Jardins de Santa Bárbara

"O Jardim de Santa Bárbara é um dos mais bonitos do país. Datada do século XVII, esta praceta ajardinada fica perto

do antigo Palácio Episcopal e contém flores coloridas, plantas luxuriantes e belos arbustos esculpidos.

Onde: Junto ao Largo do Paço, 4700 Braga." 

Mais Informação: Turismo do Porto e Norte | Câmara Municipal de Braga 

 

 

 

Adélia Einsfeldt

Porto Alegre/RS - Brasil

 

TEMPO

 

O tempo instante

desliza apressado

nas dobras do

vento lento

foge por caminhos

por onde passei

desdobra em retalhos

por atalhos

nas ruas e cidades

sem idade

os anos que andei

foram tantos

e no entanto

parece que

apenas cheguei

ontem.

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Adelia_Einsfeldt.htm

 

 

Aidil Borges

Célula de Execução de Projectos Ministério de Educação e Desportos de Cabo Verde

 

Filha do mar

 

Eu sou filha do mar

Moro na beira da praia

Entre o mar e o céu

Os meus dias nascem azuis

Eu sou filha das ilhas

Que diariamente busca alcançar

Sem conseguir,

A outra margem do Atlântico

Eu sou filha ilhoa

Que deseja pisar o chão firme

Da minha progénie

A cada navio que passa

Eu sou filha de ninguém

Sem história, nem identidade

Que sonha com o continente ao lado

A cada minuto que passa

Eu sou filha da praia

Que vive buscando

O caminho de terra firme

E nunca acha

Eu sou filha da sereia

Que procura incessantemente

Pelo marinheiro

Que nunca aportou o cais

Eu sou filha do mar e do céu

Aceito a minha condição

Para que os meus dias

Nasçam sempre azuis.

 

***

 

O sonho impossível

 

Sonhei que não estava em mim

Num ímpeto, vi-me

Fora de meu EU

Os meus pés já não pisavam o chão

Meu corpo estava desprendido,

Flutuando no ar

Como se não existisse

A força da gravidade

Meu pensamento nas nuvens.

Eu voava como pássaro

Meu peso era de pluma

Esfumaram-se de mim

As regras,

As obrigações,

As convenções,

Os horários,

Os hábitos,

As responsabilidades,

Os acordos,

Os compromissos,

Tudo que representa

O estado actual do meu EU…

Por momentos,

Eu era a dona de meu ser

Da minha liberdade

De meus desejos inconfessados

Dos amores que sonhei

Dos caminhos que queria percorrer

Das coisas que queria ter

Da liberdade que queria conquistar

Da ambição incontida

Da vitória que queria alcançar

Do sucesso que queria ganhar

E da coroa que queria merecer

Por instantes,

Senti me possessa

De uma força gigantesca

Senhora das tempestades

Dona dos mares

Rainha das trevas

A personificação em mim

De uma força demoníaca

A super mulher herculeana

Que conduz os destinos da terra

Que molda tudo,

Como a pujança das águas

Transformando o Cosmo

Tornando o mundo e a natureza

Refém de meus caprichos

Por segundos,

Senti me a dona do comando

Que controla o próprio destino

Que escolhe o caminho

Que solta as amarras

Arrebenta as correntes

Quebra as barreiras

Mata o preconceito

Bane os estereótipos

Anula as desigualdades

Reparte as riquezas

Espalha a felicidade

Em igual proporção

Sentencia o futuro

Castiga a humanidade

Para repor a justiça!

 

 

Anamaria Nascimento

Aracoiaba - CE/Brasil

 

PERIPÉCIA AROMATIZADA

 

A adolescência é uma fase transitória, em que o relacionamento com os adultos muitas vezes se torna difícil devido à incompatibilidade de interesses e valores.

Para os adultos conviverem de maneira passiva com os jovens nesse período, faz-se necessário aprender a lidar com eles sem hostilidade.

Foram muitos os discentes que acompanhei sem nunca ter passado por nenhum constrangimento sério, porém em mil novecentos e noventa e quatro, atravessava uma época delicada em minha vida, papai estava convalescente e eu precisava de todo apoio, não só dos amigos como também dos colegas de trabalho e alunos para suportar a enfermidade de meu genitor que a cada dia me dava certeza da separação inevitável.

Neste ano assumi na Escola de Ensino Fundamental e Médio Almir Pinto de Aracoiaba, o telensino pela primeira vez e mesmo passando por momentos cruciais, julguei-me apta para fazer um bom trabalho, confiando nos anos de experiência educacional.

Era uma turma de 6º Ano e como ensinar não é simplesmente uma atividade para inculcar, de forma deliberada, costumes, normas, informações e hábitos, preparei-me para receber uma responsabilidade moral pelo bem-estar daqueles adolescentes.

Eles, no entanto, não estavam satisfeitos com minha presença, principalmente: Rochelle, Fagna e Paulinho, desejosos por estudar com a professora da sala vizinha, a Sra. Lenira Dantas de Queiroz, onde estavam os colegas do ano anterior, mas a diretora, Sra. Maria dos Santos de Lima, foi irredutível quanto ao remanejamento dos alunos insatisfeitos, garantindo minha permanência como orientadora.

Ao receberem aquela ordem sentiram a necessidade de tomar uma medida que afastasse definitivamente a minha pessoa. Depois de muito pensar, descobriram meu problema alérgico a fragrâncias odoríficas. Naquele momento todos sorriram, a chave para expulsar-me estava em mãos bastava apenas capacidade para manuseá-la. Mas quem seria a estrela guia daquela incumbência? Paulinho, o mais peralta, foi o escolhido a executar o plano, comprando em uma banca um frasco de perfume bem ativo e com este aromatizando todas as carteiras da classe.

Ao chegar àquele recinto, rapidamente passei mal sendo obrigada a deixar a sala carregando no rosto o vexame da limitação, bem como a certeza de que a “a adolescência; em especial, é a fase de descobrir e de testar limites” como diz o psicólogo português Daniel Sampaio, autor de Indisciplina: Um Signo Geracional.

Analisando o caso, ameaçar e castigar seriam atitudes inúteis para reduzir a agressividade dos jovens que ali se encontravam para serem educados, pois cujo caráter ainda em formação, não comuniquei o ocorrido à diretora, mas no momento tive a convicção de novas armadilhas preparadas e percebi o árduo trajeto para conquistar a amizade daqueles mutantes em vida.

Frente a este acontecimento me senti impotente, cheguei em casa amortizada, pensando em desistir daquela turma, porém meu compromisso com a educação deu-me incentivo para prosseguir com determinação o encargo a mim confiado, buscando descobrir uma metodologia capaz de proporcionar maior interação em sala de aula e lembrando a afirmativa: “um dos primeiros ensinamentos que a Sagrada Escritura nos dá é este: sob o sol não há nenhum outro caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta educação da juventude”.

O período de agressão apesar de intenso não foi eterno, com paciência e entusiasmo fui adquirindo um convívio harmonioso, em meio a um ciclone de anseios antagônicas. Vale salientar que já no mês de maio só existia lembranças das peripécias cometidas e juntos comemoramos o dia das mães, sendo minha genitora escolhida pela aluna Robervany para representar Nossa Senhora, numa encenação capaz de trazer lágrimas aos olhos dos presentes.

Também merece destaque a morte do grande piloto de Fórmula Um, Airton Sena da Silva, fato que atingiu a sensibilidade dos discentes e juntos resolveram não assistir as emissões da TV naquela ocasião para acompanharem as reportagens sobre o ídolo. No dia seguinte apresentaram trabalhos diversificados e interdisciplinares sobre o tema.

Um outro episódio marcante em nossa trajetória foi quando precisei acompanhar meu pai, nos seus instantes finais, eles foram unânimes na prestação da solidariedade, merecendo ser lembrado os alunos: Daniel e Enedina, que todos os dias, iam a minha residência receber orientação de matemática e repassa-las aos colegas, assumindo a posição de monitores, cargo ainda inexistente na época. E no momento de sua viagem para junto do Senhor , resolveram não entrar no colégio, para chorarem comigo a perda que enlutou meu coração.

Essa experiência serviu como alicerce para esclarecer que “ensinar é uma forma técnica de possibilitar aos alunos a apropriação da cultura elaborada da melhor e mais eficaz forma possível” porque no decorrer do ano letivo, os alunos assumiram uma nova postura , transformando nosso ambiente estudantil num espaço de críticas construtivas e muita interação.

 

***

 

CHAMAS DE ESPERANÇA

 

Fugindo do universo da amargura,

busquei felicidade num amor,

usando a competência e a doçura

na ação que foi cingida de louvor.

Sonhei ressuscitar fiel ternura,

querendo merecer total primor,

mas não abandonei a vã postura

e fiz o coração sangrar em dor.

Embora caminhando errônea, assim,

e ter o sentimento bem confuso,

preciso vê-lo sempre junto a mim.

Talvez um dia, eu possa lhe mostrar

a chama gloriosa que conduzo,

acesa, e, então, eu venha a lhe entregar.

 

 

Andrade Sucupira Filho

Jornalista e poeta - Vitória - ES

 

POMBO CORREIO

 

Levei tua mensagem

Codificada

Fada

Para dentro

Centro

Das flores

Perfume

Montanha cume

Beijo segredo

no vento da boca tua

Livre gaivota

Libido...recebido

Ponto

 

***

 

ENVELHECER

 

Evidente que nenhum de nós gosta de sofrer os efeitos do envelhecimento: rugas, cansaço muscular, ósseo, dos órgãos, redução hormonal, etc...Natural é o esforço que queremos fazer no sentido de evitar tais efeitos, seja por meio de alimentação mais saudável, substâncias químicas (remédios) naturais ou não, atividade física, entre outros recursos.

Contudo, é bastante saudável, para termos um envelhecimento tranquilo, que mantenhamos nosso equilíbrio mental, aceitando, com naturalidade, a ideia de que envelhecer é parte inevitável da vida. Sem perder de vista que um rostinho lindo aos sessenta anos de idade não vai fazer com que retornemos, como em toque de mágica, aos vinte (nossa linda juventude).

Dentro desse contexto está a vaidade do ser humano, em especial, da mulher. As mulheres, em geral, permanecem lindas (graças a Deus) por muito mais tempo que os homens, assim como (dizem as estatísticas) vivem mais. Portanto, até certa medida, a vaidade não deixa de ser salutar e trazer brilho especial após meio século de idade.

O que entristece é ver nos mass media (e às vezes bem próximo de nós), com frequência significativa, pessoas que guerreiam contra o envelhecimento como se pudessem vencê-lo e retornar à primavera da vida, física e mentalmente, por meio de cirurgias plásticas diversas (no abdome, rosto, seios, etc), substâncias injetáveis nas marcas de expressão (com muita frequência) e tintura nos cabelos.

No caso concreto, conheço situação em que a pessoa, além de utilizar todos os recursos que mencionei anteriormente, utiliza cerca de quinze drágeas por dia e ainda medicamentos em spray na pele, tudo para não envelhecer (tem mais de sessenta anos mas aparenta vinte). Tais pessoas olham para outros idosos (iguais a elas) como se fossem refugo rejeitável, passando a conviverem quase que totalmente com grupos de faixa etária duas ou três décadas a menos que a idade delas.

Afastando totalmente qualquer manifestação de preconceitos, muitas vezes esses idosos são explorados por pessoas mal intencionadas, que lhes tiram muito dinheiro, saúde e, pior, a verdadeira autoestima. Isto porque, na ilusão (desequilibrada) de que está sendo amada, tal pessoa entrega-se à ideia de que tem vinte anos de idade: é nesse ponto que o aproveitador trabalha.

Concluo sugerindo ao leitor que observe nas notícias diárias dos meios de comunicação, em destaque. Verão muitos casos assemelhados aos exemplos aqui descritos, de atrizes e outras “celebridades” que já estão girando em torno dos setenta anos, mas deflagram guerra insana contra seu envelhecimento. Certamente as consequências não são desejáveis.

Amar-se acima de tudo, manter alimentação saudável, sempre visitar seu médico, fazer atividade física aplicável (como caminhar), dentro de seus limites, e até uma dose sensata de vaidade são as ações mais saudáveis para um envelhecimento tranquilo. Afinal, estar envelhecendo significa estar vivo. E que todos nos respeitemos e respeitemos, sem restrições, as pessoas que já tiveram o privilégio de viver mais do que nós.

Andrade Sucupira Filho

 

 

André Anlub

Brasil

Prisioneiro deposto (descubro que aquilo não era esperteza, e sim covardia)

 

Já rodei pelos vis bares e espeluncas loucas da vida;

Em puteiros faceiros falidos com mulheres musas de esquina.

Já me vi na latrina latente e na obscuridade incurável do ser;

E seguindo cegando nas vozes o que na pena precisaria fazer.

Mas no corpo absorto e na alma encalma tão visível ameaça,

Cicatriz do aprendiz que se estende ao lado das largas tatuagens.

E como estranhas e quentes miragens que se fundem em ferro na carcaça

Fazendo-me a raça da (dês) graça, sem ao menos e ao muito me conhecer.

Então me camuflo confuso pra prosseguir animado e adiante;

O coração em reação está imundo, mas não carece cárcere ou morrer.

Já fui torto/morto por dentro – desfavor do pavor de outrora;

Quase finado/afinado por fora – vários prévios instantes do ontem.

Um adendo por dentro; um dedo na roleta russa do desgosto...

Vejo seu riso no rosto (posto e imposto), no alvedrio da bala.

Os gritos e falas (nos rompantes), em um minuto se calam;

Apontado ao ávido ouvido e ao som do breve estampido:

O ínfimo no infinito de guarda aguarda o prisioneiro deposto.

 

***

 

Flor de lis, de lírio e lírico do Preto e da Branca (releituras de mim)

 

Garanto minha salubre e frágil presença no pensamento mais estranho que remete apressadamente ao pesadelo da minha pele plena pintada de branco. Minha flor bela, não escute os embebedados de alma, mendigos-uísques demagogos a Go Go. Ouve a cantoria, pássaros aos montes de entortar pescoços e acariciar ouvidos... São os esboços – diamantes – da nossa selvageria de amantes. Enxergo nada cego, envergo e expresso essa minha entrega em reflexos de uma pulcra lâmina cega. E de maneira sutil, tão viva e severamente tão simples, chego, sonho, cedo e transcendo ao corte seguinte. A doação que faz mistura – nossas cruas carnes nuas – fez contraste no arraste – na queima que é de praxe – do protocolo em leitura. Ah, minha branquinha, flor branquinha... Me aceite eternamente seu. Bebemos nas águas puras e impuras, mas com o coração nada errante e os olhos hiantes. E diante de tudo, em estado trepidante de paixão, peço-lhe que pegue o banco e a caipirinha e venha sentar-se ao meu lado e olhar a lua... (desnuda – noite – minha). Chegando do silêncio veio como tempestade e mordiscava minhas ideias... Lá vem ela! Essa bela, irritante e insistente luz que entra pela janela e me convida para sair e viver. Raul de Souza com seu trombone que tromba de modo majestoso e marcante, tocando, relaxando e deixando o corpo voando sem destino... Estou agora sereno para narrar o ocorrido: tirava os laços dos futuros presentes, mostrava o onipresente que ao botar pra fora os dentes, provava não ser um sonho, enfim. Ela, a Flor (não é Maria Flor, que pena. Mas está valendo)... Nomeada como imperatriz de amores que ganha de súbito sua coroa, trono e sonho se aproximando do súdito com suas suntuosas flores. Ouço-a falar em público: o que seria mais certo – onde estaria o erro – qual a importância disso? A resposta vem com o ar fecundo, quebrando o coeso silencio, queimando mil brancos lenços e prevendo o fim dos futuros lamentos; a resposta bateu de frente com seu cheiro de alfazema, com seu humor de hiena e sua adorável e inigualável interpretação eloquente. Na tela do cinema da esquina já se viu esse filme antigo de um multicor lírico com tons de pura boemia. Sim, é poesia! faz crescer as flores e nasce nas flores crescidas. Como som melancólico que segue invadindo – Abrasador ao íntimo – sem dor – toca e preenche e compreende ao completo; na mais alta altitude que o anseio ressoa, e é tênue e desconcertante. Toda uma terra estremece em todo o corpo que balança e merece o céu no sol e a luz da lua na luz do teto do tato e do tudo (tamanho absurdo, mas eu vi). Namoro e sinto e choro e aprovo e comprovo o sopro e aguardo, e você. Mas é mais mar que observo e sou servo ao todo... E amo. Vem, vem como variante, pé e pé, paz e paixão, marcando no solo – selo; como ao chão e ao sentimento é um sucinto sinal sagrado, afetuoso, pois não censura e nem corta nem cura o soco solitário do colosso: o banho ao calor em chamas, supina alma à sua presença... E amo. Solos secos castigados, que fenderam em frangalhos de raios antigos... Ficam no aguardo das águas em rios em milagres em lágrimas em circo em cio... E vieram e vigeram e ficaram e fincaram... E amo. Quem será o guardião desse coração tão intenso raro e quente? Nesse vai e vem do povo a cólera passa rente... Tentando roubar o puro, amolecer o duro e dando duro para esconder o tesouro... Causando tumulto, cavando um túmulo e matando os loucos. Tudo se transforma na fala da saliva da ponta da língua; na palma da mão macia que à toa entorna a raiva perdendo-se no céu anfitrião. Sendo o alicerce mais forte fez-se o castelo - nasce o coveiro que rompe vis elos, enterra as contendas e encarcera o faqueiro que insiste no corte. Joss Stone com voz estonteante, timbre mutante e olhar de sereia cantante. Estou agora pacato para narrar o fato: a verdade mostra para que veio e o ópio evapora na veia. Surge a sorte pisando na morte, tornando o instante o livro na estante de um astuto perfeito. O som é ameno, no feliz badalar dos sinos para a hora do recreio. Percebem-se letras ao vento, fermento de versos no intento; na mescla que move à fantasia – lamúria e luxúria dos dias. Diga-se de passagem: a paisagem pairou na barriga dele (grávido), pariu na paragem mais certa e reta – cerne que outrora tardia. Faz-se poesia – cria – faz-se poeta (ávido), criou-se meta na metalinguagem em espectros. Assombrando os muitos herméticos heréticos espertos e espetando os pedantes pedintes descalços moleques. Ao céu o seu mais lindo e redondo sol brilhante, diamante dos dotes de deuses de doutrinas de histórias; ao léu asas cresceram, veio inspiração/sorrisos, ao velho ao novo ao menino – porta de início de índio de íngreme. Prepara-se o leito quente – seio da mãe – leite materno, cobiçando o menino vadio, forte e inteligente (frenético), as letras são o “norte”, coreógrafas convidando ao passeio (imagético), sem freio, meio – principio – confins sem fim... No íntimo eterno.

André Anlub

 

 

ANTONIO PAIVA RODRIGUES

FORTALEZA/CEARÁ

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Antonio_Paiva_Rodrigues.htm

AMOR SINCERO

 

Sinceras e belas frases de amor eu recitei.

No seu emérito carinho de vez me alucinei,

Jamais quero egocentralizar nossos carinhos...

Nem que eles venham trazer dores e espinhos.

Irrelevante jamais será, pois a ti sempre amarei...

Invita, insta por mais carícias é a minha sina, sonhei,

Eterno e benfazejo será o nosso amor, imaginei...

Carícias, beijos, abraços, afagos, jamais esquecerei.

Excelsa é a nossa união, eterno será o carinho que te darei...

Meu amor, minha amada não esqueça jamais o que jurei,

Amar-te com dedicação, com o coração ofegante te direi...

Eis o meu eterno e único amor, pois sem você não viverei.

Morrerei de tristeza, melancolia, mas em ti sempre confiei.

A união faz a força e com este elo amoroso me deslumbrei

 

***

 

JESUS, O DIVINO

 

Vem a mim, humanidade amada, porque sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Sou o amor, vem a mim. Quando o Espírito tomar seu lugar no homem, aparecerá o Cristo manifestado. Meu Pai e Eu somos Um. A identificação do espírito do homem com o Cristo é a Glória do Cristo no homem. Agrada-me ver-te sendo útil, seja na cabeceira dos enfermos, seja semeando a semente viçosa de minha doutrina, seja acariciando, consolando e socorrendo, aos necessitados. Quando fores consciente de que vieste a este Mundo para colher experiências, realizando as práticas do serviço, cheio de amor e caridade para com teus semelhantes, estarás cumprindo com as Sagradas Leis de Harmonia, dadas por Meu Pai para que se cumpram na vida.

E, se não acatares, sobrarás e voltarás a este Mundo e entrarás no círculo de nascimentos e desprendimentos, até que cumpras a missão que tua alma prometeu cumprir. Abre Cristão, teu coração para que recebas o pranto da humanidade. Deixa o passado, toma teu presente, sente-te homem novo, sê Cristão, converte-te em Manifestador do Amor limpo e puro, sê Espiritual, pois com isso o Cristo irá aparecendo em ti. Eis porque Estou semeando a semente do Bem, da ternura, da Bondade em teu coração, para que ames com casto Amor, embora ela ainda não tenha encontrado terra fértil, está negativa e estéril... Minhas mensagens são a Força que anima a Terra fértil, és o Sol que dá calor e vida, és a água que a rega e, entretanto, a terra de teu coração não é fértil, continua sendo estéril...

À semelhança dos homens, são as aves que morrem nos ninhos, acabadas de nascer e morrerão cada dia sem se alimentar, aves são as que não cantam à esperança, porque lhes falta o calor que da Fé, e assim caem mortas, no Caminho da vida. Há mortos que na carne têm aparência de vivos e vivos sem carne, mas nestes vivos sem carne deixaste a dor e, nos mortos com aparência de vivos na carne, deixaste a amargura; portanto, compreende que a ignorância das coisas espirituais conduz a desesperação e, com tem exemplo inadequado, levas aos humanos a confusão e incredulidade. Corações amados que tantas vezes com minha palavra acariciei que com meu amor revivi, que com minha sabedoria alimentei , quero que sejais símbolo da sempre viva fé para a humanidade. (Arnulfo H. Ferreiro).

O amor é sinceridade, o amor é renúncia, o amor é serviço, o amor é sacrifício e muitas coisas mais, que fazem feliz ao que se despoja do que lhe é próprio, por amor. Eu quero amado meu, que aprendas a Amar, para que teu amor te leve à cabeceira dos enfermos, te aproxime do que chora e do que perdeu a fé. Bem-aventurados os que sofrem porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados. Bem-aventurados os que se sacrificam porque o mundo lhes negou... Bem-aventurados os que compreendem o oculto e as simplicidades das grandes frases porque deles é a sabedoria. Bem-aventurados os que se dedicam à humanidade, porque eles receberão recompensa...

Bem-aventuradas os que se derramam em bens, porque deles são as dádivas dos Céus... Ama humanidade, amas sempre para que sejas feliz. Eis aqui o pensamento do Messias fazendo homens novos! Eis aqui o pensamento do Redentor da humanidade transformando os homens! Amados meus: vós que ansiais fazer-vos bons hoje, melhor que ontem, sabei que sempre estou disposto para purificar-vos no fogo sagrado do sempre eterno Amor Espiritual, sou e serei sempre incansável para revelar-vos as maravilhas do Espírito. Não há dúvida de que Jesus é o mensageiro divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade, e, por ela, o caminho da salvação.

Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus. O pão de Deus é aquele que desceu do Céu e que dá na vida ao mundo. Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome e aquele que em mim crê não terá sede. O tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo. É filho de Deus, como todas as criaturas. Jesus foi um revelador de primeira plana, não porque haja trazido ao mundo, pela primeira vez, uma parcela da Verdade Suprema, mas pela forma de revestir essa Verdade, colocando-a ao alcance de todas as almas, e por ser também um dos mais excelsos Espíritos, para não dizer o primeiro em elevação e perfeição, de quantos têm descido a Terra, cujo governador supremo é Ele.

Jesus cristo é a paz, é mansidão, é a justiça, é o amor, é a doçura, é a tolerância, é o perdão, é a luz, é a liberdade, é a palavra de Deus, é o sacrifício pelos outros. É o Guia Divino: busque-o! É a Verdade e a justiça, a que todos nós aspiramos. Chamou-se Jesus entre os homens o maior missionário que o Altíssimo enviou a Terra. Espírito puríssimo, o Celeste Enviado se abalou dos mais sublimados páramos espirituais em socorro da mísera Humanidade a quem legou, nos seus sábios e amorosos ensinamentos, um tesouro de luz divina, que os homens, porém, se obstinaram em repetir, tanto que lhe deram morte afrontosa na cruz, como se fora um malfeitor.

O homem de hoje, e de anos atrás peca pela maldade, pois dispondo do livre-arbítrio e tendo o bem a sua disposição, resolve se inserir no mal de mala e cuia. O homem não usa a inteligência, um dom divino dado por Deus e atualmente a maior chaga da Humanidade é o egoísmo, aliado ao orgulho. O egoísta só pensa em si e jamais será capaz de inserir na vida a fraternidade e a caridade espontânea. O Mundo de “Provas e Expiações” está a pleno vapor é o homem está assimilando a ignorância e se inserindo nos mundos das drogas, da violência e da maldade de um modo geral. Quando o homem será perfeito de coração? Só Deus sabe! Pense nisso!

Antonio Paiva Rodrigues Paiva Rodrigues

 

 

António Zumaia

Sumaré – SP - Brasil

 

Os amigos

 

Os amigos são anjos voando,

sempre em nosso apoio e ajuda;

As nossas ausências suportando.

Se os destratamos nada muda.

Somos alvos da sua atenção,

se precisamos... dão-nos a mão.

Espíritos de luz no caminho;

A suavidade da nossa dor,

recolhe para si o espinho

e faculta-nos o seu amor.

É presente quando é preciso,

mas se erramos sabe-nos mostrar;

Na suavidade de um doce aviso,

que também nós podemos errar.

Amigos, são presentes da vida,

espíritos onde existe amor;

De Deus, uma dadiva querida,

como joia de raro valor.

Ser amigo é doce missão,

que o Bom Deus concede a quem ama;

Na verdade é simples irmão,

que em qualquer perigo... se reclama.

Será o nosso apoio e abrigo;

Todo o ser, que chamamos de amigo.

António Zumaia

 

 

Ary Franco (O Poeta Descalço)

Brasil

 

BEIJOS CELESTIAIS

 

Existem beijos, beijos... e beijos!

Os mais recentes ainda me lembro.

Trocados entre bocas ávidas de desejos

Não têm muito, apenas algum tempo.

Porém, os mais importantes, de outrora,

Esses jamais serão por mim olvidados!

Todos os dias, naquela mesma hora,

Retornando à casa, eram-me osculados.

Ainda garoto, chegando do colégio,

À minha espera na porta ela estava.

Sempre usufruía deste sortilégio,

Os beijos que minha mãe me dava.

Hoje, de mim, está bem afastada.

Mas sei que, no céu, em lá chegando,

Estará ela na porta me esperando

Para dá-los quando de minha chegada.

 

Ary Franco

 

 

ARIOVALDO CAVARZAN

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_a/Ariovaldo_Cavarzan.htm

CANTO DE PRIMAVERA

 

Passeio o meu outono

na primavera de tua vida,

sensível às nuanças de cheiros,

claridades, cores e sabores,

a ressumbrar das flores

que enfeitam teu viver.

Inspiro cheiro de rosas,

gerânios, flores-do-campo,

de açucenas e de lírios,

entregando-me ao delírio,

ao recolher restos

desabados no chão,

para tornar perfumados

passados amores,

de idos caminhos percorridos,

em felicidade, carinho e alegria,

e em miríades bem formosas.

Recolho pétalas de lembrança,

despencadas ao chão,

inertes fragmentos de flores,

relembranças de

idealizados amores,

irrealizados ramalhetes,

umedecidos em

furtivas lágrimas de emoção,

feito pedaços liquefeitos,

brotados em fonte

de inexprimível paixão.

Passeio o meu outono

através da tua primavera,

renovando-me também,

qual fênix sem vida,

morta e outra vez renascida,

infensa aos espinhos,

de dores e desatinos,

entregue tão só

a relembranças

do que restou.

Entre o meu outono

e a tua primavera,

glacial e quase-eterno,

insinuou-se o intruso inverno,

mas ainda há canteiros semeados,

também mortos e outra vez revividos,

para enfeitar de luz,

cheiros, flores, cores e ternos amores

o meu coração.

 

***

 

Meu céu, cheio de estrelas

 

Às vezes, fico imaginando como haveria de ser bom, se um dia eu pudesse transformar o teto do meu quarto de dormir, num pontilhado de pequenas estrelas, cometas, naves espaciais, planetas, luas e sóis, que se tornassem visíveis quando a última lâmpada se apagasse e a noite viesse me chamar para o repouso do corpo e o espairecimento da alma.

Seriam pequenos pontos luminosos ali espalhados, de propósito, para dar-me a impressão de estar repousando ao ar livre e de alma também liberta para voar, contemplando o espaço infinito e sonhando os sonhos dos corações apaixonados.

Entre as estrelas, uma certamente haveria especial, por representar, a um só tempo, meu ponto de apoio e repositório de minha paz e meus pavores, de minhas angústias e meus humores, de minhas alegrias e meus temores.

Quando, às vezes, me pegasse desperto, entre os sobressaltos de madrugadas mal dormidas, o que certamente faria, em primeiro lugar, seria procurar pela minha estrela querida, para com ela trocar confidências de desapontamentos, incertezas, decepções, alegrias e tristezas, para, quem sabe, com a ajuda dela, conseguir compor com serenidade o cenário do novo dia que estivesse por chegar.

E, quando me visse novamente caminhando pelos muitos caminhos da vida, que eu pudesse seguir sempre em frente, imaginando que, embora em plena luz do dia, aquela linda estrela do teto do meu quarto de dormir, haveria de estar me acompanhando, concorrendo com a sua luz para a claridade de um novo dia e velando para que os desafios de minhas andanças se transformassem em lições capazes de me modificar, a cada dia, numa pessoa um pouco melhor.

Se assim pudesse acontecer, certamente o meu coração se abriria para o entendimento de que a felicidade verdadeira somente se concretiza ante a certeza da existência de algo ou alguém, capaz de estar sempre por perto da gente, velando por nossos passos, por nossa vida.

De que a existência de cada um, na face da Terra, não pode prescindir de um ponto de apoio, um ombro, um abraço amigo, uma afinidade verdadeira, um carinho, um amor acalentado e generoso.

De que pessoas são como estrelas que marcam presença incessante em nossas vidas, plantando lembranças eternas em nossos corações.

De que é indispensável sentir-se bem por estar perto de alguém, nem que seja através de uma simples lembrança, uma vibração.

E sempre que me visse ante os umbrais de uma nova noite, e enquanto o sono não me fizesse prostrar, cuidaria de também entregar-me a lembranças gostosas de amores absolutos e carinhos verdadeiros, às vezes permutados sob um céu cheio de estrelas, como aquele que bem poderia estar reproduzido no teto do meu quarto de dormir.

Deixar-me-ia levar por reminiscências de arrepios e adrenalinas que somente os amantes verdadeiros conseguem experimentar.

E a cada novo dia, sentir-me-ia renascido e pronto para seguir em frente em meus insondáveis caminhos, destemido e disposto para enfrentar e vencer todos os desafios.

E guardaria comigo a acalentada imagem de minha estrela querida, meu ponto de apoio, sempre pronta para me acudir em noites insones e em dias de caminhadas sem temor.

Tornaria sempre presente a lembrança de sua luminescência envolvente, silenciosa e boa, e de sua imagem querida, gravada para sempre em meu coração.

E voltaria a me imaginar liberto para navegar através do meu céu, pontilhado de estrelas, sempre visíveis, para me asserenar em madrugadas de sobressaltos e dias de alegrias e incertezas, nunca deixando que eu me sentisse só.

E se tudo isso pudesse mesmo acontecer assim, a cada nova noite, eu certamente não veria a hora de apagar as luzes do meu quarto de dormir.

ARIOVALDO CAVARZAN

 

 

Artemiza Correia

Ocara - CE

 

Pássaro da Madrugada

 

Chegastes bem de mansinho

Feito música, junto à alvorada

Suave inocente passarinho.

No romper de um novo dia,

Ainda quase madrugada;

Ansiavas por carinho,

Aconchegou-se ao meu cobertor

Aqueceu-me corpo e alma

Em clima de paixão e amor.

Ainda naquela manhã calma,

Sem satisfazer o meu desejo!

Deu- me um beijo!

E ... Bateu asas em revoada!

 

***

 

Dignidade Humana

 

Vejam só quanta nobreza

Na origem da humanidade

O poderoso onipotente

Criador e divindade

preparou o ambiente

Fez o barro virar gente

e deu-nos a dignidade.

 

O Deus da imortalidade

Antes de ser matéria

Criou sua semelhança

Com ideia firme e séria

Livre arbítrio e paz

Inteligência e mais,

Formas contra a miséria

Sendo o centro e o final

E jamais coisificado

Protegido pela lei

Tem direito assegurado,

Trato com seriedade

Chamamos de dignidade

Do homem humanizado

Nossa constituição

Carta Magna Federal

Garante a nós os humanos

O direito natural

Sendo a mesma soberana

A dignidade humana

Numa vida liberal

 

Artemiza Correia

 

 

Benedita Silva de Azevedo

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_b/Benedita_Azevedo.htm

D. Rodrigo Domingos de Souza Coutinho

 

Há 200 anos morreu,

Aqui no Rio de Janeiro

D. Rodrigo Domingos,

aristocrata pioneiro

vindo de Portugal,

nascido em Vila Real,

agora ele é brasileiro.

Minha homenagem agora

para o Conde de Linhares,

que em mil oitocentos e oito

seguindo através dos mares

a corte vinda ao Brasil,

era cheio de ardil.

pôs em prática os pensares.

Para Ministro da Guerra

e Negócios Estrangeiros

pelo rei foi nomeado...

E também foi dos primeiros

a criar instituições

que atendessem vocações

nestes rincões brasileiros.

A Real Academia

Para formar militares,

também no Jardim Botânico

planta árvores aos milhares.

Uma Biblioteca Pública

que chegou até a República,

vista por novos olhares.

As Belas Artes também

tiveram sua academia.

Foi secretário da guerra

e cuidou da economia.

Secretário de Estrangeiros,

da Fazenda e dos dinheiros,

descansar, não se permitia.

Nosso Museu Militar

começaram a construção,

em agosto do ano anterior

à sua inauguração,

terminam no ano seguinte,

primeiro ano de vinte

e enriquece esta nação.

Foi no mês de outubro que,

seu estilo eclético ali,

catorze meses depois

deixava de ser croqui.

Desde então lá preparou

quem do exército optou

para oficiais da reserva.

Neste Museu Militar

inaugurado em outubro,

doze de noventa e oito,

deixa-me até meio rubro

de tanta felicidade,

das belezas da cidade

que a cada dia eu descubro.

 

OBS.: Texto publicado na Antologia do Forte de Copacabana, em 2012,

por ocasião dos 200 anos de morte do Conde de Linhares.

Benedita Azevedo

 

 

Candy Saad

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Candy_Saad.htm

 

Novos sonhares

 

Róseo véu lunar

cobre a nostálgica tarde outonal,

prelúdio de mil folhas caídas...

Poetas versejam em murmúrios.

Abençoando o encantos dos amantes...

Qual tua melodiosa voz,

Vertente de amor em calmaria que

aflando sussurros acalenta minh'alma,

que recebe de ti tanto e tanto amor...

A lua em vertigem com versos dourados,

Entrega o dia a Vênus "estrela da manhã"...

Nós acordamos com sorrisos nas faces

E embarcamos em novos sonhares...

 

Código do texto: T4349395

 

***

 

Novos tempos

 

Novos tempos hão de vir

Onde a paz estará presente

Os olhos felizes de toda gente

Estarão a mirar o horizonte

Esperançosos com o futuro

Esquecerão os desencantos

Abrirão os braços para o amor

Dando a vida novo sabor

Sonhos de paz

Sonhos de justiça

Felizes terão forças para lutar

Com carinho construir seus ninhos

Respeitar o próximo

Amar a natureza

Ver a criança ter esperanças

de um mundo melhor

A luz de Deus nos corações

de seus servos a brilhar...

Liberdade para voar

Novos tempos hão de vir.

 

Código do texto: T2014633

Candy Saad

 

 

Carlos Leite Ribeiro

Marinha Grande - Portugal

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Leite_Ribeiro.htm

 

“Os dois amigos” (ficção)

 

Depois de aposentado, o Ricardo vagueava pelas ruas da Baixa de Lisboa, para passar o tempo e recordar antigos episódios da sua vida. Nesse dia, por casualidade, passou pelo café onde seu amigo Alberto passava as tardes a ler o jornal. Entrou no café e dirigiu-se logo para a mesa onde seu amigo estava.

- Olá, Alberto, como vai essa saúde? Passas o tempo aqui sentado e daqui a pouco nem andar consegues!

- Tinha o pressentimento que algo desagradável me ia acontecer hoje. Não sabia o que era, mas com certeza que eras tu que me ias aparecer! Já me vai correr a tarde mal. Tu que andas sempre a vaguear pela Baixa, hoje deu-te para entrares aqui neste café – posso perguntar porquê?

- Porque… Porque tinha saudades tuas e queria cumprimentar o meu querido amigo, Alberto.

- “Querido amigo”? Por favor não me ofendas com esse termo tão nobre, quando é verdadeiro!

- É o que eu sou: nobre e verdadeiro. E vim cá dizer-te que ontem vi a “tua querida” Lena – ainda te recordas dela?

- És um verdadeiro finório (cara de pau). E o que eu tenho com isso?

- Como foi a tua “amada” pensei que ficasses feliz por eu a ter encontrado.

- És mesmo impossível. És sempre o mesmo – “amigo da onça”!

- Não sei porquê, pois até na altura tive a gentileza de te apresentar a ela, o que ficaste (na altura) muito contente. Pois uma “avião” (moça linda e apetecível não aparecia todos os dias)!

- Já conheço essa “conversa tua” há muito, grande (nem te quero classificar). Mas em que falaram. De mim?

- De ti não! Falámos das nossas “anteriores” passagens pela vida. Mas vou contar-te tudo tim-tim por tim-tim…

Ontem fui dar um passeio até ao Terreiro do Paço e junto à muralha que separa o rio Tejo, vi ao longe um vulto de mulher que não me era desconhecida. Aproximei-me dela e qual o meu espanto que reconheci a Madalena. A nossa conhecida Lena!

- Olha quem encontro aqui, a minha “querida e inesquecível amiga” Lena!

- O que é que fazes aqui? Já pensava que tivesses morrido (o que não seria nenhuma pena…).

- Passei casualmente por aqui e mesmo de costas reconheci-te. Ainda hoje és uma “avião”, embora diferente do que conheci há anos, é certo – respondeu-lhe ele.

- Para ti é tudo casualmente, grande finório (cara de pau). Deves estar a recordar as malandrices que fizeste na outra Banda (margem esquerda do Tejo), principalmente em Cacilhas e em Almada…

- Recordo-me daquela vez em que me convidaste a jantar no Ginjal (Cacilhas); não me recordo bem em que restaurante. Seria no Floresta?

- Nesse não foi de certeza, pois era muito caro para a minha bolsa. Foi no restaurante Elias.

- Recordo-me. Até notei que tu eras freguês habitual daquele restaurante, pois o garçon piscou-te o olhos e levou-nos para a tua mesa preferida, junto de uma janela que se via o Tejo e grande parte de Lisboa.

- Lena, tu tens boa memória! Claro que tinha ido algumas vezes a esse restaurante … com os meus pais.

- Deixa-me rir ahahah. Que ingénua eu era nessa altura. Depois do jantar, quiseste que eu fosse a uma pequena praia que ficava mais adiante do Gihjal, onde tu dizias que tinhas pescado muito, com uma armação de dois varões de ferro; fazias um triângulo com a linha e colocavas um “sinizinho”; depois lançavas a linha ao mar e quando o peixe picava, o sininho tocava… Cara de Pau.

- Lena, a minha intenção era ensinar-te a arte de pescar, nada mais…

- Ricardo, quase que estou a acreditar (só quase) é que depois desse “ensinamento”, passaste à “pesca em alto mar”, e longe do razoável:

- Parece que me estou a recordar, sim. Sabes que esta memória já não é a que foi!

- Cara de Pau! Perdemos com a “conversa” o último barco para Lisboa, pois quando chegámos ao cais de embarque, já o ferryboat tinha partida há mais de uma hora. E ficámos no teu decrépito e furado Wolksvagem, a quem tu chamavas “carochinha” (no Brasil fusca).

- Querida amiga, e ficámos muito bem, até às 6.30 horas quando do primeiro ferry para Lisboa.

- Tinha ido ao cabeleireiro fazer uns caracolinhos e quando abri a janela do meu quarto para minha mãe não saber a que horas tinha regressado, assustei-me a ver-me ao espelho, com o cabelo todo desgrenhado (em desalinho), além das nódoas de óleo que manchavam o meu vestido novo, apanhadas na “tua “praia, onde prometeste dar-me uma lição de pesca.

- Felizmente, tinhas deixado a janela de teu quarto só encostada. Eras previdente…

- Só deixava a janela encostada quando saía contigo.

- E com os outros?

- Não comento. Mais tarde, houve outro dia que me convidaste a ir a um baile, não em Cacilhas mas em Almada. Não me recordo o nome da localidade que dizias haver um grande baile.

- Parece-me que estou a recordar-me. Jantámos no restaurante “Gonçalves”.

- Onde também eras conhecido…

- Nesse dia não fomos para a praia que tinha óleo na areia. Subimos até ao castelo de Almada e depois descemos uma descida muito ingreme até quase ao Olho de Boi, onde descarregavam os barcos de pesca e onde me tinha dito haver um grande baile (mentiram-me).

- Ricardo, não sei porquê não acredito, nem na altura acreditei. Mas continua…

- Deve estar recordada que a estrada estava em reparação do lado do mar (direito) e tivemos que fazer inversão de marcha, e subir o que tínhamos descido. Quando chegámos junto das muralhas do castelo…

- Num recanto que devias conhecer muito bem… Continua.

- O “carochinha” avariou e tivemos que passar lá a noite. Dessa vez não te ensinei a pescar – lembraste?

- Se me lembro, dessa tão estranha “avaria”, pois às 6 horas da manhã, o carro estava bom para apanharmos o ferry às 6.30 horas. Há avarias assim e tu eras “mestre” em inventá-las!

- Pelo menos, nessa manhã não chegaste a casa com o vestido com nódoas de óleo.

- De óleo vegetal, não, mas com nódoas negras (hematoma) nas pernas, principalmente nos joelhos.

- Nesse dia também tive problemas com minha mãe por causa das calças…

- Ricardo, por falar em tua mãe, ela era uma formidável “cúmplice” tua. Atendia muito bem os meus telefonemas, mas tu nunca estavas em casa; ou tinhas saído em “serviço da empresa”, ou tinhas saída não sabia para onde e por fim disse-me que tinhas ido fim-de-semana com a tua “noiva”. Perguntei-lhe quem era tua “noiva” o que ela me respondeu com grande descontração: “não sei, são tantas!”. Cara de Pau, da pior espécie!

- Mas tu gostavas do cá “cara de pau”!!! rssss

- Na nossa última “saída” te fintei e muito bem – recordaste?

- Não. São fatos passados há tanto tempo…

- Vou-te recordar: Combinámos ir a um baile no Estoril. Desta vez não fomos para a outra margem, que ainda não havia a ponte 25 de abril (estava em começo de construção). Jantámos em Oeiras e depois seguimos para o Estoril. No regresso e como habitualmente, o teu “carochinha” avariou perto da Parede. Enquanto tu fingias que estavas a consertar o carro, eu sorrateiramente, procurei a casa de uma amiga, enfermeira no Sanatório da Parede. Faço ideia da rua cara depois de teres esperado horas e eu não ter aparecido! kakakaka

- Estou a recordar, estou. Esperei uma hora ou hora e meia antes de regressar a casa de meus pais. Imagina quão furioso eu estava, sua “cara de pau”, cafajeste, pilantra, etc.. Confesso que não achei graça nenhuma com a tua atitude.

- Estás muito “abrasilado”, deves ter visto já muitas telenovelas!

- Pois é, minha amiga, hoje a juventude tem mais “liberdade”, mas no nosso tempo fazíamos “tudo” que eles fazem, mas tínhamos que ser mais “engenhocas”.

- E nesse aspeto, Ricardo, tu eras um grande “engenheiro”: Até talvez merecesses o “Prémio Nobel”.

- Estamos aqui parados e podíamos ir a qualquer lado?

- Eu vou ao Barreiro.

- Então “podemos” ir ao Barreiro?

- Tu é que sabes, mas na gare meu filho e meu neto estão à minha espera…

- Certo. Podíamos marcar um encontro para outro dia?

- Talvez para o próximo século! Passa bem e se possível, com mais juízo nessa cabeça oca!

- Então, inté…

- E foi assim amigo Alberto a minha conversa com a “nossa” Lena! Na próxima vez que nos encontrarmos, pago eu os cafés.

- Não disse que te pagava o café…

- Até à próxima, amigo!

(este texto é pura ficção, qualquer situação, lugar ou pessoas é pura coincidência)

Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

 

 

 

Carlos Lúcio Gontijo

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Lucio_Gontijo.htm

 

CINZEL DA PENA

 

Com um belo poema nas mãos

Banhado no sexagenário coração

Corri num só embalo poético

Para então registrá-lo no papel

Mas verso é quebradiço como nuvem

Desprendeu-se do caniço do céu da mente

Sumiu de repente do mel da cena

Antes de chegar ao cinzel da minha pena

 

***

 

Um guarda-chuva em meio à tempestade

 

O espaço reservado à cultura nos grandes veículos de comunicação é mínimo e nos pequenos jornais do interior, além de também restrito, é quase uma ação entre amigos, envolvendo inócuas vaidades acadêmicas. Por essas e outras, optamos por exercer a nossa atividade literária de maneira independente, contando com o apoio da família e alguns bons amigos (e são os melhores), que a literatura foi nos trazendo a cada apresentação de um novo livro.

Sob o meu ponto de vista, quando um autor, como fizemos em Belo Horizonte no dia 14 de março, doa livro infantil para instituições de ensino fundamental, o ato se inclui entre as ações de caridade. E para nós, a maior forma de ajudar ao próximo e proporcionar-lhe acesso à cultura. Foi dentro dessa filosofia, sob a crença em que a palavra é alimento para a alma, que distribuímos, gratuitamente, 600 exemplares da obra infantil “O guarda-chuva do Simão”.

Creiam, caríssimos e eventuais leitores, que tal ato nos custou um enorme esforço pessoal, pois não contamos com qualquer patrocínio, a não ser a cessão de espaço por parte da Associação Mineira de Imprensa (AMI), localizada em Belo Horizonte, através de seu presidente Wilson Miranda, que houve por bem nos prestigiar na condição de escritor que atingia seu 17º livro e que um dia presidiu aquela entidade jornalística, no triênio 2002/2005.

Por ocasião da apresentação do livro “O guarda-chuva do Simão”, que tem ilustrações do comunicador visual Nivaldo Martim Marques, homenageamos, com a entrega do troféu “Gente de Mérito”, instituído pelo nosso site Flanelinha da Palavra (neste ano completa 10 anos no ar), o casal Adílson e Ana Maria Mesquita Batista, que desde o ano de 1977, quando lançamos o nosso primeiro livro (Ventre do Mundo), nos premia com a amizade e o estímulo de sua presença.

A atitude do Adílson e da Ana, está na contramão de gente que não está nem aí para os eventos culturais, estendendo-se esse descaso e ausência às autoridades constituídas, desavisadas sobre a importância de sensibilizar e apurar o sentimento por intermédio da cultura, que é a única ferramenta capaz de transformar o conteúdo adquirido na formação escolar em alavanca de trabalho em benefício tanto da sociedade quanto do próprio detentor da informação intelectual. Sem essa união e sintonia entre educação e cultura, assistimos em muitos casos à diplomação de “doutores” mergulhados na mais absoluta ignorância, ampliando o quadro de maus e insensíveis profissionais no atendimento à população. Como costumamos dizer: a educação é o quadro; e a cultura, a moldura.

Queremos aqui agradecer a presença de muitos professores que compareceram ao evento cultural em que repassamos 20 exemplares a cada uma das escolas que nos enviaram os seus representantes. Foi com muita alegria que registramos o interesse de cidades como Brasília de Minas (três escolas) e Tocantins (seis unidades escolares), além de Belo Horizonte e Região Metropolitana, fortalecendo o meu ânimo de levar “O guarda-chuva do Simão” a Arcos e Lagoa da Prata no decorrer dos próximos dias, em datas ainda a serem marcadas.

Historicamente, saneamento e manilhas não são obras de interesse da maioria dos políticos brasileiros, que primam pela prática do atavismo administrativo de fixar placas reluzentes demarcando seus feitos. Por isso, não voltam seus olhos para as culturas de raiz; aquelas que não provocam grande aglomeração de pessoas (aos seus olhos, eleitores), mas juntam famílias e sensibilizam corações e mentes, numa conclamação à pacífica e harmônica convivência em sociedade.

Lamentavelmente, os editores de opinião dos jornais dão integral preferência para artigos que criticam as estruturas seculares em que se assentam as práticas do mundo político brasileiro, no qual parte considerável de seus quadros busca se cercar de auxiliares doutrináveis e incapazes de lhes questionar os desmandos, o que é determinante para a série suprapartidária de escândalos que assola o Brasil, passando por municípios, estados e toda a federação, como costuma acontecer com toda e qualquer epidemia.

Dessa forma, nossos meios de informação incorrem no equívoco de passar à população a ideia de que nada de bom ocorre em algum lugar, que nenhuma flor germina em meio ao lodaçal e pedras no caminho, como é o caso (por exemplo) do lançamento de um livro independente, que comete o milagre de vir à tona apesar das águas turbulentas da falta de política cultural.

No Brasil, o que aprendemos ao longo de nossa carreira jornalística e na labuta literária é que cultura não é prioridade nem quando sobra dinheiro nos cofres públicos, porque o administrador tem áreas mais importantes para investir; porém se vem crise econômica, a cultura (aí sim) é elevada a setor prioritário para cortes, com redução ainda maior dos parcos recursos que lhe destinam.

Resta-nos então, como autor independente, seguirmos em frente sem nada esperar em matéria de apoio oficial, sem nos aborrecer com as idiossincrasias acadêmico-literárias, contando apenas com a sensibilidade de cidadãos e amantes da cultura como o casal Ana e Adílson. O que já é muito e nos basta, ainda mais agora que contamos com “O guarda-chuva do Simão” para nos proteger em meio à tempestade, num país em que autoridade, quando fala de cultura, fica com o cultivo da mandioca!

Carlos Lúcio Gontijo

 

 

Carlos Saraiva

Brasil

 

O CAMINHO DO PARAÍSO

 

Agilizai-vos seres incautos...

Não tomais o mundo para vós.

Deixai a quimera ser o arauto,

Ao anunciar-vos a sua voz...

Correi sublimes e esvoaçantes.

Não percais a brisa delirante.

Procurai o horizonte semblante

E levai a palavra por nós...

Os querubins e os guardiões,

Farão soar as suas trombetas

Ao receber-vos alegres e sós,

Eternamente castos e louvados

Num só nome, perpetuados...

 

mongiardimsaraiva

 

 

Cezar Ubaldo(de Oliveira Araújo)

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Cezar_Ubaldo_de_Oliveira_Araujo.htm

GRAN FINALE II

 

...E, anoitecendo,

depois de passar pelos clarões

do dia,

o desejo de amar se faz

maior

do que a própria vida,

 

e depois de ser amada

pela primeira e única vez,

morre adormecida!...

 

Cezar Ubaldo (de Oliveira Araújo)

 

 

Cida Micossi. Santos

SP - Brasil

 

VAZIOS

 

Não tive opção

Tive de enfrentar

Pra ganhar o pão

Sempre trabalhar

Ser suficiente

Sempre me virar

E sendo carente

Fingir não precisar

Falta de afeto

Falta de atenção

O que mais me falta

É consideração

Momento mais difícil

Hora de deitar

No espaço vazio

Nada encontrar.

 

Cida Micossi Santos/SP - Brasil

 

 

Claudio - Príncipe dos poetas e esposa

Brasil

 

Amor incondicional...

 

indiscutivelmente, és perfeita,

em tudo que você faz.

Acredito, que nasceste de uma estrela,

tamanho brilho, que traz.

Um simples sorriso já me deixa,

enlouquecido de alegria.

És rainha, entre todas as princesas,

e a luz , de todo nosso dia.

Nada se compara com o seu carinho ,

e o ao seu amor, incondicional.

Capaz que é por amar, de mudar seu caminho ,

provando nos o quanto é, especial.

Impossível não ser seu fã ,

e querer em ti, se espelhar.

Trago na alma, como um talismã,

ao qual para sempre vou cuidar.

Sim, doce e eterno amor,

um dia, Mãe, com o tempo, filha ou irmã.

Amor incondicional, de tão perfeito ,

bem mais, do que dirianos espiritual,

só quanto ao de Jesus Cristo , seria como

espelho , , , , simples, assim se escreve,

MÃE, , , , ,

 

http://wwwpoesiaderosi.blogspot.com.br/

 

Cléo Reis

Ribeirão Preto - SP Brasil

 

JOIO E TRIGO

 

Parcerias para o Bem

se firmam sem parar

Somando ideais

suavizam o apocalipse de

tantos amargores

Encontros Crísticos

entrelaçam almas

que buscam o trigo

para o Pão da Vida semear

O tempo célere

se desmancha em dores

A Mão do Cristo

persiste a nos chamar

“Entre escombros

há vida”

Sempre é hora

de amar.

 

Cléo Reis

 

 

Donzília Martins

Portugal

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_d/Donzilia_Martins.html

 

A casa

 

Queria reinventá-la! Intacta! Inteira, cheia de vida. Mas não!

Falta-lhe tudo o que fazia palpitar meu coração:

A voz nas escadas ressuscitadas do fundo da memória,

O altar da mesa para a comunhão,

A candeia pendurada na trave da chaminé,

A lua atrevida, espremida no buraco a entrar com o luar,

O fumo a cirandar pelo escuro da noite depois de beijar a gente,

O chão prenhe de castanhas, de milho ou de amêndoas para o serão animar.

Nada ficou! Do fundo do tempo sobe o olhar pelas paredes,

A ressoar palavras húmidas de frio, vazio e solidão.

Ah! Quanto queria apanhar o tempo, o fumo, o luar, a lareira, a candeia,

As palavras, as cantigas, as estrelas e as vozes.

Interrogar as tábuas do chão pelos pés que as pisaram,

As telhas que com a chuva cantaram,

O luar que o escuro da rua iluminava

Esfregar o sobrado pela Páscoa para esperar o Senhor.

Sorver o perfume do alecrim e dos lírios roxos da paixão, trazidos do Cachão,

Ouvir o toque da campainha a voar na rua,

O sorriso dos passos a subir a escada.

Porém, tudo é saudade, a cantar uma ilusão.

Hoje na casa não há vozes, nem passos, nem lareiras ou candeias

Tão pouco o cheiro dos lírios ou fumo a morder o sono.

Há perguntas a bailar, personagens a passar, novas vidas a viver.

A casa lá está triste e só, desfazendo-se aos pedaços

Sempre nua, fria e muda

Até que um dia se evapore meu ser.

 

***

 

“Quero ser apenas eu”

 

Escrevo só coisa que me fala o coração.

Não sou erudita, nem intelectual, nem pretendo ser nada para além de mim.

Quero ser apenas eu: com as minhas limitações, os meus medos, os meus fracassos, os meus horizontes limitados, onde veja em cada estrela, em cada jogo de mão, em cada fraga, em cada noite de luar, dançar a minha alma.

Quero ser a maga das palavras que o peito esconde, que o olhar vê, qua a mão apalpa, e os sentidos apreendem. Quero contar histórias de ninar de meninos sem estória, de pedras sem nome, de montanhas cristalizadas de suor, sangue e lágrimas e de mares que bebem infinitos de azul. É no verter desta água de palavras que choro, canto e esvazio a minha dor.

Saem. Libertam-me. Dão-me o poder mágico da consolação. Caligrafadas na folha branca, virgem de censuras, formam rios de veias azuis, grossos caudais, como as da minha mão com artrite, que as vinca.

Só a minha alma sabe o poder mágico das palavras azuladas ou negras na ponta da minha esferográfica.

Sempre nasço nas palavras. Sempre morro nos silêncios.

Não me quero só. Quero ser caleidoscópio de mim, um deslumbramento do meu olhar cristalino sobre as coisas. Quero escancarar a porta do labirinto e dar liberdade às angústias.

Quero ter esperança, rasgar emoções para ser feliz.

Donzília Martins

 

 

DOROTHY SANTOS DE MELO

 

VOLTA AO PASSADO, TÃO PRESENTE

 

minha essência é o amor

olho para dentro de mim e não me vejo mais

gostaria de ser a jovem que escrevia sonetos de amor

com letrinhas cheinhas de purpurina

e... confesso... um terrível pudor de amar...

que apertava os seios contra meu corpo

para ninguém ver a mulher que ali brotava

que, ao primeiro filho tinha dúvidas

por onde brotaria aquele pequeno ser

que se contorcia dentro de minhas entranhas..

seguramente...esta...hoje não sou eu...

me impedindo de ter um pensamento ..

quisera amigos dizer-lhes tudo,

no entanto preciso desprender-me

de toda lembrança que ainda resta em mim

SENHOR DEUS ... tende compaixão

dos menos favorecidos, dos idosos, das viúvas

que deveriam serem enterradas com seus amores...

e, SENHOR.....se sobrar alguma compaixão...

colha minhas lágrimas

quem sabe não serão

transformadas

em um novo oceano?

doromel

 

 

Eduardo de Almeida Farias

Brasil

 

MINHA ALDEIA

 

A minha aldeia é tão pequenina

Que num amplexo a envolvo, inteirinha;

Seu teto é o azul celestial,

Com uma porta sem aldrabas,

E duas janelas, somente,

Uma janela para entrar o sol nascente

A outra janela para encantar o sol poente;

De luz é toda cheia

A minha aldeia.

Vilamendo de Cima,

Vilamendo de baixo,

Artes da toponímia

Que dividiu com um fio de linha,

A minha aldeia.

Minha terra é guardada

Por uma sentinela de crista enfunada,

Cuja morada é a torre do vento;

É tão velho, tão velho este guardião

Destas terras de Agadão,

Que perdeu a noção do tempo

E até o rumo do vento.

Fica o pobre em sobressalto

Quando o sino grandão

Grita as horas bem alto

Dão, dlão, dão, dlão...

Minha terra é toda beleza

Que dá gosto de ver;

Tem colinas e outeiros,

E montes azuis e altaneiros

Onde a lua faz serão;

Tem um rio de águas saltitantes,

E mil fontes

Lágrimas da Princesa moura do Aljião,

Que por amores perdeu seu coração

E por ali ficou encantada.

 

Eduardo de Almeida Farias

 

 

Eliana Ellinger

Israel

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_e/Eliana_Ellinger.htm

ROSA ADORMECIDA

 

Aquela rosa que me ofertaste,

embora hoje seca e descorada,

guardo entre os versos que te escrevi.

Naquela rosa que um dia me afagaste,

ainda sinto teu cheiro, saudosa e desvairada

lembr'o amor tão sublime que unia-me a ti.

O tempo se vai e'u aqui sonhando,

minh'alma cheia d'esperança vivendo,

que a rosa adormecida recobre sua cor.

Na escuridão noturna vou caminhando,

raiand'o dia, vai o céu azulecendo

e a rosa triste de saudade, sorve minha dor.

 

 

Eloah Westphalen Naschenweng

Brasil

 

PRIMAVERA

 

Acordo a luz da manhã e ao canto dos pássaros migratórios frente a minha janela.

Cada modulação e sutileza de seu canto é como se colocassem sonhos em sons, suavizados em pálida harmonia.

A madrugada a distância frágil e preguiçosa se esvai deixando as difusas horas perdidas e, na serenidade da natureza, o sol inicia seu reinado triunfante.

A névoa borra o fundo do firmamento e perde-se nas nuvens.

Lufadas de ar frio carregadas de ruídos, como asas soltas, fazem redemoinhos no chão e a folhagem a balançar como dançarinas numa dança sedutora.

A grama verdejante adornando a Avenida lá fora, faz do orvalho, salpicados pontos de luz, emprestando-lhes uma aura de magia.

Não tão longe as águas ondulantes do mar arremetem nas pedras trazendo no ar o cheiro de maresia. Gaivotas passeiam a preamar soltando seus gritos no embalo do balanço das águas.

O retângulo do sol que desenha e ilumina o chão cria uma bela composição, tal qual colcha de retalhos adornando o ambiente.

O dia presente perfeito, engastado como uma safira no meio de uma jóia especial traz para o meu tempo, perfume, deleite e para minha alma o canto perene do universo.

É o retorno da primavera criadora fecunda que prepara a terra para deixá-la vestida de festa e de cores.

Encantada, coloco meus sonhos em música e esta luz romântica interior, tão minha, a sotavento deixando-me levar pelo excesso de felicidade que se agarra no meu coração e, em alvoroço, ouço a voz de um poeta sonhador.

Absorvo a leveza das palavras e, como um carinho cálido, afago o sonho.

 

***

 

CANTO ERRANTE

 

Meu canto errante, voo peregrino,

Rola teu tempo e de céu e sóis te faz.

Dedilha tuas sinfonias, guarda tuas cores,

Ébria sombra, tênue fibra,

Descamba ao léu, dono do teu destino.

Herói solitário, indômito vagas e afloras,

Trazendo sons em cantaria

Que em vão teces de poesia e boemia

Como, diáfana luz no espaço sonhos desenrolas,

E os leva além do infinito.

 

 

Gilberto Nogueira de Oliveira

Nazaré, Bahia, Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Gilberto_Nogueira_de_Oliveira.htm

EU E EU

 

Um dia um espírito me perguntou:

-Você sabe o que é a morte?

E eu lhe respondi:

-Não tenho lembrança.

E ele me explicou:

-A morte é viver

Num país onde as pessoas

Seguem religiões:

Onde as religiões

Perseguem as pessoas;

Onde os políticos

Aderem às religiões

Para angariar poder.

Onde os religiosos

Aderem ao poder político

Para aderirem às pessoas

E oprimir os povos.

Perguntei:

- Você sabe o que é a vida?

E ele me respondeu:

-A vida é arte;

Todos nós somos artistas

De uma vida mundana

Terrena e miserável,

Onde juntar dinheiro

Patrimônio e poder

É o que importa.

Onde juntar gente chique

Bonitas e insanas

Para mostrar o que tens,

É isso que vale. Valores voláteis.

Perguntei:

- O que é felicidade?

E ele me respondeu:

- Depende para quem?

Cada grupo humano

Tem sua cultura própria.

Então a felicidade consiste

Em que não apareça invasores

Para violar essa cultura

E sim, apoiadores.

Perguntei:

- E sobre a depressão?

E ele me respondeu:

- Ao dirigir numa estrada asfaltada

Eis que tens que entrar

Numa estrada vicinal

E depreciar seu carro

Conseguido com múltiplos esforços.

Perguntei:

- O que é a tristeza?

E ele me respondeu:

- A tristeza é você tentar

Fazer com que os outros tenham

O que você tem

E não obter sucesso.

Perguntei:

- O que é a alegria?

E ele me respondeu:

- A alegria é você conseguir

Dividir o planeta

Para oito bilhões de seres humanos.

Perguntei:

- O que é o amor?

E ele me respondeu:

- É o que você

Está a sentir agora

 

Gilberto Nogueira de Oliveira

 

 

Gladis Lacerda

Copacabana - Rio de Janeiro - Brasil

 

COPACABANA

 

O pôr-do-sol no verão, na praia de Copacabana... Meu Deus!

Lá na linha do horizonte surge um navio. Os últimos raios de sol, resolvem denunciar aquela presença, e o reflexo deles nas escotilhas dá-nos a impressão de um presépio flutuante.

Do outro lado, nas areias de Copacabana, a vida pulsa e se mostra nos rostos morenos e suados dos jogadores de vôlei, de peteca e de futebol.

No calçadão, casais passeiam de mãos dadas, outros de braços dados, tomando sorvetes, comendo pipocas...

Nos quiosques estão aqueles que, na falta de companhia humana, fazem-se acompanhar de um chopinho, de um coco verde, geladinhos!

E a noite chega. E com ela a algazarra de jovens, o som gostoso das batucadas. Os turistas ficam alucinados com o requebrado das mulatas. Os violões dão o ar da graça e os seresteiros se fazem ouvir nos diversos bares também lotados pelos casais.

Ah, a vida em Copacabana! Quem mora ali não quer se mudar.

E eu penso nas pessoas dentro de suas casas, sem poderem curtir esta maravilhosa visão, esta sensação de estar no paraíso!

Nesses momentos sinto que felicidade é isto: estar no lugar certo, na hora certa.

Assim, felicidade é estar na praia de Copacabana, saber observar e curtir essa paisagem, esta vida, esta carioquice preguiçosa, malandra, maravilhosa, num fim de tarde de verão, observando o sol se pondo...a tarde caindo... e o brilho das luzes na noite de Copacabana.

 

***

 

VOCÊ PARA MIM

 

Você é mar: seus braços ancoradouro

onde repousam minhas ilusões.

Você é céu: seus olhos estrelas

que iluminam meu caminho.

Você é terra: todo seu corpo delícias

onde me jogo feliz para receber carícias.

Você é meu tudo, confesso:

você é meu universo

 

 

Glória Marreiros

Portimão - Portugal

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Gloria_Marreiros.htm

 

ESPERANÇA

 

Os jovens abrem caminhos a verões e a memórias que passaram por nós há muito tempo; são o começar duma história com a secreta convicção de que reside ali a mezinha mágica que fará ressuscitar um futuro com bom auguro; são a música que envolve a atmosfera do nosso ameno entardecer; são uma primavera súbita e carregada de possibilidades, pois estão efervescentes de actividades, fervilham no interior de si mesmos, chocalhando os seus sonhos uns contra os outros. Atiram-se às sombras e transformam-nas em halos de luz, libertando reflexos na essência do ar, como se quisessem capturar a ventura dos nossos verões aprisionados. O futuro, por vezes, pode ter um sabor acre, a terra queimada, que nos evoca algo e se nos apega aos confins da memória, arrancando-nos imagens que julgamos perdidas para sempre. São os jovens, mesmo escondidos nos arbustos açoitados pelo vento da descrença, que têm nas mãos o condão que pode abrir caminho através dos enormes amontoados de desilusões, enviando para o ar nuvens de sementes prontas a germinar na madrugada seguinte.

O futuro depende da educação que se dá ao jovem. A ausência dessa mesma educação pode explodir no ar com um silêncio hostil, ou como o ribombar de um trovão anunciando tempestade.

O jovem precisa, para se reflectir na imagem do amanhã, de segurança, protecção, exemplo e amor. Estes valores formam uma pequena bolsa de eternidade que nunca os abandonará, porque guarda milagrosos segredos que eles terão de desvendar, cuidadosamente, para poderem superar as astúcias e as intempéries da vida.

O jovem de hoje tem de pensar que é a planta que se ramifica nos beirais do futuro e se derrama pelos telhados do mundo em cascatas de folhas longas e brilhantes, matizadas de perseverança, para transformar a luz carregada e oblíqua do modesto sol-pôr que ilumina as telhas e as paredes musgosas dum futuro passado, agora, apenas, uma fotografia a preto e branco nas páginas ressequidas das memórias que descansam na espuma dumas flores ásperas, cujo nome é sempre-vivas.

O futuro, às vezes, assemelha-se a um espinhoso caule de alcachofra, ainda encimado com a flor do ano que passou, dissecado até ao limite. Neste caso, é provável que o jovem vacile até encontrar os rebentos viçosos da alvorada nos canteiros do seu âmago, ao sabor dum vento refrescado pela carícia do perfume que se solta dum rijo cepo de roseira brava.

Sabemos que não é fácil construir um futuro, promissor para toda a gente, ao som de um coro formado por ululos, silvos e gritos de guerra; com frenesins redobrados e tons que se tornam selvagens, febris, parecendo uma espécie de champanhe de sons, impressões, vozes e memórias, tudo misturado num delirante e louco cocktail, embriagando as tiras de luar que tentam aflorar sobre o chão de pedra onde tantos jovens pisam.

Apesar de tentarmos ser optimistas, temos de compreender que não é fácil ser jovem nos tempos de hoje. Muitas vezes os relógios das igrejas da vida ecoam, distantemente, através de terras pantanosas demasiado atulhadas em desilusões. As aspirações afloram, tímidas, no reflexo dum silêncio de vagos significados, como um cinzento manto de nevoeiro. Dá a impressão de que o astro-rei baixa rapidamente na direcção da orla enevoada, parecendo rolar num saco de ninfa. Apenas a brisa que sempre acompanha a noite se transforma em laivos de esperança.

O sol pode aparecer velado na primavera da vida, mas há sempre a esperança dum verão quente, luminoso, fazendo o ar sangrar de oxigénio e a paisagem de cor. Os campos, as árvores e as flores da alma sempre superam os tons cinzentos e granulosos, para dar lugar à névoa brilhante que paira no mundo dos sonhos, como um farol para o barco que balouça nas ondas, perdido. Os botões de rosa, compactos e verdes por terem estado afastados da luz, hão-de abrir-se para emprestar a sua deliciosa beleza à espessa veia do romance que atravessa a essência do jovem. As ervas daninhas que brotam por entre as lajes da desesperança hão-de quedar-se mortas de frio, prateadas de geada. O sotaque cerrado da desilusão será uma paródia a rir de si mesma e a mergulhar na nostalgia, para dar lugar à linguagem do amor. Depois, o sol deixará de ser a moeda baça estampada no céu, para se transformar num rio de luz ziguezagueando, em caudal bonançoso, na plenitude do universo.

Escrever sobre o futuro dos jovens é fazer uma longa introspecção e uma viagem até às cavernas obscuras da consciência, uma lenta meditação. Escreve-se às apalpadelas, no silêncio. E pelos caminhos da imaginação descobre-se partículas de verdade, pequenos cristais que cabem na palma da mão.

Na juventude, o futuro será terra lavrada de virtude. A aurora resplandecerá nas folhas e faiscará nas gotas que enchem as corolas das flores silvestres. Haverá intermináveis paredes de verdura, áleas e alcovas com significados prometedores, como símbolos de uma antiga religião, de justiça, amor e paz sobre a Terra.

 

***

 

AS UVAS

 

Tu lembras as uvas, em cachos, maduras,

pendendo no muro pintado de antigo?

Passaram-se os anos, mas sinto um abrigo

na boca onde tive tamanhas doçuras.

 

O outono bordava, com tons e venturas,

o nosso refúgio sem porta ou postigo.

Abria-se o tempo se estava contigo

e o sol espreitava por entre molduras.

 

Chegaram os ventos, trouxeram granizo,

o muro tombou sem folhagem de aviso

e as silvas cobriram as vides, depois.

 

O inverno da vida tem dores e graças,

mostrando que as uvas são doces, em passas

e deixam sabor a saudade, nos dois.

 

 

Glorinha Gaivota

São João de Meriti/RJ

 

Sem destino

 

Eu sou um barco

À deriva

Perdido

Na imensidão

Eu sou um ponto

Distante do teu carinho

Seguindo na solidão

Meus olhos a marear

Estão secos pelo sal

Das águas do meu penar

Vou abraçado às ondas

Nada mais tem sentido

A bússola do meu destino

É o mar a me levar...

 

***

 

VAMOS PRESERVAR O QUE NOS FAZ FELIZ

Dou muita importância em cuidar das coisas que me faz feliz, agora mesmo peguei um vaso de samambaia que alegra o corredor do meu trabalho e além de examinar seu estado e regá-lo o pendurei no jardim do pátio para que possa pegar o sol do dia e o sereno da noite.

Sempre quando faço isso noto que as folhas ficam mais viçosas e me sinto satisfeita por saber que ela está bem.

Não adiantaria nada eu me alegrar com a presença dela sem cuidar para que permaneça com vida, se não o tratasse já teria secado suas folhas e raízes e seria apenas mais uma alegria morta por falta de cuidado.

Glorinha Gaivota – GG

 

 

HOLOFOTES

Heloisa Lima

 

Estou nua aqui, do meu lado de dentro.
Estou nua, e não sei o que faço,
Me despindo na rota em busca do centro,
Desnudando a minh’alma apesar do cansaço.

Estou nua, e daí ? Que importa ?
Já não faz diferença. E o que sinto ?
Que fazer sem a pele já morta ?
Me restou a verdade e não minto.

Estou dentro de mim, minha alma abraçada,
Sem medo de nada, me agradam os escuros.
Uma inveja maldita, esperança ceifada,
Ouço vozes funestas, sentimentos impuros.

Mas a nudez serena que observo no espelho
É a réstia de luz que vazou pelos poros,
Pois roubaram-me a roupa, entre gritos sonoros,
Mas deixaram-me a força, me alavancam os joelhos.

E assim abro a cortina, me revelo no palco,
Ouço aplausos e vaias da plateia eriçada,
O holofote me cega, maquiagem de talco,
Me retiro
E sonho com uma alma lavada.

 

***

 

FERIDA

Heloisa Lima

 

Que ferida é essa, atrás, em minha alma?
Abriram-me as costas? Cortaram-me as asas?
Deixaram-me espinhos? Ceifaram-me as rosas?

Costuraram meus lábios? Se escondeu, meu sorriso?
Amputaram-me a língua? Calaram-me as rezas?

Que ferida é essa?

Não sei de onde veio,
Para onde a levo.
Apenas sangro!

 

ESCREVERECENDO POESIA
Editora HBrasilgraph
- edição e publicação
Pharol Editora
- Divulgação
2014@direitos reservados

 

 

Henriette Effenberger

Bragança Paulista – São Paulo

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_h/Henriette_Effenberger.htm

Descalça

 

Quando meus medos me abandonaram,

minha alma descalça pisou cacos de saudade

e meus pés feridos sangraram angústias inúteis.

Foi então que a vida me encontrou.

Devolvi a capa de sonhos,

o par de óculos azuis, os anéis, as alianças,

as luvas que guardaram afagos...

Vencidos os moinhos de vento,

despi a armadura enferrujada,

prendi Rocinante à linha do horizonte

e parti.

 

***

 

FEIJOADA COMPLETA

 

- Dois quilos de feijão preto – Deixar de molho de um dia para o outro e trocar a água antes de colocar na panela de pressão para cozinhar (é importante descartar essa água do molho para se eliminar possíveis resíduos de agrotóxicos);

O primeiro apetite saciou com leite de peito. Depois veio a mamadeira e mais à frente papinhas, suquinhos, frutas picadas e compotas. Já crescidinha apareceram o arroz branquinho e feijão fumegantes exalando o perfume do amor que alimenta. Houve também salada de hortaliças, legumes refogados, brócolis e repolhos avisando que nem sempre o amor cheira bem. Além dos quiabos babosos e do amargo jiló, prevenindo a menina que a vida nem sempre se apresenta como um bife acebolado.

Mas com a mãe aprendeu desde muito cedo que amar é alimentar... ( e ser alimentada) e que “ saco vazio não para em pé”...

- Dois quilos de carne-seca ou charque (observe o prazo de validade e se não estão muito gordurosas ou muito escuras). O charque, tal como o feijão, também deve ser deixado de molho na véspera para dessalgar, com a diferença que água deve ser trocada a cada duas horas e no mínimo quatro vezes;

O sal se esvai, e a carne perde a dureza do sol e os primeiros sonhos vêm à tona. A adolescente emoldura o amado, procura adivinhar de que cor serão seus olhos e cabelos e como será o tom de sua voz. Repete para si mesmo as palavras românticas que dirá e ouvirá. Apaixona-se pelo o que ainda não conhece. E espera.

- Seis pés de porco (prefira os frescos, comprado nos açougues aos salgados industrializados, pois dizem os entendidos em culinária, que os pés salgados são de porco velho e assim por mais tempo que fiquem na panela de pressão, continuarão duros). Peça ao açougueiro para cortar as pontas dos dedos e retirar as unhas – questão de estética. Em casa, com uma escova de dente (nova, por favor!), esfregue as saliências e reentrâncias dos pés suínos e os coloque para cozinhar, com algumas folhas de louro, em panela de pressão por aproximadamente meia hora. Só depois de cozidos, divida os pés em dois pedaços iguais;

Alguns príncipes desencantados depois, a jovem se cansa de esperar e tem pressa. E na pressão dos hormônios, frequenta baladas, faz cursinhos, trabalha, faz carreira, fica, namora, desnamora, busca, busca, busca... Encontra... Perde.... Volta a buscar...

- Três peças de paio e seis gomos de linguiça portuguesa, ( também deve-se ficar atento ao prazo de validade, além da coloração e aspecto peculiar dos embutidos.) prefira os que estão nos balcões frigoríficos aos colocados em granel nas prateleiras. Corre-se menos risco de baratas, moscas e ratos passearem sobre eles... Ao chegar em casa, os lave com água corrente e abundante e os coloque para ferver em uma panela grande, por cerca de meia hora. Use um escorredor de macarrão para que a água gordurosa seja descartada, retire com cuidado as películas que recobrem os embutidos (antigamente as linguiças e paios vinham em tripas de porco, agora parecem recobertas um produto sintético qualquer), e os corte em rodelas não muito grossas (por questão de economia), nem muito finas (para não se desmancharem no meio do feijão).

Com as emoções agora cozidas em fogo brando, a jovem mulher desnuda-se. Deixa de acreditar em príncipes, não beija sapos, abre mão da fada madrinha para se cuidar sozinha. Divide-se em fatias, nem sempre generosas. Ama com parcimônia, é amada na mesma moeda.

- Uma cabeça de alho, duas pimentas dedos-de-moça e quatro cebolas. Deve-se descascar os dentes de alhos e espremê-los. As cebolas serão picadas em cubinhos bem pequenos para que, com facilidade, agreguem seu sabor ao feijão e não flutuem no caldo. Das pimentas deve se retirar as sementes para conservar o picante e evitar a ardência.

Revê então a mulher madura que muitas vezes chorou silenciosamente, quando a busca não resultava em encontro; quando a expectativa não se materializava, quando o amor ardia e a solidão a ele se misturava; quando a perda a acuava.

- Duzentos gramas de bacon cortados em cubos (se não tiver uma faca bem afiada para que fiquem simétricos, peça ao açougueiro para fatiá-los – Torresmos de vários tamanhos e forma denotam falta de capricho);

Na meia idade o coração, o corpo e a mente se equilibram. Lança um novo olhar sobre os sucessos, aprende com os fracassos. Julga, sem auto piedade, sem mágoas e sem falsas justificativas, cada uma de suas escolhas.

Agora é colocar a panela grande no fogão e despejar nela os ingredientes devidamente preparados: óleo com fartura (para que o feijão não grude no fundo da panela) e depois de aquecido fritar nele os cubinhos de toucinho defumado, os quais posteriormente serão retirados da gordura para serem servidos como aperitivo. Depois a cebola (até ficar transparente), o alho ( não o deixe queimar para não amargar) e a pimenta dedo-de-moça que juntos irão aromatizar e dar sabor ao feijão que será despejado ali. Deixe o fogo alto até que o caldo ferva, depois reduza a chama para engrossá-lo. Na sequência, coloque os pés de porco e os embutidos fatiados, mantendo o fogo baixo até que todos os sabores se misturem. Atenção redobrada para não passar do ponto e o feijão, a alma da feijoada, ficar bem cozido sem perder a individualidade dos grãos.

Enfim, o dever cumprido: sabe que sua vida realizou-se entre amores e desamores, encontros, desencontros, muitos ganhos, várias perdas. Entre sonhos realizados e ilusões perdidas, alimentou e foi alimentada.

Na velhice, mantém alguns projetos e, talvez, até algumas ilusões, mas tem consciência de que o prato principal já está servido.

Feijoada borbulhando na panela é hora de lavar o arroz, picar a couve e descascar laranjas...

Clarice

Henriette Effenberger

 

 

Heralda Víctor

Florianópolis SC Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_h/Heralda.htm

 

Ultraje

 

Roubaram de mim, o teu olhar...

Aquele olhar especial de solidária compaixão.

Aquele olhar que alcançou meu coração dizendo tudo sem falar.

Aquele olhar que me tocou profundamente.

Aquele olhar que me envolveu ardentemente,

Roubaram de mim!...

Aquele olhar triste que entendeu minha tristeza,

Aquele olhar forte que amparou minha fraqueza,

Aquele olhar que me olhando diferente, aconchegou, protegeu.

Aquele olhar que numa lágrima nasceu,

Roubaram de mim!...

Se precisavam dele, eu não sei.

Talvez precisassem mais que eu.

Pode até ser visto o teu olhar olhando noutra direção,

Mas quem possui os direitos deste olhar, é meu coração!

Estigma em mim, do teu olhar me orgulhava tanto.

Imprimi o teu olhar pelos caminhos, porque era meu.

Cheguei a falar do teu olhar para Deus que me entendeu,

Mas, teu olhar preso na parede desencadeou meu pranto!

Roubaram de mim...

O olhar que eu almejava encontrar um dia,

Nunca imaginei que o aprisionariam numa fria laje.

O que fizeram entendo como covardia.

O visível e o invisível sabem foi ultraje.

Peça traiçoeira da vida a nos pregar...

Roubem. Roubem tudo!

Porém minhas lembranças não irão levar.

Nelas resguardo a magia dos momentos que acalento,

Sem revelar onde repousa o verdadeiro olhar.

Esconderei do mundo este segredo levando sigilosamente a túmulo

A dor que fere meu pensamento.

Roubaram de mim, o teu olhar!...

Roubaram!

Roubaram de mim!...

Custo acreditar!...

 

 

Iraí Verdan

Magé – RJ - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Irai_Verdan.htm

 

O JACARANDÁ

 

Ontem, ele ainda estava lá...

Reinando em seu “reinado”,

O majestoso Jacarandá.

Ontem, ele ainda estava lá...

Eu vi. Todos o viram em seu lugar

Reinando o seu reinado,

De magnitude e graça,

Que durou – não sei os anos...

Em Piabetá, na velha e querida praça!

Parecia a mesma árvore de sempre:

Sempre bela, imponente,

A desafiar da vida... os ventos,

Como pássaros em voos rasos, lentos.

Alheia, indiferente completamente,

Às vicissitudes dos donos,

Ou à crueldade do progresso humano.

Desempenhava apenas o seu papel:

De ser manto, ao receber a chuva do céu;

De ser abrigo, e abrigar da vida os sonhos;

De ser amiga e escutar os segredos,

Descobertos em suas sombras, como altar!

Sem receios, sem medos,

Nas noites lindas de luar!

Hoje ouvi. Todos ouviram

Aqueles terríveis toques compassados,

Do impiedoso machado a lhe ferir...

Desesperado, o Jacarandá,

Solta no ar angustiante gemidos,

Que tantos não puderam ouvir!

Abafados ao seu redor

Pelos ruídos fortes, renitentes,

Das máquinas e ferramentas –

“Mensageiras do progresso”,

Que antes da próxima primavera chegam,

E fazem do seu passado,

Um etéreo e saudoso presente,

Tão vivo na memória da gente!

(Singela homenagem à lembrança do jacarandá de mais de dois séculos, cortado da praça de Piabetá – Magé – RJ, em 05 de agosto de 1986, fato presenciado pela escritora Iraí Verdan

entre outras pessoas).

 

 

Isabel C S Vargas

Pelotas/RS/Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Isabel_C_S_Vargas.htm

 

SONHO MEU

 

Desde que te encontrei, por acaso

passaste a ser uma grata surpresa

para meu coração sofrido e árido,

necessitado de cuidado e afago.

Nenhuma palavra foi pronunciada.

Nada que pudesse ser interpretado

Como sinal de sentimento avivado,

mas teu olhar foi certeiro e cativante.

Teu modo de tratar as mulheres,

tuas palavras sempre delicadas

atingiram meu coração carente.

És pessoa de sentimento puro,

amor indiscutível pelo ser humano

gravado para sempre no meu coração.

 

***

 

O ESPELHO E O TEMPO

 

Ela sentou-se à frente do espelho. Não como fazia quando era adolescente que procurava ver se estava bem, toda vez que passava diante de um, fosse pequeno ou grande. Obsessão de todo jovem para senti-se seguro.

Agora era diferente. Era uma pessoa madura, em outra época da vida, com muitas vivências de todo tipo. Perdas, ganhos, alegrias, tristezas, coisas naturais da existência.

Ao primeiro olhar não se assustou. Viu uma imagem serena. Não acabrunhada pelos anos, mas de quem está em paz. Só os tolos acreditam que a vida é feita de felicidade eterna. Não, a vida é feita momentos, Temos que esgotar todos eles, tanto os bons como os ruins para passar para nova etapa. O que vê, então é uma imagem e um olhar de aceitação. Da vida e das conseqüências dela.

Quando jovem todos elogiavam sua beleza. Hoje já não tinha mais a pele viçosa, mas não era de todo ruim. As sobrancelhas um tanto arqueadas como a indagar da vida e de si mesmo o que viria a seguir. Estava preparada para o futuro. Já havia feito um lastro de emoções que lhe davam força para enfrentar novos desafios. Só quem está morto não sofre. E se o sofrimento aprimora, ela se sentia aprimorada pelas atribulações que a vida a presenteara. Já não tinha a boca marcada como de outrora e as linhas de expressão estavam mais marcadas. Mas isso significava que ela tinha vivido o suficiente para armazenar experiências diversas, um aprendizado relevante o que a tornava uma pessoa interessante no trato com os outros.

Apesar das dores e tristezas era uma pessoa que cultivava a esperança e a alegria. O Olhar ainda conservava certo brilho. Ainda sorria com o olhar. Sentiu-se satisfeita com o exame e o próprio sorriso no fundo dos olhos esverdeados onde enxergava sua alma.

Deixara um rastro de alegria, amor, amizade, perseverança, gentileza em seus locais de trabalho, em suas relações pessoais de amizade, familiar e sentia-se uma pessoa bem amada, bem sucedida e satisfeita. Vivia perto da família, ainda tinha muitos planos para o futuro e muitos sonhos a realizar. A imagem no espelho se mostrava por inteiro e sem subterfúgios. Não tinha nenhuma maquiagem a disfarçar nada e o resultado a deixava em paz. Sua alma está em paz. Podia perceber tudo isso sem mágoa ou angústia. Estava pronta para seguir em frente e desfrutar o que a vida ainda podia lhe apresentar. A reflexão era produtiva. Descansada fechou os olhos e suspirou tranquila. Não precisava buscar mais nada no espelho. Estava tudo gravado em seu coração.

Isabel C S Vargas

 

 

Ivone Boechat

Niterói RJ Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Ivone_Boechat.htm

 

Minha memória

 

Hoje ainda consigo ser lembrada,

nesta longa viagem,

como filha, mulher, mãe, amiga,

escrevedora de versos,

avó,

virá o dia quando os adversos,

apagarão

os perfis do meu personagem,

soprando o pó;

injustiça,

inveja,

vaidade,

me tornarão arquivada

no álbum de fotos antigas

e...para bem poucos,

saudade.

 

***

 

Como você vê?

 

Clarisse Lispector diz: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

A forma como a pessoa vê varia de acordo com a situação emocional, espiritual, social. Isto significa que se pode aprender a ver. A gente inicia a vida vendo com os olhos dos outros: dos pais, dos educadores, da igreja, da mídia.O ambiente em que se vive, a educação, a maturidade, a informação, o exemplo, vão capacitando o ser humano para mobilizar a inteligência do olhar.

Dizem que “os olhos são as janelas da alma”. Os olhos são as janelas por onde se codificam as experiências da vida... A pessoa será ou não feliz dependendo da interpretação que ela dá aos fatos. “Se teus os olhos forem bons...”

Conta-se que um jornalista saiu à procura de algo fantástico para registrar no Jornal de maior circulação do seu país. Nem chegou a andar muito e viu as escavações grandiosas de uma obra. Chegou perto de um operário e perguntou-lhe:

- O que é isto? E o homem, mal humorado, suando muito, disse: - Não vê que estou preparando um túnel para passar tubulações de esgoto?

O jornalista andou um pouquinho mais e viu outro operário trabalhando na mesma obra, assoviando. Aproximou-se dele e viu que ele trabalhava de bom humor e perguntou-lhe o que é isto? E o homem disse animadamente:- Estamos preparando a estrutura, onde vai se erguer um gigantesco e maravilhoso shoping.

Fernando Pessoa, diz que “o mundo não é como você vê. O mundo é como você é.” Em versos, ele define a importância do olhar:

“Onde você vê um obstáculo,

alguém vê o término da viagem

e o outro vê uma chance de crescer.

..............................................................

Porque eu sou do tamanho do que vejo.

..................................................................

E não do tamanho da minha altura”.

A forma como uma pessoa olha o outro revela não somente o seu grau de espiritualidade, revela a escolaridade e os efeitos do vírus da inveja que se alojou no seu computador emocional. A maior cegueira do ser humano é causada pela contaminação por inveja que é capaz de distorcer imagens, pessoas, fatos, circunstâncias.

“Depois de um dia muito cansativo Jesus chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que o tocasse. E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.

E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam”. Marcos 8:22-24

Para aquele cego de Btsaida ser curado Jesus cuspiu-lhe nos olhos, mas por analfabetismo visual, ele via as pessoas “como árvores que andam”. Com certeza, as primeiras lições foram dadas: o Mestre ensinou aquele homem a olhar, mas, sobretudo, o capacitou a ver.

Ivone Boechat

 

 

J.R.Cônsoli

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Consoli.htm

 

Cubismo

 

O dia prosseguia como aresta não polida...

Flores poliédricas jaziam em árvores oblíquas

e perpendiculares.

O calor da tarde era quadrilátero...

Pequenos cochilos entremeavam sonhos distorcidos

de uma realidade indefinida, ora reta, ora curva, ora

redondos pesadelos...

Sobre a mesa de dois pés, a xícara helicoidal do café do almoço!

Minha face assimétrica refletia na amorfa poça d`água

da última chuva horizontal, a expressão cândida do triângulo

obtuso.

 

 

Jacó Filho

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jaco_Filho.htm

 

AOS OLHOS DE DEUS

 

Sendo sua imagem, é o que Deus veria,

Refletindo no espelho, quando me olho...

Talvez me aceite com a mesma alegria,

Sentida na chuva se bebo ou me molho...

Por ser na essência parte e mesma luz,

Que em si emanado pra obter virtudes,

Vivendo as leis, que também o conduz,

Permite-se aceitar, minhas vicissitudes.

Tendo-me gestado nas fases evolutivas,

Sentindo emoções por perdas e vitórias,

Concede perdão por falhas consecutivas...

Por saber do final sentindo suas glórias,

Sou aos seus olhos, e sem alternativas,

Um Cristo latente em versão provisória...

 

 

José Hilton Rosa

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jose_Hilton_Rosa.htm

 

Homem do mato

 

Querendo andar sozinho

feito bicho perdido

sem fala, sem grito, nem dor

perdido num pensamento

Olhando para o chão

vergonha da vida

sem entender a razão

é a força do destino

É como olhos vendados

longe de chegar

sem pedir socorro

nem para onde olhar

Sem lugar para ficar

não querendo ver o sol

sem hora para deitar

nem para levantar

É como bicho perdido

com ou sem dor

sem ter para quem falar

da tristeza de estar só

 

 

Jose Luiz da Luz

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_j/Jose_Luiz_da_Luz.htm

 

Coração em pedaços

 

Nosso coração se divide em pedaços,

que se espalham carregados de emoção.

Na vida, quem passa pelos nossos passos,

deixa um tanto, também leva uma porção.

Há quem ama e deixa partes perfumadas;

há quem fere e deixa partes machucadas;

há quem é grato e deixa partes louvadas,

há quem esquece e deixa as partes jogadas.

Na vida, quem passa pelos nossos dias,

deixam pedaços de si pelos caminhos.

Ora sentimos perfumes e alegrias,

ora sentimos dores pelos espinhos.

Há quem sorri pelas partes perfumadas;

outros choram pelas partes machucadas.

Há quem sinta paz pelas partes guardadas,

outros sentem falta das partes jogadas.

A vida é cheia de caminhos cumpridos,

que espalhamos pedaços do coração.

Virão flores, ou espinhos doloridos,

porque são sementes que germinarão.

 

 

Juçara Medeiros Lasmar

Brasil

 

Nesta Tarde

 

Nesta tarde quente de inverno

quando o sol rebrilha nas montanhas

inspirada eu fico, é eterno

o apreço, a amizade tamanha...

Com sol se pondo, o lusco-fusco

vejo brilhar uma luz no infinito

céu colorido, o crepúsculo

nossa, como o mundo é bonito!

Da janela eu vejo flores

árvores com os pássaros a dormir

alguns voam num balé de despedida...

Neste cenário não se fala em dores

sinto a felicidade refletir

como é bela, maravilhosa a vida!

 

***

 

Manhã de Domingo

 

Céu coberto de nuvens ainda claras, mas que prometem escurecer ao longo do dia... A árvore que mora em frente minha janela está coberta de minúsculos botões, dentro de uns três dias haverá uma explosão de flores amarelas. Duas pombas namoram em seus galhos, fico a observá-las por um bom tempo... Meu quarteirão tem muitas árvores quase todas de flores amarelas, mas de espécies diferentes... O cheiro da manhã é uma mistura de flores e vento... Muitos ainda dormem neste domingo de preguiça. Outros cantam, alguns choram... A cadelinha de minha filha passa pelos meus pés cheirando tudo, ela gosta da minha casa, é grande, tem muito espaço para explorar... Neve é o seu nome pois parece um floquinho de tão branca... Branca de Neve, Clara em Neve... Se fosse minha o nome seria Danka em homenagem a cadelinha da minha infância, dona de tantas lembranças... Lembranças? Nesta manhã de domingo quero ficar aqui e agora, não quero recordar nada, não quero lembranças... Hoje o dia será meu, da pessoa que sou hoje e não a do passado. Se recordo divago... Hoje não, quero viver o presente com toda a força que ele tem. Bom ou ruim? Não importa. O momento é este, agora... Não posso mudar o presente, mas posso escrever o futuro, pois ele só a mim pertence...

Volto novamente à janela para ver se algo fora dela merece ser narrado... Duas andorinhas revoam à minha volta quase batendo em meu rosto...

juçara medeiros lasmar

 

 

Lena Ferreira

Brasil

 

As notícias das tuas pegadas

 

em terras tenras então estrangeiras

pousaram bem calmas nestas mãos aflitas

desdobrando o viés de uma saudade latente

letras lidas ponto a ponto com a ponta dos dedos

trouxeram para perto a ilusão do teu quê tão distante

na desdobra, um aroma almiscarado sossegou os sentidos

- mesmo que por um raro e brevíssimo instante -

num aconchego terno, a missiva abrasou o meu peito

enquanto um azul ultramarino testemunhava as nuvens

que passeavam vagarosamente pelo meu céu

logo choveu... uma chuva quieta e fininha

pelos olhos miúdos em gotas de esperança

de que na volta de tantas andanças

outras nuvens virão carregadas

pela tua alegria tranquila

 

***

 

CORAGEM LEONINA

 

Venho de amparar líquidas mágoas que cutucavam a visão de hora em hora e, espiãs das lágrimas nascidas cedo, sorriam secretamente da indiscrição de cada parto, melancólico e sem fim. Circundando rotas e velhas respostas, todas senhoras de certezas seculares, lancei outras perguntas em segredo silenciando cada ruga de expressão de cada vírgula entre o sim e o talvez. Outro hiato então se fez nesse ofício e foi difícil prosseguir na trajetória já que a história reprisava o enredo. Já que, sem medo, desejava ir além.

Quase rendida pelas circunstâncias e toda rendada por desimportâncias, bebi todo silêncio que me oferecia e nessa afonia incômoda, sobrevivi. Farto foi o fardo dos velhos cansaços que suaram nesse exercício inútil e tolo onde o dolo tinha odor de recompensa em frascos longilíneos e inesgotáveis.

Entre o desisto e o sigo em frente, a claridade duelava com o puro breu sob o olhar isento das mansas águas numa batalha sem glórias ou garantias.

Ao fim, uma coragem leonina tomou posse de tudo daquilo que se perdera entre as mágoas e embora venha com as duas mãos vazias, o que já me pertencia voltou a ser meu.

Lena Ferreira

 

 

Luiz Carlos Martini

Restinga Sêca - Rio Grande do Sul - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/Luiz_Carlos_Martini.htm

Flor de maçanilha

 

Geou na manhã de maio

A brasa virou cinza após

aquentar a água do mate

E o sol romper de soslaio

Girou tramela, um relincho

E o fumaredo se levantou

O pasto ficou encharcado,

rastro de algum capincho

A saracura abriu cantoria

A estância se manifestou

Fogão novo, lenha enxuta

Ensina a velha sabedoria

A tropa se perde na trilha

E dando o laço às ideias

Espera para a primavera

O perfume da maçanilha

 

***

 

Pedra solitária

 

Toda manhã seguia a passos lentos pela rua em direção à capela. Não entrava, havia uma proteção sobre aquela pedra e ali permanecia sentado, com as mãos sobrepostas na curva da bengala. O chapéu de pequenas abas e um par de óculos escuros. Tudo parado, mirando a exmo. As pessoas passavam, meros corpos se movendo. Um cumprimento, sem respostas. A sobrancelha remexe com a batida do sino. Som penetrante, de fazer doer à alma. Continua inerte, parece mastigar, às vezes. Uma bola rolou e parou perto do seu pé, indiferente, ali ficou até que uma mão de unhas sujas retirou. Por horas sentado, até que escureceu. Levantou e seguiu o caminho de volta.

O Cid estava tenso, nervoso, também alegre, suando e olhando para o relógio a todo instante. Nem reclamou quando seu cunhado apertou demais o nó da gravata. A rotina da casa havia sido quebrada com presença de tantos parentes adultos e crianças, que corriam de um lado para outro. Enquanto acertava mais um botão da camisa fixou os olhos na moldura da parede. A foto de seus pais ainda jovens. Belos jovens, de lindos olhares. Pareciam que, em uníssono, queriam dizer alguma coisa. “Bobagem”, pensou. Nisso apareceu sua vó, sempre com palavras fortes, cortantes como lâminas: “Tem certeza que é isso que tu qué? Olha! Dá tempo.”

O Cid conheceu a Joana numa festa na sede da fazenda. Apesar de suas poucas habilidades de jovem moço conquistador, acertou quando pegou a jovem um pouco alta das bebidas. Ela praticamente se ofereceu e acabaram se refestelando atrás do celeiro. Ali, depois de algum tempo, deitados e descansando os corpos, fizeram planejamentos e, nos outros encontros que se seguiram, já incluíam casamento e muitos filhos. Mas as férias dela terminaram e voltou à cidade para seguir os estudos. O Cid permaneceu na sua vida rural, vivendo do rigor do trabalho e das lembranças dela. Da Joana, mais enviava do que recebia cartas. Numa dessas missivas apelou cobrando uma data para o casamento, pois percebia que ela se distanciava pelo teor do texto. Continuou insistindo, já duvidando que o casamento se concretizasse, mas surpreendentemente ela respondeu e até marcou uma data. Nas férias seguintes, em julho, exatamente no dia 10, Dia de São Tomé, retornaria para casar na capelinha do lugar e depois, faria uma festa na sede da fazenda. Que isso comunicaria seu pai e, caso ele fosse contra, casaria da mesma forma. Cid beijou a carta e saiu pulando de alegria. Comunicou a notícia aos amigos e parentes e tratou de fazer sua parte, contatando com o padre, arrumando padrinhos, alugando a roupa, etc. Fazia uma contagem regressiva imaginando a cena: Joana chegando numa carruagem, linda, vestida de branco e um arranjo de flor de laranjeira na cabeça. Os dias foram passando e o 10 de julho finalmente chegou. À porta do pequeno templo religioso reluzia o cabelo do Cid. O coração parecia que ia sair do peito de tanta ansiedade. Ficou na ponta dos pés para espiar a curva da pequena estradinha. A carruagem que não vinha. “Noiva sempre chega atrasada. Isso é normal”, pensava. Uma nuvem de poeira surgiu no horizonte. Não era a carruagem, tão esperada por todos. Alguém vinha a cavalo, a galope. Esbarrou em algumas pessoas, desceu rapidamente correu em direção ao Cid, colocou a mão no bolso e entregou uma carta: “Meu querido Cid. Sinto muito por fazê-lo sofrer. O pai, como sabes, não quer nosso casamento. Estou indo terminar os estudos na França. Quem sabe um dia eu volte. Quem sabe! Como não tenho essa certeza disso, encontre seu caminho. alguém por aí. Procure ser feliz. Perdão. Te amo! Joana”. Cid leu a carta e olhou para curva da estrada e tudo ficou escuro

Todos os dias ao entardecer os sinos da capelinha dobram e uma pedra resta só.

Luiz Carlos Martini

 

 

Luiz Poeta

Rio de Janeiro RJ Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/luizpoeta.htm

DESIGNER DE POETA

Luiz Poeta

 

Luiz Gilberto de Barros – às 8 h e 32 min do dia 1° de abril de 2015 do Rio de Janeiro

Para todas as webdesigners que abençoam, todos os dias, a vida de cada escritor.

 

Tu que fazes poesias com as cores,

Com as formas, com desenhos, com imagens,

Pões as músicas, inventas maquiagens

Tu que trazes seduções, sonhos, amores...

Tu que levas o leitor à fantasia

E que crias um enredo atraente

Para que ele se dilua no que sente,

Quando a vida é tão carente de poesia...

Torno tua, minha doce reverência,

Torno minha, tua linda consciência

De que a arte só se torna mais completa

Quando um verso ganha forma e movimento

Pois alguém, com tua alma e sentimento,

Se dilui nos sentimentos de um poeta.

 

***

 

AZUIS

 

Luiz Poeta - Luiz Gilberto de Barros – às 10 h e 27 min do dia 25 de abril de 2010 do Rio de Janeiro – Texto premiado pela União Brasileira de Escritores em 2010,

ditado por Deus às 4 h da manhã.

Elas estavam nos lados opostos da rua.

Uma chamava-se Ruth; a outra, Carolina. Precisavam de um nome, entretanto a espontânea maneira como se miravam à distância de uns vinte metros dava-lhes uma especial identidade.

Não havia semáforos e os carros eram mecanicamente vorazes, mas as duas ignoravam suas velocidades: fitavam-se alheias aos flashes de cada veículo a oitenta quilômetros horários sobre a sedutora e lisa excitação do asfalto.

Os sorrisos tornaram-se reciprocamente simultâneos. O de oitenta e cinco anos nunca fora tão inocente; o de três, tão ávido. Eram, ambos, uma agradável e afetuosa conversa sem palavras.

Ruth sorria para um nebuloso tempo do seu passado; Carolina, para um futuro longínquo, ambas magnetizadas pelo inusitado brilho de dois olhares profundamente azuis... azuladamente felizes.

Num átimo, depois que os dois últimos carros cruzaram-se, não titubearam: atravessaram logo a rua. Uma, vagarosamente apoiada na expressiva nudez de uma bengala de madeira; a outra, aos pulinhos, solta sob o vento realçando os movimentos do vestidinho rosa.

Encontraram-se quase no meio da estrada, sob os implacáveis raios de sol do mês de dezembro... afinal, precisavam de uma data para celebrar aquele momento pleno de embevecimento e excitação.

Não se conheciam, porém não havia necessidade de apresentação; os sorrisos cumprimentavam-se desde a primeira troca de olhares.

Pararam uma frente a outra, numa serenidade contemplativa de cujos azuis emanavam eternidades.

A menininha alongou a frágil mãozinha, puxando carinhosamente a idosa para o lado de onde viera. Era um retorno marcado por cuidadosa precaução, numa silenciosa e lírica perenidade de passos calculados.

Findo o trajeto, num quase derradeiro sorriso de felicidade, retribuído por outro de agradecimento, Carolina simulou retornar.

A velhinha comprimiu sua mãozinha com suavidade, como que pedindo mudamente que aguardasse. A seguir, abriu uma antiga e rota bolsa que levava consigo, retirou dela uma frágil bonequinha de pano e entregou-a à menina.

O êxtase durou o tempo do embevecimento que eternizaria aquele sublime instante.

A inefável fisionomia de Carolina congregava todos os risos num único sorriso imediatamente correspondido.

Em reverência àquele lírico momento marcado pela leveza de gestos, os carros foram parando... um... a um... para que a menina de três anos avançasse levando, nos seus momentos mais azuis, a realização de um sonho tão grandioso e necessário como a sua aparentemente menor e mais expressiva atitude.

Carolina voava como um passarinho e nem o calor do asfalto incomodava a maciez dos seus pezinhos descalços.

Na mão, a bonequinha de pano parecia dizer adeus à úmida lágrima de Ruth, que deslizava afetuosa sobre o melhor dos seus silêncios e o mais sublime dos seus melhores sorrisos... eternamente...azuis.

Luiz Poeta

 

 

Luzia Stella D. C. de Souza e Mello

Ribeirão Preto, São Paulo - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_l/Luzia_Stella_Mello.htm

 

A NATUREZA DO AMOR

 

Amor, sentimento Universal, força motriz do nosso planeta: Amor Criação, a movimentar as galáxias no universo imensurável!

Essa é a chama que mantemos no nosso íntimo, a que nos aquece a alma, que nos mantém vivos no ambiente que nos circunda, esse paraíso ecológico com sua flora e fauna riquíssimas. Tudo feito na maior perfeição para que o homem evoluísse materialmente com a força interior que lhe foi dada para interagir como co-criador, adaptando o seu meio para viver melhor, dando continuidade à obra que lhe foi posta nas mãos.

O homem e a natureza! Assim foi o começo.

E o homem criou uma diversidade de coisas, e entre as coisas que o cercam divisou a Arte, esta que encontramos por toda parte, servindo de estímulo, incentivadora do ser humano a buscar o seu próprio aperfeiçoamento, servindo para seu deleite, suscitando a inspiração, uma subida energética em busca de coisas mais elevadas. A natureza nos deu os sons, os movimentos, as cores, as formas. O homem, seguindo esses exemplos, captou os sons e os interpretou através de sua criatividade, deu-lhes uma escrita própria para que pudesse ser repetida por outras pessoas. A música tornou-se um patrimônio do ser humano, essa forma mágica de expressão, essa força criadora de movimentos, de sentimentos, de devaneio.... De Amor! Um sentimento profundo de beleza, sensibilidade, que a melodia espalha em toda volta... Porém, nem todas são doces, calmas ou amenas. E isso, sentimos quando executadas. Outras são mais agitadas, incentivando à luta, ao trabalho... Falando de maneira corriqueira, há música para todo gosto e hora.

Porém, para se falar em Amor existe aquela especial, que nos embala, que nos acaricia como uma pétala de flor, que nos põe um sorriso nos lábios e uma luz nos olhos. Somente sentindo podemos nos inebriar, vibrando, deixando que esses sons harmoniosos penetrem no mais íntimo do nosso ser. Por certo em um mundo divinizado, invisível, foi concebida... Foi vislumbrada....

De alguma estrela celeste o autor colheu tal Luz!

Uma harmonização perfeita une os instrumentos musicais, cordas e metais, de tal maneira sublime, enchendo nosso peito de amor, de encantamento, de alegria!

Poderíamos dizer que toda ternura e sensibilidade que nos invade é uma coisa indefinível. É como se uma janela imensa se abrisse para esse lugar cheio de bons fluidos, sugerindo romances eternos! Há grande harmonia!

Maravilhosa inspiração enche-nos o peito de uma alegria intensa! Essa beleza esplêndida, sutil, de felicidade eterna!

São bênçãos sublimes tais inspirações sensíveis, Um refrigério para a nossa alma tão sedenta de Paz!

A música quando calma e elevada transporta-nos aos páramos divinos. Através dela oramos, adoramos a natureza com toda sua beleza, seu perfume silvestre, os sons maviosos dos pássaros, das folhagens, do marulhar das águas... Mesmo no silêncio maior presenciamos a vibração natural da vida!

É nesse silenciar nosso que percebemos a grandeza do Amor que tudo criou, e aprendemos que tudo podemos dentro desse Amor!

 

 

SER POETA

Luzia Stella D. C. de Souza e Mello

 

Fim de tarde!... Serena... Parada... Harmonia cândida

Como o apagar de alguma chama,

Como a esperar a magnânima mão celeste recolher o sol,

Que incendiando o céu qual um farol imenso, ainda arde a iluminar a mata,

Até que, em seu lugar, bem alta, rodeada de estrelas, coroada,

Ela aparece, encantadora e fria como uma noiva com seu véu de prata,

Enchendo o céu de doce magia!...

A lua... Bela inspiradora dos poetas, a bela adormecida, agora desperta,

Deixa a redoma onde era reclusa e vem encantadora, a doce musa,

Banhar as almas dos enamorados!... Oh, divinal visão!!!

Que enche nossos olhos com a ilusão do sonhador, que almeja, em vão,

Reter-lhe o brilho, belo e fulgurante, para banhar o rosto da amante...

Sob o mágico clarão da feiticeira, espalha a sua palidez por uma noite inteira...

Fulgurante enlevo que nos leva crentes no poder de palmilhar esse caminho

E o nosso sonho ver concretizar...

Saber que, à sua luz pode-se amar, e viver de esperança a vida inteira...

E aqui estou delineando versos, porque a inspiração vem do universo,

Que sussurra e explode como sinfonia, em sons maravilhosos

recolhidos por todos os sonhadores...

Esses espíritos de Menestrel ou Trovador enamorado

Que vive da luz que vem da natureza...

Ah!.... Tudo isso é mais que amar!...

Fazer versos é fantasiar o sofrer, é simplesmente se deixar viver....

É transcender como a própria natureza!

Absorver todo o éter e expirar a beleza...

Seja coberta de lágrimas ou num sorrir discreto

Que os lábios exibem entreabertos como flores nesse jardim incerto...

É saber que a palavra é viva, emotiva, saudosa, caprichosa, sensitiva...

É o alimento dos seres sonhadores que mostram a todos num buquê de flores

A beleza da alma, independente das dores!!!

 

 

Guida Linhares

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_g/Guida_Linhares.htm

 

A VIDA CONTINUA...

 

Somos navegantes do mundo,

e portanto sujeitos às marés da vida.

Lidar com as perdas sempre se torna

algo que não se espera

e de repente elas acontecem.

Existem as perdas em vida,

seja no terreno da afetividade,

ou mesmo as de ordem material,

embora sempre exista uma certa relatividade,

num desafio à sua recuperação.

Passamos por certas frustrações,

por não vermos realizados alguns anseios,

assim como tantas vezes se luta por algo,

e depois de alcançado se percebe

que foi uma conquista ilusória.

A vida tem muitos vieses,

e talvez cada um de nós aprenda,

conforme os erros e acertos,

a lidar com as circunstâncias,

da melhor maneira que se possa.

Se a morte de um ente querido,

nos tira do prumo, pela saudade,

temos que ter em mente,

que nascimento e morte

são verdades absolutas.

Contudo, a vida continua

e temos de ser fortes guerreiros,

empunhando a espada da Paz e do Amor,

para que o brilho do nosso coração,

se estenda até onde estiver o outro!

 

 

Maria da Conceição Rodrigues Moreira (MARIA MOREIRA)

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIA_MOREIRA.htm

 

Confissões

 

Confissões de pecados

Confissões de adolescentes

Confissões sem hora marcada

São puras confissões pertinentes.

Confesso que nada sei

Nem sob torturas nada além direi

Nada fiz

Nada desejei

Nada me tocou

Não vim para ser questionada!

Confesso com a alma limpa

Confissão forçada já aguentei

Confissão arrancada sem nada

Não fui eu que delatei!

Confesso ao padre, que nada sabe

Que quem confessa quer o perdão

Não pode ser tão pouco usada

Para diminuir a pena aplicada

Ou para dar a salvação.

Confesso de cara lavada

Sem remorsos sem compaixão

Dou o meu peso, faço o outro culpado

Quero ver todos nesta prisão

Confesso um amor que não é verdade

Confesso sem piedade!

Se for por justiça confesso tudo

Confesso o meu amor pela arte

Para minha redenção.

 

 

Maria de Lourdes Scottini Heiden

Blumenau - SC - Brasil

 

IDENTIDADE

 

Minha identidade

Não me identifica.

Não sou um número.

Meu CPF não me representa

Pessoa física?

Sou pessoa humana

E não me encaixo no sistema.

Há que requerer

A leitura do que sou

No banco do infinito

Que registra

Comprova

O que sou sem faturas

Sem tarifas

Sem documentos.

 

***

 

DOR

- Não, não vai doer nada.

Desconfie dessas palavras. Não são reais. Principalmente, se pronunciadas, por um dentista, ou médico. O fato é que a dor, companheira inseparável do homem, segue sua trajetória impondo sua força e seu poder.

O homem julgava que a ciência fosse capaz de desvendar os mistérios da dor e mantê-la subjugada... em vão. Drogas e drogas são inventadas para combatê-la, Parece que a miserável sabe por onde atacar, pois resiste e encontra novas formas de torturar o homem.

Doenças desconhecidas, vírus, bactérias, males mil... eis suas múltiplas faces. E se isso não bastasse, ainda podemos citar os acidentes, os traumas e a dor psicológica ou a dor da alma.

Ah, como dói! Ah, como tenho medo da dor. Ela me intimida, me assusta e me faz sentir toda a pequenez humana.

Como há dor e sofrimento no mundo! Pessoas cujas vidas são momentos intensos e intermináveis de dor. Vivem na esperança da cura, Agarram-se a qualquer coisa que lhes dê, ainda que vaga, a ilusão, a possibilidade de alívio. Alívio que não vem.

Tenho medo da dor. Gostaria de não senti-la, Sou fraca diante de seus tentáculos. E não me interessa o que dizem as mil e uma filosofias tentando me convencer de que a dor é importante, pois através dela ocorre a catarse.

Que me importa! Eu quero viver sem dor. Eu quero libertar-me de suas amarras e dominá-la.

Eu sei que muita gente sofreu as piores dores para dar ao mundo um pouco de esperança e de paz.

Eu sei que Jesus sofreu horrores naquela cruz... mas eu tenho medo da dor. Sou covarde diante dela. .

Eu sei que para tudo há sofrimento, mas eu... prefiro não sentir.

Deixo a dor para os corajosos...

Alguém quer encarar?

Maria de Lourdes Scottini Heiden

 

 

Maria João Brito de Sousa

Portugal

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Joao_Brito_de_Sousa.htm

 

Dissecação de um conceito de...

 

A criatividade – aquela que nos nasce das constantes colisões com as imprevisibilidades do espaço e do tempo, não a que nos surge mercantilisticamente formatada pelas chamadas “necessidades de mercado” - nunca fui muito amiga das burocracias, nem dos caminhos traçados por outrém... esmagam-na as imposições, viola-no-la e inutiliza-no-la a rigidez dos protocolos. Mas engendra(se). Sempre.

Venho de uma geração que sempre privilegiou o utilitário, sem nunca ter deixado que lhe fossem arrancadas as raízes primordiais do sonho e do espanto. A “fornada” exactamente necessária àquele tempo, neste espaço. Sou uma peçazinha inata e claramente nascida para a produção ao nível das artes e das ciências a quem, porém, uma vez enredada na teia social, acabaram por ficar vedadas todas formas de se realizar ou de preencher, com o seu trabalho, os muitos, os infindáveis – e desejáveis... - espaços vazios do sempre crescente e ondulante tecido criativo. Não me queixo.

Constato. E aproveito para, agora que em verdade posso dizer que me é muito difícil ter força para agir e espantosamente fácil encontrar um sentido para a acção, tentar cumprir, no pouco tempo que me resta, o que poderia ter sido cumprido ao longo de um percurso de vida.

Obra? É isto. Este espaço chamado erro que medeia entre o que já fizémos e aquilo que poderíamos ter feito.

 

***

 

É um poema composto por três décimas;

 

VINTAGE

 

Lanço um manto aveludado

sobre uns ombros que entardecem...

São outras, as mãos que o tecem,

pois foi-me o manto emprestado

já pronto pr`a ser usado

pelos homens que envelhecem

mal os anos lhes comecem

a dar um dorso curvado,

mesmo que, ao vê-lo aprumado,

veja, eu, mil que o desconhecem,

E vai-me a noite tombando

sobre a tarde desta vida

que se erguera amanhecida

do leito em que alguém, sonhando,

me tecera um manto brando

pr`a cobrir-me na partida

da mesma humana corrida

que agora vou relatando

e sei estar-se aproximando

de estar gasta e percorrida...

Factos, sim! Não pressupostos,

nem nostalgias banais,

que eu, bem como os meus iguais,

nunca fui dada a desgostos

e mantenho os olhos postos

nos grandes dramas sociais,

relevando os pessoais

das rugas dos nossos rostos

porque... uvas f`ridas são mostos

dos néctars que agradam mais!

 

 

Maria José Zanini Tauil

Rio de Janeiro-RJ- Brasil

 

DO PRODUTOR AO CONSUMIDOR

 

Poemas são palpáveis

Frutos redondos e maduros

Que escorrem pelos dedos

E nas palavras ganham sentido

Como polpa suculenta

Inexplicáveis poemas

Que saltam ondulantes

Indizíveis, muitas vezes

Mas que o poeta

Não se envergonha em dizer

Minuciosamente calculados

Sem métrica, sem ritmo,

Sem rimas...

A sua prova é somente

Aquilo que o leitor sente

Poemas não são feitos

Só para o delírio do autor

Eles são, na verdade

Gestos nascidos na solidão

À procura de comunhão

 

***

 

MARIAS DE MIM

 

Quantas Marias querendo falar dentro de mim! É um mulherio tagarela e afoito, na busca de calmaria, da maturidade. Afinal, a serenidade, que julguei conquistada, numa delas se esconde. Ela traz-me conforto, mas me escapa quando dela preciso. Existe aquela Maria controladora de ímpetos, que desenrola, experiente, minúcias cotidianas. Existe a Maria que manuseia a aridez sentimental com versos e mais versos, de deleite e prazer.

Gosto mesmo é daquela Maria, a que despenca em vertigens e se entrega ao amor feito canoa no mar. Ela conhece o nirvana, o estado sublime de lançar-se ao espaço, só para comprovar que a terra é redonda. Esta Maria pula de avião e não tem medo de ficar carimbada de hematomas. Para essa Maria, vale a pena o Ímpeto voraz de viver.

Maria José Zanini Tauil

 

 

Maria Mendes Corrêa

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIA_MENDES_CORREA.htm

 

Virgem Maria

 

Simplesmente Maria

É a mãe de Jesus

Seu amor é divino

É cheio de luz.

Ela nos acompanha

Na alegria e na dor

E com isto nos mostra

O seu grande amor.

Como mãe é exemplo

De amor e de luz

Ao ver o seu filho

Pregado na cruz.

Uma dor tão imensa

Ela sofreu por nós

E o sangue de Cristo

Não calou sua voz.

Ela hoje nos fala

Através de sinais

Com visões e aparições

Que são sempre mais.

Oh, mundo, escute

A voz suave de Maria

Ela sempre nos fala

Quer ser nosso guia.

Quem sabe, um dia

Maria conseguirá

Com suas aparições

O mundo transformar.

Neste dia os homens

Vão então todos crer

Em Deus, Jesus e Maria

E vão parar de sofrer.

Esperamos que este dia

Não tarde muito a vir

E enquanto isso, Maria

Apareça sempre por aqui.

 

 

Maria Tomasia

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Tomasia.htm

 

AMOR ADOLESCENTE

 

Ela só tinha quatorze anos e acabara de se mudar para a sua cidade natal, de onde havia saído ainda criança.

Nos primeiros dias após a sua chegada, tudo lhe parecia estranho, pois, ela vinha de um lugarejo onde todos se conheciam e só tinha amigas da sua idade ou pouco mais velhas.

Ainda brincava de pique esconde, de roda, de biscoitinho queimado e no mês de maio acompanhava a menina que coroava Nossa Senhora, vestida de branco, usando grinalda, para, após a coroação, jogar pétalas de rosas na santa.

Ao chegar à cidade conheceu algumas primas em segundo grau, bem mais velhas, moças feitas que já namoravam.

Ela era muito humilde e, por não possuir boas roupas, aquelas primas combinaram não a convidar para passear aos Domingos ou mesmo para ir ao cinema. Quando soube disso, entristeceu, chorou, silenciando-se.

Decorrido algum tempo, uma das primas - a mais esperta - brigou com a outra, da mesma idade, e esta resolveu se aproximar da mal vestida, tornando-se grandes amigas. Elas não se largavam: estavam sempre juntas; casaram-se, tiveram filhos, envelheceram, mas são amigas até hoje.

Logo ela conseguiria um dos empregos mais cobiçados por todas as moças da cidade, numa famosa universidade.

Foi felicidade demais! A inveja se espalhou, porém, não atrapalhou!

A prima tinha como colega um rapaz bonito, de olhos verdes. Ao vê-las juntas quis saber de quem se tratava pedindo à colega que lhe fizesse as apresentações. Assim o fez! Foi amor à primeira vista! Os dois começaram a namorar, se apaixonaram e vivenciaram o verdadeiro amor adolescente.

Aos Domingos, vestiam-se com esmero para irem ao cinema e o seu namorado um autêntico cavalheiro, já comprara as entradas sem que precisassem entrar na fila.

Apagadas as luzes, os dois ficavam de mãos dadas e tocavam inocentes beijos.

Cada tema de um filme que viam juntos passava a fazer parte do namoro, mas, quando entrou em cartaz o filme Suplício de uma Saudade, sua música-tema marcou para sempre a história desse namoro.

Tudo ia bem. O rapaz passava próximo da casa onde ela morava, assoviando o tema do filme e ela corria para a janela para vê-lo. À noitinha se encontravam numa ponte próxima onde corria um riacho.

Era um lindo amor!

Um dia, o pai da menina resolveu proibir esse namoro. Sob ameaça de espancamento e morte, a menina só o via às escondidas. Certo Domingo o pai anunciou que iria pescar e os jovens enamorados marcaram encontro nos jardins da universidade.

Voltando para casa, lado a lado. Foram vistos. O pai ao vê-los, atravessou o canteiro que separava os dois lados da rua e, sem nada dizer, deu-lhe uma surra, jogando-a sobre os paralelepípedos e lhe ameaçando de morte.

Foi uma confusão danada! O povo se revoltou com aquele pai; a polícia tentou prendê-lo, mas ele fugiu para outra cidade.

Não sabendo dessa fuga, ela foi se esconder na casa da prima e melhor amiga. Morta de medo alojou-se num depósito de carvão. Passou a noite em claro temerosa de que seu pai viesse buscá-la e a matasse. Foi um horror!

No dia seguinte foi convidada a comparecer ao gabinete do Juiz de Direito, seu amigo, para narrar o ocorrido, porém, nada se podia fazer.

E nada foi feito!

Cerceados pela estupidez de um pai, os jovens tiveram que se separar.

Decorridos alguns anos, o rapaz se casou com outra e a menina mudou-se com sua família para a cidade grande. Muitos anos se passaram. Muitos anos depois procurou saber notícias do seu primeiro amor sendo informada de que ele havia morrido.

 

***

 

SEI QUE SOU ... SEI QUE POSSO

 

Sei que posso dançar na claridade da lua, ​

levantar voo e contornar o universo.

Sei que um dia ainda poderei ser tua

e como poeta dedicar-te este verso.​

Sei que um dia eu vou ser muito feliz,

após descansar na sombra do vento;

isso é o que e o que meu coração diz.

Sei que tu és o meu eterno alento.

Sei que sou alegre e plena de fé na vida

e que ainda viverei um grande amor;

nos teus fortes braços acharei guarida.

Sei que sou aquela ingênua menina-flor

que em tudo e em todos acredita,

como sei que posso amar com muito ardor.

 

 

Mario Rezende

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/MARIO_REZENDE.htm

GOTAS DE CARINHO

 

Pérola dos meus sonhos,

uma mulher tão bonita

enfeita a minha imaginação.

Como encanto, o encontro,

no tempo do sonhos,

corações em conluio

passeando enlaçados

pelos jardins dos amores

colhendo sorrisos;

suspiros de algodão;

chuva de pétalas multicores;

lágrimas de felicidade,

como essência de flores.

Gotas de carinho

em cada toque...

Em cada beijo...

cupidinosos.

Na vigília, graciosa lembrança

alimenta a esperança.

 

***

 

OBSESSÃO

 

Severino era apaixonado por Gerusa. Uma fixação que o impedia de ter interesse em qualquer outra mulher. Ele sempre a observava: quando ia e voltava da escola, quando ia à igreja com o pai, aos domingos, rezar pela alma da mãe morta, tísica. Ela era filha única e ficou com a responsabilidade de cuidar da casa. Ele sempre dava um jeito de estar bem próximo dela. Gostava de sentir seu cheiro, de ouvir a sua voz, apesar de ela nunca ter falado com ele e nem ter certeza se algum dia ela o havia notado. Mas Severino era persistente e sabia esperar, ainda tinha muita vida pela frente. A oportunidade de concretizar a aproximação aconteceu quando, num dia em que ela voltava da escola, deixou cair um caderno e ele, ágil como um cão, alcançou-o antes dela e, com toda a delicadeza, entregou-lhe o objeto, fixando o olhar aos seus olhos. Ela deu-lhe um sorriso tímido em agradecimento, ao tempo que lhe dizia um quase inaudível obrigado e afastou-se rapidamente. O seu coração apaixonado encheu-se de esperança, alimentado por cruel ilusão.

Certo dia, na esperança de nova aproximação, juntou os poucos trocados de que dispunha e comprou um presente para ela: um lindo buquê com três rosas vermelhas muito perfumadas. Ela precisava saber do seu amor. Eles eram tímidos, e se ele não tomasse a iniciativa jamais viveriam seu sonhado romance. Foi o que fez no início daquela tarde de sol quente, depois que ela deixou a escola e virou a esquina em direção à sua casa, na rua vazia, sonolenta e poeirenta do sertão. Ele aproximou-se, entregou-lhe o presente e comunicou o seu amor. Ela assustou-se e disse-lhe que era louco, que tirasse a ideia da cabeça, afinal nem sabia quem ele era. Uma única vez ela lembrava-se de tê-lo visto: no dia em que ele lhe entregou o caderno que deixara cair. Disse-lhe que estava muito enganado e que jamais pensaria em namorá-lo.

Nem depois do inesperado passa-fora ele deixou de amá-la e, um dia, à porta da igreja, ele a ouviu falar para o pai:

“Aquele rapaz feio que está ali junto à porta, com cara de cachorro, está me perseguindo. Eu tenho medo dele.”

Jamais ele pensaria em ouvir, da boca de quem tanto amava, aquelas palavras tão cruéis. Serviu-lhe, entretanto, para dar à sua vida um novo rumo. Cachorro, era isso que ele seria a partir de então.

Severino passou a ser visto perambulando pelas redondezas com um bando de cachorros vadios que viviam em cavernas escavadas nos morros fora do povoado para se abrigar das intempéries. Invadiam os sítios durante as noites para atacar os galinheiros. Era um bando grande, mais de uma dezena de cães, que tinham se afastado dos seus antigos donos por falta do que comer e o instinto de sobrevivência fê-los voltar à selvageria.

Contam que Severino não só vivia com os cães, também agia como eles. Diziam que andava de quatro e os acompanhava no assalto aos sítios e que, não poucas vezes, o viram lá por onde viviam, disputando as cadelas no cio, até latia e gania, completamente integrado àquela vida animal.

O bando, silencioso, por diversas vezes foi visto, durante as madrugadas, em frente ao portão da casa de Gerusa. Como os sitiantes começaram a usar mais rigor na vigilância de suas criações, eles passaram a buscar, também, os animais maiores para aplacar a fome e já estavam atacando pessoas.

Curiosamente, todos os rapazes que, por qualquer motivo, aproximavam-se de Gerusa eram, depois, encontrados com o corpo dilacerado, vítimas dos cães. Por conta disso, todos passaram a afastar-se dela, receosos. Diziam que ela estava amaldiçoada, que era uma bruxa e atraía os cães para quem se aproximasse dela. Vivia em semirreclusão. Deixou de ir à escola e chegou a ser apedrejada e quase linchada quando o seu próprio pai foi atacado e morto pelos cães. Seu corpo foi encontrado numa estradinha perto do sítio em que moravam com as vísceras expostas e um buraco bem grande no abdome, serviu de banquete para a matilha.

Certa manhã, sua casa foi encontrada toda aberta e abandonada. Ela desapareceu. Depois disso os animais não voltaram ao povoado e o grupo quase extinguiu. Alguns anos depois restavam poucos deles que ainda eram vistos, às vezes, acompanhados de um homem e uma mulher com duas crianças, todos de hábitos caninos.

Mario Rezende

 

 

Marisa Schmidt

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Marisa_Schmidt.htm

 

CHUVISCO

 

Tempo passa, passatempo

chuva cai em modo lento

coração em fogo brando

cria fumaça e brumas

chuvisco é tênue espuma

se desmanchando na areia

Passa o tempo neste dia

no ritmo da melancolia

no compasso da lembrança

enquanto o escuro avança

no jardim molhado e sem lua

uma flor noturna insinua

o perfume de um velho poema.

Noite chuvosa sempre é tema

de misteriosa volta ao passado

numa viagem estática e silenciosa

cujo trem é a alma ociosa,

a saudade solitária passageira

tendo por paisagem a vida inteira...

 

 

Nadilce Beatriz Zanata

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_n/NADILCE_BEATRIZ.htm

 

PARA AONDE IR

 

Há sonhos que parecem que nascem do meio do outono

Outros só acordam em setembro

Há outros ainda, e tantos

Que esperam dezembro

Mas os meus são medonhos

Estão sempre sonhando

Em qualquer pesadelo

Há caminhos que fogem levando todos os espaços

Outros gostam de dias frios

Há tantos vivendo a fugir

Que acabam descendo os rios

Mas os meus são bons vizinhos

Estão sempre caminhando

Em qualquer meio fio

Há dias que acontecem por um acaso do entardecer

Outros raiam como nubentes

Há outros enfeitados de nuvens

Que fingem-se ausentes

Mas os meus degustam mitologias

Anseiam diariamente

Sempre a mais criações

Há pessoas que aguardam um olhar, um abraço, algum quê...

Outras encontram o tempo perdido

Há outras que querem perder tudo

Mesmo esquecendo um pedido

Mas eu, ando das popas à proas

Estou sempre pessoalmente

 

 

UM VAZIO...

Ógui Lourenço Mauri

 

Um vazio põe além do horizonte

Um querer que à distância se lança,

Pois a ânsia que o barco desponte

Jacta o falso sabor da esperança.

 

Eu bem sei, não mudou a janela,

Mas o barco de longe não vem.

A saudade a meu peito se atrela

E a vontade do beijo também!

 

É verdade que após as tormentas

O mar calmo se faz tão presente,

Como é certo que as nuvens cinzentas

Põem o Sol a brilhar novamente.

 

Por aqui, vejo a chuva caindo.

Logo mais, chega a luz desde o leste

A mostrar todo o azul do céu lindo;

Um desenho de Deus, inconteste!

 

Pensamento vai longe, de vez!

Traz, enfim, esse barco; reitero!

Penso até que meu porto, talvez,

Não comporte o navio que eu espero.

 

Catanduva (SP) - Brasil, 01/02/2015.

Ógui Lourenço Mauri

 

 

Odenir Ferro

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_o/ODENIR_FERRO.htm

 

O VOO DA LIBERDADE

 

Num panorâmico movimento cinematográfico

Produzido pelas objetivas lentes mágicas

Num rápido efeito cheio de abafados sons

Estagnados, no espelho da difusa ação

Traçada como desenho de luz e sombras

No Fórum, através do extenso envidraçado

Bem no alto, na janela do Salão do Júri,

Projetando-se contra o vidro refrangido,

Presenciei, sentado numa das cadeiras,

Uma pitoresca ação pela sobrevivência,

Que Minh ‘alma filmou em Preto&branco!

A cena foi dum astuto gatinho em ação,

Tão gatuno, correndo ligeiro, parando,

Içando suas garras, mirando suas patas

Afiando os babados beiços pra pombinha

Que, tão desprotegida e quase indefesa,

Arrulhava numa paz, toda cheia de igualdade

Olhando o guarido azul infindo da cidade...

O gatinho todo esperto, içando o ágil corpo

Investiu suas patas e garras contra a pomba

Que, mui esperta, antes do certeiro golpe,

Fugiu mergulhando na imensidão azul do ar,

Alçando uma bela, brejeira, pomposa queda!

Imponente, bateu num voo imenso, suas asas

Encontrando a força, que rege a liberdade...

... Ficou remoendo-se impotente, o gatinho

Ante sua incapacidade deprimente e triste

Por não poder prender entre suas ágeis garras

Aquela, que por instinto, fora a sua doce presa

Onde até então aparentava ser uma invencibilidade!

 

***

 

HÁ AS LÁGRIMAS DO RISO E AS DO CHORO

 

Vivo em constantes pensamentos. E entre um e outro vou formando ou reformulando algumas ideias. Portanto, posso agora, transcrever o artigo que se segue, dizendo isto por mim – e também, é claro, pelas muitas expressões humanas – estampada nos rostos que já tive o prazer de vê-los – sejam através dos meus ciclos de amizades, ou de pessoas alheias que porventura transitam ou transitaram por mim, ou em fotos, filmes, televisão – enfim, nós seres humanos estamos constantemente expostos em todos os lugares – a nossa imagem é a que conta: ela vai sempre avante, além de nós, além até de onde possa a nossa imaginação alcança-la. Então, assim sendo, posso reafirmar que ao longo da minha existência contracenei a mesma com pessoas identificadas por rostos – todos eles desiguais – ninguém é igual a ninguém – somos únicos, entrelaçando os nossos universos pessoais com universos outros que denominamos de pessoas. Pessoas que são únicas, cada qual com um rosto exposto ao mundo, como uma das muitas patentes marcas de existência que temos e mantemos pela vida afora.

As nossas emoções, embora sejam prazerosas às vezes, se tornam excessivamente deprimentes, comoventes até, em outros momentos. Nossas emoções são muito complexas de lidarmos com elas – penso mesmo, que é muito difícil até, de se lidar ou de se administras os nossos comportamentos, se permitirmos que somente as nossas emoções ajam sobre eles.

A lógica existencial depende do nosso equilíbrio – e este equilíbrio, para que se estabeleçam harmoniosos em nosso mundo interior, não depende exclusivamente apenas, das nossas ações.

- Numa atitude simples de por os meus óculos, ao sair, para observar a noite escura do céu, pude notar o gratificante brilho que vêm até nós, através das estrelas que nos apresentam-se como se estivessem equidistantes de nós – embora saibamos que não. A natureza divinal é mesmo, muito pródiga. Muitas das estrelas que observamos cintilando-se na escuridão do céu, já se apagaram a muitos e muitos anos passados. Quando olhamos para o céu noturno, presenciamos o nosso passado.

- Sou míope. Graças aos meus óculos, pude rever o brilho das estrelas. Isto me deixou feliz. São momentos como estes – simples assim – que me causam uma satisfação imensa. E muitas vezes, até me leva a um estágio de riso interior ou explícito. Uma alegria de saber que estou plenamente acompanhado por pessoas à minha volta – e também, pela Natureza que nos cerca e nos envolve: por dentro e por fora.

Costumo conviver com um alheamento a tudo, às vezes. Nas vezes outras, vivo sintonizado – plugado mesmo, com o mundo que me acolhe e me da guarida e subsistência para vivê-lo, saboreando das suas terras, das suas águas, podendo explorá-lo, alimentando o meu corpo e alma, através das muitas energias que recebo dele. Tudo isto, eu transformo em significativos símbolos – através dos quais, eu vivo explorando-os por dentro e por fora de mim, expressando e exprimindo-me, através das lágrimas dos meus risos e também das lágrimas das minhas dores.

Ambas me fazem crer – cada qual no seu devido tempo, dentro dos seus estágios pelos quais elas se manifestam em meu ser, estágios emocionais estes que quando são personificados em mim, dão-me uma carga energética a mais, impulsionando a vibrar a minha vida realidade condizente com as expressões que manifesto através delas, pois através delas eu vivo, eu me expando, compondo os meus melhores e mais sonoros ruídos humanos.

Nós, seres humanos, somos cheios de ruídos. E nós nos manifestamos, marcamos a nossa presença na Natureza – através deles; além de, é claro, de tudo o mais que nos compõe quando personalidades viventes que somos. Como comunicarmo-nos uns com os outros, através das muitas maneiras possíveis, por exemplo.

Mas, a força mais expressiva do nosso rosto, além do olhar, está concentrada através dos nossos gestos manifestos através dos nossos risos ou das nossas dores.

Risos que muitas vezes nos levam às lágrimas, por tanto rirmos. E quanto às dores, bem... Quanto às dores, quase sempre alcançamos as lágrimas. Choramos por dentro ou por fora, mas choramos. Quase sempre.

Somamo-nos através de um grande conjunto complexo, composto por muitas emoções. Sentimos e ressentimos. E refletimos...

Somos uma essência feita de muitos amores e ódios. Gritos de alegria, lágrimas causadas pelos dissabores dos desamores.

Rugimos de felicidade, estalamos os dentes nos nossos momentos de ira – reprimimo-nos condicional ou incondicionalmente, ou explodimo-nos espontaneamente, até às lagrimas. Manifestando-as através do amor ou do ódio. Através dos nossos contentamentos ou dos nossos ressentidos dissabores...

Assim somos nós. Assim caminhamos nós...

- Para onde, porque e até quando?! (...)

- Vamos, nós todos, sonhando, amando, odiando – rindo até as lágrimas de felicidade! Ou, chorando em copiosos prantos, as nossas dores...

 

Amores e cartas extraviadas

Por Patrícia Dantas

 

Cartas se perderam no tempo. Ninguém escreve mais cartas como antigamente. Se temos hoje como enviar uma mensagem que pode chegar ao destinatário no momento real do envio, como escrever cartas a alguém só para manter a tradição, o cheiro do papel tirado do envelope e a ansiedade da espera para logo obter uma resposta?

Já não podemos mais escrever no anonimato? Cadê àquelas cartas endereçadas, mas sem o nome do remetente? Cadê o escritor anônimo por trás de toda àquela trama, que nem Sherlock Holmes ou Aghata Christie desvendaria tão fácil? Tudo precisava de uma investigação a fundo da história de todos os envolvidos. Roteiros tão originais, dignos de filmes policiais que, ao final, emendaria outras tramas de intensa atividade dos sentidos.

Acontece assim também com nossos amores extraviados. Pessoas, relacionamentos esquecidos, ou deixados no meio do caminho. Coisas que caem no absurdo do esquecimento; pessoas que não necessitamos da presença em todas as horas, como se tivéssemos um time para chamá-las bem na hora das nossas consultas emocionais. Claro, há pessoas, amigos e amantes para horas e momentos específicos; pessoas que não exigem que todas as nossas horas sejam devotadas a elas; pessoas que entendem nossa solidão, nosso afastamento quando necessário; pessoas que entendem as nuances da solidão e quando tudo à volta está em festa e exige maior presença.

Mas existe outro meio que pede um olhar mais apurado e cuidadoso: são nossas palavras durante cada encontro, durante cada um momento de festa que nos encontramos com pessoas que talvez nem vejamos mais ou que se ausentarão sem maiores explicações. E esses encontros acontecem para nos mostrar o real valor da pessoa como pessoa-palavra, pessoa-afeto, pessoa-pessoa.

Que nossos amores e palavras não sejam extraviadas, que sobrevivam às menores lembranças. Porque um necessita do outro para não cair no esquecimento ou simplesmente dentro da saudade flutuante no tempo. Dizer, gravar a palavra no outro é o modo de viver um sentimento em tempo real, descrevê-lo e deixar algo na eternidade.

 

 

Policarpio Elcy Lopes Da Costa (Poeta Sonhador)

Brasil

 

CADA DIA RENASCEMOS!

 

Andando por essas vielas estreitas desta vida

As vezes é tropeçando que muitas vezes crescemos.

A noite nosso corpo adormece para o repouso;

Com novas esperanças cada dia renascemos...!

& * &

Renascemos como crianças que acreditam

Que o amanhã será sempre um dia melhor

Como adultos as vezes somos pessimistas;

Porque o que nos espera já sabemos de cor...!

& * &

Em cada esquina da vida por onde passamos

Sempre existe algo para a gente aprender.

É no perfume de uma bela flor mulher;

Que eu me sinto a cada dia renascer...!

& * &

Talvez eu nunca deixe de ser uma ingênua criança

Que alimentando um sonho deixou de crescer.

E que então carrega no peito uma esperança;

Que me ajuda a cada novo dia renascer...!

Policarpio Costa { Poeta Sonhador}

 

 

Raquel Gastaldi

Blumenau SC Brasil

 

SER AUSENTE

 

Na fuga do presente,

Fingindo um ser ausente,

calo.

Não vejo o homem

Contra a natureza.

Não vejo o homem

Contra o homem.

Não vejo guerras

Só a paz.

Não vejo o ódio

Só o perdão.

Não vejo o morrer

Só o nascer.

Não vejo nada...

Não ouço o som barulhento

Dos carros,

Só as cigarras, os pássaros.

Não ouço a voz que me difama,

Só a que me chama.

Não ouço a tempestade no mar,

Só a suave brisa passar.

Não ouço a criança chorar,

Só a brincar.

Não falo com ironia,

Só com alegria.

Não falo o mal,

Só o bem.

Não falo do submundo,

Só do mundo.

Não falo academicamente,

Só escrevo

Pura e simplesmente.

 

 

Regina Bertoccelli

São Paulo - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Regina_Bertoccelli.htm

SEPARAÇÃO

 

Sem ti, minh'alma vagueia

Pelos becos escuros da solidão.

É grande em meu peito a agonia,

Dói demais o meu coração.

Perdi o rumo, estou sem direção,

Foi embora toda a minha alegria.

Sem ti, minh'alma vagueia

Pelos becos escuros da solidão.

Volta amor, dá-me a tua poesia

Que cantarei pra ti uma canção.

Se o meu sorriso te contagia,

Não vaciles, põe fim à separação.

Sem ti, minh'alma vagueia...

 

 

Rita Rocha

Santo Antônio de Pádua - RJ - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rita_Rocha.htm

 

SEREI

 

A estrela que brilha o teu caminho

sinalizando-te com sorriso e felicidade

Juntinho de ti em nosso ninho

não deixarei que o amor vire saudade.

Brindemo-nos com uma taça de vinho

festejemos este amor, essa a verdade.

Abraçados a generosas doses de carinho.

tudo será sorriso beleza e suavidade...

Longe, bem longe não haverá espinho

Apenas bonança, amor e lealdade

somados a fortes doses de carinho...

Isso não depende em nada da idade.

Estaremos tão pertinho...

que nossa vida será total felicidade!

 

 

Rozelene Furtado de Lima

Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rozelene_Furtado_de_Lima.htm

 

Só mais uma vez

 

Prefiro ouvir a voz dos passarinhos

Embora eu não entenda as promessas

Sei que são palavras de amor e carinho

Usam o canto mavioso trinado sem pressa

Prefiro ouvir a voz sopradora do vento

Chega aos meus ouvidos em tom sibilante

É som marcado, corrido de secreto alento

Ele segreda avisos de proteção constante

Não quero escutar suas mentiras de amor

Sua voz macia, suave, doce e sedutora.

Apaixonada me entregava ao mel e ao calor

Dos ecoantes beijos em boca enganadora

Quero limpar da minha triste memória

O tempo que vivemos no mesmo caminhar

Desfrutei do seu amor, temos uma história

Nunca pensei que um dia ia querer olvidar

Vai, segue em busca de nova paixão

Com outro amor, aproveita sua vida

Continua com suas falsidades e ilusão

Deixa pelo seu caminho magoadas feridas

Realiza meu último desejo de insensatez

Quero uma grande e alucinante despedida.

Engana ao meu coração só mais uma vez

Quero esquecer não quero ser esquecida

 

***

 

O fantasma do Rei

 

Parabéns para você! A vizinha, já nos seus oitenta e nove anos, depois de assoprar tantas e todas as velinhas, distribuiu as fatias do bolo para a família e sentou-se na cadeira de balanço na varanda. Ela gostava de sentar-se ali nas noites quentes. Abria as janelas e observava os carros passarem na avenida. Um bisneto veio conversar com ela, ele tinha uns 11 anos. Vó deixa eu tirar uma foto com você e colando o rosto no dela – sorria vovó, falou ele. E a seguir mostrou a foto para a avó. Ao que ela respondeu:

- Não tem mais dificuldades para nada, é tanta novidade, que às vezes fica sem graça, sem emoção. Com vocês tudo acontece tão rápido, muito depressa!... Não dá nem tempo dos fantasmas aparecerem para saírem nos retratos.

- O que vó? Fantasmas, explica isso direito. Pergunta ele muito interessado deixando transparecer a curiosidade nos olhos arregalados.

- Nunca ouviu falar dos retratos do meu casamento?

- Não, conta, conta vó...

Encontrar um bom retratista na época em que me casei era muito difícil, eu tinha quinze anos, meu pai contratou um profissional que trabalhava numa cidade distante, ele era dono de uma máquina possante que tinha trazido do estrangeiro.

Um tempo em que tudo acontecia vagarosamente e num lento ritual. Eles tiravam os retratos com muito cuidado, levavam para revelar, depois traziam uma prova para o cliente escolher, demoraaaaaava muito mais de mês.

Papai, mamãe e o retratista chegaram a minha casa para eu escolher os melhores retratos. Sentados à mesa ele mostrava os retratos um a um. E o inesperado fez uma surpresa. Em todas as fotos tinha uma pessoa que nenhum de nós conhecia. Estava com vestimentas de rei, usava até coroa. Era moreno, estatura média, bigodes pretos e grandes, ricas roupas e joias, aparentava ter uns quarenta anos e um ar de felicidade.

O que vó? Vocês convidaram algum rei? O menino perguntava assustado.

_ Não, nem conhecíamos nenhum rei. Não havia os recursos que tem hoje para fazer alterações nos retratos, quando muito uma pequena raspagem num mínimo detalhe, mas ficava o sinal. Portanto o rei fantasma foi ao meu casamento sem ser convidado.

- Vó, e como ficaram suas fotos de casamento? Onde estão? Posso vê-las?

Ela continua o relato: - Meu pai queria bater no retratista. O rapaz ficou muito nervoso e repetia: - não tenho explicação, isso nunca aconteceu comigo, tenho dez anos de profissão, eu sustento minha família com meu trabalho. Foi um deus nos acuda!

E a vó continuava: - Meu pai gritava: - você foi muito recomendado e cobra muito bem, bem demais!

Todos sabem que retrato de casamento não dá para fazer meses depois. O rapaz completamente desconcertado disse que veria o que poderia fazer e falou em até devolver o dinheiro a meu pai. Ficou impossível acalmar os ânimos. Era um tal de: não acredito! Como é possível? Cruz credo! Valha-me Deus!

Minha bisavó, que tinha mais idade que tenho hoje, ouviu aquela confusão toda em silêncio. Depois chamou meu pai e segredou: - Isso é coisa de fantasma, eles gostam de sair em retratos para serem lembrados. Já ouvi muitas histórias iguais a essa, os fantasmas adoram ser fotografados em festas, principalmente em festas cheias de pompa e em família, como as de casamento.

O rei aparecia em todos os retratos. No retrato do bolo ele estava com a mão encima do casalzinho de noivos. No retrato em que estavam meus pais, o fantasma aparecia dando um beijo no rosto da minha mãe. No altar o rei estava em todas as fotos. Entrou na igreja à frente dos noivos como se fosse um pajem. Ele só não apareceu em um retrato.

- Qual vó? Perguntava o menino ansioso pela resposta. Na foto... ela teve que para de falar porque ria muito.

- Fala vó...

- No retrato em que eu tropecei no vestido na subida da escada da igreja.

O menino assustado perguntou: - E vocês não ficaram com medo?

- Medo de um fantasma vaidoso que gostava de tirar retratos? Claro que não!

E ele só apareceu nos retratos, na festa ninguém viu o rei.

Onde estão os retratos, vó? Vou colocar nas redes sociais e contar sua história.

E ela continua: - Meu pai mandou queimar todos os retratos, porque disseram que o fantasma do rei poderia atrapalhar meu casamento. Depois meu pai chamou um artista plástico da região para fazer um quadro de noivos com meu rosto e do seu avô.

O fantasma do rei ainda aparece para mim até hoje, comentou ela.

- Hãm! Você me chama, vou arrumar uma máquina antiga e vou fotografá-lo, comentou o menino.

- Ele vem só em sonho.

Rozelene Furtado de Lima

 

 

Dr. Salomão Alves de Moura Brasil

Brasil

Por: http://www.caestamosnos.org/autores/autores_r/Rose_Mary.htm

 

HINO A NOSSA SENHORA DE FÁTIMA - Nossa Homenagem ao Autor da Letra e Música Dr. Salomão Alves de Moura Brasil, Aracoiabense que partiu para Deus aos 18 de maio de 2009. Composto por ocasião da 2ª Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima vindo de Portugal ao Brasil e ao Ceará, durante os dias 14, 15 e 16 de dezembro de 1953.

À visita da Virgem celeste

O Ceará se ergueu varonil,

Fortaleza em peso se veste

Dessa Fé que redime o Brasil.

Ó! Povo cristão, piedoso e forte,

Ergue aos céus o teu brado de pé!

Seja o trono das plagas do Norte

Pedestal sempiterno de Fé! (bis)

Salve! Ó Virgem da agreste azinheira,

Que, a pastores de humilde feição,

Vens a ser celestial mensageira,

Porta-voz a teu povo cristão.

E, em visitas a muitas paragens,

Desde os lusos às terras de além,

Expuseste as sagradas mensagens

Que dos céus para o mundo provêm.

E o Ceará, nosso solo sagrado,

Redentor, porque Terra da Luz,

De hospedar teve a honra, o primado,

Duas vezes a Mãe de Jesus.

Ouve agora, Senhora da Iría

Do Ceará a fervente oração:

Guarda-o sempre, ó Virgem Maria

“No sacrário de teu coração!”

 

 

Sarita Barros

Bagê RS Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_s/saritadebarros.htm

 

TRIGAL III

 

Lembro ainda

Do tempo aquele

Em que a vida me chorava

E eu sorria margaridas

Sem cuidar da sorte

Ou do caminho a fazer...

Senhora das circunstâncias

Cruzando arco-íris

Bordejando horizontes

Nos verdes trigais de mim!

 

***

 

BICHOS SEM RABO — AURORA E CREPÚSCULO

 

Deus quando resolveu criar o ser humano começou pelos animais. Precisava praticar. Aos poucos foi aprimorando. Ao achar-se em condições de lançar um produto de qualidade, chamou o Diabo para trocarem opinião. O Capeta é o Gerente de Qualidade do Senhor, segundo o escritor Rubens Alves. Está sempre testando, tentando ver até onde o sujeito agüenta. O homem já estava na forma, a mulher ainda faltava moldar, o Demo olhou, virou, mexeu e disse: Senhor por que o rabo? Deus disse que havia sido aprovado, era um apêndice muito útil, todos os animais estavam satisfeitos. O Diabo ponderou que o homem seria diferente, levaria o Selo do Criador, teria recursos sofisticados, deveria diferençar-se dos outros bichos. Posicionou-se contra o rabo. Deus coçou o cavanhaque, aquiesceu e cortou o rabo. Os humanos, assim cozidos, receberam o Espírito e foram ordenados Donos da Terra (não é que até Deus tem hora boba?). Ficaram satisfeitos com o poder e um com o outro. Mas ao olharam os bichos sentiram pontinha de inveja. Esses exibiam rabos que variavam em beleza, tamanho, grossura, porém todos de suma utilidade. O rabo dava dignidade aos animais. Os humanos sentiram-se desfavorecidos. Reclamaram, fizeram abaixo-assinado, comitê de greve, passeata e em sinal de protesto comeram a maçã. Deu no que deu... Quem hoje entende esta racinha danada chamada "humanidade"? Creio, se Deus tivesse adivinhado o trabalho que estes "bichos sem rabo" dariam, não teria ouvido ao Diabo e ostentaríamos aquela enorme cauda frisada e felpuda do plano original.

Afirmo que a maioria das trapalhadas humanas se deve à inveja sentida do apêndice caudal. Desde criança o ser humano vai incorporando a necessidade de rabo. Bate no colega e ameaça tornar a bater, se o outro abrir o bico. Um fulano vê a cena e no recreio pede-lhe dinheiro, senão conta pra “tia”. O que ficou com o rabo preso, procura uma falta em alguém para se vingar. Quem prende rabos ganha poder e vantagens. Tem mordomias. Arranja quem lhe faça os temas, quem lhe compre merenda e cobra “favores” aos demais. Ao crescer, plenamente inserido no contexto, não consegue sair da roda viva. Cada um carrega seu rabo-virtual, cujo tamanho depende da falta de escrúpulos e calhordice. O interessante é que o prestígio aumenta com o tamanho do rabo. Daí surgiu o jogo do poder: o humano tem de criar um rabo, o maior possível, não deixá-lo em mãos estranhas e ainda segurar o maior número de rabos alheios. Quem possuí-lo mais grosso, felpudo, comprido e tiver mais rabos presos é o vitorioso. Para tal vitória vale tudo: desde atirar pedra em santo a roubar a previdência, queimar arquivos (reais ou figurados), mentir, fraudar, trair. Quanto mais sórdido, vil e sem escrúpulos for, mais se distingue, mais poder adquire. Os “sem-rabo-virtual” são considerados otários, manés sem visão e não dignos de confiança.

Valores morais e ética são impeditivos ao florescimento da Sociedade Rabuda, então esses princípios foram banidos do Código Comportamental. Deus acordou do longo dia da Criação e se deu conta que o Coisarruim é rabudo. Fez questão de “desrabar” o homem. É tarde. O Céu, quase vazio e o Inferno abarrotado. O Senhor matuta nova forma de ação a fim de pôr a humanidade na linha (desamar a cauda imaterial), ou destruí-la. Lançar chamas raios e trovões? O homem é expert em foguetes, bombas e mísseis. Pensou em poluir as águas. Já estão conspurcadas. Macular o ar? O humano já o fez e foi além: esburacou o céu e é atacado por raios ultravioletas. Imaginou destruir as matas, a cobiça humana já conseguiu. Pensou em inventar doenças, mas o homem já o fez e foi além, criou a guerra química e a biológica. O Senhor não sabe mais o que fazer. O homem sabe. Está fazendo.

Sarita Barros

 

 

Sonia Nogueira

Fortaleza CE Brasil

http://www.caestamosnos.org/Autores/Sonia_Nogueira/

 

Ei moço volte aqui

 

A rede balançava para lá e para cá. Dias e dias. Chegava a dar tontura a quem estava próximo. Faz anos que as pernas perderam o equilíbrio do passo. O vento que entrava na sala ampla e um leque nas horas de fogacho eram suficientes para acalmar o corpo inchado, coberto de gordura. Muita gordura. O diâmetro da manga equivalia à cintura da sobrinha. Usava roupas caras, joias ornavam o colo, braços e mãos, a maquiagem era permanente. Ela passava o dia todo pronta, parecia que ia a uma festa. . Era o que lhe restava da vida tediosa.

Ao vê-la, após trinta anos, o rapaz encolheu a testa, engrandeceu os lábios, o coração diminuiu no cantinho do passado.

Será ela? Não, impossível! Cochichou consigo. Era linda, a menina, uma boneca modelada à mão, sem defeito, 15 anos, emoldurada pelo escultor da vida. Olhou a figura de um fôlego, baixou a vista. O olhar fotografou o pé mimoso, pequeno, limpo e branco. Lembrou-se do romance “A Pata da Gazela, de José de Alencar, que instigava uma enorme paixão por um pé, através da bota caída da carruagem”. Subiu nas pernas torneadas, imaginou a coxa roliça, aprumada, sedosa. Deparou-se com os seios pequenos, porém proporcionais à estatura. O colo aplainado moldava o pescoço, base do belo rosto: face aveludada, lembrando pétalas, combinava com a boca pequena, marcada pelo batom. Cachos dourados caíam pelos ombros, que junto ao sorriso virginal, acelerou o coração do estudante pobre e sonhador. Esta será minha, pensou.

Era o mês de dezembro, festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do pequeno povoado. Saiu do momento letárgico, pisou o pé de alguém aqui, outro acolá, esgueirou-se entre os participantes do pequeno-grande-evento. Sim, era um evento para os moradores. Festa anual que recebia pessoas dos povoados vizinhos, agricultores, cantadores e poucos jovens que estudavam, na cidade. O moço veio com um amigo do colégio. A festa tinha duração de nove dias de novena, terminava com a procissão. Nas quermesses, a disputa das rainhas. A de cor rosa e a verde. As prendas do leilão, doadas pelos moradores, arrecadadas de porta em porta: melancia, feijão verde, banana, laranja, maxixe, frango, grade de cerveja, bonecas de pano, pernil de porco assado, farofa com piaba assada, jerimum, manga, penca de banana, uma bailarina, esta, o moço arrematou, ofertaria a sua amada ainda oculta. A voz na radiadora anunciou:

“Atenção ao resultado da ganhadora das quermesses”. A rainha é a bela Sandrina.

Rapazes elevaram-na nos braços e saíram entre aplausos, risos e gritos carinhosos. O moço alargou o sorriso. Deus meu, a minha amada! A cadeira enfeitada, com cortinas escarlates e flores do mesmo tom recebeu a rainha. Uma verdadeira rainha! Falou o olhar do moço.

Sobe ao palco um jovem de cor parda com trinta anos mais ou menos, e anunciou o casamento com a sua escolhida. O moço arriou todas as armas. Não poderia competir, mesmo tendo a beleza de um Apolo, com o moço mais rico da região, irmão do seu amigo e tendo, no pasto, para lá de sete mil cabeças de gado. A bailarina caiu da mão sem força, foi pisoteada pelos passantes.

Após vinte e três anos, volta ao povoado, do seu amor impossível, que não feneceu. Era o mês de maio. Um altar enfeitado com anjos naturais, de crianças irrequietas, anunciava a coroação de Nossa Senhora da Conceição. Era o desejo e pedido da dona da casa. Não podia se deslocar. O moço olha em toda direção à procura de uma mulher de quarenta anos que, com certeza, guardava toda beleza da juventude, apenas amadurecida. Aproximou-se da mulher na rede, a ponto de estourar de tanta gordura.

Onde posso encontrar a senhora Sandrina?

Sou eu, senhor, em corpo e alma, às suas ordens.

Foste a mulher que mais amei durante toda minha existência. Que desperdício de beleza, pensou. Saiu.

Que homem bonito! Tivesse eu meus quinze anos montaria na garupa do seu cavalo, sem pensar.

Ei moço, volte aqui...

 

***

 

*O Canto do Sabiá

Todos os dias um sabiá se posta na antena, no telhado da minha casa e canta. Às vezes ele canta só, um canto triste, com se chamasse sua parceira para acompanhá-lo no trinar da alvorada. Vai acordando as pessoas para apreciar as belezas da vida, a natureza respirando a ar, mesmo poluído, agradecer por mais uma noite, que se finge de quieta, e um dia disfarçado de felicidade. Outras vezes seu cantar é vibrante sua parceira responde da outra antena com uma voz de paixão, com certeza pela companhia do aconchego do ninho sobre a testemunha do luar.

É como se eles estivessem me chamando. Acorda poetisa o dia já rompeu as trevas, respira fundo, se espreguiça longamente para soltar as articulações. Olha a claridade com outro olhar, não o de ontem, mas o de hoje, com toda a intensidade, pois ele passa rápido e amanhã já é outro dia e nunca sabemos dos seus segredos. Faz um poema para mim, para que o dia siga encoberto de paz e os sonhos permaneçam de pé, a esperança não acabe ao dobrar a esquina.

 

Bom dia sabiá amado

Teu canto me acordou

És meu ídolo esperado

Com teu canto de amor

Pudera eu ser alado

Voar neste espaço céu

Gritar ao mundo um fado

De amor real sem o véu

Que cobre a face triste

Do que sem teto vive

No respingo o despiste

Como tu que voa livre

Seu canto é música mil

Ao lado o outro cantar

Esta dupla faz do Brasil

Terra de música o sambar

 

 

Thaiz Smile

Brasil

 

Amei-te

 

Mesmo sem senti-lo em meus braços

Sem olhar nos teus olhos castanhos

E sentir o calor do seu afeto.

Amei-te

Imaginando como seria...

Teu sorriso

Teu choro

E teu semblante sapeca.

Amei-te

Com o coração em chamas de alegria

Com o carinho singelo

E com a coragem que transborda em meu ser.

Amei-te

E amo

Com a força eterna da minha alma

E com toda a ignorância do meu ser em progresso...

Thaiz Smile

 

 

Vera Salbego

Brasil

 

FATOS MARCANTES DA VIDA ENQUANTO PROFESSOR

 

No ano de 1997, em uma escola de Guaíba, ocorreu um fato, que muito me emocionou. Um senhor dos seus 52 anos fazia o ensino médio noturno, só que em sua turma o aluno mais velho era ele e a gurizada “zoava”, faziam bagunça e colocavam apelidos no pobre homem.

Este senhor aborrecido com esta diferença de idade e das brincadeiras feitas pelos colegas adolescentes, parou de freqüentar a escola. Ao retornar naquela turma, percebi a ausência daquele aluno que mesmo com suas restrições pedia gentilmente explicações da matéria com muito interesse e vontade de aprender, mesmo sem estudar a vinte e cinco anos. Visto que este aluno retornou à escola, para concluir os estudos, já que era uma exigência da empresa na qual trabalhava.

Perguntei a turma e os alunos informaram, que o Sr. Rodrigo tinha parado de estudar, devido a conflito de gerações. Depois que fiquei ciente, conversei com os alunos sobre o comportamento da turma e os fiz perceber que aos 52 anos de idade ele teria muita dificuldade em conseguir outro emprego, já que no atual estava há 15 anos.

A turma apresentava um comportamento displicente e desvinculado das necessidades humanas. Foi o momento de pararmos e fazermos juntos uma grande reflexão sobre o respeito às diferenças. A partir daí, a turma resolveu ajudar caso o Sr. Rodrigo retorna-se para concluir seus estudos. Fui até a secretaria da escola e obtive o endereço do aluno e me dirigi para lá. Chegando em sua residência, o mesmo surpreendeu-se com minha visita. Assim, me fiz presente na vida de seu Rodrigo, conversamos durante horas sobre a importância dos estudos e de seu retorno à escola. Ele, concordou e agradeceu humildemente a minha visita e emocionado, sentiu que alguém se importava com ele. Naquele momento, percebi o quanto aquele gesto meu foi importante para aquele aluno, pois dei a segunda chance dele crescer como cidadão e pessoa humana.

Ao voltar a sua turma, os colegas modificaram suas atitudes e seu Rodrigo passou a ser um grande companheiro daqueles adolescentes, aconselhando-os em seus problemas cotidianos. Vejo, hoje, a importância daquela atitude que deixou em meu coração uma mensagem maior do dever cumprido.

No final do ensino médio, aquela turma me escolheu como paraninfa, motivo de orgulho e emoção, ao chegar acompanhando os mesmos na grande noite da FORMATURA. Os nomes foram sendo chamados e, de repente o aluno Rodrigo aproxima-se do palco para receber seu diploma e eu o entrego chorando de emoção. Parabéns, aluno Rodrigo. Você venceu esta etapa de sua vida.

VERA LUCIA MARTINS SALBEGO

 

 

Von Trina

Samora Correia (Portugal)

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_v/vontrina.htm

Sombras

 

Eis-me nú

simplesmente nú

com dignidade

de um homem NÚ

intemporalmente - humildemente

nobremente despojado

ainda que nú

Por me faltar coragem

por cultivar o desencontro

perseguindo miragens

por querer o "GRAAL"

sacrificando o mensurável

por ambicionar tudo

e não ter nada

Estou nú

mas nunca crú.

Sou louco

não maluco ou mouco.

Sou sempre solidário

e aconteça o que acontecer

não esqueço amigos - mesmo nú

 

 

Wilson de Jesus Costa

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_w/Wilson_de_Jesus_Costa.htm

 

A velha caixa...

 

Onde estavas ontem?

Não vi você. Nem me telefonastes!

Já faz algum tempo que não nos vemos

Sinto saudades. E você? Nada sentes!

Meus dias têm sido vazios

Ando pelos cantos e pelas ruas vadio

Queria estar contigo outra vez

Bater aqueles papos compridos

Papos aos quais não nos dizíamos nada

Mas entendíamos tudo...

Afinal, onde estavas ontem?

Passei horas esperando o tilintar do telefone

Mas nem pelo Facebook mandastes mensagem

Nada vi de você compartilhando nada

Sequer tinha recado teu no WhatsApp

E olha, ontem foi um dia tão bonito!

Sequer chovia, só havia sol durante o dia

Onde estavas ontem?

Passeastes com alguém que não conheço?

Ou ficastes como fiquei na tosca janela?

Enquanto lá estava vi pássaros de arribação

Levavam meus pensamentos

Só não levavam minhas tristezas, minhas saudades

Fiquei choroso com o voo das andorinhas

Será que elas sabiam onde estavas ontem?

Estou saindo da janela agora

Levo em meu caminho minha saudade

Guardo minhas lembranças

Na velha e desbotada caixa de sapato

E nela estão nossos amarelados retratos

Agora, por favor digas:

Onde estavas ontem?

 

***

 

WILSON DE OLIVEIRA JASA

VERSOS DE AMOR

 

Faço meus Versos de Amor,

à toda hora e a todo instante;

e vivo assim o esplendor,

do amor em mim tão constante.

São meus Versos inspirados,

na sublime Natureza;

e em bons momentos lembrados,

no meu viver com certeza.

O Amor está sempre vivo,

em meu ser pelo caminho;

e a cada dia revivo,

com o néctar do carinho.

Portanto faço meus Versos,

com profundas emoções;

nos estilos mais diversos,

pra agasalhar corações.

Versos de Amor bem vividos,

de Paz, de Amor, de Paixão;

jamais serão esquecidos,

pois guardo-os no coração

 

 

ZzCouto®

Brasil

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_m/Maria_Jose_S_R_Couto-ZzCouto.htm

 

FÍMBRIAS DE MINHA ALMA!

 

Sopro divino ser alado,

são meus olhos que enganam,

seráfico ser de amor amado,

ou são teus poderes que emanam?

Contemplo o fulgor de tua aura

doce canto das almas,

de celestial prado e brandura

onde a pureza e o lírio acalma;

Canção dos justos e sábios,

violinos de infinita harmonia,

cruzando cosmos de nebuloso lábio

por entre vagas de astros em agonia...

Dos confins do além, tua voz ressurge,

como setas radiantes na treva,

à ínfima fímbria de minha alma urge.

amarga erva desta terra leva.

Do limiar do portal celestial,

partem tuas asas de luz,

como fogo vens a mim imortal

teu nome ao eterno, então reluz...

 

***

 

OS DOIS CISNES!

ZzCouto®

 

Como ave que voa em pensamento

flutua no mar transparente e profundo,

cisnes alçando voo em atento momento

nadando em águas límpidas, lindo mundo.

Sobre o mar, perfeito casal de cisnes

que mergulham em sua imensidão,

ser felizes ao se lançar sem tisnes

em lagos de tamanha amplidão...

Os cisnes não se separam, beijam-se

como companheira real, ávida felicidade

abrem as asas e voam em liberdade.

E como cisnes que nadam e voam,

me identifico no pousar indefinido,

Sem idealizar o amanhã, eu existo...

 

 

 

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