passo a sua história.
Quando as conheci, Alexandra, a filha, ainda era
solteira e viviam ambas num pequeno apartamento
alugado quase às portas de Benfica. O imóvel era
recente – teria um ano ou dois, no máximo – com mais
de dez andares e uma boa localização. Era, aliás, um
dos poucos prédios altos que então havia na zona.
O apartamento de Olga Brites situava-se no oitavo
andar e dele se desfrutava de uma vista desafogada
sobre aquela zona da cidade, muito embora o
panorama, com grande concentração de casario e de
artérias movimentadas, não fosse dos mais atrativos.
Quanto à casa, estava decorada com cuidado. As cores
das paredes, alcatifas e cortinados harmonizavam-se
na perfeição. Aqui e além, viam-se bibelôs de
Limoges, Lladró e até Sèvres. No entanto, apesar da
beleza das peças e da consonância dos tons, o
apartamento não era aprazível. As divisões eram
exíguas, o que coartava qualquer possibilidade de
dar aos artefactos expostos o destaque que a sua
categoria merecia. Por outro lado, o mobiliário era
um tanto vulgar. A tal ponto que era óbvio ter sido
adquirido numa época posterior à dos bibelôs, após
os meios financeiros de Olga Brites terem sofrido
uma drástica redução. Por tudo isto, a habitação era
um triste testemunho de empobrecimento e transmitia
uma constrangedora sensação de desolação. Quase que
parecia haver sido decorada com vista a uma
existência futura em permanente declínio. E, sempre
que eu o visitava, sentia no ar a premonição de
tempos cada vez mais difíceis.
Com efeito, a Revolução dos Cravos, célebre por não
ter provocado derramamento de sangue, não deixara de
fazer outro tipo de vítimas. Uma delas fora
precisamente o marido de Olga. Por razões que eu não
chegaria a aprofundar, José Brites perdera tudo com
o 25 de Abril e falecera dois ou três anos depois,
arruinado, deixando mulher e filha em má situação.
Olga Brites fora obrigada a vender a casa onde tinha
morado com o marido, a fim de realizar o capital
necessário para viver e manter a filha a estudar. No
entanto, dado ter ultimado o negócio no período pós
revolucionário, em que a oferta de habitações de
luxo era muito superior à procura (e também devido à
sua ingenuidade e inexperiência neste tipo de
transações), não chegara sequer a fazer um bom
negócio.
À época a que remontam os meus primeiros contactos
com a sua pessoa, Olga Brites era viúva havia poucos
anos, e Alexandra era finalista do curso de
Engenharia Química no Instituto Superior Técnico. Na
altura, simpatizei mais com a mãe do que com a
filha. Olga Brites era uma senhora. Não uma senhora
qualquer, mas uma verdadeira dama, daquelas em que o
berço se associou a uma boa índole. E não pude
deixar de constatar com admiração que, apesar de se
encontrar em plena curva descendente, marcada pelos
desgostos e pela penúria, conservava a delicadeza e
a sensibilidade dos espíritos superiores, que só uma
educação esmerada e uma alma generosa podem
propiciar.
Não obstante contar cinquenta e muitos anos, ainda
era bonita. Possuía uma daquelas faces a que o
amadurecimento confere uma aura de benignidade e
compreensão. O seu rosto era redondo, moreno, quase
sem rugas, com as maçãs do rosto salientes, o nariz
ligeiramente arrebitado e uns olhos castanhos, em
amêndoa. O cabelo era escuro, ondulado natural, com
raras cãs. As mãos, de dedos longos e finos,
pareciam singularmente jovens. Possuía ainda uma boa
figura e as roupas que envergava, conquanto
antiquadas, eram de bom corte e fino gosto. Em
rigor, Olga Brites era ainda uma senhora atraente.
Não seria, talvez, muito inteligente. Se porventura
detivera algum rasgo na juventude, este tinha-a
abandonado. Por vezes era difícil fazê-la seguir um
raciocínio mais elaborado. No entanto, era culta e
viajada. Admirava a Arte nas suas diversas formas de
expressão. Amava (e conhecia) a música, a
literatura, a poesia, a pintura e a escultura. Claro
que nunca saíra da Europa. Porém, quem é que o fazia
nas décadas de sessenta e setenta? Nesses tempos,
viajar era ir a Espanha, a França, à Itália e à
Suiça. Quando muito, à Grã-Bretanha.
Todavia, não eram a beleza, a elegância nem tampouco
a cultura as suas características mais relevantes.
Eram, sim, a bondade e a simpatia. Olga Brites era
uma pessoa extremamente afável e, para tanto, não
fazia qualquer esforço. Estava-lhe na massa do
sangue. Era muito bem-educada e, por sistema,
concordava com tudo o que se lhe dizia, não por
falta de sinceridade mas pelo simples desejo de
agradar. Tinha um olhar meigo e carinhoso como
nenhum outro. Conseguia ser, ao mesmo tempo, triste
e venturoso. Havia algo de místico naquelas pupilas
onde parecia perpassar toda a ternura e todo o pesar
do mundo. E, de tal modo envolvia os interlocutores
numa onda de simpatia, que se tornava difícil findar
uma conversa.
Sempre que falava com ela, eu ficava com o coração
apertado. Era evidente que a viuvez e a falta de
dinheiro lhe haviam provocado uma depressão
profunda. Eu nunca conhecera ninguém com tanta pena
de si mesmo. Olga Brites considerava-se vítima de um
destino imerecido e cruel, contra o qual não tinha
armas para lutar. No entanto, dado ser profundamente
crente, aceitava com resignação a cruz que lhe fora
destinada. E eu intuía que, para o seu espírito
permanecer acima da linha de água, Olga Brites
encontrava algum conforto na beleza da sua própria
imolação.
Alexandra, a filha, era muito diferente da mãe. Em
termos estritamente físicos, seriam até parecidas.
Alexandra era mais alta e mais magra, mas possuía o
mesmo nariz arrebitado, o mesmo cabelo ondulado, e o
mesmo rosto belo de maçãs salientes. Porém, na
vertente psicológica, eram completamente opostas.
Alexandra era ensimesmada. Não era fácil dialogar
com ela. Aliás, considerava o ato de conversar uma
pura perca de tempo. Tinha pouca paciência e não se
acanhava de dar uma resposta desagradável a quem
quer que fosse. Não obstante a boa educação
recebida, havia nela uma agressividade latente,
prestes a extravasar ao mínimo pretexto.
Era particularmente desagradável com a mãe. No
entanto, acho que seria falso afirmar que não a
amava. Aliás, o tempo encarregar-se-ia de me
demonstrar o contrário, de forma cabal. Todavia, o
certo é que não a admirava. A passividade da
progenitora irritava-a profundamente. No fundo,
considerava-a uma falhada, incapaz de reagir de
forma prática e positiva à fatalidade que se abatera
sobre a família. E acusava-a de sonhadora, de viver
desligada da realidade e, até, de ser corresponsável
pela má situação em que se encontravam.
Cheguei a presenciar algumas discussões
desagradáveis entre mãe e filha. E por várias vezes
me quedei abismada com as coisas que Alexandra dizia
à mãe. Contudo, reconheço que pesava sobre os ombros
desta jovem (que naquela altura contava apenas vinte
e dois anos) uma carga imensa. Fora criada em berço
de oiro e educada num mundo demasiado fácil que, de
repente, ruíra por completo. Inteligente, sabia que
a precária situação presente se devia à falta de
discernimento do pai e à inércia da mãe.
Infelizmente, o pai estava morto e ela já não podia
revoltar-se contra ele. Para isso, restava-lhe a
mãe.
- Ela devia ter alertado o meu pai para o perigo de
certos investimentos... Mas só pensava em concertos
e exposições!... – queixava-se, com tal raiva
contida na voz que me fazia estremecer.
Eu argumentava com a serenidade possível:
- Alexandra, não se torture. Releve. O futuro a Deus
pertence. Sabe lá como vai estar daqui a uns anos…
- Daqui a uns anos?... Pode ter a certeza de que sei
muito bem como vou estar. A trabalhar, decerto, e
com a minha mãe inteiramente a meu cargo…
Era, com efeito, um destino provável. Eu sabia que
elas estavam absolutamente sós no mundo. Não havia
mais família. Alexandra acabaria o curso e
arranjaria um emprego. E, mais tarde ou mais cedo, o
dinheiro da mãe chegaria ao fim. E ela teria de a
sustentar.
É curioso referir que Olga, apesar da bondade, era
extremamente orgulhosa. Nunca revelara a ninguém
quanto ainda lhe restava. E, sempre que Alexandra,
nalgum desabafo, aludia ao medo que tinha do futuro,
Olga respondia com suavidade:
- Peço-te, minha filha, que não te preocupes comigo.
Pensa só em ti. Eu cá me arranjarei.
Quando proferia tais palavras, Olga era
absolutamente sincera. Adorava a filha e a última
coisa que desejava era ser-lhe pesada. Todavia,
estes dizeres não chegavam para sossegar Alexandra
que tinha plena consciência dos seus deveres e, cada
dia que passava, confiava menos na razoabilidade
financeira da conduta da mãe. E, uma vez mais, tinha
razão.
Com efeito, Olga ia-se tornando pouco razoável. No
fundo, agarrava-se ao sonho para não enlouquecer. A
nostalgia do passado dominava-a em absoluto
levando-a a esforçar-se desesperadamente por viver
acima das posses. Por exemplo, convidava amiúde
grupos de amigos para jantar, à semelhança do que
fizera quando o marido era vivo e possuía uma casa
com a dimensão apropriada. Claro que a maior parte
recusava, sob os mais diversos pretextos. E ela nem
se apercebia de que o faziam porque o seu declínio
económico a atirara para um extrato social mais
baixo. Com efeito, os antigos convivas já não a
consideravam como uma igual e dela só desejavam
distância. Por outro lado, os raros que aceitavam os
seus convites, faziam-no por condescendência, quase
por piedade. Às vezes organizava idas ao teatro, ao
cinema ou ao ballet. E então, mais uma vez, os
companheiros desapareciam após o espetáculo, não lhe
dando a menor hipótese de prolongar o contacto. E
nunca ninguém a desafiava para nada.
Tudo isto não passava despercebido a Alexandra que
sofria com estas sistemáticas humilhações a que a
mãe se sujeitava, ao mesmo tempo que contabilizava o
dinheiro jogado à rua com estas iniciativas
patéticas. E, sempre que Olga afirmava não perceber
porque é que tão pouca gente aceitava os seus
convites, Alexandra não perdoava:
- Não percebe?!... Pois é muito simples. É que a mãe
agora é pobre! E eles não são nem nunca foram
verdadeiros amigos!...
Então Olga, incapaz de encaixar as acusações da
filha, chorava amargamente. Todavia não há melhor
barómetro da infelicidade que a agressividade. A
violência com que Alexandra se dirigia à mãe era
fruto de, também ela, se sentir profundamente
infeliz.
Apesar de lhes ter amizade, o meu convívio com as
Brites era esporádico. Aliás, devo confessar que
raramente tomava a iniciativa dos nossos encontros.
Esta partia quase sempre de Olga Brites. E eu,
acomodada ao hábito de receber de tempos a tempos um
telefonema seu, não fazia nenhuma diligência no
sentido de saber como decorria a sua vida. E foi
assim que um dia, de súbito, qualquer coisa me
recordou as Brites e me dei conta de que havia muito
tempo – talvez dois ou três anos – que não sabia
nada delas.
Levada pelo desejo de ser simpática (e estranhando o
seu longo silêncio), telefonei a Olga Brites. E foi
com alívio que reconheci a sua voz do outro lado do
fio, atendendo-me com a costumeira delicadeza.
Disse-lhe que havia muito tempo não tinha notícias
dela e pedi licença para a visitar. Ela pareceu
muito feliz com o meu telefonema. No entanto, já
depois de ter desligado, senti-me invadida por um
súbito desconforto. Algo me dizia que Olga Brites
não me reconhecera. Apesar da simpatia, falara de
uma maneira vaga, cheia de hesitações, como se não
identificasse o interlocutor e temesse, acima de
tudo, cometer uma gaffe.
Talvez por isso, foi imbuída de um inexplicável mau
pressentimento que, no dia combinado, toquei à
campainha de Olga e Alexandra Brites. Olga veio
abrir-me a porta. Olhámo-nos durante um momento e
tive então a certeza de que ela não sabia quem eu
era. No entanto, reconhecia o meu rosto como o de
alguém amigável e a sua boca abriu-se num sorriso
cheio de calor.
- Entre, amiga, entre… - disse-me.
Estava magra e envelhecida. Segui-a até à pequena
sala de estar que eu tão bem conhecia. Sentei-me e
olhei à minha volta, constrangida. Era evidente que,
durante o nosso afastamento, a situação de Olga
Brites se degradara substancialmente. A casa dava
claros indícios da desorganização que costuma
caracterizar os lares das pessoas de idade que vivem
sozinhas e cujo cérebro começa a claudicar. Estava
suja e desarrumada. O meu olhar desviou-se de tudo
que me cercava e atentou na minha anfitriã. Como
sempre, a sua indumentária era antiquada. Todavia,
agora parecia também falha de asseio. Por outro
lado, o cabelo precisava de um corte e as mãos
estavam mal tratadas, com a pele avermelhada e as
unhas rombas. Todavia, malgrado a confusão reinante
e o aspeto decadente, Olga Brites recebia-me com
todas as atenções.
- Querida amiga (era óbvio que esquecera o meu
nome), deseja tomar alguma coisa?...
- Oh, não. Muito obrigada – respondi - Como está
Alexandra?...
- A Alexandra casou – respondeu. E os seus olhos
cansados fixaram o vazio.
- Quer dizer que agora vive sozinha ?l…
- Sim, sozinha… - respondeu, com uma infinita
tristeza na voz.
Impressionada, tentei desanuviar o ambiente:
- E já é avó?...
O seu rosto adquiriu então uma expressão dulcíssima:
- Sou sim… Tenho uma linda netinha. É a minha
Ritinha.
Estava claramente comovida. Observei-a durante mais
alguns segundos. Por fim olhei à minha volta
disfarçadamente, a fim de descobrir, no meio das
inúmeras fotografias baças que populavam os móveis
cheios de pó, alguma que mostrasse Alexandra em
traje nupcial. Mas nada vi.
- O casamento foi bonito?...
Apesar de extemporânea, esta minha pergunta tinha a
sua razão de ser. Eu sabia que Olga sonhara durante
anos com um casamento de estadão para a filha. Podia
prescindir de tudo menos disso. E, para tal, não
olharia a despesas. Alexandra seria vestida de noiva
pelo melhor costureiro de Lisboa. Entraria com passo
cadenciado na Sé Patriarcal engalanada de flores ao
som do Trumpet Voluntary, linda de morrer, causando
o espanto e a admiração de uma pequena multidão,
enquanto um noivo belo e garboso a esperaria no
altar. Ter-se-ia este sonho concretizado?....
- Foi sim, muito bonito… - respondeu.
Mas, a avaliar pelo pouco entusiasmo com que a
afirmação fora proferida, parecia estar a querer
dizer precisamente o contrário.
Fiquei, pois, sem saber o que pensar. E assaltou-me
uma viva vontade de rever Alexandra e saber como
decorria a sua vida. Durante mais meia hora
alimentei uma conversação desconexa com Olga Brites,
até que olhei para o relógio, pedi-lhe o contacto da
filha e fiz menção de me retirar.
- Oh, já se vai embora?... – perguntou-me desolada
A sua expressão era tão pungente que a olhei com
sincero dó. Estava ali uma pessoa a quem um destino
implacável impusera aquilo que mais detestava –
viver sozinha. Por isso, uma breve visita ou uma
simples conversa, fosse com quem fosse, lhe causava
uma tão grande satisfação. E, quando me despedi,
estava tão perturbada com o desgosto patente na
fácies de Olga que quase me senti responsável pela
sua solidão.
Alguns dias depois, contactei com Alexandra Brites.
Esta, apesar dos anos decorridos, não teve
dificuldade em identificar a minha voz pelo
telefone. Mostrou-se muito simpática. Tagarelámos um
pouco até que me convidou para jantar em sua casa
alguns sábados depois. Tomei, pois, nota do seu
endereço e desliguei.
No sábado combinado, bati à porta de Alexandra. A
filha de Olga Brites vivia na Ajuda. De facto, sem
ter saído de Lisboa, morava bem longe da mãe, na
zona oposta da cidade. O prédio era antigo, dos anos
trinta ou quarenta, e necessitava de obras. Subi uma
escada de madeira e toquei à campainha. Alexandra
veio abrir a porta com uma menina pequenina pela
mão:
- Como está? – disse, enquanto nos cumprimentávamos.
E acrescentou – esta é a Rita, a minha filha.
Depositei um beijo na testa da pequenita que, logo a
seguir, se soltou da mão da mãe e desapareceu por
uma porta aberta. Alexandra conduziu-me à sala, onde
um homem jovem estava sentado num sofá a ler o
jornal. Quando entrei, levantou-se.
- Nuno Seixas, muito prazer.
Apertei a mão que o marido de Alexandra Brites me
estendia e, sem cerimónias, aceitei o convite que me
fez para me sentar. Nuno Seixas era um homem dos
seus trinta anos, magro, moreno e de rosto fino. Era
de um tipo vulgar, nem feio nem bonito, nada
revelando que chamasse a atenção. Aliás, a sua
figura era um tanto fraca e eu apostaria, conquanto
não tivesse chegado a vê-los lado a lado, que era
mais baixo que a mulher. Admirei-me que Alexandra,
bonita e inteligente, tivesse escolhido tal
consorte. Todavia, decidi ser cautelosa no meu
juízo. Afinal, mal de quem se esgota no seu aspeto
físico. E quantas vezes as pessoas mais apagadas se
vêm a revelar as de maior valor! Quanto ao
apartamento, era pequeno e antiquado. Dava indícios
de ter sofrido algumas obras no interior que,
todavia, revelavam algum amadorismo. As fendas
estavam mal tapadas e as portas haviam secado com a
tinta a escorrer. Decerto haviam sido a própria
Alexandra e o marido os artífices da obra.
Alexandra serviu um jantar simples, todavia,
preparado com cuidado. O marido era simpático e
ajudou-a a pôr e a levantar a mesa. Foi ele que se
encarregou de dar a refeição à pequena Rita que,
segundo me pareceu, nutria uma declarada predileção
pelo pai. Era, aliás, muito parecida com ele.
Quando, no decorrer da conversa, Alexandra aludiu ao
casamento, referiu-se-lhe como uma cerimónia
simples, no registo, a que apenas assistiram duas
pessoas amigas como testemunhas. Alexandra nem
sequer usara um vestido de noiva.
- Foi tudo o mais simples possível. Não podia
permitir que a minha mãe gastasse uma fortuna com o
casamento, quando eu precisava de dinheiro para me
instalar…
Eu não tinha a certeza de ter percebido bem:
- Quer dizer que Olga não assistiu ao casamento?...
– perguntei, incrédula
Alexandra olhou-me sem pestanejar:
- Não, não assistiu.
- Mas porquê, Alexandra, porquê?... Deve ter sido um
grande desgosto para ela!...
- Acha, mesmo?... – e o seu olhar tornou-se duro –
pois eu acho que seria bem pior para ela presenciar
um casamento que não correspondesse à sua mania das
grandezas...
- Pois não… - corroborou o marido que, até então, se
mantivera silencioso – pode ter a certeza de que foi
melhor assim.
Percebendo que o assunto não agradava aos meus
anfitriões, calei-me e comi em silêncio. Quando a
refeição terminou, cavaqueámos mais um pouco. Fiquei
a saber que o marido de Alexandra tinha sido colega
dela no IST e também era engenheiro. Embora fosse
mais velho, acabara o curso ao mesmo tempo que ela.
Cada um tinha o seu emprego. Haviam alugado uma casa
compatível com as suas posses de jovem casal em
princípio de vida. Ninguém os ajudara. Pelo caminho,
nascera-lhes a filha. E o seu dia a dia era uma
batalha contínua.
Perguntei-me porque razão Alexandra, ao casar,
decidira mudar de residência. Afinal, a casa onde
agora vivia era tão pequena e desconfortável que até
a casa da mãe lhe ofereceria melhores condições. E
foi a própria Alexandra que, no meio da conversa, me
esclareceu:
- Quando o Nuno e eu decidimos casar, tratámos de
procurar uma casa. Continuar a viver com a minha mãe
estava fora de questão. Há anos que eu ansiava por
me libertar daquele ambiente de tristeza e de
devaneio. Para mim, era uma questão de saúde mental.
Embora chocada com a sua fria sinceridade, eu
conseguia perceber Alexandra. Nesta vida, há que
manter o equilíbrio entre o sofrimento e a bonança.
Se esse equilíbrio se rompe, estamos perdidos.
O resto do serão decorreu de forma agradável.
Observei Alexandra e Nuno, os seus olhares, os seus
ditos, os seus gestos e as suas reações. Era óbvio
que ela não estava apaixonada por ele. Mais pareciam
dois amigos que um casal. Todavia, ele aparentava
ser uma pessoa alegre, paciente e de espírito
prático. E estas qualidades eram essenciais para
Alexandra, cujo psiquismo estava indelevelmente
marcado. Nuno, mesmo apagado e sem rasgo, era um
porto seguro para as águas revoltas dos traumas da
mulher.
Decorreram alguns meses durante os quais contactei
espaçadamente ora com Olga, ora com Alexandra
Brites. Quando a minha vida mo permitia, visitava
Olga e levava-a a dar um passeio. Para tanto,
bastava ir com ela dar uma volta a pé pela Mata de
São Domingos. Ter a companhia de alguém dava-lhe um
prazer indescritível. Era-lhe indiferente o que via
e o que ouvia. Desde que estivesse acompanhada
doutro ser humano, tudo a maravilhava.
Era evidente que, na sua mente fragilizada, a
depressão ganhava cada vez mais terreno. Falava
muito da neta e, quando o fazia, deixava
transparecer uma mágoa incompreensível. Amava-a, mas
era um amor sem alegria. Por outro lado, recordava
amiúde os pais, os avós e outros parentes já
falecidos, referindo-se-lhes com uma afeição
dolorosa. Uma vez mostrou-me um pequeno caderno onde
tinha anotado as datas do nascimento e da morte de
todos os seus familiares e amigos mais chegados. E
era tocante observar como guardava com todo o
carinho esse pequeno testemunho do seu mundo cada
vez mais estreito, como se, com esse cuidado,
conseguisse preservar os seus entes queridos do
esquecimento total.
Era extraordinariamente generosa para com os
pedintes. Malgrado as dificuldades com que vivia,
não negava uma esmola fosse a quem fosse. Era
incapaz de passar por um cego ou por um aleijado sem
lhes prodigalizar uma moeda. Muitas vezes a vi
gastar dinheiro na aquisição de objetos inúteis,
levada pelo aspeto indigente dos vendedores
ambulantes que os ofereciam a quem passava. E,
nessas alturas, parecia-me que aquela mulher,
prisioneira da própria redenção, só conseguia gostar
verdadeiramente de quem despertasse a sua compaixão.
Por essa altura, a sua casa encontrava-se já num
perfeito caos. Havia muito que não tinha mulher a
dias. Por todos os lados se acumulava a tralha
característica das casas dos idosos atacados por
demências senis. Era como se a anarquia que a
rodeava houvesse impregnado o seu subconsciente,
contribuindo de forma inexorável para a sua própria
perpetuação.
Em certa ocasião quis ajudá-la a preparar um chá e
verifiquei que, tanto na cozinha como na despensa,
pouco havia que comer. Perceberia mais tarde que
Alexandra, com pouca confiança no acerto das compras
da mãe, lhe adquiria apenas os víveres necessários
para uma semana.
Por outro lado, o aspeto presente de Olga
martirizava-a. Quase não conseguia olhar-se ao
espelho. E sonhava com o dia em que detivesse os
meios suficientes que lhe permitiriam fazer um
lifting. Uma vez, esticou com as mãos a pele do
pescoço de ambos os lados e perguntou-me:
- Que tal lhe pareço assim?...
Sim, o sonho invadira por completo a vida de Olga
Brites. E, dado no presente encontrar-se sem nada,
falava quase sempre do passado. Às vezes tinha
devaneios onde entravam personagens de livros que
lera havia muito. E a vivência de paixões e enredos
que a vida lhe negara, provocava-lhe um êxtase
próximo do provocado por acontecimentos reais.
Sensível à miséria da condição humana que a vida de
Olga Brites encarnava, eu saía de perto dela sempre
deprimida. E, até certo ponto, um pouco indignada.
Afinal, Alexandra tinha o dever de tratar da mãe.
Não podia deixá-la ali sozinha, sem cabeça para as
tarefas mais elementares, durante dias a fio.
Existia um problema que não podia ser escamoteado. E
competia à filha solucioná-lo.
Todavia, quando eu me encontrava com Alexandra, não
tinha coragem de ser tão frontal. No fundo,
reconhecia que a vida dela também não era fácil. E
vislumbrava a outra face do problema.
- Eu também tenho os meus sonhos… - disse-me uma vez
– e um em particular…
- E o que é?... – perguntei. Porém, logo a seguir,
dei-me conta da indelicadeza da minha pergunta e
acrescentei – Não faça caso. Não quis ser
indiscreta.
- Oh, não se aflija! Não é assim tão privado. O meu
sonho é muito vulgar. Quero uma casa. Uma casa
bonita, moderna e…minha!...
- Parece um sonho muito razoável e possível –
comentei.
- Razoável é, sem dúvida. Quanto a ser possível,
começo a duvidar. No entanto, estou a trabalhar para
isso. Eu e o meu marido não desperdiçamos um tostão.
Todos os meses colocamos de lado uma certa quantia
que depositamos a prazo, a fim de obter algum
rendimento isento de riscos. Claro que, sem o
problema da minha mãe, seria tudo mais fácil…
- O dinheiro dela já chegou ao fim?... – atrevi-me a
perguntar.
- Já. O seu único rendimento atual é a pensão
social, que dá apenas para a renda da casa.
- Já imaginou quanto pouparia se vivessem juntas?...
Alexandra olhou-me de uma forma que não admitia
réplica:
- Isso é impossível. Eu não era capaz de viver com a
minha mãe.
- Sabe que é isso o que ela mais deseja na vida?
- Sei.
Dito isto, Alexandra levantou-se do sofá da sua sala
onde estávamos sentadas e desapareceu. Voltou
passado um ou dois minutos, com uma peça de roupa na
mão de cor azul turquesa, que me estendeu:
- Aqui está uma prenda que a minha mãe me deu há uns
tempos, Veja-a, se faz favor.
Pequei na peça azul turquesa, abri-a e verifiquei
que era uma espécie de calça e casaco à odalisca,
com dourados e um corte oriental.
- Que é isto? – perguntei.
- Segundo a minha mãe, é um robe de hostesse, uma
indumentária usada pelas senhoras elegantes quando
estão em casa a receber os amigos.
Não pude disfarçar um sorriso.
- Meu Deus! Que coisa mais absurda!...
- Pois é – respondeu Alexandra, sem qualquer vontade
de rir – A minha mãe é uma senhora. Nunca trabalhou
e parou no tempo. Ela não consegue interiorizar que
eu quando chego a casa tenho tudo para fazer…
E Alexandra prosseguiu, num desabafo que eu nunca
lhe havia escutado:
- Durante anos, nunca ouviu os meus conselhos.
Dizia-me sempre que sabia muito bem conduzir-se e
que nunca me seria pesada. Eu exasperava-me pois
vi-a a caminhar para o abismo. Queria incutir-lhe
lucidez e ela não se dignava dar-me atenção!...
Agora, que se arranje! Levo-lhe comida todas as
semanas e lavo-lhe os lençóis na minha máquina. E a
mais não me sinto obrigada!...
- Não?... - perguntei mansamente.
Alexandra, afogueada pela veemências das suas
próprias palavras, fixou em mim um olhar duro:
- Não me queira incutir remorsos!... Eu não posso
viver com a minha mãe. Hoje sei que tudo o que ela
fez e me tentou ensinar estava errado!...
Nesse dia, quando saí de casa de Alexandra Brites,
ia deveras impressionada. Nunca supusera que uma
filha pudesse guardar tanto rancor contra uma mãe.
Desde então, não mais visitei Alexandra Brites.
Sentia-me deveras incomodada sempre que recordava a
nossa última conversa. No entanto, continuei a ir
regularmente a casa da mãe e a assistir, impotente e
magoada, à crescente degradação daquele ser humano.
Estava cada vez mais desligada da realidade. Quando
passeávamos, gostava muito de parar nas montras das
lojas. E, sempre que eu tecia um comentário positivo
sobre alguma das peças expostas, dizia-me admirada:
- Mas, porque não compra?... Afinal, para que
trabalha?!...
A sua mente deteriorada aliada a um passado de
senhora não conseguia perceber que a maior parte das
pessoas labuta para conseguir o essencial e não o
supérfluo!...
A partir de certa altura, apercebi-me de que Olga
mudara de religião. Desiludida com tudo, até com o
Deus dos católicos que até aí adorara, havia
ingressado nas fileiras da religião batista. Não
teci qualquer comentário, limitando-me a escutar com
paciência as suas ilógicas elucubrações sobre o
assunto. Não argumentava com ela. Nesta fase, a sua
sensibilidade andava de tal forma exacerbada que eu
receava que qualquer refutação a fizesse ficar
desiludida comigo.
Chorava muito. Falava dos mortos como se estivessem
vivos. Penso que os via em sonhos, com um aspeto
mais real e saudável do que aquele que lhes
conhecera em vida. A neta, agora, era muito pouco
citada. Esquecera-a?... Não sei. Todavia, acredito
que raramente a visse. E talvez a amasse menos
efusivamente, agora que, à medida que crescia, se ia
tornando menos indefesa. E recordei-me que Alexandra
me contara que, em criança, via a mãe apanhar
pequenas conchas e pedras na praia, enquanto estavam
brilhantes, molhadas pela água do mar, que depois
deitava fora, desiludida, por ficarem tão feias
depois de secas.
A pouco e pouco, Olga foi deixando de saber tomar
conta de si. Não se sabia lavar, não se sabia
vestir. Várias vezes a encontrei envergando peças de
roupa interior como se fossem exteriores e
vice-versa. As suas indumentárias eram independentes
do tempo que fazia. E a sua casa começava a ficar
verdadeiramente inabitável.
Até que um dia, recebi um inesperado telefonema de
Alexandra. Havia mais de um ano que não falava com
ela e notei-lhe um inusitado tom de tristeza na voz:
- Aquilo que eu mais temia aconteceu!...
Pensei no pior.
- A sua mãe…?...
- Não, não morreu, esteja descansada. Mas tive de a
pôr num lar. Já não havia condições para viver
sozinha. Uma vez, quando me dirigia para casa dela,
fui abordada por um dos vizinhos. Estavam muito
preocupados. Temiam que ela pudesse provocar um
acidente grave por inadvertida utilização do gás. E
tinham resolvido denunciar a situação ao senhorio.
- Acho que fez muito bem em pôr a sua mãe num lar.
Ela precisa de cuidados permanentes.
- Sim, é verdade. Mas é o fim do meu sonho…
Não soube que responder. A verdade é que a vida
raramente é justa.
- Gostaria de me acompanhar numa visita à minha
mãe?... – acabou por perguntar.
- Sem dúvida – respondi.
Alexandra internara a mãe no Lar de São Vicente,
numa instituição da Igreja Católica destinada a
senhoras doentes e idosas de parcas posses. Era
muito difícil conseguir uma vaga.
- Sob esse aspeto, não imagina a sorte que tive! –
disse-me Alexandra quando, pela primeira vez, a
acompanhei numa ida lá.
A mensalidade imposta a cada utente era proporcional
à respetiva reforma. Era esta uma regra que, no
entanto, tinha exceções. Com efeito, Olga Brites
usufruía de uma pensão tão baixa que, apesar das
condições especiais daquele estabelecimento, ficava
ainda muito aquém da mensalidade mínima. E Alexandra
era obrigada a custear o défice do seu bolso.
O Lar de São Vicente situava-se no Largo de Santos,
num prédio antigo, de gaveto, forrado a azulejos de
cor verde-esmeralda. Notei que, apesar da evidente
degradação da fachada, o aspeto do imóvel transmitia
solidez e segurança, com as linhas direitas e as
janelas dispostas a intervalos regulares,
resguardadas por altos batentes de madeira escura.
No rés do chão viam-se grandes portas encimadas por
arcos rebatidos, fechadas a cadeado, outrora
entradas de armazéns e estabelecimentos comerciais.
A única porta que se abria tinha ao lado quatro
pequenos botões de campainha e dava acesso à escada
interior do prédio.
Subimos os degraus altos e abaulados. A luz entrava
por uma claraboia estreita, iluminando fracamente as
paredes ornadas de um lambrim de estuque pintado
imitando mármore. O prédio contava apenas quatro
andares e, de dois em dois lanços, a escada
interrompia-se num patamar de acesso a uma
habitação. No último piso, o mais iluminado pela
claraboia, uma pequena tabuleta identificava o Lar
de São Vicente.
Uma das empregadas veio abriu-nos a porta. Segui
Alexandra através de um corredor invulgarmente largo
e comprido, com portas de ambos os lados, até que
entrámos num salão grande com duas janelas que
abriam sobre a Avenida 24 de julho. O sol entrava a
rodos. Havia uma grande mesa retangular ao centro, e
vários sofás de dois e três lugares encostados às
paredes. Nestes, uma dúzia de velhinhas descansava.
Algumas faziam malha, outras viam televisão e outras
ainda, conversavam. Era hora de visitas.
Olga Brites estava sentada num dos sofás. Vestia uma
indumentária que já me era familiar e olhava
fixamente a televisão. Todavia, parecia nada ver.
Aproximei-me e verifiquei que tinha um aspeto
impecável, limpa e bem penteada. Quando me sentei ao
seu lado, olhou-me sem expressão, como se eu fosse
uma completa desconhecida. Alexandra, do outro lado
da mãe, sentou-se também e só então Olga Brites
pareceu dar pela filha. A sua boca abriu-se num
sorriso. Mas não um sorriso qualquer. Os olhos
iluminaram-se e todo o seu rosto se transfigurou
materializando o prazer mais genuíno e a alegria
mais pura. De tal forma que, ao vê-lo, sofri uma
espécie de choque. Apesar de muito doente, Olga
Brites ainda reconhecia a filha. E senti escorrer-me
pela face uma lágrima involuntária.
- Está sempre assim! – disse-me Alexandra –
sorri-me, reconhece-me como amiga, mas já não sabe
que sou sua filha...
Olga vivia agora em completo alheamento. Já não
falava. Às vezes abria a boca mas não emitia nenhum
som. O médico que dava assistência ao Lar
diagnosticara-lhe a doença de Alzheimer, com total
perca de memória e de identidade. Estava de tal modo
diminuída que usava fraldas. Além disso, o seu
sistema neurológico estava afetado. Quando, a meio
da nossa visita, se levantou do sofá, fê-lo com
dificuldade e reparei que colocava os pés no chão de
um modo estranho, o que a fazia coxear.
Permanecemos as três caladas durante algum tempo.
Alexandra mantinha a mão da mãe entre as suas.
Todavia, fazia-o com desprendimento. Por fim, chegou
a hora do lanche e despedimo-nos. Quando Alexandra a
beijou, Olga abriu a boca e fitou-a. Nos seus olhos
havia todo o amor do mundo. Parecia querer dizer
qualquer coisa. Mas nada disse.
A esta visita ao Lar de São Vicente, seguir-se-iam
outras. Alexandra ia lá uma vez por mês (não tinha
disponibilidade para mais) à hora das visitas e, às
vezes, eu acompanhava-a. Subíamos a íngreme
escadaria de madeira arrastando os quatro pacotões
de fraldas – as necessárias para um mês – que
Alexandra adquiria numa farmácia próxima.
Permanecíamos então cerca de uma hora ao pé de Olga,
cujo estado se mantinha estacionário.
Acabei por conhecer muito bem o Lar de São Vicente e
as suas utentes. Tal como o prédio, também o Lar, no
seu interior, necessitava de obras. Com um pé
direito avantajado, habitual nos bons imóveis
construídos nos anos vinte, exibia umas paredes
manchadas, com rachas e buracos. Nas divisões
principais os tetos eram ornamentados, belíssimos,
todavia com falhas no estuque esculpido. Nalguns
locais estas eram tão fundas que deixavam entrever
pedaços de ferro enferrujado da estrutura de
alvenaria.
No entanto, apesar da decrepitude, o Lar era
acolhedor. Transmitia uma singular sensação de
consonância com a decadência que albergava no seu
seio. Havia uma reconfortante harmonia no conjunto,
impossível de encontrar nos lares modernos e bem
apetrechados, iluminados por meio de lâmpadas
fluorescentes e impregnados do cheiro acre dos
desinfetantes, onde a cruel realidade da morte
parece espreitar em cada canto. Ali, os cortinados
pesados e desbotados, os sofás de veludo puído, as
velhas mesas e cadeiras de madeira escura, e as
camas e divãs desirmanados, davam a ideia de membros
de um clã que, outrora espalhados pelo mundo,
houvessem decidido viver em doce comunhão familiar.
Claro que testemunhar a decadência de seres humanos
é algo de terrível, a que nem a constante repetição
consegue atenuar o horror. No entanto, no Lar de São
Vicente, vivia-se uma ambiência de tal forma
hospitaleira, que aquele grupo de velhinhas me
surgiam como beneficiárias de uma proteção especial
contra as agruras do mundo exterior, ao invés de
simples condenadas à espera da contagem decrescente
para a morte.
O Lar era dirigido por uma senhora ainda nova,
experiente e organizada. O asseio era evidente,
tanto nas utentes como nas instalações. As
empregadas trabalhavam por turnos e havia uma
cozinheira a tempo inteiro. Por outro lado, as
comodidades essenciais estavam garantidas. Ao lado
da cozinha, ficava um pequeno corredor secundário
que dava acesso a meia dúzia de pequenas e modernas
casas de banho, sempre meticulosamente limpas.
Quanto às salas de estar, em número de três, tinham
todas televisão.
Viviam ali cerca de vinte senhoras de idade. Algumas
teriam mais de oitenta anos. Muitas tinham
dificuldade em andar, de forma que nunca saíam à
rua, para o que contribuía decisivamente o facto do
prédio não ter elevador. No entanto, ainda havia
quem tivesse energia suficiente para descer e subir
a cansativa escada, ir às compras e dar passeios
pelas imediações. Quanto às utentes acamadas (pois
também as havia), estavam reunidas no quarto maior,
conhecido por “enfermaria”, embora nada tivesse de
hospitalar.
Olga dormia num quarto interior com mais duas
senhoras. A divisão estava dotada de três estreitas
camas de ferro e de um único armário. Por cima deste
viam-se empilhadas algumas malas de viagem, que
decerto haviam servido para trazer a roupa das
utentes naquela sua viagem sem retorno.
Alexandra aguentava o seu calvário com uma estoica
serenidade. Ao fim de alguns meses, reconheceu a
impossibilidade da mãe algum dia vir a voltar para
casa, de forma que entregou o apartamento de Benfica
ao senhorio. Para tanto, arcou sozinha com o
doloroso e cansativo trabalho de se desfazer de todo
o seu recheio. Por outro lado, desde que a mãe dera
entrada no Lar, nunca mais poupara um tostão. Porém,
somente de quando em quando deixava escapar um
lamento acerca da sua triste sina:
- Eu tinha um sonho, um único sonho!... Mas há
pessoas que nascem com uma sorte negra…
- Deixou de procurar casa? – perguntei, pois sabia
que, durante muito tempo, a busca da casa ideal
constituíra uma das principais distrações de
Alexandra. Todavia, a sua resposta surpreendeu-me:
- Continuo a procurar. Afinal, por ver não se paga
nada. E, quem sabe, um dia posso ganhar o totoloto…
- Sim, enquanto há vida há esperança…
- Não é bem isso – respondeu Alexandra com amargura
– é que toda a gente precisa de alguma coisa para se
manter viva.
Por coincidência, poucas semanas depois desta
conversa, Alexandra telefonou-me avisando que ia
visitar a mãe. E, enquanto nos dirigíamos para o
Largo de Santos, a certa altura, disse-me:
- Lembra-se da nossa conversa de aqui há uns
tempos?... Pois imagine que encontrei a casa ideal…
- Ah sim?...
- Sim – retorquiu – tem tudo o que sempre sonhei.
Com a vantagem de que ainda está em princípio de
construção. Só fica pronta daqui a dois anos. De
forma que as condições de pagamento são bastante
suaves.
Enquanto dizia isto, abriu a carteira e retirou de
lá um papel dobrado que me estendeu. Abriu-o. Era a
planta de uma casa. Melhor dizendo, de um magnífico
apartamento, amplo e bem dividido. Alexandra,
apontando para a planta, começou a explicar-me todos
os detalhes. Eu nunca a vira tão entusiasmada. A tal
ponto que pensei que já se decidira pela compra. E
não resisti a responder:
- Está a ver, Alexandra?... Demorou mas encontrou
aquilo que queria. Vai finalmente concretizar o seu
sonho! Afinal o diabo não está sempre atrás da
porta…
Mas, ao ouvir isto, a alegria murchou no seu rosto e
o seu olhar endureceu:
- Que é que está para aí a dizer?... Eu não vou
comprar a casa. Antes fosse! Mas infelizmente é
impossível. Já fiz e refiz as contas centenas de
vezes…
Subimos até ao Lar. Durante a visita, Alexandra
continuou a falar nas inúmeras qualidades da casa
dos seus sonhos e na sua desdita por não poder
adquiri-la. Como era seu hábito, manteve a mão de
Olga entre as suas, mas pouco se concentrou na mãe.
Esta, em contrapartida, olhava-a fixamente. Talvez
estranhasse ver a filha tão faladora. O seu olhar
benigno não abandonava Alexandra, como se estivesse
a beber as suas palavras. Claro que não acompanhava
a conversa. No entanto, a sua expressão habitual de
dulcíssima alegria foi, a pouco e pouco, sendo
substituída por um ricto de espanto e consternação.
E, quando Alexandra fez menção de se retirar, Olga
saiu da apatia e teve um gesto nunca visto, único,
incompreensível – em silêncio, levou a mão da filha
à boca e depositou-lhe um beijo.
Nesse dia, saí do Lar de São Vicente um pouco
perturbada. A vida era injusta. Deus era injusto.
Nada fazia sentido. Para quê manter Olga Brites
viva, naquele estado?... E para quê sujeitar
Alexandra a tanta privação?... E senti-me
contrafeita, como se fosse a espectadora de uma
longa tragédia sem beleza, consubstanciada numa
trama sem nexo e representada por atores feios e mal
ensaiados. Porém, estava muito longe de imaginar que
era a penúltima vez que via Olga Brites.
Com efeito, menos de um mês depois, Alexandra
telefonou-me comunicando-me que a mãe estava muito
mal. Encontrei-me com ela ao pé do Lar e rapidamente
fui posta ao corrente. Havia umas duas semanas, Olga
Brites começara a perder sangue. Disso davam sinais
evidentes todas as fraldas que lhe eram retiradas. A
diretora do Lar avisara Alexandra que contratara uma
ambulância e levara a mãe a uma consulta da
especialidade. E o diagnóstico fora taxativo.
Carcinoma inoperável. E tratável apenas com
paliativos. Tempo de vida? Imprevisível, mas pouco.
Talvez muito pouco.
Subimos as escadas do Lar arrostando com os pacotes
de fraldas e, pela primeira vez, entrei na
enfermaria sem ser por curiosidade. Olga estava
deitada numa estreita cama, a um canto do aposento.
Fazia calor e o seu corpo, tapado apenas por um fino
lençol, parecia extremamente magro. Os olhos estavam
entreabertos e fitavam o teto. Habitualmente fria,
Alexandra segurou-lhe na mão descoberta e desfez-se
em lágrimas. Olga volveu os olhos para a filha e
esboçou um sorriso ténue. Depois olhou para mim com
uns olhos que me pareceram enormes. Afastei-me um
pouco, a fim de deixar mãe e filha a sós. No
entanto, vi ainda Olga erguer ligeiramente a mão que
Alexandra apertava, enquanto dos seus olhos brotava
uma lágrima, grossa, redonda, que lhe escorreu pela
têmpora e desapareceu no meio dos cabelos.
Alexandra permaneceu junto da mãe, de pé, ao lado da
cama, a chorar silenciosamente durante aquilo que me
pareceu uma eternidade. Olga, serena e imóvel, já
não parecia deste mundo. Por fim, Alexandra
inclinou-se e depositou um beijo na testa da mãe que
ficou molhada das lágrimas da filha. Então, de
repente, dita em voz baixa mas perfeitamente
audível, saiu da boca da moribunda uma palavra:
- Casa!...
Alexandra fitou a mãe e, logo a seguir, sofreu um
baque e deixou-se cair sem uma palavra, de joelhos,
ao lado da cama. Impressionada, fechei os olhos.
Quando os abri, Olga fitava o teto e Alexandra
beijava a mão que caía do leito. Só perto de uma
hora depois se levantou e saímos.
Olga Brites faleceu uma semana depois. Durante as
cerimónias fúnebres Alexandra, vestida de negro dos
pés à cabeça, nunca se afastou do féretro. Olga, de
olhos fechados na sua máscara fúnebre, parecia muito
nova e bonita. A morte esticara-lhe a pele, como o
lifting que não chegara a fazer. E, não sei porquê,
veio-me à cabeça James Dean, eternamente Caleb Trask.
Olga não vivera depressa nem morrera jovem. Mas o
corpo que jazia na urna era, sem sombra de dúvida,
um cadáver bonito.
Segui com Alexandra no carro funerário, desde a
Igreja de Benfica até ao forno crematório do
Cemitério do Alto de São João. A cerimónia foi muito
simples. Assim que o caixão entrou no forno as
poucas pessoas – entre as quais algumas utentes do
Lar de São Vicente - começaram a despedir-se. No
final, vi-me só, ao lado de Alexandra. O marido
desta ficara em casa com a filha.
- Paz, amiga, paz! – disse eu, beijando-a.
- Obrigado – respondeu Alexandra simplesmente.
No final, saímos ambas a passo lento do cemitério.
Voltei a ver Alexandra Brites uma semana depois, na
missa do sétimo dia, na Igreja de Benfica. Esperava
encontrá-la mais desanuviada. A vida continua e
havia que reagir. E, bem vistas as coisas, fora
melhor assim. Agora, aliviada do encargo da mãe,
talvez Alexandra já pudesse concretizar o tão
almejado sonho da compra da casa.
Quando a celebração findou, procurei-a no pequeno
adro frontal à Igreja. Estava acompanhada pelo
marido e pela pequena Rita que, por esta altura,
devia já contar uns cinco anos. E continuava a
trajar de negro.
Cumprimentei a família. Atentei no semblante de
Alexandra e pareceu-me pouco tranquilo. Todavia, não
se me deparou qualquer oportunidade para conversar
com ela a sós. Esta só surgiria algumas semanas
depois, na missa do trigésimo dia.
Com efeito, nessa ocasião, o marido de Alexandra não
pôde estar presente. Esperei paciente e
recatadamente que as restantes pessoas que tinham
vindo assistir à celebração dispersassem. Tinha
decido falar a sós com Alexandra.
Quando ela me viu, cumprimentou-me com simpatia.
- Como vai? – perguntei.
- Menos mal – respondeu com uma expressão de mágoa
contida - Sinto um grande vazio interior. Foi uma
grande perda, muito maior do que eu alguma vez
imaginei que pudesse vir a ser!...
- Acredito.
- Sabe, tenho pensado muito em tudo o que aconteceu
e gostava de falar consigo. Mas diga-me, como veio
até aqui?
- De táxi.
- Então deixe-me levá-la a casa.
- Como queira.
Caminhámos até ao local onde Alexandra estacionara o
veículo. Já era de noite e um vento frio
fustigava-nos o rosto. Entrámos no carro e, durante
uns segundos, saboreei o cálido conforto do pequeno
carro de Alexandra. Por delicadeza, não queria ser
eu a iniciar o diálogo. Tinha plena consciência de
que, na minha última ida ao Lar de São Vicente,
assistira a uma cena extraordinária. No entanto,
desconhecia o impacto que esta teria tido em
Alexandra. Por isso, esperei em silêncio.
- Sabe que já comprei a casa? – atirou-me ela, de
súbito.
- Ótimo! Os meus sinceros parabéns!...
Alexandra não respondeu logo. Quando o fez, a sua
voz saiu trémula, embargada.
- No entanto, duvido que consiga ser feliz por lá…
Reparei que duas lágrimas lhe rolavam pela face. E
senti-me contrafeita. A felicidade conquista-se. Há
que lutar por ela!...
- Que disparate, Alexandra! Claro que vai ser feliz
por lá. Era ou não era o seu maior sonho?
- Era.
- Então?...
- Então, agora, parece que perdeu a importância.
Agora… - e hesitou - dava tudo para que a minha mãe
não tivesse morrido daquela maneira...
- Não pense mais nisso. Você não podia ter evitado
nada do que aconteceu.
- Também, você?... Isso é o que o meu marido me diz.
- E tem razão.
Alexandra abanou a cabeça.
- Não sei, não. Olhe, durante anos detestei a minha
mãe. Ou melhor, detestei a sua maneira de estar na
vida, a sua infelicidade e o seu espírito derrotado.
Achava que tudo o que ela me ensinara, o seu
desprendimento e a sua resignação, mais não eram que
patranhas lamechas sem qualquer grandeza espiritual.
Mas agora…
- Agora… - repeti, encorajando-a a prosseguir.
- Bem, agora tenho refletido sobre a doença que a
matou, a rapidez do desenlace e reconheço que a
minha mãe me deu uma grande lição. A maior de todas.
Estou certa de que ela morreu desta maneira rápida,
quase precipitada, porque me quis facilitar a compra
da casa…
Eu ia protestar com veemência, mas a recordação de
Olga moribunda impediu-me o fazer. E Alexandra, como
se falasse apenas para si mesma, continuou:
- A morte tocou-a no berço da vida, onde eu fui
gerada. E eu hoje sinto-me tocada também. Apesar da
sua demência, estou ciente de que a minha mãe
percebeu o meu desespero e se ofereceu em holocausto
para me facilitar a vida. E é essa certeza que agora
me perturba.
A conversa estava a tomar um rumo estranho. A voz de
Alexandra soava irreal, misteriosa, amotinada, e eu
senti-me contagiada pela sua inquietação. Por isso,
tentei reagir o mais racionalmente possível:
- Alexandra, a sua mãe estava muito doente. Claro
que a amava muito, No entanto, não lhe teria sido
possível demonstrar-lhe o seu amor dessa maneira. O
que você ouviu e eu também ouvi, foi apenas uma
palavra, mais nada. Uma palavra que ela escutou da
sua boca repetidas vezes. E, talvez por isso, a
tenha reproduzido. Como é que ela poderia ter
provocado em si própria aquele mal terrível?... Ela
devia sofrer da doença há anos…
Mas Alexandra abanou a cabeça.
- Não sabemos. E o facto dela estar demente, privada
de todo o raciocínio, também nada representa.
Através do seu instinto de mãe, ela soube que a
única coisa que podia fazer por mim era morrer. E
morreu.
E calou-se durante uns segundos, como se precisasse
de fôlego,
- A natureza é muito estranha – exclamou por fim –
há espécies onde a reprodução está intimamente
ligada à morte, como se as duas fossem as faces de
uma mesma realidade. Sabe que a fêmea do
louva-a-deus devora o macho a seguir à cópula? E ele
nem tenta fugir. Submete-se ao seu destino como se
obedecesse a uma ordem inexorável…
Fitei Alexandra com estranheza:
- Não, não sabia. Mas não vejo a relação…
- Oh, foi apenas um exemplo. E nem sequer
apropriado, concordo. Contudo, o que mais me
impressiona é o caso dos salmões. Nadam milhares de
quilómetros até encontrarem a foz do rio onde
nasceram e depois sobem-no contra a corrente, num
esforço tremendo, para desovarem. Há muitos que não
aguentam a viagem e tombam pelo caminho. Todavia,
aos que aguentam, o prémio que os espera é a morte.
Não tem lógica. E, no entanto, eles não deixam de o
fazer…
Não respondi. Uma súbita angústia alojara-se-me na
garganta. Tinha compreendido.
Adelina Velho da Palma |