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SEBO LITERÁRIO
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Contam no Norte do
Brasil que, certa vez, a filha de um cacique engravidou e, por mais que
ele a pressionasse, na tentativa de descobrir quem a havia deflorado,
ela afirmava que nunca tinha tido relações sexuais com um homem.
Considerando-se desonrado, o cacique decidiu matá-la. Em seus sonhos,
porém, apareceu Sumé (um dos grandes Mestres dos índios) falando que ele
seria castigado se a punisse, pois a menina nada havia feito de errado.
Prontamente, o cacique obedeceu-Lhe. Passados nove meses, nasceu uma
criança branca como o leite, e completamente diferente dos membros de
sua tribo. Ela era muito linda e inteligente e, logo após o nascimento,
começou a andar e a falar, tendo sido chamada de Mani.
Acontece que Tupã (o poderoso Deus dos índios) reservara à criança o
seguinte destino: sem ter apresentado qualquer doença, e/ou se queixar
de alguma dor, Mani morreu antes de completar um ano de idade. O
cacique, então, enterrou-a em sua própria maloca e, de acordo com o
costume, todos os dias, regava o túmulo da neta. Em certa ocasião,
brotou do chão uma planta desconhecida. Nela, surgiram flores, frutos e
raízes. Os nativos, ao descascarem as raízes, viram um tubérculo tão
branco quanto Mani. E este, ao ser cozido, se transformava em um
excelente alimento.
Diante do ocorrido, os índios agradeceram a Tupã pela dádiva recebida,
deram àquela raiz o nome de Manioca, que significa casa de Mani, e
jamais deixaram de cultivá-la.
Através da fabricação do cauim (uma bebida feita com mandioca e muito
popular entre os índios,) e do beiju, a mandioca se transformou em um
dos elementos importantes da alimentação indígena. Ao longo dos anos, ao
lado do açúcar e do coco, ela foi incorporada, também, à indústria de
confeitaria e à culinária brasileira tradicional. Com o polvilho, a
“massa puba” e a carimã (a mandioca amolecida e fermentada em água) são
preparadas saborosas receitas de biscoitos, bolos, roscas, sequilhos,
mingaus, pães, tapiocas, entre outros.
A mandioca (Manihot esculenta) é uma planta leitosa, pertencente à
família das euforbiácias, que possui tubérculos produtores de amido.
Estes possuem um alto valor energético, mas, ao mesmo tempo, um baixo
teor de proteína. Foi o italiano Francisco Antônio Pigafetta, em 1519,
acompanhante da expedição de Fernão de Magalhães, em busca de um caminho
para o Oriente, que fez a primeira referência dela, na América. Antes
daquele italiano, Vicente Yanez Pinzón havia, também, feito alusões à
mandioca, mencionando sua presença do Cabo de Santo Agostinho à foz do
rio Amazonas.
Há registros de que o tubérculo é originário da Guiana Brasileira (Norte
do Amazonas e do Pará), do Sul das três Guianas (a Britânica, a
Holandesa e a Francesa) e, ainda, do Sul da Bahia e do Nordeste de Minas
Gerais. A mandioca, que representa o verdadeiro pão do Brasil, só não é
cultivada em terras demasiado argilosas, em trechos montanhosos secos,
em terrenos cheios de pedras, muito íngremes, e em baixadas com excesso
de umidade.
Existem dois tipos de mandioca: a primeira é conhecida como aipim,
macaxeira, mandioca mansa ou mandioca doce; e, a segunda, é chamada
mandioca amarga ou mandioca brava. Ambas são idênticas na aparência:
apresentam uma casca parda
e, quando ela é retirada, surge um tubérculo branco, que contém um suco
acre e leitoso. A mandioca brava, por conter uma elevada proporção de
ácido cianídrico, é venenosa. No entanto, através da cocção, ela perde
toda a sua toxidade, sendo convertida em farinha ou polvilho. Devido à
toxidade da mandioca brava, há uma adivinhação popular no Nordeste que
diz:
“quem come de minha carne, escapa; quem bebe do meu sangue, morre”.
Os colonizadores portugueses criaram as tradicionais Casas de Farinha
(presentes no Norte e no Nordeste do país), aproveitando seus
conhecimentos sobre as prensas, que utilizavam para a fabricação do
vinho e do azeite. Nessas Casas, a mandioca passa por um processo
apurado, antes de ser liberada para o consumidor. Em primeiro lugar,
raspa-se a casca, manualmente, e, em seguida, a parte branca da raiz é
ralada no caititu (um engenho movido à mão e formado por um rolo de
madeira com serrilhas metálicas, acionado por uma grande roda dentada).
Em geral, são os homens que movem o ralador e, as mulheres, que colocam
a massa ralada no tipiti (uma espécie de cesto cilíndrico feito de talas
de palmeira), onde a mandioca é prensada a fim de se retirar a manipuera
(ou ácido cianídrico): um produto venenoso que está presente, apenas, na
mandioca amarga. Após esse procedimento, os blocos de massa retirados do
tipiti são desfeitos e, a seguir, peneirados em uma arupema. Só, então,
é que o produto final entra no forno para ser torrado e, depois de todo
esse processo, se transforma na popular farinha de mandioca.
Acompanhada de carne seca, a farinha de mandioca era o principal
elemento da alimentação dos escravos africanos. Por tal razão, os
senhores de engenho e os lavradores de cana, mediante alvarás e
provisões régias datadas de 1642, 1680 e 1690, eram
obrigados a cultivar a mandioca. Decretos posteriores vieram ressaltar
essa obrigação, quando daqueles exigia-se o plantio de, pelo menos,
quinhentas covas por escravo.
Desde o século XVII, na mesa de nordestinos e nortistas, a mandioca é um
alimento importante, sendo utilizada, largamente, na culinária junina.
Além das comidas de milho, a mandioca representa um ingrediente de suma
relevância nos bolos denominados “pé de moleque” e “Souza Leão”. A
farinha de mandioca é indispensável, também, no prato tradicional
brasileiro (a feijoada), na elaboração de tapiocas doces e salgadas, nas
farofas de jerimum e de batata-doce, e em algumas comidas típicas, onde
se adiciona azeite de dendê ou manteiga de garrafa. Utiliza-se a farinha
de mandioca, ainda, nos deliciosos pirões de chambaril, de frango, de
peixes, crustáceos, e ovos. Quando é misturada ao mel de engenho, surge
a sobremesa tradicional da Zona da Mata nordestina.
O amido da mandioca, advindo da fabricação da farinha e das raspas da
raiz, é produzido por algumas Casas de Farinha. Esse subproduto é obtido
do caldo que escorre das prensas (e que é desprezado, na maioria das
vezes). O amido possui um grande valor nutritivo, devido à sua riqueza
em proteínas, vitaminas, e sais minerais naturais. Ele é utilizado na
fabricação de biscoitos, sequilhos e outros produtos alimentares.
Caso haja o aproveitamento desse amido residual, pode-se obter, ainda,
uma farinha de melhor qualidade. O que ocorre, em verdade, é o
aproveitamento de uma pequena parte, apenas, daquele líquido que
escorre.
De forma aproximada, segundo os especialistas, são jogados fora 75% dos
melhores nutrientes da mandioca, entre eles as proteínas, as vitaminas e
os sais minerais naturais.
Há, por parte da população, nos locais onde predominam as lavouras de
subsistência, um elevado consumo de carboidratos complexos, provenientes
de um ou dois cereais, e de raízes como a macaxeira, o inhame e a
batata-doce. Tais produtos são consumidos de forma isolada, ou
combinados com certas leguminosas, a exemplo do feijão. Todavia, o
crescimento e o desenvolvimento das pessoas ficam prejudicados, porque o
papel dos demais alimentos, no fornecimento de nutrientes importantes
para o organismo, passa a ser secundário.
A mandioca, associada ao coco, ao açúcar, ao cravo e à canela,
contribuiu para o surgimento de uma nova cozinha, repleta de receitas de
qualidade. Estas, com toda a certeza, nasceram das inúmeras trocas
alimentares, da junção de vários elementos, bem como da mistura de
aromas e sabores. Em suma: da miscigenação das distintas culturas e
etnias que contribuíram para a formação do povo brasileiro.
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