
|
http://www.huffingtonpost.com |
SEBO LITERÁRIO
autor

Cada povo possui um tipo de culinária, um modo
peculiar de preparar seus alimentos. Do ponto de vista da
cultura folclórica, percebe-se que, através de diferentes
formas, misturas, temperaturas, odores e cores, os
povos vão transformando os alimentos em uma atração.
Comer é conhecer, diz um antigo ditado. Desse modo,
todas as culinárias do mundo representam formas de
conhecimento. São sinais culturais transmitidos por meio
do paladar, da visão, do olfato. São gostos, sensações,
texturas ou toques, que aguçam os desejos.
O Brasil possui uma culinária original e
expressiva. Ao longo de 500 anos, o brasileiro assimilou
e transformou a cozinha europeia, principalmente a
portuguesa, as especiarias que o colonizador trouxe do
Oriente (China e Índia), adicionando-lhes ingredientes
das culinárias africana e indígena (a dos índios da
Amazônia e do Pantanal de Mato Grosso). A culinária
indígena, uma festa permanente de peixes moqueados,
caças e frutas da estação, já estava presente quando
o Brasil foi descoberto. Tudo isso, sem jamais agredir
ou colocar em risco a estabilidade do meio ambiente.
Foram as trocas alimentares, portanto, a união de
distintos caminhos e experiências de vida, de etnias e de
culturas, a miscigenação de gostos, formas e aromas,
que geraram uma nova e rica culinária brasileira.
Dos índios, a culinária assimilou a farinha de
mandioca, os alimentos cozidos ou assados em folhas
de bananeira, as comidas feitas com milho, a paçoca
(peixes ou carnes pilados e misturados com farinha).
Herdou-se, também, a moderação no uso do sal e dos
condimentos, a cozinha com forno e fogão, a utilização
de utensílios de cerâmica, as virtudes do consumo de
alimentos frescos, e as comidas temperadas pelas
mãos das índias nativas. Sem isso, a cozinha nacional
seria, hoje, muito pobre.
Além do refinamento, o colonizador português
introduziu alguns ingredientes importantes na culinária
brasileira: o coco (trazido da Índia), o sal, e a canela
em pó misturada com açúcar. O sarapatel, o sarrabulho,
a panelada, a buchada, o cozido, não fazem parte da
culinária africana, mas, sim, da portuguesa. Os dois
primeiros vieram da Índia, através dos colonizadores. A
doçaria lusa trouxe: pudim de iaiá, arrufos de sinhá, bolo
de noiva, pudim de veludo. Do Oriente, vieram muitos
quitutes mouriscos e africanos, tais como o alfenim e o
cuscuz, e frutas como a manga, a jaca, a carambola e a
fruta pão. Do famoso cozido português, incluiu-se feijão
preto ou mulatinho, carnes e muitas verduras, tendo
surgido um prato único e original: a feijoada.
A feijoada pode ser preparada às modas carioca,
baiana e nortista. A típica feijoada brasileira, porém,
comporta muitas iguarias: feijão preto, toucinho de
fumeiro, paio, linguíças portuguesa e/ou calabresa,
outras carnes de porco salgadas e/ou defumadas
(orelhas, rabo, pés, costelas) e carnes secas (de
charque), temperos frescos e secos. É acompanhada
por arroz branco, farinha de mandioca, rodelas de
laranja, torresmo, folhas de couve (bem fininhas) fritas
no alho e óleo, e uma boa cachaça da terra.
A presença africana, na mesa brasileira, tem
dois grandes representantes: o dendê e a pimenta (não
as nativas, usadas pelos índios, mas a malagueta,
trazida pelos negros da África). A palmeira, de onde
se extrai o azeite de dendê, veio da África para o
Brasil, nas primeiras décadas do século XVI. Todos
os pratos trazidos do continente africano foram,
então, reelaborados e recriados pelos brasileiros, que
passaram a usar o azeite de dendê e os ingredientes
locais.
Embora africano, o inhame era conhecido em
Portugal. O caruru, por sua vez, tal como é conhecido,
é um prato africano, que manteve a denominação
indígena, mas, adquiriu outro conteúdo: galinha, peixe,
carne de boi, ou crustáceos. Ao chegar ao Brasil, a
escrava negra já era cozinheira. Aprendendo com as
portuguesas e suplantando-as pela diversidade de
temperos, que sabiam manejar, as africanas competiram
com as indígenas quanto ao segredo de uma boa mesa.
Na atualidade, cada Região do país possui
distintos pratos típicos. No Norte, devido à presença de
florestas, à influência indígena, e às generosas bacias
hidrográficas (o rio Amazonas e seus afluentes, em
particular), predomina o consumo de peixes de água doce
(acari, auanã, cascudo, surubim, pirapitinga, piranambu,
tucunaré, tambaqui, pirarucu, tainha, camurupim, itui,
jandiá, xaréu, curimatá, cangati, piranha, entre outros);
da mandioca e de grande variedade de frutas: açaí,
bacaca, buriti, taperebá, ginja, pupunha, murici, uamari,
cupuaçu, bacuri, camapu, uxi, angá, piquiá, camutim,
cutitiribá, grumixama, cubiu, guaraná, entre tantas
outras.
A culinária nortista, tropical e ecológica, é
acompanhada por uma grande variedade de pimentas:
cajurana, mata frade, murupi, camapu, murici, olhode-peixe, ova-de-aruana, pimenta-de-cheiro, e olhode-pomba. Nessa região, consomem-se muitas outras
iguarias: maniçoba, caldeirada de jaraqui, pato no
tucupi, tambaqui assado na brasa, cuia de tacacá,
mujanguê (a famosa farofa de ovos de tartaruga), e
vários tipos de tartarugas (juruá açu, capitari, tracajá,
matamatá, cabeçudo, pitiú), além dos cremes de bacuri
e de cupuaçu.
No Nordeste, encontram-se os pratos à base de
feijões, inhame, macaxeira (chamada aipim, no Sul do
país), leite de coco, azeite de dendê, peixes, crustáceos
e frutas nativas, destacando-se inúmeras iguarias:
buchada, sarapatel, arroz doce, tapioca, caldo de cana,
bem como doces e/ou sorvetes de frutas regionais:
mamão, goiaba, caju, pinha, sapoti, graviola, banana,
tangerina, mangaba, coco, manga, umbu, jaca, abacaxi,
araçá.
Da culinária nordestina fazem parte, ainda, os
seguintes pratos: dobradinha (feijão branco cozinhado
com bucho de boi), galinha de cabidela, mão-de-vaca,
quibebe (pirão de jerimum), carne-de-sol (servida com
farofa e feijão verde), peixes e crustáceos ao leite
de coco, feijão e arroz, ao coco, amendoim torrado e
cozinhado, canjica, pamonha, munguzá, cuscuz, milho
cozido e assado, acarajé, abará, caruru, vatapá, bolos
de macaxeira e de mandioca, pé de moleque, bolo
Souza Leão, umbuzada (feita com umbu, leite e açúcar),
entre outros.
No Sul e no Sudeste, onde se encontram grandes
rebanhos bovinos e ovinos, a população consome
churrasco de carne e linguiças assadas na brasa,
acompanhadas por arroz branco, salada de maionese,
farinha de mandioca torrada, macaxeira cozida,
saladas verdes e pão. Outros pratos tradicionais são
os seguintes: guisado no pau, boi atascado, pernil de
cordeiro, costelão, churrasco de ovelha, tripa grossa, e
outros. Os gaúchos, em particular, consomem bastante
o chimarrão, um chá quente feito com as folhas de mate
amargo, trituradas.
Alguns pratos típicos dos outros Estados são os
seguintes: a feijoada carioca (com feijão preto), no Rio
de Janeiro; o cuscuz salgado, conhecido como cuscuz
paulista, em São Paulo; e uma grande variedade de
produtos derivados do leite (como o famoso queijo
de Minas, requeijões, iogurtes, manteigas e doces de
leite), além de pães de queijo, biscoitos de polvilho e
goiabada cascão, em Minas Gerais. Lá, é apreciado o
tutu à mineira e o feijão de tropeiro (uma homenagem
aos desbravadores de sertões, que inclui feijão, toucinho
e carne de vento ou seca acompanhados por farinha
de mandioca). E, no Espírito Santo, são populares os
pratos de peixe preparados com urucum, assim como a
moqueca capixaba.
Devido às características cosmopolitas do Sul
e do Sudeste, é possível encontrar, nessas Regiões,
uma grande variedade de culinárias: italiana, japonesa,
chinesa, coreana, vietnamita, alemã, húngara, francesa,
polonesa, russa e ucraniana. A pizza e o macarrão, por
exemplo, são heranças dos italianos, mas, já foram
incorporadas à alimentação de muitos brasileiros. Os
italianos inventaram, inclusive, o salsichão e o espeto
corrido.
No Centro Oeste, predominam os pratos à base
de carne, devido aos grandes rebanhos. É comum
o consumo de peixes de água doce, aves e caça do
Pantanal, frutas do cerrado (como o pequi) e erva mate.
Encontra-se, hoje, na culinária brasileira,
inúmeros pratos que utilizam o leite de coco, o azeite
de dendê, a farinha de mandioca, o sal, as pimentas,
as frutas, as moquecas, os assados, os guisados, os
doces, os sucos, enfim, dezenas de ingredientes e de
modos de fazer que moldaram a chamada cozinha
tradicional do país.
FEIJOADA BRASILEIRA
(para seis pessoas)
Ingredientes: 500g de feijão preto, 300g de
charque, 80g de toucinho, 200g de carne bovina,
120g de rabo de porco, 120g de orelha de porco,
200g de carne de porco, 240g de pé de porco,
200g de costela de porco defumada, 240g de
lingüiça ou paio, 250g de cebola (cortada em
pedacinhos), 4 dentes de alho (moídos), 2
cebolinhas (cortadas em pedacinhos pequenos),
2 folhas de louro, 4 colheres (sopa) de azeite de
oliva, sal e pimenta-do-reino (moída) a gosto.
Modo de fazer:
Lavar bem todas as carnes
salgadas e aferventá-las para retirar o sal. Colocar
o pé de porco para cozinhar em uma panela,
apenas com água e folha de louro, durante cerca
de 30 minutos. Acrescentar o feijão (previamente
lavado) e o restante das carnes. Deixar no fogo
até que ambos amoleçam, adicionando, sempre,
a água que for necessária.
Em uma frigideira, fritar a cebola e a cebolinha
no azeite de oliva. Quando estiverem dourando,
adicionar o alho e a pimenta-do-reino. Deixar
alguns segundos no fogo para refogar bem
a mistura. Colocar esses temperos dentro da
feijoada, deixando ferver por 5 minutos. Provar
um pouco do caldo para verificar o teor de sal.
Se tiver pouco sal, adicione um pouco mais (sem
deixar de provar). Caso fique salgada, por sua
vez, coloque algumas batatas inglesas (grandes)
para cozinhar dentro da feijoada: elas reterão
todo o excesso de sal. O tempo de cozimento é
de 2 1/2 horas.
Com a ajuda de uma escumadeira, separe as
carnes do feijão, arrumando-as em recipientes
distintos. Servir a iguaria com farinha de
mandioca, arroz branco, couve à mineira, rodelas
de laranja, molho de pimenta e uma boa cachaça
da terra.
Bom apetite!
![]()
para SEBO
LITERÁRIO-SEMIRA ADLER
para
CULINÁRIA JUNINA