Sebo - Semira Adler Vainsencher-MACAMBIRA

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SEBO LITERÁRIO

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Mamulengo é o nome dado a um teatro popular de bonecos, chamado, também, de fantoche, marionete, ou títere. Desde a mais remota Antiguidade, a presença do mamulengo tem sido detectada até em locais como a Índia e o Egito. A origem da palavra é discutida, mas, os estudiosos acreditam que ela é oriunda da expressão “mão mulenga”, ou “mão molenga”, que significa mão que se movimenta, em uma alusão à forma através da qual os bonecos se movem. O teatro foi introduzido em Pernambuco, no século XVI, pelos colonizadores portugueses.
Durante a Idade Média, para fins catequéticos, a Igreja Católica utilizou muito o teatro de mamulengo, como uma forma de difundir o espírito religioso. Através dele, e inspirados no catolicismo alegórico, os religiosos criaram o presépio, um espetáculo onde é apresentada a história do nascimento de Jesus Cristo, por meio de bonecos em forma de santos, de reis magos e de animais, como a vaca, o jumento e a ovelha. Em praças, feiras, ou parques, os mamulengueiros armavam uma espécie de tenda e, ao interagirem com as pessoas presentes, iam construindo o próprio desenrolar da encenação. O teatro era aberto, possuía um canal participativo, e não dispunha de qualquer enredo escrito: os diálogos eram improvisados no momento da apresentação. As histórias desenvolvidas em cada espetáculo podiam, até mesmo, ter muitas semelhanças com as anteriores e as posteriores, porém, eram, em verdade, únicas: advinham da interação dos personagens com a plateia, sendo tecidas mediante o universo cultural do público presente. Este último representava um elemento de suma importância:
precisava ser estimulado para reagir, já que era o “combustível” que forjava e propulsionava a encenação.
Com o passar do tempo, porém, da mesma forma que uma série de outros folguedos relacionados às festas religiosas, ou à natividade, o mamulengo foi adquirindo um caráter mais profano, e passou a  funcionar, independentemente, dos festejos natalinos e ciclos de comemorações religiosas.
Na atualidade, os personagens são bastante distintos daqueles do passado, podendo-se encontrar componentes da sociedade (latifundiários, cangaceiros, delegados, coronéis, padres, vaqueiros, trabalhadores e outros); animais (o cavalo, a cobra, a onça, o cachorro, a vaca); e figuras sobrenaturais (a morte, o diabo, as almas penadas). Nas escolas e demais centros de educação comunitária, o mamulengo é utilizado com vários outros personagens, para incentivar a socialização e o repasse de conhecimentos, as mudanças de atitudes, entre outros.
Os bonecos são confeccionados com vários tipos de materiais. A madeira, por exemplo, é muito utilizada para fabricar a cabeça e as mãos do mamulengo, ao passo que, seu corpo, é feito de pano, na forma de uma luva. Para movimentá-lo, o manipulador insere o dedo indicador no interior de sua cabeça (que é oca) e, com os dedos polegar e médio, mexe seus braços.
Escondidos atrás do palco, os mamulengueiros dão voz e movimento aos bonecos. Além da madeira, são feitos mamulengos com papel machê, pano, argila, borracha, palha, sucata e metal. Além das luvas, os artesãos utilizam hastes de metal, varetas, ou cordões, para poder movimentá-los.
Em se tratando de adereços, os personagens masculinos podem se apresentar com chapéus (de vaqueiro, ou não), armas de fogo (espingardas, revólveres), facas, cassetetes, batinas, fardas e quepes militares; e as figuras femininas usam joias - colares, brincos, anéis, pulseiras - bolsa, lenço, ou peruca, na cabeça.
Em épocas passadas, grande parte dos mamulengos era de cor preta, ao passo que, os vilões, eram brancos. Segundo os pesquisadores, a associação dos personagens à raça negra não ocorria por acaso: havia o propósito de chamar a atenção do
público para a bravura dos negros. Presentemente, as apresentações abordam diversos temas como traições, romances, fatos políticos, casamentos forçados, aspectos sobrenaturais, festas religiosas, dramas de circo, eventos relacionados ao cangaço, sátiras, cantos, músicas, festividades, danças, perseguições policiais, enterros e acrobacias.
Os mamulengos são conhecidos por nomes distintos, de acordo com os Estados: Benedito, Cabo 70, Professor Tiridá, Quitéria, Simão e Mané Pacaru, em Pernambuco; João Redondo, no Rio Grande do Norte; Mané Gostoso, na Bahia; e, Babau, na Paraíba.
Na Rua do Amparo número 59, em Olinda, está situado o primeiro Museu do Mamulengo do Brasil e da América Latina: o Museu do Mamulengo - Espaço Tiridá. Ali, uma biblioteca, um teatro com cinquenta lugares, e uma exposição, com cerca de 1.000 bonecos, estão dispostos à visitação pública. No Museu, está exposta uma preciosa coleção datada do século XIX, advinda do Mamulengo Só-Riso (proveniente da Zona da Mata de Pernambuco). O grupo doou a coleção à Fundação Joaquim Nabuco que, por sua vez, repassou-a ao Museu do Mamulengo. Esse acervo, já foi exposto em todo o Brasil e na Europa. Como alguns funcionários manipulam os bonecos, para que os visitantes se familiarizem com suas estórias, o Museu do Mamulengo - Espaço Tiridá representa um exemplo de museu vivo.
Vários teatros de mamulengos podem ser encontrados no Estado de Pernambuco: o Mamulengo Só-Riso, o Mamulengo Alegre e o Mamulengo Lima Condessa, em Olinda; o Mamulengo Dengoso, na Campina do Barreto, no Recife; o Presépio Nova Geração e A Invenção Brasileira, em Carpina; o Mamulengo Boca de Babau, no Cabo de Santo Agostinho; e o Mamulengo Riso da Cidade e o Mamulengo Alegria do Povo, em Glória de Goitá.
Existem uma série de artesãos renomados tais como Pedro Rosa (em Lagoa do Carro); Maximiano (em Caruaru); Mestre Saúba (em Carpina); Luiz da Serra (em Vitória de Santo Antão); João Nasário (em Pombos); Mane da Cruz (em Cruz de Rebouças); Salustiano e Pedrinho Soares (em Olinda); e Samuel (em Feira Nova). Três excelentes mestres - já falecidos – não podem deixar de ser ressaltados. São eles: Sólon (em Carpina), Nilson de Moura (em Olinda), e Saúba (em Carpina).
Da mesma maneira que o presépio, o pastoril, o bumba-meu-boi e o fandango, o teatro popular de mamulengos, formatado, originalmente, como um teatro de rua, faz parte do patrimônio artístico e cultural do país. Suas apresentações, porém, não dependem mais do improviso para nortear ou dar consistência às estórias. A despeito das interações com a plateia, os mamulengueiros partem de roteiros prévios, bem definidos, assim como de representações cênicas planejadas e mais sofisticadas. E, mesmo havendo interação com o público, o cerne dos espetáculos não é alterado.
O teatro de mamulengos chega ao século XXI com sua linguagem simples, situações cômicas e satíricas, brincadeiras, discussões e confusões. Esse teatro popular continua atraindo pessoas das mais diversas idades e classes sociais, em todos os lugares do mundo, porque conservou suas características mais relevantes: a presença do lúdico, do bom humor, e da participação interativa. Tais elementos, que representam seu sustentáculo básico, são, em verdade, atemporais:
agradam, como sempre, as crianças e adultos, aqueles que mantiveram as boas recordações da infância dentro de si.

 

para SEBO LITERÁRIO-SEMIRA ADLER                                                                                                       para MANDACARU