Sebo - Semira Adler Vainsencher-ALGODÃO

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SEBO LITERÁRIO

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O primeiro artesão foi Deus, que, depois de criar o mundo todo, pegou o barro e fez Adão
(artesão anônimo da Paraíba)
 

Pode-se dizer que a arte é uma das manifestações mais antigas do ser humano, tendo sua origem na era paleolítica (12.000 a.C.), quando o homem primitivo vivia em bandos nômades, dependendo da caça e da coleta de alimentos para sobreviver.
O homem de Pequim e o de Neandertal, por exemplo, já sabiam pintar e fabricar instrumentos em pedra, osso e madeira. A prova disso, são as pinturas nas paredes das grutas e cavernas da França e da Espanha (Lascoux, Niaux, Altamira, entre outras), evidenciando figuras representativas da fauna daquela época (mamutes, bisões, cavalos e renas).
No período neolítico (6.000 a.C.), o homem elaborou os primeiros objetos artesanais: aprendeu a polir a pedra, a fabricar peças de cerâmica, a tecer com fibras vegetais e pelos de animais, e a cozer os alimentos. No Brasil, pesquisas comprovaram, também, a presença de indústria lítica e a fabricação de cerâmicas, junto a etnias que viveram no sudeste do Piauí, durante aquele período.
Por sua vez, a arte tem estado presente na vida dos povos primitivos, em toda as partes do mundo. Ela se materializa, ainda, em cada objeto produzido pelos índios: utensílios de barro, instrumentos musicais, adornos de plumas, cestos, pinturas, ou colares fabricados com dentes e/ou ossos de animais.
Na Europa, só a partir do século XI, a produção artesanal ficou concentrada em oficinas, onde os aprendizes auxiliavam o mestre artesão e, este último, representava o detentor de todo o conhecimento técnico. Do ponto de vista histórico, o artesão é considerado como responsável pelo processo de seleção da matéria prima a ser utilizada, pela concepção do produto, e pela transformação da matéria prima em alguma produção finalizada. No Brasil, durante o século XVI, com a chegada de artistas e artesãos portugueses, os produtos artesanais deixaram de ser, apenas, expressões de manifestações artísticas, e adquiriram status profissionalizantes.
Pela primeira vez, em 1926, foi utilizada a expressão arte popular. O pesquisador japonês Soetsu Yanagi criou o termo mingei (min= povo; gei = arte), para designar os trabalhos elaborados por artistas populares desconhecidos, que tinham, em comum, a simplicidade e um estado de espírito desengajado da idéia de feiúra, ou de beleza.
No presente, como artesanato, estudiosos designam qualquer objeto comercializável, fruto de um trabalho, predominantemente, manual, elaborado com a ajuda de ferramentas simples, ou de máquinas rudimentares, que se baseia em temática popular, e utiliza matéria prima local ou regional. Neste sentido, para que possa ser inserido na categoria artesanato, o objeto necessita, também: a) ser produzido na casa do próprio artesão, ou em alguma cooperativa de artesãos; b) englobar um número reduzido de peças; c) ser proveniente de concepção e execução individual, familiar ou grupal; e d) ter sido elaborado sob regime de não assalariamento.
 O II Encontro Nacional do Artesanato definiu artesão como sendo aquela pessoa que: 1) produz objetos, manualmente; 2) não utiliza moldes repetitivos; 3) usa ferramentas simples, ou máquinas não automatizadas; 4) usa matéria prima regional; 5) transmite aspectos da cultura regional; e 6) exprime originalidades étnica e geográfica.
Remanescente do processo pré-industrial de produção, a fabricação artesanal consiste em um sistema de produção que se situa entre a arte popular e a pequena indústria. Esse sistema está subordinado ao meio ambiente, ou seja, à abundância de determinada matéria prima local, e funciona como uma alternativa de emprego e renda, firmada na tradição. Assim, os indivíduos produzem determinados objetos, de certas formas, porque seus pais e avós os faziam. A característica de artesanal, então, não recai sobre o produto, mas, sobre o sistema específico através do qual o produto é elaborado, vinculando-se à necessidade que o ser humano possui de individualização, de não padronização, em um mundo que se apresenta cada vez mais massificado. E a confecção de objetos, por meio de técnicas primitivas, foi atrelada a uma temática relativamente nova: a do folclore. Por ser muito extenso e ter sofrido a influência de vários povos, o Brasil tem uma produção artesanal bastante diversificada, que varia, ainda, de região para região. Os nordestinos, particularmente, utilizam uma série de materiais oriundos da fora e da fauna nativas, a exemplo de: palhas (de bananeira, de brejauva, de milho); juta; fibras do tronco do mandioqueiro; fibras de taboa; fios da folhas da piteira; cipós de bambu, cipós de taquara, cipós caboclo, cipós imbé, cipós uma, fechas de ubá; bambus; buchas; ceras de abelha-cachorro ou abelha- Europa; sementes de plantas nativas (tais como a lágrima de Nossa Senhora); vime (vara tenra e flexível do vimeiro); areias coloridas; tintas de cascas de árvores (urucum, safroa, anil do mato, aroeira, murici, embiruçu); pedras; conchas; argila; gesso; cascas de coco; chifres; couros; tecidos; penas; linhas; madeiras (cedro, vinhático, jaqueira, aroeira, peroba, jequitibá e canela); ossos; dentes e pelos de animais; folhas de Flandres; cascas de tartarugas; e sucatas diversas (garrafas PET e suas tampas, latas de alumínio, embalagens Tetra Pak, lacres de latas de alumínio de bebidas, e outros). Cada material, ou grupo de materiais, dá origem a um tipo ou variedade de produto artesanal.
Cabe salientar que a tradição barrista dos índios, juntamente com a incorporação das experiências trazidas pelos europeus e africanos, contribuíram para o desenvolvimento do artesanato de barro (argila). Neste, costuma-se empregar alguns elementos encontrados no meio ambiente: o massapé (de cor preta), o tauá (de cor amarela) e o caulim (de cor branca). Eles são passíveis de formar ligas maleáveis, e seguros para sofrer a ação da queima. Os produtos artesanais variam, também, segundo a presença e/ou a abundância dos materiais presentes no meio ambiente. As tribos indígenas do Maranhão, em particular, elaboram objetos com palhas, madeiras e penas de pássaros. Nesse Estado, são elaborados, ainda: doces de frutas nativas, sucos diversos (de murici, bacuri, açaí e buriti), cerâmicas figurativas (no Vale do Parnaíba), cerâmicas utilitárias (em Apiaí), rendas de almofadas (em Guimarães, São Luís, Humberto de Campos e Praia do Raposo), cestarias (em Barreirinhas), tecelagens e redes de dormir (em Barreirinhas, Alcântara, Pinheiros e São Bento).
A Região Nordeste produz os seguintes tipos de rendas: de bilros, labirinto, crochê, irlandesa, renascença e filé. E os bordados mais comuns são: ponto de cruz, rococó, richelieu, labirinto, ponto cheio e redendê. Seguindo uma tradição que remonta aos tempos coloniais, as noivas continuam encomendando rendas e peças bordadas para enxovais e, os padres, utilizam as rendas em seus paramentos. Nos municípios de Marechal Deodoro e Pontal da Barra, em Alagoas, as mulheres fazem bordados em linho branco. Já em Caldas de Cipó e Tucano, é possível se apreciar a confecção de rendas (de bilros, labirintos e filés), bem como a tecelagem ornamental.
Em Palmeira dos Índios, Porto Real do Colégio, Água Branca e Igreja Nova fabricam-se peças de barro: potes e jarras pintadas com tauá vermelho e branco, e moringas, em formatos antropomórficos. Os municípios de Tanque d’Arca, Penedo e Passo de Camaragibe  produzem muitas peças de cerâmica.
Os artefatos de pesca são fabricados, particularmente, em Coqueiro Seco, Marechal Deodoro, Santa Luzia do Norte e Paripureira. Dentre eles, estão vários tipos de redes de pesca, jererés e puçás, para a pesca de crustáceos e peixes pequenos. Igaci e Lagoa do Félix produzem alguns instrumentos musicais (como o bombo e a zabumba). Em teares bastante rudimentares, Delmiro Gouveia fabrica redes de algodão e, Girau do Ponciano, redes com caroá. Em São Sebastião, encontram-se rendas de bilros e, em Maceió, tecelagens em labirinto. A renda denominada filé é produzida em Pontal da Barra e Marechal Deodoro. Na Ilha do Ferro, situada a dezoito quilômetros do município de Pão de Açúcar, a atividade principal das mulheres é o bordado boa noite, o único no Brasil.
Em Catolé do Rocha, na Paraíba, os artesãos produzem batique - uma pintura à base de tintas e cera de abelhas - além de uma variedade de redes e rendas.
Com uma argila que já vem vitrificada por natureza, São Mamede fabrica uma cerâmica especial. O artesanato de barro, do tipo lúdico (pequenos objetos, bois, cavalos, elefantes, bonecos e mobiliários infantis), pode ser encontrado em Patos. Vários brinquedos de qualidade - confeccionados com madeiras, latas e/ou sobras de materiais - são fabricados em Itabaiana. Os municípios de Juarez Távora e Juripiranga produzem cestarias, trançados e tecelagens (crivos, labirintos e rendas). Os trançados podem ser apreciados, também, em Salgado e Serra Redonda.


No Estado do Piauí (nos municípios Pedro II, Simplício, Mendes, Parnaíba, Oeiras, Floriano e Teresina) estão localizados os grandes centros produtores de cerâmicas decorativas, produtores de moringas, potes, pratos e panelas. Em Campo Maior e Piracuruca, são confeccionados objetos com fibras de buriti, tucum, carnaúba e agave. Cestarias e trançados encontram-se em Parnaíba, o maior centro produtor.
Pedro II é o centro mais expressivo de tecelagem artesanal.
Às margens do rio Parnaíba, encontra-se uma variedade de artesanatos feitos com palha de coco babaçu. Os troncos de carnaubeiras são trabalhados para servir de bancos, ou depósitos de mantimentos. Ainda são fabricadas esteiras de folhas de carnaúba e de babaçu que, em casas humildes, funcionam como divisórias entre os cômodos. Outros municípios do Piauí produzem objetos em madeira: gamelas, pilões, colheres de pau, santos e anjos. Teresina, Picos e Campo Maior fabricam malas, arreios, roupas de vaqueiro, e outros artigos em couro. No Estado, encontram-se, ainda, tecidos confeccionados com fibras vegetais, rendas labirinto, bordados, crochês, colchas, tapetes e toalhas.
Em Sergipe, o município de Neópolis representa o grande centro produtor de cerâmica, mais conhecida como cerâmica de carrapicho, onde os objetos evidenciam seus fundos, pintados com tinta preta e frisos finos, com desenhos de espinhas de peixes, contornos de aves e asas de passarinhos. Itabaianinha fabrica cerâmica, além de trançados e cestarias (em palhas de coco); e, em Divina Pastora, as mulheres produzem renda irlandesa.
Cascavel, no Ceará, é o maior centro produtor de cerâmica, mas, outros municípios do Estado, a exemplo de Juazeiro do Norte e Sobral, também fabricam objetos em barro, tais como imagens de Padre Cícero e bois (pintados com fores). Em Fortaleza, Cascavel, São Mamede, Maranguape, Quixeramobim, Camocim e Aracati são fabricados chapéus, rendas e bolsas. Caicó produz trabalhos em couro: cartucheiras, selas, chapéus e chicotes, entre outros. Limoeiro, Russas, Ipu, Aracati, Itaiçaba e Jaguarana fabricam cestarias e trançados. Em Sobral, são elaborados chapéus com palha de carnaúba. Fortaleza, Araçoiaba, Pacajus e Capistrano produzem tecelagens diversas. Em Juazeiro do Norte, podem ser adquiridos artefatos em couro, em metal e em ourivesaria. O município de Itarema, no litoral cearense, cuja população é descendente dos índios Tremembé, é um dos poucos lugares do Nordeste que não vivenciou o impacto do turismo. Lá, em pequena escala, pode-se apreciar a produção de redes de fibras, feitas por teares verticais bastante rudimentares.
Com trançados de cipós e palhas, os mestres artesãos, do Rio Grande do Norte, fabricam bolsas, vassouras, esteiras, abanos e cestas. Eles utilizam, também, areias coloridas para elaborar desenhos em vidros e garrafas. O município de Santo Antônio dos Barreiros produz cerâmica decorativa (galos policromados); Mossoró e Nísia Floresta fabricam rendas e cerâmica utilitária; Caicó produz artigos em couro; em Luzia, Ana Dantas e Currais Novos são esculpidas, em madeira, figuras de santos e de animais; e, com esse mesmo material, entre outros objetos, são fabricados bandas de pífano em Júlio Cassiano e Jardim do Seridó.
O Estado da Bahia é grande produtor, também, de artesanatos em madeiras, palhas e prata. O município de Maragogipinho fabrica cerâmica (vitrificada em seu interior) com barro amarelo. Rendas de almofadas são confeccionadas em Castro Alves e Santa Terezinha; trabalhos em couro, em Ipirá; peças utilitárias (na forma de miniaturas) em Nazaré das Farinhas; redes de pesca em Xique-Xique; colchas de algodão e de seda, e espanadores de sisal, em Caldas de Cipó e Tucano; Itiúba fabrica chapéus com fibras, vários objetos com palhas de uricuri e ariri, e bolsas de sisal. Na região do Médio São Francisco, são fabricados cestarias e trançados. Porto Seguro produz pilões, colheres de pau e, na Barra, são elaborados caminhões, jipes e carros de bois (em madeira de buriti) além de bonecas de pano.
É importante lembrar que, no Mercado Modelo, em Salvador, são comercializados muitos produtos, tais como: talhas, estátuas, berimbaus, santos, terços, instrumentos de percussão, pilões, frutas decorativas, pratos, colheres de pau; e uma série de artefatos de metal - facas, sinetas, chocalhos, esporas, castiçais, campainhas, punhais e brasões.
Pernambuco possui uma grande produção artesanal. Na Casa da Cultura (antiga Casa de Detenção do Recife) situada no Centro da Capital, e no Mercado da Ribeira, em Olinda, são colocados à venda parcela expressiva daquela produção. Viajando em direção às praias do litoral Norte, encontra-se a famosa tapeçaria Casa Caiada, famosa até no exterior do país, que é elaborada por mulheres artesãs. Como a arte de fazer rendas, essa representa, também, uma atividade feminina. Ainda na direção norte, encontra-se o município de Goiana, um centro produtor de cerâmica e, em especial, de esculturas sacras. Tais esculturas são fabricadas com mais de um metro e meio de altura, ou seja, em tamanho natural.
O município de Tracunhaém, na Zona da Mata do Estado, situado a cinquenta e oito quilômetros do Recife, é um dos maiores centros produtores de cerâmica. Ali, as casas funcionam como ateliers e os moradores vivem, textualmente, com “as mãos na massa”, moldando e esculpindo uma grande variedade de objetos.
Ibimirim, no sertão do Moxotó, localizado a trezentos e oitenta quilômetros da Capital, produz imagens sacras com troncos de umburana; e em Passira - município situado a cento e nove quilômetros do Recife - são fabricados célebres bordados.
Localizado no agreste pernambucano, Caruaru produz uma grande variedade de bonecos de barro, cuja fama e divulgação se deve ao Mestre Vitalino. No Alto do Moura, é possível se visitar a casa onde morou e trabalhou esse famoso artesão. A cidade produz, também, uma série de artefatos em cerâmica, palhas e madeiras. Todas as terças-feiras, na tradicional Feira de Caruaru (imortalizada na música do compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga), são colocados à venda os produtos artesanais, assim como objetos em zinco e couro - trajes típicos de vaqueiro, luvas, bolsas, cintos, sandálias, e bainhas para facas de todos os tamanhos, entre outros. Nos arredores do distrito de Fazenda Nova, em pleno Agreste, situado no município de Brejo da Madre Deus, pode-se apreciar o Parque das Esculturas: um conjunto de esculturas, em rocha granito, elaboradas por artesãos locais, que pesam entre dez e vinte toneladas, cada uma delas.
A xilogravura foi, possivelmente, introduzida por missionários portugueses, que ensinaram aos índios essa técnica. As gravuras em madeira têm sido muito utilizadas nas capas dos folhetos de literatura de cordel, desde o século XIX, bem como em rótulos de garrafas de cachaça e outros produtos. O município de Bezerros, próximo a Caruaru, destaca-se pelas xilogravuras dos irmãos Jota Borges e Amaro Francisco (este, já falecido), e de Severino Borges, entre outros.


Cabe explicar o processo de elaboração da xilogravura. A gravura é entalhada em uma madeira, mediante o uso de um canivete ou uma faca bem amolados; em seguida, é aplicada uma tinta de impressão sobre o molde e, por fim, o desenho é impresso sobre um tecido ou cartolina. Às margens da 40BR-232 e abertos à visitação pública, estão situados o Centro de Artesanato e o Memorial Jota Borges, que funcionam como centros de referência dessa arte tão popular no Estado.
Pesqueira fabrica belíssimas peças com renda renascença (blusas, vestidos, toalhas e centros de mesa, colchas de cama, panos de bandeja, entre outros), diversos tipos de bordados e doces deliciosos (de goiaba e de banana). Timbaúba e Taracatu produzem redes. Na Ilha de Itamaracá, situada no litoral Norte do Estado, é produzido um excelente artesanato com chifres de boi - anéis, barcos, figas, animais, pássaros, navios, peixes, e outros -, bem como cestarias e trançados com fibras e palhas, e objetos em pedras e conchas.
O trabalho artesanal, no Nordeste, é uma atividade de intensa ocupação de mão de obra. A cadeia de atravessadores, porém, que se estende do produtor até o cliente, contribui para diluir, também, o pequeno lucro do artesão. Neste sentido, o criador de “riquezas culturais” é o menos rico, aquele que menos usufrui da renda advinda de sua produção. Para tal situação ser revertida, e a produção artesanal poder beneficiar mais os artesãos, ela necessita se transformar em uma atividade de mercado e deixar de ser, apenas, a precária atividade de subsistência que, hoje, é.

 

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