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Adélia Einsfeldt
Porto Alegre/RS - Brasil
TEMPO
O tempo instante
desliza apressado
nas dobras do
vento lento
foge por caminhos
por onde passei
desdobra em retalhos
por atalhos
nas ruas e cidades
sem idade
os anos que andei
foram tantos
e no entanto
parece que
apenas cheguei
ontem.
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Adelia_Einsfeldt.htm



Aidil Borges
Célula de Execução de Projectos Ministério de Educação
e Desportos de Cabo Verde
Filha do mar
Eu sou filha do mar
Moro na beira da praia
Entre o mar e o céu
Os meus dias nascem azuis
Eu sou filha das ilhas
Que diariamente busca alcançar
Sem conseguir,
A outra margem do Atlântico
Eu sou filha ilhoa
Que deseja pisar o chão firme
Da minha progénie
A cada navio que passa
Eu sou filha de ninguém
Sem história, nem identidade
Que sonha com o continente ao lado
A cada minuto que passa
Eu sou filha da praia
Que vive buscando
O caminho de terra firme
E nunca acha
Eu sou filha da sereia
Que procura incessantemente
Pelo marinheiro
Que nunca aportou o cais
Eu sou filha do mar e do céu
Aceito a minha condição
Para que os meus dias
Nasçam sempre azuis.
***
O sonho impossível
Sonhei que não estava em mim
Num ímpeto, vi-me
Fora de meu EU
Os meus pés já não pisavam o chão
Meu corpo estava desprendido,
Flutuando no ar
Como se não existisse
A força da gravidade
Meu pensamento nas nuvens.
Eu voava como pássaro
Meu peso era de pluma
Esfumaram-se de mim
As regras,
As obrigações,
As convenções,
Os horários,
Os hábitos,
As responsabilidades,
Os acordos,
Os compromissos,
Tudo que representa
O estado actual do meu EU…
Por momentos,
Eu era a dona de meu ser
Da minha liberdade
De meus desejos inconfessados
Dos amores que sonhei
Dos caminhos que queria percorrer
Das coisas que queria ter
Da liberdade que queria conquistar
Da ambição incontida
Da vitória que queria alcançar
Do sucesso que queria ganhar
E da coroa que queria merecer
Por instantes,
Senti me possessa
De uma força gigantesca
Senhora das tempestades
Dona dos mares
Rainha das trevas
A personificação em mim
De uma força demoníaca
A super mulher herculeana
Que conduz os destinos da terra
Que molda tudo,
Como a pujança das águas
Transformando o Cosmo
Tornando o mundo e a natureza
Refém de meus caprichos
Por segundos,
Senti me a dona do comando
Que controla o próprio destino
Que escolhe o caminho
Que solta as amarras
Arrebenta as correntes
Quebra as barreiras
Mata o preconceito
Bane os estereótipos
Anula as desigualdades
Reparte as riquezas
Espalha a felicidade
Em igual proporção
Sentencia o futuro
Castiga a humanidade
Para repor a justiça!



Anamaria Nascimento
Aracoiaba
-
CE/Brasil
PERIPÉCIA AROMATIZADA
A adolescência é uma fase transitória, em que o
relacionamento com os adultos muitas vezes se torna difícil devido à
incompatibilidade de interesses e valores.
Para os adultos conviverem de maneira passiva com os
jovens nesse período, faz-se necessário aprender a lidar com eles sem
hostilidade.
Foram muitos os discentes que acompanhei sem nunca
ter passado por nenhum constrangimento sério, porém em mil novecentos e
noventa e quatro, atravessava uma época delicada em minha vida, papai
estava convalescente e eu precisava de todo apoio, não só dos amigos
como também dos colegas de trabalho e alunos para suportar a enfermidade
de meu genitor que a cada dia me dava certeza da separação inevitável.
Neste ano assumi na Escola de Ensino Fundamental e
Médio Almir Pinto de Aracoiaba, o telensino pela primeira vez e mesmo
passando por momentos cruciais, julguei-me apta para fazer um bom
trabalho, confiando nos anos de experiência educacional.
Era uma turma de 6º Ano e como ensinar não é
simplesmente uma atividade para inculcar, de forma deliberada, costumes,
normas, informações e hábitos, preparei-me para receber uma
responsabilidade moral pelo bem-estar daqueles adolescentes.
Eles, no entanto, não estavam satisfeitos com minha
presença, principalmente: Rochelle, Fagna e Paulinho, desejosos por
estudar com a professora da sala vizinha, a Sra. Lenira Dantas de
Queiroz, onde estavam os colegas do ano anterior, mas a diretora, Sra.
Maria dos Santos de Lima, foi irredutível quanto ao remanejamento dos
alunos insatisfeitos, garantindo minha permanência como orientadora.
Ao receberem aquela ordem sentiram a necessidade de
tomar uma medida que afastasse definitivamente a minha pessoa. Depois de
muito pensar, descobriram meu problema alérgico a fragrâncias
odoríficas. Naquele momento todos sorriram, a chave para expulsar-me
estava em mãos bastava apenas capacidade para manuseá-la. Mas quem seria
a estrela guia daquela incumbência? Paulinho, o mais peralta, foi o
escolhido a executar o plano, comprando em uma banca um frasco de
perfume bem ativo e com este aromatizando todas as carteiras da classe.
Ao chegar àquele recinto, rapidamente passei mal
sendo obrigada a deixar a sala carregando no rosto o vexame da
limitação, bem como a certeza de que a “a adolescência; em especial, é a
fase de descobrir e de testar limites” como diz o psicólogo português
Daniel Sampaio, autor de Indisciplina: Um Signo Geracional.
Analisando o caso, ameaçar e castigar seriam atitudes
inúteis para reduzir a agressividade dos jovens que ali se encontravam
para serem educados, pois cujo caráter ainda em formação, não comuniquei
o ocorrido à diretora, mas no momento tive a convicção de novas
armadilhas preparadas e percebi o árduo trajeto para conquistar a
amizade daqueles mutantes em vida.
Frente a este acontecimento me senti impotente,
cheguei em casa amortizada, pensando em desistir daquela turma, porém
meu compromisso com a educação deu-me incentivo para prosseguir com
determinação o encargo a mim confiado, buscando descobrir uma
metodologia capaz de proporcionar maior interação em sala de aula e
lembrando a afirmativa: “um dos primeiros ensinamentos que a Sagrada
Escritura nos dá é este: sob o sol não há nenhum outro caminho mais
eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta educação da
juventude”.
O período de agressão apesar de intenso não foi
eterno, com paciência e entusiasmo fui adquirindo um convívio
harmonioso, em meio a um ciclone de anseios antagônicas. Vale salientar
que já no mês de maio só existia lembranças das peripécias cometidas e
juntos comemoramos o dia das mães, sendo minha genitora escolhida pela
aluna Robervany para representar Nossa Senhora, numa encenação capaz de
trazer lágrimas aos olhos dos presentes.
Também merece destaque a morte do grande piloto de
Fórmula Um, Airton Sena da Silva, fato que atingiu a sensibilidade dos
discentes e juntos resolveram não assistir as emissões da TV naquela
ocasião para acompanharem as reportagens sobre o ídolo. No dia seguinte
apresentaram trabalhos diversificados e interdisciplinares sobre o tema.
Um outro episódio marcante em nossa trajetória foi
quando precisei acompanhar meu pai, nos seus instantes finais, eles
foram unânimes na prestação da solidariedade, merecendo ser lembrado os
alunos: Daniel e Enedina, que todos os dias, iam a minha residência
receber orientação de matemática e repassa-las aos colegas, assumindo a
posição de monitores, cargo ainda inexistente na época. E no momento de
sua viagem para junto do Senhor , resolveram não entrar no colégio, para
chorarem comigo a perda que enlutou meu coração.
Essa experiência serviu como alicerce para esclarecer
que “ensinar é uma forma técnica de possibilitar aos alunos a
apropriação da cultura elaborada da melhor e mais eficaz forma possível”
porque no decorrer do ano letivo, os alunos assumiram uma nova postura ,
transformando nosso ambiente estudantil num espaço de críticas
construtivas e muita interação.
***
CHAMAS DE ESPERANÇA
Fugindo do universo da amargura,
busquei felicidade num amor,
usando a competência e a doçura
na ação que foi cingida de louvor.
Sonhei ressuscitar fiel ternura,
querendo merecer total primor,
mas não abandonei a vã postura
e fiz o coração sangrar em dor.
Embora caminhando errônea, assim,
e ter o sentimento bem confuso,
preciso vê-lo sempre junto a mim.
Talvez um dia, eu possa lhe mostrar
a chama gloriosa que conduzo,
acesa, e, então, eu venha a lhe entregar.



Andrade Sucupira Filho
Jornalista e poeta - Vitória - ES
POMBO CORREIO
Levei tua mensagem
Codificada
Fada
Para dentro
Centro
Das flores
Perfume
Montanha cume
Beijo segredo
no vento da boca tua
Livre gaivota
Libido...recebido
Ponto
***
ENVELHECER
Evidente que nenhum de nós gosta de sofrer os efeitos
do envelhecimento: rugas, cansaço muscular, ósseo, dos órgãos, redução
hormonal, etc...Natural é o esforço que queremos fazer no sentido de
evitar tais efeitos, seja por meio de alimentação mais saudável,
substâncias químicas (remédios) naturais ou não, atividade física, entre
outros recursos.
Contudo, é bastante saudável, para termos um
envelhecimento tranquilo, que mantenhamos nosso equilíbrio mental,
aceitando, com naturalidade, a ideia de que envelhecer é parte
inevitável da vida. Sem perder de vista que um rostinho lindo aos
sessenta anos de idade não vai fazer com que retornemos, como em toque
de mágica, aos vinte (nossa linda juventude).
Dentro desse contexto está a vaidade do ser humano,
em especial, da mulher. As mulheres, em geral, permanecem lindas (graças
a Deus) por muito mais tempo que os homens, assim como (dizem as
estatísticas) vivem mais. Portanto, até certa medida, a vaidade não
deixa de ser salutar e trazer brilho especial após meio século de idade.
O que entristece é ver
nos mass media (e às vezes bem
próximo de nós), com frequência significativa, pessoas que guerreiam
contra o envelhecimento como se pudessem vencê-lo e retornar à primavera
da vida, física e mentalmente, por meio de cirurgias plásticas diversas
(no abdome, rosto, seios, etc), substâncias injetáveis nas marcas de
expressão (com muita frequência) e tintura nos cabelos.
No caso concreto, conheço situação em que a pessoa,
além de utilizar todos os recursos que mencionei anteriormente, utiliza
cerca de quinze drágeas por dia e ainda medicamentos em spray na pele,
tudo para não envelhecer (tem mais de sessenta anos mas aparenta vinte).
Tais pessoas olham para outros idosos (iguais a elas) como se fossem
refugo rejeitável, passando a conviverem quase que totalmente com grupos
de faixa etária duas ou três décadas a menos que a idade delas.
Afastando totalmente qualquer manifestação de
preconceitos, muitas vezes esses idosos são explorados por pessoas mal
intencionadas, que lhes tiram muito dinheiro, saúde e, pior, a
verdadeira autoestima. Isto porque, na ilusão (desequilibrada) de que
está sendo amada, tal pessoa entrega-se à ideia de que tem vinte anos de
idade: é nesse ponto que o aproveitador trabalha.
Concluo sugerindo ao leitor que observe nas notícias
diárias dos meios de comunicação, em destaque. Verão muitos casos
assemelhados aos exemplos aqui descritos, de atrizes e outras
“celebridades” que já estão girando em torno dos setenta anos, mas
deflagram guerra insana contra seu envelhecimento. Certamente as
consequências não são desejáveis.
Amar-se acima de tudo, manter alimentação saudável,
sempre visitar seu médico, fazer atividade física aplicável (como
caminhar), dentro de seus limites, e até uma dose sensata de vaidade são
as ações mais saudáveis para um envelhecimento tranquilo. Afinal, estar
envelhecendo significa estar vivo. E que todos nos respeitemos e
respeitemos, sem restrições, as pessoas que já tiveram o privilégio de
viver mais do que nós.
Andrade Sucupira Filho



André Anlub
Brasil
Prisioneiro deposto (descubro que aquilo não era
esperteza, e sim covardia)
Já rodei pelos vis bares e espeluncas loucas da vida;
Em puteiros faceiros falidos com mulheres musas de
esquina.
Já me vi na latrina latente e na obscuridade incurável
do ser;
E seguindo cegando nas vozes o que na pena precisaria
fazer.
Mas no corpo absorto e na alma encalma tão visível
ameaça,
Cicatriz do aprendiz que se estende ao lado das largas
tatuagens.
E como estranhas e quentes miragens que se fundem em
ferro na carcaça
Fazendo-me a raça da (dês) graça, sem ao menos e ao
muito me conhecer.
Então me camuflo confuso pra prosseguir animado e
adiante;
O coração em reação está imundo, mas não carece
cárcere ou morrer.
Já fui torto/morto por dentro – desfavor do pavor de
outrora;
Quase finado/afinado por fora – vários prévios
instantes do ontem.
Um adendo por dentro; um dedo na roleta russa do
desgosto...
Vejo seu riso no rosto (posto e imposto), no alvedrio
da bala.
Os gritos e falas (nos rompantes), em um minuto se
calam;
Apontado ao ávido ouvido e ao som do breve estampido:
O ínfimo no infinito de guarda aguarda o prisioneiro
deposto.
***
Flor de lis, de lírio e lírico do Preto e da Branca
(releituras de mim)
Garanto minha salubre e frágil presença no pensamento
mais estranho que remete apressadamente ao pesadelo da minha pele plena
pintada de branco. Minha flor bela, não escute os embebedados de alma,
mendigos-uísques demagogos a Go Go. Ouve a cantoria, pássaros aos montes
de entortar pescoços e acariciar ouvidos... São os esboços – diamantes –
da nossa selvageria de amantes. Enxergo nada cego, envergo e expresso
essa minha entrega em reflexos de uma pulcra lâmina cega. E de maneira
sutil, tão viva e severamente tão simples, chego, sonho, cedo e
transcendo ao corte seguinte. A doação que faz mistura – nossas cruas
carnes nuas – fez contraste no arraste – na queima que é de praxe – do
protocolo em leitura. Ah, minha branquinha, flor branquinha... Me aceite
eternamente seu. Bebemos nas águas puras e impuras, mas com o coração
nada errante e os olhos hiantes. E diante de tudo, em estado trepidante
de paixão, peço-lhe que pegue o banco e a caipirinha e venha sentar-se
ao meu lado e olhar a lua... (desnuda – noite – minha). Chegando do
silêncio veio como tempestade e mordiscava minhas ideias... Lá vem ela!
Essa bela, irritante e insistente luz que entra pela janela e me convida
para sair e viver. Raul de Souza com seu trombone que tromba de modo
majestoso e marcante, tocando, relaxando e deixando o corpo voando sem
destino... Estou agora sereno para narrar o ocorrido: tirava os laços
dos futuros presentes, mostrava o onipresente que ao botar pra fora os
dentes, provava não ser um sonho, enfim. Ela, a Flor (não é Maria Flor,
que pena. Mas está valendo)... Nomeada como imperatriz de amores que
ganha de súbito sua coroa, trono e sonho se aproximando do súdito com
suas suntuosas flores. Ouço-a falar em público: o que seria mais certo –
onde estaria o erro – qual a importância disso? A resposta vem com o ar
fecundo, quebrando o coeso silencio, queimando mil brancos lenços e
prevendo o fim dos futuros lamentos; a resposta bateu de frente com seu
cheiro de alfazema, com seu humor de hiena e sua adorável e inigualável
interpretação eloquente. Na tela do cinema da esquina já se viu esse
filme antigo de um multicor lírico com tons de pura boemia. Sim, é
poesia! faz crescer as flores e nasce nas flores crescidas. Como som
melancólico que segue invadindo – Abrasador ao íntimo – sem dor – toca e
preenche e compreende ao completo; na mais alta altitude que o anseio
ressoa, e é tênue e desconcertante. Toda uma terra estremece em todo o
corpo que balança e merece o céu no sol e a luz da lua na luz do teto do
tato e do tudo (tamanho absurdo, mas eu vi). Namoro e sinto e choro e
aprovo e comprovo o sopro e aguardo, e você. Mas é mais mar que observo
e sou servo ao todo... E amo. Vem, vem como variante, pé e pé, paz e
paixão, marcando no solo – selo; como ao chão e ao sentimento é um
sucinto sinal sagrado, afetuoso, pois não censura e nem corta nem cura o
soco solitário do colosso: o banho ao calor em chamas, supina alma à sua
presença... E amo. Solos secos castigados, que fenderam em frangalhos de
raios antigos... Ficam no aguardo das águas em rios em milagres em
lágrimas em circo em cio... E vieram e vigeram e ficaram e fincaram... E
amo. Quem será o guardião desse coração tão intenso raro e quente? Nesse
vai e vem do povo a cólera passa rente... Tentando roubar o puro,
amolecer o duro e dando duro para esconder o tesouro... Causando
tumulto, cavando um túmulo e matando os loucos. Tudo se transforma na
fala da saliva da ponta da língua; na palma da mão macia que à toa
entorna a raiva perdendo-se no céu anfitrião. Sendo o alicerce mais
forte fez-se o castelo - nasce o coveiro que rompe vis elos, enterra as
contendas e encarcera o faqueiro que insiste no corte. Joss Stone com
voz estonteante, timbre mutante e olhar de sereia cantante. Estou agora
pacato para narrar o fato: a verdade mostra para que veio e o ópio
evapora na veia. Surge a sorte pisando na morte, tornando o instante o
livro na estante de um astuto perfeito. O som é ameno, no feliz badalar
dos sinos para a hora do recreio. Percebem-se letras ao vento, fermento
de versos no intento; na mescla que move à fantasia – lamúria e luxúria
dos dias. Diga-se de passagem: a paisagem pairou na barriga dele
(grávido), pariu na paragem mais certa e reta – cerne que outrora
tardia. Faz-se poesia – cria – faz-se poeta (ávido), criou-se meta na
metalinguagem em espectros. Assombrando os muitos herméticos heréticos
espertos e espetando os pedantes pedintes descalços moleques. Ao céu o
seu mais lindo e redondo sol brilhante, diamante dos dotes de deuses de
doutrinas de histórias; ao léu asas cresceram, veio inspiração/sorrisos,
ao velho ao novo ao menino – porta de início de índio de íngreme.
Prepara-se o leito quente – seio da mãe – leite materno, cobiçando o
menino vadio, forte e inteligente (frenético), as letras são o “norte”,
coreógrafas convidando ao passeio (imagético), sem freio, meio –
principio – confins sem fim... No íntimo eterno.
André Anlub



ANTONIO PAIVA RODRIGUES
FORTALEZA/CEARÁ
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Antonio_Paiva_Rodrigues.htm
AMOR SINCERO
Sinceras e belas frases de amor eu recitei.
No seu emérito carinho de vez me alucinei,
Jamais quero egocentralizar nossos carinhos...
Nem que eles venham trazer dores e espinhos.
Irrelevante jamais será, pois a ti sempre amarei...
Invita, insta por mais carícias é a minha sina,
sonhei,
Eterno e benfazejo será o nosso amor, imaginei...
Carícias, beijos, abraços, afagos, jamais esquecerei.
Excelsa é a nossa união, eterno será o carinho que te
darei...
Meu amor, minha amada não esqueça jamais o que jurei,
Amar-te com dedicação, com o coração ofegante te
direi...
Eis o meu eterno e único amor, pois sem você não
viverei.
Morrerei de tristeza, melancolia, mas em ti sempre
confiei.
A união faz a força e com este elo amoroso me
deslumbrei
***
JESUS, O DIVINO
Vem a mim, humanidade amada, porque sou o Caminho, a
Verdade e a Vida. Sou o amor, vem a mim. Quando o Espírito tomar seu
lugar no homem, aparecerá o Cristo manifestado. Meu Pai e Eu somos Um. A
identificação do espírito do homem com o Cristo é a Glória do Cristo no
homem. Agrada-me ver-te sendo útil, seja na cabeceira dos enfermos, seja
semeando a semente viçosa de minha doutrina, seja acariciando,
consolando e socorrendo, aos necessitados. Quando fores consciente de
que vieste a este Mundo para colher experiências, realizando as práticas
do serviço, cheio de amor e caridade para com teus semelhantes, estarás
cumprindo com as Sagradas Leis de Harmonia, dadas por Meu Pai para que
se cumpram na vida.
E, se não acatares, sobrarás e voltarás a este Mundo
e entrarás no círculo de nascimentos e desprendimentos, até que cumpras
a missão que tua alma prometeu cumprir. Abre Cristão, teu coração para
que recebas o pranto da humanidade. Deixa o passado, toma teu presente,
sente-te homem novo, sê Cristão, converte-te em Manifestador do Amor
limpo e puro, sê Espiritual, pois com isso o Cristo irá aparecendo em
ti. Eis porque Estou semeando a semente do Bem, da ternura, da Bondade
em teu coração, para que ames com casto Amor, embora ela ainda não tenha
encontrado terra fértil, está negativa e estéril... Minhas mensagens são
a Força que anima a Terra fértil, és o Sol que dá calor e vida, és a
água que a rega e, entretanto, a terra de teu coração não é fértil,
continua sendo estéril...
À semelhança dos homens, são as aves que morrem nos
ninhos, acabadas de nascer e morrerão cada dia sem se alimentar, aves
são as que não cantam à esperança, porque lhes falta o calor que da Fé,
e assim caem mortas, no Caminho da vida. Há mortos que na carne têm
aparência de vivos e vivos sem carne, mas nestes vivos sem carne
deixaste a dor e, nos mortos com aparência de vivos na carne, deixaste a
amargura; portanto, compreende que a ignorância das coisas espirituais
conduz a desesperação e, com tem exemplo inadequado, levas aos humanos a
confusão e incredulidade. Corações amados que tantas vezes com minha
palavra acariciei que com meu amor revivi, que com minha sabedoria
alimentei , quero que sejais símbolo da sempre viva fé para a
humanidade. (Arnulfo H. Ferreiro).
O amor é sinceridade, o amor é renúncia, o amor é
serviço, o amor é sacrifício e muitas coisas mais, que fazem feliz ao
que se despoja do que lhe é próprio, por amor. Eu quero amado meu, que
aprendas a Amar, para que teu amor te leve à cabeceira dos enfermos, te
aproxime do que chora e do que perdeu a fé. Bem-aventurados os que
sofrem porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram
porque eles serão consolados. Bem-aventurados os que se sacrificam
porque o mundo lhes negou... Bem-aventurados os que compreendem o oculto
e as simplicidades das grandes frases porque deles é a sabedoria.
Bem-aventurados os que se dedicam à humanidade, porque eles receberão
recompensa...
Bem-aventuradas os que se derramam em bens, porque
deles são as dádivas dos Céus... Ama humanidade, amas sempre para que
sejas feliz. Eis aqui o pensamento do Messias fazendo homens novos! Eis
aqui o pensamento do Redentor da humanidade transformando os homens!
Amados meus: vós que ansiais fazer-vos bons hoje, melhor que ontem,
sabei que sempre estou disposto para purificar-vos no fogo sagrado do
sempre eterno Amor Espiritual, sou e serei sempre incansável para
revelar-vos as maravilhas do Espírito. Não há dúvida de que Jesus é o
mensageiro divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade, e, por
ela, o caminho da salvação.
Segundo definição dada por um Espírito, ele era
médium de Deus. O pão de Deus é aquele que desceu do Céu e que dá na
vida ao mundo. Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome
e aquele que em mim crê não terá sede. O tipo mais perfeito que Deus tem
oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo. É filho de Deus,
como todas as criaturas. Jesus foi um revelador de primeira plana, não
porque haja trazido ao mundo, pela primeira vez, uma parcela da Verdade
Suprema, mas pela forma de revestir essa Verdade, colocando-a ao alcance
de todas as almas, e por ser também um dos mais excelsos Espíritos, para
não dizer o primeiro em elevação e perfeição, de quantos têm descido a
Terra, cujo governador supremo é Ele.
Jesus cristo é a paz, é mansidão, é a justiça, é o
amor, é a doçura, é a tolerância, é o perdão, é a luz, é a liberdade, é
a palavra de Deus, é o sacrifício pelos outros. É o Guia Divino:
busque-o! É a Verdade e a justiça, a que todos nós aspiramos. Chamou-se
Jesus entre os homens o maior missionário que o Altíssimo enviou a
Terra. Espírito puríssimo, o Celeste Enviado se abalou dos mais
sublimados páramos espirituais em socorro da mísera Humanidade a quem
legou, nos seus sábios e amorosos ensinamentos, um tesouro de luz
divina, que os homens, porém, se obstinaram em repetir, tanto que lhe
deram morte afrontosa na cruz, como se fora um malfeitor.
O homem de hoje, e de anos atrás peca pela maldade,
pois dispondo do livre-arbítrio e tendo o bem a sua disposição, resolve
se inserir no mal de mala e cuia. O homem não usa a inteligência, um dom
divino dado por Deus e atualmente a maior chaga da Humanidade é o
egoísmo, aliado ao orgulho. O egoísta só pensa em si e jamais será capaz
de inserir na vida a fraternidade e a caridade espontânea. O Mundo de
“Provas e Expiações” está a pleno vapor é o homem está assimilando a
ignorância e se inserindo nos mundos das drogas, da violência e da
maldade de um modo geral. Quando o homem será perfeito de coração? Só
Deus sabe! Pense nisso!
Antonio Paiva Rodrigues Paiva Rodrigues

António Zumaia
Sumaré – SP - Brasil
Os amigos
Os amigos são anjos voando,
sempre em nosso apoio e ajuda;
As nossas ausências suportando.
Se os destratamos nada muda.
Somos alvos da sua atenção,
se precisamos... dão-nos a mão.
Espíritos de luz no caminho;
A suavidade da nossa dor,
recolhe para si o espinho
e faculta-nos o seu amor.
É presente quando é preciso,
mas se erramos sabe-nos mostrar;
Na suavidade de um doce aviso,
que também nós podemos errar.
Amigos, são presentes da vida,
espíritos onde existe amor;
De Deus, uma dadiva querida,
como joia de raro valor.
Ser amigo é doce missão,
que o Bom Deus concede a quem ama;
Na verdade é simples irmão,
que em qualquer perigo... se reclama.
Será o nosso apoio e abrigo;
Todo o ser, que chamamos de amigo.
António Zumaia



Ary Franco (O Poeta Descalço)
Brasil
BEIJOS CELESTIAIS
Existem beijos, beijos... e beijos!
Os mais recentes ainda me lembro.
Trocados entre bocas ávidas de desejos
Não têm muito, apenas algum tempo.
Porém, os mais importantes, de outrora,
Esses jamais serão por mim olvidados!
Todos os dias, naquela mesma hora,
Retornando à casa, eram-me osculados.
Ainda garoto, chegando do colégio,
À minha espera na porta ela estava.
Sempre usufruía deste sortilégio,
Os beijos que minha mãe me dava.
Hoje, de mim, está bem afastada.
Mas sei que, no céu, em lá chegando,
Estará ela na porta me esperando
Para dá-los quando de minha chegada.
Ary Franco



ARIOVALDO CAVARZAN
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Ariovaldo_Cavarzan.htm
CANTO DE PRIMAVERA
Passeio o meu outono
na primavera de tua vida,
sensível às nuanças de cheiros,
claridades, cores e sabores,
a ressumbrar das flores
que enfeitam teu viver.
Inspiro cheiro de rosas,
gerânios, flores-do-campo,
de açucenas e de lírios,
entregando-me ao delírio,
ao recolher restos
desabados no chão,
para tornar perfumados
passados amores,
de idos caminhos percorridos,
em felicidade, carinho e alegria,
e em miríades bem formosas.
Recolho pétalas de lembrança,
despencadas ao chão,
inertes fragmentos de flores,
relembranças de
idealizados amores,
irrealizados ramalhetes,
umedecidos em
furtivas lágrimas de emoção,
feito pedaços liquefeitos,
brotados em fonte
de inexprimível paixão.
Passeio o meu outono
através da tua primavera,
renovando-me também,
qual fênix sem vida,
morta e outra vez renascida,
infensa aos espinhos,
de dores e desatinos,
entregue tão só
a relembranças
do que restou.
Entre o meu outono
e a tua primavera,
glacial e quase-eterno,
insinuou-se o intruso inverno,
mas ainda há canteiros semeados,
também mortos e outra vez revividos,
para enfeitar de luz,
cheiros, flores, cores e ternos amores
o meu coração.
***
Meu céu, cheio de estrelas
Às vezes, fico imaginando como haveria de ser bom, se
um dia eu pudesse transformar o teto do meu quarto de dormir, num
pontilhado de pequenas estrelas, cometas, naves espaciais, planetas,
luas e sóis, que se tornassem visíveis quando a última lâmpada se
apagasse e a noite viesse me chamar para o repouso do corpo e o
espairecimento da alma.
Seriam pequenos pontos luminosos ali espalhados, de
propósito, para dar-me a impressão de estar repousando ao ar livre e de
alma também liberta para voar, contemplando o espaço infinito e sonhando
os sonhos dos corações apaixonados.
Entre as estrelas, uma certamente haveria especial,
por representar, a um só tempo, meu ponto de apoio e repositório de
minha paz e meus pavores, de minhas angústias e meus humores, de minhas
alegrias e meus temores.
Quando, às vezes, me pegasse desperto, entre os
sobressaltos de madrugadas mal dormidas, o que certamente faria, em
primeiro lugar, seria procurar pela minha estrela querida, para com ela
trocar confidências de desapontamentos, incertezas, decepções, alegrias
e tristezas, para, quem sabe, com a ajuda dela, conseguir compor com
serenidade o cenário do novo dia que estivesse por chegar.
E, quando me visse novamente caminhando pelos muitos
caminhos da vida, que eu pudesse seguir sempre em frente, imaginando
que, embora em plena luz do dia, aquela linda estrela do teto do meu
quarto de dormir, haveria de estar me acompanhando, concorrendo com a
sua luz para a claridade de um novo dia e velando para que os desafios
de minhas andanças se transformassem em lições capazes de me modificar,
a cada dia, numa pessoa um pouco melhor.
Se assim pudesse acontecer, certamente o meu coração
se abriria para o entendimento de que a felicidade verdadeira somente se
concretiza ante a certeza da existência de algo ou alguém, capaz de
estar sempre por perto da gente, velando por nossos passos, por nossa
vida.
De que a existência de cada um, na face da Terra, não
pode prescindir de um ponto de apoio, um ombro, um abraço amigo, uma
afinidade verdadeira, um carinho, um amor acalentado e generoso.
De que pessoas são como estrelas que marcam presença
incessante em nossas vidas, plantando lembranças eternas em nossos
corações.
De que é indispensável sentir-se bem por estar perto
de alguém, nem que seja através de uma simples lembrança, uma vibração.
E sempre que me visse ante os umbrais de uma nova
noite, e enquanto o sono não me fizesse prostrar, cuidaria de também
entregar-me a lembranças gostosas de amores absolutos e carinhos
verdadeiros, às vezes permutados sob um céu cheio de estrelas, como
aquele que bem poderia estar reproduzido no teto do meu quarto de
dormir.
Deixar-me-ia levar por reminiscências de arrepios e
adrenalinas que somente os amantes verdadeiros conseguem experimentar.
E a cada novo dia, sentir-me-ia renascido e pronto
para seguir em frente em meus insondáveis caminhos, destemido e disposto
para enfrentar e vencer todos os desafios.
E guardaria comigo a acalentada imagem de minha
estrela querida, meu ponto de apoio, sempre pronta para me acudir em
noites insones e em dias de caminhadas sem temor.
Tornaria sempre presente a lembrança de sua
luminescência envolvente, silenciosa e boa, e de sua imagem querida,
gravada para sempre em meu coração.
E voltaria a me imaginar liberto para navegar através
do meu céu, pontilhado de estrelas, sempre visíveis, para me asserenar
em madrugadas de sobressaltos e dias de alegrias e incertezas, nunca
deixando que eu me sentisse só.
E se tudo isso pudesse mesmo acontecer assim, a cada
nova noite, eu certamente não veria a hora de apagar as luzes do meu
quarto de dormir.
ARIOVALDO CAVARZAN



Artemiza Correia
Ocara - CE
Pássaro da Madrugada
Chegastes bem de mansinho
Feito música, junto à alvorada
Suave inocente passarinho.
No romper de um novo dia,
Ainda quase madrugada;
Ansiavas por carinho,
Aconchegou-se ao meu cobertor
Aqueceu-me corpo e alma
Em clima de paixão e amor.
Ainda naquela manhã calma,
Sem satisfazer o meu desejo!
Deu- me um beijo!
E ... Bateu asas em revoada!
***
Dignidade Humana
Vejam só quanta nobreza
Na origem da humanidade
O poderoso onipotente
Criador e divindade
preparou o ambiente
Fez o barro virar gente
e deu-nos a dignidade.
O Deus da imortalidade
Antes de ser matéria
Criou sua semelhança
Com ideia firme e séria
Livre arbítrio e paz
Intelig ência e mais,
Formas contra a miséria
Sendo o centro e o final
E jamais coisificado
Protegido pela lei
Tem direito assegurado,
Trato com seriedade
Chamamos de dignidade
Do homem humanizado
Nossa constituição
Carta Magna Federal
Garante a nós os humanos
O direito natural
Sendo a mesma soberana
A dignidade humana
Numa vida liberal
Artemiza Correia



Benedita Silva de Azevedo
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_b/Benedita_Azevedo.htm
D. Rodrigo Domingos de Souza Coutinho
Há 200 anos morreu,
Aqui no Rio de Janeiro
D. Rodrigo Domingos,
aristocrata pioneiro
vindo de Portugal,
nascido em Vila Real,
agora ele é brasileiro.
Minha homenagem agora
para o Conde de Linhares,
que em mil oitocentos e oito
seguindo através dos mares
a corte vinda ao Brasil,
era cheio de ardil.
pôs em prática os pensares.
Para Ministro da Guerra
e Negócios Estrangeiros
pelo rei foi nomeado...
E também foi dos primeiros
a criar instituições
que atendessem vocações
nestes rincões brasileiros.
A Real Academia
Para formar militares,
também no Jardim Botânico
planta árvores aos milhares.
Uma Biblioteca Pública
que chegou até a República,
vista por novos olhares.
As Belas Artes também
tiveram sua academia.
Foi secretário da guerra
e cuidou da economia.
Secretário de Estrangeiros,
da Fazenda e dos dinheiros,
descansar, não se permitia.
Nosso Museu Militar
começaram a construção,
em agosto do ano anterior
à sua inauguração,
terminam no ano seguinte,
primeiro ano de vinte
e enriquece esta nação.
Foi no mês de outubro que,
seu estilo eclético ali,
catorze meses depois
deixava de ser croqui.
Desde então lá preparou
quem do exército optou
para oficiais da reserva.
Neste Museu Militar
inaugurado em outubro,
doze de noventa e oito,
deixa-me até meio rubro
de tanta felicidade,
das belezas da cidade
que a cada dia eu descubro.
OBS.: Texto publicado na Antologia do Forte de
Copacabana, em 2012,
por ocasião dos 200 anos de morte do Conde de
Linhares.
Benedita Azevedo



Candy Saad
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Candy_Saad.htm
Novos sonhares
Róseo véu lunar
cobre a nostálgica tarde outonal,
prelúdio de mil folhas caídas...
Poetas versejam em murmúrios.
Abençoando o encantos dos amantes...
Qual tua melodiosa voz,
Vertente de amor em calmaria que
aflando sussurros acalenta minh'alma,
que recebe de ti tanto e tanto amor...
A lua em vertigem com versos dourados,
Entrega o dia a Vênus "estrela da manhã"...
Nós acordamos com sorrisos nas faces
E embarcamos em novos sonhares...
Código do texto: T4349395
***
Novos tempos
Novos tempos hão de vir
Onde a paz estará presente
Os olhos felizes de toda gente
Estarão a mirar o horizonte
Esperançosos com o futuro
Esquecerão os desencantos
Abrirão os braços para o amor
Dando a vida novo sabor
Sonhos de paz
Sonhos de justiça
Felizes terão forças para lutar
Com carinho construir seus ninhos
Respeitar o próximo
Amar a natureza
Ver a criança ter esperanças
de um mundo melhor
A luz de Deus nos corações
de seus servos a brilhar...
Liberdade para voar
Novos tempos hão de vir.
Código do texto: T2014633
Candy Saad



Carlos Leite Ribeiro
Marinha Grande - Portugal
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Leite_Ribeiro.htm
“Os dois amigos” (ficção)
Depois de aposentado, o Ricardo vagueava pelas ruas
da Baixa de Lisboa, para passar o tempo e recordar antigos episódios da
sua vida. Nesse dia, por casualidade, passou pelo café onde seu amigo
Alberto passava as tardes a ler o jornal. Entrou no café e dirigiu-se
logo para a mesa onde seu amigo estava.
- Olá, Alberto, como vai essa saúde? Passas o tempo
aqui sentado e daqui a pouco nem andar consegues!
- Tinha o pressentimento que algo desagradável me ia
acontecer hoje. Não sabia o que era, mas com certeza que eras tu que me
ias aparecer! Já me vai correr a tarde mal. Tu que andas sempre a
vaguear pela Baixa, hoje deu-te para entrares aqui neste café – posso
perguntar porquê?
- Porque… Porque tinha saudades tuas e queria
cumprimentar o meu querido amigo, Alberto.
- “Querido amigo”? Por favor não me ofendas com esse
termo tão nobre, quando é verdadeiro!
- É o que eu sou: nobre e verdadeiro. E vim cá
dizer-te que ontem vi a “tua querida” Lena – ainda te recordas dela?
- És um verdadeiro finório (cara de pau). E o que eu
tenho com isso?
- Como foi a tua “amada” pensei que ficasses feliz
por eu a ter encontrado.
- És mesmo impossível. És sempre o mesmo – “amigo da
onça”!
- Não sei porquê, pois até na altura tive a gentileza
de te apresentar a ela, o que ficaste (na altura) muito contente. Pois
uma “avião” (moça linda e apetecível não aparecia todos os dias)!
- Já conheço essa “conversa tua” há muito, grande
(nem te quero classificar). Mas em que falaram. De mim?
- De ti não! Falámos das nossas “anteriores”
passagens pela vida. Mas vou contar-te tudo tim-tim por tim-tim…
…
Ontem fui dar um passeio até ao Terreiro do Paço e
junto à muralha que separa o rio Tejo, vi ao longe um vulto de mulher
que não me era desconhecida. Aproximei-me dela e qual o meu espanto que
reconheci a Madalena. A nossa conhecida Lena!
- Olha quem encontro aqui, a minha “querida e
inesquecível amiga” Lena!
- O que é que fazes aqui? Já pensava que tivesses
morrido (o que não seria nenhuma pena…).
- Passei casualmente por aqui e mesmo de costas
reconheci-te. Ainda hoje és uma “avião”, embora diferente do que conheci
há anos, é certo – respondeu-lhe ele.
- Para ti é tudo casualmente, grande finório (cara de
pau). Deves estar a recordar as malandrices que fizeste na outra Banda
(margem esquerda do Tejo), principalmente em Cacilhas e em Almada…
- Recordo-me daquela vez em que me convidaste a
jantar no Ginjal (Cacilhas); não me recordo bem em que restaurante.
Seria no Floresta?
- Nesse não foi de certeza, pois era muito caro para
a minha bolsa. Foi no restaurante Elias.
- Recordo-me. Até notei que tu eras freguês habitual
daquele restaurante, pois o garçon piscou-te o olhos e levou-nos para a
tua mesa preferida, junto de uma janela que se via o Tejo e grande parte
de Lisboa.
- Lena, tu tens boa memória! Claro que tinha ido
algumas vezes a esse restaurante … com os meus pais.
- Deixa-me rir ahahah. Que ingénua eu era nessa
altura. Depois do jantar, quiseste que eu fosse a uma pequena praia que
ficava mais adiante do Gihjal, onde tu dizias que tinhas pescado muito,
com uma armação de dois varões de ferro; fazias um triângulo com a linha
e colocavas um “sinizinho”; depois lançavas a linha ao mar e quando o
peixe picava, o sininho tocava… Cara de Pau.
- Lena, a minha intenção era ensinar-te a arte de
pescar, nada mais…
- Ricardo, quase que estou a acreditar (só quase) é
que depois desse “ensinamento”, passaste à “pesca em alto mar”, e longe
do razoável:
- Parece que me estou a recordar, sim. Sabes que esta
memória já não é a que foi!
- Cara de Pau! Perdemos com a “conversa” o último
barco para Lisboa, pois quando chegámos ao cais de embarque, já o
ferryboat tinha partida há mais de uma hora. E ficámos no teu decrépito
e furado Wolksvagem, a quem tu chamavas “carochinha” (no Brasil fusca).
- Querida amiga, e ficámos muito bem, até às 6.30
horas quando do primeiro ferry para Lisboa.
- Tinha ido ao cabeleireiro fazer uns caracolinhos e
quando abri a janela do meu quarto para minha mãe não saber a que horas
tinha regressado, assustei-me a ver-me ao espelho, com o cabelo todo
desgrenhado (em desalinho), além das nódoas de óleo que manchavam o meu
vestido novo, apanhadas na “tua “praia, onde prometeste dar-me uma lição
de pesca.
- Felizmente, tinhas deixado a janela de teu quarto
só encostada. Eras previdente…
- Só deixava a janela encostada quando saía contigo.
- E com os outros?
- Não comento. Mais tarde, houve outro dia que me
convidaste a ir a um baile, não em Cacilhas mas em Almada. Não me
recordo o nome da localidade que dizias haver um grande baile.
- Parece-me que estou a recordar-me. Jantámos no
restaurante “Gonçalves”.
- Onde também eras conhecido…
- Nesse dia não fomos para a praia que tinha óleo na
areia. Subimos até ao castelo de Almada e depois descemos uma descida
muito ingreme até quase ao Olho de Boi, onde descarregavam os barcos de
pesca e onde me tinha dito haver um grande baile (mentiram-me).
- Ricardo, não sei porquê não acredito, nem na altura
acreditei. Mas continua…
- Deve estar recordada que a estrada estava em
reparação do lado do mar (direito) e tivemos que fazer inversão de
marcha, e subir o que tínhamos descido. Quando chegámos junto das
muralhas do castelo…
- Num recanto que devias conhecer muito bem…
Continua.
- O “carochinha” avariou e tivemos que passar lá a
noite. Dessa vez não te ensinei a pescar – lembraste?
- Se me lembro, dessa tão estranha “avaria”, pois às
6 horas da manhã, o carro estava bom para apanharmos o ferry às 6.30
horas. Há avarias assim e tu eras “mestre” em inventá-las!
- Pelo menos, nessa manhã não chegaste a casa com o
vestido com nódoas de óleo.
- De óleo vegetal, não, mas com nódoas negras
(hematoma) nas pernas, principalmente nos joelhos.
- Nesse dia também tive problemas com minha mãe por
causa das calças…
- Ricardo, por falar em tua mãe, ela era uma
formidável “cúmplice” tua. Atendia muito bem os meus telefonemas, mas tu
nunca estavas em casa; ou tinhas saído em “serviço da empresa”, ou
tinhas saída não sabia para onde e por fim disse-me que tinhas ido
fim-de-semana com a tua “noiva”. Perguntei-lhe quem era tua “noiva” o
que ela me respondeu com grande descontração: “não sei, são tantas!”.
Cara de Pau, da pior espécie!
- Mas tu gostavas do cá “cara de pau”!!! rssss
- Na nossa última “saída” te fintei e muito bem –
recordaste?
- Não. São fatos passados há tanto tempo…
- Vou-te recordar: Combinámos ir a um baile no
Estoril. Desta vez não fomos para a outra margem, que ainda não havia a
ponte 25 de abril (estava em começo de construção). Jantámos em Oeiras e
depois seguimos para o Estoril. No regresso e como habitualmente, o teu
“carochinha” avariou perto da Parede. Enquanto tu fingias que estavas a
consertar o carro, eu sorrateiramente, procurei a casa de uma amiga,
enfermeira no Sanatório da Parede. Faço ideia da rua cara depois de
teres esperado horas e eu não ter aparecido! kakakaka
- Estou a recordar, estou. Esperei uma hora ou hora e
meia antes de regressar a casa de meus pais. Imagina quão furioso eu
estava, sua “cara de pau”, cafajeste, pilantra, etc.. Confesso que não
achei graça nenhuma com a tua atitude.
- Estás muito “abrasilado”, deves ter visto já muitas
telenovelas!
- Pois é, minha amiga, hoje a juventude tem mais
“liberdade”, mas no nosso tempo fazíamos “tudo” que eles fazem, mas
tínhamos que ser mais “engenhocas”.
- E nesse aspeto, Ricardo, tu eras um grande
“engenheiro”: Até talvez merecesses o “Prémio Nobel”.
- Estamos aqui parados e podíamos ir a qualquer lado?
- Eu vou ao Barreiro.
- Então “podemos” ir ao Barreiro?
- Tu é que sabes, mas na gare meu filho e meu neto
estão à minha espera…
- Certo. Podíamos marcar um encontro para outro dia?
- Talvez para o próximo século! Passa bem e se
possível, com mais juízo nessa cabeça oca!
- Então, inté…
…
- E foi assim amigo Alberto a minha conversa com a
“nossa” Lena! Na próxima vez que nos encontrarmos, pago eu os cafés.
- Não disse que te pagava o café…
- Até à próxima, amigo!
(este texto é pura ficção, qualquer situação, lugar
ou pessoas é pura coincidência)
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal



Carlos Lúcio Gontijo
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Lucio_Gontijo.htm
CINZEL DA PENA
Com um belo poema nas mãos
Banhado no sexagenário coração
Corri num só embalo poético
Para então registrá-lo no papel
Mas verso é quebradiço como nuvem
Desprendeu-se do caniço do céu da mente
Sumiu de repente do mel da cena
Antes de chegar ao cinzel da minha pena
***
Um guarda-chuva em meio à tempestade
O espaço reservado à cultura nos grandes veículos de
comunicação é mínimo e nos pequenos jornais do interior, além de também
restrito, é quase uma ação entre amigos, envolvendo inócuas vaidades
acadêmicas. Por essas e outras, optamos por exercer a nossa atividade
literária de maneira independente, contando com o apoio da família e
alguns bons amigos (e são os melhores), que a literatura foi nos
trazendo a cada apresentação de um novo livro.
Sob o meu ponto de vista, quando um autor, como
fizemos em Belo Horizonte no dia 14 de março, doa livro infantil para
instituições de ensino fundamental, o ato se inclui entre as ações de
caridade. E para nós, a maior forma de ajudar ao próximo e
proporcionar-lhe acesso à cultura. Foi dentro dessa filosofia, sob a
crença em que a palavra é alimento para a alma, que distribuímos,
gratuitamente, 600 exemplares da obra infantil “O guarda-chuva do
Simão”.
Creiam, caríssimos e eventuais leitores, que tal ato
nos custou um enorme esforço pessoal, pois não contamos com qualquer
patrocínio, a não ser a cessão de espaço por parte da Associação Mineira
de Imprensa (AMI), localizada em Belo Horizonte, através de seu
presidente Wilson Miranda, que houve por bem nos prestigiar na condição
de escritor que atingia seu 17º livro e que um dia presidiu aquela
entidade jornalística, no triênio 2002/2005.
Por ocasião da apresentação do livro “O guarda-chuva
do Simão”, que tem ilustrações do comunicador visual Nivaldo Martim
Marques, homenageamos, com a entrega do troféu “Gente de Mérito”,
instituído pelo nosso site Flanelinha da Palavra (neste ano completa 10
anos no ar), o casal Adílson e Ana Maria Mesquita Batista, que desde o
ano de 1977, quando lançamos o nosso primeiro livro (Ventre do Mundo),
nos premia com a amizade e o estímulo de sua presença.
A atitude do Adílson e da Ana, está na contramão de
gente que não está nem aí para os eventos culturais, estendendo-se esse
descaso e ausência às autoridades constituídas, desavisadas sobre a
importância de sensibilizar e apurar o sentimento por intermédio da
cultura, que é a única ferramenta capaz de transformar o conteúdo
adquirido na formação escolar em alavanca de trabalho em benefício tanto
da sociedade quanto do próprio detentor da informação intelectual. Sem
essa união e sintonia entre educação e cultura, assistimos em muitos
casos à diplomação de “doutores” mergulhados na mais absoluta
ignorância, ampliando o quadro de maus e insensíveis profissionais no
atendimento à população. Como costumamos dizer: a educação é o quadro; e
a cultura, a moldura.
Queremos aqui agradecer a presença de muitos
professores que compareceram ao evento cultural em que repassamos 20
exemplares a cada uma das escolas que nos enviaram os seus
representantes. Foi com muita alegria que registramos o interesse de
cidades como Brasília de Minas (três escolas) e Tocantins (seis unidades
escolares), além de Belo Horizonte e Região Metropolitana, fortalecendo
o meu ânimo de levar “O guarda-chuva do Simão” a Arcos e Lagoa da Prata
no decorrer dos próximos dias, em datas ainda a serem marcadas.
Historicamente, saneamento e manilhas não são obras
de interesse da maioria dos políticos brasileiros, que primam pela
prática do atavismo administrativo de fixar placas reluzentes demarcando
seus feitos. Por isso, não voltam seus olhos para as culturas de raiz;
aquelas que não provocam grande aglomeração de pessoas (aos seus olhos,
eleitores), mas juntam famílias e sensibilizam corações e mentes, numa
conclamação à pacífica e harmônica convivência em sociedade.
Lamentavelmente, os editores de opinião dos jornais
dão integral preferência para artigos que criticam as estruturas
seculares em que se assentam as práticas do mundo político brasileiro,
no qual parte considerável de seus quadros busca se cercar de auxiliares
doutrináveis e incapazes de lhes questionar os desmandos, o que é
determinante para a série suprapartidária de escândalos que assola o
Brasil, passando por municípios, estados e toda a federação, como
costuma acontecer com toda e qualquer epidemia.
Dessa forma, nossos meios de informação incorrem no
equívoco de passar à população a ideia de que nada de bom ocorre em
algum lugar, que nenhuma flor germina em meio ao lodaçal e pedras no
caminho, como é o caso (por exemplo) do lançamento de um livro
independente, que comete o milagre de vir à tona apesar das águas
turbulentas da falta de política cultural.
No Brasil, o que aprendemos ao longo de nossa
carreira jornalística e na labuta literária é que cultura não é
prioridade nem quando sobra dinheiro nos cofres públicos, porque o
administrador tem áreas mais importantes para investir; porém se vem
crise econômica, a cultura (aí sim) é elevada a setor prioritário para
cortes, com redução ainda maior dos parcos recursos que lhe destinam.
Resta-nos então, como autor independente, seguirmos
em frente sem nada esperar em matéria de apoio oficial, sem nos
aborrecer com as idiossincrasias acadêmico-literárias, contando apenas
com a sensibilidade de cidadãos e amantes da cultura como o casal Ana e
Adílson. O que já é muito e nos basta, ainda mais agora que contamos com
“O guarda-chuva do Simão” para nos proteger em meio à tempestade, num
país em que autoridade, quando fala de cultura, fica com o cultivo da
mandioca!
Carlos Lúcio Gontijo



Carlos Saraiva
Brasil
O CAMINHO DO PARAÍSO
Agilizai-vos seres incautos...
Não tomais o mundo para vós.
Deixai a quimera ser o arauto,
Ao anunciar-vos a sua voz...
Correi sublimes e esvoaçantes.
Não percais a brisa delirante.
Procurai o horizonte semblante
E levai a palavra por nós...
Os querubins e os guardiões,
Farão soar as suas trombetas
Ao receber-vos alegres e sós,
Eternamente castos e louvados
Num só nome, perpetuados...
mongiardimsaraiva



Cezar Ubaldo(de Oliveira Araújo)
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Cezar_Ubaldo_de_Oliveira_Araujo.htm
GRAN FINALE II
...E,
anoitecendo,
depois de passar pelos clarões
do dia,
o desejo de amar se faz
maior
do que a própria vida,
e depois de ser amada
pela primeira e única vez,
morre adormecida!...
Cezar Ubaldo (de Oliveira Araújo)



Cida Micossi. Santos
SP - Brasil
VAZIOS
Não tive opção
Tive de enfrentar
Pra ganhar o pão
Sempre trabalhar
Ser suficiente
Sempre me virar
E sendo carente
Fingir não precisar
Falta de afeto
Falta de atenção
O que mais me falta
É consideração
Momento mais difícil
Hora de deitar
No espaço vazio
Nada encontrar.
Cida Micossi
Santos/SP - Brasil



Claudio -
Príncipe dos poetas e esposa
Brasil
Amor incondicio nal...
indiscutivelmente, és perfeita,
em tudo que voc ê faz.
Acredito, que nasceste de uma estrela,
tamanho brilho, que traz.
Um simples sorriso já me deixa,
enlouquecido de alegria.
És rainha, entre todas as princesas,
e a luz , de todo nosso dia.
Nada se compara com o seu carinho ,
e o ao seu amor, incondicional.
Capaz que é por amar, de mudar seu caminho ,
provando nos o quanto é, especial.
Impossível não ser seu fã ,
e querer em ti, se espelhar.
Trago na alma, como um talismã,
ao qual para sempre vou cuidar.
Sim, doce e eterno amor,
um dia, Mãe, com o tempo, filha ou irmã.
Amor incondicional, de tão perfeito ,
bem mais, do que dirianos espiritual,
só quanto ao de Jesus Cristo , seria como
espelho , , , , simples, assim se escreve,
MÃE, , , , ,
http://wwwpoesiaderosi.blogspot.com.br/



Cléo Reis
Ribeirão Preto - SP Brasil
JOIO E TRIGO
Parcerias para o Bem
se firmam sem parar
Somando ideais
suavizam o apocalipse de
tantos amargores
Encontros Crísticos
entrelaçam almas
que buscam o trigo
para o Pão da Vida semear
O tempo célere
se desmancha em dores
A Mão do Cristo
persiste a nos chamar
“Entre escombros
há vida”
Sempre é hora
de amar.
Cléo Reis



Donzília Martins
Portugal
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_d/Donzilia_Martins.html
A casa
Queria reinventá-la! Intacta! Inteira, cheia de vida.
Mas não!
Falta-lhe tudo o que fazia palpitar meu coração:
A voz nas escadas ressuscitadas do fundo da memória,
O altar da mesa para a comunhão,
A candeia pendurada na trave da chaminé,
A lua atrevida, espremida no buraco a entrar com o
luar,
O fumo a cirandar pelo escuro da noite depois de
beijar a gente,
O chão prenhe de castanhas, de milho ou de amêndoas
para o serão animar.
Nada ficou! Do fundo do tempo sobe o olhar pelas
paredes,
A ressoar palavras húmidas de frio, vazio e solidão.
Ah! Quanto queria apanhar o tempo, o fumo, o luar, a
lareira, a candeia,
As palavras, as cantigas, as estrelas e as vozes.
Interrogar as tábuas do chão pelos pés que as pisaram,
As telhas que com a chuva cantaram,
O luar que o escuro da rua iluminava
Esfregar o sobrado pela Páscoa para esperar o Senhor.
Sorver o perfume do alecrim e dos lírios roxos da
paixão, trazidos do Cachão,
Ouvir o toque da campainha a voar na rua,
O sorriso dos passos a subir a escada.
Porém, tudo é saudade, a cantar uma ilusão.
Hoje na casa não há vozes, nem passos, nem lareiras ou
candeias
Tão pouco o cheiro dos lírios ou fumo a morder o sono.
Há perguntas a bailar, personagens a passar, novas
vidas a viver.
A casa lá está triste e só, desfazendo-se aos pedaços
Sempre nua, fria e muda
Até que um dia se evapore meu ser.
***
“Quero ser apenas eu”
Escrevo só coisa que me fala o coração.
Não sou erudita, nem intelectual, nem pretendo ser
nada para além de mim.
Quero ser apenas eu: com as minhas limitações, os meus
medos, os meus fracassos, os meus horizontes limitados, onde veja em
cada estrela, em cada jogo de mão, em cada fraga, em cada noite de luar,
dançar a minha alma.
Quero ser a maga das palavras que o peito esconde, que
o olhar vê, qua a mão apalpa, e os sentidos apreendem. Quero contar
histórias de ninar de meninos sem estória, de pedras sem nome, de
montanhas cristalizadas de suor, sangue e lágrimas e de mares que bebem
infinitos de azul. É no verter desta água de palavras que choro, canto e
esvazio a minha dor.
Saem. Libertam-me. Dão-me o poder mágico da
consolação. Caligrafadas na folha branca, virgem de censuras, formam
rios de veias azuis, grossos caudais, como as da minha mão com artrite,
que as vinca.
Só a minha alma sabe o poder mágico das palavras
azuladas ou negras na ponta da minha esferográfica.
Sempre nasço nas palavras. Sempre morro nos silêncios.
Não me quero só. Quero ser caleidoscópio de mim, um
deslumbramento do meu olhar cristalino sobre as coisas. Quero escancarar
a porta do labirinto e dar liberdade às angústias.
Quero ter esperança, rasgar emoções para ser feliz.
Donzília Martins



DOROTHY SANTOS DE MELO
VOLTA AO PASSADO, TÃO PRESENTE
minha essência é o amor
olho para dentro de mim e não me vejo mais
gostaria de ser a jovem que escrevia sonetos de amor
com letrinhas cheinhas de purpurina
e.. .
confesso...
um terrível pudor de amar...
que apertava os seios contra meu corpo
para ninguém ver a mulher que ali brotava
que, ao primeiro filho tinha dúvidas
por onde brotaria aquele pequeno s er
que se contorcia dentro de minhas entranhas..
seguramente...esta...hoje não sou eu...
me impedindo de ter um pensamento ..
quisera amigos dizer-lhes tudo,
no entanto preciso desprender-me
de t oda lembrança que ainda resta em mim
SENHOR DEUS ... tende compaixão
dos menos favorecidos, dos idosos, das viúvas
que deveriam serem enterradas com seus amores...
e, SENHOR.....se sobrar alguma compaixão...
colha minhas lágrimas
quem sabe não serão
transformadas
em um novo oceano?
doromel



Eduardo de Almeida Farias
Brasil
MINHA ALDEIA
A minha aldeia é tão pequenina
Que num amplexo a envolvo, inteirinha;
Seu teto é o azul celestial,
Com uma porta sem aldrabas,
E duas janelas, somente,
Uma janela para entrar o sol nascente
A outra janela para encantar o sol poente;
De luz é toda cheia
A minha aldeia.
Vilamendo de Cima,
Vilamendo de baixo,
Artes da toponímia
Que dividiu com um fio de linha,
A minha aldeia.
Minha terra é guardada
Por uma sentinela de crista enfunada,
Cuja morada é a torre do vento;
É tão velho, tão velho este guardião
Destas terras de Agadão,
Que perdeu a noção do tempo
E até o rumo do vento.
Fica o pobre em sobressalto
Quando o sino grandão
Grita as horas bem alto
Dão, dlão, dão, dlão...
Minha terra é toda beleza
Que dá gosto de ver;
Tem colinas e outeiros,
E montes azuis e altaneiros
Onde a lua faz serão;
Tem um rio de águas saltitantes,
E mil fontes
Lágrimas da Princesa moura do Aljião,
Que por amores perdeu seu coração
E por ali ficou encantada .
Eduardo de Almeida Farias



Eliana Ellinger
Israel
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_e/Eliana_Ellinger.htm
ROSA ADORMECIDA
Aquela rosa que me ofertaste,
embora hoje seca e descorada,
guardo entre os versos que te escrevi.
Naquela rosa que um dia me afagaste,
ainda sinto teu cheiro, saudosa e desvairada
lembr'o amor tão sublime que unia-me a ti.
O tempo se vai e'u aqui sonhando,
minh'alma cheia d'esperança vivendo,
que a rosa adormecida recobre sua cor.
Na escuridão noturna vou caminhando,
raiand'o dia, vai o céu azulecendo
e a rosa triste de saudade, sorve minha dor.



Eloah Westphalen Naschenweng
Brasil
PRIMAVERA
Acordo a luz da manhã e ao canto dos pássaros
migratórios frente a minha janela.
Cada modulação e sutileza de seu canto é como se
colocassem sonhos em sons, suavizados em pálida harmonia.
A madrugada a distância frágil e preguiçosa se esvai
deixando as difusas horas perdidas e, na serenidade da natureza, o sol
inicia seu reinado triunfante.
A névoa borra o fundo do firmamento e
perde-se nas nuvens.
Lufadas de ar frio carregadas de ruídos, como asas
soltas, fazem redemoinhos no chão e a folhagem a balançar como
dançarinas numa dança sedutora.
A grama verdejante adornando a Avenida lá fora, faz do
orvalho, salpicados pontos de luz, emprestando-lhes uma aura de magia.
Não tão longe as águas ondulantes do mar arremetem nas
pedras trazendo no ar o cheiro de maresia. Gaivotas passeiam a preamar
soltando seus gritos no embalo do balanço das águas.
O retângulo do sol que desenha e ilumina o chão cria
uma bela composição, tal qual colcha de retalhos adornando o ambiente.
O dia presente perfeito, engastado como uma safira no
meio de uma jóia especial traz para o meu tempo, perfume, deleite e para
minha alma o canto perene do universo.
É o retorno da primavera criadora fecunda que prepara
a terra para deixá-la vestida de festa e de cores.
Encantada, coloco meus sonhos em música e esta luz
romântica interior, tão minha, a sotavento deixando-me levar pelo
excesso de felicidade que se agarra no meu coração e, em alvoroço, ouço
a voz de um poeta sonhador.
Absorvo a leveza das palavras e, como um carinho
cálido, afago o sonho.
***
CANTO ERRANTE
Meu canto errante, voo peregrino,
Rola teu tempo e de céu e sóis te faz.
Dedilha tuas sinfonias, guarda tuas cores,
Ébria sombra, tênue fibra,
Descamba ao léu, dono do teu destino.
Herói solitário, indômito vagas e afloras,
Trazendo sons em cantaria
Que em vão teces de poesia e boemia
Como, diáfana luz no espaço sonhos desenrolas,
E os leva além do infinito.



Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, Bahia, Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Gilberto_Nogueira_de_Oliveira.htm
EU E EU
Um dia um espírito me perguntou:
-Você sabe o que é a morte?
E eu lhe respondi:
-Não tenho lembrança.
E ele me explicou:
-A morte é viver
Num país onde as pessoas
Seguem religiões:
Onde as religiões
Perseguem as pessoas;
Onde os políticos
Aderem às religiões
Para angariar poder.
Onde os religiosos
Aderem ao poder político
Para aderirem às pessoas
E oprimir os povos.
Perguntei:
-
Você sabe o que é a vida?
E ele me respondeu:
-A vida é arte;
Todos nós somos artistas
De uma vida mundana
Terrena e miserável,
Onde juntar dinheiro
Patrimônio e poder
É o que importa.
Onde juntar gente chique
Bonitas e insanas
Para mostrar o que tens,
É isso que vale. Valores voláteis.
Perguntei:
-
O que é felicidade?
E ele me respondeu:
-
Depende para quem?
Cada grupo humano
Tem sua cultura própria.
Então a felicidade consiste
Em que não apareça invasores
Para violar essa cultura
E sim, apoiadores.
Perguntei:
-
E sobre a depressão?
E ele me respondeu:
-
Ao dirigir numa estrada asfaltada
Eis que tens que entrar
Numa estrada vicinal
E depreciar seu carro
Conseguido com múltiplos esforços.
Perguntei:
-
O que é a tristeza?
E ele me respondeu:
-
A tristeza é você tentar
Fazer com que os outros tenham
O que você tem
E não obter sucesso.
Perguntei:
-
O que é a alegria?
E ele me respondeu:
-
A alegria é você conseguir
Dividir o planeta
Para oito bilhões de seres humanos.
Perguntei:
-
O que é o amor?
E ele me respondeu:
-
É o que você
Está a sentir agora
Gilberto Nogueira de Oliveira



Gladis Lacerda
Copacabana - Rio de Janeiro - Brasil
COPACABANA
O pôr-do-sol no verão, na praia de Copacabana... Meu
Deus!
Lá na linha do horizonte surge um navio. Os últimos
raios de sol, resolvem denunciar aquela presença, e o reflexo deles nas
escotilhas dá-nos a impressão de um presépio flutuante.
Do outro lado, nas areias de Copacabana, a vida pulsa
e se mostra nos rostos morenos e suados dos jogadores de vôlei, de
peteca e de futebol.
No calçadão, casais passeiam de mãos dadas, outros de
braços dados, tomando sorvetes, comendo pipocas...
Nos quiosques estão aqueles que, na falta de
companhia humana, fazem-se acompanhar de um chopinho, de um coco verde,
geladinhos!
E a noite chega. E com ela a algazarra de jovens, o
som gostoso das batucadas. Os turistas ficam alucinados com o requebrado
das mulatas. Os violões dão o ar da graça e os seresteiros se fazem
ouvir nos diversos bares também lotados pelos casais.
Ah, a vida em Copacabana! Quem mora ali não quer se
mudar.
E eu penso nas pessoas dentro de suas casas, sem
poderem curtir esta maravilhosa visão, esta sensação de estar no
paraíso!
Nesses momentos sinto que felicidade é isto: estar no
lugar certo, na hora certa.
Assim, felicidade é estar na praia de Copacabana,
saber observar e curtir essa paisagem, esta vida, esta carioquice
preguiçosa, malandra, maravilhosa, num fim de tarde de verão, observando
o sol se pondo...a tarde caindo... e o brilho das luzes na noite de
Copacabana.
***
VOCÊ PARA MIM
Você é mar: seus braços ancoradouro
onde repousam minhas ilusões.
Você é céu: seus olhos estrelas
que iluminam meu caminho.
Você é terra: todo seu corpo delícias
onde me jogo feliz para receber carícias.
Você é meu tudo, confesso:
você é meu universo



Glória Marreiros
Portimão - Portugal
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Gloria_Marreiros.htm
ESPERANÇA
Os jovens abrem caminhos a verões e a memórias que
passaram por nós há muito tempo; são o começar duma história com a
secreta convicção de que reside ali a mezinha mágica que fará
ressuscitar um futuro com bom auguro; são a música que envolve a
atmosfera do nosso ameno entardecer; são uma primavera súbita e
carregada de possibilidades, pois estão efervescentes de actividades,
fervilham no interior de si mesmos, chocalhando os seus sonhos uns
contra os outros. Atiram-se às sombras e transformam-nas em halos de
luz, libertando reflexos na essência do ar, como se quisessem capturar a
ventura dos nossos verões aprisionados. O futuro, por vezes, pode ter um
sabor acre, a terra queimada, que nos evoca algo e se nos apega aos
confins da memória, arrancando-nos imagens que julgamos perdidas para
sempre. São os jovens, mesmo escondidos nos arbustos açoitados pelo
vento da descrença, que têm nas mãos o condão que pode abrir caminho
através dos enormes amontoados de desilusões, enviando para o ar nuvens
de sementes prontas a germinar na madrugada seguinte.
O futuro depende da educação que se dá ao jovem. A
ausência dessa mesma educação pode explodir no ar com um silêncio
hostil, ou como o ribombar de um trovão anunciando tempestade.
O jovem precisa, para se reflectir na imagem do
amanhã, de segurança, protecção, exemplo e amor. Estes valores formam
uma pequena bolsa de eternidade que nunca os abandonará, porque guarda
milagrosos segredos que eles terão de desvendar, cuidadosamente, para
poderem superar as astúcias e as intempéries da vida.
O jovem de hoje tem de pensar que é a planta que se
ramifica nos beirais do futuro e se derrama pelos telhados do mundo em
cascatas de folhas longas e brilhantes, matizadas de perseverança, para
transformar a luz carregada e oblíqua do modesto sol-pôr que ilumina as
telhas e as paredes musgosas dum futuro passado, agora, apenas, uma
fotografia a preto e branco nas páginas ressequidas das memórias que
descansam na espuma dumas flores ásperas, cujo nome é sempre-vivas.
O futuro, às vezes, assemelha-se a um espinhoso caule
de alcachofra, ainda encimado com a flor do ano que passou, dissecado
até ao limite. Neste caso, é provável que o jovem vacile até encontrar
os rebentos viçosos da alvorada nos canteiros do seu âmago, ao sabor dum
vento refrescado pela carícia do perfume que se solta dum rijo cepo de
roseira brava.
Sabemos que não é fácil construir um futuro,
promissor para toda a gente, ao som de um coro formado por ululos,
silvos e gritos de guerra; com frenesins redobrados e tons que se tornam
selvagens, febris, parecendo uma espécie de champanhe de sons,
impressões, vozes e memórias, tudo misturado num delirante e louco
cocktail, embriagando as tiras de luar que tentam aflorar sobre o chão
de pedra onde tantos jovens pisam.
Apesar de tentarmos ser optimistas, temos de
compreender que não é fácil ser jovem nos tempos de hoje. Muitas vezes
os relógios das igrejas da vida ecoam, distantemente, através de terras
pantanosas demasiado atulhadas em desilusões. As aspirações afloram,
tímidas, no reflexo dum silêncio de vagos significados, como um cinzento
manto de nevoeiro. Dá a impressão de que o astro-rei baixa rapidamente
na direcção da orla enevoada, parecendo rolar num saco de ninfa. Apenas
a brisa que sempre acompanha a noite se transforma em laivos de
esperança.
O sol pode aparecer velado na primavera da vida, mas
há sempre a esperança dum verão quente, luminoso, fazendo o ar sangrar
de oxigénio e a paisagem de cor. Os campos, as árvores e as flores da
alma sempre superam os tons cinzentos e granulosos, para dar lugar à
névoa brilhante que paira no mundo dos sonhos, como um farol para o
barco que balouça nas ondas, perdido. Os botões de rosa, compactos e
verdes por terem estado afastados da luz, hão-de abrir-se para emprestar
a sua deliciosa beleza à espessa veia do romance que atravessa a
essência do jovem. As ervas daninhas que brotam por entre as lajes da
desesperança hão-de quedar-se mortas de frio, prateadas de geada. O
sotaque cerrado da desilusão será uma paródia a rir de si mesma e a
mergulhar na nostalgia, para dar lugar à linguagem do amor. Depois, o
sol deixará de ser a moeda baça estampada no céu, para se transformar
num rio de luz ziguezagueando, em caudal bonançoso, na plenitude do
universo.
Escrever sobre o futuro dos jovens é fazer uma longa
introspecção e uma viagem até às cavernas obscuras da consciência, uma
lenta meditação. Escreve-se às apalpadelas, no silêncio. E pelos
caminhos da imaginação descobre-se partículas de verdade, pequenos
cristais que cabem na palma da mão.
Na juventude, o futuro será terra lavrada de virtude.
A aurora resplandecerá nas folhas e faiscará nas gotas que enchem as
corolas das flores silvestres. Haverá intermináveis paredes de verdura,
áleas e alcovas com significados prometedores, como símbolos de uma
antiga religião, de justiça, amor e paz sobre a Terra.
***
AS UVAS
Tu lembras as uvas, em cachos, maduras,
pendendo no muro pintado de antigo?
Passaram-se os anos, mas sinto um abrigo
na boca onde tive tamanhas doçuras.
O outono bordava, com tons e venturas,
o nosso refúgio sem porta ou postigo.
Abria-se o tempo se estava contigo
e o sol espreitava por entre molduras .
Chegaram os ventos, trouxeram granizo,
o muro tombou sem folhagem de aviso
e as silvas cobriram as vides, depois.
O inverno da vida tem dores e graças,
mostrando que as uvas são doces, em passas
e deixam sabor a saudade, nos dois.



Glorinha Gaivota
São João de Meriti/RJ
Sem destino
Eu sou um barco
À deriva
Perdido
Na imensidão
Eu sou um ponto
Distante do teu carinho
Seguindo na solidão
Meus olhos a marear
Estão secos pelo sal
Das águas do meu penar
Vou abraçado às ondas
Nada mais tem sentido
A bússola do meu destino
É o mar a me levar...
***
VAMOS PRESERVAR O QUE NOS FAZ FELIZ
Dou muita importância em cuidar das coisas que me faz
feliz, agora mesmo peguei um vaso de samambaia que alegra o corredor do
meu trabalho e além de examinar seu estado e regá-lo o pendurei no
jardim do pátio para que possa pegar o sol do dia e o sereno da noite.
Sempre quando faço isso noto que as folhas ficam mais viçosas e me sinto
satisfeita por saber que ela está bem.
Não adiantaria nada eu me alegrar
com a presença dela sem cuidar para que permaneça com vida, se não o
tratasse já teria secado suas folhas e raízes e seria apenas mais uma
alegria morta por falta de cuidado.
Glorinha Gaivota – GG



H OLOFOTES
Heloisa
Lima
Estou nua aqui, do meu lado de dentro.
Estou nua, e não sei o que faço,
Me despindo na rota em busca do centro,
Desnudando a minh’alma apesar do cansaço.
Estou nua, e daí ? Que importa ?
Já não faz diferença. E o que sinto ?
Que fazer sem a pele já morta ?
Me restou a verdade e não minto.
Estou dentro de mim, minha alma abraçada,
Sem medo de nada, me agradam os escuros.
Uma inveja maldita, esperança ceifada,
Ouço vozes funestas, sentimentos impuros.
Mas a nudez serena que observo no espelho
É a réstia de luz que vazou pelos poros,
Pois roubaram-me a roupa, entre gritos sonoros,
Mas deixaram-me a força, me alavancam os joelhos.
E assim abro a cortina, me revelo no palco,
Ouço aplausos e vaias da plateia eriçada,
O holofote me cega, maquiagem de talco,
Me retiro
E sonho com uma alma lavada.
***
FERIDA
Heloisa Lima
Que ferida é essa, atrás, em minha alma?
Abriram-me as costas? Cortaram-me as asas?
Deixaram-me espinhos? Ceifaram-me as rosas?
Costuraram meus lábios? Se escondeu, meu sorriso?
Amputaram-me a língua? Calaram-me as rezas?
Que ferida é essa?
Não sei de onde veio,
Para onde a levo.
Apenas sangro!
ESCREVERECENDO POESIA
Editora HBrasilgraph
- edição e publicação
Pharol Editora
- Divulgação
2014@direitos reservados



Henriette Effenberger
Bragança Paulista – São Paulo
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_h/Henriette_Effenberger.htm
Descalça
Quando meus medos me abandonaram,
minha alma descalça pisou cacos de saudade
e meus pés feridos sangraram angústias inúteis.
Foi então que a vida me encontrou.
Devolvi a capa de sonhos,
o par de óculos azuis, os anéis, as alianças,
as luvas que guardaram afagos...
Vencidos os moinhos de vento,
despi a armadura enferrujada,
prendi Rocinante à linha do horizonte
e parti.
***
FEIJOADA COMPLETA
- Dois quilos de feijão preto – Deixar de molho de um
dia para o outro e trocar a água antes de colocar na panela de pressão
para cozinhar (é importante descartar essa água do molho para se
eliminar possíveis resíduos de agrotóxicos);
O primeiro apetite saciou com leite de peito. Depois
veio a mamadeira e mais à frente papinhas, suquinhos, frutas picadas e
compotas. Já crescidinha apareceram o arroz branquinho e feijão
fumegantes exalando o perfume do amor que alimenta. Houve também salada
de hortaliças, legumes refogados, brócolis e repolhos avisando que nem
sempre o amor cheira bem. Além dos quiabos babosos e do amargo jiló,
prevenindo a menina que a vida nem sempre se apresenta como um bife
acebolado.
Mas com a mãe aprendeu desde muito cedo que amar é
alimentar...
( e ser alimentada) e que “ saco vazio não para em pé”...
- Dois quilos de carne-seca ou charque (observe o
prazo de validade e se não estão muito gordurosas ou muito escuras). O
charque, tal como o feijão, também deve ser deixado de molho na véspera
para dessalgar, com a diferença que água deve ser trocada a cada duas
horas e no mínimo quatro vezes;
O sal se esvai, e a carne perde a dureza do sol e os
primeiros sonhos vêm à tona. A adolescente emoldura o amado, procura
adivinhar de que cor serão seus olhos e cabelos e como será o tom de sua
voz. Repete para si mesmo as palavras românticas que dirá e ouvirá.
Apaixona-se pelo o que ainda não conhece. E espera.
- Seis pés de porco (prefira os frescos, comprado nos
açougues aos salgados industrializados, pois dizem os entendidos em
culinária, que os pés salgados são de porco velho e assim por mais tempo
que fiquem na panela de pressão, continuarão duros). Peça ao açougueiro
para cortar as pontas dos dedos e retirar as unhas – questão de
estética. Em casa, com uma escova de dente (nova, por favor!), esfregue
as saliências e reentrâncias dos pés suínos e os coloque para cozinhar,
com algumas folhas de louro, em panela de pressão por aproximadamente
meia hora. Só depois de cozidos, divida os pés em dois pedaços iguais;
Alguns príncipes desencantados depois, a jovem se
cansa de esperar e tem pressa. E na pressão dos hormônios, frequenta
baladas, faz cursinhos, trabalha, faz carreira, fica, namora, desnamora,
busca, busca, busca... Encontra... Perde.... Volta a buscar...
- Três peças de paio e seis gomos de linguiça
portuguesa, ( também deve-se ficar atento ao prazo de validade, além da
coloração e aspecto peculiar dos embutidos.) prefira os que estão nos
balcões frigoríficos aos colocados em granel nas prateleiras. Corre-se
menos risco de baratas, moscas e ratos passearem sobre eles... Ao chegar
em casa, os lave com água corrente e abundante e os coloque para ferver
em uma panela grande, por cerca de meia hora. Use um escorredor de
macarrão para que a água gordurosa seja descartada, retire com cuidado
as películas que recobrem os embutidos (antigamente as linguiças e paios
vinham em tripas de porco, agora parecem recobertas um produto sintético
qualquer), e os corte em rodelas não muito grossas (por questão de
economia), nem muito finas (para não se desmancharem no meio do feijão).
Com as emoções agora cozidas em fogo brando, a jovem
mulher desnuda-se. Deixa de acreditar em príncipes, não beija sapos,
abre mão da fada madrinha para se cuidar sozinha. Divide-se em fatias,
nem sempre generosas. Ama com parcimônia, é amada na mesma moeda.
- Uma cabeça de alho, duas pimentas dedos-de-moça e
quatro cebolas. Deve-se descascar os dentes de alhos e espremê-los. As
cebolas serão picadas em cubinhos bem pequenos para que, com facilidade,
agreguem seu sabor ao feijão e não flutuem no caldo. Das pimentas deve
se retirar as sementes para conservar o picante e evitar a ardência.
Revê então a mulher madura que muitas vezes chorou
silenciosamente, quando a busca não resultava em encontro; quando a
expectativa não se materializava, quando o amor ardia e a solidão a ele
se misturava; quando a perda a acuava.
- Duzentos gramas de bacon cortados em cubos (se não
tiver uma faca bem afiada para que fiquem simétricos, peça ao açougueiro
para fatiá-los – Torresmos de vários tamanhos e forma denotam falta de
capricho);
Na meia idade o coração, o corpo e a mente se
equilibram. Lança um novo olhar sobre os sucessos, aprende com os
fracassos. Julga, sem auto piedade, sem mágoas e sem falsas
justificativas, cada uma de suas escolhas.
Agora é colocar a panela grande no fogão e despejar
nela os ingredientes devidamente preparados: óleo com fartura (para que
o feijão não grude no fundo da panela) e depois de aquecido fritar nele
os cubinhos de toucinho defumado, os quais posteriormente serão
retirados da gordura para serem servidos como aperitivo. Depois a cebola
(até ficar transparente), o alho ( não o deixe queimar para não
amargar) e a pimenta dedo-de-moça que juntos irão aromatizar e dar sabor
ao feijão que será despejado ali. Deixe o fogo alto até que o caldo
ferva, depois reduza a chama para engrossá-lo. Na sequência, coloque os
pés de porco e os embutidos fatiados, mantendo o fogo baixo até que
todos os sabores se misturem. Atenção redobrada para não passar do ponto
e o feijão, a alma da feijoada, ficar bem cozido sem perder a
individualidade dos grãos.
Enfim, o dever cumprido: sabe que sua vida
realizou-se entre amores e desamores, encontros, desencontros, muitos
ganhos, várias perdas. Entre sonhos realizados e ilusões perdidas,
alimentou e foi alimentada.
Na velhice, mantém alguns projetos e, talvez, até
algumas ilusões, mas tem consciência de que o prato principal já está
servido.
Feijoada borbulhando na panela é hora de lavar o
arroz, picar a couve e descascar laranjas...
Clarice
Henriette Effenberger



Heralda Víctor
Florianópolis SC Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_h/Heralda.htm
Ultraje
Roubaram de mim, o teu olhar...
Aquele olhar especial de solidária compaixão.
Aquele olhar que alcançou meu coração dizendo tudo sem
falar.
Aquele olhar que me tocou profundamente.
Aquele olhar que me envolveu ardentemente,
Roubaram de mim!...
Aquele olhar triste que entendeu minha tristeza,
Aquele olhar forte que amparou minha fraqueza,
Aquele olhar que me olhando diferente, aconchegou,
protegeu.
Aquele olhar que numa lágrima nasceu,
Roubaram de mim!...
Se precisavam dele, eu não sei.
Talvez precisassem mais que eu.
Pode até ser visto o teu olhar olhando noutra direção,
Mas quem possui os direitos deste olhar, é meu
coração!
Estigma em mim, do teu olhar me orgulhava tanto.
Imprimi o teu olhar pelos caminhos, porque era meu.
Cheguei a falar do teu olhar para Deus que me
entendeu,
Mas, teu olhar preso na parede desencadeou meu pranto!
Roubaram de mim...
O olhar que eu almejava encontrar um dia,
Nunca imaginei que o aprisionariam numa fria laje.
O que fizeram entendo como covardia.
O visível e o invisível sabem foi ultraje.
Peça traiçoeira da vida a nos pregar...
Roubem. Roubem tudo!
Porém minhas lembranças não irão levar.
Nelas resguardo a magia dos momentos que acalento,
Sem revelar onde repousa o verdadeiro olhar.
Esconderei do mundo este segredo levando sigilosamente
a túmulo
A dor que fere meu pensamento.
Roubaram de mim, o teu olhar!...
Roubaram!
Roubaram de mim!...
Custo acreditar!...



Iraí Verdan
Magé – RJ - Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Irai_Verdan.htm
O JACARANDÁ
Ontem, ele ainda estava lá...
Reinando em seu “reinado”,
O majestoso Jacarandá.
Ontem, ele ainda estava lá...
Eu vi. Todos o viram em seu lugar
Reinando o seu reinado,
De magnitude e graça,
Que durou – não sei os anos...
Em Piabetá, na velha e querida praça!
Parecia a mesma árvore de sempre:
Sempre bela, imponente,
A desafiar da vida... os ventos,
Como pássaros em voos rasos, lentos.
Alheia, indiferente completamente,
Às vicissitudes dos donos,
Ou à crueldade do progresso humano.
Desempenhava apenas o seu papel:
De ser manto, ao receber a chuva do céu;
De ser abrigo, e abrigar da vida os sonhos;
De ser amiga e escutar os segredos,
Descobertos em suas sombras, como altar!
Sem receios, sem medos,
Nas noites lindas de luar!
Hoje ouvi. Todos ouviram
Aqueles terríveis toques compassados,
Do impiedoso machado a lhe ferir...
Desesperado, o Jacarandá,
Solta no ar angustiante gemidos,
Que tantos não puderam ouvir!
Abafados ao seu redor
Pelos ruídos fortes, renitentes,
Das máquinas e ferramentas –
“Mensageiras do progresso”,
Que antes da próxima primavera chegam,
E fazem do seu passado,
Um etéreo e saudoso presente,
Tão vivo na memória da gente!
(Singela homenagem à lembrança do jacarandá de mais de
dois séculos, cortado da praça de Piabetá – Magé – RJ, em 05 de agosto
de 1986, fato presenciado pela escritora Iraí Verdan
entre outras pessoas).



Isabel C S Vargas
Pelotas/RS/Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Isabel_C_S_Vargas.htm
SONHO MEU
Desde que te encontrei, por acaso
passaste a ser uma grata surpresa
para meu coração sofrido e árido,
necessitado de cuidado e afago.
Nenhuma palavra foi pronunciada.
Nada que pudesse ser interpretado
Como sinal de sentimento avivado,
mas teu olhar foi certeiro e cativante.
Teu modo de tratar as mulheres,
tuas palavras sempre delicadas
atingiram meu coração carente.
És pessoa de sentimento puro,
amor indiscutível pelo ser humano
gravado para sempre no meu coração.
***
O ESPELHO E O TEMPO
Ela sentou-se à frente do espelho. Não como fazia
quando era adolescente que procurava ver se estava bem, toda vez que
passava diante de um, fosse pequeno ou grande. Obsessão de todo jovem
para senti-se seguro.
Agora era diferente. Era uma pessoa madura, em outra
época da vida, com muitas vivências de todo tipo. Perdas, ganhos,
alegrias, tristezas, coisas naturais da existência.
Ao primeiro olhar não se assustou. Viu uma imagem
serena. Não acabrunhada pelos anos, mas de quem está em paz. Só os tolos
acreditam que a vida é feita de felicidade eterna. Não, a vida é feita
momentos, Temos que esgotar todos eles, tanto os bons como os ruins para
passar para nova etapa. O que vê, então é uma imagem e um olhar de
aceitação. Da vida e das conseqüências dela.
Quando jovem todos elogiavam sua beleza. Hoje já não
tinha mais a pele viçosa, mas não era de todo ruim. As sobrancelhas um
tanto arqueadas como a indagar da vida e de si mesmo o que viria a
seguir. Estava preparada para o futuro. Já havia feito um lastro de
emoções que lhe davam força para enfrentar novos desafios. Só quem está
morto não sofre. E se o sofrimento aprimora, ela se sentia aprimorada
pelas atribulações que a vida a presenteara. Já não tinha a boca marcada
como de outrora e as linhas de expressão estavam mais marcadas. Mas isso
significava que ela tinha vivido o suficiente para armazenar
experiências diversas, um aprendizado relevante o que a tornava uma
pessoa interessante no trato com os outros.
Apesar das dores e tristezas era uma pessoa que
cultivava a esperança e a alegria. O Olhar ainda conservava certo
brilho. Ainda sorria com o olhar. Sentiu-se satisfeita com o exame e o
próprio sorriso no fundo dos olhos esverdeados onde enxergava sua alma.
Deixara um rastro de alegria, amor, amizade,
perseverança, gentileza em seus locais de trabalho, em suas relações
pessoais de amizade, familiar e sentia-se uma pessoa bem amada, bem
sucedida e satisfeita. Vivia perto da família, ainda tinha muitos planos
para o futuro e muitos sonhos a realizar. A imagem no espelho se
mostrava por inteiro e sem subterfúgios. Não tinha nenhuma maquiagem a
disfarçar nada e o resultado a deixava em paz. Sua alma está em paz.
Podia perceber tudo isso sem mágoa ou angústia. Estava pronta para
seguir em frente e desfrutar o que a vida ainda podia lhe apresentar. A
reflexão era produtiva. Descansada fechou os olhos e suspirou tranquila.
Não precisava buscar mais nada no espelho. Estava tudo gravado em seu
coração.
Isabel C S Vargas



Ivone Boechat
Niterói RJ Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Ivone_Boechat.htm
Minha memória
Hoje ainda consigo ser lembrada,
nesta longa viagem,
como filha, mulher, mãe, amiga,
escrevedora de versos,
avó,
virá o dia quando os adversos,
apagarão
os perfis do meu personagem,
soprando o pó;
injustiça,
inveja,
vaidade,
me tornarão arquivada
no álbum de fotos antigas
e...para bem poucos,
saudade.
***
Como você vê?
Clarisse Lispector diz: “Sou como você me vê. Posso
ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e
como você me vê passar”.
A forma como a pessoa vê varia de acordo com a
situação emocional, espiritual, social. Isto significa que se pode
aprender a ver. A gente inicia a vida vendo com os olhos dos outros: dos
pais, dos educadores, da igreja, da mídia.O ambiente em que se vive, a
educação, a maturidade, a informação, o exemplo, vão capacitando o ser
humano para mobilizar a inteligência do olhar.
Dizem que “os olhos são as janelas da alma”. Os olhos
são as janelas por onde se codificam as experiências da vida... A pessoa
será ou não feliz dependendo da interpretação que ela dá aos fatos. “Se
teus os olhos forem bons...”
Conta-se que um jornalista saiu à procura de algo
fantástico para registrar no Jornal de maior circulação do seu país. Nem
chegou a andar muito e viu as escavações grandiosas de uma obra. Chegou
perto de um operário e perguntou-lhe:
- O que é isto? E o homem, mal humorado, suando
muito, disse: - Não vê que estou preparando um túnel para passar
tubulações de esgoto?
O jornalista andou um pouquinho mais e viu outro
operário trabalhando na mesma obra, assoviando. Aproximou-se dele e viu
que ele trabalhava de bom humor e perguntou-lhe o que é isto? E o homem
disse animadamente:- Estamos preparando a estrutura, onde vai se erguer
um gigantesco e maravilhoso shoping.
Fernando Pessoa, diz que “o mundo não é como você vê.
O mundo é como você é.” Em versos, ele define a importância do olhar:
“Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
..............................................................
Porque eu sou do tamanho do que vejo.
..................................................................
E não do tamanho da minha altura”.
A forma como uma pessoa olha o outro revela não
somente o seu grau de espiritualidade, revela a escolaridade e os
efeitos do vírus da inveja que se alojou no seu computador emocional. A
maior cegueira do ser humano é causada pela contaminação por inveja que
é capaz de distorcer imagens, pessoas, fatos, circunstâncias.
“Depois de um dia muito cansativo Jesus chegou a
Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que o tocasse. E,
tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe
nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens;
pois os vejo como árvores que andam”. Marcos 8:22-24
Para aquele cego de Btsaida ser curado Jesus
cuspiu-lhe nos olhos, mas por analfabetismo visual, ele via as pessoas
“como árvores que andam”. Com certeza, as primeiras lições foram dadas:
o Mestre ensinou aquele homem a olhar, mas, sobretudo, o capacitou a
ver.
Ivone Boechat



J.R.Cônsoli
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Consoli.htm
Cubismo
O dia prosseguia como aresta não polida...
Flores poliédricas jaziam em árvores oblíquas
e perpendiculares.
O calor da tarde era quadrilátero...
Pequenos cochilos entremeavam sonhos distorcidos
de uma realidade indefinida, ora reta, ora curva, ora
redondos pesadelos...
Sobre a mesa de dois pés, a xícara helicoidal do café
do almoço!
Minha face assimétrica refletia na amorfa poça d`água
da última chuva horizontal, a expressão cândida do
triângulo
obtuso.



Jacó Filho
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jaco_Filho.htm
AOS OLHOS DE DEUS
Sendo sua imagem, é o que Deus veria,
Refletindo no espelho, quando me olho...
Talvez me aceite com a mesma alegria,
Sentida na chuva se bebo ou me molho...
Por ser na essência parte e mesma luz,
Que em si emanado pra obter virtudes,
Vivendo as leis, que também o conduz,
Permite-se aceitar, minhas vicissitudes.
Tendo-me gestado nas fases evolutivas,
Sentindo emoções por perdas e vitórias,
Concede perdão por falhas consecutivas...
Por saber do final sentindo suas glórias,
Sou aos seus olhos, e sem alternativas,
Um Cristo latente em versão provisória...



José Hilton Rosa
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jose_Hilton_Rosa.htm
Homem do mato
Querendo andar sozinho
feito bicho perdido
sem fala, sem grito, nem dor
perdido num pensamento
Olhando para o chão
vergonha da vida
sem entender a razão
é a força do destino
É como olhos vendados
longe de chegar
sem pedir socorro
nem para onde olhar
Sem lugar para ficar
não querendo ver o sol
sem hora para deitar
nem para levantar
É como bicho perdido
com ou sem dor
sem ter para quem falar
da tristeza de estar só



Jose Luiz da Luz
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jose_Luiz_da_Luz.htm
Coração em pedaços
Nosso coração se divide em pedaços,
que se espalham carregados de emoção.
Na vida, quem passa pelos nossos passos,
deixa um tanto, também leva uma porção.
Há quem ama e deixa partes perfumadas;
há quem fere e deixa partes machucadas;
há quem é grato e deixa partes louvadas,
há quem esquece e deixa as partes jogadas.
Na vida, quem passa pelos nossos dias,
deixam pedaços de si pelos caminhos.
Ora sentimos perfumes e alegrias,
ora sentimos dores pelos espinhos.
Há quem sorri pelas partes perfumadas;
outros choram pelas partes machucadas.
Há quem sinta paz pelas partes guardadas,
outros sentem falta das partes jogadas.
A vida é cheia de caminhos cumpridos,
que espalhamos pedaços do coração.
Virão flores, ou espinhos doloridos,
porque são sementes que germinarão.



Juçara Medeiros Lasmar
Brasil
Nesta Tarde
Nesta tarde quente de inverno
quando o sol rebrilha nas montanhas
inspirada eu fico, é eterno
o apreço, a amizade tamanha...
Com sol se pondo, o lusco-fusco
vejo brilhar uma luz no infinito
céu colorido, o crepúsculo
nossa, como o mundo é bonito!
Da janela eu vejo flores
árvores com os pássaros a dormir
alguns voam num balé de despedida...
Neste cenário não se fala em dores
sinto a felicidade refletir
como é bela, maravilhosa a vida!
***
Manhã de Domingo
Céu coberto de nuvens ainda claras, mas que prometem
escurecer ao longo do dia... A árvore que mora em frente minha janela
está coberta de minúsculos botões, dentro de uns três dias haverá uma
explosão de flores amarelas. Duas pombas namoram em seus galhos, fico a
observá-las por um bom tempo... Meu quarteirão tem muitas árvores quase
todas de flores amarelas, mas de espécies diferentes... O cheiro da
manhã é uma mistura de flores e vento... Muitos ainda dormem neste
domingo de preguiça. Outros cantam, alguns choram... A cadelinha de
minha filha passa pelos meus pés cheirando tudo, ela gosta da minha
casa, é grande, tem muito espaço para explorar... Neve é o seu nome pois
parece um floquinho de tão branca... Branca de Neve, Clara em Neve... Se
fosse minha o nome seria Danka em homenagem a cadelinha da minha
infância, dona de tantas lembranças... Lembranças? Nesta manhã de
domingo quero ficar aqui e agora, não quero recordar nada, não quero
lembranças... Hoje o dia será meu, da pessoa que sou hoje e não a do
passado. Se recordo divago... Hoje não, quero viver o presente com toda
a força que ele tem. Bom ou ruim? Não importa. O momento é este,
agora... Não posso mudar o presente, mas posso escrever o futuro, pois
ele só a mim pertence...
Volto novamente à janela para ver se algo fora dela
merece ser narrado... Duas andorinhas revoam à minha volta quase batendo
em meu rosto...
juçara medeiros lasmar



Lena Ferreira
Brasil
As notícias das tuas pegadas
em terras tenras então estrangeiras
pousaram bem calmas nestas mãos aflitas
desdobrando o viés de uma saudade latente
letras lidas ponto a ponto com a ponta dos dedos
trouxeram para perto a ilusão do teu quê tão distante
na desdobra, um aroma almiscarado sossegou os sentidos
- mesmo que por um raro e brevíssimo instante -
num aconchego terno, a missiva abrasou o meu peito
enquanto um azul ultramarino testemunhava as nuvens
que passeavam vagarosamente pelo meu céu
logo choveu... uma chuva quieta e fininha
pelos olhos miúdos em gotas de esperança
de que na volta de tantas andanças
outras nuvens virão carregadas
pela tua alegria tranquila
***
CORAGEM LEONINA
Venho de amparar líquidas mágoas que cutucavam a
visão de hora em hora e, espiãs das lágrimas nascidas cedo, sorriam
secretamente da indiscrição de cada parto, melancólico e sem fim.
Circundando rotas e velhas respostas, todas senhoras de certezas
seculares, lancei outras perguntas em segredo silenciando cada ruga de
expressão de cada vírgula entre o sim e o talvez. Outro hiato então se
fez nesse ofício e foi difícil prosseguir na trajetória já que a
história reprisava o enredo. Já que, sem medo, desejava ir além.
Quase rendida pelas circunstâncias e toda rendada por
desimportâncias, bebi todo silêncio que me oferecia e nessa afonia
incômoda, sobrevivi. Farto foi o fardo dos velhos cansaços que suaram
nesse exercício inútil e tolo onde o dolo tinha odor de recompensa em
frascos longilíneos e inesgotáveis.
Entre o desisto e o sigo em frente, a claridade
duelava com o puro breu sob o olhar isento das mansas águas numa batalha
sem glórias ou garantias.
Ao fim, uma coragem leonina tomou posse de tudo
daquilo que se perdera entre as mágoas e embora venha com as duas mãos
vazias, o que já me pertencia voltou a ser meu.
Lena Ferreira



Luiz Carlos Martini
Restinga Sêca - Rio Grande do Sul - Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/Luiz_Carlos_Martini.htm
Flor de maçanilha
Geou na manhã de maio
A brasa virou cinza após
aquentar a água do mate
E o sol romper de soslaio
Girou tramela, um relincho
E o fumaredo se levantou
O pasto ficou encharcado,
rastro de algum capincho
A saracura abriu cantoria
A estância se manifestou
Fogão novo, lenha enxuta
Ensina a velha sabedoria
A tropa se perde na trilha
E dando o laço às ideias
Espera para a primavera
O perfume da maçanilha
***
Pedra solitária
Toda manhã seguia a passos lentos pela rua em direção
à capela. Não entrava, havia uma proteção sobre aquela pedra e ali
permanecia sentado, com as mãos sobrepostas na curva da bengala. O
chapéu de pequenas abas e um par de óculos escuros. Tudo parado, mirando
a exmo. As pessoas passavam, meros corpos se movendo. Um cumprimento,
sem respostas. A sobrancelha remexe com a batida do sino. Som
penetrante, de fazer doer à alma. Continua inerte, parece mastigar, às
vezes. Uma bola rolou e parou perto do seu pé, indiferente, ali ficou
até que uma mão de unhas sujas retirou. Por horas sentado, até que
escureceu. Levantou e seguiu o caminho de volta.
O Cid estava tenso, nervoso, também alegre, suando e
olhando para o relógio a todo instante. Nem reclamou quando seu cunhado
apertou demais o nó da gravata. A rotina da casa havia sido quebrada com
presença de tantos parentes adultos e crianças, que corriam de um lado
para outro. Enquanto acertava mais um botão da camisa fixou os olhos na
moldura da parede. A foto de seus pais ainda jovens. Belos jovens, de
lindos olhares. Pareciam que, em uníssono, queriam dizer alguma coisa.
“Bobagem”, pensou. Nisso apareceu sua vó, sempre com palavras fortes,
cortantes como lâminas: “Tem certeza que é isso que tu qué? Olha! Dá
tempo.”
O Cid conheceu a Joana numa festa na sede da fazenda.
Apesar de suas poucas habilidades de jovem moço conquistador, acertou
quando pegou a jovem um pouco alta das bebidas. Ela praticamente se
ofereceu e acabaram se refestelando atrás do celeiro. Ali, depois de
algum tempo, deitados e descansando os corpos, fizeram planejamentos e,
nos outros encontros que se seguiram, já incluíam casamento e muitos
filhos. Mas as férias dela terminaram e voltou à cidade para seguir os
estudos. O Cid permaneceu na sua vida rural, vivendo do rigor do
trabalho e das lembranças dela. Da Joana, mais enviava do que recebia
cartas. Numa dessas missivas apelou cobrando uma data para o casamento,
pois percebia que ela se distanciava pelo teor do texto. Continuou
insistindo, já duvidando que o casamento se concretizasse, mas
surpreendentemente ela respondeu e até marcou uma data. Nas férias
seguintes, em julho, exatamente no dia 10, Dia de São Tomé, retornaria
para casar na capelinha do lugar e depois, faria uma festa na sede da
fazenda. Que isso comunicaria seu pai e, caso ele fosse contra, casaria
da mesma forma. Cid beijou a carta e saiu pulando de alegria. Comunicou
a notícia aos amigos e parentes e tratou de fazer sua parte, contatando
com o padre, arrumando padrinhos, alugando a roupa, etc. Fazia uma
contagem regressiva imaginando a cena: Joana chegando numa carruagem,
linda, vestida de branco e um arranjo de flor de laranjeira na cabeça.
Os dias foram passando e o 10 de julho finalmente chegou. À porta do
pequeno templo religioso reluzia o cabelo do Cid. O coração parecia que
ia sair do peito de tanta ansiedade. Ficou na ponta dos pés para espiar
a curva da pequena estradinha. A carruagem que não vinha. “Noiva sempre
chega atrasada. Isso é normal”, pensava. Uma nuvem de poeira surgiu no
horizonte. Não era a carruagem, tão esperada por todos. Alguém vinha a
cavalo, a galope. Esbarrou em algumas pessoas, desceu rapidamente correu
em direção ao Cid, colocou a mão no bolso e entregou uma carta: “Meu
querido Cid. Sinto muito por fazê-lo sofrer. O pai, como sabes, não quer
nosso casamento. Estou indo terminar os estudos na França. Quem sabe um
dia eu volte. Quem sabe! Como não tenho essa certeza disso, encontre seu
caminho. alguém por aí. Procure ser feliz. Perdão. Te amo! Joana”. Cid
leu a carta e olhou para curva da estrada e tudo ficou escuro
Todos os dias ao entardecer os sinos da capelinha
dobram e uma pedra resta só.
Luiz Carlos Martini



Luiz Poeta
Rio de Janeiro RJ Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/luizpoeta.htm
DESIGNER DE POETA
Luiz Poeta
Luiz Gilberto de Barros – às 8 h e 32 min do dia 1° de
abril de 2015 do Rio de Janeiro
Para todas as webdesigners que abençoam, todos os
dias, a vida de cada escritor.
Tu que fazes poesias com as cores,
Com as formas, com desenhos, com imagens,
Pões as músicas, inventas maquiagens
Tu que trazes seduções, sonhos, amores...
Tu que levas o leitor à fantasia
E que crias um enredo atraente
Para que ele se dilua no que sente,
Quando a vida é tão carente de poesia...
Torno tua, minha doce reverência,
Torno minha, tua linda consciência
De que a arte só se torna mais completa
Quando um verso ganha forma e movimento
Pois alguém, com tua alma e sentimento,
Se dilui nos sentimentos de um poeta.
***
AZUIS
Luiz Poeta - Luiz Gilberto de Barros – às 10 h e 27
min do dia 25 de abril de 2010 do Rio de Janeiro – T exto premiado pela
União Brasileira de Escritores em 2010,
ditado por Deus às 4 h da manhã.
Elas estavam nos lados opostos da rua.
Uma chamava-se Ruth; a outra, Carolina. Precisavam de
um nome, entretanto a espontânea maneira como se miravam à distância de
uns vinte metros dava-lhes uma especial identidade.
Não havia semáforos e os carros eram mecanicamente
vorazes, mas as duas ignoravam suas velocidades: fitavam-se alheias aos
flashes de cada veículo a oitenta quilômetros horários sobre a sedutora
e lisa excitação do asfalto.
Os sorrisos tornaram-se reciprocamente simultâneos. O
de oitenta e cinco anos nunca fora tão inocente; o de três, tão ávido.
Eram, ambos, uma agradável e afetuosa conversa sem palavras.
Ruth sorria para um nebuloso tempo do seu passado;
Carolina, para um futuro longínquo, ambas magnetizadas pelo inusitado
brilho de dois olhares profundamente azuis... azuladamente felizes.
Num átimo, depois que os dois últimos carros
cruzaram-se, não titubearam: atravessaram logo a rua. Uma, vagarosamente
apoiada na expressiva nudez de uma bengala de madeira; a outra, aos
pulinhos, solta sob o vento realçando os movimentos do vestidinho rosa.
Encontraram-se quase no meio da estrada, sob os
implacáveis raios de sol do mês de dezembro... afinal, precisavam de uma
data para celebrar aquele momento pleno de embevecimento e excitação.
Não se conheciam, porém não havia necessidade de
apresentação; os sorrisos cumprimentavam-se desde a primeira troca de
olhares.
Pararam uma frente a outra, numa serenidade
contemplativa de cujos azuis emanavam eternidades.
A menininha alongou a frágil mãozinha, puxando
carinhosamente a idosa para o lado de onde viera. Era um retorno marcado
por cuidadosa precaução, numa silenciosa e lírica perenidade de passos
calculados.
Findo o trajeto, num quase derradeiro sorriso de
felicidade, retribuído por outro de agradecimento, Carolina simulou
retornar.
A velhinha comprimiu sua mãozinha com suavidade, como
que pedindo mudamente que aguardasse. A seguir, abriu uma antiga e rota
bolsa que levava consigo, retirou dela uma frágil bonequinha de pano e
entregou-a à menina.
O êxtase durou o tempo do embevecimento que
eternizaria aquele sublime instante.
A inefável fisionomia de Carolina congregava todos os
risos num único sorriso imediatamente correspondido.
Em reverência àquele lírico momento marcado pela
leveza de gestos, os carros foram parando... um... a um... para que a
menina de três anos avançasse levando, nos seus momentos mais azuis, a
realização de um sonho tão grandioso e necessário como a sua
aparentemente menor e mais expressiva atitude.
Carolina voava como um passarinho e nem o calor do
asfalto incomodava a maciez dos seus pezinhos descalços.
Na mão, a bonequinha de pano parecia dizer adeus à
úmida lágrima de Ruth, que deslizava afetuosa sobre o melhor dos seus
silêncios e o mais sublime dos seus melhores sorrisos...
eternamente...azuis.
Luiz Poeta



Luzia Stella D. C. de Souza e
Mello
Ribeirão Preto, São Paulo -
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/Luzia_Stella_Mello.htm
A NATUREZA DO AMOR
Amor, sentimento Universal, força motriz do nosso
planeta: Amor Criação, a movimentar as galáxias no universo imensurável!
Essa é a chama que mantemos no nosso íntimo, a que
nos aquece a alma, que nos mantém vivos no ambiente que nos circunda,
esse paraíso ecológico com sua flora e fauna riquíssimas. Tudo feito na
maior perfeição para que o homem evoluísse materialmente com a força
interior que lhe foi dada para interagir como co-criador, adaptando o
seu meio para viver melhor, dando continuidade à obra que lhe foi posta
nas mãos.
O homem e a natureza! Assim foi o começo.
E o homem criou uma diversidade de coisas, e entre as
coisas que o cercam divisou a Arte, esta que encontramos por toda parte,
servindo de estímulo, incentivadora do ser humano a buscar o seu próprio
aperfeiçoamento, servindo para seu deleite, suscitando a inspiração, uma
subida energética em busca de coisas mais elevadas. A natureza nos deu
os sons, os movimentos, as cores, as formas. O homem, seguindo esses
exemplos, captou os sons e os interpretou através de sua criatividade,
deu-lhes uma escrita própria para que pudesse ser repetida por outras
pessoas. A música tornou-se um patrimônio do ser humano, essa forma
mágica de expressão, essa força criadora de movimentos, de sentimentos,
de devaneio.... De Amor! Um sentimento profundo de beleza,
sensibilidade, que a melodia espalha em toda volta... Porém, nem todas
são doces, calmas ou amenas. E isso, sentimos quando executadas. Outras
são mais agitadas, incentivando à luta, ao trabalho... Falando de
maneira corriqueira, há música para todo gosto e hora.
Porém, para se falar em Amor existe aquela especial,
que nos embala, que nos acaricia como uma pétala de flor, que nos põe um
sorriso nos lábios e uma luz nos olhos. Somente sentindo podemos nos
inebriar, vibrando, deixando que esses sons harmoniosos penetrem no mais
íntimo do nosso ser. Por certo em um mundo divinizado, invisível, foi
concebida... Foi vislumbrada....
De alguma estrela celeste o autor colheu tal Luz!
Uma harmonização perfeita une os instrumentos
musicais, cordas e metais, de tal maneira sublime, enchendo nosso peito
de amor, de encantamento, de alegria!
Poderíamos dizer que toda ternura e sensibilidade que
nos invade é uma coisa indefinível. É como se uma janela imensa se
abrisse para esse lugar cheio de bons fluidos, sugerindo romances
eternos! Há grande harmonia!
Maravilhosa inspiração enche-nos o peito de uma
alegria intensa! Essa beleza esplêndida, sutil, de felicidade eterna!
São bênçãos sublimes tais inspirações sensíveis, Um
refrigério para a nossa alma tão sedenta de Paz!
A música quando calma e elevada transporta-nos aos
páramos divinos. Através dela oramos, adoramos a natureza com toda sua
beleza, seu perfume silvestre, os sons maviosos dos pássaros, das
folhagens, do marulhar das águas... Mesmo no silêncio maior presenciamos
a vibração natural da vida!
É nesse silenciar nosso que percebemos a grandeza do Amor que tudo
criou, e aprendemos que tudo podemos dentro desse Amor!



SER POETA
Luzia Stella D. C. de Souza e Mello
Fim de tarde!... Serena... Parada... Harmonia cândida
Como o apagar de alguma chama,
Como a esperar a magnânima mão celeste recolher o sol,
Que incendiando o céu qual um farol imenso, ainda arde
a iluminar a mata,
Até que, em seu lugar, bem alta, rodeada de estrelas,
coroada,
Ela aparece, encantadora e fria como uma noiva com seu
véu de prata,
Enchendo o céu de doce magia!...
A lua... Bela inspiradora dos poetas, a bela
adormecida, agora desperta,
Deixa a redoma onde era reclusa e vem encantadora, a
doce musa,
Banhar as almas dos enamorados!... Oh, divinal
visão!!!
Que enche nossos olhos com a ilusão do sonhador, que
almeja, em vão,
Reter-lhe o brilho, belo e fulgurante, para banhar o
rosto da amante...
Sob o mágico clarão da feiticeira, espalha a sua
palidez por uma noite inteira...
Fulgurante enlevo que nos leva crentes no poder de
palmilhar esse caminho
E o nosso sonho ver concretizar...
Saber que, à sua luz pode-se amar, e viver de
esperança a vida inteira...
E aqui estou delineando versos, porque a inspiração
vem do universo,
Que sussurra e explode como sinfonia, em sons
maravilhosos
recolhidos por todos os sonhadores...
Esses espíritos de Menestrel ou Trovador enamorado
Que vive da luz que vem da natureza...
Ah!.... Tudo isso é mais que amar!...
Fazer versos é fantasiar o sofrer, é simplesmente se
deixar viver....
É transcender como a própria natureza!
Absorver todo o éter e expirar a beleza...
Seja coberta de lágrimas ou num sorrir discreto
Que os lábios exibem entreabertos como flores nesse
jardim incerto...
É saber que a palavra é viva, emotiva, saudosa,
caprichosa, sensitiva...
É o alimento dos seres sonhadores que mostram a todos
num buquê de flores
A beleza da alma, independente das dores!!!



Guida Linhares
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Guida_Linhares.htm
A VIDA CONTINUA...
Somos navegantes do mundo,
e portanto sujeitos às marés da vida.
Lidar com as perdas sempre se torna
algo que não se espera
e de repente elas acontecem.
Existem as perdas em vida,
seja no terreno da afetividade,
ou mesmo as de ordem material,
embora sempre exista uma certa relatividade,
num desafio à sua recuperação.
Passamos por certas frustrações,
por não vermos realizados alguns anseios,
assim como tantas vezes se luta por algo,
e depois de alcançado se percebe
que foi uma conquista ilusória.
A vida tem muitos vieses,
e talvez cada um de nós aprenda,
conforme os erros e acertos,
a lidar com as circunstâncias,
da melhor maneira que se possa.
Se a morte de um ente querido,
nos tira do prumo, pela saudade,
temos que ter em mente,
que nascimento e morte
são verdades absolutas.
Contudo, a vida continua
e temos de ser fortes guerreiros,
empunhando a espada da Paz e do Amor,
para que o brilho do nosso coração,
se estenda até onde estiver o outro!



Maria da Conceição Rodrigues Moreira (MARIA MOREIRA)
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIA_MOREIRA.htm
Confissões
Confissões de pecados
Confissões de adolescentes
Confissões sem hora marcada
São puras confissões pertinentes.
Confesso que nada sei
Nem sob torturas nada além direi
Nada fiz
Nada desejei
Nada me tocou
Não vim para ser questionada!
Confesso com a alma limpa
Confissão forçada já aguentei
Confissão arrancada sem nada
Não fui eu que delatei!
Confesso ao padre, que nada sabe
Que quem confessa quer o perdão
Não pode ser tão pouco usada
Para diminuir a pena aplicada
Ou para dar a salvação.
Confesso de cara lavada
Sem remorsos sem compaixão
Dou o meu peso, faço o outro culpado
Quero ver todos nesta prisão
Confesso um amor que não é verdade
Confesso sem piedade!
Se for por justiça confesso tudo
Confesso o meu amor pela arte
Para minha redenção.



Maria de Lourdes Scottini Heiden
Blumenau - SC - Brasil
IDENTIDADE
Minha identidade
Não me identifica.
Não sou um número.
Meu CPF não me representa
Pessoa física?
Sou pessoa humana
E não me encaixo no sistema.
Há que requerer
A leitura do que sou
No banco do infinito
Que registra
Comprova
O que sou sem faturas
Sem tarifas
Sem documentos.
***
DOR
- Não, não vai doer nada.
Desconfie dessas palavras. Não são reais.
Principalmente, se pronunciadas, por um dentista, ou médico. O fato é
que a dor, companheira inseparável do homem, segue sua trajetória
impondo sua força e seu poder.
O homem julgava que a ciência fosse capaz de
desvendar os mistérios da dor e mantê-la subjugada... em vão. Drogas e
drogas são inventadas para combatê-la, Parece que a miserável sabe por
onde atacar, pois resiste e encontra novas formas de torturar o homem.
Doenças desconhecidas, vírus, bactérias, males mil...
eis suas múltiplas faces. E se isso não bastasse, ainda podemos citar os
acidentes, os traumas e a dor psicológica ou a dor da alma.
Ah, como dói! Ah, como tenho medo da dor. Ela me
intimida, me assusta e me faz sentir toda a pequenez humana.
Como há dor e sofrimento no mundo! Pessoas cujas
vidas são momentos intensos e intermináveis de dor. Vivem na esperança
da cura, Agarram-se a qualquer coisa que lhes dê, ainda que vaga, a
ilusão, a possibilidade de alívio. Alívio que não vem.
Tenho medo da dor. Gostaria de não senti-la, Sou
fraca diante de seus tentáculos. E não me interessa o que dizem as mil e
uma filosofias tentando me convencer de que a dor é importante, pois
através dela ocorre a catarse.
Que me importa! Eu quero viver sem dor. Eu quero
libertar-me de suas amarras e dominá-la.
Eu sei que muita gente sofreu as piores dores para
dar ao mundo um pouco de esperança e de paz.
Eu sei que Jesus sofreu horrores naquela cruz... mas
eu tenho medo da dor. Sou covarde diante dela. .
Eu sei que para tudo há sofrimento, mas eu... prefiro
não sentir.
Deixo a dor para os corajosos...
Alguém quer encarar?
Maria de Lourdes Scottini Heiden



Maria João Brito de Sousa
Portugal
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Joao_Brito_de_Sousa.htm
Dissecação de um conceito de...
A criatividade – aquela que nos nasce das constantes
colisões com as imprevisibilidades do espaço e do tempo, não a que nos
surge mercantilisticamente formatada pelas chamadas “necessidades de
mercado” - nunca fui muito amiga das burocracias, nem dos caminhos
traçados por outrém... esmagam-na as imposições, viola-no-la e
inutiliza-no-la a rigidez dos protocolos. Mas engendra(se). Sempre.
Venho de uma geração que sempre privilegiou o
utilitário, sem nunca ter deixado que lhe fossem arrancadas as raízes
primordiais do sonho e do espanto. A “fornada” exactamente necessária
àquele tempo, neste espaço. Sou uma peçazinha inata e claramente nascida
para a produção ao nível das artes e das ciências a quem, porém, uma vez
enredada na teia social, acabaram por ficar vedadas todas formas de se
realizar ou de preencher, com o seu trabalho, os muitos, os infindáveis
– e desejáveis... - espaços vazios do sempre crescente e ondulante
tecido criativo. Não me queixo.
Constato. E aproveito para, agora que em verdade
posso dizer que me é muito difícil ter força para agir e espantosamente
fácil encontrar um sentido para a acção, tentar cumprir, no pouco tempo
que me resta, o que poderia ter sido cumprido ao longo de um percurso de
vida.
Obra? É isto. Este espaço chamado erro que medeia
entre o que já fizémos e aquilo que poderíamos ter feito.
***
É um poema composto por três décimas;
VINTAGE
Lanço um manto aveludado
sobre uns ombros que entardecem...
São outras, as mãos que o tecem,
pois foi-me o manto emprestado
já pronto pr`a ser usado
pelos homens que envelhecem
mal os anos lhes comecem
a dar um dorso curvado,
mesmo que, ao vê-lo aprumado,
veja, eu, mil que o desconhecem,
E vai-me a noite tombando
sobre a tarde desta vida
que se erguera amanhecida
do leito em que alguém, sonhando,
me tecera um manto brando
pr`a cobrir-me na partida
da mesma humana corrida
que agora vou relatando
e sei estar-se aproximando
de estar gasta e percorrida...
Factos, sim! Não pressupostos,
nem nostalgias banais,
que eu, bem como os meus iguais,
nunca fui dada a desgostos
e mantenho os olhos postos
nos grandes dramas sociais,
relevando os pessoais
das rugas dos nossos rostos
porque... uvas f`ridas são mostos
dos néctars que agradam mais!



Maria José Zanini Tauil
Rio de Janeiro-RJ- Brasil
DO PRODUTOR AO CONSUMIDOR
Poemas são palpáveis
Frutos redondos e maduros
Que escorrem pelos dedos
E nas palavras ganham sentido
Como polpa suculenta
Inexplicáveis poemas
Que saltam ondulantes
Indizíveis, muitas vezes
Mas que o poeta
Não se envergonha em dizer
Minuciosamente calculados
Sem métrica, sem ritmo,
Sem rimas...
A sua prova é somente
Aquilo que o leitor sente
Poemas não são feitos
Só para o delírio do autor
Eles são, na verdade
Gestos nascidos na solidão
À procura de comunhão
***
MARIAS DE MIM
Quantas Marias querendo falar dentro de mim! É um
mulherio tagarela e afoito, na busca de calmaria, da maturidade. Afinal,
a serenidade, que julguei conquistada, numa delas se esconde. Ela
traz-me conforto, mas me escapa quando dela preciso. Existe aquela Maria
controladora de ímpetos, que desenrola, experiente, minúcias cotidianas.
Existe a Maria que manuseia a aridez sentimental com versos e mais
versos, de deleite e prazer.
Gosto mesmo é daquela Maria, a que despenca em
vertigens e se entrega ao amor feito canoa no mar. Ela conhece o
nirvana, o estado sublime de lançar-se ao espaço, só para comprovar que
a terra é redonda. Esta Maria pula de avião e não tem medo de ficar
carimbada de hematomas. Para essa Maria, vale a pena o Ímpeto voraz de
viver.
Maria José Zanini Tauil



Maria Mendes Corrêa
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIA_MENDES_CORREA.htm
Virgem Maria
Simplesmente Maria
É a mãe de Jesus
Seu amor é divino
É cheio de luz.
Ela nos acompanha
Na alegria e na dor
E com isto nos mostra
O seu grande amor.
Como mãe é exemplo
De amor e de luz
Ao ver o seu filho
Pregado na cruz.
Uma dor tão imensa
Ela sofreu por nós
E o sangue de Cristo
Não calou sua voz.
Ela hoje nos fala
Através de sinais
Com visões e aparições
Que são sempre mais.
Oh, mundo, escute
A voz suave de Maria
Ela sempre nos fala
Quer ser nosso guia.
Quem sabe, um dia
Maria conseguirá
Com suas aparições
O mundo transformar.
Neste dia os homens
Vão então todos crer
Em Deus, Jesus e Maria
E vão parar de sofrer.
Esperamos que este dia
Não tarde muito a vir
E enquanto isso, Maria
Apareça sempre por aqui.



Maria Tomasia
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Tomasia.htm
AMOR ADOLESCENTE
Ela só tinha quatorze anos e acabara de se mudar para
a sua cidade natal, de onde havia saído ainda criança.
Nos primeiros dias após a sua chegada, tudo lhe
parecia estranho, pois, ela vinha de um lugarejo onde todos se conheciam
e só tinha amigas da sua idade ou pouco mais velhas.
Ainda brincava de pique esconde, de roda, de
biscoitinho queimado e no mês de maio acompanhava a menina que coroava
Nossa Senhora, vestida de branco, usando grinalda, para, após a
coroação, jogar pétalas de rosas na santa.
Ao chegar à cidade conheceu algumas primas em segundo
grau, bem mais velhas, moças feitas que já namoravam.
Ela era muito humilde e, por não possuir boas roupas,
aquelas primas combinaram não a convidar para passear aos Domingos ou
mesmo para ir ao cinema. Quando soube disso, entristeceu, chorou,
silenciando-se.
Decorrido algum tempo, uma das primas - a mais
esperta - brigou com a outra, da mesma idade, e esta resolveu se
aproximar da mal vestida, tornando-se grandes amigas. Elas não se
largavam: estavam sempre juntas; casaram-se, tiveram filhos,
envelheceram, mas são amigas até hoje.
Logo ela conseguiria um dos empregos mais cobiçados
por todas as moças da cidade, numa famosa universidade.
Foi felicidade demais! A inveja se espalhou, porém,
não atrapalhou!
A prima tinha como colega um rapaz bonito, de olhos
verdes. Ao vê-las juntas quis saber de quem se tratava pedindo à colega
que lhe fizesse as apresentações. Assim o fez! Foi amor à primeira
vista! Os dois começaram a namorar, se apaixonaram e vivenciaram o
verdadeiro amor adolescente.
Aos Domingos, vestiam-se com esmero para irem ao
cinema e o seu namorado um autêntico cavalheiro, já comprara as entradas
sem que precisassem entrar na fila.
Apagadas as luzes, os dois ficavam de mãos dadas e
tocavam inocentes beijos.
Cada tema de um filme que viam juntos passava a fazer
parte do namoro, mas, quando entrou em cartaz o filme Suplício de uma
Saudade, sua música-tema marcou para sempre a história desse namoro.
Tudo ia bem. O rapaz passava próximo da casa onde ela
morava, assoviando o tema do filme e ela corria para a janela para
vê-lo. À noitinha se encontravam numa ponte próxima onde corria um
riacho.
Era um lindo amor!
Um dia, o pai da menina resolveu proibir esse namoro.
Sob ameaça de espancamento e morte, a menina só o via às escondidas.
Certo Domingo o pai anunciou que iria pescar e os jovens enamorados
marcaram encontro nos jardins da universidade.
Voltando para casa, lado a lado. Foram vistos. O pai
ao vê-los, atravessou o canteiro que separava os dois lados da rua e,
sem nada dizer, deu-lhe uma surra, jogando-a sobre os paralelepípedos e
lhe ameaçando de morte.
Foi uma confusão danada! O povo se revoltou com
aquele pai; a polícia tentou prendê-lo, mas ele fugiu para outra cidade.
Não sabendo dessa fuga, ela foi se esconder na casa
da prima e melhor amiga. Morta de medo alojou-se num depósito de carvão.
Passou a noite em claro temerosa de que seu pai viesse buscá-la e a
matasse. Foi um horror!
No dia seguinte foi convidada a comparecer ao
gabinete do Juiz de Direito, seu amigo, para narrar o ocorrido, porém,
nada se podia fazer.
E nada foi feito!
Cerceados pela estupidez de um pai, os jovens tiveram
que se separar.
Decorridos alguns anos, o rapaz se casou com outra e
a menina mudou-se com sua família para a cidade grande. Muitos anos se
passaram. Muitos anos depois procurou saber notícias do seu primeiro
amor sendo informada de que ele havia morrido.
***
SEI QUE SOU ... SEI QUE POSSO
Sei que posso dançar na claridade da lua,
levantar voo e contornar o universo.
Sei que um dia ainda poderei ser tua
e como poeta dedicar-te este verso.
Sei que um dia eu vou ser muito feliz,
após descansar na sombra do vento;
isso é o que e o que meu coração diz.
Sei que tu és o meu eterno alento.
Sei que sou alegre e plena de fé na vida
e que ainda viverei um grande amor;
nos teus fortes braços acharei guarida.
Sei que sou aquela ingênua menina-flor
que em tudo e em todos acredita,
como sei que posso amar com muito ardor .



Mario Rezende
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIO_REZENDE.htm
GOTAS DE CARINHO
Pérola dos meus sonhos,
uma mulher tão bonita
enfeita a minha imaginação.
Como encanto, o encontro,
no tempo do sonhos,
corações em conluio
passeando enlaçados
pelos jardins dos amores
colhendo sorrisos;
suspiros de algodão;
chuva de pétalas multicores;
lágrimas de felicidade,
como essência de flores.
Gotas de carinho
em cada toque...
Em cada beijo...
cupidinosos.
Na vigília, graciosa lembrança
alimenta a esperança.
***
OBSESSÃO
Severino era apaixonado por Gerusa. Uma fixação que o
impedia de ter interesse em qualquer outra mulher. Ele sempre a
observava: quando ia e voltava da escola, quando ia à igreja com o pai,
aos domingos, rezar pela alma da mãe morta, tísica. Ela era filha única
e ficou com a responsabilidade de cuidar da casa. Ele sempre dava um
jeito de estar bem próximo dela. Gostava de sentir seu cheiro, de ouvir
a sua voz, apesar de ela nunca ter falado com ele e nem ter certeza se
algum dia ela o havia notado. Mas Severino era persistente e sabia
esperar, ainda tinha muita vida pela frente. A oportunidade de
concretizar a aproximação aconteceu quando, num dia em que ela voltava
da escola, deixou cair um caderno e ele, ágil como um cão, alcançou-o
antes dela e, com toda a delicadeza, entregou-lhe o objeto, fixando o
olhar aos seus olhos. Ela deu-lhe um sorriso tímido em agradecimento, ao
tempo que lhe dizia um quase inaudível obrigado e afastou-se
rapidamente. O seu coração apaixonado encheu-se de esperança, alimentado
por cruel ilusão.
Certo dia, na esperança de nova aproximação, juntou
os poucos trocados de que dispunha e comprou um presente para ela: um
lindo buquê com três rosas vermelhas muito perfumadas. Ela precisava
saber do seu amor. Eles eram tímidos, e se ele não tomasse a iniciativa
jamais viveriam seu sonhado romance. Foi o que fez no início daquela
tarde de sol quente, depois que ela deixou a escola e virou a esquina em
direção à sua casa, na rua vazia, sonolenta e poeirenta do sertão. Ele
aproximou-se, entregou-lhe o presente e comunicou o seu amor. Ela
assustou-se e disse-lhe que era louco, que tirasse a ideia da cabeça,
afinal nem sabia quem ele era. Uma única vez ela lembrava-se de tê-lo
visto: no dia em que ele lhe entregou o caderno que deixara cair.
Disse-lhe que estava muito enganado e que jamais pensaria em namorá-lo.
Nem depois do inesperado passa-fora ele deixou de
amá-la e, um dia, à porta da igreja, ele a ouviu falar para o pai:
“Aquele rapaz feio que está ali junto à porta, com
cara de cachorro, está me perseguindo. Eu tenho medo dele.”
Jamais ele pensaria em ouvir, da boca de quem tanto
amava, aquelas palavras tão cruéis. Serviu-lhe, entretanto, para dar à
sua vida um novo rumo. Cachorro, era isso que ele seria a partir de
então.
Severino passou a ser visto perambulando pelas
redondezas com um bando de cachorros vadios que viviam em cavernas
escavadas nos morros fora do povoado para se abrigar das intempéries.
Invadiam os sítios durante as noites para atacar os galinheiros. Era um
bando grande, mais de uma dezena de cães, que tinham se afastado dos
seus antigos donos por falta do que comer e o instinto de sobrevivência
fê-los voltar à selvageria.
Contam que Severino não só vivia com os cães, também
agia como eles. Diziam que andava de quatro e os acompanhava no assalto
aos sítios e que, não poucas vezes, o viram lá por onde viviam,
disputando as cadelas no cio, até latia e gania, completamente integrado
àquela vida animal.
O bando, silencioso, por diversas vezes foi visto,
durante as madrugadas, em frente ao portão da casa de Gerusa. Como os
sitiantes começaram a usar mais rigor na vigilância de suas criações,
eles passaram a buscar, também, os animais maiores para aplacar a fome e
já estavam atacando pessoas.
Curiosamente, todos os rapazes que, por qualquer
motivo, aproximavam-se de Gerusa eram, depois, encontrados com o corpo
dilacerado, vítimas dos cães. Por conta disso, todos passaram a
afastar-se dela, receosos. Diziam que ela estava amaldiçoada, que era
uma bruxa e atraía os cães para quem se aproximasse dela. Vivia em
semirreclusão. Deixou de ir à escola e chegou a ser apedrejada e quase
linchada quando o seu próprio pai foi atacado e morto pelos cães. Seu
corpo foi encontrado numa estradinha perto do sítio em que moravam com
as vísceras expostas e um buraco bem grande no abdome, serviu de
banquete para a matilha.
Certa manhã, sua casa foi encontrada toda aberta e
abandonada. Ela desapareceu. Depois disso os animais não voltaram ao
povoado e o grupo quase extinguiu. Alguns anos depois restavam poucos
deles que ainda eram vistos, às vezes, acompanhados de um homem e uma
mulher com duas crianças, todos de hábitos caninos.
Mario Rezende



Marisa Schmidt
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Marisa_Schmidt.htm
CHUVISCO
Tempo passa, passatempo
chuva cai em modo lento
coração em fogo brando
cria fumaça e brumas
chuvisco é tênue espuma
se desmanchando na areia
Passa o tempo neste dia
no ritmo da melancolia
no compasso da lembrança
enquanto o escuro avança
no jardim molhado e sem lua
uma flor noturna insinua
o perfume de um velho poema.
Noite chuvosa sempre é tema
de misteriosa volta ao passado
numa viagem estática e silenciosa
cujo trem é a alma ociosa,
a saudade solitária passageira
tendo por paisagem a vida inteira...



Nadilce Beatriz Zanata
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_n/NADILCE_BEATRIZ.htm
PARA AONDE IR
Há sonhos que parecem que nascem do meio do outono
Outros só acordam em setembro
Há outros ainda, e tantos
Que esperam dezembro
Mas os meus são medonhos
Estão sempre sonhando
Em qualquer pesadelo
Há caminhos que fogem levando todos os espaços
Outros gostam de dias frios
Há tantos vivendo a fugir
Que acabam descendo os rios
Mas os meus são bons vizinhos
Estão sempre caminhando
Em qualquer meio fio
Há dias que acontecem por um acaso do entardecer
Outros raiam como nubentes
Há outros enfeitados de nuvens
Que fingem-se ausentes
Mas os meus degustam mitologias
Anseiam diariamente
Sempre a mais criações
Há pessoas que aguardam um olhar, um abraço, algum
quê...
Outras encontram o tempo perdido
Há outras que querem perder tudo
Mesmo esquecendo um pedido
Mas eu, ando das popas à proas
Estou sempre pessoalmente



UM VAZIO...
Ógui Lourenço Mauri
Um vazio põe além do
horizonte
Um querer que à distância se lança,
Pois a ânsia que o barco desponte
Jacta o falso sabor da esperança.
Eu bem sei, não mudou a
janela,
Mas o barco de longe não vem.
A saudade a meu peito se atrela
E a vontade do beijo também!
É verdade que após as
tormentas
O mar calmo se faz tão presente,
Como é certo que as nuvens cinzentas
Põem o Sol a brilhar novamente.
Por aqui, vejo a chuva
caindo.
Logo mais, chega a luz desde o leste
A mostrar todo o azul do céu lindo;
Um desenho de Deus, inconteste!
Pensamento vai longe, de
vez!
Traz, enfim, esse barco; reitero!
Penso até que meu porto, talvez,
Não comporte o navio que eu espero.
Catanduva (SP) - Brasil,
01/02/2015.
Ógui Lourenço Mauri



Odenir Ferro
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_o/ODENIR_FERRO.htm
O VOO DA LIBERDADE
Num panorâmico movimento cinematográfico
Produzido pelas objetivas lentes mágicas
Num rápido efeito cheio de abafados sons
Estagnados, no espelho da difusa ação
Traçada como desenho de luz e sombras
No Fórum, através do extenso envidraçado
Bem no alto, na janela do Salão do Júri,
Projetando-se contra o vidro refrangido,
Presenciei, sentado numa das cadeiras,
Uma pitoresca ação pela sobrevivência,
Que Minh ‘alma filmou em Preto&branco!
A cena foi dum astuto gatinho em ação,
Tão gatuno, correndo ligeiro, parando,
Içando suas garras, mirando suas patas
Afiando os babados beiços pra pombinha
Que, tão desprotegida e quase indefesa,
Arrulhava numa paz, toda cheia de igualdade
Olhando o guarido azul infindo da cidade...
O gatinho todo esperto, içando o ágil corpo
Investiu suas patas e garras contra a pomba
Que, mui esperta, antes do certeiro golpe,
Fugiu mergulhando na imensidão azul do ar,
Alçando uma bela, brejeira, pomposa queda!
Imponente, bateu num voo imenso, suas asas
Encontrando a força, que rege a liberdade...
... Ficou remoendo-se impotente, o gatinho
Ante sua incapacidade deprimente e triste
Por não poder prender entre suas ágeis garras
Aquela, que por instinto, fora a sua doce presa
Onde até então aparentava ser uma invencibilidade!
***
HÁ AS LÁGRIMAS DO RISO E AS DO CHORO
Vivo em constantes pensamentos. E entre um e outro
vou formando ou reformulando algumas ideias. Portanto, posso agora,
transcrever o artigo que se segue, dizendo isto por mim – e também, é
claro, pelas muitas expressões humanas – estampada nos rostos que já
tive o prazer de vê-los – sejam através dos meus ciclos de amizades, ou
de pessoas alheias que porventura transitam ou transitaram por mim, ou
em fotos, filmes, televisão – enfim, nós seres humanos estamos
constantemente expostos em todos os lugares – a nossa imagem é a que
conta: ela vai sempre avante, além de nós, além até de onde possa a
nossa imaginação alcança-la. Então, assim sendo, posso reafirmar que ao
longo da minha existência contracenei a mesma com pessoas identificadas
por rostos – todos eles desiguais – ninguém é igual a ninguém – somos
únicos, entrelaçando os nossos universos pessoais com universos outros
que denominamos de pessoas. Pessoas que são únicas, cada qual com um
rosto exposto ao mundo, como uma das muitas patentes marcas de
existência que temos e mantemos pela vida afora.
As nossas emoções, embora sejam prazerosas às vezes,
se tornam excessivamente deprimentes, comoventes até, em outros
momentos. Nossas emoções são muito complexas de lidarmos com elas –
penso mesmo, que é muito difícil até, de se lidar ou de se administras
os nossos comportamentos, se permitirmos que somente as nossas emoções
ajam sobre eles.
A lógica existencial depende do nosso equilíbrio – e
este equilíbrio, para que se estabeleçam harmoniosos em nosso mundo
interior, não depende exclusivamente apenas, das nossas ações.
- Numa atitude simples de por os meus óculos, ao
sair, para observar a noite escura do céu, pude notar o gratificante
brilho que vêm até nós, através das estrelas que nos apresentam-se como
se estivessem equidistantes de nós – embora saibamos que não. A natureza
divinal é mesmo, muito pródiga. Muitas das estrelas que observamos
cintilando-se na escuridão do céu, já se apagaram a muitos e muitos anos
passados. Quando olhamos para o céu noturno, presenciamos o nosso
passado.
- Sou míope. Graças aos meus óculos, pude rever o
brilho das estrelas. Isto me deixou feliz. São momentos como estes –
simples assim – que me causam uma satisfação imensa. E muitas vezes, até
me leva a um estágio de riso interior ou explícito. Uma alegria de saber
que estou plenamente acompanhado por pessoas à minha volta – e também,
pela Natureza que nos cerca e nos envolve: por dentro e por fora.
Costumo conviver com um alheamento a tudo, às vezes.
Nas vezes outras, vivo sintonizado – plugado mesmo, com o mundo que me
acolhe e me da guarida e subsistência para vivê-lo, saboreando das suas
terras, das suas águas, podendo explorá-lo, alimentando o meu corpo e
alma, através das muitas energias que recebo dele. Tudo isto, eu
transformo em significativos símbolos – através dos quais, eu vivo
explorando-os por dentro e por fora de mim, expressando e exprimindo-me,
através das lágrimas dos meus risos e também das lágrimas das minhas
dores.
Ambas me fazem crer – cada qual no seu devido tempo,
dentro dos seus estágios pelos quais elas se manifestam em meu ser,
estágios emocionais estes que quando são personificados em mim, dão-me
uma carga energética a mais, impulsionando a vibrar a minha vida
realidade condizente com as expressões que manifesto através delas, pois
através delas eu vivo, eu me expando, compondo os meus melhores e mais
sonoros ruídos humanos.
Nós, seres humanos, somos cheios de ruídos. E nós nos
manifestamos, marcamos a nossa presença na Natureza – através deles;
além de, é claro, de tudo o mais que nos compõe quando personalidades
viventes que somos. Como comunicarmo-nos uns com os outros, através das
muitas maneiras possíveis, por exemplo.
Mas, a força mais expressiva do nosso rosto, além do
olhar, está concentrada através dos nossos gestos manifestos através dos
nossos risos ou das nossas dores.
Risos que muitas vezes nos levam às lágrimas, por
tanto rirmos. E quanto às dores, bem... Quanto às dores, quase sempre
alcançamos as lágrimas. Choramos por dentro ou por fora, mas choramos.
Quase sempre.
Somamo-nos através de um grande conjunto complexo,
composto por muitas emoções. Sentimos e ressentimos. E refletimos...
Somos uma essência feita de muitos amores e ódios.
Gritos de alegria, lágrimas causadas pelos dissabores dos desamores.
Rugimos de felicidade, estalamos os dentes nos nossos
momentos de ira – reprimimo-nos condicional ou incondicionalmente, ou
explodimo-nos espontaneamente, até às lagrimas. Manifestando-as através
do amor ou do ódio. Através dos nossos contentamentos ou dos nossos
ressentidos dissabores...
Assim somos nós. Assim caminhamos nós...
- Para onde, porque e até quando?! (...)
- Vamos, nós todos, sonhando, amando, odiando – rindo
até as lágrimas de felicidade! Ou, chorando em copiosos prantos, as
nossas dores...



Amores e cartas
extraviadas
Por Patrícia Dantas
Cartas se perderam no tempo. Ninguém escreve mais cartas
como antigamente. Se temos hoje como enviar uma mensagem que
pode chegar ao destinatário no momento real do envio, como
escrever cartas a alguém só para manter a tradição, o cheiro
do papel tirado do envelope e a ansiedade da espera para
logo obter uma resposta?
Já não podemos mais escrever
no anonimato? Cadê àquelas cartas endereçadas, mas sem o
nome do remetente? Cadê o escritor anônimo por trás de toda
àquela trama, que nem Sherlock Holmes ou Aghata Christie
desvendaria tão fácil? Tudo precisava de uma investigação a
fundo da história de todos os envolvidos. Roteiros tão
originais, dignos de filmes policiais que, ao final,
emendaria outras tramas de intensa atividade dos sentidos.
Acontece assim também com
nossos amores extraviados. Pessoas, relacionamentos
esquecidos, ou deixados no meio do caminho. Coisas que caem
no absurdo do esquecimento; pessoas que não necessitamos da
presença em todas as horas, como se tivéssemos um time
para chamá-las bem na hora das nossas consultas emocionais.
Claro, há pessoas, amigos e amantes para horas e momentos
específicos; pessoas que não exigem que todas as nossas
horas sejam devotadas a elas; pessoas que entendem nossa
solidão, nosso afastamento quando necessário; pessoas que
entendem as nuances da solidão e quando tudo à volta está em
festa e exige maior presença.
Mas existe outro meio que
pede um olhar mais apurado e cuidadoso: são nossas palavras
durante cada encontro, durante cada um momento de festa que
nos encontramos com pessoas que talvez nem vejamos mais ou
que se ausentarão sem maiores explicações. E esses encontros
acontecem para nos mostrar o real valor da pessoa como
pessoa-palavra, pessoa-afeto, pessoa-pessoa.
Que nossos amores e palavras
não sejam extraviadas, que sobrevivam às menores lembranças.
Porque um necessita do outro para não cair no esquecimento
ou simplesmente dentro da saudade flutuante no tempo. Dizer,
gravar a palavra no outro é o modo de viver um sentimento em
tempo real, descrevê-lo e deixar algo na eternidade.



Policarpio Elcy Lopes Da Costa (Poeta Sonhador)
Brasil
CADA DIA RENASCEMOS!
Andando por essas vielas estreitas desta vida
As vezes é tropeçando que muitas vezes crescemos.
A noite nosso corpo adormece para o repouso;
Com novas esperanças cada dia renascemos...!
& * &
Renascemos como crianças que acreditam
Que o amanhã será sempre um dia melhor
Como adultos as vezes somos pessimistas;
Porque o que nos espera já sabemos de cor...!
& * &
Em cada esquina da vida por onde passamos
Sempre existe algo para a gente aprender.
É no perfume de uma bela flor mulher;
Que eu me sinto a cada dia renascer...!
& * &
Talvez eu nunca deixe de ser uma ingênua criança
Que alimentando um sonho deixou de crescer.
E que então carrega no peito uma esperança;
Que me ajuda a cada novo dia renascer...!
Policarpio Costa { Poeta Sonhador}



Raquel Gastaldi
Blumenau SC Brasil
SER AUSENTE
Na fuga do presente,
Fingindo um ser ausente,
calo.
Não vejo o homem
Contra a natureza.
Não vejo o homem
Contra o homem.
Não vejo guerras
Só a paz.
Não vejo o ódio
Só o perdão.
Não vejo o morrer
Só o nascer.
Não vejo nada...
Não ouço o som barulhento
Dos carros,
Só as cigarras, os pássaros.
Não ouço a voz que me difama,
Só a que me chama.
Não ouço a tempestade no mar,
Só a suave brisa passar.
Não ouço a criança chorar,
Só a brincar.
Não falo com ironia,
Só com alegria.
Não falo o mal,
Só o bem.
Não falo do submundo,
Só do mundo.
Não falo academicamente,
Só escrevo
Pura e simplesmente.



Regina Bertoccelli
São Paulo - Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Regina_Bertoccelli.htm
SEPARAÇÃO
Sem ti, minh'alma vagueia
Pelos becos escuros da solidão.
É grande em meu peito a agonia,
Dói demais o meu coração.
Perdi o rumo, estou sem direção,
Foi embora toda a minha alegria.
Sem ti, minh'alma vagueia
Pelos becos escuros da solidão.
Volta amor, dá-me a tua poesia
Que cantarei pra ti uma canção.
Se o meu sorriso te contagia,
Não vaciles, põe fim à separação.
Sem ti, minh'alma vagueia...



Rita Rocha
Santo Antônio de Pádua - RJ - Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rita_Rocha.htm
SEREI
A estrela que brilha o teu caminho
sinalizando-te com sorriso e felicidade
Juntinho de ti em nosso ninho
não deixarei que o amor vire saudade.
Brindemo-nos com uma taça de vinho
festejemos este amor, essa a verdade.
Abraçados a generosas doses de carinho.
tudo será sorriso beleza e suavidade...
Longe, bem longe não haverá espinho
Apenas bonança, amor e lealdade
somados a fortes doses de carinho...
Isso não depende em nada da idade.
Estaremos tão pertinho...
que nossa vida será total felicidade!



Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rozelene_Furtado_de_Lima.htm
Só mais uma vez
Prefiro ouvir a voz dos passarinhos
Embora eu não entenda as promessas
Sei que são palavras de amor e carinho
Usam o canto mavioso trinado sem pressa
Prefiro ouvir a voz sopradora do vento
Chega aos meus ouvidos em tom sibilante
É som marcado, corrido de secreto alento
Ele segreda avisos de proteção constante
Não quero escutar suas mentiras de amor
Sua voz macia, suave, doce e sedutora.
Apaixonada me entregava ao mel e ao calor
Dos ecoantes beijos em boca enganadora
Quero limpar da minha triste memória
O tempo que vivemos no mesmo caminhar
Desfrutei do seu amor, temos uma história
Nunca pensei que um dia ia querer olvidar
Vai, segue em busca de nova paixão
Com outro amor, aproveita sua vida
Continua com suas falsidades e ilusão
Deixa pelo seu caminho magoadas feridas
Realiza meu último desejo de insensatez
Quero uma grande e alucinante despedida.
Engana ao meu coração só mais uma vez
Quero esquecer não quero ser esquecida
***
O fantasma do Rei
Parabéns para você! A vizinha, já nos seus oitenta e
nove anos, depois de assoprar tantas e todas as velinhas, distribuiu as
fatias do bolo para a família e sentou-se na cadeira de balanço na
varanda. Ela gostava de sentar-se ali nas noites quentes. Abria as
janelas e observava os carros passarem na avenida. Um bisneto veio
conversar com ela, ele tinha uns 11 anos. Vó deixa eu tirar uma foto com
você e colando o rosto no dela – sorria vovó, falou ele. E a seguir
mostrou a foto para a avó. Ao que ela respondeu:
- Não tem mais dificuldades para nada, é tanta
novidade, que às vezes fica sem graça, sem emoção. Com vocês tudo
acontece tão rápido, muito depressa!... Não dá nem tempo dos fantasmas
aparecerem para saírem nos retratos.
- O que vó? Fantasmas, explica isso direito. Pergunta
ele muito interessado deixando transparecer a curiosidade nos olhos
arregalados.
- Nunca ouviu falar dos retratos do meu casamento?
- Não, conta, conta vó...
Encontrar um bom retratista na época em que me casei
era muito difícil, eu tinha quinze anos, meu pai contratou um
profissional que trabalhava numa cidade distante, ele era dono de uma
máquina possante que tinha trazido do estrangeiro.
Um tempo em que tudo acontecia vagarosamente e num
lento ritual. Eles tiravam os retratos com muito cuidado, levavam para
revelar, depois traziam uma prova para o cliente escolher, demoraaaaaava
muito mais de mês.
Papai, mamãe e o retratista chegaram a minha casa
para eu escolher os melhores retratos. Sentados à mesa ele mostrava os
retratos um a um. E o inesperado fez uma surpresa. Em todas as fotos
tinha uma pessoa que nenhum de nós conhecia. Estava com vestimentas de
rei, usava até coroa. Era moreno, estatura média, bigodes pretos e
grandes, ricas roupas e joias, aparentava ter uns quarenta anos e um ar
de felicidade.
O que vó? Vocês convidaram algum rei? O menino
perguntava assustado.
_ Não, nem conhecíamos nenhum rei. Não havia os
recursos que tem hoje para fazer alterações nos retratos, quando muito
uma pequena raspagem num mínimo detalhe, mas ficava o sinal. Portanto o
rei fantasma foi ao meu casamento sem ser convidado.
- Vó, e como ficaram suas fotos de casamento? Onde
estão? Posso vê-las?
Ela continua o relato: - Meu pai queria bater no
retratista. O rapaz ficou muito nervoso e repetia: - não tenho
explicação, isso nunca aconteceu comigo, tenho dez anos de profissão, eu
sustento minha família com meu trabalho. Foi um deus nos acuda!
E a vó continuava: - Meu pai gritava: - você foi
muito recomendado e cobra muito bem, bem demais!
Todos sabem que retrato de casamento não dá para
fazer meses depois. O rapaz completamente desconcertado disse que veria
o que poderia fazer e falou em até devolver o dinheiro a meu pai. Ficou
impossível acalmar os ânimos. Era um tal de: não acredito! Como é
possível? Cruz credo! Valha-me Deus!
Minha bisavó, que tinha mais idade que tenho hoje,
ouviu aquela confusão toda em silêncio. Depois chamou meu pai e
segredou: - Isso é coisa de fantasma, eles gostam de sair em retratos
para serem lembrados. Já ouvi muitas histórias iguais a essa, os
fantasmas adoram ser fotografados em festas, principalmente em festas
cheias de pompa e em família, como as de casamento.
O rei aparecia em todos os retratos. No retrato do
bolo ele estava com a mão encima do casalzinho de noivos. No retrato em
que estavam meus pais, o fantasma aparecia dando um beijo no rosto da
minha mãe. No altar o rei estava em todas as fotos. Entrou na igreja à
frente dos noivos como se fosse um pajem. Ele só não apareceu em um
retrato.
- Qual vó? Perguntava o menino ansioso pela resposta.
Na foto... ela teve que para de falar porque ria muito.
- Fala vó...
- No retrato em que eu tropecei no vestido na subida
da escada da igreja.
O menino assustado perguntou: - E vocês não ficaram
com medo?
- Medo de um fantasma vaidoso que gostava de tirar
retratos? Claro que não!
E ele só apareceu nos retratos, na festa ninguém viu
o rei.
Onde estão os retratos, vó? Vou colocar nas redes
sociais e contar sua história.
E ela continua: - Meu pai mandou queimar todos os
retratos, porque disseram que o fantasma do rei poderia atrapalhar meu
casamento. Depois meu pai chamou um artista plástico da região para
fazer um quadro de noivos com meu rosto e do seu avô.
O fantasma do rei ainda aparece para mim até hoje,
comentou ela.
- Hãm! Você me chama, vou arrumar uma máquina antiga
e vou fotografá-lo, comentou o menino.
- Ele vem só em sonho.
Rozelene Furtado de Lima



Dr. Salomão Alves de Moura Brasil
Brasil
Por:
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rose_Mary.htm
HINO A NOSSA SENHORA DE FÁTIMA - Nossa Homenagem ao
Autor da Letra e Música Dr. Salomão Alves de Moura Brasil, Aracoiabense
que partiu para Deus aos 18 de maio de 2009. Composto por ocasião da 2ª
Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima vindo de Portugal ao Brasil
e ao Ceará, durante os dias 14, 15 e 16 de dezembro de 1953.
À visita da Virgem celeste
O Ceará se ergueu varonil,
Fortaleza em peso se veste
Dessa Fé que redime o Brasil.
Ó! Povo cristão, piedoso e forte,
Ergue aos céus o teu brado de pé!
Seja o trono das plagas do Norte
Pedestal sempiterno de Fé! (bis)
Salve! Ó Virgem da agreste azinheira,
Que, a pastores de humilde feição,
Vens a ser celestial mensageira,
Porta-voz a teu povo cristão.
E, em visitas a muitas paragens,
Desde os lusos às terras de além,
Expuseste as sagradas mensagens
Que dos céus para o mundo provêm.
E o Ceará, nosso solo sagrado,
Redentor, porque Terra da Luz,
De hospedar teve a honra, o primado,
Duas vezes a Mãe de Jesus.
Ouve agora, Senhora da Iría
Do Ceará a fervente oração:
Guarda-o sempre, ó Virgem Maria
“No sacrário de teu coração!”



Sarita Barros
Bagê RS Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_s/saritadebarros.htm
TRIGAL III
Lembro ainda
Do tempo aquele
Em que a vida me chorava
E eu sorria margaridas
Sem cuidar da sorte
Ou do caminho a fazer...
Senhora das circunstâncias
Cruzando arco-íris
Bordejando horizontes
Nos verdes trigais de mim!
***
BICHOS SEM RABO — AURORA E CREPÚSCULO
Deus quando resolveu criar o ser humano começou pelos
animais. Precisava praticar. Aos poucos foi aprimorando. Ao achar-se em
condições de lançar um produto de qualidade, chamou o Diabo para
trocarem opinião. O Capeta é o Gerente de Qualidade do Senhor, segundo o
escritor Rubens Alves. Está sempre testando, tentando ver até onde o
sujeito agüenta. O homem já estava na forma, a mulher ainda faltava
moldar, o Demo olhou, virou, mexeu e disse: Senhor por que o rabo? Deus
disse que havia sido aprovado, era um apêndice muito útil, todos os
animais estavam satisfeitos. O Diabo ponderou que o homem seria
diferente, levaria o Selo do Criador, teria recursos sofisticados,
deveria diferençar-se dos outros bichos. Posicionou-se contra o rabo.
Deus coçou o cavanhaque, aquiesceu e cortou o rabo. Os humanos, assim
cozidos, receberam o Espírito e foram ordenados Donos da Terra (não é
que até Deus tem hora boba?). Ficaram satisfeitos com o poder e um com o
outro. Mas ao olharam os bichos sentiram pontinha de inveja. Esses
exibiam rabos que variavam em beleza, tamanho, grossura, porém todos de
suma utilidade. O rabo dava dignidade aos animais. Os humanos
sentiram-se desfavorecidos. Reclamaram, fizeram abaixo-assinado, comitê
de greve, passeata e em sinal de protesto comeram a maçã. Deu no que
deu... Quem hoje entende esta racinha danada chamada "humanidade"?
Creio, se Deus tivesse adivinhado o trabalho que estes "bichos sem rabo"
dariam, não teria ouvido ao Diabo e ostentaríamos aquela enorme cauda
frisada e felpuda do plano original.
Afirmo que a maioria das trapalhadas humanas se deve
à inveja sentida do apêndice caudal. Desde criança o ser humano vai
incorporando a necessidade de rabo. Bate no colega e ameaça tornar a
bater, se o outro abrir o bico. Um fulano vê a cena e no recreio
pede-lhe dinheiro, senão conta pra “tia”. O que ficou com o rabo preso,
procura uma falta em alguém para se vingar. Quem prende rabos ganha
poder e vantagens. Tem mordomias. Arranja quem lhe faça os temas, quem
lhe compre merenda e cobra “favores” aos demais. Ao crescer, plenamente
inserido no contexto, não consegue sair da roda viva. Cada um carrega
seu rabo-virtual, cujo tamanho depende da falta de escrúpulos e
calhordice. O interessante é que o prestígio aumenta com o tamanho do
rabo. Daí surgiu o jogo do poder: o humano tem de criar um rabo, o maior
possível, não deixá-lo em mãos estranhas e ainda segurar o maior número
de rabos alheios. Quem possuí-lo mais grosso, felpudo, comprido e tiver
mais rabos presos é o vitorioso. Para tal vitória vale tudo: desde
atirar pedra em santo a roubar a previdência, queimar arquivos (reais ou
figurados), mentir, fraudar, trair. Quanto mais sórdido, vil e sem
escrúpulos for, mais se distingue, mais poder adquire. Os
“sem-rabo-virtual” são considerados otários, manés sem visão e não
dignos de confiança.
Valores morais e ética são impeditivos ao
florescimento da Sociedade Rabuda, então esses princípios foram banidos
do Código Comportamental. Deus acordou do longo dia da Criação e se deu
conta que o Coisarruim é rabudo. Fez questão de “desrabar” o homem. É
tarde. O Céu, quase vazio e o Inferno abarrotado. O Senhor matuta nova
forma de ação a fim de pôr a humanidade na linha (desamar a cauda
imaterial), ou destruí-la. Lançar chamas raios e trovões? O homem é
expert em foguetes, bombas e mísseis. Pensou em poluir as águas. Já
estão conspurcadas. Macular o ar? O humano já o fez e foi além:
esburacou o céu e é atacado por raios ultravioletas. Imaginou destruir
as matas, a cobiça humana já conseguiu. Pensou em inventar doenças, mas
o homem já o fez e foi além, criou a guerra química e a biológica. O
Senhor não sabe mais o que fazer. O homem sabe. Está fazendo.
Sarita Barros



Sonia Nogueira
Fortaleza CE Brasil
http://www.caestamosnos.org/Autores/Sonia_Nogueira/
Ei moço volte aqui
A rede balançava para lá e para cá. Dias e dias.
Chegava a dar tontura a quem estava próximo. Faz anos que as pernas
perderam o equilíbrio do passo. O vento que entrava na sala ampla e um
leque nas horas de fogacho eram suficientes para acalmar o corpo
inchado, coberto de gordura. Muita gordura. O diâmetro da manga
equivalia à cintura da sobrinha. Usava roupas caras, joias ornavam o
colo, braços e mãos, a maquiagem era permanente. Ela passava o dia todo
pronta, parecia que ia a uma festa. . Era o que lhe restava da vida
tediosa.
Ao vê-la, após trinta anos, o rapaz encolheu a testa,
engrandeceu os lábios, o coração diminuiu no cantinho do passado.
Será ela? Não, impossível! Cochichou consigo. Era
linda, a menina, uma boneca modelada à mão, sem defeito, 15 anos,
emoldurada pelo escultor da vida. Olhou a figura de um fôlego, baixou a
vista. O olhar fotografou o pé mimoso, pequeno, limpo e branco.
Lembrou-se do romance “A Pata da Gazela, de José de Alencar, que
instigava uma enorme paixão por um pé, através da bota caída da
carruagem”. Subiu nas pernas torneadas, imaginou a coxa roliça,
aprumada, sedosa. Deparou-se com os seios pequenos, porém proporcionais
à estatura. O colo aplainado moldava o pescoço, base do belo rosto: face
aveludada, lembrando pétalas, combinava com a boca pequena, marcada pelo
batom. Cachos dourados caíam pelos ombros, que junto ao sorriso
virginal, acelerou o coração do estudante pobre e sonhador. Esta será
minha, pensou.
Era o mês de dezembro, festa de Nossa Senhora da
Conceição, padroeira do pequeno povoado. Saiu do momento letárgico,
pisou o pé de alguém aqui, outro acolá, esgueirou-se entre os
participantes do pequeno-grande-evento. Sim, era um evento para os
moradores. Festa anual que recebia pessoas dos povoados vizinhos,
agricultores, cantadores e poucos jovens que estudavam, na cidade. O
moço veio com um amigo do colégio. A festa tinha duração de nove dias de
novena, terminava com a procissão. Nas quermesses, a disputa das
rainhas. A de cor rosa e a verde. As prendas do leilão, doadas pelos
moradores, arrecadadas de porta em porta: melancia, feijão verde,
banana, laranja, maxixe, frango, grade de cerveja, bonecas de pano,
pernil de porco assado, farofa com piaba assada, jerimum, manga, penca
de banana, uma bailarina, esta, o moço arrematou, ofertaria a sua amada
ainda oculta. A voz na radiadora anunciou:
“Atenção ao resultado da ganhadora das quermesses”. A
rainha é a bela Sandrina.
Rapazes elevaram-na nos braços e saíram entre
aplausos, risos e gritos carinhosos. O moço alargou o sorriso. Deus meu,
a minha amada! A cadeira enfeitada, com cortinas escarlates e flores do
mesmo tom recebeu a rainha. Uma verdadeira rainha! Falou o olhar do
moço.
Sobe ao palco um jovem de cor parda com trinta anos
mais ou menos, e anunciou o casamento com a sua escolhida. O moço arriou
todas as armas. Não poderia competir, mesmo tendo a beleza de um Apolo,
com o moço mais rico da região, irmão do seu amigo e tendo, no pasto,
para lá de sete mil cabeças de gado. A bailarina caiu da mão sem força,
foi pisoteada pelos passantes.
Após vinte e três anos, volta ao povoado, do seu amor
impossível, que não feneceu. Era o mês de maio. Um altar enfeitado com
anjos naturais, de crianças irrequietas, anunciava a coroação de Nossa
Senhora da Conceição. Era o desejo e pedido da dona da casa. Não podia
se deslocar. O moço olha em toda direção à procura de uma mulher de
quarenta anos que, com certeza, guardava toda beleza da juventude,
apenas amadurecida. Aproximou-se da mulher na rede, a ponto de estourar
de tanta gordura.
Onde posso encontrar a senhora Sandrina?
Sou eu, senhor, em corpo e alma, às suas ordens.
Foste a mulher que mais amei durante toda minha
existência. Que desperdício de beleza, pensou. Saiu.
Que homem bonito! Tivesse eu meus quinze anos
montaria na garupa do seu cavalo, sem pensar.
Ei moço, volte aqui...
***
*O Canto do Sabiá
Todos os dias um sabiá se posta na antena, no telhado
da minha casa e canta. Às vezes ele canta só, um canto triste, com se
chamasse sua parceira para acompanhá-lo no trinar da alvorada. Vai
acordando as pessoas para apreciar as belezas da vida, a natureza
respirando a ar, mesmo poluído, agradecer por mais uma noite, que se
finge de quieta, e um dia disfarçado de felicidade. Outras vezes seu
cantar é vibrante sua parceira responde da outra antena com uma voz de
paixão, com certeza pela companhia do aconchego do ninho sobre a
testemunha do luar.
É como se eles estivessem me chamando. Acorda poetisa
o dia já rompeu as trevas, respira fundo, se espreguiça longamente para
soltar as articulações. Olha a claridade com outro olhar, não o de
ontem, mas o de hoje, com toda a intensidade, pois ele passa rápido e
amanhã já é outro dia e nunca sabemos dos seus segredos. Faz um poema
para mim, para que o dia siga encoberto de paz e os sonhos permaneçam de
pé, a esperança não acabe ao dobrar a esquina.
Bom dia sabiá amado
Teu canto me acordou
És meu ídolo esperado
Com teu canto de amor
Pudera eu ser alado
Voar neste espaço céu
Gritar ao mundo um fado
De amor real sem o véu
Que cobre a face triste
Do que sem teto vive
No respingo o despiste
Como tu que voa livre
Seu canto é música mil
Ao lado o outro cantar
Esta dupla faz do Brasil
Terra de música o sambar



Thaiz Smile
Brasil
Amei-te
Mesmo sem senti-lo em meus braços
Sem olhar nos teus olhos castanhos
E sentir o calor do seu afeto.
Amei-te
Imaginando como seria...
Teu sorriso
Teu choro
E teu semblante sapeca.
Amei-te
Com o coração em chamas de alegria
Com o carinho singelo
E com a coragem que transborda em meu ser.
Amei-te
E amo
Com a força eterna da minha alma
E com toda a ignorância do meu ser em progresso...
Thaiz Smile



Vera Salbego
Brasil
FATOS MARCANTES DA VIDA ENQUANTO PROFESSOR
No ano de 1997, em uma escola de Guaíba, ocorreu um
fato, que muito me emocionou. Um senhor dos seus 52 anos fazia o ensino
médio noturno, só que em sua turma o aluno mais velho era ele e a
gurizada “zoava”, faziam bagunça e colocavam apelidos no pobre homem.
Este senhor aborrecido com esta diferença de idade e
das brincadeiras feitas pelos colegas adolescentes, parou de freqüentar
a escola. Ao retornar naquela turma, percebi a ausência daquele aluno
que mesmo com suas restrições pedia gentilmente explicações da matéria
com muito interesse e vontade de aprender, mesmo sem estudar a vinte e
cinco anos. Visto que este aluno retornou à escola, para concluir os
estudos, já que era uma exigência da empresa na qual trabalhava.
Perguntei a turma e os alunos informaram, que o Sr.
Rodrigo tinha parado de estudar, devido a conflito de gerações. Depois
que fiquei ciente, conversei com os alunos sobre o comportamento da
turma e os fiz perceber que aos 52 anos de idade ele teria muita
dificuldade em conseguir outro emprego, já que no atual estava há 15
anos.
A turma apresentava um comportamento displicente e
desvinculado das necessidades humanas. Foi o momento de pararmos e
fazermos juntos uma grande reflexão sobre o respeito às diferenças. A
partir daí, a turma resolveu ajudar caso o Sr. Rodrigo retorna-se para
concluir seus estudos. Fui até a secretaria da escola e obtive o
endereço do aluno e me dirigi para lá. Chegando em sua residência, o
mesmo surpreendeu-se com minha visita. Assim, me fiz presente na vida de
seu Rodrigo, conversamos durante horas sobre a importância dos estudos e
de seu retorno à escola. Ele, concordou e agradeceu humildemente a minha
visita e emocionado, sentiu que alguém se importava com ele. Naquele
momento, percebi o quanto aquele gesto meu foi importante para aquele
aluno, pois dei a segunda chance dele crescer como cidadão e pessoa
humana.
Ao voltar a sua turma, os colegas modificaram suas
atitudes e seu Rodrigo passou a ser um grande companheiro daqueles
adolescentes, aconselhando-os em seus problemas cotidianos. Vejo, hoje,
a importância daquela atitude que deixou em meu coração uma mensagem
maior do dever cumprido.
No final do ensino médio, aquela turma me escolheu
como paraninfa, motivo de orgulho e emoção, ao chegar acompanhando os
mesmos na grande noite da FORMATURA. Os nomes foram sendo chamados e, de
repente o aluno Rodrigo aproxima-se do palco para receber seu diploma e
eu o entrego chorando de emoção. Parabéns, aluno Rodrigo. Você venceu
esta etapa de sua vida.
VERA LUCIA MARTINS SALBEGO



Von Trina
Samora Correia (Portugal)
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_v/vontrina.htm
Sombras
Eis-me nú
simplesmente nú
com dignidade
de um homem NÚ
intemporalmente - humildemente
nobremente despojado
ainda que nú
Por me faltar coragem
por cultivar o desencontro
perseguindo miragens
por querer o "GRAAL"
sacrificando o mensurável
por ambicionar tudo
e não ter nada
Estou nú
mas nunca crú.
Sou louco
não maluco ou mouco.
Sou sempre solidário
e aconteça o que acontecer
não esqueço amigos - mesmo nú



Wilson de Jesus Costa
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_w/Wilson_de_Jesus_Costa.htm
A velha caixa...
Onde estavas ontem?
Não vi você. Nem me telefonastes!
Já faz algum tempo que não nos vemos
Sinto saudades. E você? Nada sentes!
Meus dias têm sido vazios
Ando pelos cantos e pelas ruas vadio
Queria estar contigo outra vez
Bater aqueles papos compridos
Papos aos quais não nos dizíamos nada
Mas entendíamos tudo...
Afinal, onde estavas ontem?
Passei horas esperando o tilintar do telefone
Mas nem pelo Facebook mandastes mensagem
Nada vi de você compartilhando nada
Sequer tinha recado teu no WhatsApp
E olha, ontem foi um dia tão bonito!
Sequer chovia, só havia sol durante o dia
Onde estavas ontem?
Passeastes com alguém que não conheço?
Ou ficastes como fiquei na tosca janela?
Enquanto lá estava vi pássaros de arribação
Levavam meus pensamentos
Só não levavam minhas tristezas, minhas saudades
Fiquei choroso com o voo das andorinhas
Será que elas sabiam onde estavas ontem?
Estou saindo da janela agora
Levo em meu caminho minha saudade
Guardo minhas lembranças
Na velha e desbotada caixa de sapato
E nela estão nossos amarelados retratos
Agora, por favor digas:
Onde estavas ontem?
***
WILSON DE OLIVEIRA JASA
VERSOS DE AMOR
Faço meus Versos de Amor,
à toda hora e a todo instante;
e vivo assim o esplendor,
do amor em mim tão constante.
São meus Versos inspirados,
na sublime Natureza;
e em bons momentos lembrados,
no meu viver com certeza.
O Amor está sempre vivo,
em meu ser pelo caminho;
e a cada dia revivo,
com o néctar do carinho.
Portanto faço meus Versos,
com profundas emoções;
nos estilos mais diversos,
pra agasalhar corações.
Versos de Amor bem vividos,
de Paz, de Amor, de Paixão;
jamais serão esquecidos,
pois guardo-os no coração



ZzCouto®
Brasil
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Jose_S_R_Couto-ZzCouto.htm
FÍMBRIAS DE MINHA ALMA!
Sopro divino ser alado,
são meus olhos que enganam,
seráfico ser de amor amado,
ou são teus poderes que emanam?
Contemplo o fulgor de tua aura
doce canto das almas,
de celestial prado e brandura
onde a pureza e o lírio acalma;
Canção dos justos e sábios,
violinos de infinita harmonia,
cruzando cosmos de nebuloso lábio
por entre vagas de astros em agonia...
Dos confins do além, tua voz ressurge,
como setas radiantes na treva,
à ínfima fímbria de minha alma urge.
amarga erva desta terra leva.
Do limiar do portal celestial,
partem tuas asas de luz,
como fogo vens a mim imortal
teu nome ao eterno, então reluz...
***
OS DOIS CISNES!
ZzCouto®
Como ave que voa em pensamento
flutua no mar transparente e profundo,
cisnes alçando voo em atento momento
nadando em águas límpidas, lindo mundo.
Sobre o mar, perfeito casal de cisnes
que mergulham em sua imensidão,
ser felizes ao se lançar sem tisnes
em lagos de tamanha amplidão...
Os cisnes não se separam, beijam-se
como companheira real, ávida felicidade
abrem as asas e voam em liberdade.
E como cisnes que nadam e voam,
me identifico no pousar indefinido,
Sem idealizar o amanhã, eu existo...




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