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SEBO LITERÁRIO
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Analisando-se a história
da humanidade, é
possível perceber que a figura da mulher peixe vem
sendo bastante utilizada. Na Antiguidade, esse mito se
apresentava com o corpo de pássaro, e com busto e
rosto de mulher. Estava sempre associado, também,
às divindades da morte e ao culto dos mortos, o que
pode ser evidenciado por intermédio das estátuas de
sereias presentes nos sepulcros. Com o passar do
tempo, sua forma se transformou e a metade pássaro
foi substituída por uma cauda de peixe. Atualmente,
as sereias são chamadas de mermaid, na Dinamarca;
sirena, na Espanha; loreley, na Alemanha; e nereidas,
na Grécia.
A mulher peixe chegou ao país, depois do
Descobrimento, através dos colonizadores europeus.
Estes, além da presença física, da língua e dos hábitos,
trouxeram, ainda, os seus valores, mitos, lendas
e superstições. Neste sentido, a herança cultural
européia misturou-se com as culturas indígenas e
africanas, conhecimentos e valores foram permutados,
e surgiu, através do sincretismo, um amálgama sui
generis. Na Região Norte, em particular, a permanente
interação com rios e igarapés, por parte dos caboclos,
deu origem a várias lendas que evidenciam elementos
representativos da vida e da morte. E a iara, uma das
mais belas figuras aquáticas, é uma delas.
Para os índios, iara significa senhora das águas
ou ninfa das águas. Também é chamada de uyára e,
em tupi, de uauyára, representando uma figura de
dupla imagem, que pode ser, tanto feminina, quanto
masculina. De acordo com os nortistas, ela habita nos
rios e em seus afluentes, mas, só aparece diante de
homens solteiros, ou daqueles que estão prestes a se
casar. Sendo metade peixe e metade mulher, ela pode
ser observada penteando os cabelos, cantando ou,
simplesmente, conversando com algum homem que
passa. O pretenso parceiro, como se estivesse sob
efeito hipnótico, é levado para as águas profundas, logo
morrendo afogado.
De acordo com pesquisadores, a iara representa
a simbiose encantada de uma mulher tentadora: possui
um bonito rosto europeu, com cabelos louros e traços
delicados, uma cauda de peixe sempre submersa,
com escamas de várias cores, e uma voz maravilhosa.
Através do seu canto, ela exerce uma atração irresistível
junto aos homens, conseguindo arrastá-los para o fundo
das águas. Tal figura mitológica foi difundida no país,
após o século XVII.
Outros estudiosos creditam a lenda da iara às
leituras que os colonizadores lusos empreenderam dos
autores clássicos, a exemplo de Virgílio (Eneida), de
Heródoto (Epítetos) e de Homero (Ilíada e Odisséia). Em
seus trabalhos, todos eles se referiram à figura sedutora
e fatal daquele mito, ora sob forma de mulher, de ave,
ora sob forma de anfíbio. Desse modo, os portugueses
absorveram as lendas marítimas e repassaram-nas
à população brasileira. É provável, então, que exista
um elo entre a iara brasileira e as sereias, que foram
ressaltadas pelos autores clássicos.
É importante lembrar que o poeta Luís de
Camões, no século XVI, em Os Lusíadas, mencionou,
diversas vezes, a presença de sereias na rota das
navegações. E os tesouros e palácios, ofertados
pela iara, vêm corroborar com a forte presença de
uma cultura importada - a européia - uma vez que os
indígenas (excetuando-se aqueles que não absorveram
os elementos culturais dos colonizadores) jamais
possuíram qualquer referencial de riqueza. Este foi
introduzido pelos europeus que aqui vieram.
No tocante à iara, de acordo com Câmara
Cascudo (1972), houve toda uma contribuição dos
escravos negros, destacando-se a Kianda, a sereia
africana; a figura poderosa de Osum, o Orixá dos rios,
lagos e lagoas da teogonia negra; e a cultuada Iemanjá,
que os afro-descendentes reverenciam como a divina
Mãe D´água ou Aiocá, deusa das águas, sereia do mar,
ou Orixá feminino das águas. Por outro lado, a Iemanjá
personaliza a água salgada: tem na concha do mar o
seu fetiche, e protege quem vive do mar ou depende de
amores. Ela possui muitos amantes, mas, os carrega
para o fundo do mar. Também é ciumenta, vingativa e
cruel, como todas as égides primitivas. Grande protetora
das viagens marítimas e dos pescadores, a Iemanjá
passou pelo processo sincrético das deusas marinhas.
E, graças ao sincretismo cultural ocorrido no país, ora
ela é considerada como Nossa Senhora do Rosário, ora
é tida como Nossa Senhora das Candeias.
No Norte do Brasil, existem várias lendas
referentes à iara. Uma delas ressalta que ela é tão
bonita, e possui uma voz tão linda, que enfeitiça todos
os homens. Seu canto representa a própria perdição
dos pescadores. Quem olhar para a superfície dos rios
e vir a iara, de imediato, sentir-se-á atraído por ela,
sendo arrastado para o seu palácio de cristais verdes,
no fundo das águas, e encontrará a morte, através de
núpcias funestas.
Outra versão dessa lenda registra a história de
uma sereia que vivia no fundo dos rios e igarapés, à
sombra das florestas virgens. Certa noite, um índio
sonhou com uma bela jovem de cabelos louros, olhos
azuis e pele muito branca, que morava em um castelo
de cristal, coberto de ouro e safiras, e de onde provinha
uma música celestial. Com tantos atrativos, logo caiu
de amores pela sereia, principalmente após ter ouvido o
seu canto e suas juras de amor eterno. Navegando pelo
rio, ele percebeu que, sobre as águas, se formou uma
choupana e, em seguida, sorrindo-lhe, surgiu a iara.
Apaixonado e enfeitiçado como estava, o índio dirigiu-se
à choupana, remando com sua canoa. Naquele
preciso momento, porém, a sereia o agarrou e, juntos
mergulharam para nunca mais voltar.
Registra outra lenda corrente que havia um
belo índio tapuio, filho de um tuxaua valente e ousado,
que vivia sempre triste, apesar de saber manejar a
zarabatana com destreza, de brandir o tacape e retesar
o arco com mais coragem do que todos, de representar
o orgulho da tribo, de ganhar os jogos que celebram as
festas, e de os próprios anciãos se curvarem perante
ele, em sinal de respeito. Sua mãe lhe perguntou, então,
o porquê de tanta tristeza. Ele explicou que tinha visto
uma jovem belíssima, com uma voz harmoniosa, lindos
olhos verdes e cabelos louros como o ouro, presos por
flores de mureré. A jovem lhe estendera os braços,
como se quisesse neles se entrelaçar, e, cantando,
desaparecera nas águas do igarapé.
Ao ouvir os lamentos do índio, a mãe pediu-lhe,
chorando: “Por favor, meu filho, não volte mais ao
igarapé. A mulher que você viu, ali, é a iara, o seu sorriso
é a morte, não ceda aos seus encantos.” Entretanto, o
tapuio não seguiu os conselhos maternos. Ao pôr-do-sol,
integrantes da tribo viram e ouviram, de longe, uma
mulher cantando e, ao seu lado, o vulto de um homem.
Quando um índio mais corajoso ousou se aproximar
do local, rapidamente, as águas do igarapé se abriram,
e, nelas, sereia e tapuio mergulharam. Escusado dizer
que o índio jamais retornou à sua aldeia.
Outra versão da lenda da iara relata que um
rapaz, prestes a se casar, adormeceu perto de um
rio. Era noite de lua cheia, havia luz no firmamento, e
as matas estavam mais iluminadas do que em noites
anteriores. De repente, o rapaz foi despertado por uma
voz, que o chamava pelo nome. Sem pensar duas
vezes, ele se dirigiu às margens do rio e encostou-se
em um tronco de ingazeiro. Olhou para as águas,
desconfiado, e distinguiu um ponto luminoso no centro
delas. Esse ponto se alargou, até alcançar grandes
proporções. Ao mesmo tempo, ele sentiu um torpor em
todo o corpo, que ameaçava paralisar-lhe os membros.
Começou a suar frio, e um grande terror surgiu em seus
pensamentos. Apesar de tudo isto, uma força imensa e
poderosa o obrigou a se concentrar na parte iluminada
das águas.
Daí, algo extraordinário ocorreu. A superfície
do rio se abriu no centro da área iluminada e, dela,
lentamente, emergiu uma jovem deslumbrante, enquanto
gotas de água pareciam formar colares de pérolas, com
o precioso banho de luz que recebiam. A pele da jovem
era da cor dos lírios, os cabelos louros, como reflexos
de ouro, os olhos transparentes, como duas pedras de
esmeralda, e os lábios eram provocantes. Prometendo
delícias e prazeres inesgotáveis, ela caminhou em
sua direção, com um olhar diabolicamente sedutor.
Estava nua, da cintura para cima, podendo-se ver seus
contornos exuberantes, de sedução e voluptuosidade
ilimitadas. Os dois se aproximaram, as defesas do
rapaz foram se dissipando, e a figura mítica beijou-lhe
a face. Nessa hora, ele percebeu que os lábios da
jovem eram úmidos e frios. Mas, não houve tempo para
reagir. Naquele instante, o rapaz escorregou e caiu na
água. Antes que afundasse, porém, ele desmaiou. Por
sorte, alguém que passava pelo rio, conseguiu tirá-lo
das águas. Salvo por milagre, trêmulo e abatido, ele
contou a todos: fora a iara, a linda jovem que possuía
um irresistível magnetismo e os braços assassinos.
Às vezes, dizem que a iara pode se apresentar,
também, sob a forma masculina, como no mito do
boto que, à noite, se transforma em um homem muito
formoso e educado, vestido de branco, e atrai as
caboclas para o seu palácio encantado, no fundo das
águas, matando-as afogadas. Os nortistas utilizam o
mito do boto para arrefecer a ira dos maridos traídos e
a dos pais enganados (quando suas mulheres ou filhas
engravidam) e creditam a fuga ou o desaparecimento
de seus entes queridos ao poder de sedução da iara.
Em outras palavras, quando alguém desaparece,
quem leva a culpa é sempre a bela sereia. Contudo,
o simbolismo mais propagado da iara é o da sedução
mortal. No Norte, a crença é tão forte que, ao anoitecer,
muitas pessoas não se atrevem a passar perto de rios
e igarapés. Para se livrar daquela sedução, dizem as
pessoas, é necessário comer muito alho, ou esfregá-lo
por todo o corpo.
Todas essas lendas, que fazem parte do folclore
brasileiro, já serviram de fonte de inspiração para
poetas, escritores e artistas, tais como Olavo Bilac, José
de Alencar, Afonso Arinos, Melo Moraes Filho, Manuel
Santiago e Coelho Neto, que incluíram a iara (e outras)
em seus poemas, sonetos, contos e pinturas.
É importante deixar registrado, por fim, que os
índios brasileiros possuem representações e mitos
aquáticos, porém, que, nenhum deles, incorpora as
qualidades malignas e fatais da iara. Na verdade,
eles sempre procuram algum remédio para combater
as maldades, sublimando, inclusive, a própria morte.
Em seu imaginário, os rios e igarapés representam
uma fonte de sobrevivência e, não, um caminho para
a morte. E como não reprimem a própria sexualidade,
eles também não sentem necessidade de criar figuras
sensuais como a iara. Quando os índios citam a beleza
das cunhãs, estão enaltecendo tal qualidade como
referência estética e, não, como objeto de libido. A
mãe d’água indígena, contrariamente à iara, é uma
figura bondosa e importante: como a guardiã dos rios,
ela se materializa nas plantas e flores aquáticas, que
alimentam todos os seres vivos de água doce.
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