
No século XVI, o
Nordeste brasileiro passou a fazer parte das rotas do
comércio internacional, devido ao fato de ser um grande
produtor de Pau-Brasil e de açúcar, mercadorias altamente
valorizadas na época. Sendo assim, os navegadores
holandeses começaram a navegar, também, pelas costas
brasileiras, como atores importantes daquele comércio. Já no
século XVII, dois centros urbanos, em particular, atraíam a
atenção: Salvador, na Bahia, e Olinda, em Pernambuco.
A primeira tentativa da Holanda, para
conquistar as novas terras, contou com a participação de
Piet Hein, e consistiu na ocupação da Bahia, por um ano, em
1624.
A seguir, o mesmo holandês voltou a atacar Salvador, mas,
se limitou a apreender vários navios carregados com os
produtos daqui. Em 1630, a conquista de Olinda resultou em
uma posterior e mais bem organizada campanha. A cidade
representava a Capital da florescente Capitania de
Pernambuco, uma região rica em Pau-Brasil, e o principal
centro produtor de açúcar do mundo, além de ser o maior
centro comercial, religioso e artístico do Nordeste do
Brasil. Cabe registrar que a madeira do Pau-Brasil, até
hoje, é utilizada na fabricação de arcos para violinos, com
o nome Pernambuco.
Até 1637, em toda a região, as escaramuças e atividades de
guerrilha conseguiram impedir os movimentos dos holandeses.
Nesse ano, porém, algo muito importante aconteceu: a
Companhia das Índias Ocidentais (CIO) designou o conde João
Maurício de Nassau-Siegen (1604 - 1679), um homem possuidor
de grande capacidade militar e visão empreendedora, como
Governador dos seguintes territórios conquistados: Paraíba,
Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Sergipe, além de
Angola, na África, de onde saíam os escravos para trabalhar
nas plantações de cana-de-açúcar.
Dessa forma, o Brasil viveria, durante quase três décadas
(1630-1654), um período de dominação, por parte da Companhia
das Índias Ocidentais (CIO). Tal experiência deixou marcas
duradouras no país, em particular, no Nordeste, tendo-se
constituído em seu melhor momento - o período do conde
Maurício de Nassau, denominado Maurits de Braziliaan-
e em uma das experiências mais bem sucedidas da atuação
europeia.
Os sete anos do Governo de Nassau (1637-1644) deixaram a
memória de uma época de ouro, até hoje reconhecida no
Brasil. Nassau estabeleceu uma trégua com a guerrilha dos
luso-brasileiros, e criou uma civilização inédita nos
Trópicos. Contrapondo-se aos interesses, exclusivamente,
mercantilistas da CIO, o conde holandês preocupou-se em
manter uma convivência pacífica com os habitantes locais -
inclusive e sobretudo, com os senhores de engenho – e
estabeleceu uma liberdade religiosa nunca antes vivenciada,
na qual os papistas, os calvinistas e os judeus conviviam e
produziam em plena harmonia. Foi, sem dúvida alguma, o maior
contraste em relação à intolerância religiosa da Inquisição,
por parte da Igreja Católica, e dos calvinistas. A Igreja
Católica, acusando de traição, heresia, bruxaria e impureza
de sangue, torturava, perseguia e queimava todos os judeus
não convertidos ao catolicismo, ou suspeitos de seguirem a
religião mosaica. E os calvinistas, sob a alegação de que lá
havia um excesso de igrejas católicas, incendiaram a bela e
próspera vila de Olinda, em 1631. Foi no Recife de Nassau
que surgiu a primeira sinagoga das Américas, na antiga Rua
dos Judeus, atual Rua do Bom Jesus. O templo, recentemente
descoberto e restaurado, destinava-se aos cultos dos judeus
sefaraditas portugueses e espanhóis que, fugindo do Tribunal
do Santo Ofício, vieram se estabelecer no Nordeste do País,
bem longe da Península Ibérica.
O período de Nassau testemunhou diversas experiências
inéditas para o Novo Mundo. Mauritiopolis representou um
projeto urbanístico, criado por Pieter Post, com base nos
conhecimentos mais avançados da época. O conde trouxe para o
Nordeste dois jovens pintores talentosos - Frans Post e
Albert Eckhout - que deixaram o mais importante legado
artístico do Período Colonial.
Muitos quadros de Frans Post encontram-se expostos, hoje,
na cidade do Recife, distribuídos entre o Instituto Ricardo
Brennand (que abriga a maior parte do acervo), o Museu do
Estado de Pernambuco, o Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico e o Palácio do Governo de Pernambuco.
Os dois artistas retrataram paisagens, tipos humanos,
riquezas da fauna e da flora locais, engenhos de açúcar,
monumentos e ruínas do incêndio de Olinda, e criaram uma
obra sem precedentes: um mundo exótico e, até então,
completamente desconhecido, que foi apresentado aos
europeus. Foi na cidade Maurícia que surgiram, ainda, os
primeiros jardim botânico e jardim zoológico das Américas.
Lá, foram tomadas, inclusive, as primeiras medições
sistemáticas de meteorologia, e realizadas as primeiras
observações astronômicas, com telescópios europeus, em
continente americano. Na cidade Maurícia reuniu-se o
primeiro Parlamento e, no final do período holandês, foi,
daquela cidade, que os judeus saíram do Recife, rumo à
América do Norte, fundando a primeira Congregação Israelita
de New York.
Acima de tudo, Nassau foi um importante mecenas: ele
trouxe, para o Nordeste brasileiro, um pequeno exército de
cientistas, cartógrafos, artistas e administradores
holandeses, que deram à Maurícia (Mauritstad ou
Mauritiopolis, atual Recife) uma dimensão e um brilho
jamais imaginados nas Américas.
Ao se registrar as grandes realizações de Nassau, faz-se
necessário lembrar a figura do boi voador: um espetáculo sem
precedentes que marcou a história da cidade Maurícia. O
espetáculo estava relacionado à inauguração de uma ponte do
Recife, denominada hoje de ponte Maurício de Nassau, no dia
28 de fevereiro de 1644.
O inteligente e astuto conde já estava de
partida para a Holanda, e desejava, não apenas, que muitas
pessoas homenageassem o evento, mas, queria que elas
pagassem um determinado pedágio para passar pela ponte.
Neste sentido, aproveitou a curiosidade geral, para ganhar
dinheiro e recuperar parte dos gastos empregados naquela
construção. A notícia de que faria um boi voar, durante a
inauguração da ponte, mobilizou a população para o
espetáculo inédito. Isto foi documentado e ficou inserido na
memória coletiva das pessoas, graças ao registro do frei
Manuel Calado, uma testemunha ocular que, sobre o fato,
escreveu uma crônica.
A ponte construída sobre o rio Capibaribe separava o Recife
e a sede do Governo, da ilha de Antonio Vaz, local onde
Nassau residia. Era uma obra grandiosa. Ela possuía uma
parte levadiça, que permitia a passagem de grandes
embarcações. E o boi, assegurava o Governador holandês, iria
voar sobre ela. No entanto, ninguém conseguia imaginar de
que maneira um animal pesado e terrestre, como um boi,
poderia fazer tal proeza. Embora quisesse fazer parecer obra
de mágica, Nassau fez uso de sua engenhosidade, apenas, e de
seus conhecimentos básicos de ciência. Em primeiro lugar,
escolheu o animal que participaria do espetáculo. Deveria
ser um boi manso, que ficasse imóvel durante o dia da
inauguração, e pudesse ser observado por todos os
espectadores. Daí, escolheu o “boi de Melchior”, um animal
de pelo amarelado, que era famoso na cidade por subir
escadas e entrar nas casas. Durante o dia, as pessoas
observavam, na terra, o boi que voaria à noite.
Maurício de Nassau providenciou, então, um grande pedaço de
couro, do mesmo tamanho que o de um boi verdadeiro, mandou
empalhar o couro e, em seguida, inflá-lo como se fosse um
balão. Quase no final da tarde de um domingo, esse boi foi
amarrado com cordas fininhas, e colocado sobre roldanas,
entre as duas torres do Palácio Friburgo (a sede do
Governo).
Nada disso podia ser visualizado pelo grande público, que
lotava as praias e os barcos no rio Capibaribe.
Cabe salientar que, na hora prevista, o falso animal era
controlado por alguns marinheiros. E eles faziam o boi dar
muitas cambalhotas no ar, para o delírio de todos. Foi um
grande espetáculo, um verdadeiro sucesso! Além disso, os
cofres da Coroa holandesa arrecadaram cerca de 20.800
florins.
A estória do boi voador entrou para a História, atravessou
os tempos, tornou-se, inclusive, tema de Escola de Samba e
letra de uma música de Chico Buarque e Ruy Guerra.
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Boi voador não pode
Quem foi, quem foi,
Que falou no boi voador,
Manda prender esse boi,
Seja esse boi o que for.
O boi ainda dá bode,
Qual é a do boi que revoa,
Boi realmente não pode,
Voar à toa!
É fora, é fora, é fora,
É fora da lei, é fora do ar,
É fora, é fora, é fora,
Segura esse boi,
É proibido voar!
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