Sebo - Semira Adler Vainsencher-FOLCLORE NORDESTINO

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SEBO LITERÁRIO

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A palavra folclore (folk-lore) foi criada pelo arqueólogo inglês William John Thoms. Ele usou o vocábulo no dia 22 de agosto de 1846, pela primeira vez, em uma carta publicada no jornal The Athenaeum, de Londres. Através da referida denominação,
Thoms pretendeu englobar os estudos que vinham sendo chamados Antiguidades Populares, Tradições Populares e Literatura Popular, e que possuíam, como principais características, a popularidade, a oralidade, o anonimato e a antiguidade.
Com o passar dos anos, o domínio do folk-lore foi se ampliando e, atualmente, o conceito compreende o estudo da cultura espontânea da sociedade, ou seja, tudo aquilo que as pessoas dizem, sentem e fazem. O estudo do folclore se tornou uma ciência sociocultural, por assim dizer. Essa ciência objetiva dar conta dos mitos, superstições, contos, fábulas, poesias populares, provérbios, culinária, arte, literatura popular, música, jogos e brincadeiras infantis, danças, entre tantos outros,
ainda que seus elementos não sejam mais anônimos e/ ou orais (como, por exemplo, a literatura de cordel).
Independentemente do grau de civilização, de cultura, de capacidade, de ingenuidade, ou, até mesmo, de barbárie, todas as sociedades desenvolvem hábitos e costumes próprios sobre o mundo e as coisas, em outras palavras, possuem uma alma coletiva, algum tipo de sabedoria popular. Essa alma, projetada nas manifestações culturais, representa um elo entre o microcosmo e o macrocosmo, exprimindo, tanto as especificidades individuais, quanto o material herdado pelo indivíduo através de sua família, prole, bando, ou sociedade. Neste sentido, engloba aspectos psíquicos, históricos e antropológicos. As manifestações culturais podem ser conservadas em seu formato original, mantendo-se inalteradas, através dos tempos, ou
podem ser modificadas, renovadas e, até, abandonadas, desaparecendo para sempre.
No Brasil, os estudos sobre o folclore só atingiram um nível científico em 1913, quando o línguista e historiador João Ribeiro realizou o Curso de Folclore, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O folclore passou a representar, então, uma área de suma relevância da antropologia cultural e, o dia 22 de agosto, mediante um decreto de 1965, ficou instituído como o Dia do Folclore.
O Nordeste brasileiro - região produtora de açúcar - sofreu a influência marcante de outras culturas, como a portuguesa, a holandesa, a africana e a indígena. Os nordestinos criaram hábitos e costumes sui generis, fruto da miscigenação de três populações principais: a europeia (os colonizadores, os holandeses, e demais imigrantes), a africana (os negros escravos) e a ameríndia (a população indígena local). Tais raças geraram o povo nordestino e todas as suas principais raízes culturais. Foram misturas de etnias, de cozinhas, de línguas, de alimentação, e de costumes.
São de procedência africana, por exemplo, os termos populares: banguela, calouro, mulambo, cachimbo, cacimba, caçamba, birimbau, capanga, banzo, mandinga, lundu, calunga, fulo, quitanda, quitute, moleque, maxixe, quenga, tanga, malagueta, cachaça, macumba, candomblé, balangandãs, e tantos outros.
De contribuição indígena, encontram-se as seguintes palavras: coivara, taboca, jirau, tipoia, urupema, beiju, samburá, caipora, cunhã, capoeira, cumbuca, puçá, pixaim, jururu, biboca, paçoca, catapora, jererê, toca, panema, curumim, pamonha, inhaca, tapera, pipoca, tapioca, cipó, surucucu, baiacu, caipira, pindaíba, sabiá, caititu, peroba, guabiru, perereca, carnaúba, gambá.

 

 

É bem comum a associação de praias, jangadas, pescadores, coqueiros, mandacarus, cangaço, e/ou carros-de-boi, à Região Nordeste. Nesta Região de belezas paradisíacas, é possível se apreciar os exóticos coqueiros de coco verde, balançando ao vento, bem como os coqueiros nativos de buriti e de carnaúba, onde correm as águas do rio São Francisco. É possível se perceber uma identidade sui generis, incrustada nos sotaques, cheiros, cores, temperos, receitas, e escolhas devocionais. O folclore regional apresenta-se rico e abrangente, dele fazendo parte o artesanato, as superstições e as crendices, os folguedos, a linguagem popular, os cultos, a literatura de cordel, a culinária, os brinquedos, as artes e técnicas, as festas, as adivinhações, os pregões e os remédios, entre tantos outros elementos.
Em se tratando de representações populares, no carnaval de Pernambuco podem ser apreciados maracatus, caboclinhos, pastoris, La Ursas, clubes de frevo e blocos de carnaval. O pastoril, um dos importantes folguedos do Nordeste, costuma se
apresentar no período de 23 de dezembro a 6 de janeiro, e, dele, constam bailados, danças, cantos, diálogos e recitativos, em louvor ao nascimento de Jesus Cristo, com duas alas de pastoras: o cordão azul e o cordão encarnado. Sempre dançando, elas cantam:


Boa-noite, meus senhores todos,
Boa-noite, senhoras também;
Somos pastoras,
Pastorinhas belas,
Que alegremente
Vamos a Belém...


Tudo indica que o pastoril foi introduzido, no século XVI, pelos missionários portugueses. No passado, o folguedo era representado junto às igrejas, para distrair as pessoas que aguardavam a Missa do Galo. No presente, porém, as pastorinhas dançam ao som de um conjunto de pau e corda, em palcos e praças públicas. Esse acompanhamento musical, em certos Estados, inclui, também, a presença de sanfonas, violões e instrumentos de sopro e percussão.
Outro importante folguedo é o maracatu, criado pelos escravos africanos. Eles buscavam manter, para si, não, somente, os preceitos religiosos, mas, o próprio rigor da nobreza. Sendo assim, introduziram uma forma irônica de resistência cultural às relações de poder entre senhores, escravos e os acessórios da realeza europeia.
É importante lembrar que, no Recife, o estabelecimento do Reinado do Congo ocorreu em 1674, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Nesta igreja, precisamente, foram realizadas eleições entre os próprios escravos, a fim de escolherem quem representaria o rei e a rainha do maracatu.
Na cidade do Recife, os maracatus mais antigos são conhecidos como Maracatu de Baque Virado ou Maracatu Nação, e nasceram da tradição do rei do Congo, implantada, no país, pelos colonizadores portugueses. Seus participantes exibem estandartes exuberantes, e bordados com fios dourados sobre veludo e cetim. A nobreza exibe cetros, coroas, espadas e capas; as damas da corte carregam calungas - bonecos de origem religiosa, remanescentes dos cultos fetichistas - e todos desfilam ao som de instrumentos de percussão. O maracatu mais antigo data de 1711, e é originário de Olinda. Somente após a Abolição
da Escravatura, o folguedo passou a integrar o ciclo carnavalesco, resumindo-se a desfiles da corte real negra e obedecendo ao estilo das procissões católicas.
No carnaval recifense desfilam alguns maracatus tradicionais, entre os seguintes: Nação Pernambuco, Elefante, Leão Coroado, Estrela Brilhante, Nações Sol Nascente, Gato Preto, Encanto da Alegria, Nação Luanda, Porto Rico, Cabinda Estrela, Cabinda Brasileira e Axé da Lua.
Os maracatus rurais, apesar de serem considerados folguedos de segunda categoria, desfilam homenageando os seus Orixás, e se destacam pelas cores, beleza, e movimentos. Oriundos dos municípios da zona canavieira de Pernambuco, tais maracatus
possuem uma presença muito marcante, ao desfilar com seus lanceiros (ou caboclos de lança), tuxaus, baianas, tirador de loas e orquestra. O município de Nazaré da Mata possui dezessete grupos de maracatus rurais e congrega o maior encontro de maracatus de todo o Estado.
Os denominados caboclinhos, cabocolinhos, ou caboclos, representam um folguedo de origem indígena, uma espécie de reisado. Com bailados mímicos, eles se apresentam durante os carnavais de Pernambuco, da Paraíba, de Alagoas e do Ceará, e têm sua origem nas danças executadas por crianças e adolescentes tupinambás, do sexo masculino. Foi através desses bailados que, no século XVI, os missionários portugueses conseguiram ganhar a confiança dos índios e, em especial, do segmento mais jovem das populações indígenas. O fato está registrado na obra Tratado da terra e gente do Brasil, escrita pelo Padre Fernão Cardim, em 1584.
No carnaval, os caboclinhos (filhos de caboclos ou descendentes de índios) são representados por meninos e adolescentes, de dez a quinze anos de idade, com os corpos pintados com ocre, usando tangas, cocares, braceletes de penas de peru, brincos feitos de conchas, dentes ou sementes, colares, machadinha, arco e flecha e cocares de penas. Eles se apresentam em grupos de, no máximo, vinte participantes. É o caboclo velho - um adulto considerado rei ou mestre - quem os comanda. Em movimentos sincronizados, os brincantes acionam arcos e flechas de madeira, e dançam ao som de instrumentos indígenas: maracás, recorrecos e pífanos. No Rio Grande do Norte, porém, os caboclinhos são bem diferentes: não usam penas no vestuário, não utilizam arco e flecha como instrumento de guerra, mas, para dar ritmo às danças, não restringem as apresentações ao período do carnaval, e apresentam maior vibração e alegria em suas performances.
Uma das representações folclóricas nordestinas mais importantes é o bumba-meu-boi. Tudo leva a crer que esse folguedo foi introduzido, no século XVI, no período do ciclo econômico do gado. Segundo os estudiosos, apesar de não possuir origem africana, é um espetáculo integrado por negros. Nele, percebe-se seu conformismo com a inferioridade social, sua condição
de subalternidade, que é transformada em comicidade.

 

 

 

 

No que se refere às danças folclóricas nordestinas, o coco de roda se destaca. Trata-se de uma dança mestiça surgida em Alagoas, nos tempos coloniais. Nela, duas raças de escravos - africanos e índios - se misturam. O ritmo do coco é dado por zabumbas, pandeiros e tamborins. As mãos, contudo, representam o mais importante instrumento musical. O coco de roda
era a dança preferida por Lampião e demais cangaceiros. Por essa razão, a música registrada a seguir ficou tão popularizada:


É Lampe, é Lampe, é Lampe,
é Lampe, é Lampe, é Lampião,
seu nome é Virgulino e
o apelido é Lampião.
 


Advinda do período do Brasil Colônia, o reisado é uma dança popular de origem portuguesa, profana e religiosa, festejada na véspera e no Dia de Reis.
No período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, os participantes vão de porta em porta, fazendo louvações nas casas e anunciando a chegada do Messias. Tudo isso, ao som de músicas tocadas por sanfonas, ganzás, pandeiros, zabumbas e triângulos. No desenrolar do folguedo, observam-se as seguintes etapas:

1) a reunião dos brincantes;

2) a chegada às casas;

3) o pedido de abertura de portas;

4) o ato religioso diante das lapinhas ou presépios, quando são rezados e cantados alguns textos rimados;

5) o regresso dos figurantes para o lado de fora das casas; e

6) a morte e a ressurreição do boi;
e 7) a despedida.
Alguns figurantes do reisado são encontrados, também, no bumba-meu-boi: o Rei, a Rainha, o Mateus, o Mestre e o Contramestre, o Governador, o Palhaço, o Índio Peri, a Sereia, e certos personagens de aspecto fantasmal. Em Alagoas, os participantes se apresentam com chapéus bordados e enfeitados com estrelas, além de fitas douradas e pequenos espelhos, que funcionam como amuletos para espantar o mau olhado.
Representando, uma dança e uma espécie de luta, ao mesmo tempo, a capoeira surgiu no Nordeste, introduzida por escravos africanos. Ela se difundiu, depressa, em Salvador e, um pouco, no Recife e no Rio de Janeiro. A capoeira é executada ao som de pandeiros, cantos, palmas e, especialmente, do toque do berimbau. Originário da África, este instrumento compõe-se de um arco de madeira, com cerca de um metro e meio de comprimento, uma corda de arame, uma caixa de ressonância (feita com uma cabaça cortada e amarrada com cordão), uma cesta com sementes de caxixi, uma vara pequena de madeira para percutir a corda, e uma moeda pesada. Depois de elaborado um semicírculo, duas pessoas entram no meio dele e iniciam os gingados, maneios de corpo, rasteiras, golpes e contragolpes rápidos. Há que se ter cuidado, entretanto, porque certos golpes de capoeira são capazes de matar.
Dentre as principais festas nordestinas, destaca-se a de São João. No mês de junho, todos dançam o forró, uma dança de pares, muito animada, cuja música foi consagrada pela dupla de compositores Luiz Gonzaga e José Dantas. Durante as festividades do ciclo junino, as pessoas costumam vestir “roupas de matuto”: roupas simples, bem coloridas, confeccionadas com tecidos de chita (pouco dispendiosa). As mulheres se enfeitam com grandes tranças nos cabelos, presas por laços de fita e usam chapéu de palha. Além disso, vestem saias largas, cheias de babados e calçam sapatos (com meias). Os homens pintam bigodes e cavanhaques, com carvão, trazem um cachimbo na boca, como se estivessem fumando, vestem calças remendadas,
camisas coloridas, e colocam um chapéu de palha na cabeça.
As festas juninas se concentram em torno de três datas principais: no dia 13 de junho comemora-se a festa de Santo Antônio; no dia 24 de junho é a festa de São João; e, no dia 29 de junho, tem-se a festa de São Pedro. O sentido religioso da festa junina, da mesma forma que as demais comemorações de origem pagãs, foi introduzido pela Igreja Católica, no período do Brasil Colônia.
A festa de São João tem seu início na noite do dia 23 de junho. Nesse dia, vêm-se as ruas enfeitadas com bandeirinhas coloridas, fogueiras acesas, a presença de comidas à base de milho (canjica, pamonha e munguzá) e/ou de massa de mandioca (bolo Souza Leão, bolo de macaxeira e pé de moleque), sendo o tempo de soltar balões e queimar fogos de artifício.
Uma das danças típicas de São João é a quadrilha: uma dança de salão dos nobres franceses, que empolgou as cortes europeias dos séculos XVIII e XIX e, chegou ao país, mediante a bagagem lusa. Posteriormente, difundiu-se pelas províncias, tendo se fixado nas regiões rurais. No presente, essa dança de pares possui um marcador que, através de comandos, em um linguajar que, ora mistura o francês, com palavreados matutos e, ora utiliza palavras em francês, em português, ou em ambas as línguas, dirige toda a performance. Os comandos são os seguintes: anarriê (em francês, en arrièrre) - os pares devem retornar aos seus lugares e os cavalheiros devem ficar à frente das damas; olha a chuva; traverser de cavalheiros; balancer na grande roda (dançar na grande roda); traverser de damas; alavantú (em francês, en avant, tout) os pares devem se dirigir ao centro da quadrilha, de mãos dadas, e formar uma grande fila; autre fois (de novo); preparar para o túnel; balancer (dançar no lugar); changer de damme (trocar de dama); retourner aos seus lugares (voltar aos seus lugares); preparar para o galope; retirer (ir embora); e c’est fini (acabou). Na quadrilha, também é encenado o casamento matuto. Um homem é preso porque engravidou sua namorada e tenta (em vão) fugir das obrigações matrimoniais. Sob a ameaça de uma arma de fogo, um policial leva o homem como prisioneiro, obrigando-o a se casar. Com um longo sermão, o padre celebra o casamento e abençoa os noivos. As pessoas assistem ao espetáculo fazendo uma grande roda em volta dos participantes.
O forró é outra dança (de pares) típica do ciclo junino. Há quem afirme que a palavra forró teve sua origem em 1872, durante a presença inglesa, na Região Nordeste, em especial da Great Western of Brazil Railway Company Limited, uma empresa pertencente a capitalistas ingleses, encarregada de construir e explorar as estradas de ferro (em direção ao agreste nordestino), e cuja concessão finalizou em 1975. Na época, objetivando comemorar a inauguração de sua primeira estrada de ferro, aquela Companhia promoveu um baile, animado por sanfonas e zabumbas, difundindo-o através de um cartaz onde se lia: for all (que significa, em inglês, para todos). Acredita-se que, a partir daí, as pessoas começaram a chamar aquela dança de foróu, e o termo findou se transformando na palavra forró. Durante todo o mês de junho, há festejos nas cidades de Campina Grande (na Paraíba) e Caruaru (em Pernambuco). Esses dois municípios competem pelo título de “Capital do Forró”.
Uma das grandes atrações turísticas da festa de São João é o Trem do Forró. Durante o período junino, esse Trem sai da Praça do Marco Zero, no bairro do Recife, em direção ao Cabo de Santo Agostinho, e faz um percurso de quarenta e dois quilômetros. Trazendo conjuntos musicais, em seus vagões, o trajeto é todo animado por sanfonas, zabumbas e triângulos, e as pessoas que se encontram nas estações ferroviárias se aglomeram para saudar os passageiros. Os participantes do Trem do Forró dançam e cantam durante todo o percurso da viagem.
Em Caruaru, uma grande atração popular de São João é a Caminhada do Forró. Trata-se de uma procissão dançante e cantante, que sai do Pátio de Eventos, no dia 9 de junho, e tem como destino final o Alto do Moura, localidade onde viveu o Mestre Vitalino. O objetivo da caminhada de quinze quilômetros é a degustação do “Maior Cuscuz do Mundo”, oferecido aos
brincantes, gratuitamente, no fim do percurso. O cuscuz é cozido em uma enorme cuscuzeira, com capacidade para trezentos quilos de massa, e mede 3,3 metros de altura por 1,5 metros de diâmetro, sendo feito com os seguintes ingredientes: 300 quilos de massa de flocos de milho, 20 quilos de farinha de mandioca, 5 quilos de sal e 10 quilos de margarina. A iguaria é servida com leite de cabra e carne ensopada de bode. Em sua edição de 1997, o Guiness Book publicou, em destaque, o “Maior Cuscuz do Mundo”. Segundo os registros, em 1995, Caruaru preparou um cuscuz que pesou seiscentos quilos.
De origem europeia, o carnaval é a maior de todas as festas. No Recife Antigo e em Olinda, e em grande parte das capitais nordestinas, dança-se o frevo. No Centro do Recife, na véspera do carnaval oficial (no sábado) sai o maior bloco do mundo: o Galo da Madrugada. Esse bloco arrasta mais de um milhão de pessoas: sai do Forte das Cinco Pontas, passa pela Avenida Dantas Barreto e finaliza na Avenida Guararapes. Do seu cortejo, fazem parte muitas embarcações, que desfilam pelo rio Capibaribe.
No carnaval em Salvador, a multidão acompanha os trios elétricos vestida com abadás, e ao som de música axé. Alguns municípios do Nordeste comemoram, inclusive, um segundo carnaval, fora de época. No Recife, ele é chamado Recifolia; e, em Campina Grande, é denominado Micarande. O carnaval fora de época incrementa o turismo, gera empregos e ativa o
mercado de trabalho.
Várias manifestações folclóricas são encontradas na Medicina Popular. Em primeiro lugar, destacam-se as benzeduras, que utilizam rezas ou orações feitas por mulheres e homens considerados rezadores, benzedores, e curadores. Há preces específicas para estancar o sangue, separar o sangue puro do impuro, estancar hemorragia uterina, combater espinhela caída, curar dor de dente, queimaduras de fogo, dores nas costas, cobreiro e engasgo. Em caso de erisipela, são feitas benzeduras em forma de cruzes, com ramos de manjericão, vassourinha, ou arruda. Para se curar o cobreiro, basta cercá-lo com pequenas cruzes, feitas com tinta preta, e proferir uma determinada oração. Para combater a tosse, causada pela coqueluche, utiliza-se um lambedor preparado à base de leite de jumenta, xarope de caroço de algodão e casca de juazeiro. Em caso de sarampo, aconselha-se beber chá de sabugueiro puro. Nos meios rurais mais incultos, as pessoas utilizam um chá que é feito das fezes (ressequidas) de cachorro. O reumatismo é tratado com uma canja insossa de carne fresca de raposa, banha morna de cágado, e carne e banha de cobra cascavel (em particular, essa banha deve ser ingerida em pequenas porções, duas a três vezes ao dia, e aplicada à noite, como unguento, sobre as partes afetadas). As hemorragias são combatidas com aplicações tópicas de esterco de vaca, cavalo, burro e jumento. 

 

 

 

 

No tocante ao cangaço, cabe ressaltar que, de figuras históricas que, por décadas, aterrorizaram os Estados nordestinos, os cangaceiros se transformaram em figuras folclóricas. Lampião e Maria Bonita estão presentes na música ( xaxado, coco e forró), na literatura de cordel, no cinema, no teatro, no vestuário (roupas e utensílios de couro) e no artesanato nordestino (através de bonecos de barro, de um modo geral).
O Nordeste possui uma culinária rica e variada. Neste laboratório de receitas, processos e sabores, onde o sal do mar e o sol forte do sertão dão um sabor peculiar aos alimentos, destacam-se os seguintes pratos: peixada, sirizada, quiabada, moqueca de peixe, pirão de peixe, casquinho de caranguejo, sururu ao coco, fritada de aratu, buchada de bode (bucho recheado), e galinha de cabidela. Nas zonas rurais, come-se tanajuras fritas: uma espécie de formiga que tem a parte posterior do corpo muito protuberante, e é considerada um petisco especial e saboroso. E, nas ruas, encontram-se ambulantes que vendem munguzá, cuscuz, milho cozido, pamonha, canjica, dentro de carrinhos contendo panelões, bem como pessoas que vendem cavaquinho, rolete e caldo de cana, pipocas doce e salgada, rapadura, tapioca, cocada e algodão doce. Também nas ruas, em
Salvador, a herança africana da cozinha baiana merece ser ressaltada: mulheres negras, com roupas típicas e grandes tabuleiros, mantêm suas famílias vendendo abarás cozidos em folhas de bananeira, e acarajés fritos no azeite de dendê, servidos com muito molho de pimentas, camarão seco, vatapá e caruru.
A cozinha pernambucana, por sua vez, contém comidas deliciosas, tais como buchada de bode, dobradinha, rabada, cabrito assado e guisado, galinha à cabidela, paçoca (feita com charque e farinha de mandioca), guaiamunzada com pirão, pratos à base de milho (canjica, pamonha, bolo de milho, angu, munguzá, milhos cozido e assado), tapiocas (molhadas, de coco e de queijo coalho), caldinhos de feijão, de peixe e de camarão, e grande variedade de sucos, sorvetes e doces de frutas regionais: pitanga, acerola, caju, goiaba, siriguela, cajá, graviola, mangaba, carambola, mamão, coco, pinha, sapoti, maracujá e manga.
Já no Maranhão encontram-se os seguintes pratos típicos: arroz de cuxá, frigideiras de camarão, doces de buriti, bacuri, cupuaçu e murici. Nesse Estado, quase todos os pratos usam o camarão. No Piauí, encontram-se peixes fritos em óleo de babaçu, paçoca (feita de carne de sol assada, socada no pilão, misturada com farinha e cebolinha branca), e cafofa (uma fritura de intestinos de animais). Em Alagoas, além de inúmeras iguarias, destaca-se o saboroso feijão de coco. E, no Ceará, o baião de dois (feijão mulatinho, arroz e queijo de coalho, cozidos juntos na mesma panela) possui a mesma popularidade que, o acarajé, para os baianos.
No Nordeste, pode-se saborear uma série de doces que são transmitidos, oralmente, de geração a geração, e vendidos em feiras e mercados públicos, tais como doces de umbu, araçá, mamão verde, jerimum, goiaba, jaca, banana em rodelinhas, cajuadas,
goiabadas, além do tradicional bolo de rolo, uma herança portuguesa, (camadas de bolo recheadas com goiabada derretida, doce de leite ou chocolate), bolinhos de goma e bolos de bacia. Nas praias, entre outras iguarias, encontram-se: água de coco, passa de caju, peixe frito, camarão cozido, casquinho de caranguejo, espetos de queijo coalho e de carnes (assados em um braseiro que os vendedores ambulantes transportam).

 

 

 

O artesanato nordestino apresenta-se criativo e diversificado, dele fazendo parte redes, talhas e esculturas em madeira, rendas, vários tipos de cerâmica (utilitária, decorativa e lúdica), cestarias, xilogravuras (gravadas em papel, em azulejos, em camisas),
trabalhos em fibra, couro, pedras, mariscos, chifres, zinco, sementes, grãos e sucatas diversas. A arte de tecer rendas é uma herança que os colonizadores europeus deixaram no país. Surgiu, então, a figura da mulher rendeira: uma atividade desenvolvida por mulheres, em âmbito doméstico, e que representa uma fonte de renda para a população feminina. As noivas
apreciam muito as rendas e costumam encomendá-las para seus enxovais; e, os padres, usam-nas em seus paramentos. Há rendas elaboradas com vários tipos de pontos: caroço de arroz, meia lua, flor de goiabeira, traça, caracol, margarida e bico de pato.
O folclore nordestino conta com a presença de poetas populares e trovadores. Nas feiras e mercados públicos, encontram-se poesias que vêm sendo publicadas sob a forma de literatura de cordel. Os folhetos (reproduzidos em oficinas tipográficas) contêm, nas capas, xilogravuras elaboradas por vários artistas.
É importante destacar alguns poetas populares do Nordeste, os reais profetas de versos, tais como Catullo da Paixão Cearense (conhecido, inclusive, no exterior do país); Leandro Gomes de Barros (um dos principais expoentes da arte cordelística); Antônio Gonçalves da Silva (apelidado Patativa do Assaré, que nasceu e viveu no município de Assaré, no Ceará); José Saturnino dos Santos (um pernambucano, chamado Andorinha); os paraibanos Leandro Gomes de Barros (apelidado Pombal), Sebastião Marinho, Pedro Bandeira (o Príncipe dos Poetas do Nordeste) e Zé Limeira, oriundo de Taperoá. Seguem, abaixo, alguns versos produzidos por eles:


Do cordel para o repente,
É diferente o traçado,
Porque o cordel é escrito,
E o repente é improvisado,
O cordel tem de ser lido,
E o repente cantado.
(Andorinha)
Repentista respeitado,
Narra, canta e profetiza,
Gera mito, cria lei,
Forma lenda e faz pesquisa,
Cantador faz tudo isso,
Inda canta e improvisa.
(Sebastião Marinho)
O nordestino é quem bota,
Esse São Paulo pra frente,
Fez de Maluf prefeito,
De Itamar presidente,
Inda tem cabra safado,
Que marginaliza a gente.
Vamos chegar a 2000,
Com muitos descamisados,
Na farsa dos presidentes,
Na gula dos deputados,
Nosso Brasil inda vive,
De pés e mãos amarrados.
(Pedro Bandeira)

 

 

 

 

De fabricação doméstica, outro elemento folclórico é o pirulito, um doce feito à base de açúcar, em forma de cone, que é enrolado em papel de embrulho, para não grudar nas mãos das pessoas. Para transportar os pirulitos, os vendedores utilizam um cabo de vassoura, em cuja extremidade pregam uma pequena tábua de pinho, cheia de buracos e, neles, encaixam os pirulitos. O ambulante apóia o cabo de vassoura no ombro e circula pelas ruas, emitindo sons advindos de um apito de madeira, que é o chamariz para avisar a todos que os pirulitos estão à venda.

 

 

 

 

Do caldo étnico que integra o folclore nordestino, fazem parte, ainda, cantadores de violas, amoladores de facas, de tesouras e alicates de unha, vendedores de algodão doce, cavaquinho, vassoura, cuscuz, colher de pau, “japonês” (um tipo de doce de coco com açúcar, mais mole que a cocada) e “raspa raspa” (uma espécie de sorvete, vendido a retalho), enfim, todas aquelas pessoas que, na luta diária pela sobrevivência, propagam hábitos e tradições locais, e preservam, sem qualquer intenção, as idiossincrasias da cultura popular regional.

 

 

para SEBO LITERÁRIO-SEMIRA ADLER                                                                                                                    para IARA