Sebo - Semira Adler Vainsencher-PMENTA

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SEBO LITERÁRIO

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A pimenta é um ingrediente antigo e muito utilizado pelas culinárias africana e indígena. Tanto os índios nativos do Brasil, quanto os negros africanos, que vieram como escravos, consumiam pimentas em abundância. Os primeiros comiam-nas secas ou piladas, junto com farinha de mandioca (quya). Com a chegada dos escravos no Nordeste do Brasil (primeira Região a ser colonizada pelos portugueses) o consumo de pimentas aumentou. A nobreza e o clero apreciaram a pimenta brasileira, denominada Capsicum. Por ser mais suave, ela passou a ser preferida e exportada para Portugal.
As cozinhas dos engenhos, dirigidas por europeias e conduzidas por escravas africanas, herdaram certos aspectos da cozinha indígena. Para acentuar o sabor dos alimentos, e porque o sal e o açúcar eram, também, produtos muito valiosos, as mulheres
utilizavam temperos locais como o coentro, a salsa e a pimenta indígena (Capsicum). Por mais estranhos que fossem ao paladar dos portugueses, eles precisavam se adaptar aos novos gostos dos temperos da terra.
O grande disseminador (“plantador”) das pimenteiras é o sabiá, um pássaro que come os frutos e espalha as sementes, através dos seus excrementos. Desse modo, vai semeando a Capsicum por onde passa.
A substância química que proporciona o caráter ardido e o sabor picante das pimentas – a capsaicina – causa a liberação de endorfinas e, consequentemente, uma sensação muito agradável de bem-estar.
Declara COSTA apud CASCUDO (1954):
O nome vulgar piperAcea, empregado naquelas acepções, vem do seu sabor ardente e abrasador, principalmente a pimenta vulgarmente chamada de cheiro (Capsicum adoriferum, Vell.);

a cumary, a quiya comari, tupinico, segundo Marcgrave; e a malagueta (Capsicum baccatum, Linn.) que, segundo Almeida Pinto, é a querija-apuá dos índios. Além destas espécies de pimenta existem outras igualmente cultivadas, nomeadamente as
que são assim chamadas: ‘Olho-de-peixe, tripade-macaco e umbigo-de-tainha’. À solonacea, com o nome vulgar de pimentão, pelo grande desenvolvimento a que atinge, davam os índios o nome de quiyá açu, pimenta grande. Pimentado- reino (Piper nigrusu, Linn.), originária da Índia, mas assim chamada para a distinguir das espécies indígenas, e mesmo porque vinha por
intermédio da metrópole, o reino de Portugal.
Cultivada no extinto Jardim Botânico de Olinda, foi propagada, mas a sua cultura não vingou. O uso geral da pimenta nas refeições de carne e peixe, sendo nestas particularmente empregada a de cheiro, em molho forte, picante, chamado da mulata, ou fraco, pouco ardente, chamado de viúva, vem dos índios, do seu yquiataia, a pimenta seca ao sol, reduzida a pó, e misturada com sal, como ainda se usa, porém pisada, misturadamente, com a farinha de mandioca, e assim pulverizada no anguzô e no bobó.
CASCUDO (1954) ressalta, também:
Na África Oriental, Central, Meridional, Ocidental, a pimenta coincide com todos os paladares negros no tempo e no espaço. Quase tudo quanto se come na África obriga a presença queimante da pimenta, nos próprios doces. No mercado público de Cabinda provei uma bebida feita com pimentas, possível irmã da beberagem caiapó em Goiás. Na totalidade dos alimentos negros sente-se o ardor inconfundível.

No Brasil, são cultivadas várias espécies de pimentas. Os frutos da popular malagueta são vermelhos, alongados, altamente picantes, e medem entre 1,5 cm e 3,5 cm de comprimento. A cumari é picante e ligeiramente amarga, oval, vermelho escuro, e
possui menos de 1 cm de diâmetro. A pimenta biquinho é arredondada, vermelha, tem a ponta em forma de bico e gosto suave. Os frutos da pimenta dedo de moça são alongados, avermelhados, e sabor mais suave que a malagueta. A caiena pode ser verde ou avermelhada, é alongada e tem ardência forte. É muito usada na cozinha mexicana. A pimenta cambuci é verde-clara, achatada, doce e suave, e possui de 5 cm a 7 cm de diâmetro.
Também são encontradas no país, entre outras, as seguintes pimentas: doce americana, chapéu de bispo, bode, e pimenta de cheiro.
O prato preferido pelos brasileiros - a feijoada misturada à farinha de mandioca - é sempre regado com molho de pimenta: este a acompanha e incrementa o seu sabor. São os molhos de pimenta que temperam, inclusive, a buchada, o mocotó, a rabada, o caruru de quiabos, a moqueca, a dobradinha, a galinha de cabidela e o sarapatel, pratos típicos das cozinhas baiana e pernambucana.
Em relação à pimenta de cheiro, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) Amazônia Oriental tem desenvolvido pesquisas visando a recuperar as características originais dessa planta, porque ela vem perdendo, aos poucos, seu cheiro, cor e tamanho usual, em decorrência de cruzamentos com outras espécies de pimenteiras.
Muitas pessoas acreditam que a capsaicina possui propriedades medicinais. Neste sentido, comem pimentas e/ou bebem seu chá visando à cicatrização de feridas, à dissolução de coágulos sanguíneos, à prevenção de hemorragias e arteriosclerose, ao controle de colesterol e ao aumento de resistência física.
As pimentas são indicadas pela Medicina Popular para curar dores de dentes, desmaios ou vertigens, eczemas, doenças venéreas e afecções das vias urinárias, regras menstruais dolorosas, perda de apetite, rouquidão e tosse (SOUTO MAIOR, 2004).
A pimenta do reino (Piper nigrum L.) uma planta trepadeira originária da Índia, foi introduzida, no Brasil, no século XVIII, durante o reinado de D. João VI, e popularizada com a imigração japonesa para o Estado do Pará, na primeira metade do século XX. O clima úmido e quente, da Região, se mostrou favorável ao cultivo dessa pimenteira que, séculos atrás, era chamada ouro negro. Ela pertence a um gênero diferente de pimenta e a substância causadora de sua ardência se chama piperina. A pimenta do reino é muito utilizada na culinária brasileira, servindo para temperar carnes assadas e guisadas, legumes, patês, conservas e vinha d’alhos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de pimenta do reino. Exporta, em média, 45 mil toneladas, por ano, para a Europa e os Estados Unidos.


 

 

 

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