Sebo - Semira Adler Vainsencher-BOTO

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SEBO LITERÁRIO

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Rodrigues Ferreira, em fevereiro de 1790,e Henry Walter Bates, um inglês que permaneceu onze anos pesquisando a flora e a fauna da região amazônica, descobriram e estudaram, cientificamente,o boto. Este cetáceo é um mamífero completamente aquático, como a baleia e o golfinho, que habita os rios do Norte do Brasil. Ele possui uma cabeça grande, um bico dentado, um corpo afilado e quase desprovido de pelos, grandes nadadeiras dianteiras (semelhantes às pás dos remos), duas mamas em posição posterior, uma cauda que finaliza em nadadeira larga e horizontal, e um sistema sonar sofisticado, localizado em uma saliência da cabeça, que emite ondas sonoras. Tais ondas o auxiliam a se orientar nas águas barrentas dos rios. O boto não possui membros posteriores e pode se apresentar em várias cores. Ao nascer, pesa cerca de sete quilos e, quando atinge à idade adulta, pode chegar a pesar, até, cento e sessenta quilos.
Na Região Norte, existem várias lendas e superstições envolvendo o boto. Uma delas ressalta que ele é encantado: durante o dia, permanece nos rios, mas, ao anoitecer, transforma-se em um rapaz de pele branca, bonito, elegante, e educado como um cavalheiro. Ele sempre usa um chapéu branco (para esconder o orifício que tem no alto da cabeça, e que serve para respirar), gosta de beber, de freqüentar festas e bailes, é um exímio dançarino, e tenta conquistar as moças bonitas, preferindo aquelas que se vestem com roupas vermelhas.
Sem condições de resistir aos seus encantos, muitas jovens são levadas às margens dos igarapés e, com o belo cavalheiro, têm relações sexuais. Quando o dia amanhece, porém, o seu encanto termina: ele perde a forma humana e retorna aos rios. De acordo com a lenda, esse processo ocorre, diariamente, e as jovens seduzidas engravidam, de imediato. Sendo assim, na Região Norte, atribui-se ao boto a culpa por defloramentos, adultérios, e nascimento de crianças cuja paternidade é desconhecida. As pessoas dizem logo: é filho do boto! Segundo outra lenda, à noite, o animal se transforma em uma linda moça de cabelos longos, que sai para passear e tenta encaminhar os rapazes até os rios. Caso um deles decida segui-la, não terá um destino promissor: com um grito de triunfo, ele agarrará a jovem enamorada, pela cintura, e a afundará nos rios.
De acordo com as superstições correntes, moças virgens e/ou menstruadas não devem viajar de barco, ou de canoa, porque podem ser perseguidas pelo boto: arrebatadas por ele, são levadas para o fundo das águas e defloradas. Em caso de naufrágios, acredita-se que o boto socorre, apenas, as moças, deixando os rapazes à mercê da própria sorte. Por sua vez, dizem que é proibido matar esse animal: quem o fizer, tornar-se-á infeliz e vítima de um feitiço.
Um aspecto interessante diz respeito à semelhança entre a genitália do boto e a dos seres humanos. É bem provável que, por tal razão, existam tantas lendas e superstições envolvendo esse animal e os seres humanos. A pele e os órgãos sexuais do cetáceo são considerados, pela população do Norte, como amuletos que atraem o amor. À pele do boto, cortada em pedacinhos, são adicionados: breu branco, espinho de cuandu, espinho de curupira, catinga de mulata, mucura caã, alecrim e pimenta malagueta. A mistura é colocada para secar e, a seguir, entregue a um pajé (ou curador) que a “prepara” com algumas ervas aromáticas. Somente depois disso, o produto final é colocado à venda nos mercados públicos. O amuleto atrai a pessoa amada e dá, inclusive, boa sorte na caça e na pesca.
Os nortistas elaboram, também, outro talismã com os órgãos sexuais do boto. No caso, estes são torrados, pulverizados, colocados em saquinhos de couro ou de pano, e vendidos como amuletos intransferíveis que, se forem manuseados por outra pessoa, perdem, totalmente, os seus poderes de atração. Muito valorizados, ainda, são os olhos do boto.
Outra superstição diz respeito ao óleo do cetáceo, se for utilizado como combustível, em candeeiros: ficará cega a pessoa que o fizer.
Vários poetas, pintores, compositores e músicos utilizaram o boto como objeto de inspiração. O paraense Valdemar Henrique, por exemplo, musicou uma poesia de Antônio Tavernard (poeta amazonense), e ela foi muito divulgada no país. Eis a letra da música:


Tajapanema chorou no terreiro,
Tajapanema chorou no terreiro,
E a virgem morena fugiu pro costeiro.
Foi boto,sinhá,
Foi boto,sinhô,
Que veio tentar
E a moça levou.
Não tarda a dançar,
Aquele doutor,
Foi boto, sinhá,
Foi boto, sinhô.
Tajapanema chorou no terreiro,
Tajapanema chorou no terreiro,
Quem tem filha moça é bom vigiar.
Foi boto,sinhá,
Foi boto,sinhô,
Que veio tentar
E a moça levou.
O boto não dorme,
No fundo do rio,
Seu dom é enorme,
Quem quer que o viu,
Que diga, que informe,
Se lhe resistiu,
O boto não dorme,
No fundo do rio.


Os botos são mansos e, às vezes, proporcionam um belo espetáculo coreográfico, quando acompanham as embarcações, vindo à tona e mergulhando em seguida. No Sul do país, durante o inverno, eles são ,utilizados na pesca da tainha, quando os cardumes se deslocam em busca de águas calmas para desovar.
Dentro das canoas, os pescadores batem na água, assustando as tainhas, que se espalham, nadando em busca de lugares mais rasos e calmos. E os botos, ao se mexerem no fundo dos rios, turvam mais, ainda, as águas e desorientam os peixes. Nesse momento, das embarcações, as redes e as tarrafas são lançadas, voltando repletas de tainhas.
Alguns professores da Região Norte vêm utilizando as lendas e superstições como motes, junto aos alunos, para discorrer sobre a Educação Sexual.
Entre outros assuntos, são repassadas informações sobre a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis, as relações sexuais e a saúde sexual.
O boto, portanto, uma das figuras mais relevantes da mitologia zoológica brasileira, viu-se transformado, pelo imaginário popular, no próprio dom Juan do Norte do
Brasil, como portador de um incrível poder de sedução.

 

 

 

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