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SEBO LITERÁRIO
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A macambira é
encontrada da Bahia ao Piauí, nas caatingas do Nordeste do Brasil. A
planta herbácea, da família das Bromeliáceas, cresce debaixo das
árvores, ou em clareiras, possui raízes finas e superficiais, folhas que
podem atingir mais de um metro de comprimento, por vinte centímetros de
largura, espinhos duros, e um rizoma que fornece uma forragem de ótima
qualidade.
Em se tratando de cor, a macambira pode ser verde claro, verde mais
escuro, verde cinza, violácea ou amarela, dependendo, entre outros
fatores, da umidade do ar e do solo. Em locais mais abertos e expostos
ao sol, a face ventral das folhas é de cor violácea, ou roxo escuro.
Possuindo raízes superficiais, a planta se desenvolve nas terras mais
áridas dos Trópicos, possui umidade suficiente para resistir às duras
secas, e se alimenta do ar atmosférico. Seus frutos, de cor amarela
quando maduros, assemelham-se a um cacho de bananas pequenas e exalam um
odor ativo e característico. Suas bagas medem de três a cinco
centímetros de comprimento, e têm um diâmetro que varia de dez a vinte
milímetros.
Do limbo das folhas da macambira, os sertanejos retiram as fibras
aproveitáveis. Com golpes precisos de facão, os espinhos são aparados.
Em seguida, juntam-se as folhas para formar grandes feixes, e eles ficam
macerando durante vários dias. Quando amolecem as partes fermentáveis,
as folhas são retiradas da maceração, batidas, espremidas, lavadas e
colocadas em jiraus para secar ao sol. Todo esse processo exala um forte
mau cheiro, tendo que ser feito bem longe das casas. Caso seja realizado
às margens dos rios, os pequenos peixes não resistem, e morrem como se
estivessem intoxicados.
Existe, ainda, outro processo para se extrair as fibras da macambira.
Trata-se de um método árduo, através do qual a folha é arrastada sobre o
arame de um aparelho conhecido por tiralinho; depois, é esmagada e
passada entre os dentes de um pente metálico, para se retirar toda a
parte mole. A partir daí, as fibras descobertas são lavadas, penteadas,
e colocadas para secar.
Nas áreas de sequeiro, as folhas da macambira são utilizadas, também,
para cobrir as casas. Elas são amarradas em forma de molhos e, durante
uma semana, colocadas para murchar. Daí, os molhos são agregados uns aos
outros, fortemente atados com cipós, ou ligados por meio de pregos
batidos. A seguir, eles são dispostos em camadas superpostas, da
biqueira da casa até a cumieira, o que deixa os telhados com uma ótima
aparência.
Outra atividade, realizada pelos sertanejos, é a extração da massa da
base dilatada das folhas (capas). As folhas são cortadas, no ponto em
que começam a alargar, para se alcançar a “cabeça” da macambira. As
“cabeças” são amarradas, umas às outras, formando-se atilhos, que os
burros transportam em suas cangalhas; ou os próprios caboclos carregam
nos ombros, quando não dispõem de animais de carga.
O trabalho de apara é bem árduo: há que se retirar os espinhos, recortar
as bordas, e fazer a despela, ato que consiste em levantar a epiderme,
guarnecida de forte cutícula, com a ponta de uma faca. E as capas são
piladas para separar a fécula das fibras. A massa bruta é batida,
espremida e lavada em água, várias vezes. Isto deixa as pessoas com os
dedos feridos, devido à ação corrosiva presente nela. Após a decantação,
a massa, de cor branca, é envolvida em um pano, passada em uma prensa
rudimentar para escorrer o restante de água, e colocada ao sol para
secar. Com essa massa, os sertanejos fazem um tipo de
pão semelhante ao pão de milho, em uma cuscuzeira. Costumam adicionar um
pouco de farinha de mandioca àquela massa, para aumentar sua liga e
diminuir o travo, no gosto. A massa é comida, ainda, em forma de pirão,
com leite, ou carnes, que advêm da caça de animais presentes na fauna
das caatingas: cotias, gambás, tatus, tejus, veados catingueiro, preás e
aves (pombo, asa branca, quenquém, juriti, entre outros). A massa da
macambira pode ser estocada por mais de um ano. Em períodos de penúria
extrema, o sertanejo dela se utiliza para sua sobrevivência e a dos
rebanhos.
Dizem que, em tempo de secas prolongadas, se ingerida somente com água e
sal, a massa produz inchaço. Por essa razão, criou-se a expressão:
“inchado de tanto comer macambira”.
A farinha da macambira é composta, em sua maior proporção (63,1%), de
amido, uma substância química parecida com a da farinha de mandioca. Seu
teor protéico, porém, é bem mais elevado, estando próximo ao das
farinhas de milho e de arroz. Ela é muito rica em cálcio, sendo quinze
vezes mais elevado que o do leite, e três vezes mais alto que o do
queijo. É uma das farinhas mais nutritivas do mundo.
Em se tratando dos rebanhos, é importante registrar que, comendo um
quilo desse alimento, os animais podem acumular, até, 248 gramas de
gordura. Os vaqueiros ressaltam outra vantagem: o gado que come as
flores e os frutos da macambira não sente necessidade de ir ao
bebedouro.
Por sua vez, com o farelo do caule da macambira, uma parte bastante
nutritiva da planta, os sertanejos alimentam seus animais domésticos,
tais como galináceos e suínos.
As caatingas têm sofrido muitas agressões ambientais ao longo dos
séculos - desmatamentos, queimadas, substituição de espécies vegetais
nativas - o que causa sérios problemas à fauna, à presença e à qualidade
da água, ao equilíbrio do solo e do clima. Isto tudo provoca estiagens
cada vez mais prolongadas, desertificação e degradação ambiental.
Nos sertões nordestinos, aquela bromélia possibilita que seres humanos e
rebanhos deixem de sucumbir diante da escassez crônica de água. É uma
das poucas plantas que pode ser aproveitada, na prática, em sua
totalidade. A macambira representa uma tábua de salvação para as áreas
de sequeiro e, portanto, precisa ser devidamente pesquisada e
preservada.
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