Sebo - Adelina Velho da Palma-SONETOS

SEBO LITERÁRIO

SONETOS LÍRICOS

autor

Adelina Velho da Palma

 

página 2

 

 

 

 

A MISSA


Aqui estou, Senhor, diante de Ti,
unida a meus irmãos na oração,
carrego em mim a dor e a paixão
do que não tive, ou tive e já perdi!...

Eu acredito, Senhor, que estás aqui
presente nesta estranha vibração,
lágrimas de abandono e comoção
brotam das emoções que reprimi!...

Abençoa-me, Pai, uma vez mais,
despoja-me de falsos ideais,
apazigua-me, recebe-me em Ti!...

O milagre faz-se por Tua mão:
a paz, a esperança e o perdão
levo-os comigo, quando saio daqui!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

O ESTRANHO


Habitas na mesma casa que eu
actuas como se fosses sozinho,
qualquer simples colega ou vizinho
é mais amável, me dá mais de seu!...

Sentas-te à mesma mesa que eu
mas não partilhas do meu pão e vinho,
acautelas só o que é teu, mesquinho,
como se se tratasse dum troféu!

Deitas-te na mesma cama que eu
mas nunca tens um gesto de carinho
que dissipe esta escuridão de breu!...

O nosso lar é o mais estranho ninho:
mantém-se intocável o himeneu
mas cada um percorre o seu caminho!


Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

DESENCONTRO


Foi preciso viver esta saudade
esta ausência que ora me acompanha
p’ra perceber que eras tu a entranha
donde provinha a minha identidade!...

Foi mister encarar fatalidade
atravessar o deserto em campanha
submergir-me numa sede tamanha
p’ra sentir a tua necessidade!...

Foi preciso conquanto acompanhada
encontrar-me de vazio rodeada
p’ra ver ao longe uma luz a brilhar...

Foi preciso perder-te para ter-te
foi preciso sofrer para entender-te
foi preciso morrer para te amar!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

ANULAÇÃO

Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!.
..

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

A EXTRAVAGÂNCIA


Gosto de ti - mas quero-te à distância
Fora do Tempo e Espaço que me assiste
Na dimensão em que o amor resiste
E tudo o resto não tem importância...

Gosto de ti - mas noutra circunstância
Alheia a toda a memória triste
Onde as feridas dos golpes que desferiste
Cicatrizaram em primeira instância...

Gosto de ti - num limbo sem substância
Como ideia com lastro que persiste
De um sonho acalentado na infância...

Amo-te - mas meu amor destruíste
Por isso agora eu vivo a extravagância
De um sentimento amar que não existe!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

RECORDAÇÃO


Deixei-te no Alto de São João
ao pôr-do-sol de um dia dourado
teu corpo com a terra misturado
sem flores, sem lápide, sem caixão...

Ficaste no Alto de São João
por período indeterminado
em toda a parte e em nenhum lado
mais referência que dimensão...

Dia após dia, o peito macerado
pela dor da tua recordação,
vejo crescer o teu significado...

O mundo é o Alto de São João
e cada breve instante terminado
aproxima-te da ressurreição!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

O QUE TE DIGO


Aquilo que mais quero não te digo,
daquilo que me atinge não te falo,
tudo aquilo que vejo e assinalo
é-me impossível partilhar contigo...

Daquilo que me é caro te desligo,
com o que me diverte te apunhalo,
com todos os meus sonhos me encurralo
num distante e silencioso abrigo...

Porém, se ouso sair pelo gargalo,
arremetes, qual feroz inimigo,
contra o meu assustadiço cavalo...

Por isso na solidão me empertigo:
a minha vida é um “vejo, oiço e calo”
em permanente alerta de perigo...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

ESTA DOR


Dói-me esta dor que dói tão dolorida,
dói-me esta dor que dói atormentada,
feita de dor somente, amargurada,
como uma dor de muita dor sentida...

É uma dor só de dor preenchida,
é uma dor só com dor misturada,
plena de dor e cheia de mais nada
a não ser a própria dor assumida...

Uma tal dor é permanente ferida
que a mesma dor retalha magoada
p’ra conservar a dor bem padecida...

É uma dor que quero bem guardada...
Apesar de me destroçar a vida
só por ela permaneço acordada!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

O MEDO


Chegou enfim o tempo de ter medo
de atentar no uivo do coiote
de sentir o abraço do garrote
que sufoca suave e em segredo…

Chegou-me enfim à boca o gosto azedo
sem aviso sem padrão e sem mote
que paralisa a língua e a glote
mas não me deixa fugir ao enredo…

Chegou ao fim o tácito boicote
em que o tempo se sobrepunha ao medo
porque a vida rodava num virote…

Agora é o tempo que faz o medo
tão fino como a ponta dum chicote
tão aniquilador como um torpedo!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

MAR VERMELHO


Por teu amor de alto a baixo me abri
Mar Vermelho ante a vara de Moisés
e despojada assim de lés a lés
teu corpo e alma nos meus acolhi…

O que era meu em risos te ofereci
meu próprio sangue depus a teus pés
e na ânsia de ser como tu és
de quem eu era quase me esqueci…

Vieram ondas, ventos, tempestades…
Por este amor as forças exauri
à mercê das maiores calamidades…

Por fim o tufão amainou por si…
Ficaste nos escombros, sem vaidades…
Julguei-me morta e… sobrevivi!...

Adelina Velho da Palma

 

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