Sebo - Semira Adler Vainsencher-PILÃO E MONJOLO

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SEBO LITERÁRIO

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Um artefato primitivo de origem remota, o pilão de madeira, na época do Brasil Colônia, já era utilizado na agricultura para socar alguns alimentos, tais como o milho e o café. Para sua confecção, utilizavam-se troncos de madeiras duras, tais como a maçaranduba, a peroba, a canela preta, o guatambu e o limoeiro. O tronco era escavado, com fogo, e, sua haste (denominada mão de pilão), fabricada com um pedaço aparelhado daquelas madeiras. A altura de um pilão variava entre 30 e 70 cm e, uma haste, media de 60 cm a 1,2 m. No tocante à cultura rural brasileira, pode-se afirmar que, todas as casas nas zonas rurais, usavam e/ ou usam, ainda, algum tipo de pilão. Os pesquisadores afirmam que tal ferramenta deve ter sido copiada dos árabes. Em 1638, nos terreiros próximos às portas das cozinhas, já havia registro do emprego de pilões, nos preparos da farinha de mandioca e do óleo das sementes de gergelim, em substituição ao azeite de oliveira.
Câmara Cascudo (1954) ressalta que o pilão é uma espécie de gral ou almofariz, de madeira rija, como a sucupira, com uma ou duas bocas, e tamanhos vários, desde os pequenos, para pisar temperos, até os grandes, para descascar e triturar o milho, café, arroz, etc.
Segundo o folclorista (2004), na África os esparregados de plantas cruas são feitos no pilão. No Brasil, o milho era seu freguês
clássico. A massa ou xerém para o cuscuz, canjicão, bolo de milho, a batida para ‘tirar o alho’, eram serviços de pilão. ...O arroz da terra, avermelhado, era descascado no pilão. Havia várias formas de retirar a casca sem quebrar o grão. O café, depois de torrado no caco, panela rasa, de barro, ia ser pilado. Como o milho e a paçoca. Pilavam horas e horas. Essas operações eram confiadas às mulheres. Quase sempre duas, no mesmo pilão, alternando as pancadas, e cantando.
Certos alimentos, como o milho e o sorgo, eram quebrados e moídos em grandes pilões. Com os pilões de menor tamanho, moíam-se a castanha de caju e o amendoim (para se fazer caril ou paçoca), além dos temperos (o alho, a pimenta e o cominho) que davam um melhor sabor, mas, cujo consumo é feito em pequenas quantidades.
Quebrava-se o milho com o pilão e, cozinhando os pedaços fininhos em água e sal, se obtinha o xerém, um prato típico do Nordeste do Brasil. O xerém é consumido com carnes secas (carne de sol ou charque) e linguiças. Muitos nordestinos preferem, ainda, prepará-lo como sobremesa, cozido em água e sal, leite de coco e açúcar. Depois de frio, polvilha-se canela, por cima.
Nos terreiros de candomblé, na Bahia, o milho costuma ser moído em um grande pilão, a fim de se preparar os quitutes (o acaçá e o aberém) para a Mãe de Santo e o Pai de Santo. Nele, quebrava-se, também, o feijão, no preparo do abará, do acarajé e do omolucum.
Em um pilão pequeno, os temperos eram moídos, para se cozinhar o arroz de haussá e o efó. Ao longo dos séculos, portanto, esse utensílio doméstico foi muito utilizado na cozinha baiana.
No Norte do Brasil, um dos pratos típicos é o piracuí (chamado, também, areia de peixe), que é preparado com peixe torrado no forno e, depois, pilado.
Na cozinha, os utensílios, como o pilão, tinham para os negros e indígenas uma importância que o português desapercebeu, mediante outras maneiras de esmagamento, no almofariz ou gral. Dava um sabor inesquecível aos alimentos feitos com essa preparação. O café pilado jamais poderia comparar-se ao café moído à máquina, na opinião popular, saudosa do pilamento
insubstituível. A paçoca exigia o pilão, sob pena de não ser paçoca. Na África, os esparregados de plantas cruas eram feitos no pilão. No Brasil, o milho era seu freguês clássico. A massa ou xerém para o cuscuz, a canjica, o bolo de milho, eram batidos os grãos, para “tirar o olho”, no pilão (LIMA, 1999, p. 50).
O monjolo, por sua vez, é um utensílio rudimentar constituído por duas peças (o pilão e a haste). Esta última é movida através de um sistema similar ao de uma balança, e pode ser acionado por meio hidráulico. O mineralogista inglês John Mawe, durante sua permanência no Brasil (1807-1810), descreveu o monjolo da seguinte forma:
À margem do rio instala-se grande pilão de madeira, cuja mão está encaixada na extremidade de uma alavanca com vinte e cinco a trinta pés de comprimento, repousando sobre uma barra transversal aos cinco oitavos do seu comprimento, em redor da qual oscila. A extremidade do braço mais curto desta alavanca está escavada, de modo a sustentar peso de água suficiente para levantar a outra extremidade, à qual está presa a mão do pilão. O peso da água faz com que a colher desça e se esvazie até chegar a certo ponto. O encher e descarrega, alternadamente esta cavidade provoca a elevação e a queda da mão do pilão, o que se verifica quatro vezes por minuto. (SCHMIDT, 1967)
Vários produtos alimentícios derivados do milho, como o fubá e a farinha de milho, eram obtidos por meio do esmagamento nos monjolos. Eles tinham a capacidade de socar, até, trinta litros de milho, em uma hora e meia. E ouvia-se, com frequência, a expressão popular: trabalhar de graça, só monjolo!
Através dos inventários do século XIX, pôde-se chegar à descrição dos monjolos, e ao nível de desenvolvimento técnico alcançado com a utilização desses aparelhos. Os estudiosos reiteram ter sido Brás Cubas (um fidalgo e explorador português que estivera, na Ásia, com Martim Afonso de Souza) aquele que trouxe, da China, o primeiro monjolo, e o instalou nas terras de São Vicente. Os índios denominaram a máquina de enguaguaçu, que significa o grande pilão. A palavra monjolo deve ter origem sânscrita, vindo de musala, pilão para descascar arroz, e seu aperfeiçoamento ocorreu por volta do século XVIII.
Além de serem corretos, do ponto de vista ecológico, os monjolos foram de fundamental importância para o desenvolvimento das atividades rurais, durante os séculos XVIII, XIX e grande parte do século XX. E, para construí-los, foi preciso uma série de
conhecimentos técnicos sobre engenharia, marcenaria, carpintaria e ferraria.
No passado, o monjolo era um artefato rústico, confeccionado somente de madeira, e não utilizava, em sua estrutura, qualquer peça de material metálico.
Existiam vários tipos de monjolos: os hidráulicos, os de pé, os de roda, os de martelo e os de rabo. No monjolo de pé, por exemplo, o indivíduo ficava em pé, em cima da madeira, de modo que o eixo permanecia entre seus dois pés e, quando se fazia força, na ponta da madeira, o pilão levantava e, em seguida, descia. Na Europa e, principalmente, em Portugal, utilizava-se, também, um monjolo de pé diferente, cuja força para suspender o malho (ou a mão do pilão) advinha do próprio peso da pessoa encarregada de movimentá-lo.
Existia, ainda, o pilão manual, em regiões onde não havia água em abundância. A sua utilização pode parecer herança da cultura indígena e, por esse motivo, é comum a associação do monjolo àquela cultura.
Sérgio Buarque de Holanda ressalta, entretanto, que o monjolo era desconhecido pelos indígenas. Segundo o historiador, com base nos relatos dos viajantes, aquela máquina chegou ao país no século XVI, oriunda do Japão, da China e da Indochina, onde era utilizada para se descascar o arroz.
Grandes pilões eram movimentados, por várias pessoas, ao mesmo tempo. Com sua haste, cada pilão socava os grãos, de forma alternada. Ainda hoje, é possível se encontrar monjolos, no interior do país, com o mesmo formato e princípio de funcionamento que tinham há milênios, em seus países de origem. Existem outros modelos de monjolo hidráulico (chamado de martelo) e os movidos a animais (denominados de rabo).
Bastante popular na África, o pilão é um dos presentes ofertados aos nubentes, na região sul de Moçambique, no dia seguinte ao casamento, em uma cerimônia denominada xiguiane.
Hoje, com o desenvolvimento tecnológico, outras máquinas, motorizadas ou elétricas, vieram substituir aqueles aparelhos, tornando mais fácil a vida das pessoas. Em contrapartida, contribuem para a degradação ambiental.
Não o monjolo, mas, o pilão ficou lembrado e registrado na música popular nordestina. Com letra de Zé Dantas e música e canto de Luiz Gonzaga, foram divulgadas as canções Cintura fina e Pisa no pilão. A letra delas encontra-se a seguir.


Cintura fina
Minha morena venha pra cá,
Pra dançar xote, se deitar em meu cangote,
E poder cochilar,
Tu és mulher pra homem nenhum,
Botar defeito, e por isso satisfeito,
Com você eu vou dançar.
Vem cá, cintura fina, cintura de pilão
Cintura de menina, vem cá meu coração
Quando eu abraço essa cintura de pilão,
Fico frio, arrepiado, quase morro de paixão,
E fecho os olhos quando sinto o teu calor,
Pois teu corpo só foi feito pros cochilos do amor.
Pisa no pilão
Oi tum tum tum, joga as ancas pra frente e pra trás,
Oi tum tum tum, finca a mão no pilão bate mais.
Se janeiro é mês de chuva fevereiro é pra plantar,
Em março o milho cresce, em abril vai pendoar,
Em maio tá bonecando, no São João tá bom de assar,
Mas em julho o milho tá seco e é tempo, morena, da gente pilar...


Em se tratando de artesanato da Região Nordeste, em feiras livres, mercados públicos, e lojas de objetos artísticos, é possível encontrar pilões de madeira, de barro, de pedra sabão, e de chifre de boi.
O pilão intermediou as trocas alimentares entre os indígenas, os africanos e os europeus, a união de vários caminhos e experiências de vida, de etnias, de culturas, e a miscigenação de gostos, formas e aromas. Apesar de antigo e ultrapassado, em decorrência dos avanços tecnológicos, o pilão continua presente no imaginário popular dos brasileiros.

 

 

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