Sebo - Semira Adler Vainsencher-MACAMBIRA

http://www.huffingtonpost.com

SEBO LITERÁRIO

autor

 

Na caatinga do Nordeste do Brasil predomina uma vegetação conhecida como mata branca. Ela é composta por árvores e arbustos de folhas pequenas, vegetais que possuem raízes longas e numerosas, galhos tortuosos, arbustos espinhentos (cactáceas), bromeliáceas, entre outras espécies de xerófilas. Os solos da caatinga, apesar do calor, do clima semiárido, subúmido ou semiúmido, possuem sais minerais em abundância e, por essa razão, neles se desenvolvem árvores como a algorabeira, o umbuzeiro, o marmeleiro, e plantas como a aroeira, o xique-xique, a imburana, o angico, o caroá, a palma e o mandacaru.
Esse último (Cereus Jamacuru, P. DC.) é um cacto alto com muitas ramificações, repleto de espinhos amarelos, que chegam a medir, até, vinte centímetros de comprimento. Dessa planta brotam flores brancas e grandes, que dão frutos oblongos, com uma polpa doce, branca, suculenta e comestível, e muitas sementinhas pretas. Segundo afirmam os apreciadores, a fruta se
assemelha ao figo.
Durante as secas severas, o mandacaru é uma das poucas plantas que resistem na vegetação da caatinga, mantendo-se verde e suculenta. Por isso, a despeito da abundância de espinhos, os agricultores o utilizam para alimentar os rebanhos (bovinos, caprinos, e ovinos). Primeiro, cortam os galhos, acomodam em carroças, e transportam até os currais das propriedades. Ali, queimam os espinhos e, somente, então, a forragem é oferecida aos animais. Com teor de proteína em torno de 11,40%, o potencial forrageiro do mandacaru assemelha-se ao da palma. Do seu tronco são retiradas tábuas de, até, trinta centímetros de largura, que os sertanejos usam para a confecção de portas e janelas de casas.
Na metade do século XIX, uma variedade que contém poucos espinhos foi encontrada nos sertões de Alagoas: o denominado mandacaru inerme. Através de uma mutação genética espontânea, portanto, surgiu o mandacaru “sem espinhos”. Posteriormente, tal variedade passou a ser obtida, mediante seleção e multiplicação vegetativa, dos artículos destacados e plantados.
No presente, o mandacaru inerme vem sendo cultivado: tira-se melhor proveito dessa planta, e seu manejo se torna mais fácil. A Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias do Semiárido (a Embrapa Semiárido) recomenda se fazer, com o mandacaru, o  mesmo que tem sido recomendado ao milho e ao feijão: a consorciação de culturas.
Cabe registrar que o uso extensivo do mandacaru, com cortes indiscriminados, está reduzindo a presença da planta na vegetação nativa, o que contribui para o seu desaparecimento. Sem a forragem nutritiva e natural da região, a dinâmica dos sistemas de produção é afetada, em outras palavras, os sertanejos são obrigados a percorrer distâncias cada vez maiores, na caatinga, em busca daquele cacto, visando à sobrevivência dos rebanhos.
Para se instalar um campo de mandacarus, o agricultor precisa cortar pedaços dos seus galhos, deixar secar de um dia para o outro, e enterrar no solo, apenas, uma parte deles. O sucesso do plantio depende da época do ano em que ocorre: este, deve acontecer cerca de um mês antes do início das chuvas. Após o segundo ano do plantio, pode ser efetuado o primeiro corte nos galhos. De uma única planta é possível se retirar pedaços para o plantio de cem outras. O tratamento requerido é a capina. Caso haja esterco de curral, o agricultor pode usá-lo como adubo, já que o mandacaru responde bem à adubação orgânica.
O mandacaru possui outras utilidades, ainda: é empregado por paisagistas, na ornamentação de avenidas, praças, ruas, casas e jardins. Na medicina popular, o chá da raiz fresca do mandacaru-de-boi, é um dos remédios utilizados pelos sertanejos. Em farmácias do país, encontra-se à venda um medicamento fitoterápico - o Elixir Sanativo - que, em sua composição, contém o mandacaru (Cereus hildmannianus). O elixir é indicado e usado para gargarejos, para cuidados com afecções bucais, no tratamento de feridas, cortes, picadas de insetos, e na higiene íntima (banhos de assento e tratamento de hemorroidas).
Com ou sem espinhos, o mandacaru é, na prática, sinônimo de Nordeste. Ele se encontra em pinturas e gravuras que retratam a Região. O precioso cacto entrou, inclusive, na música popular brasileira, através da famosa composição Xote das Meninas, de autoria de Luiz Gonzaga e José Dantas. Eis a letra dessa música:


Xote das Meninas 


Mandacaru quando fulora na seca,
É o sinal que a chuva chega no sertão,
Toda menina que enjoa da boneca,
É sinal que o amor já chegou no coração,
Meia comprida, não quer mais sapato baixo,
Vestido bem cintado, não quer mais vestir de mão.


Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.


De manhã cedo, já está pintada,
Só vive suspirando, sonhando acordada,
O pai leva ao doutor a filha adoentada,
Não come, não estuda,
Não dorme, nem quer nada.


Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.


Mas o doutor, nem examina,
Chamando o pai de lado, lhe diz logo em surdina,
Que o mal é da idade, e que pra tal menina,
Não há um só remédio, em toda a Medicina.


Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.

 

para SEBO LITERÁRIO-SEMIRA ADLER                                                                                                       para MANDIOCA