XII Antologia Virtual

Segundo Bloco

 
PARTICIPANTES - (SEGUNDO BLOCO):

 

  Dalton Luiz Gandin

  Dária Farion

  Dhiogo José Caetano

  Donzilia Martins

  Eduardo de Almeida Farias

  Eduardo Samuel Ferreira

  Elizaete Ribeiro

  Ervin Figueiredo

  Fatima Mello (Fofinha)

  Flávia Guimarães

  Genha Auga

  Gilberto Nogueira de Oliveira

  Gleidston César

  Glória Marreiros

  Guilherme Jerônimo Rios (GJRios)
 
 

 
 
DALTON LUIZ GANDIN

 

NATURAL (DO NATURAL)

 

Do sal
sabor, saliva boa.
Da tinta
as cores do cabelo
que voa.
Da areia
arte, imaginação.
Do vento
a vida que se aloja
na ação.
Do sol
a luz, o olho que vem.
Do céu
a certeza que grita
no bem.

 

Dalton Luiz Gandin

 

DÁRIA FARION

 

VIDA

 

Um universo em potencial se afina
Uma divina harmonia coalesce
Para o grande mistério: VIDA
Um laboratório
Uma genialidade divina
Num templo a morar.
Um ser grandioso
Que ama, se doa
Ri e chora: é feliz.

 

Dária Farion

 

DHIOGO JOSÉ CAETANO

 

TEU AMOR

 

O teu amor me faz viver
Não Posso viver sem você
Pela saudade
Que me invade
Não consigo te esquecer
Saudade mal de amor,
Saudade é uma dor que dói demais!
Sem você não posso mais!
Vem por favor
Contemple-me com teu amor.

 

Dhiogo José Caetano

 

Uruana, GO

 

DONZILIA MARTINS

 

O céu quase quieto

 

Num jogo de sol e sombra
Navegam no céu, paradas, voláteis, dissolúveis
Como asas de espuma fofa, as nuvens.
Em concerto de penas, as pombas voltejam
De lá para cá, pousando nos beirais
Como se fossem anjos, hinos, lírios, glórias imortais.
O céu, num silêncio de esperas, vestido de fiapos de azul
Quieta-se, naufragando mares e pedaços de luz.
Na minha oliveira plantada ao tempo,
Nem a brisa a sacode ou beija, nem sequer há vento!
Nesta manhã florida de nadas, de folhas amarelecidas
E terra húmida de verde e sombra
Há murmúrios cantados, salpicados de promessas
De que a primavera voltará um dia.
Entretanto, pelo chão, rastejam sonhos, pássaros,
Melodias de sempre embrulhadas na saudade, arte de criar
E o orgulho de sermos nós próprios no vítreo olhar
Límpido, sereno, transparente, com Deus no coração.
Parto o vidro dos meus olhos e voo pelo espaço
De nuvem em nuvem, à procura de vós. Quase liberto
Meu pensamento sem asas navega, neste céu quase quieto.

 

Donzilia Martins

 

Paredes, 7 de novembro

 

EDUARDO DE ALMEIDA FARIAS

 

REFLEXÕES III

 

Alguém de bem consigo mesmo, declara: o tempo é uma criança. Sim talvez 0 tempo seja uma criança, nós é que em determinado momento da vida deixamos de sê-lo coisas do tempo que gosta pregar partidas... O tempo é imutável, e cheio de diabólicos ardis, de se nos apresentar com a cara que melhor lhe convém, e brincar com nossos sentimentos e vaidades.

Irremediavelmente o ser humano bem como todos os seres vivos, tem seu tempo marcado, crescimento, maturação e envelhecimento. Mas o homem acelera seu envelhecimento à maneira que vai perdendo a arte de sonhar... E, é no sonho que está o segredo, não de vencer o tempo, mas em retardar seus estragos. Quando deixamos de sonhar, deixamos de amar e, quando deixamos de amar, renunciamos à felicidade e passamos a ser passageiros de terras do nada...

E entenda-se por amor o sentimento mais sublime, que se eleva à nossa condição humana. Sem amor dificilmente florescerá a virtude, e sem a virtude não haverá compaixão, e sem compaixão seremos quais árvores estéreis.

Que bom seria se o homem tivesse o poder de reter o tempo em suas mãos. Mas o tempo é como a areia na ampulheta que se esvais inexoravelmente. Ao nos tornarmos adultos ainda que sem nos darmos por conta, vamo-nos embrutecendo, perdendo a ternura daquela criança que aos poucos foi morrendo em nós e, sem que disso nos apercebamos. E, assim, vamos ficando a cada dia que passa um pouco mais “velhos”.

O homem não é só cérebro, com suas lógicas matemáticas, porque ele é dotado de sentimentos, de alma e coração. Não há como dissociar esta dicotomia sob pena de termos de abdicar do tão almejado direito pelo qual sempre lotamos, o direito à felicidade.

O ser humano é um ser complexo, senhor dum indiscutível raciocínio, mas, paradoxalmente, quantas das vezes, um dos piores irracionais - seja pelo egoísmo, tantas vezes se locupletando sem medir meios para isso, ou solapando a liberdade e direitos do seu semelhante.

Não se conhece no reino dos chamados animais irracionais casos de pais que maltratem e muito menos que matem seus filhotes, por simples maldade. Já no mundo dos humanos, vez por outra somos assombrados com casos de selvageria tal, que nos faz envergonhar de a tal espécie pertencermos...

Eduardo de Almeida Farias

 

 

 

EDUARDO SAMUEL FERREIRA

 

CARTA DA NATUREZA

 

Eu era bela e formosa
mas você me destruiu.
E toda a minha exuberância
só o homem antigo viu.
Os meus rios eram limpos
e você os contaminou.
Hoje morre da sede
que a sua ganância causou.
Eu cultivei algumas árvores
que já eram centenárias,
e você as derrubou
para jogar numa fornalha.
Enquanto à alimentação,
só matamos para comer,
e não é isto que eu vejo
no seu triste proceder.
Muitos dos meus animais
você já exterminou
e para mostrar o seu poder
os levou e embalsamou.
Esta carta é para você
que se diz um racional,
não mata para viver
e se satisfaz com o mal.

 

Eduardo Samuel Ferreira

 

ELIZAETE RIBEIRO

 

SENSAÇÃO MÚTUA

 

Viajar pelo o espaço do tempo nas horas vagas do dia e da noite, desperta o desejo pelo amanhã, e a curiosidade de viver o inacessível.

Como homem natural, busco acessar as frestas da imaginação e viajar por elas.

Às vezes tenho essa sensação mútua de vida, sinto como estivesse voando, me protegendo de algo ruim, e nessas alturas encontro a proteção e o bem estar, fujo e me abrigo no esconderijo flutuante, os meus pés não tocam o chão, as mãos malvadas não conseguem me alcançar, sobrevoou os abismos, colinas, vales e montanhas.

Nas cavernas altíssimas me abrigo, enquanto a tempestade corta o ar, sem medo de acessar o infinito, alcanço a galáxia estrelar, viajo no tempo e no espaço, conto as estrelas e os planetas que tem por lá. A lua com a sua claridade e beleza, ilumina os meus olhos, e no silêncio das alturas espacial contemplo a beleza que a mão do Criador criou, com tanta perfeição, encanto, que perco a noção do tempo, das horas, o relógio na parede pendurado perde o valor, enquanto exploro o infinito lunar, a vida corre e passa, e os minutos longe da terra me faz acordar, descendo das nuvens o vento frio congela os meus cabelos, e a minha face faz corar, o sonho é tão intenso que não desejo as nuvens abandonar.

Chegando ao chão, encontro abrigo nos braços da lembrança que eu trouxe de lá.

Na ação natural do tempo, não vejo o momento de voltar a sonhar.

Já explorei o infinito e acessei a memória do tempo, ao fechar meus olhos e imaginar...

O Tic Tac dos ponteiros, correm ligeiros, milésimos, segundos, minutos, horas, mas o tempo, no espaço, no sonho, na criação, não deixa a desejar, voa e percorre a linha do pensamento humano, deixa rugas, provas, que é inútil viver sem amar.

Por isso não deixo de viver nas nuvens e de viajar pelo imenso céu azul, como se fosse uma águia destemida e sonhadora. Vivo na exatidão que o tempo favorece. Não esqueço que meus anos são monitorado pelos ponteiros do relógio do tempo. E contados pelas areias de uma bela ampulheta.

Ah meiguice temporária!

Não me deixe sem ver o sol brilhar, não me negues o amadurecer da romã, não, não roubes a alegria de ver os meus netos crescerem.

Esse desafio não quero perder. Ainda que tenha que ser uma viajante do espaço. Do tempo não quero me esconder, me acho nessas linhas da história, o meu antes, o meu hoje e o meu depois, não vão embora, o tempo guardará a minha memória.

As vezes tenho essa sensação, que o tempo me protege, e busco compreender o meu momento e não deixo de sonhar com as alturas, pois um dia eu irei pra lá.

Elizaete Ribeiro

ERVIN FIGUEIREDO

 

DE BEM COMIGO

 

Separei meu melhor sorriso,
Escolhi a roupa mais acertada,
Comprei as flores mais lindas,
Uma caixa de chocolate fino...
O dia era perfeito para nós,
O sol brilhava confortável,
Não podia haver melhor lugar,
Tudo estava tão certinho...
Árvores ao redor dançavam
Enquanto pássaros davam o tom,
Nada havia de mais colorido
E por horas te esperei ali...
Mas, você não foi e fiquei triste.
Meu colorido desbotou, descoloriu,
E o que era graça perdeu a graça...
Não sei mais de você, que riu de mim.
Mas, ficou a lembrança do que não foi:
Do dia em que tudo, virou nada.
Foi só um dia, sobraram muitos.
Agora, só eu, de bem comigo mesmo.

 

Ervin Figueiredo

 

12/ Nov/ 2012 Americana/ SP

 

FATIMA MELLO [FOFINHA]

 

QUE SE PASSA COM MEU MUNDO

 

Entristecida com nossa vida
me posto a pensar,
que se passa com a humanidade
por que tanto ódio tanto rancor
onde esta nosso coração
quando brigamos disputamos espaços.
Neste mundo tem lugar para todos
e só saber achar,
seja você mesmo
viva intensamente
sem precisar pisar em alguém
Não me conformo com essa maneira de ser
o amor a fraternidade ficaram posto de lado
Existe guerra em todo lugar
Poder, brilho, paixão
Até por amizades se vê gente brigar
como se amigos irmãos
fossem peças de disputa
amizades são conquistas
que fazemos todos dias
regando com carinho
com o estender da mão...
Que se passa com meu mundo?
Onde está a fraternidade
o dar sem ver a quem,
sem cobranças sem querer trocas?
Parece-me que a vida
virou peça de barganha
onde em tudo tem que ter retorno
na mesma medida...

 

Fatima Mello [fofinha]

 

FLÁVIA GUIMARÃES

 

Noites maravilhosas

 

Prazeres sem tréguas
Me lambuzei
Saciei
Gritei
Chorei
Amei
Realizei todos meus desejos
Mais me espera eu voltarei!

 

Flávia Guimarães

 

Código do texto: T3996347

 

 

 

GENHA AUGA

 

MULHERES

 

Do seu corpo viemos.
Dele, sugamos a vida,
Nele iremos nos proteger, nos esconder, ninar...
Assim, marca sua força,
Torna-se mãe da Terra.
Verdadeiro ato de amar.
Mostra-nos tudo num único olhar
Tem a luz que cega e que muda a dor
Despe-se de corpo para o desejo do homem
Para nele seu sêmen plantar para o mundo continuar.
De pedaços de deusas é formada.
Despida de alma vem ao mundo encantar.
Obra de Deus inacabada...
Quando menina, pequenina e meiga,
Carrega a boneca ensaiando como viver,
Cresce, torna-se moça.
O homem a espreita como leão em volta da fêmea.
Meiga o enfrenta, sabe que não deve temer.
Não rejeita.
Na mocidade é mal falada,
Pela beleza é cobiçada,
Mas, transforma em luz e sorriso essa dor inexplicável.
Podem ser dos prazeres e luxúrias,
Viver com homens na calada da noite,
Que se acalentam
E deleitam em seu corpo problemas sem fim.
Mulher essa que o homem apedrejou
Quando a Jesus se juntou
Mulher que a vida inteira roupa lavou,
E a pele o sol avermelhou.
Os passos do homem seguiu e a própria vida anulou.
Tornam-se soldados que a deixa pela pátria amada
E perde quem mais amou.
Podem ser rainhas ou humildes,
Todas seguem fortes na trajetória.
Assim fazem sua história.
As de fama universal cuja porta se abriu num encanto e magia,
São as mulheres famosas dos nossos dias.
A que sofreu por seu único filho, Jesus,
Entregou-o a Deus para morrer na cruz
- Santa Mulher - Virgem Maria! –
Seja qual for a mulher,
Haverá nela o olhar do cansaço,
Mas não se deixa vencer,
Com o ventre rasgado ela gera
Pela continuação da vida na terra.
Há nelas o amor entre Deus e o Diabo!
Servirão como mães – amigas – prostitutas – virgens e amantes.
Todas se juntam em uma só!
As mulheres mudam a humanidade,
Fazem isso quantas vezes quiserem.
Doam todas elas ao homem sua castidade.
E tornam-se mães
É seu destino. É sua sina!
– prova do seu amor – da sua verdade.
Transformam-nos em pássaros e nos fazem voar
Caladas nunca dizem: não se vá.
Cuidam de todos e ficam sós como num monastério
Por quê?
Que haveria por trás desse mistério?
Ninguém sabe – segredo de Deus e das mulheres...

 

Genha Auga

 

GILBERTO NOGUEIRA DE OLIVEIRA

 

COISAS CÓSMICAS

 

Numa estupenda noite que não mais parecia ter fim
Houve a explosão de estrelas, explosões irônicas,
Era a Terra a contemplar a Lua
Num amor distante e impossível,
Num impetuoso flerte lésbico,
Onde só havia troca de olhares e de esperança.
A Lua queria ir ao encontro da Terra,
Beijá-la e abraçá-la e não pensar nas consequências.
As estrelas que as observava irônicas,
Uma a piscar o olho e outras a responderem.
O sol com seus olhos de fogo, com sua luz de ouro,
Punha tudo à mostra.
E as duas amantes se desejavam,
Mesmo apesar da distância que a separavam,
Como uma barreira de cristal, intransponível.
Júpiter e Marte apreciavam a cena, sombrios.
Mercúrio estava melancólico, Plutão não menos.
Vênus querendo participar, Saturno irava-se de ciúmes
Por não poder construir uma barreira mais sólida.
Mesmo assim ficou feliz ao ver a impossibilidade.
Urano e Netuno divertiam-se. Confiavam na intriga
Feita pelas irônicas estrelas,
Daquele amor impossível.
E o espaço mudou sua estrutura mediúnica e espiritual.
E o espaço virou mar,
Um mar muito agitado
Que parecia até o fim do mundo.

 

Gilberto Nogueira de Oliveira

 

Nazaré, 04-04-1974

 

GLEIDSTON CÉSAR

 

SOLIDÃO-ato-1

 

Hoje escrevo-te para que saibas que dispenso
Tua presença embora ainda me sinta tentado
A não escrever. Mas é necessário.
Para que saibas que entre nos já não existe
Companheirismo, fidelidade e nem
Lealdade. Você foi por longos anos,
Minha melhor companhia.
Na ausência de tantos outros sentimentos que
Não consegui exprimir, você não me deixou,
Esteve sempre presente. Quando fiquei no
Abandono, lá estava você. Quando não tive
Amigos, era você que nas letras das canções
Falava, vociferava, e se fazia presente.
Você solidão, sempre me viu e exibiu como troféu,
Sempre fez questão de em mim estampar o sinal
De que você era minha melhor companhia. Por isso
Sempre me olhei e fui olhado como se olha para alguém
Abandonado. Mas eu era mais.
Eram complacentes os olhares por isso
Minha presença enfadonha.
Em minhas palavras não havia suavidade.
Nelas sempre soava e se sentia
O odor do desprazer de quem sempre
Na depressão de alguma vivência vivia.
Hoje solidão- Tenho a felicidade de te demitir.
Na atual circunstância você é indesejada e
Não há espaço para convivência! O sorriso
Que hoje trago e os sentimentos que a
Experiência me trouxe fizeram-me
Solidário comigo.

 

Gleidston César

 

GLÓRIA MARREIROS

 

Tema: A PAISAGEM QUE INSPIROU A MINHA INFÂNCIA

 

Título: SONHOS FLORIDOS

 

Carrego um amontoado de anos sobre as costas. São quase cem. Há lembranças que se desfazem nos declives da minha memória. Há outras, muito antigas, que permanecem vivas como se tivessem nascido neste preciso momento.

Nasci nesta terra maravilhosa, não digo o nome, fica para descoberta do prezado leitor. Passei aqui a minha infância e guardo religiosamente no meu coração todas as inspirações que esta paisagem exerceu e ainda exerce sobre mim.

Depois de muitos anos de ausência voltei a este cantinho do meu Portugal. Os sonhos, os meus sonhos, porque em toda a idade se pode sonhar, começaram a florir num bailado de recordações repletas de magia, onde a idade se perde nos recônditos mais íntimos da minha vontade de viver, para poder contar aos meus netos e bisnetos o quanto tive de belo nesta natureza ímpar.

Vejo-me novamente a saltar por penhascos e árvores; a chapinhar nos pegos das ribeiras; a subir as antas que guardam nos seus seios milenares sonhos que floriram e outros que ficaram só em botão; a atirar pedras aos pássaros com uma fisga feita com o elástico duma liga que roubei à minha mãe. Eram aos milhares as aves que esvoaçavam nas encostas de serra. Eu não sabia, ninguém sabia o mal que fazíamos quando atirávamos sobre as lindas avezitas. Os piscos, as felosas, as toutinegras, os gaios e tantas outras aves, eram aos milhares formando nuvens no céu do céu e no céu da minha meninice. Eu percorria vários quilómetros por dia, em busca da descoberta. E descobri a paisagem que envolve o tempo do meu tempo, onde prevalecem os retratos, nunca tirados, mas onde vejo a minha infância nítida e transparente, como era a água daquele tempo.

Depois eu descia e vinha sentar-me à sombra duma frondosa azinheira, para almoçar com o meu pai e a minha mãe. Era quase sempre um pedaço de pão com umas falhas de toucinho e azeitonas. O pão era feito pela minha mãe e tinha sabor a sonhos floridos. A água estava numa infusa de barro para permanecer mais fresca. O tosco cocharro de cortiça, por onde bebíamos era, naquela altura, para mim, uma valiosa obra de arte.

Logo que acabavam de comer, lá iam os meus pais ceifar. As espigas, no seu farfalhar, falavam e cantavam. Pareciam gente…e eu ouvia, ouvia, os seus melódicos e dolentes cantares, preparando-se para puderem dar à luz o pão que mitigaria os desejos de tantos estômagos. As papoilas, de um vermelho não muito rubro, corriam ao desvario quando a brisa era mais intensa. O que mais me intrigava era que ficavam sempre no mesmo lugar. Parecia magia, Ali tudo era mágico! Até sol-pôr exercia uma força poderosa sobre mim, criança de cinco ou seis anos. Estive em vários países, mas nunca vi um poente tão fascinante como este da minha terra. O crepúsculo benzia com os seus soberbos sombreados as copas das sobreiras e das azinheiras, num adeus ao dia que se ia deitar, com as estrelas, na cama da lua, para voltar novamente, passadas algumas horas, com o sol no seu bailado de reflexos.

Eu só ia á vila de tempos a tempos. Às vezes lá ia com o meu pai, quando ele precisava de comprar umas botas de sola de pneu. Eu não usava nem botas nem sapatos, mas corria e saltava por todo o lado. Uma vez calcei as botas do meu pai e achei que aquilo me atrapalhava muito e era difícil correr, com aquela geringonça nos pés, para apanhar uma lagartixa ou outro bicharoco.

A minha avó, já muito idosa, com uma grande corcunda nas costas que a fazia andar toda enrolada, passava os dias a fazer flores de papel, para as grandes festas. As flores eram tão bonitas que se assemelhavam às papoilas que corriam com o vento, mas que ficavam no mesmo lugar. Outras flores faziam lembrar os grandes girassóis que seguiam religiosamente o Sol no seu dolente andar. Eram flores tão lidas feitas em papel, que enchiam alcofas e alcofas. Ali estavam os meus sonhos floridos, numa paisagem curta mas distinta, onde a história da minha terra é saboreada por quem vê, com os olhos do espírito, que as tradições são a alma de povos e gerações.

Nunca pensei voltar a ver as festas da flor. Não sei se posso chamar e este encanto uma paisagem, porque, na realidade, eu sei o que é uma paisagem. Na minha infância eu vivi e vi a mais bela paisagem ou paisagens, que me marcaram juntamente com as festas da flor, mas eu não sabia o que era. Era apenas a minha terra semeada de sonhos, que mais tarde se transformaram em cravos floridos.

Hoje voltei a ter os meus cinco, seis e sete anos e o mundo de outrora voltou à minha mente. As lágrimas marejam-me os olhos, como que a vendar o presente para ver e reviver o passado.

A vila parece um mar de flores! Até aquela senhora, tão idosa como eu, me fez lembrar a minha avó… com as suas alcofas cheias de flores de papel. As janelas parecem molduras de onde pendem cachos de rosas silvestres, dálias, hortênsias, malmequeres, papoilas, girassóis e grandes cravos vermelhos, que tombam nas ruas e sorriem para quem passa. É preciso saber compreender o sorriso das flores. Eu sei. Um homem não deixa de ser homem por gostar de flores e ser sensível a elas.

Ao longe vislumbro os imensos terrenos caiados de pérola pelo restolho que forma uma toalha matizada pelos raios solares, estendida numa grande mesa, onde as aves, as aves da minha infância comem os grãos que ficaram caídos.

Vejo as encostas da serra com os seus penedos. Oiço o correr da ribeira. Tenho na boca o sabor do pão que a minha mãe fazia e brinco com os caroços das azeitonas que comia e me sabiam mel.

Nestas festas da flor, olho o meu bisneto, que tem seis anos, e vejo nele a paisagem que marcou a minha infância, nos seus sonhos floridos.

Glória Marreiros

GUILHERME JERÔNIMO RIOS (GJRIOS)

 

EU QUERO

 

Eu quero saciar-me de amor;
Eu quero arrepiar-me de paixão
Eu quero embebedar-me de você;
Eu quero o mel de seus lábios...
Eu quero ser o teu sorvete nas tardes cálidas,
Eu quero ser a água que mata a tua sede,
Eu quero ser o seu maior de seus sonhos.
Eu quero ser o sol que te aquece.
Eu quero ser a brisa que te toca suavemente...
Eu quero...
 
 

 

 

 

 

 

 

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