XII Antologia Virtual

Terceiro Bloco

 
PARTICIPANTES - (TERCEIRO BLOCO):

 

  Gerci Oliveira Godoy

  Helenita Scherma

  Humberto Rodrigues Neto

  Ilze Soares

  Ina Melo

  Ione Rubra Rosa

  Isabel C S Vargas

  Ivone Boechat

  Jacó Filho

  Jandyra Adami

  João Bosco Soares dos Santos

  Jorge Cortás Sader Filho

  Jorge Linhaça

  José Hilton Rosa

  José Luiz da Luz
 
 

 
 
GERCI OLIVEIRA GODOY

 

Dona Amália

 

Algumas pessoas passam por nossa vida e só depois de algum tempo compreendemos o quanto foram especiais.

Dona Amália, foi essencial para que eu, menina simples, pedra um tanto bruta, fosse um pouco lapidada. Foi tal o aprendizado que obtive com ela que ainda hoje, passados mais de cinquenta anos lembro seus ensinamentos.

Na época, eu com dezesseis anos, ela com sessenta. Amália, a governanta da casa, eu, sua ajudante, como ela costumava me apresentar para os parentes e conhecidos.

Ela era uma mulher de origem alemã. Dura em seu modo de ensinar. E aquela dureza talvez tenha marcado ainda mais nossa convivência de apenas quatro meses.

Tudo que eu fazia pela primeira vez, ela observava. Um dia fui passar uma camisa social e quando chegou a vez do colarinho ela se aproximou e falou que estava errado pois se devia passar da ponta para o meio assim não precisaria repetir o serviço. Lá aprendi a cozinhar, ela temperava mas eu estava sempre junto ajudando e aprendendo. A roupa da casa era lavada por mim, ela me ensinou desde a primeira esfregada até o enxágue final e também quarar a roupa branca até deixá-la alva de doer os olhos. Também aprendi a cerzir meias e tantas outras coisas que me foram úteis por toda a vida.

Muitas e muitas vezes falei para minha família, meus amigos e mais tarde para meu marido e meus filhos sobre a velha alemã, uma perfeccionista em tudo o que fazia.

Lembro que ela falava que eu tinha uma qualidade muito importante que era a boa vontade em aprender.

Fui acumulando todos os seus ensinamentos e o mais importante de todos foi que ela fez nascer em mim o gosto pela leitura. Ela me emprestava livros e revistas e o hábito de ler me acompanha desde então. Isto me levou mais tarde a gostar de escrever, o que passou a ser constante em minha vida.

Lembro que uma vez a vi chorando, manuseava as roupas da filha do patrão da qual cuidara desde que a menina tinha sete anos . Quando fui trabalhar lá, a moça, então com trinta anos havia morrido, fazia pouco tempo.

Anos mais tarde, após meu casamento ela fez-me uma visita, notei que gostou do que viu. Talvez tenha ficado orgulhosa em pensar que era um pouco responsável pelo esmero com que eu cuidava da minha casa.

Tudo aconteceu num passado distante, porém muito vivo dentro de mim.

Amália já deve ter se encontrado com o noivo que ela dizia ter morrido na guerra, e que por isto havia ficado solteira. Eu, adolescente, ouvia fascinada aqueles relatos de morte e amores não concretizados.

Sinto nunca ter-lhe dito o que escrevo agora. Ela lapidou minha educação, eu poderia ter, quem sabe, com um pouco da minha doçura de adolescente, abrandado aquele coração solitário.

A velha solteirona Amália, talvez sorrisse com carinho, e demonstrasse o sentimento que hoje acredito, ela tivesse escondido no peito.

Gerci Oliveira Godoy

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/GERCI_OLIVEIRA_GODOY.htm

 

 

 

HELENITA SCHERMA

 

PESAR

 

A noite,
Como um manto azul marinho
Salpicado de luz,
Cai sobre as minhas tristezas.
Tento dormir
Mas os sonhos passam
Por meus olhos abertos
E ainda despertos.
Se fosse fácil
Livrar-me da saudade!
A silhueta morena, na penumbra,
O riso claro que a visão vislumbra,
Ecoando como sinos, no vento
Do meu pensamento!
A pressão dos braços,
Em torno da cintura,
A magia... magia pura!
Tomba de minhas mãos
O álbum de fotografias,
Registro das memórias
e de tantas alegrias
autenticado pelo tempo
que conta nossa história.
Cobre-me a noite
Com música e lembrança;
Vozes longínquas,
Palavras de carinho.
Aconchego-me mais. A madrugada avança.
Apago o abajur. E choro baixinho...

 

(04.05.2010)

 

Helenita Scherma

 

 

 

HUMBERTO RODRIGUES NETO

 

LÁPIDE

 

Gozei da vida as ilusões completas,
amei as noites, namorei as ruas,
vaguei do amor nas mais sutis faluas,
como só o fazem corações poetas!
Ah... quantas vezes fui dormir às duas,
e mesmo às três, das madrugadas quietas!
E quantas vezes minhas mãos inquietas
tatearam corpos de mulheres nuas!
Galguei do sonho alcandorados cumes,
sequei do amor toda a espumante taça,
sorvi da vida os mais sensuais perfumes!
Mas eis-me aqui, neste marmóreo odre:
não sei, nem sou... E o que já fui não passa
de um monte fétido de carne podre!

 

Humberto Rodrigues Neto

 

 

ILZE SOARES

 

QUEM DISSE

 

Que tomar chuva dá resfriado,
nunca experimentou passear
sob ela e ficar encharcado
da cabeça aos pés,
corpo e espírito lavados...
Quem disse...
Que amor não rima com dor,
nunca ficou apaixonado
e pela amada foi descartado...
Quem disse...
Que o mundo não pode ficar melhor,
nunca tentou mudar seu humor,
espalhar sorrisos e colher amor...
Quem disse...
Que existe solidão,
nunca gostou da própria companhia,
não acredita em anjos
e nem tem Deus no coração...

 

Ilze Soares

 

INA MELO

 

FUGA PARA O OLIMPO

 

Ontem sonhei que era uma Deusa. Não sei qual das muitas que povoam o Olimpo e apesar de não ter preferência por esses velhos e poderosos senhores que reinam nesse encantado mundo, um chamado Zeus, veio ocupar o espaço vazio junto de mim. Primeiro me assustou, pois a cama quase desabou! Abri os olhos para ver o que acontecia. Nada.

Voltei a dormir e acordei na cidade de Éfesus, com um Deus muito diferente daquelas figuras que conhecemos no cinema e livros. Não tinha barbas e os olhos eram pretos, iguais aos dos habitantes do outro lado do continente. Tinha o sorriso maroto e um ar meio cínico, bem característico do homem latino.

Debaixo de um sol escaldante fui levada para um templo em ruínas, onde urzes e pequenas flores amarelas cobriam o chão. O silêncio à nossa volta era profundo. Lá embaixo o mar de um azul quase marinho batia forte nos rochedos. Eu praticamente, desaparecia ante a figura que segurava as minhas mãos e me senti um ponto perdido naquele universo olímpico.

Foi quando uma voz forte e sonora perguntou se eu era feliz. O que responder sobre a felicidade a um Deus poderoso, rei de todo o universo, senhor do dia e da noite, dos ventos e das tempestades? Não sabia. Zeus insistiu, pois queria desvendar os mistérios da alma de uma mulher moderna, instruída, vivendo no século vinte e um.

Ah! O tempo! Esse monstro demolidor de sonhos e desejos. Aos poucos fui falando da mulher livre vivendo além dos padrões sociais e políticos de um mundo que nunca fora seu de verdade. Ser feliz é poder aceitar o que a vida oferece, aproveitar as oportunidades, amar, ser amada, sem precisar usar a moeda de troca tão comum no mundo de hoje. A felicidade é um estado de espírito, ninguém vive à sua plenitude, mas pode aproveitar e conciliar os instantes que ela oferece.

E o amor, perguntou? Silenciei. Como falar de um sentimento que une e desune as pessoas? Que pode torná-las felizes e infelizes ao mesmo tempo. O amor é uma faca de dois gumes, ouço dizer isto desde quando era menina.Tudo vai depender de como aceita-lo.

Para uns é uma doação total, para outros uma cobrança infinita. O amor é tudo aquilo que a gente não pode tocar, possuir, guardar num cofre a sete chaves! O amor é acima de tudo liberdade! E dificilmente quem ama é livre.

Aí perguntei ao Deus que estava junto a mim: E a sabedoria, é ou não uma forma de amor? Tudo nasceu aqui entre montanhas e mar, o legado da humanidade veio de vocês Deuses poderosos que criaram a filosofia, a arte da guerra, as artimanhas do amor e até mesmo o veneno da alma.

Escureceu e no infinito um novo sol brilhou em forma iluminada de mulher. Selene, a deusa Lua invadiu a noite e fechou os olhos de todos os Deuses do Olimpo. Senti um vento suave levando-me não sei pra onde. Durante muito tempo voei por lugares desconhecidos, ouvi vozes, músicas estranhas, raios e trovões e foi debaixo de uma chuva forte que acordei no aconchego da minha cama, só e com um leve e doce perfume de pecado.

Ilha de Éfesus, 2012.

Ina Melo

IONE RUBRA ROSA

 

QUERO LHE DIZER QUE...

 

Nem o tempo,
Nem à distância,
Vão apagar você de mim.
O sentimento,
Que o coração gravou,
Ficou eterno
E onde quer que eu esteja,
Estará sempre comigo.

 

Ione Rubra Rosa

 

ISABEL C S VARGAS

 

MENSAGEM DIVINA

 

Por mais dolorosos momentos
Que possamos passar
Haverá motivos para sorrir
E a vida abençoar.
Nas pequenas coisas
Encontraremos sinais de Deus
De renovação e fé na vida.
Depois de muita tristeza
Voltou o tempo de sorrir
De viver a alegria e a esperança
Na vinda de meus amados netos
E na vida que se espalha ao redor
E que encontramos nas coisas inusitadas
Como no ninho do passarinho
Dentro da caixa de correio.
É a natureza se preparando para a uma nova vida.
A natureza se renovando
E Deus nos enviando seus sinais.

 

Isabel C S Vargas

 

Pelotas-RS-Brasil

 

IVONE BOECHAT

 

Isto é Natal?

 

Muito cuidado com aquele amontoado de gente suada de tanto correr para procurar um presente, o mais barato possível, com aparência de caríssimo, para berrar o nome do amigo oculto no meio de inimigos declarados! Muito cuidado!

Muito cuidado com essa neurose de casa enfeitada, cheia de estrelas e penduricalhos, tudo piscando, tudo com brilho, para receber pessoas abandonadas e carentes, que vieram se abrigar no “refúgio” anual dos parentes para amenizar as dores da saudade, da ingratidão. Muito cuidado!

Muito cuidado com o jantar cuspido e dos pratos trazidos de cada convidado. Coma somente o necessário para fingir que jantou, porque o peso dos molhos e dos musses podem lhe fazer muito mal nessa altura do dia! Muito cuidado.

Muito cuidado com aqueles parentes para os quais você não pode contar as vitórias retumbantes do ano velho: reduza o brilho das suas conquistas, bote tudo no diminutivo, não conte a menor “vantagem”, é... A sua luta, o seu stress pra conseguir as coisas, eles acham que você está contando vantagem. Chega também nessa festa reclamando de alguma coisa, nem que seja da sua velhice. Vão adorar a festa!!! Muito cuidado.

Muito cuidado ao falar dos filhos também. Claro, vão perguntar por aquele que lhe dá trabalho, pelo desempregado, pelo folgado, pelo falido, ao invés de elogiar os outros que dispararam na direção do sucesso... Muito cuidado.

Muito cuidado ao chegar de carro, o seu novinho, lindo. Estacione lá longe, e finja que chegou de carroça, de charrete, de ônibus, de van, sei lá; seja criativo. Muito cuidado.

Muito cuidado com você também. Não vá chegar com uma bolsa Vitton, com roupa de marca, com maquiagem importada, não. Lave a cara, chegue de olheiras, seja discreto. Cirurgia plástica? Não conte! Converse sobre a Bolsa de Xangai, sobre o preço do combustível, sobre a pacificação dos morros, sobre a previsão do tempo. Muito cuidado.

Afinal de contas, tem muita gente pensando que é assim que se comemora o Natal. Quando o aniversariante é convidado para a festa, nada disto acontece. O encontro começa e termina com uma oração. Existe harmonia, boa vontade, carinho, ninguém está preocupado com disputa, concorrência, aparência.

Pense nisto, afinal!

FELIZ NATAL

Ivone Boechat

JACÓ FILHO

 

AMOR E CONSCIÊNCIA

 

Tinha aos vinte anos vigor e coragem,
Produzia tanto quanto a minha equipe...
Além duma luz, estimulando a estirpe,
Não me ver idoso, me dava vantagem...
Sonhador iludido, promovendo o bem...
Aproveitadores frios trazem na marra,
A dor e ciência, que minh’alma, trava...
Perdi muita força, já do tempo, refém...
Sentir-me um mané por ajudar errado,
Causou-me perda mental e financeira...
Matou os estímulos, brecou a carreira...
Eduquei meus filhos, tão influenciado,
Que fui rigoroso, além da pertinência...
Faltou-me leveza, amor e consciência...

 

Jacó Filho

 

JANDYRA ADAMI

 

E POR FALAR EM SAUDADE

 

São 12h12 do dia 04/11/1987. O dia amanheceu ensolarado, céu azul, brisa suave... Entrei no Parque da Colina há pouco e tudo me pareceu tão belo, florido, um lugar onde realmente reina a paz... As sepulturas enfeitadas pelo Dia de Finados e algumas esquecidas, sem nada em cima. Assim estava a de minha mãe. Eu não vim aqui dia 2, não por esquecimento..

Queria vir hoje, rezar por ela, conversar talvez, pois há 50 anos ela me dava a vida neste exato momento: 12h12 de 04/11/1937 eu nascia, para alegria de todos da família. Mais tarde a alegria seria minha por ter recebido de Deus a dádiva de pais tão queridos e amados, que mesmo depois de mortos são lembrados com grande saudade e amizade por todos.

Sempre sonhei com os meus 50 anos... Aos 15, não pude fazer festa por questões econômicas... Hoje a razão é outra. Falta a razão principal da alegria, da comemoração: minha mãe. Esta a razão pela qual vim passar a hora exata do meu nascimento com ela. Nós sempre estivemos juntas: nas alegrias e nas tristezas, emoções e decepções...

Mas, ela partiu tão cedo e me deixou “fisicamente”. Deixou tanta saudade entre os amigos e parentes... E o meu aniversário passou a ser culto de orações só para ela. Em todos os telefonemas seu nome é lembrado: “-Ah! Se dona Geralda fosse viva...”

Mas... É bom fazer 50 anos. Parece que a energia se renova e a gente passa a pensar como adulta, embora eu seja uma eterna criança.

Agora a sepultura de minha mãe está cheia de rosas - 50 – todas vermelhas... Parece que sinto a alegria dela com a nossa presença. Logo as rosas murcharão, como nós na vida.. Logo alguém virá fazer limpeza e tudo voltará á rotina do dia a dia num campo Santo...

Eu estou mais leve... Num dia tão importante para mim, vim homenagear aquela que me deu a vida...

Que bom se fosse ela que estivesse chegando para passar o dia comigo!

Jandyra Adami

Do livro Passarela da Vida - 16/11/1982

Belo Horizonte/MG

JOÃO BOSCO SOARES DOS SANTOS

 

TOCATA NATALINA
(Do Livro Tocatas.
Também publicado na Revista Artpoesia)

 

Natal é o amor com alegria.
É o afeto com magia.
É a paz em reflexão.
É DEUS abraçando o mundo
Com SEU sentimento profundo
Repleto de compaixão.
Natal é a beleza da fé
Colocando-nos de pé
Gargalhando sensação.
É a nossa vontade firme,
Robusta e inflexível,
Repleta de afeição.
Natal é, da vida, a parada;
Aniversário da morada
Que chamamos coração.
É o belo instante da vida,
A primavera preferida,
Encanto da comoção.
Natal é o altar do sentimento
Em formidável momento;
Berço feliz da emoção.
Natal é ternura agradecida
Que cura toda ferida;
É um milagre em ação.
Natal é o doce cantar da vida.
A melodia mais querida
Que eterniza a gratidão.
É o bom perfume do universo,
Aninhando-se no verso;
Poesia do coração.
Natal é a energia da vida.
A volta, o ficar, a partida
Da alma em ressurreição.
Natal, somos nós enternecidos,
Abraçados; comovidos,
Celebrando a união.
Abraços natalinos antecipados.
João Bosco Soares dos Santos.

 

JORGE CORTÁS SADER FILHO

 

O CONCERTISTA

 

Todos sabem da dificuldade de um homem comum transformar-se em concertista famoso, capaz de grande audiência em teatro que se apresente. A dedicação diária ao instrumento, sempre num prazo mínimo de quatro horas faz com que muitos nem pensem em tamanho trabalho.

No seu camarim, solitário como preferia ficar sempre, o pianista Eduardo André olhava-se no espelho, ajeitando-se da melhor forma possível. Traje apropriado para apresentação de grande gala, camisa alva, passada com carinho, sapatos elegantes, vestiam o homem de pouco mais de quarenta anos que, por si só, já dispensava maiores comentários.

Eduardo André nascera e crescera um homem muito bonito. Beleza rara; era externa, no seu rosto bem feito, olhos profundamente significativos e seus cabelos longos, sem exagero, onde já se viam fios grisalhos. Mas a sua beleza exterior não se comparava a interior, fina, requintada, que desde menino demonstrou quando sentava para tocar piano. Devido a pouca idade, ainda não podia frequentar o Conservatório, fato que não impediu que aos quatorze anos já fosse conhecido como um grande talento, graças aos excelentes professores que o seu pai, professor universitário de Física não havia descuidado. Observando com a mulher a vocação até mesmo desmedida do filho, não permitiu que se perdesse o talento do jovem que no momento se vestia com apuro, penteava os cabelos e ouvia um murmúrio de platéia grande, bebia aos pequenos goles fino conhaque, intercalado com café, hábito que havia adquirido quando fez um longo aperfeiçoamento com o pianista Tamás Vásáry, talvez o maior do mundo atual. Quando Eduardo André voltou ao Brasil, Vásáry falou apenas, dando um forte abraço, "sucesso, maestro. Encante o mundo."

A família de Eduardo André mantinha relações com pessoas de nível intelectualmente elevado, já que tanto pai como mãe, eram professores respeitados. Dentre as amizades, havia um casal que tinha uma belíssima filha, que Eduardo André sempre lastimou a sua pouca idade. Marta era uma menina, ele só podia admirar. Mas levou sua imagem enquanto estava na Europa, estudando. Jamais se esquecera de um só fio dos seus cabelos dourados, sua educação esmerada, ainda que tivesse apenas quinze anos.

Olhou o relógio. Nestes momentos, há um conflito muito grande que se passa na alma do artista. Ao mesmo tempo em que aguarda ansioso dar o melhor de si aos atentos ouvintes que lotam o teatro, ele sente a mais profunda solidão. Afinal, vai enfrentar ouvidos educados, músicos famosos, sempre presentes na platéia.

O jovem concertista deu uma olhada final no grande espelho. Estava muito bem, mas a frase dita pelo seu mestre não lhe saia da cabeça. "Encante o mundo"...

Levantou-se e foi direto para o palco; as cortinas já tinham sido abertas e seu nome anunciado. Eduardo preferia assim. Não gostava da outra forma de apresentação, a que quando as cortinas se abrem o pianista já está sentado diante do instrumento de cauda longa, afinadíssimo e com brilho incomum sob as luzes do palco.

Entrou calmamente, com um sorriso sincero que agradava aos homens e entusiasmava as mulheres. Com a mais absoluta elegância, cumprimentou o público curvado-se enquanto a mão esquerda segurava de leve a extremidade do piano, olhando logo depois para todos que conseguia. Qual não foi seu espanto quando seus olhos viram Marta, já uma mulher e que ele soubera casada. Linda, num belo contraste do seu vestido negro com os seus cabelos dourados.

Ajeitou-se com elegância no banco e tocou. Seus dedos pareciam estar movidos por força estranha. O repertório era Chopin, e a emoção por pouco não leva a Eduardo André compor, como o mestre, em pleno recital, uma peça semelhante a Grande Polonese. A visão de Marta havia tocado profundamente o concertista, que a cada toque sutil, delicado ou vibrante, mais se entusiasmava, nunca havia acontecido este fato antes.

A cada música que se sucedia, os aplausos, como a música executada, estavam num crescendo. Há muito a platéia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro não tinha o encantamento pelo qual estava passando. A música enchia o belo teatro, descendo pela sua escadaria, espalhando-se maravilhosamente.

Terminado o concerto, Eduardo, como não poderia deixar de ser, foi aplaudido de pé e as aclamações fizeram que ele voltasse ao piano mais duas vezes.

Quando mais uma vez agradeceu com a elegância característica, viu que Marta batia palmas e lançava um belo sorriso.

As cortinas fecharam-se por definitivo. O jovem concertista, de cujos olhos saiam lágrimas de um amor que não se realizou, molhavam sua face e Marta não saberá nunca que o concerto foi dado para ela...

Jorge Cortás Sader Filho

JORGE LINHAÇA

 

O PALHAÇO

 

Cara pintada, olhar de alegria,
Nariz vermelho, roupa colorida
Vai o palhaço, nessa fantasia,
Mil piruetas ao longo da vida.
Todo palhaço é luz e poesia;
No picadeiro, ausência sentida.
Sem ele o circo é melancolia;
Apenas lona sob o céu erguida.
Viva o palhaço, eterno farsante,
Viva a alegria, onde ele estiver
Pois ser palhaço é ser importante;
Pintar a cara não é pra quem quer,
É pra quem sabe o exato instante
de fazer graça dum drama qualquer.

 

Jorge Linhaça

 

Salvador, 11 de novembro de 2012

 

JOSÉ HILTON ROSA

 

MUNDO MODERNO

 

Chegou o celular
Coisa tão boa
Contas a pagar
Coroas na província
Tirano sem medo
Tempo passado
Tiro na mente
Tudo perdido
Chorando sem lágrimas
Chovendo, ira no transito
Chão sem planta nenhuma
Choro de um homem
Mesmo pedindo perdão
Mesmo inocente
Mente sã com certeza
Mero arbítrio!
Vida aleijada
Vida pós Pinochet
Vírus de homem
Vivendo em vão
O castigo esperado
O papa não palpita
O homem ainda sonha
O mal está solto
Sonho perdido
Sã é a mente, ainda
Solitário na prisão
Sofrendo sem a culpa
Amigo perdido
Amigo esquecido
Alheio à guarda
Absoluto enfermo forçado
Ameaça do chumbo no couro
Ameba no cérebro de quem atira
Ante-sala do medo
Amnésia da vítima
Vida de inocente
Vendo a vida passar
Vírus de homem na presidência
Virando os olhos de dor
Com os lábios presos
Com a arma cravada
Com os sonhos perdidos
Com raiva e derrota
Vivendo época Pinochet
Vendo flores queimadas
Vendo pessoas presas
Vendo, vendas de almas.

 

José Hilton Rosa

 

Belo Horizonte- MG – Brasil

 

 

JOSÉ LUIZ DA LUZ

 

A PARTIDA

 

Dourava a irmãzinha insonte,
que brincava aos pés do monte.
Num lago de águas escuras,
aos cantos das saracuras.
E sequiosa a mãe que a amava,
a ela arquejante falava:
- Criancinha... Enleva não,
canta aquém, ao coração!
Puro bálsamo guardada,
no seio da mãe amada.
Pois do lago o nevoeiro,
era um manto traiçoeiro.
Que trouxe à terra alegria ...
De alma afeita em simpatia...
Com seu hálito de amor,
como a brisa de uma flor.
Toda feita bonequinha,
de hálito de princesinha.
Cabelinhos cacheados,
qual o sol, eram dourados.
Com olhos de anjos alados,
viam um céu, encantados! ...
No êxtase daquele enleio,
no sonho daquele seio.
Do jardim era uma flor,
que eu brincava com amor.
Na lama, ao pó, no carvão,
eu pegava a sua mão.
E o pirilampo que via,
era ao breu feio e temia.
Do estranho ser eu cuidava.
Oh, meu Deus! ... Como eu a amava!
Pressentia a luz do céu,
a abarca-la como um véu.
Tenros lábios que entreabria,
mas insonte, só sorria.
E como um raio em furor,
entre o colibri e a flor.
O anjo dos raios de Deus,
levou-a nos braços seus.
Eis, um dia a mãe chamou,
e do lago não voltou!
-O que terá acontecido,
para não ter respondido?
E pobre mãe, que chorando,
sobre as águas procurando.
Aconteceu! ... Eis deitada.
Lábios sem vida, afogada!
Mãe de face desmaiada,
trementes lábios, mirrada.
Abraçou-a em seu torpor.
- Ai meu Deus! ... ai, quanta dor!
Alva face como a lua.
No céu, novo anjo flutua.
- Ai meu Deus! ... ai, quanta dor,
cortaram a minha flor!
Qual criança que dormia,
sob a abóbada jazia!
Dormiu neste chão imundo,
para acordar no outro mundo.
Vê-la alva sobre o caixão,
fria, explodia emoção!
-Ai... Que dor... Sobre o altar!
-Ai... Se pudesse voltar!
Tão pálida a mãe chorou.
Tenro ser à luz voou.
Tornou-se uma estrela amada,
no céu, fina luz dourada.
Seu corpinho ao chão dormia,
mas no céu com Deus sorria.
- Mãe, irmãos, não chorem... Não!
Deus segura a minha mão!
Findou no luzir dos círios,
a flor no afã dos delírios.
Partiu... Benzinho! Partiu!
Eu sei... Foi Deus, quem pediu!
Pranteou triste o cãozinho,
farejando o pó, sozinho.
Uivava da noite ao dia,
àquela... Foi... Quem sorria.
Deitou-se no último leito,
de água a inundar o seu peito.
A luz da nova aliança,
levou a linda criança.
Agora é um anjo de luz.
Uma estrela que reluz.
Cheia de céu e de lume,
exalando o seu perfume.
Irmã Nelci Teresinha.
No céu, é uma princesinha.
Banhada de paz e luz,
Aos pés de Deus e Jesus.

 

José Luiz da Luz

 

 

 

 

 

 

 

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