Sebo - Semira Adler Vainsencher-MACAMBIRA

http://www.huffingtonpost.com

SEBO LITERÁRIO

autor

 

 

A macambira é encontrada da Bahia ao Piauí, nas caatingas do Nordeste do Brasil. A planta herbácea, da família das Bromeliáceas, cresce debaixo das árvores, ou em clareiras, possui raízes finas e superficiais, folhas que podem atingir mais de um metro de comprimento, por vinte centímetros de largura, espinhos duros, e um rizoma que fornece uma forragem de ótima qualidade.
Em se tratando de cor, a macambira pode ser verde claro, verde mais escuro, verde cinza, violácea ou amarela, dependendo, entre outros fatores, da umidade do ar e do solo. Em locais mais abertos e expostos ao sol, a face ventral das folhas é de cor violácea, ou roxo escuro.
Possuindo raízes superficiais, a planta se desenvolve nas terras mais áridas dos Trópicos, possui umidade suficiente para resistir às duras secas, e se alimenta do ar atmosférico. Seus frutos, de cor amarela quando maduros, assemelham-se a um cacho de bananas pequenas e exalam um odor ativo e característico. Suas bagas medem de três a cinco centímetros de comprimento, e têm um diâmetro que varia de dez a vinte milímetros.
Do limbo das folhas da macambira, os sertanejos retiram as fibras aproveitáveis. Com golpes precisos de facão, os espinhos são aparados. Em seguida, juntam-se as folhas para formar grandes feixes, e eles ficam macerando durante vários dias. Quando amolecem as partes fermentáveis, as folhas são retiradas da maceração, batidas, espremidas, lavadas e colocadas em jiraus para secar ao sol. Todo esse processo exala um forte mau cheiro, tendo que ser feito bem longe das casas. Caso seja realizado às margens dos rios, os pequenos peixes não resistem, e morrem como se estivessem intoxicados.
Existe, ainda, outro processo para se extrair as fibras da macambira. Trata-se de um método árduo, através do qual a folha é arrastada sobre o arame de um aparelho conhecido por tiralinho; depois, é esmagada e passada entre os dentes de um pente metálico, para se retirar toda a parte mole. A partir daí, as fibras descobertas são lavadas, penteadas, e colocadas para secar.
Nas áreas de sequeiro, as folhas da macambira são utilizadas, também, para cobrir as casas. Elas são amarradas em forma de molhos e, durante uma semana, colocadas para murchar. Daí, os molhos são agregados uns aos outros, fortemente atados com cipós, ou ligados por meio de pregos batidos. A seguir, eles são dispostos em camadas superpostas, da biqueira da casa até a cumieira, o que deixa os telhados com uma ótima aparência.
Outra atividade, realizada pelos sertanejos, é a extração da massa da base dilatada das folhas (capas). As folhas são cortadas, no ponto em que começam a alargar, para se alcançar a “cabeça” da macambira. As “cabeças” são amarradas, umas às outras, formando-se atilhos, que os burros transportam em suas cangalhas; ou os próprios caboclos carregam nos ombros, quando não dispõem de animais de carga.
O trabalho de apara é bem árduo: há que se retirar os espinhos, recortar as bordas, e fazer a despela, ato que consiste em levantar a epiderme, guarnecida de forte cutícula, com a ponta de uma faca. E as capas são piladas para separar a fécula das fibras. A massa bruta é batida, espremida e lavada em água, várias vezes. Isto deixa as pessoas com os dedos feridos, devido à ação corrosiva presente nela. Após a decantação, a massa, de cor branca, é envolvida em um pano, passada em uma prensa rudimentar para escorrer o restante de água, e colocada ao sol para secar. Com essa massa, os sertanejos fazem um tipo de
pão semelhante ao pão de milho, em uma cuscuzeira. Costumam adicionar um pouco de farinha de mandioca àquela massa, para aumentar sua liga e diminuir o travo, no gosto. A massa é comida, ainda, em forma de pirão, com leite, ou carnes, que advêm da caça de animais presentes na fauna das caatingas: cotias, gambás, tatus, tejus, veados catingueiro, preás e aves (pombo, asa branca, quenquém, juriti, entre outros). A massa da macambira pode ser estocada por mais de um ano. Em períodos de penúria extrema, o sertanejo dela se utiliza para sua sobrevivência e a dos rebanhos.
Dizem que, em tempo de secas prolongadas, se ingerida somente com água e sal, a massa produz inchaço. Por essa razão, criou-se a expressão: “inchado de tanto comer macambira”.
A farinha da macambira é composta, em sua maior proporção (63,1%), de amido, uma substância química parecida com a da farinha de mandioca. Seu teor protéico, porém, é bem mais elevado, estando próximo ao das farinhas de milho e de arroz. Ela é muito rica em cálcio, sendo quinze vezes mais elevado que o do leite, e três vezes mais alto que o do queijo. É uma das farinhas mais nutritivas do mundo.
Em se tratando dos rebanhos, é importante registrar que, comendo um quilo desse alimento, os animais podem acumular, até, 248 gramas de gordura. Os vaqueiros ressaltam outra vantagem: o gado que come as flores e os frutos da macambira não sente necessidade de ir ao bebedouro.
Por sua vez, com o farelo do caule da macambira, uma parte bastante nutritiva da planta, os sertanejos alimentam seus animais domésticos, tais como galináceos e suínos.
As caatingas têm sofrido muitas agressões ambientais ao longo dos séculos - desmatamentos, queimadas, substituição de espécies vegetais nativas - o que causa sérios problemas à fauna, à presença e à qualidade da água, ao equilíbrio do solo e do clima. Isto tudo provoca estiagens cada vez mais prolongadas, desertificação e degradação ambiental.
Nos sertões nordestinos, aquela bromélia possibilita que seres humanos e rebanhos deixem de sucumbir diante da escassez crônica de água. É uma das poucas plantas que pode ser aproveitada, na prática, em sua totalidade. A macambira representa uma tábua de salvação para as áreas de sequeiro e, portanto, precisa ser devidamente pesquisada e preservada.

 

 

para SEBO LITERÁRIO-SEMIRA ADLER                                                                                            para MAMONA